Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 3)

            Sentada e posicionada para iniciar uma meditação, Sabal Dyrr aguça seus sentidos e escuta alguns mínimos e discretos sons que denunciam o embate que está ocorrendo fora do túnel onde se encontra. A sua frente, a pequena kobold Mirka dorme tranqüila, com um leve sorriso no rosto, como se não houvesse motivo para nenhuma preocupação. “Como ela consegue?”, se pergunta a clériga olhando abismada para o rosto da kobold. O Underdark é um lugar extremamente hostil e perigoso, é inviável, na mente da clériga, que alguém que viva nos subterrâneos de Faêrun consiga dormir de forma tranqüíla e relaxada como Mirka dorme. Uma ou outra vez ela já testemunhou Gromsh e alguns dos falecidos pequenos também dormindo da mesma forma. Já Stongest, mesmo quando está dormindo não parece estar dormindo. Porém, o que lhe espanta necessariamente no caso de Mirka e de alguns outros pequenos, é que ela é uma kobold.

            “Eles são tão fracos”, ela comenta consigo enquanto recorda que os kobolds costumam viver em bandos coesos, justamente por não possuírem muita força individual. Ao contrário dos drows, os kobolds tiveram séculos de cultura enraizada na importância do grupo. Um kobold sozinho é praticamente ignorável, mas um grupo de kobolds é algo respeitável e em algumas situações temível. “Esses merdinhas não são nenhuma preocupação se não estiverem em um número maior que dez”, Sabal se recorda exatamente das palavras de Mariv, seu antigo professor em combate. “Talvez ela não saiba os riscos que corre no Underdark”, supõe a clériga, enquanto continua a observar a pequena kobold.

            Os traços de Mirka não se diferem muito dos de outros kobolds, mas a pequena maga está quase sempre encapuzada. Essa é uma das poucas vezes que a clériga consegue observar a companheirinha com o capuz deslocado enquanto dorme. O focinho repitiliano termina com um pequeno sorriso e as pontas de vários pequenos e afiados dentes aparecem por quase toda a extensão de sua boca. Sabal realmente não vê nenhuma cicatriz ou marca de combate em Mirka, parece realmente que essa nunca teve que enfrentar um desafio muito grande. “Será que se ela estivesse para ser sacrificada em um altar em homenagem a Lolth, ela conseguiria manter esse sorriso?”, se pergunta a clériga sem tirar os olhos de sua companheira.

            Refletindo a respeito de sua própria pergunta, Sabal acabaria respondendo para si: “Não”, se um momento de surpresa não a impedisse. Próximo da parte descoberta da nuca de Mirka Sabal vê a extremidade de uma pequena cicatriz. Cuidadosamente a clériga começa a retirar o capuz da kobold e percebe que essa cicatriz se extende até o centro da nuca. Pelo capuz ter sido deslocado ainda mais, parte do pescoço de Mirka aparece e Sabal percebe outras extremidades de cicatrizes. Aparentemente a cicatriz da nuca foi causada por algum impacto, talvez uma queda ou um golpe de maça. Mas o pequeno trecho da cicatriz do pescoço lhe mostra que Mirka já sofreu algumas queimaduras e cortes também. Pelo que parece a pequena kobold não é tão pouco vivida quanto parecia.

            “Certo. Então supondo que seu sorriso se mantivesse em um momento extremamente doloroso ou aterrorizante. Por que? Como? Não faz sentido estar tão seguro a ponto de não se preocupar com nada do que ocorre com você”, a mente de Sabal entra em um turbilhão de confusão e assombro. Ela recobre Mirka, que em nenhum momento acordou sobressaltada ou fez menção de se sentir incomodada, e aos poucos se posiciona de maneira confortável para poder meditar. Sabal já havia retirado o peitoral de sua armadura e ficado apenas com sua piwafwi.

