Archive for the ‘ Immortuos ’ Category

30º Post

Não sei por onde começar. Estou atônito, confuso e com muito medo. Toda a perspectiva apontava para a melhoria da situação humana no mundo. As coisas estavam voltando a progredir. Essas criaturas podres estavam sumindo.

Simplesmente sumindo.

Já imaginava mesmo que algo estranho estava acontecendo. Tinha esperanças de que eles estivessem morrendo em áreas selvagens, procurando seres vivos dos quais se alimentarem, ou algo assim.

Sinceramente, queria que todos esses últimos ocorridos fossem algum tipo de pesadelo. Que eu estivesse dormindo e logo acordaria.

Depois da tentativa de invasão de immortuos “novos” nessa tarde, os moradores de nossa Necropoli, tanto a civil quanto a militar, ficaram bastante ansiosos com os presságios que isso nos trazia. Era o sussurro rastejante de uma noite sombria e aterrorizante e, pior, de um futuro ainda mais sombrio e amedrontador.

Os grupos de immortuos não retornaram, mas tivemos outra visita: uma sobrevivente. Ela chegou desnutrida com seus cabelos desgrenhados, com a pele imunda – cheia de sangue seco, terra, fuligem, e seja lá mais o que pode deixar a pele extremamente encardida –, roupas rasgadas, dentes podres e feridas pelo corpo, talvez resultado de alguma micose ou outra doença de pele. Seu olhar fundo é desesperador, de quem passou por horrores indescritíveis, algo semelhante ao olhar de sobreviventes de Auschwitz ou de testemunhas de algum crime hediondo. Seus olhos são inquietos, um sintoma grave de stress.

Quando ela apareceu no Portão 2, nossos vigias acionaram o alarme dos comunicadores e não a deixaram entrar, acreditando que essa mulher era mais um deles. Ela não falava nada inteligível, apenas gritava e grunhia em desespero, tentando inutilmente balançar as grades do portão, enquanto olhava aterrorizada para trás, como se estivesse sendo perseguida. “Deixe-me entrar!”, gritou ela com sua voz rouca – segundo os relatos dos vigias, eles acreditam que ela já estava gritando isso antes, mas eles não conseguiram compreendê-la –, mesmo assim, eles não abriram, pois havia uma ordem dos militares de não abrirem os portões para ninguém, mesmo que essa “pessoa” falasse. Eles obedeceram, mesmo sem saber o porquê.

Mas ela não desistiu. Quando os militares chegaram, ela continuou tentando abrir o portão, cansada, arfando, e só parou quando eles apontaram a lança para ela. “Por favor, deixe-me entrar”, ela chorava com a voz falha, e caiu de joelhos em pranto. Os militares arriscaram. Preferiram deixá-la entrar e examiná-la, para ver se não era nenhuma sapien immortuos, pois se não fosse, aquela mulher precisava seriamente de ajuda.

Ela foi trazida até meu consultório, acompanhada de soldados, médicos e o Comandante Rodrigues. Perguntei o que estava havendo e o Comandante respondeu: “É uma sobrevivente. Ela está falando algo sobre um ‘criadouro’, mas não conseguimos entender. Precisamos que você a acalme”. Vendo o estado da mulher, respondi: “Ela não se acalmará tão fácil, nem tão rápido”, e, com um olhar sério o militar ordenou: “As informações dela podem ser de extrema importância para nossa sobrevivência, dr. Faça o que for necessário”.

Eles me deixaram a sós com ela. Ela não parou de tentar falar sobre o “crriaadourro”, mas era muito difícil compreender sua fala. Pedi para que os soldados, que esperavam do lado de fora do consultório, trouxessem comida e água para ela. Da minha parte, optei por dar tranqüilizante àquela mulher. Não queria que ela fosse interrogada, porém ela insistia: “Nã… p… dorrmirr. Q…falarrr…”. A observando de perto, percebia sinais de desidratação. Não sei se ela teve sorte de ter sobrevivido, pois com certeza ficará com seqüelas físicas e mentais.

Os militares trouxeram o que pedi. Ela se alimentou vorazmente e bebeu água, pedi para ela não exagerar, pois passaria mal, mas entrou em um ouvido e saiu pelo outro. Ela vomitou grande parte do que tinha ingerido pouco depois. Após vomitar, ela bebeu água, mas dessa vez sob minha orientação, comeu algumas bolachas e sentou-se.

“Você precisa se acalmar, por favor, tome o tranqüilizante”, disse a ela com um tom calmo de voz. Ela me olhou e falou de vagar, engasgando um pouco: “Eu… preciso falar…”. Respondi a ela: “Esse remédio não irá derrubá-la, apenas deixará você mais tranqüila. Você poderá falar”. Ela negou com a cabeça e disse: “Não… quero… ficar grogue”. Garanti que não ficaria, que lhe daria uma dose apenas para baixar sua ansiedade, ela, mesmo desconfiando um pouco, aceitou e tomou o remédio.

