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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (Parte 5)

            O cheiro de fezes e corpos em putrefação agrada a narina do humano Malazir Penaril, principalmente quando esses apreciados odores se misturam com o cheiro de sangue fresco de um recém sacrifício ao seu senhor demoníaco: Shormongur. Ele olha para seu companheiro e irmão de fé, Folkyr, um orog que seria muito belo, se não fossem os escrementos e sebos que encobrem grande parte de seu corpo.

            – Há muito que espero vocês me chamarem. – uma voz cavernosa ressoa por detrás de seus ombros, fazendo com que ambos se virem dando as costas ao altar de sacrifício – O que causou tanta demora?

            – Meu Senhor. Mestre da Degradação, da Destruição, da Corrupção e do Fogo que a tudo consome, nos perdoe pela demora, porém as preparações para o ritual está ocupando muito de nosso tempo. – responde Folkyr ajoelhado aos pés de seu mestre glabrezu, enquanto Malazir complementa.

            – Isso é verdade Grande Senhor. O Grande Ancião está ausente e, em sua ausência, eu e Folkyr somos os dois conjuradores mais competentes. Somos nós que devemos guiar os procedimentos e os preparatórios para o imenso ritual.

            O glabrezu esboça um sorriso no rosto.

            – Provavelmente a serpente está aumentando sua rede de intrigas e colaboradores. – comenta o demônio com contentamento em sua voz – E o meu filho?

            Malazir e Folkyr se olham antes de responder ao seu mestre. O local do altar, onde estão conversando com Shormongur, é uma caverna próxima a Menzoberranzan. O altar foi criado por Zaknafein – o filho de Shormongur – e seus servos orcs com toda a fé que esse possui em seu pai.

            – Tememos que ele possa estragar tudo, Senhor. Até o momento ele está sendo extremamente útil, entretanto, seu filho, sente a liderança do Grande Ancião como uma afronta ao Senhor. – responde Malazyr.

            O glabrezu gargalha.

            – Meu filho me surpreende com a fé que deposita em mim. Porém não permitam que estrague nosso plano. – ordena Shormongur com rispidez, antes mesmo que o eco de sua gargalhada deixasse o ambiente.

            – Não permitiremos, Senhor. – responde ambos conjuradores em uníssono.

            – Não importa o quanto não confiamos na serpente, não podemos de forma alguma encará-lo apenas como um empecilho. – diz o demônio seriamente aos seus seguidores – Não podemos subestimá-lo como um tolo que não sabe a amplitude do que está fazendo. Ele está a mais de um século criando as passagens necessárias para os principais pontos do grande ritual. Seja quais forem seus objetivos, não podemos perder a oportunidade de participar.

            Ambos os fieis concordam com um asceno de cabeça.

            – Se temos até mesmo companheiros de outros planos participando desse imenso ritual, por que nós, não iríamos concordar com o Grande Ancião? – Shormongur sorri e gargalha – Não importa a intenção da serpente, o Abismo abrirá suas portas e aqueles que estiverem preparados reinarão soberanos em todos os planos. A serpente que aguarde.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 4)

            Tudo está ocorrendo perfeitamente. Enquanto estava na superfície, Lolth Do’Urden não se recordava exatamente o quão fácil era criar uma situação de intriga favorável entre membros da sua própria raça: os drows. Ela sorri vendo que a terceira investida contra os grimlocks está sendo da maneira que havia previsto. Os drows estão com grandes vantagens, porém há muitas chances dos grimlocks sobreviverem.

            Um pouco antes de partirem para a terceira investida, os exercitos se prepararam e esperaram seus líderes, que estavam atrasados. Nadal estava com uma baita dor de cabeça, resultado da bebida que havia tomado com Alystin logo após a conversa com as duas facções do exército. O mercenário não sabia o porquê dele ter agüentado tão pouca bebida, mas isso não era algo para se preocupar no momento.

Enquanto a Calimar…

            O mago foi encontrado morto por um de seus discípulos, junto ao corpo de uma drow, possívelmente uma aluna dele que também havia sumido. Quem o matou? Todos se perguntaram, mas logo Erelda tomou a liderança oficial e ordenou que Nadal comandasse o exército. Muitos dos alunos de Calimar perceberam alguma possível trama entre aqueles dois, mas nada que os fizessem ficar sedentos por vingança, afinal, agora que Calimar estava morto, muitos poderiam tentar tomar a cadeira de Mestre em Evocação que ele ocupava. Porém, havia um drow mago que não estava feliz com tudo aquilo: Guldar Khalazza.

            Logo que descobriram os corpos, a falsa Alystin foi se encontrar com o jovem mago. Ela estava em prantos, tentando esconder suas lágrimas atrás de um capuz, para que ninguém mais a visse assim, principalmente Erelda. Guldar sabia que ela era obsecada por seu irmão, e toda aquela trama óbvia havia atingido-a como uma bola de fogo. Na conversa que tiveram antes da investida começar, ela disse:

            – Vingue-nos! Mate o responsável pela morte de seu irmão e pela sedução de Erelda!

            Guldar sabia que era isso mesmo que ele deveria fazer. Nadal causou a ruptura do exército. Colocou o cerco em risco tendo matado seu irmão, o grande estrategísta Calimar. E além disso, conseguiu seduzir de alguma forma Erelda, sua Senhora, com o objetivo de ficar com as glórias da batalha.

            Lolth percebeu tudo o que ocorreu internamente com o jovem mago. Ela sabia que ele daria tudo de si para exterminar Nadal. Em suas mãos faltava apenas Erelda, a qual ela teria de esperar o cerco se iniciar para poder cocluir seu objetivo.

