Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 3)

As vielas dos orcs no Braeryn não é um dos lugares mais agradáveis para se estar ultimamente. Aparentemente um dos poucos focos da insurreição dos escravos se estabeleceu por lá. Algo sinistro parece estar ocorrendo, mas nada evidente. Pelo que Alak Sel’Xarann percebeu, as patrulhas drows evitam aquele lugar, não por medo, mas porque eles têm muito mais o que ganhar agindo dessa maneira, afinal, honestidade nunca foi o forte dos drows e quando surge alguma oportunidade para conseguirem ganhos, não há porque perder a oportunidade.

Desde que chegaram naquele local, o grupo da Xorlarrin está caminhando atento e cuidadosamente. Nenhum orc foi visto até o momento e pelo que o mercenário drow já percebeu e indicou através de sinais toscos – que nada se assemelham a linguagem de sinais de sua raça – ao seu companheiro ogro mago, eles estão sendo vigiados. Ambos caminham na frente, como que para chamar atenção, algo não muito difícil para um imenso ogro e um drow bem maior que a estatura normal da sua raça.

– Alak, estou ouvindo várias pegadas e ruidos subindo as barracas e não são orcs. – sussurra Brum sem desviar seu olhar do caminho que está a sua frente.

– Provavelmente alguns mercenários ou escravos dos orcs. Devem estar subindo nos telhados para nos cercarem com dardos e bestas. – sussurra em resposta o mercenário eremita, também sem fazer menção de que está preocupado com o que ocorre ao seu redor.

Ambos continuam caminhando sem saber o que está ocorrendo com o grupo atrás deles. “Eles continuam nos seguindo”, pensa Alak escutando o tilintar da armadura da clériga, “Espero apenas que não durmam no ponto”. O eremita mantém três adagas de arremesso preparadas em cada mão, enquanto Brum carrega suas clavas de pedra, preparado para entrar em combate a qualquer momento.

– O problema é que não sabemos nem para onde ir. – comenta o ogro sussurrando.

– Apenas temos que encontrar algum orc. – responde Alak também em sussurros quando um assovio corta o ar.

Uma pequena flecha de besta atinge o ombro de Brum, mas nem mesmo consegue penetrar sua pele grossa.

– Acho que os diabinhos resolveram mostrar suas caras. – diz Brum olhando para a direção de onde veio a flecha e encontrando um pequeno goblin preparando a besta novamente.

Alak vira rapidamente para o lado oposto de Brum, a fim de analisar a situação na qual eles se encontram. Seu grupo realmente está logo atrás. O mago está com uma adaga de arremesso preparada em sua mão direita, enquanto o guerreiro Xorlarrin está caminhando em posição defensiva ao seu lado, empunhando uma espada curta, já a clériga está posicionada na frente deles com sua maça e seu escudo médio, caminhando entre as duas divisões. Porém, nenhum deles pareceu ter percebido o ataque contra Brum. Após a rápida olhada em seu grupo o mercenário drow enxerga alguns outros goblins posicionados em telhados, preparando suas zarabatanas e bestas.

Sem perder tempo, o eremita arremessa suas adagas da mão esquerda em direção a dois goblins que estão no mesmo telhado, ao mesmo tempo em que escuta o mago Teken’Th’Tlar dar um aviso ao grupo de trás a respeito dos atiradores. Duas das adagas do mercenário atingem em cheio o pescoço de um dos goblins que cai do telhado aparentemente morto, enquanto a última adaga erra por pouco o segundo alvo.

– Brum! – grita o mercenário chamando a atenção do ogro quando vê que mais goblins estão surgindo em cima das barracas próximas.

O ogro vira seu rosto em direção de Alak que apenas faz o sinal de um círculo e finaliza com um “estouro” de dedos. Brum entendendo logo de imediato segura as compridas correntes de suas grandes clavas de pedra e prepara o corpo para impulsionar um giro.

– Todos abaixem!! – grita Alak pulando ao chão.

A clériga Xorlarrin olha para o mercenário com uma expressão de assombro e raiva, mas não perde tempo em mergulhar. Alak vê atrás da clériga o mago e o guerreiro fazendo o mesmo.

– Mercenário estúpido! – grita a clériga no dialeto drow em meio aos estouros das clavas de Brum atingindo as barracas, feitas de barro e pedra, e as demolindo.

Alak ri consigo mesmo e se vira para ver o estrago causado por seu companheiro ogro. Brum está terminando o segundo giro e parando. Ele balança a cabeça como se quisesse espantar a tontura e olha ao redor para tentar encontrar os goblins atiradores. No meio da fumaça de pó de argila, Alak vê alguns pequenos vultos se levantando e batendo e retirada.

