Arquivo para março \21\UTC 2017

PUNHO DE FERRO E O BUDISMO CHINFRIM

Começo esse texto já afirmando: gosto muito das séries da Netflix do universo Marvel. Adorei a primeira temporada do Demolidor, achei a primeira metade da segunda temporada muito foda, mesmo que tenha tropeçado na segunda metade, ainda assim não achei de toda ruim. Jessica Jones foi fantástica também e não me envergonho de dizer que gostei de Luke Cage do começo ao fim; mesmo que tenha achado o Diamondback, um antagonista mixuruca perto do Cottonmouth e de Mariah Dillard. Com Punho de Ferro não foi diferente: gostei da trama da série, alguns personagens como Ward, Madame Gao, acabam se destacando, mas ainda assim achei legal o Danny Rand perdidão e “inocente” que conduz a série.

Essa introdução é só para dizer que não pretendo meter o pau na série, isso outros bloggers e vloggers já estão fazendo, prefiro focar em outros tópicos. Como meu conhecimento de kung fu é bastante limitado, manterei meu comentário sobre esse ponto nesse mesmo limite: as coreografias são fracas. As cenas de luta do Demolidor deixam o “lendário” Punho de Ferro no chinelo, portanto deixou a desejar. Desse modo, opto por focar em como o budismo, o qual o meu conhecimento é menos limitado, foi representado na série.

Desde o início o budismo é apresentado apenas em seu aspecto sobrenatural e religioso, ou seja, mitológico, algo completamente natural dentro de um cenário de ficção e fantasia que é o caso do Punho de Ferro, entretanto, dá-se a ideia de que o Buddha Dharma – o sistema de ensinamentos estruturado por Buddha Shakyamuni – é baseado em citações (Danny Rand cita “ensinamentos” como se fosse aqueles populares livros de “meditações diárias”, “horas de sabedoria”, e assim por diante) e em reprimir emoções, como a própria Claire Temple observa nos últimos episódios. Em outros momentos, o budismo de Punho de Ferro é retratado como um escapismo da realidade, a ponto do personagem ter atitudes sociais extremamente estranhas, como ficar em “postura de meditação”¹ na frente da casa de Joy – sua amiga de infância – com flores, frutas e incenso, dizendo que aquilo é uma “tradição budista” para que eles se lembrarem de sua “ligação”. É até impressionante a personagem Joy ter relevado aquela bizarrice, mas ok.

Esse budismo chinfrim apresentado no Punho de Ferro soa estranho se levarmos em conta que: 1 – além dos Sutras, há centenas – senão milhares – de tratados budistas escritos e comentados por vários pensadores durante a história do budismo, o que não dá para ser resumido em citações jogadas ao vento, como o personagem faz²; 2 – que todos os sutras e tratados relacionados a eles, focam na compreensão e desenvolvimento de Dharmas (objetos de investigação) que objetivam a cessação do sofrimento e suas causas, através da desconstrução de interpretações aflitivas das relações que fazemos parte e interpretação das relações que sirvam de causas de felicidade, o que além de não ter nada a ver com repressão de emoções, leva o próximo ponto; 3 – a investigação da realidade possui uma importância tremenda para o desenvolvimento do budismo, principalmente do budismo acadêmico que advém desde as universidades de Nalendra, Odantapuri, e outras, sendo atualmente estudado seriamente em universidades do ocidente como Oxford.

Durante esse longo parágrafo alguns poderiam estar se preparando para jogar uma falácia do escocês na minha cara, esperando eu finalizar com um: “Isso não é budismo de verdade”. Mas bem, esse é, também, um budismo de verdade, tomando verdade não como um modelo, mas como algo que temos que lidar em nossas relações. No nosso “mundo ocidental” popular, esse budismo chinfrim, talvez seja o budismo mais verdadeiro, pois é com o qual mais nos relacionamos. Entretanto, isso não o torna menos destoante, no que diz respeito ao objetivo expresso nos sutras e os pressupostos que o fundamenta: a cessação do sofrimento e suas causas, através da compreensão da realidade da interdependência. Tal objetivo não é alcançado com citações, repressão das emoções e escapismo. Além disso, a própria ideia do Punho de Ferro, como um ser substancialmente existente – “Eu sou o Punho de Ferro! Eu devo proteger kun’lun!” – não condiz com o pressuposto de que o “eu” não tem existência inerente, existindo como efeito de relações³.

Como disse, não desgostei da série, acho até que ele é um bom retrato do efeito alienante do budismo comercial com o qual temos contato, onde aqueles que o “estudam” e escrevem livros, estão mais preocupados com aquilo que é vendível e que pode ser bastante prejudicial, do que com a estrutura sistematizada que possui maior probabilidade de trazer benefícios para as relações de quem se propõe a praticá-lo. Ainda espero ver um personagem budista que age a partir de pressupostos budistas inter-relacionais e não a partir de pressupostos transcendentais – que conhecemos muito bem – disfarçados com roupagens exóticas.

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NOTAS:

¹ Meditação, na tradição budista indiana antiga e em outras tantas, é algo que deve ser levado a sério e que não dá para ser aprendido em um curso de fim de semana. Não é uma forma de relaxamento, nem tão pouco uma mágica para nos livrarmos de nossos problemas, podendo até mesmo reforçar muitas de nossas interpretações aflitivas das relações, o que pode ser extremamente prejudicial, por isso a importância de um estudo sistemático e do acompanhamento de professores qualificados (que tenham uma tradição séria de estudo, além de ter treinado por anos, conhecendo assim os obstáculos e como superá-los). Portanto, sejam criteriosos na procura de uma escola budista.

² Há muitos desses sutras e tratados traduzidos para o inglês, russo, alemão, mas poucos em português.

³ Um bom livro para tentarmos entender melhor essa perspectiva, é o Como Saber Quem Você É, do XIV Dalai Lama.

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