            A pseudo-deusa agradace profundamente os itens mágicos que conseguiu com a falecida Alystin. Ela possuía a capacidade de criar ilusões, graças a três aneis que pertenciam à verdadeira ilusionista. Foram esses itens que ajudaram em muito criação de toda a teia que ela teceu. Calimar estava morto, todos acreditavam no envolvimento de Nadal, até mesmo Erelda. Guldar deixou seu ódio pelo mercenário o guiar, enquanto Erelda percebeu uma situação na qual poderia usufruir da morte do mago líder do cerco para aumentar o prestígio de sua casa e da guilda de mercenários liderada por Nadal. Uma aliança útil, sugestão de Alystin.

            Agora Guldar está prestes a enfrentar Nadal, mas antes que isso ocorra, Lolth deve matar Erelda. Assim todos os possíveis líderes estarão mortos e isso deixará o exército sem cabeça, porém ainda forte. Alguém com certeza acabará tomando a liderança, mas até que isso ocorra, o grupo de grimlocks guiados por Braços de Adamantina já terá partido. É nisso que ela acredita.

É isso que ela espera.

            Não é tão difícil para a sedutora assassina encontrar a clériga. O momento do parto chegou. Erelda está em sua cabana com uma parteira e outra clériga de Lolth, enquanto do lado de fora, duas guardas tomam conta.

            A Rainha das Aranhas continua em silêncio, o que torna o parto ainda mais infrutífero. Se essa estivesse dando seus dons às suas clérigas, todo o sofrimento de Erelda poderia ser oferecido a deusa-demoníaca, e com certaza uma magia de imenso poder poderia ser conjurada.

            Lolth não tem muitas dificuldades para passar pelas guardas, utilizando um dos aneis de ilusão para cirar a imagem de um drow que tenta se aproximar da cabana. Tentando impedi-lo de se aproximar, as duas guardiãs abrem o espaço suficiente para a Do’Urden adentrar. Erelda grita de dor, enquanto a parteira retira a pequena cria de dentro da clériga. Um flash atinge a mente de Lolth, que se recorda do parto de seu filho, mas logo ela recobra sua concentração e age da forma mais rápida possível. A ilusão lá fora não durará muito, portanto ela sabe que deve agir antes que isso ocorra e as guardas descubram que estam sendo enganadas.

Lolth saca seu sabre – a Quelícera – e atinge a clériga, que está orando para Lolth durante o parto, com uma estocada no pescoço. Logo o poder de sua mortal arma entra em ação. Antes mesmo que essa possa gritar, seu pescoço começa a tomar uma coloração arroxeada com veios amarelos. A necrose sufoca a clériga enquanto Lolth elimina a parteira de modo mais simples e mais rápido.

            Quando Erelda entende o que está ocorrendo e tenta pegar seu flagelo de cinco pontas com ganchos de ferro, Lolth decepa o braço da clériga. E cria, com outro dos três aneis de Alystin, uma ilusão sonora para abafar o grito de ódio de Erelda, para logo em seguida decepar a cabeça da clériga com a Quelícera, porém sem utilizar seu poder.

            Lolth sabe que a ilusão lá fora acabou e logo logo, as guardas irão adentrar o aposento. Rapidamente, a pseudo-deusa pega a cabeça da clériga e espalha o sangue no aposento, pega a filha de Erelda e parte rasgando a tenda.

            No campo de batalha o exército liderado por Nadal está com uma imensa vantagem em relação aos grimlocks. Guldar percebe que Nadal já está com alguns ferimentos e com a concentração completamente comprometida graças ao veneno que Alystin colocou em sua bebida. Mesmo assim, o jovem mago duvida que o mercenário irá morrer naturalmente durante a batalha, pois a vantagem de sua tropa é enorme.

            Guldar utiliza algumas de suas magias mais simples, para guardar aquelas que serão úteis para exterminar Nadal. Ele luta e espera o sinal de Alystin. Evoca um raio de gelo em direção a um bárbaro grimlock que está dando muito trabalho aos soldados drows e vê, de canto de olho algumas aranhas rastejando-se no campo de batalha. O cenário muda, Guldar se torna um grimlock e vários outros brotam do chão. O jovem mago sorri, pois reconhece a maestria das ilusões de Alystin, muitas vezes até mesmo duvida que a ilusionista seja uma seguidora de Lolth, pois essa se parece muito com uma devota de Shar.

            Na forma de um grimlock, o mago se aproxima pelas costas de Nadal e, com suas mãos flamejantes, toca a cabeça do mercenário. Nadal sente uma forte dor de queimadura e logo se vira desferindo um golpe que é defletido por um escudo mágico que Guldar criou de antemão. Para Nadal, quem está enfretando ele é um grimlock, mas o mercenário se surpreende por ser um grimlock mago.

            Guldar rapidamente toma a dianteira e atinge Nadal com um raio congelante, deixando seus movimentos lentos e seus músculos doloridos pelo frio. O jovem mago gargalha acreditando ter conseguido superar o exímio guerreiro, mas surpresas sempre acontecem entre os drows. Nadal, mesmo com seus movimentos comprometidos, consegue fintar mais um raio de gelo e atingir o abdomen do oponente com uma estocada de seu sabre. Guldar sente o ódio ferver com uma bola de guano na mão e com os outros componentes materiais de uma bola de fogo, ele conjura a mais poderosa evocação que conhece. Tendo Nadal como centro da explosão, as chamas da bola de fogo se espalha, atingindo todos os que estão próximos, até mesmo Guldar.

            Isso não é o suficiente para matar o jovem mago, pois por mais impulsivo que ele seja, não é estúpido. Defesas mágicas foram preparadas antes do confronto. Mesmo ferido, Guldar sorri olhando para o chão sabendo que haveria poucas chances de Nadal ter sobrevivido.

            – Bem que Alystin me avisou que você tentaria algo estúpido. – comenta o mercenário surpreendendo Guldar, que levanta seu olhar estupefato com as mãos tremendo.

