A Casa da Estrada Desconhecida – parte 3 (final)

Consegui dormir realmente às 4 da manhã. Acabei perdendo o café que é oferecido pela pousada. Fui ao centro comer algo antes de ir procurar a casa de Carlos e Juliana. Entrei em uma padaria na qual ofereciam café da manhã até às 10hs, o que me restava ainda quinze minutos para comer algo.

Me servi e sentei, colocando meu celular na mesa, para manter-me de olho no horário. De canto de olho, para minha surpresa, vi que haviam esquecido um livro na mesa ao lado. Curioso, peguei o livro e reconheci que era aquele best seller que conta a história de uma menina sem graça que tem uma relação amorosa com um vampiro. Coisa de adolescente, mas muito pertinente em relação a minha motivação de estar naquela cidade.

Nesse livro há uma boa representação de nossa idéia sobre o que é o amor. Se esse é eterno ou não. Ou, até mesmo, se pode vir a ser eterno. É perceptível que temos uma ansia por eternalisar aquilo que nos dá algum tipo de prazer, bem estar, ou algo do gênero. Uma vontade de ter o poder de repetir sempre que quisermos, as sensações agradáveis que temos em alguns momentos de nossas vidas. Porém, seria isso realmente o amor?

Lembro-me de uma cena de um dos filmes baseados nessa série de livros – o qual fui assistir com minha sobrinha e suas amigas, a pedido do pai dela – em que a personagem principal fica melancólica ao ser deixada pelo vampiro, mostrando a dependência emocional que ela gerou em relação ao seu suposto amor. Minha sobrinha e suas amigas entraram em êxtase ao ver tal cena, comentando: “é isso mesmo que acontece”.

Elas tem razão. Finais de relacionamentos, geram uma grande tristeza quando a emoção que sentimos é aquela que costumamos chamar de amor. Mas nem por isso, e nem por sentirmos nossa dependência rasgar nosso coração, é que esse sentimento torna-se realmente “amor”.

Deixei o livro novamente aonde tinha encontrado e continuei tomando meu café. Ao término, peguei o carro e parti para a estrada para do Pico do Itapeva. Dirigi tenso, tentando relaxar e me convencer de que nada demais estava acontecendo. Assim que entrei por ela, comecei a observar atentamente a kilometragem, como um matemático, acreditando que a medida feita pelo mapa seria exata, mas não foi. Quanto, mais adentrava a estrada, mais tenso ficava. Aquela contagem dos kilometros percorridos, não ajudavam em nada, muito menos toda aquela neblina que se formava no local, afinal, estava me dirigindo para um dos locais mais altos do Brasil.

Depois de percorrida a kilometragem, não havia ainda a entrada para algum estrada. Diminui a velocidade e procurei atentamente, esforçando-me para que minha visão atravessasse a neblina, que estava densa. Após andar mais trezentos metros, vi algo que assemelhava a uma grande trilha através das árvore. Meu carro passava tranquilamente, mas não sabia dizer até quando.

Adentrei a “estrada desconhecida” e, mesmo ao meio dia, o céu pareceu escurecer. Aumentei o farol – o qual já havia ligado por causa da neblina –, Abri a janela e, com a cabeça para fora, olhei para cima, as árvores pareciam mover-se por vontade própria, tapando com seus galhos as passagens dos raios do sol. Elas se envergavam em direção umas as outras, balançando suas folhas em uma dança mórbida e sinistra.

Aquilo me assutou muito, mas, novamente, optei por permanecer racional e continuei meu caminho, até encontrar o fim da trilha. Peguei uma lanterna e desliguei o carro. Sai para ver se encontrava algo. Para minha surpresa, havia uma outra trilha pela qual passei despercebido, mas essa, só era possível atravessar caminhando.

Respirei fundo, tomei coragem e fui cautelozamente. Os únicos sons que escutava era o de corujas, sapos e de meus passos quebrando os galhos e folhas secas no chão. Senti um arrepio ao ver uma espécie de clareira, um pouco mais iluminada, porém ainda notívaga, onde se encontravam uma cerca, um pequeno brejo e, bem ao fundo, uma casa, velha e aparentemente abandonada. Bem diferente da mansão com quadra de tênis e piscina aquecida que eu havia imaginado.

O portão da cerca estava quebrado e as madeiras estavam podres. Quis ir embora dizendo a mim mesmo que não havia ninguém ali. Que tudo não passou de uma grande confusão e eu quase havia entrado nas alucinações de uma mãe solitária e louca. Mas algo me atraía para o local e mesmo com muito medo, continuei caminhando em direção à casa.

Observei o brejo e o número de sapos que lá se encontravam era grande, talvez pela quantidade de mosquitos e moscas que sobrevoavam o local. Com um certo nojo, me aproximei da porta, sentindo o cheiro repulsivo de carniça que infestava o ambiente. Toquei com cautela a maçaneta e tirei um sapo do meu caminho com o pé. Abri a porta e, previsivelmente, a maldita rangeu como o miado de um gato que leva um pisão em seu rabo.

Dentro da residência não havia luz e era possível escutar uma espécie de sussurro. Minha lanterna parecia fraca demais para iluminar aquele interior, mas era possível ver alguns móveis sujos e manchados por alguma “tinta” escura. Tentei observar detalhes, mas não consegui, meus olhos não se acostumavam suficientemente àquele tipo de iluminação. Mesmo assim, fui capaz de ver o vulto de um homem, magro e corcunda, sair por uma das portas que, aparentemente, levava a algum cômodo.