Assim que o engoliu, pediu para que eu chamasse o Comandante. Então pedi para que os soldados o chamassem e, junto a ele, pelo menos um médico para examiná-la direito. Enquanto esperávamos pelo militar, sugeri a ela que tomasse um banho, já que meu consultório era o quarto de uma das residências da Necropoli. Ela aceitou. Pedi para uma das moradoras emprestar-lhe uma roupa e ajudá-la com o que fosse necessário. Antes de sair, perguntei seu nome: “Suzana”, respondeu-me.

Suzana demorou bastante no banho, talvez para tentar tirar o grosso da sujeira, nisso o Comandante chegou. Sabendo que ele não era um homem sensível, conversei brevemente a respeito do interrogatório que faríamos: como fazer as perguntas e até onde ir; já que iríamos interrogar uma pessoa em choque. Ele concordou, mesmo tendo deixado sua impaciência tomar conta da conversa em alguns momentos.

Suzana voltou, ainda encardida, mas aparentemente mais limpa. Pedimos para que ela se sentasse e contasse o que ela queria nos dizer. Colocarei os trechos mais importantes da conversa:

Suzana: Eu sobrevivi… (Pausa, olhando para o espaço a frente como se estivesse em outro lugar. Seus olhos ficaram úmidos). Sobrevivi… (Mais uma breve pausa). Aquele lugar… horrível! O cheiro! O ambiente! A tensão… A morte era certa… Era inevitável… inevitável. (Chora copiosamente).

Eu: Suzana. (Pausa. Ela chora mais um pouco e depois me olha). Quer falar sobre isso outra hora?

Suzana: (Desesperada) NÃO! Vocês não sabem o que é aquilo! Vocês não sabem o perigo que correm! (Levanta-se).

Eu: Por favor, Suzana, acalme-se. (Pausa). Você pode falar. Que lugar é esse?

Suzana: Um criadouro! (Pausa. Suzana senta-se, balançando as pernas ansiosamente). Eles nos capturam e criam como se fossemos animais. (Chora mais um pouco).

Comandante: (Impaciente). Eles quem?

Suzana: Os mortos. Os mortos nos colocam para viver em grandes valas. Nos alimentam como porcos. (Olha chocada para a parede branca, como se deslumbrasse exatamente a cena em sua frente). Eles queriam que nós procriássemos! (Volta a chorar).

Eu: (Atônito). Os mortos faziam isso com vocês? Esses mesmos mortos que a estava perseguindo?

Suzana: Não! (Olha para os meus olhos. Olhar desesperado). Outros! Esses não sabem o que fazem… Eles me perseguiram porque os outros descobriram que nós fugimos.

Comandante: Quem são “nós” e os “outros”?

Suzana: Eu não fugi sozinha… Fizemos uma rebelião… Éramos alguns, mas só eu sobrevivi. (Pausa). Meus amigos foram devorados e se tornaram amigos deles.

Comandante: (Desconfiado). Os que te perseguiam eram seus “ex-amigos”?

Suzana: Não só. Alguns poucos eram. (Pausa). Bem poucos… A maioria não.

Comandante: Eles não estavam apodrecendo…

Suzana: Não! Eles se alimentavam de nós e de animais! O criadouro é pra isso! Para eles terem alimentos!

Comandante: (Ainda mais impaciente). Mas por que um criadouro humano?! Demoramos demais para ter filhos.

Suzana: Não tinha só o nosso! (Pausa). Vi criadouros de coelhos e ratos também.

Comandante: (Pensativo). O que eles faziam com vocês?

Suzana: Só nos alimentavam e queriam que procriássemos! (Pausa. Chorando). Mas não dava! Não lá! Não daquele jeito!

Comandante: (Perdendo a paciência). Se eles se alimentavam de animais, pra que criar humanos? Nós damos mais problemas para eles do que meros animais! Me diga o que eles faziam com vocês? Por que eles queriam que procriassem?

Suzana: NÃO! (Em choque). Não!

Eu: Suzana! Está tudo bem. (Com voz calma e amigável). Você está salva. (Pausa). Por favor, acalme-se. (Pausa maior). Nos fale quem são os “outros”.

Suzana: (Chorando, tentando se acalmar). São os líderes… (Pausa). Eles olhavam diferente. Falavam… (Pausa). bem lentos… Pareciam débeis mentais.

Comandante: (Constatando). Debile Immortuos.

Eu: (Confirmo com a cabeça).

Suzana: (Olhando desconfiada). Eles só pareciam débeis mentais… Eles não eram.

Eu: (Confidente). Acreditamos em você, Suzana.

Suzana: Principalmente o dono. (Pausa). Ele nos ameaçava. Dizia que se não procriássemos, seríamos levados para alimentar seus “irmãos”, ou algo parecido. (Pausa). Ele falava como se estivesse vivo.

Comandante: (Olhando para mim). Você sabe o que é, não?

Eu: Sim, Comandante.

Comandante: (Olhando para ela). Quem é esse dono?