            Nadal está todo ferido, segurando em sua mão esquerda um amuleto, enquanto em sua mão direita está seu sabre de adamantina.

            – Você e ela irão morrer, malditos! – grita o mago recitando as palavras mágicas para criar chamas em suas mãos novamente, e partindo em direção ao guerreiro.

            O sentimento de ter sido traido pela ilusionita, somado a todo o resto que está ocorrendo, fez com que Guldar perdesse ainda mais o bom senso. Ele se aproxima do mercenário que lhe crava o sabre em seu abdomem. Mesmo sentindo a lâmina atravessá-lo o mago caminha ainda mais próximo e toca sua mão no peito do mercenário que berra de dor.

            Ambos estão em péssimo estado, mas para eles a batalha se resume àquela situação: um enfrentando o outro. Após o grito, Nadal sorri e Guldar fixa um olhar perturbado em seu oponente, até sentir algo tocando seu pé e o fazendo olhar para baixo.

            – Erelda? – horrorizado ele diz o nome do objeto de sua paixão ao ver a cabeça da clériga aos seus pés.

            O espanto atinge Nadal também, que olha para baixo o tempo suficiente para Lolth estocar ambos com sua Quelícera, varando seus corpos por uma pequena mas suficiente brecha de suas piwafwi e armaduras.

            Ambos já estavam extremamente feridos e não haveria como eles sobreviverem àquele golpe final. Os dois caem ao chão tentando ver a assassina, Nadal não consegue e desfalece. Enquanto Guldar.

            – Sua puta! – é tudo o que ele consegue dizer olhando Lolth segurando a filha de Erelda.

            Em um breve instante parece que tudo faz sentido na mente do mago. Alystin planejou tudo para tomar o controle do cerco. Mas por que? Ele se pergunta até que um pequeno detalhe vem sem sua mente quando os seus olhos se encontram com o da falsa ilusionista. Alystin nunca teve olhos magentas, mas sim carmim.

            Lolth vê Guldar desfalecendo e sente a última emoção do mago em relação a ela. Ilustrado em um profundo olhar de puro ódio.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 3)

            Calimar Khalazza adentra sua barraca irritado por não ter encontrado sua atual amante. “Provavelmente está com aquele mercenário nojento”, conclui o mago tomado de ciúme. Faz alguns dias que Alystin se tornou um objeto de desejo do mago líder do cerco drow. Antes de tudo ocorrer, ele nem mesmo imaginava se relacionando com a ilusionista. Porém sempre que se põe a pensar nela, não entende como passou tanto tempo longe da bela e sensual drow.

            Sua cabana é uma das duas maiores do acampamento drow, a outra obviamente pertence a Erelda, sua ex-amante e atual alvo de seu desdém. Seus livros e pergaminhos ficam próximos à algumas almofadas utilizadas para meditação. “Não acredito que terei que entrar em Reviere sem poder relaxar nos braços dela”, pragueja consigo o mago que se põe a sentar em uma das almofadas e se preparar para decorar suas magias antes de seu Reviere.

            Ele pega um de seus tomos e o abre, folhando página por página em busca das melhores magias para a próxima investida, que será, como programado, após o descanso das tropas. Assim fora planejado para não haver chances dos grimlocks se recuperarem. “Portanto é melhor eu deixar de me preocupar com prazeres carnais e me concentrar nisso”, comenta mentalmente enquanto prossegue na busca das magias mais apropriadas.

            O mago focaliza toda a atenção em seu estudo, sendo absorvido por suas anotações. Os simbolos e palavras que lhe são importantes fixam em sua mente, enquanto aqueles que não lhe parecem apropriados são deixados de lado. Quando terminar todo o processo de estudo, Calimar sabe que apenas necessitará descansar sua mente para que as magias se fixem.

            Todo o stress dos momentos passados teve de ser deixado de lado. Toda a discução com seus magos e toda a discução seguinte com a enfantaria de Nadal havia deixado-o tenso, mas não tanto quanto o próprio Nadal havia ficado. A discução ferveu o sangue do mercenário drow, pois a todo momento Calimar jogava em sua cara que quem deve apoiar o exército principal é ele, pois ele é o mercenário contratado. Porém, ao fim da discução, quem saiu em companhia da disputada ilusionista foi Nadal.

            – Maldição! – pragueja em voz alta o mago, tendo sua concentração quebrada pelo ciúme.

            – Calimar? – o mago sente sua pressão caindo ao escutar a voz suave de Alystin.

            Ele olha para trás com um sorriso arteiro em seu rosto e observa a jovem dama deitada sobre algumas almofadas, com seus delicados seios a mostra e aos poucos se cobrindo cum uma manta. Aquele pequeno espaço de luxúria não existia antes dele e Alystin começarem a ter momentos de prazer juntos. Agora, para Calimar, parece que sempre existiu.

            – Você parece tenso. Vem que eu lhe farei relaxar. – diz a ilusionista com um sorriso excitante em seus lábios, terminando de cobrir seu corpo com a manta.

            Calimar sente seu coração pulsando velozmente. Seu corpo começa a suar e a excitação palpita em seus órgãos. Ele vai aos poucos em direção a manta que se mexe suavemente, como se Alystin já estivesse começando a brincadeira sozinha.

            Com cuidado ele toca a manta, sorri para si mesmo e retira com ferocidade a coberta. Para seu horror, não é Alystin apenas que ele vê lá dentro – não é Alystin de forma alguma. Milhares de aranhas de espécies diferentes saem de seu espaço de luxúria rastejando-se pelo aposento, deixando para trás o corpo de uma drow rececado, como se estivesse morto há algum tempo e conservado através de poções.

