Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 1)

            “Agüentem mais essa investida, por favor”, deseja mentalmente Lolth Do’Urden enquanto observa do acampamento drow a segunda investida deles à tribo grimlock em menos de dois dias. Os grimlocks novamente resistem com bravura utilizando suas habilidades em combate e suas magias naturais, o que surpreendeu muitos dos drows de Sshamath que lideram o cerco.

            Mesmo com o silêncio de Lolth, o cerco está intenso, pois Sshamath nunca foi dependente de suas clérigas como muitas outras cidades drows. Estudiosos arcanos sempre tiveram uma maior importância para eles, ainda mais nas atuais circunstâncias.

            Antes de se infiltrar entre a comitiva drow de Sshamath, Lolth os observou por pelo menos duas semanas para descobrir a estrutura de poder e de relacionamento entre eles. Descobriu os principais nomes do cerco, quem era amante ou aliado de quem, quais as richas pessoais de cada um dos principais integrantes do exército. Entre os drows de Sshamath, os magos e feiticeiros possuem uma importância bem mais relevante que as clérigas de Lolth, mesmo esses sendo fieis a deusa. Esse comportamento reflete no exército que está cercando a tribo grimlock.

            Como Lolth veio descobrir o líder oficial do cerco é um mago de nome Calimar Khalazza da Escola de Evocação. Em termos simbólicos, havia também a liderança de uma drow clériga de Lolth chamada Erelda Dhuunyl, gráviada aparentemente de Calimar ou do mercenário Nadal Zaphresz, há anos, os dois principais amantes da clériga. Sua barriga já está imensa, provavelmente logo logo o novo ou a nova drow nascerá. Entre esse triângulo amoroso há também Guldar Khalazza, um mago mais jovem, ofuscado pela sombra de seu irmão mais velho, e que também é apaixonado por Erelda, e Alystin Elpragh, uma ilusionista obsecivamente apaixonada por Calimar e que estava aos poucos colocando o irmão e o mercenário contra o líder mago do cerco, até Lolth a escolher. “Nada mais perfeito”, disse consigo mesmo Lolth quando descobriu todas essas pequenas intrigas a respeito dos principais personagens do acampamento drow.

            O exército possui um pequeno contigente de guerreiros, por isso Nadal foi contratado com sua tropa, formada de drows e raças inferiores escravizadas, para auxiliar os magos de Sshamath. Nadal é o líder da infantaria, enquanto Calimar é o estrategista e líder do cerco. Mesmo Erelda possuindo um valor simbólico na liderança, ainda é respeitada por grande parte do exército. O jovem Guldar não possui grandes importâncias políticas, mas estrategicamente para a pseudo-deusa ele é uma chave mestra. Enquanto a Alystin Elpragh…

            Todas essas informações Lolth conseguiu através de sua maestria em esconder-se e espionar, além de sua maestria em se infiltrar em locais como um membro nativo. Após as duas semanas de espionagens intensas, alguém precisava ser substituida: Alystin Elpragh. Não foi difícil para Lolth, principalmente com a posse da Quelícera, matar Alystin. Ela escondeu seu corpo e pegou todos os pertences e as vestes da ilusionista.

            Para a sorte de Lolth, essa possuía alguns itens mágicos que seriam úteis para simular as ilusões da recém falecida drow. Com alguns equipamentos e as condições certas Lolth conseguiria se passar por Alystin, desde que não permanecesse muito tempo na presença de seus companheiros. A Elpragh não era uma peça tão importante na missão do cerco, e isso ajudava muito para que os diálogos fossem curtos na maioria das vezes.

            Apenas após uma semana de infiltração, durante a espionagem, que a pseudo-deusa disfarçada resolveu enviar uma mensagem olfativa a qualquer grimlock da tribo que se recordasse dela. Tomando um banho em um lago próximo com os sais minerais certos, ela apenas aguardou que uma corrente de ar levasse seu cheiro. Do fundo de seu coração Lolth esperou que tivessem entendido que ela estava infiltrada no acampamento drow, e que estará auxiliando na sobrevivencia da tribo.