Suzana: Não sei seu nome. Mas era um morto.

Eu: Você o viu? Pode descrevê-lo?

Suzana: Não o vi. Apenas sua sombra, quando eu fugi. (Pausa). Ele nos disse: “Inútil fugir! Não há portas que sejam capazes de impedir a morte de pegá-los”. (Grifo meu).

O interrogatório não foi muito além disso, mas aquela frase está me perturbando. A semelhança é muito grande. O Comandante disse que enviará amanhã um grupo de busca ao local que Suzana nos indicou; pedi para ir junto.

Eu realmente preciso saber. Preciso acabar com minhas dúvidas.

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29º Post

A dúvida prossegue, mas soma-se outro evento a ela. Logo após ter terminado de escrever o post anterior, ouvi o comunicador de minha república tocar em alerta. Fui ver o que era e havia uma grande movimentação de militares dentro de nossa Necropoli. Escutei tiros – o que me deixava ainda mais preocupado com a gravidade da situação – e urros furiosos aparentemente fora de nossos muros.

Curioso, segui os militares e vi dezenas de immortuos empurrando o Portão 3, quase o derrubando. De dentro, os militares usavam lanças, enquanto quatro ficavam nas guaritas próximas com fuzis e pistolas. O que mais me impressionava disso tudo era o fato de que aqueles immortuos não estavam podres e lentos. Eles eram “novos” e rápidos, talvez tivessem acabado de passar pelo rigor mortis, não sei dizer, mas ainda estavam “novos”.

Senti meu coração perder o compasso e um frio gelou minha espinha. Os militares tiveram muita dificuldade para parar aqueles seres, e provavelmente não conseguiriam, se algo não os tivesse chamado para longe de nosso portão. Um urro gutural e aterrorizante pareceu soar como uma trombeta e aquelas criaturas deram meia volta e passaram a nos ignorar indo embora tão rápido quanto surgiram.

Nunca tinha visto aquilo. Não sabia o que estava acontecendo, nem quem tinha dado o tal urro, sei apenas que havia algo comandando aquela turba; o que era extremamente perturbador.

Os militares estavam tão pasmos e assustados quanto eu. Eles haviam gastado muitas munições e quase perderam lanceiros. Além disso, tínhamos um novo problema estrutural, o portão estava inutilizável e frágil. Convocamos vários moradores e consertamos rapidamente o portão da melhor forma possível.

A dúvida persiste. Mais forte e mais aterradora.

28º Post

Hoje, aproximadamente duas horas atrás, tivemos a visita de um grupo numeroso de immortuos em um de nossos portões. Estavam todos decompostos quase ao extremo. Alguns deles se arrastavam, outros caminhavam lentamente. Nossos vigias nos avisaram e nos mantivemos longe dos portões, com a intenção de não atiçá-los.

Eles se permaneceram por lá tentando derrubar o Portão 3 até a chegada dos militares, que com lanças longas de metal perfuravam suas cabeças. Cada lança era manuseada por dois militares através do portão, pois esses immortuos apodrecidos eram muito fortes e resistentes. Alguns deles, por reflexo, tiravam a lança de sua direção com tamanha força que as entortavam. Mesmo assim eles foram executados, um por um; infelizmente, não antes de deixar o portão 3 levemente danificado.

Talvez soe estranho eu mencionar que os militares utilizam lanças, mas isso é um fato por aqui. Atualmente, cada militar anda com apenas uma pistola com um único pente e uma tonfa ou cacetete de ferro que são ineficientes quando se entra em contato com um número grande dessas criaturas; as armas mais pesadas ficam para proteger a Necropoli Militar.

Na situação atual é muito difícil produzir armas de fogo, portanto retomamos práticas antigas. Os arcos e bestas de mão, além de flechas e setas estão voltando a serem produzidas de forma artesanal. Além disso, também estão sendo feitas azagaias, fundas, lanças longas, bastões de madeira, boleadeiras e facões. Futuramente, acreditamos, que voltaremos a desenvolver tecnologias bélicas que nos protejam com mais eficiência, porém no momento é isso que temos.

Em comparação, não são apenas os nossos armamentos que retrocederam a um “período” medieval. Nossa forma de subsistência também. Nós, da Necropoli Civil e da Necropoli Militar, utilizamos um vasto terreno comunitário, também protegido por muros e guaritas, onde há plantações de verduras, legumes e frutas, além de criação de galinhas, coelhos e ratos de laboratório; fontes de carne que não ocupam muito espaço.

Porém, até mesmo criar esses animais dá muito trabalho. Eles são monitorados constantemente, para que não haja problemas com mortos em seus viveiros. Além disso, a preparação da carne é sempre muito cuidadosa, para que não criemos infectas acidentalmente.

Esses cuidados também são estendidos para nossos próprios mortos. Adotamos uma prática que nossa sociedade cristã consideraria bárbara: mutilação do cadáver. Como os cadáveres agora são fonte de combustível, todo recém falecido tem seu cérebro destruído imediatamente, depois ele é mutilado e suas partes são levadas aos laboratórios.