            “Nadal!” pensa o mago indo em direção a uma varinha que fica próximas a seus livros. Ele tenta olhar para todo o aposento a procura do mercenário.

            – Apareça seu mercenário maldito! Sei que você a matou! – desafia o mago com ódio, ainda procurando por seu adversário e sentindo o desespero tomar conta. Ele está sem suas magias e com alguns poucos itens mágicos para se defender, já Nadal é um guerreiro formidável.

            – Não amor, quem a matou fui eu. – ele escuta uma voz feminina, ainda mais sedutora do que de Alystin, soando bem próximo de seus ouvidos enquanto algo perfura suas costas e vara seu coração.

            Tudo ocorre tão rápido, que ele não tem chance nenhuma de defesa. Enquanto aquilo que lhe perfura é arrancado de seu peito, ele apenas vira-se em direção a sua assassina para amaldiçoá-la, mas ao vê-la a estupefação toma-lhe conta.

            – Q-quem? – pergunta com esforço, enquanto sente uma dor intensa em seu peito, como se tivesse levado uma picada de algum animal peçonhento, suas mãos tremem e sua mente fica paralizada pela visão de tanta beleza.

            – Eu sou Lolth, macho. Você já me serviu como deveria, agora não me é mais útil. – responde com uma voz bela, potente e cheia de autoridade.

            Calimar sente sua vida deixar seu corpo. Sua própria deusa o matou. Ele sorri e cai aos pés de Lolth.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 2)

            Já foram duas investidas que a tribo de Braços de Adamantina suportou nesses últimos dias. Pelo estado físico e mental de seus combatentes, o escultor não acredita que a tribo agüentará um novo ataque.

            Sempre após um ataque, todos os participantes normalmente vão ao encontro das esculturas de Braços, e de seu falecido mentor, para recuperar a inspiração. Eles tocam todos os trabalhos detalhados e maestrais, deixando com que sua mente vislumbre e se regojize com toda aquela beleza sensível. As esculturas deles servem como as músicas dos bardos para o pós batalha. Porém apenas um combatente tocava a escultura de Araushnee, um jovem bárbaro que ouviu falar a respeito da visita de uma deusa a tribo.

            Quando algum combate está se aproximando, os bardos da tribo, aqueles que guardam as lendas e história do povo, inspiram seus companheiros que entram no fronte vindos do campo de batalha.

            Braços ouve os guerreiros exaustos após terem retornado à algum tempo do último combate. Os bardos estão desanimados, os druidas e aqueles poucos clérigos de entidades medusas estão perdendo completamente seu ânimo. Para o escultor o pior de tudo isso é que, aparentemente o desespero está para tomar conta de sua tribo novamente. Ele conhece seu povo e sabe que os grimlocks sempre foram sobreviventes desesperados. Quando mais de um clã consegue se juntar em um pacto de caça e formar uma tribo, esse desespero deve ser colocado de lado para que a sobrevivência mútua seja garantida.

            “Daqui a pouco os clãs se separarão novamente”, reflete o grimlock com tristeza, pois ele sabe que o pacto que une os clãs em uma tribo, não é tão forte quanto o pacto que une cada grimlock dentro de um clã.

            Com o desanimo prestes a tomar conta, Braços de Adamantina segura sua marreta firme e retorna a sua cabana para passar esse desânimo em uma nova escultura, aquela que ao ser vista pelos seus inimigos os farão desistir temporariamente de uma nova investida ao serem tocado por toda a emoção que escultor está vivenciando, ampliado através de sua capacidade artística. Ele pensa em como traduzir aquilo para uma forma sólida. Como passar aquilo para uma pedra e logo compreende onde ele deve fazer. Ele resolve esculpir sua mais nova obra em um ponto visível. “Não poderá ser muito grande, mas deverá ser visível a distância”, comenta consigo sabendo que não terá muito tempo para esculpir uma obra monumental.

            Ele pega suas outras ferramentas e se prepara para sair de sua barraca, mas antes ele toca a escultura de Araushnee quando é surpreendido pelo cheiro da drow com nome de deusa.

            – Achei que encontraria Mãos Calejadas, mas você cresceu basntante não é Braços? – o grimlock escuta a voz suave de uma drow que, por mais tempo que tenha passado, nunca saiu de sua memória.

            Surpreso e ao mesmo tempo sentindo seu ânimo retornar, ele se vira para tocar aquela que tanto o inspirou.

            – Como não escutei você chegar? – sorri o grimlock enquanto toca o rosto de Lolth – Eu sabia que você estava por perto. Senti seu cheiro antes das investidas.

            Ele escuta a respiração de Lolth se alterando como se ela estivesse sorrindo.

            – Não poderei ficar muito tempo, meu filho. Preciso terminar o que iniciei entre os drows que cercam sua tribo. Vim apenas dizer que ajudarei ao máximo, porém vocês devem preparar uma pequena caravana para uma possível fuga. – diz a drow com um leve tom de tristeza em sua voz.

            – Não podemos fugir e deixar companheiros para traz, Araushnee. – comenta Braços deixando a preocupação retornar ao seu íntimo.

            – Sei o quanto vocês louvam seus votos. Não pretendo torná-los desonrados, mas enquanto pelo menos um de vocês viverem, seu povo viverá. Todos os seus companheiros viverão naquele que sair com vida desse confronto. – Lolth demonstra preocupação em sua voz – Aquele primeiro cerco que enfrentamos, não foi tão poderoso quanto esse. A cidade dos duergars que estavam atacando nossa tribo é distante daqui e eles não tinham como se reforçar sem perder um tempo precioso para suas estratégias.

            A inspiração do escultor luta para esvair. Ele coloca suas ferramentas ao chão e toca a drow com suas duas mãos, sentindo toda a curva e beleza dela. Ele sabe que a preocupação de Araushnee ou Lolth, é verdadeira. Ele sabe que quando ela diz “nossa tribo”, é porque realmente ela se sente parte da mesma tribo. A importância do que ela diz ao seus ouvidos é imensa.