            “Quero entender o que está ocorrendo. Pelo máximo que tudo pareça fazer algum sentido, de repente não faz mais”, comenta Sabal, inquieta. Ela fecha os olhos, tentando colocar a preocupação de estar em um ambiente hostil de lado para poder meditar e refletir de maneira profunda. Sim, sempre que um drow vai meditar ele está em um ambiente hostil, afinal que ambiente em toda Toril é mais hostil que uma grande metrópole drow? Porém, mesmo sabendo disso, Sabal sabe que cada drow constrói alguma espécie de santuário onde tem privacidade e proteção – mágica ou física – para poder refletir e resolver seus assuntos sem maiores preocupações. Sabal mesmo tinha seu pequeno santuário protegido por magias divinas em seu quarto no palácio Dyrr, mas no momento Lolth continua em silêncio e nem mesmo um pequeno santuário é possível de ser feito. A clériga está em território inimigo, onde os orcs que eles enfrentaram no início do túnel dominam, ou dão a entender isso.

            Respirando profundamente e deixando o ar sair lentamente de seus pulmões, Sabal coloca a maioria dessas preocupações de lado e aos poucos vai se preparando para meditar. Ela repete esse processo respiratório mais cinco vezes até estar pronta para iniciar sua meditação analítica a respeito do assunto que lhe deixa inquieta no momento: qual a influência da Do’Urden sobre seus fiéis? Da mesma forma que os kobolds são seres extremamente grupais, os drows são seres individualistas que, mesmo possuindo uma sociedade bem estruturada, maquinam uns contra os outros em busca de poder e prestígio. Não há um conceito a respeito de “amizade”, “companheirismo” e coisas do gênero entre eles. Da mesma forma, muitos kobolds agem com uma espécie de mentalidade grupal que parece não separar um dos outros. Mas desde que entrou no culto herege, Sabal passou ainda mais a entender o conceito de companheiro, da importância de um grupo. Antes ela agia amigavelmente por interesses próprios, agora não tem mais tanta certeza. “Será que ocorreu algo assim com Mirka?”, se pergunta horrorizada por pensar que Lolth, ou melhor, a Do’Urden foi capaz de fazer com que Mirka deixasse o extremo grupal e equilibrasse esse lado com o individualismo que propõe a própria filosofia do culto: somos todos um e em um estamos todos.

            Até onde Sabal conhece Mirka, essa foi criada e se relacionou com vários outros kobolds. A pequena companheira era acolita de um humano, discípulo de um dragão. Ela e sua “matilha” viviam com esse humano e seu mestre dracônico. Eles eram responsáveis por preparar armadilhas e cavar túneis bem estruturados para o covil de ambos, e em troca o mago humano e o dragão lhes davam proteção. Mirka se tornou acolita do humano pois demonstrou grandes capacidades intelectuais em relação aos seus outros companheiros. “Isso já é algo digno de respeito em uma kobold”, comenta Sabal, enquanto visualiza o pouco que conhece da história da Mirka.

            Pelas conversas que teve com a kobold a respeito disso, ela descobriu que Mirka estava junto com seu mentor humano e mais vinte kobolds em uma missão nos subterrâneos quando fora capturada. O mestre draconico deles havia lhes ordenado para buscar um artefato que lhe pertencera e fora roubado por trogloditas que viviam nos túneis do Underdark. Pelo menos isso era o que havia sido dito a Mirka, mas quando os drows atacaram a incursão bem antes deles chegarem a seu objetivo, seu mestre antes de morrer lhe pediu desculpas, pois na realidade todos aqueles kobolds estavam sendo levados para serem sacrificados diante de um altar, em homenagem a Rainha dos Dragões em um ritual para criar uma nova espécie de servos de Tiamat. “Mirka nunca me disse o que havia sentido no momento em que descobriu isso”, reconhece Sabal mas supõe, “Acredito que tenha sentido medo. Muito medo. Ela havia sido enganada por aquele em quem mais confiava e seria uma escrava dos drows. O que seria dela?”.