Com essa nova prática funerária, as alas hospitalares tiveram que passar por mudanças, além de nós todos estarmos passando por um processo de reeducação: necessidade versus crenças e taboos.

Os doentes graves são amarrados nas camas. Até mesmo no caso de cirurgias, eles amarram o paciente anestesiado, para o caso de, acidentalmente, eles falecerem durante o processo. Afinal de contas, cuidado nunca é demais.

Já tivemos problemas de pessoas que tiveram mortes fulminantes em casa, mas a situação foi rapidamente resolvida, por sorte. Os próprios moradores da república destruíram o immortuos recém erguido.

Retornando ao caso que me levou a escrever esse post. Após a destruição dos immortuos que estavam em um de nossos portões, os militares pegaram os corpos e levaram para seus laboratórios. Agora, o que levou essas criaturas a se aproximarem de nossa Necrópoli em grande número ainda não descobrimos. Talvez nosso cheiro voltou a atraí-los.

Quem sabe?

27º Post

Atualmente, com todas as minhas responsabilidades, tem sido difícil eu parar para escrever aqui no blog. Estou trabalhando como psicólogo para os moradores de nossa Necropoli. Há muitas histórias difíceis aqui dentro. Muitas pessoas precisando se reestruturar internamente.

Entretanto, vamos ao que interessa realmente para esse arquivo de sobrevivência. No post anterior contextualizei historicamente esse tempo que fiquei sem escrever e expliquei por cima como estamos vivendo nas Necropolis aqui em Campinas. Porém, não disse nada do que vimos lá no Laboratório Médico. Já considerava o que eu havia testemunhado no outro laboratório algo avançado nos estudos sobre esses seres que nos aterrorizam, porém, os arquivos que os militares do Laboratório Médico possuem é de se espantar. Evandro estava certo quando disse que havia arquivos que remetiam a “antigüidade”.

No primeiro mês que estive aqui na Necropoli Militar, eu e Alessandra fizemos amizade com alguns cientistas. Contei a eles sobre meu arquivo de sobrevivência e sobre o que já tinha observado a respeito dos immortuos. Porém, não revelei nada a respeito de minhas experiências no outro laboratório. Com o tempo, demonstrando minha curiosidade e reflexões, além do carisma e conhecimentos biológicos de Alessandra, conseguimos a simpatia deles e eles nos permitiram ler um ou outro arquivo mais superficial sobre o assunto. Foi apenas quando eu citei o “agente Paiva” e seus comentários, e Alessandra contou sobre seu trabalho no outro laboratório, que eles nos viram como “iguais”; porém, sem o direito de entrar nos laboratórios, eles apenas nos permitiram ver os arquivos.

Sei que foi arriscado abrir o jogo de tal forma, mas era o que nós podíamos fazer; e valeu a pena. Li registros que soariam para mim, antes disso tudo acontecer, como folclore ou coisas do gênero. Histórias sobre mortos que se levantavam do túmulo por ter um funeral “pagão”, ou pessoas que faziam pactos com espíritos malignos e se tornavam canibais longevos, mas extremamente malignos e inumanos. Entre outras coisas.

Me questionei: Como tudo isso chegou no estado que chegou? Como permitiram que esse fenômeno, muito antes conhecido, saísse do controle? Foi apenas quando reli meus posts que retomei algo que Evandro tinha dito sobre as proporções. Aqueles que detinham o conhecimento sobre esse fenômeno o viam, inicialmente, como algo extremamente raro e o tratavam assim. Foi em questão de uma semana que tudo mudou: que uma proporção de um para um milhão, caiu para um por um. Acredito que, quando eles perceberam que as coisas estavam mudando, já era tarde demais.

Fora essa proporção quantitativa, houve uma mudança na questão temporal da transformação. Li arquivos que estabeleciam o tempo de transformação de um cadáver em um immortuos como sendo de 1 a 3 dias – o que talvez explique a prática de longos funerais, com o intuito de garantir que o cadáver não voltaria, suponho – e em questão do mesmo período de ampliação dos immortuos, o tempo baixou, segundo os poucos arquivos que trataram disso, para de 6 a 12 horas, posteriormente caindo para o que conhecemos atualmente de 2 a 60 segundos. Algo extremamente rápido.

Outro fator importante é que: há muito tempo que os pesquisadores descartaram a idéia de que era uma doença virótica ou bacteriológica. Muitos acreditam que seja algo genético; mas isso não passa de uma crença, não há comprovações. Ela não é contagiosa como mostram nos “filmes de zumbis”. Não é a mordida que passa a “doença”, como eu já disse anteriormente. Esse foi um outro ponto que pegou os conhecedores do assunto de surpresa. Por não ser “contagioso”, eles não tinham como imaginar que o número desses seres aumentaria de uma hora para outra.