            – Eu sei que nossa situação é complicada. Mas como convencerei os outros a se prepararem para partir? – pergunta realmente o grimlock confuso.

            – Você sabe que não será difícil, meu filho, meu irmão. Nosso povo está começando a se desesperar. Você não pode deixar que isso ocorra. – responde a drow.

            – Mas por que eu? Como poderei ajudá-los? – questiona o escultor ainda mais confuso, quase desesperado.

            – Porque você compreende as emoções. Porque você é inspiração. Faça com que um ou vários bardos compreendam isso. Faça com que eles se tornem a inspiração e através de suas canções despertem a natureza de nossos irmãos. Você é o ponto inicial do despertar de sua tribo. – afirma a deusa de forma categórica.

            Braços sente-se contagiar pela esperança que a drow com nome de deusa trouxe a ele. Ele sabe que o que ela disse é verdade.

            – Farei isso Araushnee. Em… – responde ele pensando em complementar com um louvor, mas se interrompendo no exato momento em que o cheiro da drow se enfraqueceu no ar.

            “Mais uma vez você me surpreende deixando o local como se nunca tivesse estado aqui”, sorri Braços pegando suas ferramentas novamente do chão, “As vezes me pergunto se você realmente existe, Araushnee, ou se nada mais é que minha inspiração tomando forma em minha mente”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 1)

            “Agüentem mais essa investida, por favor”, deseja mentalmente Lolth Do’Urden enquanto observa do acampamento drow a segunda investida deles à tribo grimlock em menos de dois dias. Os grimlocks novamente resistem com bravura utilizando suas habilidades em combate e suas magias naturais, o que surpreendeu muitos dos drows de Sshamath que lideram o cerco.

            Mesmo com o silêncio de Lolth, o cerco está intenso, pois Sshamath nunca foi dependente de suas clérigas como muitas outras cidades drows. Estudiosos arcanos sempre tiveram uma maior importância para eles, ainda mais nas atuais circunstâncias.

            Antes de se infiltrar entre a comitiva drow de Sshamath, Lolth os observou por pelo menos duas semanas para descobrir a estrutura de poder e de relacionamento entre eles. Descobriu os principais nomes do cerco, quem era amante ou aliado de quem, quais as richas pessoais de cada um dos principais integrantes do exército. Entre os drows de Sshamath, os magos e feiticeiros possuem uma importância bem mais relevante que as clérigas de Lolth, mesmo esses sendo fieis a deusa. Esse comportamento reflete no exército que está cercando a tribo grimlock.

            Como Lolth veio descobrir o líder oficial do cerco é um mago de nome Calimar Khalazza da Escola de Evocação. Em termos simbólicos, havia também a liderança de uma drow clériga de Lolth chamada Erelda Dhuunyl, gráviada aparentemente de Calimar ou do mercenário Nadal Zaphresz, há anos, os dois principais amantes da clériga. Sua barriga já está imensa, provavelmente logo logo o novo ou a nova drow nascerá. Entre esse triângulo amoroso há também Guldar Khalazza, um mago mais jovem, ofuscado pela sombra de seu irmão mais velho, e que também é apaixonado por Erelda, e Alystin Elpragh, uma ilusionista obsecivamente apaixonada por Calimar e que estava aos poucos colocando o irmão e o mercenário contra o líder mago do cerco, até Lolth a escolher. “Nada mais perfeito”, disse consigo mesmo Lolth quando descobriu todas essas pequenas intrigas a respeito dos principais personagens do acampamento drow.

            O exército possui um pequeno contigente de guerreiros, por isso Nadal foi contratado com sua tropa, formada de drows e raças inferiores escravizadas, para auxiliar os magos de Sshamath. Nadal é o líder da infantaria, enquanto Calimar é o estrategista e líder do cerco. Mesmo Erelda possuindo um valor simbólico na liderança, ainda é respeitada por grande parte do exército. O jovem Guldar não possui grandes importâncias políticas, mas estrategicamente para a pseudo-deusa ele é uma chave mestra. Enquanto a Alystin Elpragh…

            Todas essas informações Lolth conseguiu através de sua maestria em esconder-se e espionar, além de sua maestria em se infiltrar em locais como um membro nativo. Após as duas semanas de espionagens intensas, alguém precisava ser substituida: Alystin Elpragh. Não foi difícil para Lolth, principalmente com a posse da Quelícera, matar Alystin. Ela escondeu seu corpo e pegou todos os pertences e as vestes da ilusionista.

            Para a sorte de Lolth, essa possuía alguns itens mágicos que seriam úteis para simular as ilusões da recém falecida drow. Com alguns equipamentos e as condições certas Lolth conseguiria se passar por Alystin, desde que não permanecesse muito tempo na presença de seus companheiros. A Elpragh não era uma peça tão importante na missão do cerco, e isso ajudava muito para que os diálogos fossem curtos na maioria das vezes.

            Apenas após uma semana de infiltração, durante a espionagem, que a pseudo-deusa disfarçada resolveu enviar uma mensagem olfativa a qualquer grimlock da tribo que se recordasse dela. Tomando um banho em um lago próximo com os sais minerais certos, ela apenas aguardou que uma corrente de ar levasse seu cheiro. Do fundo de seu coração Lolth esperou que tivessem entendido que ela estava infiltrada no acampamento drow, e que estará auxiliando na sobrevivencia da tribo.