            Lembrando desses fatos, Sabal volta a ficar inquieta. Mirka já havia vivenciado a traição, já havia visto violência e a sentido em sua pele escamada, da mesma forma que Gromsh. Mesmo assim eles não perderam a capacidade de confiar, “Nem a capacidade de não se importar em serem traidos?”, se pergunta a clériga. Com Gromsh as coisas não foram tão diferentes. Ele era um guerreiro de um exército gnoll de tamanho médio. Em sua carreira já haviam pilhado e saqueado algumas vilas humanas e uma ou outra pequena cidade élfica. Em um ato de vingança cometido pelos elfos, a fortaleza dos gnolls foi atacada e esses foram quase massacrados. Um grande contingente conseguiu fugir, e nele se encontrava Gromsh. O guerreiro gnoll e seus companheiros sobreviveram por um tempo ainda na superfície, de modo difícil e estressante. Para todas as direções que iam, encontravam inimigos. Os únicos seres nos quais eles podiam depositar alguma confiança eram aqueles gnolls de seu grupo; ou pelo menos era isso que eles acreditavam, até seu líder ter feito um trato com mercadores drows. Esse escolheu alguns de seus guerreiros e trocou-os por um auxílio na passagem pelo subterrâneo até terras menos hostis para os gnolls poderem se reestruturar. Entre os escolhidos como pagamento estava Gromsh.

            A negociação parece que foi bem sucedida, porém não tanto quanto os gnolls gostariam. O preço foi alto e o território para o qual foram levados não era tão menos hostil quanto o que se encontravam. Ambos, Mirka e Gromsh foram levados para Menzoberranzan em momentos diferentes e ainda com seus companheiros. Foi no subúrbio da grande metrópole drow, cidade natal de Sabal, que eles conheceram Vishnara. “Quem era essa Do’Urden?”, se pergunta a Dyrr. Ela havia escutado algumas histórias dentro do culto sobre a primeira clériga, a “mãe” de Lolth. Porém, em algumas conversas com Stongest ela descobriu que Vishnara não havia dado a luz a Lolth, mas Stongest não deu nenhum outro detalhe. “Então provavelmente a Do’Urden não é uma Do’Urden, ou talvez seja, mas não filha de Vishnara”, pensa Sabal, respirando profundamente e colocando todas essas reflexões em ordem.

            Tudo ainda é muito nebuloso. Uma clériga louca cria uma criança e a batiza como Lolth. A própria Rainha das Aranhas não a pune nem manda um de seus servos matar a criança. Vishnara encontra alguém que ninguém conhecia, o nomeia como “Guardião da Deusa Encarnada” e o ensina sua filosofia alienígena. Após isso, o guardião treina Lolth em alguns aspectos enquanto a clériga louca lhe treina em outros, e mais tarde conseguem dois seguidores que foram escravizados por drows e passam a adorar a deusa demoníaca daqueles que lhes escravizaram e que já haviam sacrificado vários de seus companheiros ou irmãos de raça. “Não faz sentido”, sentencia Sabal, “O que essa pseudo-deusa tem para conseguir seduzir de tal maneira seus fieis?”. Acreditar que a Do’Urden é a encarnação ou um avatar de Lolth é inviável para a Dyrr. “Em toda a filosofia do culto herege nada é tratado sobre o mal e o medo”, argumenta ela, para proteger seu ponto de vista.

            “A Do’Urden alterou a mente de seus fiéis de alguma forma. Como pode alguém que passou pelo que Mirka e Gromsh passaram, agir da maneira que agem?”, a questão retorna a sua mente, “Quando estão em grupo, eles agem da maneira que sempre agiram com seus iguais”, acredita a clériga, “Mas quando estão sozinhos são tão confiantes que parece até que não estão sós. De onde seres de raças tão fracas retiram tanta força?”. Por um breve momento, uma imagem surge em sua mente. O coração de Sabal gela; não necessariamente de medo ou assombro, mas de uma mistura de ambos. Mariv está olhando para ela e caminhando para seu lado. Seus olhos se mantém fechados, mas ela sente a presença dele. Ela era uma drow muito jovem quando ele a iniciou na arte do combate. Sabal tenta espantar a presença de seu falecido professor, balançando a cabeça e não abrindo os olhos, o medo de encontrá-lo fisicamente é grande demais. Porém, mesmo com seu esforço, a presença permanece.