Pelo que parece, esse fenômeno era conhecido por muitos países do mundo e todos tinham estabelecido monitorias em seus devidos territórios. Eles sabiam que as pessoas teriam dificuldade de lidar com tal fenômeno, principalmente porque ele colocava em cheque várias explicações científicas além de que esses seres são mortíferos, altamente perigosos. Por essas razões, dizem, eles mantiveram as informações escondidas. Esses países mantinham contatos periódicos a fim de trocar informações, descobertas e formas de alertar o público sem alardear; talvez daí tenham surgido alguns “filmes de zumbis”.

Por esse motivo também, os arquivos continham nomenclaturas iguais as que vi no outro laboratório: Infectas, Immortuos, Bestia Infecta, Bestia Immortuos. Porém, aqui há sub-divisões, ou sub-classes desses seres. Os infectas e Bestia infecta, “infelizmente”, mantinham-se sem subdivisões, pois todos possuíam os mesmos traços comportamentais. Já os Immortuos e Bestia Immortuos possuíam diferenças comportamentais em seus próprios grupos.

Immortuos: Insanus Immortuos, Debile Immortuos, Sapien Immortuos. Respectivamente: aqueles immortuos insanos, sem nenhuma capacidade intelectual; os immortuos com capacidade intelectual mediana, porém o suficiente para utilizarem até mesmo armas de fogo, mesmo que com pouca precisão; e os com capacidade intelectual idêntica a que tinham quando eram vivos. Ou seja, finalmente eu vi algo que confirmou minhas suspeitas sobre o caso “Marcos”.

No caso dos animais há apenas duas subdivisões: Insanus Bestia Immortuos e os Bestia Immortuos. Sobre os primeiros não há necessidade de explicação. Os segundos são animais desmortos que mantém seus hábitos táticos. Às vezes é muito difícil de diferenciar um do outro, mas segundo os experimentos realizados no Laboratório Médico, eles perceberam que havia diferenças comportamentais bem sutis entre os bestia immortuos.

Creio que sejam importantes essas definições e delineamentos dos comportamentos desses seres, para entendermos a variedade de situações que podemos ter de lidar. É importante saber que são raras, segundo as pesquisas, a existência dos debile immortuos e muito raras as dos sapiens immortuos. No Laboratório eles nunca tiveram nenhum espécime da sub-classe mais inteligente. Tudo que eles possuem são relatos de campo.

Tudo isso na verdade, me deixa ainda mais apreensivo a respeito do que está acontecendo. Onde estão esses immortuos? Como sumiram tantos?

26º Post

Muito tempo se passou. Muitas coisas mudaram. Conseguimos sobreviver, creio que 60% foi por sorte, 30% por boa vontade de outros e 10% por habilidades nossas.

Não podemos negar que uma das nossas vantagens – dos seres humanos em geral – em relação aos immortuos, é que eles não se procriam. Para que um deles passe a existir, deve haver quem morra. Com o aumento no número de immortuos, houve uma diminuição no número de vivos. Não sei exatamente se eles começaram a apodrecer em algum recanto enquanto buscavam animais longe dos centros urbanos, ou se simplesmente já não sabiam o que fazer sem ter de quem se alimentar e começaram a apodrecer em lugares exclusos das cidades. Realmente não sei. Sei apenas que o número deles decaiu muito. A maioria dos que estão por ai, estão em estados diferenciados de putrefação e o que os deixam lentos; até mesmo os animais immortuos são raros de serem vistos. Isso me deixa realmente preocupado, principalmente que nenhum daqueles que tive contato nesses últimos meses apresentavam algum sinal de inteligência. Onde estão eles? A imagem da emboscada que sofremos em minha memória ainda me faz refletir bastante sobre esse assunto.

De qualquer modo, após sermos encontrados pelos militares, aproximadamente um mês depois dos últimos ocorridos que postei, eu, Gustavo, Marcela e Alessandra fomos levados para o Laboratório Médico da UC, atualmente uma Necropoli Militar. Também estranhei esse termo de início, tal como a maioria das pessoas ao redor do mundo deve ter estranhado quando essa palavra: “Necropoli”, começou a designar não mais cemitérios e lugares onde os mortos “moram”, mas onde os sobreviventes, os seres vivos que restam, vivem.

Passei todo esse tempo sem postar por vários motivos. Desde adaptação à Necropoli Militar que estávamos – afinal, precisava conhecer as pessoas com quem eu estava lidando – até problemas tecnológicos que passaram a existir. Na época que parei de escrever, a bateria do meu laptop havia esgotado completamente, fui descobrir isso quando tentei recarregá-la no Laboratório Médico, mas ela não só não recarregou como meu laptop sofreu algum curto. Consegui resgatar o que tinha no HD assim que adquiri um novo computador, o que demorou muito para acontecer.

Parece que as Necropolis de Campinas não foram as únicas a se erguerem. Em todo o mundo tiveram novas sociedades surgindo, soubemos de algumas graças às tecnologias de comunicação que ressurgiram após o período de escuridão pelo qual passamos.