            Dentro desse tempo de infiltração, muito progresso foi feito. Lolth como Alystin iniciou o processo de sedução de Calimar e Nadal. Guldar já estava a meio caminho andado, já que a própria Alystin havia feito grande parte do serviço. Erelda passou a se sentir rejeitada depois de algum tempo e começou a questionar as intenções da ilusionista. Lolth apenas se esquivou da conversa e iniciou uma contra-argumentação, colocando os machos envolvidos como os sedutores da história. Erelda de início não acreditou muito na falsa Alystin, porém aos poucos percebeu como os machos estavam mais oferecidos em relação a ilusionista e aquilo tudo que essa havia dito passou a fazer sentido.

            A pseudo-deusa continua observando a batalha. Muito tempo já se passou desde o início da investida. O contentamento toma conta de seu peito, “Terei tempo para terminar meu serviço”, pensa sorrindo.

            Há muito pouco tempo que Lolth conseguiu a arma que precisava para atingir o vespeiro. Nadal estava viciado nas habilidade da falsa ilusionista em dar prazer, enquanto Guldar cada vez mais se apaixonava por Erelda graças algumas conversas com a ilusionista. Calimar caía de paixão por Alystin enquanto Erelda a via como uma puta fraca que era facilmente seduzida pelos seus ex-amantes traidores. “Tive sorte mais uma vez”, a Do’Urden complementa seu próprio pensamento ainda sorrindo. Ela sabe que se a trama já não estivesse, de certa forma, desenvolvida, uma semana nunca seria o suficiente para que tudo isso desse certo, mesmo com suas habilidades, carisma e beleza.

            Agora ela tem tempo. O exército drow está retornando ao acampamento com mais um fracasso. “Isso esquentará ainda mais as coisas”, comenta Lolth vendo mais uma oportunidade se formando com a derrota. O orgulho drow está ferido novamente, Calimar e Nadal estarão se atritando ainda mais com os nervos à flor da pele. Logo quando a primeira investida terminou, eles começaram a demonstrar que havia inveja e cíume mútuo. Além disso, cada um gosta de se aliviar da culpa e da vergonha do fracasso, jogando a responsabilidade por qualquer falha cometida nas mãos do outro.

            Logo todos estão reunidos novamente no acampamento. Nadal e seu exército conversam a respeito da batalha e tentam encontrar quais foram as falhas. Enquanto isso, Calimar conversa com seus magos para descobrir o que deu errado na estratégia utilizada. Em ambos os grupos os envolvidos dizem que faltou cooperação do outro contigente, enquanto os grimlocks pareciam um bloco impenetrável de pedra graças a sua “unidade militar”, se assim poderia ser chamado.

            Durante a conversa entre os contigentes e seus respectivos líderes, Lolth prefere conversar com Guldar Khalazza e já colocar parte de seu plano em ação.

            – Guldar, meu caro. Vi que trabalhou arduamente na batalha de hoje. – comenta como se nada quizesse a peseudo-deusa.

            – Mas foi inútil. Meu irmão e aquele imbecil do Nadal estão deixando suas rixas atrapalharem os planos de Sshamath. Iremos perder esse sítio de adamantina se os dois se digladiarem antes do serviço ter terminado. – comenta Guldar com raiva na voz enquanto Alystin toca seu ombro.

            – Há coisas piores acontecendo, Guldar. – comenta a falsa ilusionista deixando claro a tristeza em sua voz.

            – Como assim, Alystin? O que você sabe? – pergunta preocupado o jovem mago olhando nos olhos magentas de Lolth.

            Ela responde o olhar com uma feição de tristeza, sem medo de demonstrar fraqueza ao mago.

            – Pode me dizer, você sabe que somos confidentes. – diz o mago com o intuito de tranqüilizá-la.

            Durante essa última semana, Alystin tornou-se a conselheira de Guldar. Por ter sido por décadas apenas uma sombra de seu irmão, Guldar sempre sentiu o peso de ser considerado fraco. Para todos seus companheiros drows, ele tinha que manter ao máximo uma pose imponente a fim de não desonrar sua Casa nem sua Escola de magia. Porém esse esforço era exaustivo para o jovem Khalazza. Quando Alystin se tornou sua “amiga”, ele teve com quem se desabafar e isso cada vez mais o tornava dependente dela. Ter em quem confiar, isso é ótimo ao jovem mago, mesmo que pareça uma doce mentira dentro da sociedade drow.

            – Nadal pretende levar as honras da vitória e entregar o sítio à responsabilidade dos Dhuunyl. Sua Casa não ficará com as honras se o plano dele der certo. – diz ela exitante.

            – Mas ainda sim o sítio será de nossa grande cidade. – retruca ele tentando não acreditar naquilo.

            – Sim, teoricamente será. Na prática o sítio servirá aos propósitos dos Dhuunyl e do grupo de mercenários de Nadal. – responde Alystin dando uma pequena pausa para um suspiro antes de prosseguir – Acredito até mesmo que o grupo será o mais beneficiado, já que Nadal está cada vez mais, conseguindo tirar seu irmão do jogo de sedução entre ele e Erelda.

            – Como!? – pergunta cheio de ódio o jovem mago, deixando o ciúme controlá-lo.

            – Nadal está me usando, confessou isso a mim. Ele me seduziu para causar ciúmes a Erelda. Usou o que eu sinto por seu irmão para que eu o conquistasse e fizesse com que Erelda acreditasse que Calimar estava me seduzindo. – responde Alystin com a voz tremida enquanto uma lágrima escorre em seu rosto.

            Guldar apenas encara a ilusionista com uma mistúra de cíume e ódio no olhar.

            – Como você se deixou ser usada dessa forma? – pergunta o jovem mago deixando a raiva sair com sua voz.

            – Eu fui fraca. Fui fraca por não conseguir seu irmão de verdade. Quando Nadal me seduziu eu ainda não sabia o que fazer para ter seu irmão. – ela pausa para controlar o choro – Agora eu tenho seu irmão e falta pouco para Nadal ter Erelda de vez. Você tem que fazer algo.