            Dentro desse tempo de infiltração, muito progresso foi feito. Lolth como Alystin iniciou o processo de sedução de Calimar e Nadal. Guldar já estava a meio caminho andado, já que a própria Alystin havia feito grande parte do serviço. Erelda passou a se sentir rejeitada depois de algum tempo e começou a questionar as intenções da ilusionista. Lolth apenas se esquivou da conversa e iniciou uma contra-argumentação, colocando os machos envolvidos como os sedutores da história. Erelda de início não acreditou muito na falsa Alystin, porém aos poucos percebeu como os machos estavam mais oferecidos em relação a ilusionista e aquilo tudo que essa havia dito passou a fazer sentido.

            A pseudo-deusa continua observando a batalha. Muito tempo já se passou desde o início da investida. O contentamento toma conta de seu peito, “Terei tempo para terminar meu serviço”, pensa sorrindo.

            Há muito pouco tempo que Lolth conseguiu a arma que precisava para atingir o vespeiro. Nadal estava viciado nas habilidade da falsa ilusionista em dar prazer, enquanto Guldar cada vez mais se apaixonava por Erelda graças algumas conversas com a ilusionista. Calimar caía de paixão por Alystin enquanto Erelda a via como uma puta fraca que era facilmente seduzida pelos seus ex-amantes traidores. “Tive sorte mais uma vez”, a Do’Urden complementa seu próprio pensamento ainda sorrindo. Ela sabe que se a trama já não estivesse, de certa forma, desenvolvida, uma semana nunca seria o suficiente para que tudo isso desse certo, mesmo com suas habilidades, carisma e beleza.

            Agora ela tem tempo. O exército drow está retornando ao acampamento com mais um fracasso. “Isso esquentará ainda mais as coisas”, comenta Lolth vendo mais uma oportunidade se formando com a derrota. O orgulho drow está ferido novamente, Calimar e Nadal estarão se atritando ainda mais com os nervos à flor da pele. Logo quando a primeira investida terminou, eles começaram a demonstrar que havia inveja e cíume mútuo. Além disso, cada um gosta de se aliviar da culpa e da vergonha do fracasso, jogando a responsabilidade por qualquer falha cometida nas mãos do outro.

            Logo todos estão reunidos novamente no acampamento. Nadal e seu exército conversam a respeito da batalha e tentam encontrar quais foram as falhas. Enquanto isso, Calimar conversa com seus magos para descobrir o que deu errado na estratégia utilizada. Em ambos os grupos os envolvidos dizem que faltou cooperação do outro contigente, enquanto os grimlocks pareciam um bloco impenetrável de pedra graças a sua “unidade militar”, se assim poderia ser chamado.

            Durante a conversa entre os contigentes e seus respectivos líderes, Lolth prefere conversar com Guldar Khalazza e já colocar parte de seu plano em ação.

            – Guldar, meu caro. Vi que trabalhou arduamente na batalha de hoje. – comenta como se nada quizesse a peseudo-deusa.

            – Mas foi inútil. Meu irmão e aquele imbecil do Nadal estão deixando suas rixas atrapalharem os planos de Sshamath. Iremos perder esse sítio de adamantina se os dois se digladiarem antes do serviço ter terminado. – comenta Guldar com raiva na voz enquanto Alystin toca seu ombro.

            – Há coisas piores acontecendo, Guldar. – comenta a falsa ilusionista deixando claro a tristeza em sua voz.

            – Como assim, Alystin? O que você sabe? – pergunta preocupado o jovem mago olhando nos olhos magentas de Lolth.

            Ela responde o olhar com uma feição de tristeza, sem medo de demonstrar fraqueza ao mago.

            – Pode me dizer, você sabe que somos confidentes. – diz o mago com o intuito de tranqüilizá-la.

