Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 2)

            Enquanto o guerreiro Xorlarrin termina de interrogar inutilmente o orc e a clériga, novamente, perde a paciência e esmaga mais uma cabeça com sua maça, Sol’al Teken’Th’Tlar utiliza um pequeno anel que fica em seu dedo mindinho. Em sua incursão para o lower dark, as camadas mais profundas do Underdark, ele recebeu o anel de Jabor, seu tutor oficial dentro de sua própria Casa. O anel possui apenas um pequeno poder, mas é algo que é extremamente importante para ele: comunicação direta com seu mestre.

            Como nas magias de comunicação a distância, o feitiço desse anel possui um limite de palavras que podem ser usadas e só pode ser ativado duas vezes durante o período de um dia na superfície. Em outras palavras, deve ser utilizado brevemente e de maneira extremamente consciente. Sol’al acredita que o momento para entrar em contato com os superiores de sua Casa chegou. Durante todo o interrogatório, o guerreiro Xorlarrin não fez nenhuma pergunta referente ao culto a Lolth pelos escravos. As perguntas eram voltadas a um único assunto: os orcs fugitivos.

            Sol’al se concentra e profere quase que silenciosamente as palavras mágicas que ativam o anel. Ele sente o poder mágico fluindo do objeto e prepara a frase mentalmente. No momento certo ele apenas envia seus pensamentos ao seu superior. “Os Xorlarrin não buscam o culto, apenas fugitivos. Lolthianos encontrados e ignorados”, o mago acredita que para o momento aquilo é tudo o que deve ser dito. Qualquer futuro problema ele poderia utilizar o feitiço que resta no anel por hoje, ou uma de suas magias para se comunicar, mas isso é um disperdício para o momento.

            – Mago, descobriu alguma coisa? – pergunta a clériga com sua habitual arrogancia.

            Sol’al retoma sua concentração no momento e reflete rapidamente o que dizer sem oferecer todo o conhecimento que adquiriu sobre a situação das armadilhas.

            – Descobri, minha Senhora. – responde indo em direção ao orc – Segundo as palavras de poder e pelo que percebi, as armadilhas afetam apenas inimigos do demônio e não seus servos ou aliados.

            A Xorlarrin o encara por um tempo pensando que esse prosseguiria, mas como isso não ocorre ela pergunta secamente:

            – O que você sugere?

            Sol’al dá um sorriso fingindo uma pequena timidez e responde:

            – Acredito que as runas não são ativadas por orcs necessariamente. Orcs e pelo que percebemos, humanos também. – mente Sol’al.

            – Não são ativadas por orcs e humanos? – repete incrédulo Alak em subterrâneo comum para que Brum entendesse a suposição do mago que conversa com a clériga em baixo-drow.

            – Besteria. – Brum ri e vira as costas para o grupo, levantando o orc prisioneiro, que se encontra amarrado, em seu ombro.

            Sol’al encara as costas do ogro com raiva, mas logo ela passa quando a clériga comenta.

            – É uma suposição interessante, mago. Vamos fazer o teste. – Alak olha para ela ainda mais incrédulo e Brum apenas ri enquanto a clériga ordena em baixo-drow – Mercenário, peça para o inferior arremessar o orc pela armadilha.

            – Senhora, não acho que dará certo. – comenta o eremita.

            – Cale a boca, o Mestre Teken’Th’Tlar é o mago de nossa expedição. – responde ela fazendo com que o sorriso no rosto do mago se alargasse ainda mais.

            – Sim, Senhora. – diz Alak voltando-se a Brum e fazendo o pedido sem sentido que a clériga ordenou.

            Sol’al observa Brum se aproximando da armadilha e jogando levemente o orc através dela. Escutando com o máximo de atenção, o mago consegue captar algumas palavras em abissal que o orc sussurou enquanto estava para ser arremessado e durante o arremesso. Nada ocorreu. A armadilha não disparou e o mago simplesmente bateu com um baque no chão.

            Brum utilizando a corrente de uma de suas clavas laçou o orc e o puxou de volta. Alak encara surpreso o mago que o ignora e se encaminha para a clériga sorrindo.

            – Parece que você estava certo mago. – comenta surpresa.

            – Descobri mais que isso, minha senhora. – diz Sol’al enigmaticamente.

            – Como? – pergunta a Xorlarrin curiosa.

            – Mercenário, tire o colar que o orc mago está usando. – ordena ele a Brum, que olha para Alak com dúvidas se aquilo era ordens da clériga ou do próprio mago.

            – Peça para ele obedecer, mercenário. – diz a clériga à Alak que apenas faz um gesto positivo para saciar a dúvida de Brum.

            Brum, com toda sua delicadeza, retira o amuleto do pescoço do mago orc e o joga para Sol’al.

            – O que seria isso? – pergunta a Xorlarrin.

            – É semelhante ao da humana que encontramos lá fora e semelhante aos que encontrei em todos os mortos. Alguns usavam esse amuleto no braço, outros no pescoço. Acredito que para funcionar isso deva estar em contato com a pele. – responde Sol’al, todo orgulhoso de suas descobertas.

            – Esse é o símbolo sintético do nome do demônio, correto? – pergunta a clériga olhando para o amuleto do mago e o da humana gorda que está em sua posse.

            – Sim, minha Senhora. Quando o ogro arremessou o orc eu o escutei dizendo as palavras de ativação do amuleto. É uma espécie de oração em abissal. – comenta o mago retirando de sua piwafwi outros amuletos iguais àqueles que estão na mão da clériga.

            A Xorlarrin sorri e se aproxima de Sol’al dizendo em alto-drow.

            – Vejo que alguém estava escondendo o jogo.

            Sol’al sorri.

            – E quem não está? – responde o mago logo em seguida ensinando palavra por palavra a “oração” necessária para ativar o amuleto. Brum não aceitou o amuleto, porém ninguém insistiu, nem mesmo Alak, pois conhece Brum o suficiente para saber que o ogro é totalmente averso ao uso de magias; até mesmo para enfrentar outras formas de magias.

            Sol’al olha para os mercenários e os desafia sorrindo. Brum sorri de volta acenando com a mão, enquanto Alak o ignora. “Me subestimem rapazes. Vamos ver até onde durarão”, comenta consigo o mago Teken’Th’Tlar com um sorriso satisfeito em seu rosto.

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