            Guldar toca o ombro de Alystin.

            – Não se preocupe. Farei algo. – diz em tom amigável com receio de perder a confidente por ter sido tão rude – Mas não sei o que fazer no momento. Minha vontade é simplesmente matar Nadal.

            – Podemos fazer isso sem comprometer a campanha. – responde Alystin com um olhar traiçoeiro, característico da ilusionista original.

            – O que você sugere? – pergunta o mago intrigado.

            – Já tirei seu irmão de Erelda, agora a briga é entre você e Nadal. Se ele morrer durante a batalha, quando essa já estiver próxima a ser ganha, não haverá grandes problemas e você não será visto como traidor de Sshamath. – diz ela tentando esboçar um sorriso em seu rosto umido.

            Guldar olha fixo para sua confidente. Ele parece notar algo de estranho na face de Alystin, mas logo ignora qualquer suspeita, pois o que há de estranho é o próprio fato dela ter chorado; ele nunca havia testemunhado.

            – E como faremos isso? Nadal é um guerreiro ímpar. Não conseguiria enfrentá-lo. – pergunta o mago.

            Lolth sorri:

            – Eu o enfraquecerei o suficiente. Deixarei-o cansado para a próxima investida. Durante a batalha, você o atingirá com suas maiores magias, enquanto cubro seus atos através das minhas ilusões. – Guldar sorri ao escutar sua companheira – Faça da maneira correta e todos acharão que os grimlocks o mataram.

            Guldar sente seu ódio se tornando prazer por ver que sua vingança e seu desejo serão satisfeitos em breve. Por um momento Alystin parece mais bela do que o normal e mais inspiradora. O mago ri para si mesmo, ele sabe que isso é uma ilusão causada por sua ansiedade. Por um momento a ilusionista parecia uma deusa.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 4)

            “Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”, um insight vem na mente no mago Sol’al Teken’Th’Tlar em meio ao seu Reverie. “Talvez seja isso”, diz a si mesmo enquanto escuta algumas conversas ao seu redor.

            Por não estar mais escutando nem sentindo a vibração do ronco de Brum, ele acredita que esse esteja fazendo parte da conversa. Atento e tentando aguçar sua audição, Sol’al começa a distinguir os sussurros.

            – Claro que não era pra nós. Eles não sabiam da nossa contratação. – diz o imenso ogro ao seu companheiro de conversa, que facilmente Sol’al percebe ser Alak.

            – É disso que estou falando Brum. Acho que a presença do mago é tão indigesta aos dois quanto a nossa. – comenta Alak tranqüilamente enquanto o ogro segura o riso.

            – De boa Alak, o maguinho nem tem como ser mais indigesto que nós. – comenta ele.

            Sol’al controla sua raiva ainda se mantendo na posição que estava quando entrou em Reverie, esperando que os dois mercenários falem algo que realmente os comprometam. Porém nada surge. Ambos ficam apenas conversando assuntos banais como cerveja, mulheres e táticas de guerra.

            Depois de algum tempo o mago Teken’Th’Tlar volta a escutar o ronco fortemente sonoro de Brum. Até que uma voz masculina chama a atenção de Alak:

            – Descobriu algo mercenário?

            A voz está baixa, mas Sol’al consegue reconhecer como sendo do guerreiro Xorlarrin, pois não teria como ser de outra pessoa; a não ser que mais um “suporte” estivesse por perto.

            – Sim. Há uma outra passagem, mas não me pareceu mais segura que essa. – responde o eremita também com voz baixa.

            – Por que? – questiona o guerreiro.

            – Há orcs e um grupo se digladiando. – responde Alak como se aquilo não importasse.

            – Grupo? – pergunta o guerreiro como se estivesse lendo a mente de Sol’al.

            – Sim, um grupo de seres inferiores liderados por uma clériga de Lolth. Aquilo que teoricamente estamos procurando. – responde cinicamente o eremita.

            “O culto a Lolth?”, se questiona surpreso o mago. A ansiedade começa a tomar conta do corpo de Sol’al, mas esse se controla para não perder a oportunidade de descobrir o que está ocorrendo na missão. O silêncio tomaria conta do local se não fosse pelo ronco do ogro, até que o Xorlarrin retoma a conversa:

            – Você não está procurando nada. Até onde entendi, você e seu amigo foram contratados para protegerem a clériga, correto? – diz secamente o guerreiro.

            – Correto, Mestre Q’Xorlarrin. – responde Alak com reverência.

            Sol’al não escuta resposta, mas acredita piamente que o guerreiro a fez com seu habitual sorriso. A mente do mago se entrega a um turbilhão de pensamentos, aos poucos ele começa a se concentrar para poder refletir de maneira mais coesa. “O culto a Lolth pelos escravos não é a real razão de tudo isso. Isso eu entendi”, comenta consigo mesmo, “Mas qual será o real objetivo dos Xorlarrin? Será que Orghz sabia ao pedir a ajuda da minha Casa? Será que esses dois Xorlarrin realmente se sentem incomodados com a minha presença?”. Enquanto várias questões palpitam na mente do mago, ele escuta Alak chamando o guerreiro Xorlarrin:

            – Mestre Q’Xorlarrin? Temos companhia.

            Sol’al com o olho semi-serrado vê ao longe uma luminosidade claramente mágica e alguns sussurros. “Esses sussurros parecem ser em abissal”, comenta mentalmente enquanto tenta entender direito o que está ocorrendo. “Eles estão refazendo as armadilhas destruídas!”, conclui Sol’al abrindo os olhos e vendo que o Xorlarrin, Alak e a ladina muda não mais estão lá.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 3)

            – Por Lolth. – Mirka escuta Sabal Dyrr comentar enquanto vê Stongest desativando mais uma armadilha física virtualmente invisível com extrema perícia.