Certo. Estou jogando um monte de informação, talvez porque esteja um pouco ansioso após esse longo período sem escrever. Tentarei esclarecer melhor como vivenciamos tudo isso em Campinas.

O período de escuridão durou aproximadamente dois meses, onde não tínhamos mais fontes de energia. Não sei exatamente o que levou a esse apagão, sei apenas que ele não durou muito, pois os cientistas e os militares já estavam contando com esse tipo de evento. Assim eles começaram um processo de desenvolvimento de baterias solares, transformação do gás metano dos cadáveres em combustível e dínamos movimentados por energia cinética; física não é meu forte, portanto não entrarei em detalhes sobre isso.

Durante esses dois meses, nossas luzes eram basicamente: tochas e lamparinas, além de lanternas com o mesmo mecanismo de dínamos cinéticos que mencionei no parágrafo anterior. Ao fim dessa fase, ou seja, recentemente, já com energia, os meios de comunicação foram sendo restaurados. Graças a isso estou escrevendo aqui novamente.

Na Necropoli Militar do Laboratório Médico, tinham por volta de três mil sobreviventes; bastante para a área reduzida onde ela foi formada. A relação militares e civis era bem melhor que no antigo laboratório, mas há razões para isso, a principal era que: dos três mil habitantes, um pouco mais de dois terços eram civis (contando com alguns cientistas). Maus tratos lá, com certeza gerariam tumultos entre outras situações bastante tensas; o que acabou ocorrendo uma hora ou outra.

Recentemente, após uma grande reunião e votação democrática na Necropoli Militar, decidimos por criar, em outro espaço, mas bem próximo, a primeira Necropoli Civil. Aproveitamos a diminuição no número de immortuos para fazê-lo, claro que com a ajuda dos militares.

A nossa Necropoli Civil da Cidade Universitária foi erguida com bastante suor. Fechamos uma área de aproximadamente duzentas residências com cercas e barricadas, que mantivemos até que terminássemos de construir muros altos o suficiente para que os immortuos tivessem dificuldade de pulá-los. Essa construção demorou razoavelmente, pois tivemos que fazer excursões para outros lugares em busca de materiais, porém, todos os civis estavam envolvidos em alguma atividade, o que acelerou bastante o levantamento do muro propriamente dito. Até mesmo a “esterilização” auxiliada pelos militares foi feita na maior parte por civis.

Caçamos e destruímos cada immortuos que se encontrava em nossa área. Limpamos todas as casas, desinfetamos com produtos químicos fortíssimos e as dividimos em repúblicas; infelizmente ainda não há como dividir por famílias, pois precisaríamos de uma área bem maior, o que é proporcionalmente arriscado. Para as necessidades atuais, duzentas residências já estão de bom tamanho. Não posso negar que a divisão das repúblicas foi um processo complicado, já que nem todo mundo se sentia agradado com as decisões, mesmo que essas tenham sido feitas democraticamente.

Cada república, ou “mausoléu” como alguns dizem, contam com pelo menos duas bicicletas – sim, no momento é inviável manter automóveis, mas os cientistas, engenheiros mecânicos (incluindo Gustavo), entre outros, estão pesquisando novas formas de “combustível” para carros, motos, etc – além de possuírem um comunicador direto com a base militar.

Na extensão dos muros temos vinte guaritas altas, na qual ficam dois vigias por turno. Esses vigias não possuem armas de longo alcance e têm em mãos um sistema bem simples de comunicação, o papel deles é simplesmente deixar as pessoas avisadas da proximidade de immortuos e em casos de risco, eles também possuem comunicação direta com os militares. Até o momento tivemos poucos problemas para resolver.

Nas escolas tivemos que priorizar além das ciências exatas – que nos ajudará a reformular a tecnologia futuramente – a pratica de esportes. Todos sabem da importância de ter um bom preparo físico para sobreviver esse tipo de calamidade, portanto: atletismo, le parkour, artes marciais (principalmente as que mexem com armas brancas), etc, passaram a ser parte do currículo não só como “educação física”, mas como disciplinas a parte; o estudante escolhe pelo menos dois esportes que quer treinar.

As decisões da Necropoli são feitas em “praça pública”, onde todos têm o direito de opinar e votar, porém é opcional, vai quem quer. Preferimos assim, pois nos dá uma sensação de retorno a democracia e a vida, não a “sobrevida”.

Com o tempo vou falando de como estamos vivendo em nossa Necropoli e os planos de ampliação futuras. Quem sabe um dia, poderemos povoar o mundo novamente e tornar isso tudo mais seguro, ao contrário do que acreditava Lúcia.

Untoten

Há anos que Renner Sven estuda aquele judeu que morreu e “ressuscitou”, porém suas pesquisas foram infrutíferas para entender tal fenômeno. Nos campos de concentrações ocorreram pelo menos dez casos de judeus e ciganos que morreram e “ressuscitaram” com hábitos canibais; a maioria acabou sendo destruída, ou pelos guardas alemães ou pelos próprios companheiros, apenas dois foram aprisionados e levados para os laboratórios da Renânia e para o laboratório onde Renner trabalha, em Anschluss.