            – Você não pode espantar algo que está em você, Sabal. – ela escuta a voz daquele que tanto lhe ensinou soar em sua mente.

            A clériga engole em seco e sente seu corpo tremer.

            – Sentir culpa pelo que ocorreu não a ajudará em nada. – diz o guerreiro.

            Sabal o sente em suas costas e sente uma de suas mãos tocando seu ombro. Provavelmente ele se sentou atrás dela, como fazia para auxiliá-la em suas meditações.

            – Ele faz pa’te de você, Sabal. – diz o falecido guerreiro Dyrr. Sabal sente seus músculos tensos, ela percebe que de alguma forma o que ele está dizendo é real, pois os ensinamentos de Mariv fazem parte dela agora – Como nós também fazemos. Não cho’e.

            O espanto faz a clériga abrir os olhos imediatamente e virar-se em direção a voz que está em suas costas. Ela estava quase em transe, mas assim que retoma sua consciência vê que com suas mãos ela segurava uma das mãos de Mirka, e que a mão que está em seu ombro é a de Stongest. “Como?”, se pergunta horrorizada. Ela se levanta rapidamente e se afasta do meio-goblin-meio-algo. Vê que tanto ele quanto Gromsh já haviam voltado. Sentindo seu rosto molhado, ela o seca com as mãos.

            – Isso não está certo. – diz, convicta, Sabal – Tudo isso não faz sentido.

            – Esse está sendo seu e’o, Sabal. O Caos não p’ecisa faze’ sentido. – responde seriamente Stongest.

            Sabal o encara por alguns instantes antes de voltar a olhar para Gromsh e depois para Mirka, que prossegue dormindo. A tristeza ainda está presente, mas ela é uma drow. Seu orgulho se feriu por terem presenciado uma cena de tamanha fraqueza e ela não consegue deixar de demonstrar isso em seu olhar.

            – Não p’ecisa te’ ve’gonha. Nós somos aspectos dife’entes da mesma coisa. – diz Stongest, tentando suavizar a situação da forma mais sincera.

            – Eu não sou vocês! Vocês não são eu! – Sabal sente que seu corpo ainda está tremendo – Vocês são loucos! Vocês são loucos em ter me deixado com Mirka. E se eu a tivesse matado? E se esses anos que passei com vocês foram apenas para espioná-los e destruí-los?

            Sabal encara Stongest por alguns instantes e se irrita ainda mais por esse não se alterar.

            – Me responde, goblin! E se eu tivesse matado Mirka!? – grita Sabal, se esforçando para não chorar novamente.

            – Você te’ia feito o que e’a p’a se’ feito. – responde Stongest sem se alterar em nenhum momento.

            O horror da clériga aumenta e sobrepõe a raiva.

            – Eu não entendo. – as lágrimas começam a descer pelo rosto de Sabal novamente.

            – Não há o que entende’, Sabal. Há apenas o que se vive’. – responde Stongest suavemente.

            Sabal se ajoelha e não consegue mais segurar o choro. Stongest se aproxima e tentam tocá-la. Como instinto primário ela os afasta, mas logo desiste e deixa-o abraçá-la, enquanto Gromsh apenas observa.

            – Pode’ é sabe’ o que faze’ no momento que deve se’ feito. Não existe f’aqueza, Sabal. Esse é o ensinamento da nossa Lolth. Nunca se esqueça dele. – aconselha Stongest de maneira tão suave que parece que a Do’Urden está falando através dele. Até mesmo Gromsh se espanta.

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