Amor! Amor? Amor. A… mor… – Primeiro Caso

– O ônibus não, porra! Agora que eu estava entendendo!

A moça entra no ônibus após se despedir de seu amigo, que começa a caminhar reflexivo, enquanto o veículo passa por ele. Seria possível que ela estivesse entendendo realmente?

Há pouco, ambos saíram de um bar, onde pararam apenas para conversar. Após diversos assuntos – punks, skinheads, anarquismo, comunismo, capitalismo, arte, família, refrigerante, legalização, café – eles adentraram o pantanoso assunto do amor.

– Amor é apenas um nome para definir uma emoção. O problema é que nós tomamos esse nome como sendo a emoção em si. – disse ele, sendo encarado com um olhar confuso.

– Ah tá! Então o amor não existe! – ironizou ela.

– Não disse isso. Ele existe, mas como efeito de algo e não por ele mesmo, independente. Mas ainda assim, é apenas um nome. – retrucou ele, incerto se estava sendo claro. Parecia não estar.

Era isso que o deixava incomodado. Ela subira no ônibus dizendo que estava quase entendendo, mas ele mesmo não acreditava que entendia sobre o assunto para ter explicado tão bem.

Ele refaz o caminho até o bar, pois havia acompanhado ela até o ponto e se encaminhava para o seu próprio, que ficava direção oposta. Observou as pessoas que passavam por perto, sorrindo, conversando, se relacionando…

Certo, ele entendia isso: o amor necessitava de relações. Podemos amar quando estamos sozinhos, mas para isso necessitamos da imaginação ou de outros lugares mentais que nos são tão incontroláveis, as vezes inobserváveis. Ainda assim, para ele, o amar sozinho não é tão sozinho, mas povoado por seres imaginários, oníricos que seja, mas seres, que no extremo da subjetividade, não se diferem muito daqueles tomados como concretos, objetivos. O que os diferenciam, se não o estímulo a outros sentidos? Para alguns, nem isso…

Mas esse, não era o caso dele. Ele sentia sua imaginação apenas através de sua consciência mental, já quando sonhava, essa consciência mental parecia se estender para os outros sentidos, mas não era a mesma coisa.

Assim, ele sabia que para amar haveria de ter um outro ser.

– Não acho que seja apenas um nome. Eu realmente sinto o amor. – as palavras da amiga retornam a sua memória.

– Mas o que você está definindo como amor? Amor entre cas…

– Não, não! Não falo desse amor romântico não. Falo de querer bem os outros. – interrompe ela, impaciente.

– Que outros? – questiona.

– Meus amigos, familiares…

– Pessoas próximas a você?

– Sim.

– Seletivo assim?

– Uhum.

– Portanto dependente desse fator? – questiona mais uma vez.

– Como assim? – sua amiga o olha confusa.

– Você se sente bem com essas pessoas?

– Sim.

– Esse amor não estaria relacionado com isso? Amar aqueles que me trazem algum tipo de prazer? Não estou dizendo que é isso, apenas estou expondo a dúvida.

– Não, quando me afasto de alguém, continuo sentindo esse amor.

– Pela imagem que você mantém da pessoa. A imagem que lhe dá prazer. – cutuca ele, um pouco inseguro.

– Claro que é pela imagem. Não tem como nos relacionarmos sem criarmos uma imagem da pessoa.

– Concordo, mas ai que vem o risco: e quando a pessoa faz algo que destrói essa imagem, o amor acaba?

– Por que? O amor é eterno?

– Não sei… – responde ele confuso em sua memória, retornando sua atenção ao mundo externo, aquele com o qual seus outros sentidos se comunicam.

Descendo a rua escura, passando na frente de um hospital no qual anos atrás ele vira um rapaz chorando copiosamente pela morte da mãe, ele lembrou de sua própria, ainda viva. Por mais que haja um momento ou outro de atrito entre eles, ele não consegue lembrar das atitudes inconvenientes de sua mãe, mas de várias ações de bondade que ela já fez.

Claro que isso poderia advir da carga cultural de sua sociedade e dos valores católicos agregados… Ele crê que assim seria se sua família não fosse tão diversificada em questões de crenças. Ele crê, também, que assim seria se não tivesse presenciado realmente os atos de bondade de sua mãe: como ela cuidou de seu pai no leito de morte, como ela cuidou de seus irmãos e irmãs e, recentemente, como ela ajudava com seu tio e cuidava da proteção das cabeças carecas da molecada do hospital do câncer onde o tio se encontrava, fazendo tocas de crochê para eles, mesmo não os conhecendo pessoalmente.

Ele sabia que essa bondade não era intrínseca de sua mãe, mas era algo que ela cultivou. Causa e efeito. Reflexões que ela teve a respeito de quão benéfico isso era e quão negativo seria o oposto. E a primeira reflexão, levou para uma ação, que levou a outra reflexão, que levou a mais uma ação, que resultou em outra reflexão, disparando mais uma ação, e assim por diante.

– É e não é eterno. – respondeu ele para sua amiga, quando estavam no bar.

– Como assim? – perguntou confusa.

– Não é eterno como algo imutável, existente por si mesmo que durará para sempre, independente das causas e condições envolvidas, porque isso não é possível de existir. – responde ele ainda inseguro sobre a clareza de suas palavras – E é eterno se pensarmos que as causas que geram o amor, o desejo de que os outros sejam felizes, resultam em possibilidades de gerarmos mais causas para intensificar o amor, e assim por diante.

– Aaaaaahhhh!!! Não estou entendendo! – disse ela, angustiada, olhando para o relógio ainda mais angustiada, como se a ansiedade tivesse aumentado – Eu tenho que ir embora, mas quero entender isso!

Eles se levantaram e foram pagar o refrigerante, partindo em seguida ao ponto de ônibus.

– Então! É eterno ou não é?

– Não sei! – ele ri – Só creio que se pensarmos no amor como algo que surge a partir de causas e condições, ele pode ser eterno se cultivarmos constantemente as causas, tornando cada efeito mais intenso.

– Não estou entendendo – disse ela, olhando para um ônibus vindo ao longe – Ai, meu ônibus! Dá um exemplo na prática, por favor!

– Tá, responde rápido então: me diz um pensamento machista que você tinha e não tem mais.

– Que mulheres que ficavam com mais de um homem eram galinhas. – respondeu ela sem pestanejar.

– Você acha que algum dia voltará a considerar mulheres, que ficam com mais de um homem, galinhas?

– Não. – responde ela aflita com a proximidade do ônibus.

– Por que?

– Por que eu pensei muito sobre isso e agora não faz sentido.

– E continua pensando sobre isso, não é?

– Sim.

– E quanto mais você pensava sobre isso, mais esse tipo de pensamento foi se afastando da sua cabeça, gradualmente, né?

– Sim. – o ônibus parou – O ônibus não, porra! Agora que eu estava entendendo! Aiii… Amanhã vou na sua casa. Você vai terminar de explicar, eu acho que estou quase entendendo – e ela entrou no ônibus.

Ele chega ao seu ponto de ônibus, pensando em como explicar algo que ele não tem certeza se entende.

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