Esses casos ajudaram os cientistas nazistas a entenderem as informações passadas pelos italianos e japoneses, cada um de sua maneira, a respeito de mortos famintos que se levantam do túmulo. Aquelas criaturas só eram abatidas quando suas cabeças fossem destruídas.

A partir dos dois espécimes capturados nos campos de concentração e outros capturados nos campos de guerra na China e Polônia, os cientistas do Eixo puderam pesquisar aquele fenômeno estranhamente natural. Porém, muito pouco descobriram.

Mesmo assim, graças ao contato com tais criaturas, a criatividade mórbida de alguns cientistas borbulharam. Eles pensaram em várias possibilidades de utilização daquele tipo de criatura em batalha. Desde o desenvolvimento de algum “vírus” altamente contagioso para ser espalhado em alguma cidade, até a criação de algum pelotão formado por untoten treinados.

Foi com essas idéias que a equipe de Renner passou a trabalhar, porém, para o cientista, restou por obrigação estudar o fenômeno natural. Como ele e sua equipe dividem o mesmo recanto do laboratório, ele vê como os experimentos de seus colegas dão certos frutos, enquanto o seu não.

Renner acabou nutrindo uma grande inveja para com seus colegas; não que esses tenham conseguido resultados realmente satisfatórios, mas só o fato de terem conseguido criar um untoten, já o deixa irritado. De seu canto do laboratório, ele observa os cientistas quebrando a cabeça em como fazer com que seu espécime obtivesse reações agressivas e instintivas de “sobrevivência” como foram vistas naqueles transformados naturalmente. Mas não. O espécime possui retardos mentais e reflexivos, além de ser altamente “autista”.

Todos da equipe sabem que os untoten, podem ser a chave para o nazismo não ser derrotado. Desde que a URSS e os EUA entraram na guerra, o Eixo tem perdido territórios e, cada vez mais, a pessimista previsão da derrota torna-se mais próxima de se realizar. Este fato é o que faz as experiências com aquelas criaturas serem cada vez mais tratadas com grande intensidade em todos os laboratórios do Eixo que trabalham com o projeto.

Renner observa novamente seu espécime, já um pouco putrefato por causa da falta da alimentação de produtos vivos. Ele encara nos olhos sem brilho da criatura e depois olha seus dentes, sempre a mostra com rosnados e urros o acompanhando.

– Você deve sentir bastante dor, não é mesmo? – pergunta o cientista para seu “afilhado”, porém, a única resposta que ele obtém é um berro gutural e uma ameaça de mordida.

Um clique vem na mente de Renner que o faz rapidamente puxar as tiras de couro que estavam afrouxadas no pescoço da criatura, prendendo-a na cama e começando a erguer o encosto para deixá-la inclinada. Ele pega uma serra e abre a cabeça de sua cobaia deixando seu cérebro intacto a mostra; algo que ele sempre quis fazer, mas tinha medo de perder o espécime por causa de algum possível acidente, o que não o perturba mais dentro das novas condições.

Sabendo que a criatura não sente dor no corpo, o cientista sempre estranhou que eles tivessem aquelas reações aparentemente tão sofredoras. Colocando dois fios condutores no lóbulo pariental do cadáver, ele disparou descargas elétricas para ver a reação do espécime.

A criatura torna-se ainda mais feroz, chegando até mesmo a quebrar um de seus próprios braços ao tentar arrebentar a espessa correia de couro que o prendia. O cientista desliga a bateria e percebe que o espécime diminuí em sua fúria, mesmo continuando com a insanidade natural daqueles seres.

Ele vai até uma gaiola e pega um gato vivo. Ligando novamente a bateria, ele, com uma certa dificuldade, coloca o gato na boca no untoten, que o morde. No momento em que a mordida é dada, Renner retira o gato de perto e,  enquanto o animal ainda está vivo, a criatura se “acalma”, ignorando até mesmo o estímulo cerebral. Entretanto, isso dura pouco. Assim que o gato morre, a criatura volta para seu estado furioso.

– Hey, vocês! – o cientista chama a atenção de seus colegas sorrindo, sentindo-se bem novamente – Sei como tornar seu espécime agressivo como o meu.

Mesmo com o deboche de seus colegas ele não se intimida e caminha até o untoten criado no laboratório. Os outros cientistas tentam pará-lo, mas ele, com toda sua postura confiante e gesticulando para ninguém lhe tocar, chega até o espécime, pega uma serra e abre uma cavidade na cabeça do untoten.

De deboche e raiva, o olhar de seus colegas passam a demonstrar curiosidade. Pegando um fio condutor, Renner insere na cavidade e liga a bateria. De imediato o untoten torna-se insanamente furioso, atacando outro cientista e arrancando um pedaço de sua jugular antes que Renner desligue a bateria.

