Como Encaramos o Cinema?

Creio que quando algo nos incomoda é importante refletir a respeito, para podermos entender o que vem a ser esse incomodo, se ele faz sentido, ou se, na realidade, é resultante de algum preconceito, alguma interpretação distorcida ou algo do gênero. Refletir sobre incômodos, não necessita ser uma prática solitária, ainda mais com a rede de comunicações que temos hoje em dia, o que é bem interessante, pois nos colocamos diante de diversos contrapontos que talvez não nos colocaríamos sozinhos; o mesmo pode ocorrer quando lemos livros, assistimos filmes, peças teatrais, espetáculos de danças, entre outras linguagens que podem ou não nos “tirar do mesmo lugar”. Essas contraposições são necessárias para repensarmos nossos posicionamentos, mas não são receitas universais: uma linguagem que me impacta, não necessariamente impacta os outros. Entretanto isso também não serve como desculpas para não nos esforçarmos para tentar entender o outro independente da linguagem escolhida.

Toda essa introdução na verdade é apenas uma justificativa para eu falar de um incômodo, que é a ideia de que filmes, séries, novelas, e até mesmo outras formas de artes, como o teatro, a dança, pintura, etc, são apenas para serem sentidas, experienciadas. Isso me incomoda pois trabalha com o pressuposto de que existe uma cisão clara entre “razão e emoção”, entre sentir e pensar sobre algo. Essa perspectiva nos é natural por conta de todo nosso desenvolvimento cultural, cognitivo e filosófico. Por aprendermos isso desde pequenos acabamos por tomar tais pressupostos dicotômicos como verdades e nem mesmo mais paramos para refletir de fato sobre eles, desse modo nossa cultura estruturou a ideia de que um filme é bom se “conseguiu me convencer”, se conseguiu me fazer sentir algo que eu “nunca senti”. Para culturas com tão poucas definições emocionais é até estranho conseguirmos claramente distinguir quando sentimos ou não algo diferente.

Para não perder o foco, vou me manter sobre o incomodo em si e não em suas ramificações. Afinal, ele surge não pelo fato de ter pessoas que adotam essa postura, já que essa diferença é interessante e muito importante, quando se estabelecem diálogos – tal como qualquer posicionamento – caso o contrário torna-se apenas razão para isolamentos cada vez maiores e intolerâncias. Portanto o que me incomoda é que a linguagem cinematográfica – focarei nela – é uma linguagem complexa, que se utiliza de característica discursiva e não discursiva, algo que o filosofo Júlio Cabrera definiu como sendo uma característica “logo-pática” já que não separa a logica da emoção. O discurso cinematográfico, portanto, se utiliza do lógico e do emotivo simultaneamente, não sendo possível separa-los sem que haja uma limitação em nossa analise.

Desse modo o audiovisual, em especial o cinema, as novelas e as séries, transmitem seus discursos de maneira emotiva e com uma certa “atmosfera de verdade universal” (CABRERA 1999). O elemento logo-pático e essa “atmosfera de verdade universal”, possibilita que o discurso seja absorvido de maneira irrefletida, pois é logo-paticamente convincente. Isso de modo algum é uma defesa da influência determinante do cinema no comportamento das pessoas, mas sim a defesa de que essa linguagem, tal como todas as outras, são ferramentas para a reafirmação de valores, crenças, modelos, e por ai vai.

Por conta de toda essa complexidade, é que me incomoda o mero sentir como objetivo de ir assistir um filme. Gosto de buscar entender o filme não apenas em seu discurso explícito, – a história que está sendo contada, se faz sentido ou não dentro dos meus modelos e do meu conjunto de valores -, mas sim qual o discurso implícito, o discurso base para que o discurso explícito, a historia, seja contada. Que valores estão sendo defendidos ou questionados? De que maneira isso está sendo feito? Quais os pressupostos que sustentam a história? A narrativa está defendendo uma possibilidade de mudança natural? Ou um destino? Ou uma possibilidade de mudança através do esforço? Há um pressuposto metafísico ou uma inter-relacionalidade sendo trabalhada? Que elementos estéticos, estruturais, organizacionais, e qualquer outro elemento – tanto da produção quanto da pré e pós-produção – nos servem como indicadores desses pressupostos? E assim por diante.

Esse tipo de analise faz com que eu me interesse mais pelos filmes, dando a eles outros significados nos contextos que estou inserido, já que me levam a refletir ainda mais sobre o fluxo de relações interpessoais e intrapessoal às quais chamo de vida. Por conta disso, sinto um pouco de necessidade de ler ou assistir – no caso dos vlogs – análises cinematográficas que tentem adentrar os discursos implicitos, o que na maioria dos casos não ocorre, pois tendemos a nos manter em análises a respeito do discurso explícito dos filmes.

Tentando sair um pouco das justificativas dos meus interesses e finalizando com uma observação geral, creio que esse tipo de análise – mesmo que mais trabalhosa e cheia de riscos – encara o cinema pela complexidade que ele possui. De forma alguma estou dizendo que esse tipo de análise mais sistemática não exista. Existe sim, é possível ler a respeito nos trabalhos de Eisestein, Jacques Aumont, entre outros, mas penso que isso poderia, muito bem, estar mais presente para um público mais amplo, através de vlogs e blogs, para que pudéssemos pensar nossa forma de apreciar o cinema.

O aspecto de entretenimento está presente, é claro, mas não se limitar a isso, talvez, nos leve a pensar em como tornar o audiovisual ainda mais valioso e amplo como a linguagem que é.

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