            A pequena kobold apenas olha sorrindo em direção a clériga, enquanto essa observa pasma refletindo sobre todas as habilidades que o pequeno e robusto meio-goblin demonstrou.

            – Ele é o Guardião, afinal de contas. – diz Mirka ainda sorrindo chamando a atenção da espantada clériga.

            – É. – concorda a clériga sem saber mais o que dizer.

            Tanto Sabal quanto Mirka sabem que se Stongest não estivesse na batalha contra os orcs, havia grande probabilidade do grupo estar morto. Stongest é extremamente habilidoso com seus machados, em se esconder e se camuflar no ambiente, em desarmar e provavelmente armar armadilhas, em escalar e se esquivar.

            – Como alguém tão habilidoso passou despercebido tanto tempo no Braeryn? – pergunta a drow à sua pequena companheira.

            – O Guardião não busca a fama. Ele existe para proteger a deusa e a Fé que temos em seus ensinamentos. – responde Mirka com extrema certeza na veracidade de sua resposta.

            Sabal apenas sorri e dá uma olhada ao seu redor, para ver como andam as coisas. Ela vê Gromsh de vigília atrás do grupo, enquanto Mirka fica ao seu lado e Stongest a frente desarma e encontra armadilhas. A clériga volta a olhar para a kobold enquanto se poem a pensar a respeito do que a pequena havia acabado de dizer e um estalo surge em seus pensamentos:

            – Stongest existe desde que Lolth era uma criança, correto? – pergunta a clériga curiosa.

            – Não, Senhora. – responde a kobold sorrindo enquanto Sabal alivia sua suspeita – Na verdade desde antes dela encarnar.

            Os olhos de Sabal se arregalam. “Não tinha parado para pensar nisso”, constata mentalmente Sabal. Stongest é mais velho que a pseudo-deusa, sendo que, aparentemente, a Lolth herege é um pouco mais velha que ela.

            – O que foi, Senhora? – pergunta Mirka arrumando seu manto.

            – Nada. Apenas não havia parado para pensar em como o guardião é velho. Não me recordo de nenhum goblin viver por tanto tempo. – comenta Sabal enquanto Mirka se dispara a rir o mais discretamente que ela consegue.

            – Que foi Mirka? – pergunta a clériga.

            – Me desculpe, Senhora. Acho engraçado você ver o Guardião em padrões mortais. Ele não é um goblin. – responde Mirka com a cabeça baixa em sinal de respeito.

            – É. Havia me esquecido. – responde Sabal impressionada com a fé, não Fé, que a pequena kobold possui por Stongest.

            – O que vocês estão falando? – Stongest se inclui na conversa.

            – Não há mais armadilhas? – pergunta Sabal olhando analiticamente para o rosto de Stongest.

            – Não nessa á’ea. Vamos passa’ po’ out’as ‘unas. – responde Stongest se sentindo incomodado com o olhar da clériga.

            – Vamos. – concorda a clériga – Mas antes gostaria de ter uma conversa com você Stongest.

            O meio-goblin levanta uma de suas sobracelhas.

            – Mirka, você poderia nos deixar à sós por um tempo? – pergunta a clériga à kobold.

            – Sim, Senhora. – responde Mirka sorrindo e se afastando para junto de Gromsh.

            Quando a pequena kobold está em uma distancia considerável dentro do limite em que eles podem se locomover, Sabal volta a se dirigir a Stongest em baixo-drow e quase sussurrando:

            – Você é muito hábil Stongest. Muito mais hábil do que a maioria dos drows que eu conheci. Me diga a verdade: como você conseguiu não ser conhecido dentro do Braeryn?

            Stongest olha nos olhos da clériga.

            – Sabal, esse assunto é inútil. – responde secamente o guardião.

            A clériga sente sua face rubresser, mas não desiste:

            – Quero saber quem te treinou? Onde você nasceu? Quem são seus pais? Um goblin não vive tanto tempo quanto você está vivo. Seu pai ou sua mãe, algum deles, possuía algum tipo de longevidade.

            – P’a que você que’ sabe’ disso, Sabal? – pergunta o guardião desconfiado.

            – Preciso saber a respeito das capacidades de meus companheiros. Afinal sei que Gromsh fazia parte de um exército gnoll antes de ser capturado como escravo. Sei que Mirka era uma kobold acolita de um mago humano discípulo de um dragão. – diz a clériga olhando firmemente nos olhos do meio-goblin – Mas sobre você não sei nada. Não sei como lhe encaixar nas minhas estratégias. É complicado liderar aqueles que nem mesmo eu conheço as habilidades.

            O olhar de Stongest ganha um ar de surpresa, ele ainda não havia visto uma drow se desabafar de forma tão sincera a respeito de alguma fraqueza. Sabal continua analisando o rosto do meio-goblin, principalmente os traços ovalados de seus olhos, quando esse responde incomodado novamente com o olhar da clériga:

            – Você não p’ecisa sabe’ o que eu posso faze’. Quando eu p’ecisa’ faze’, eu faço.

            O meio-goblin vira as costas para a clériga e caminha em direção à próxima armadilha. Sabendo que não conseguirá tirar nada a respeito da história do guardião, Sabal tenta suavizar o final da conversa:

            – Então apenas me diga, como você consegue viver por tanto tempo? Não é normal de sua raça.

            – Eu tenho sangue elfico. – responde o guardião com desdém.

            Sabal ri.

            – Mirka. Gromsh. Vamos continuar. – comanda a clériga.

            O grupo caminha em direção a próxima runa. Sabal continua sorrindo pela resposta dada por Stongest, mas logo seu sorriso se desfaz. “Olhos ovalados”, constata ela com seus olhos vermelhos arregalados.

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