– Boa, Brum. – comenta o eremita levantando-se já com uma de suas espadas em mãos.

– Não há como não ser. – responde Brum com um sorriso no rosto.

– Mercenário! Precisamos de um desses goblins para interrogatório! – grita o mago que está se levantando e limpando suas vestes.

– Faça isso! – grita a clériga em baixo-drow, concordando com o Teken’Th’Tlar.

Alak corre até um goblin perceptivelmente ferido que não conseguiu bater em retirada. O pega pelo cangote e leva até o grupo. O goblin treme desesperado na mão do drow, deixando um rastro de urina pelo caminho.

– Interrogue esse inferior imediatamente e descubra onde estão os orcs! – ordena a clériga em baixo-drow.

Alak a olha rapidamente com uma de suas sobrancelhas levantadas.

– Sim, Senhora. – Alak volta-se em direção ao pequeno goblin que continua tremendo convulsivamente de medo – Onde estão os orcs?

O goblin tenta falar, mas nada sai de sua garganta.

– Ela disse a palavra, não é? – interompe Brum.

– Agora não Brum. – corta Alak, voltando sua atenção novamente ao goblin seca e pausadamente – Responda… onde… estão… os… orcs?

A respiração do pequeno goblin acelera cada vez mais. Esse tenta responder novamente, mas as palavras não saem de sua boca de forma inteligível. Quando algum som semelhante a um “nã” está para sair da boca do goblin, a cabeça desse estoura espalhando pedaços e sangue aos pés dos mercenários que estavam próximos.

– Esse merdinha não ia ajudar em nada. Vamos embora. – diz a clériga Xorlarrin em baixo-drow, limpando sua maça suja com o sangue da criatura.

– Ela falou a palavra de novo, não foi? – pergunta Brum a Alak encarando a clériga.

– Não Brum. Pare com isso. – responde Alak ao seu companheiro.

A Xorlarrin encara o ogro de volta.

– Seu amigo está com algum problema? – a clériga pergunta para Alak ainda em baixo-drow.

– Não Senhora. – responde o eremita na mesma linguagem, logo voltando-se para o ogro em subterrâneo comum – Brum vamos andando.

Brum dá um passo a frente em direção a clériga que se afasta, mas logo se vira de costas e começa a procurar por orcs rindo da reação assustada da clériga.

– Quer que eu ensine alguma lição a ele, Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Não. Ele vai ser útil mais para frente. – responde secamente a clériga.

Alak apenas escuta a breve conversa dos dois e caminha para junto de seu companheiro quando ouve o guerreiro Xorlarrin mais à frente chamando a atenção do grupo.

“Encontrei alguns rastros”, diz ao grupo na linguagem de sinal drow, próximo a algumas barracas não atingidas pelas clavas de Brum.

Alak conhece pouco a linguagem de sinal, mas prefere fingir não conhecê-la e faz de desentendido. Quando a clériga e o mago ultrapassam ele e seu parceiro indo ao encontro do Xorlarrin, eles resolvem seguí-los. O guerreiro está observando algumas marcas no chão, que o eremita reconhece claramente como pegadas de orcs que adentraram aquela barraca.

– Ótimo, já sabemos por onde começar. – diz a clériga em baixo-drow com um sorriso no rosto – Mercenário, abra a porta.

Alak olha para a clériga, inclina levemente a cabeça e responde também em baixo drow:

– Sim, Senhora.

Armadilhas nunca foram o forte do eremita, muito menos em um contexto urbano. Mesmo assim ele prefere gastar um tempo observando a porta em busca de alguma possível ameaça. “Isso não está me cheirando bem”, comenta consigo quando a alguns metros um cântico profano é escutado. Alak para de analisar a porta e se vira para a direção da voz feminina que entoa aquelas silabas distorcidas.

Percebendo que todos do grupo foram pegos de surpresa, o eremita prepara suas duas espadas e tenta focar sua visão em uma figura larga e tremeluzente à pelo menos quinze metros de distância. Analisando o efeuito tremeluzente, Alak percebe que aquilo é causado por uma espécie de aura de calor e que aquele ser nada mais é que uma humana gorda e nua. Ao seu lado ele escuta o mago Teken’Th’Tlar recitando algumas palavras arcanas e vê o guerreiro Xorlarrin correndo em direção a humana.

