Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (Parte 6)

            O cheiro levemente salgado, como a água de alguns rios que passam nos túneis do Underdark toca profundamente o íntimo de Braços de Adamantina. Se o escultor não estivesse tão concentrado na drow que está ao seu lado, ele nunca iria perceber a quase imperceptível alteração na sua respiração.

            – Eu… não consigo, Braços. – diz sussurrando a drow que tem o nome que Braços adora repetir mentalmente: Araushnee.

            – Então não é para ser feito, Araushnee. – responde ele tocando o ombro da irmã que segura firmemente seu punhal em forma de aranha e delicadamente o bebê da falecida clériga Erelda.

            Mais uma lágrima escorre no rosto da drow, Braços sente o cheiro salgado se acumulando e escuta bem de leve uma das lágrimas cair e tocar na testa do bebê.

            – Não consigo vê-la, sem enchergar meu filho. – comenta a drow como se não houvesse ninguém mais com ela.

            Braços não sabe o que responder, apenas toca a mão que empunha o punhal cerimonial. Sua irmã sede, e deixa com que Braços tire a arma de sua mão e guarde para ela.

            – Esse tipo de fraqueza não deve ser tolerada… – começa a dizer a assassina quando é interrompida por seu grande companheiro.

            – Isso não é fraqueza, Araushnee. O Caos também cria, não apenas destrói. – ele escuta uma pequena alteração na respiração, que ele interpreta como um sorriso – Pense o Caos como um escultor, minha irmã. Para que ele crie sua obra de arte, ele deve quebrar e talhar as pedras. Algo está sendo destruído, para que algo se forme.

            Um breve silêncio toma conta do local. Todos os outros grimlocks que fazem parte da caravana de sobreviventes, estão dormindo ou de vigílhia. Braços e Lolth estão a uma certa distância de todos, eles precisavam colocar a conversa em dia, além de decidir o que seria feito com a criança.

            Desde o início, Lolth pensou que o correto seria sacrificar a pequena drow, mas não foi capaz de fazê-lo. Aquela criança crescerá sem mãe, como seu próprio filho. Abandonar mais uma criança para que seus inimigos a criem não era algo viável na lógica da pseudo-deusa.

            – Se quiser eu a crio. – diz Braços à Lolth.

            – Fico feliz por se dedicar tanto a mim como seu mestre o fez, mas não sei se deveria. – responde a drow com uma certa preocupação em sua voz.

            – O que lhe preocupa irmã? – pergunta o escultor um tanto apreensivo.

            – Eu voltei a pouco da superfície, Braços. Lá convivi com uma tribo humana nomade por um tempo. Foi um excelente aprendizado, mas eu ainda não estou pronta para me tornar… – ela mesmo se interrompe para tentar não chorar.

            – Não se preocupe deusa. Eu sei que você ainda é Lolth. Sei que ainda tem muito o que fazer como Lolth, mas lembro do que meu mestre me disse. – comenta Braços de Adamantina tentando confortar a drow que continua em silêncio.

            Ele prossegue:

            – Lembro das palavras: “Ela carrega o nome da cruel deusa dos drows, mas sei que sua escuridão é algo além de corrupção e crueldade. Ela carrega as aranhas em seu corpo, mas sei que mais que assassinas, essas pequenas criaturas são tecelãs e criam belas obras de arte. Seu nome verdadeiro não é Lolth, mas sim aquele que sussuravam em seu ouvido quando era apenas uma criança drow em Reviere: Araushnee”.

            Ele escuta a drow se levantando e delicadamente entregando a bebê drow no colo de Braços.

            – Sim, era o que Vishnara sussurrava em meus ouvidos. Mas para me tornar aquilo que devo ser, preciso antes conhecer minha natureza atual. – comenta com grande certeza a drow – Cuide dessa menina.

            Braços toma a criança em seu colo e responde:

            – Cuidarei minha irmã. Cuidarei da primeira filha de Araushnee.

            Lolth sorri e se silencia. Braços caminha com a criança até o acampamento provisório que fizeram para descansar, antes de retornar a perambulação pelas cavernas do Underdark. Ele sabe que durante boa parte do trajeto Lolth estará com eles, porém não sabe até quando e se voltará a conversar com ela antes de tomarem um rumo certo para os sobreviventes.

            Assim que Braços entra no acampamneto com o bebê, um dos guardas o questiona:

            – Escultor, para onde iremos agora?

            Braços para e pensa.

            – Para onde a corrente nos levar. – ele escuta o guarda soltando um grunhido de dúvida, mas logo percebe que a dúvida foi saciada pelo cheiro de água e minerais característicos de Araushnee – Depois, ainda não sei.

            – Entendo. – responde o guarda bárbaro compreendendo a sinceridade do escultor – Pelo menos nossa tribo sobreviveu.

            Braços apenas sorri e olha para a pequena drow recém-nascida em seu braço.

            – Não só ela. – comenta o escultor.

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