Não havia razão nenhuma para eu associar aquela pessoa ao Carlos, mas instintivamente perguntei se era ele. “Quem é você?”, foi a resposta com uma voz fraca e arrastada. Me apresentei, torcendo para ele não se aproximar de mim. “Ah!”, ele exclamou, dando a entender que me reconhecia. Com ele no mesmo comodo, os sussurros pareciam mais altos, porém, ainda sim, ininteligíveis. “O que veio fazer aqui?”, ele me perguntou, sem muita emoção em sua voz. Respondi que estava lá para ver como ele e Juliana estavam, pois senti saudades de nosso grupo de amigos. Nesse instante, parecia que tinha entendido o que o sussurro dizia. Parecia um “eu te amo”.

Aquilo me arrepiou e senti vontade de fugir, enquanto Carlos me respondia apatico: “Juliana morreu”. Vi um movimento do seu rosto e acompanhei com a lanterna, deparando-me com aquela cena horrenda: havia uma pilha de ossos no chão, alguns ainda com carne em putrefação e larvas de moscas se contorcendo no local. Não era apenas de Juliana, pois eram muitos ossos. Voltei rapidamente a luz em direção ao Carlos, pois temi que ele estivesse se aproximando.

Realmente, ele havia dado alguns passos em minha direção e passei vê-lo um pouco melhor. Sua aparência era como a de um velho, fraco e doente, pálido, com olheiras imensas iguais de sua mãe no hospital. Seus cabelos estavam compridos, mas bem ralos e sua barba, cheia de falhas visíveis. Conseguia reconhecer o velho Carlos pelo formato de seu rosto, mas não muito mais que isso.

A corcunda era algo novo, pois ele nunca teve, contudo, havia algo estranho naquilo. Aquela grande protuberância parecia se mexer por vontade própria. Perguntei o que aconteceu com ele, como Juliana morreu. Ele percebeu que eu estava nervoso e mostrou os dentes podres, me confundindo, pois tive a impressão de que ele queria me amedrontar ainda mais, mas ao mesmo tempo, parecia que estava esboçando um sorriso. Novamente eu escutei o sussurro dizendo: “Eu te amo” e senti meu coração subir para minha garganta. “Juliana já morreu faz tempo. É difícil o perder alguém que se ama, não é?”, não houve alteração na voz apática de Carlos, “Mas o amor nunca morre”, concluiu, andando lentamente em minha direção, tornando ainda mais claro o “eu te amo”, proferido por aqueles sussurros.

Quanto mais próximo ele chegava, mais eu percebia os detelhes. Seus olhos fundos, ainda guardavam os traços da imagem que eu tinha de Carlos em minha memória. Percebi também, que a corcunda, na verdade, parecia um grande tumor, com variações de tamanho em toda sua extensão. “Agora eu tenho certeza disso”, senti um prazer sórdido em sua voz, enquanto o sussurro prosseguia dizendo “eu te amo”. Foi quando eu percebi de onde vinha o sussurro e uma indiscritível sensação de repulsa e horror tomaram conta de minha mente.

Senti minhas forças diminuirem, como se fosse desmaiar. Queria muito correr, mas não conseguia me mover. “O amor é isso. Viver para sempre ao lado de quem se ama. Ser UM com aquele que amamos”, foi suas últimas palavras até me deparar com aquilo que nunca imaginaria existir e que seria melhor se nunca tivesse visto. Me senti pequeno e quase paralisado, não só pelo terror que sentia, mas também por todo sofrimento com o qual me deparava.

Aquilo foi demais para mim. Mesmo fraco, corri o máximo que pude até chegar em meu carro. Consegui sair de lá, como você pode perceber por esse e-mail, mas não ileso. Não digo só fisicamente, pois desde que voltei continuo fraco, mas também mentalmente. A imagem de Carlos me assombra a todo instante. Em todos os lugares que fecho meus olhos, ele e seu tumor, surgem como assombrações, me tirando a paz e a alegria.

Talvez, teria conseguido lidar com Carlos, conversar com ele, mas no momento em que o tumor se moveu, mostrando uma espécie de rosto, com um orifício semelhante a uma boca cheia de pequenas presas, de onde escorria sangue, me encararando com olhos sinistramente familiares – me remetendo a Juliana – enquanto sussurrava no ouvido de Carlos: “Eu te amo”, não mais fui capaz de suportar. Essa frase, quando recitadas em filmes, novelas, ou mesmo na vida real, me dá um calafrio e me faz recordar daquela relação parasita.

O que vi lá, não era tão diferente do que vejo em nossa definição de amor. Talvez eles, Carlos e aquilo – Juliana, quem sabe? – só levaram essa idéia a um extremo. Mas quantos extremos não vemos desse conceito, que nos levam a crer que há algo distorcido em nossa concepção dessa emoção? Poderia realmente esse amor ser uma virtude, se é causa para tamanho sofrimento? Se gera uma dependência emocional tão grande que parece que não sejamos capazes viver sem o objeto desse amor? Que prisão!

Com certeza, isso que somos acostumados a chamar de “amor” está longe de ser virtuoso. Se o amor é realmente uma virtude, quero descobrí-lo, pois o desconheço. Talvez, o querer bem daqueles que gostamos, seja um ponto inicial para descobrirmos tal significado.

Entretanto, o que me dá medo, é nossa motivação no gostar. Gostamos de algo, normalmente, porque nos dá prazer, conforto, etc. Não seria essa motivação a causa para o “parasitismo”?

Não quero ser como Carlos, mas sei que, por enquanto, em menor escala, não sou diferente dele.

Atenciosamente,

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