            Durante essa última semana, Alystin tornou-se a conselheira de Guldar. Por ter sido por décadas apenas uma sombra de seu irmão, Guldar sempre sentiu o peso de ser considerado fraco. Para todos seus companheiros drows, ele tinha que manter ao máximo uma pose imponente a fim de não desonrar sua Casa nem sua Escola de magia. Porém esse esforço era exaustivo para o jovem Khalazza. Quando Alystin se tornou sua “amiga”, ele teve com quem se desabafar e isso cada vez mais o tornava dependente dela. Ter em quem confiar, isso é ótimo ao jovem mago, mesmo que pareça uma doce mentira dentro da sociedade drow.

            – Nadal pretende levar as honras da vitória e entregar o sítio à responsabilidade dos Dhuunyl. Sua Casa não ficará com as honras se o plano dele der certo. – diz ela exitante.

            – Mas ainda sim o sítio será de nossa grande cidade. – retruca ele tentando não acreditar naquilo.

            – Sim, teoricamente será. Na prática o sítio servirá aos propósitos dos Dhuunyl e do grupo de mercenários de Nadal. – responde Alystin dando uma pequena pausa para um suspiro antes de prosseguir – Acredito até mesmo que o grupo será o mais beneficiado, já que Nadal está cada vez mais, conseguindo tirar seu irmão do jogo de sedução entre ele e Erelda.

            – Como!? – pergunta cheio de ódio o jovem mago, deixando o ciúme controlá-lo.

            – Nadal está me usando, confessou isso a mim. Ele me seduziu para causar ciúmes a Erelda. Usou o que eu sinto por seu irmão para que eu o conquistasse e fizesse com que Erelda acreditasse que Calimar estava me seduzindo. – responde Alystin com a voz tremida enquanto uma lágrima escorre em seu rosto.

            Guldar apenas encara a ilusionista com uma mistúra de cíume e ódio no olhar.

            – Como você se deixou ser usada dessa forma? – pergunta o jovem mago deixando a raiva sair com sua voz.

            – Eu fui fraca. Fui fraca por não conseguir seu irmão de verdade. Quando Nadal me seduziu eu ainda não sabia o que fazer para ter seu irmão. – ela pausa para controlar o choro – Agora eu tenho seu irmão e falta pouco para Nadal ter Erelda de vez. Você tem que fazer algo.

            Guldar toca o ombro de Alystin.

            – Não se preocupe. Farei algo. – diz em tom amigável com receio de perder a confidente por ter sido tão rude – Mas não sei o que fazer no momento. Minha vontade é simplesmente matar Nadal.

            – Podemos fazer isso sem comprometer a campanha. – responde Alystin com um olhar traiçoeiro, característico da ilusionista original.

            – O que você sugere? – pergunta o mago intrigado.

            – Já tirei seu irmão de Erelda, agora a briga é entre você e Nadal. Se ele morrer durante a batalha, quando essa já estiver próxima a ser ganha, não haverá grandes problemas e você não será visto como traidor de Sshamath. – diz ela tentando esboçar um sorriso em seu rosto umido.

            Guldar olha fixo para sua confidente. Ele parece notar algo de estranho na face de Alystin, mas logo ignora qualquer suspeita, pois o que há de estranho é o próprio fato dela ter chorado; ele nunca havia testemunhado.

            – E como faremos isso? Nadal é um guerreiro ímpar. Não conseguiria enfrentá-lo. – pergunta o mago.

            Lolth sorri:

            – Eu o enfraquecerei o suficiente. Deixarei-o cansado para a próxima investida. Durante a batalha, você o atingirá com suas maiores magias, enquanto cubro seus atos através das minhas ilusões. – Guldar sorri ao escutar sua companheira – Faça da maneira correta e todos acharão que os grimlocks o mataram.

            Guldar sente seu ódio se tornando prazer por ver que sua vingança e seu desejo serão satisfeitos em breve. Por um momento Alystin parece mais bela do que o normal e mais inspiradora. O mago ri para si mesmo, ele sabe que isso é uma ilusão causada por sua ansiedade. Por um momento a ilusionista parecia uma deusa.

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