– Brum, abra a porta enquanto eu os ajudo a enfrentar essa mulher. – diz Alak correndo também em direção da humana.

– Você demorou tudo isso só para abrir uma porta? – Brum ri e dá um forte murro, abrindo a passagem para dentro da barraca.

Alak ignora as risadas do seu companheiro e vê com uma certa distância, do seu lado esquerdo, uma esfera flamejante rolando pelo chão, deixando uma trilha de chamas, indo em direção da mulher que prossegue com seus cânticos. “Parece que o mago está mostrando porquê veio”, comenta mentalmente enquanto prepara para saltar em direção da mulher e arremessar uma de suas espadas.

Quando o momento se aproxima a bola ultrapassa o eremita e o guerreiro Xorlarrin e atinge seu alvo. Uma pequena explosão ocorre, tanto Alak quanto o Xorlarrin conseguem se esquivar de qualquer resíduo, mas assim que olham na direção da humana vêem que nada ocorreu a ela e que o cântico nem mesmo parou.

– Ela possui proteção mágica. – diz o Xorlarrin a Alak no dialeto drow – Atraia a atenção dela que a atacarei por trás.

– Fácil. – responde Alak pegando impulso para saltar e rolar pelo chão na frente da humana.

O salto sai perfeito. Com o próprio deslocamento de seu corpo, Alak rola pelo chão parando agachado em frente a sua adversária e arremessando uma de suas espadas, que acaba sendo desviada por algum vento quente que a circunda. Mesmo assim, a lâmina da espada passa de raspão pelo ombro da humana e abre um profundo corte, mas isso não é o suficiente para tirar-lhe a concentração. “Merda!”, pragueja mentalmente o eremita enquanto um círculo de fogo se levanta ao redor da clériga.

– Brum! Arremessa uma clava! – grita Alak vendo a adaga que parece ser do mago atingindo também de raspão a mulher gorda.

Atrás do círculo o eremita vê o guerreiro caminhando em uma posição estratégica que lhe permitiria atingi-la com um golpe fatal, porém sem conseguir se aproximar. A humana realmente não conseguiu perceber sua aproximação, mas o que ocorre ao seu redor não parece preocupá-la. Ela já havia iniciado outro cântico. Sua voz alcança uma potência preocupante e um brilho flamejante é disparado de sua mão ao mesmo tempo em que uma tora de pedra atinge em cheio a mulher que é arremessada para fora de seu próprio círculo.

Alak consegue se esquivar por pouco do raio flamejante disparado contra ele. Parte de sua armadura de couro batido é queimada no processo, mas sem perder tempo ele se desfaz dela e salta em direção à conjuradora, cravando sua espada em seu peito assim que pousa no chão. Ela ainda tenta segurar o pescoço do eremita, mas logo a espada curta do guerreiro Xorlarrin rasga-lhe a garganta.

O eremita percebe que ela, além de estar nua, é extremamente imunda, cheia de sebo, terra, excrementos. Sentindo nojo ele arranca a espada de seu peito e se afasta. O Xorlarrin também sente nojo e dá um passo para trás.

– Vou pegar minhas armas. – diz Alak como se já tivesse feito seu serviço e se afastando para recuperar sua outra espada e seus punhais arremessáveis.

Enquanto se afasta da humana o mago e a clériga se aproximam, e passam a observar o corpo.

– Ela é uma clériga. – comenta o mago.

– Sim, eu já sabia. – responde a Xolarrin secamente – Mas quem ela venera é que me intriga.

“Se sabia por que não avisou antes, sua puta”, comenta mentalmente Alak sentindo sua raiva ferver.

– Tem uma corrente passando pelo pescoço dela, Senhora. – comenta o mago.

Alak se vira em direção à conversa enquanto pega sua outra espada e vê o guerreiro Xorlarrin arrancando uma corrente com um pequeno pingente e entregando para sua senhora. O rosto da clériga se distorce em fúria, mas ela nada diz, apenas o guarda e faz alguns sinais quase imperceptíveis para seu guerreiro.

– O que seria isso, minha Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Silêncio, macho. Quando eu quiser falar com você assim o farei. – responde rudemente a clériga Xorlarrin partindo junto ao guerreiro para a cabana que Brum havia derrubado a porta.

“Guarde seus segredos enquanto pode clériga”, comenta consigo Alak vendo o rosto contrariado do mago Teken’Th’Tlar por ter acabado de perceber que sua subida na hierarquia de confiança da Xorlarrin havia sido ilusória. Alak apenas sorri e volta a procurar suas adagas.

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