Ao desligar e puxar o fio, a criatura volta para seu estado semi-catatônico anterior. Os outros cientistas correm para ajudar a vítima caída. Renner, não está preocupado com ele, e sim se sente orgulhoso com sua vitória. Aquela descoberta é essencial para o nazismo como um todo.

Sentindo-se um herói de guerra, Renner pega um bloco de anotações para registrar suas descobertas, quando ouve um berro vindo de um de seus colegas; aquele que havia sido mordido estava agarrado e mordendo um deles. Renner levanta-se por reflexo, assustado, quando escuta um estrondo vindo de sua retaguarda. Logo ao se virar, sente sangue escorrendo em seu peito, a fraqueza tomando seu corpo e cai de joelhos.

Antes de perder a consciência, ele apenas consegue ver soldados entrando no laboratório, com a estrela comunista em seus capacetes, e lamenta a perda que a ciência teria com sua morte.

Situação Internacional

– Isso é inacreditável. – comenta amargamente a primeira oficial do secreto “Immortuos Project”, ex “Undead Project”, da área de investigação e combate ao terrorismo e crimes contra a segurança pública da Interpol ao seu superior, sem tirar os olhos da tela do computador, onde a imagem de uma ampliação do mapa europeu está a mostra. No mapa vários pontos vermelhos, que representam “focos da epidemia”, tomam quase toda a área.

– Concordo que seja impressionante a velocidade com que isso se espalhou em tão pouco tempo. Algo que aparentemente estava sob-controle. – responde o superintendente do projeto, fazendo-a olhar para ele.

A Interpol criou o “Undead Project”, em 1946, quando o quartel general da polícia internacional era em Paris, graças às notícias a respeito de experiências feitas pelo Eixo com cadáveres reanimados e uma possível arma biológica que faria cidades inteiras se extinguirem em uma onda de canibalismo intenso. Posteriormente, os resultados de alguns experimentos foram extraviados e caíram nas mãos dos EUA e URSS, que iniciaram seus próprios experimentos durante a Guerra Fria. Eles, tanto a Interpol, quanto o governo dos EUA e URSS, nunca souberam exatamente como o Eixo conseguiu desenvolver tais experimentos, mesmo que a maioria, por sorte, não tenha dado certo. Todas essas informações nunca chegaram ao grande público, porém, em 1963, durante a Conferencia Geral que ocorreu em Monrovia, Libéria, eles receberam “ilustres” visitantes que exigiram uma reunião privada com os membros da polícia internacional. Foi nessa reunião, que eles souberam que a situação era mais obscura do que poderiam imaginar.

Christine Swan discorda de seu superior com a cabeça.

– Nunca esteve sob-controle, senhor. – sua voz não esconde seu nervosismo e tristeza – Agora muito menos…

James Stevenson se mantém em silêncio. Ele realmente não sabia o que responder, sabia que, de certa forma, a oficial Swan estava certa, e prefere deixá-la desabafar.

– Há quanto tempo aquelas instituições sabem a respeito dos immortuos? Não é a um ou dois séculos, mas a mais de um milênio! – sua fala é alta, quase gritando, e lágrimas escorrem por seu rosto – Faz mais de um milênio que nós, seres humanos, sabemos da existência desses seres e não descobrimos NADA! Nada que nos fizesse ter real “controle” sobre a situação!

James desvia o olhar do rosto de sua subordinada e observa a grande tela do computador por de trás dela, refletindo sobre as perguntas que ouviu enquanto vê a tela com grandes áreas vemelhas.

– Oficial Swan, se acalme. – sua voz é suave – Tente entender que tudo isso não é tão simples assim. – Christine ameaça retrucar, mas a lembrança de com quem ela estava falando a fez se controlar – Por vários milênios o ser humano foi muito supersticioso, isso influenciou muito os resultados das pesquisas. Além disso, as questões políticas, disputas de poder, e todas essas coisas, atrapalharam qualquer ação conjunta que elas pudessem ter feito. Em todo o mundo várias instituições foram responsáveis por manter esses fatos e outros em segredo, além de proteger as pessoas, e elas em sua maioria eram religiosas. Sem nenhuma capacidade de fazer uma pesquisa científica correta até aproximadamente o começo do século XIX.

Christine inspira profundamente e se controla virando-se para olhar a tela, vendo os pontos vermelhos aumentarem no computador. Ela se levanta e vai pegar um copo para beber água.

– Entendo o que você quer dizer, mas e durante a Segunda Guerra, senhor? Ou durante a Guerra Fria?

James aperta um botão no teclado para diminuir o mapa e ver a situação mundial, o que torna a situação ainda mais desesperadora. Graças a informações das bases da Interpol localizadas em outros países, as marcações cobrem os continentes como se fossem núvens cobrindo o céu. Não há sequer um país que não esteja tingido de vermelho.

– Os casos sempre foram raríssimos. Nessas épocas, nossos cientistas ainda viam os “boatos” a respeito de “motos-vivos” como lendas. – James da uma pausa para refletir – Lembre-se que fundamos o “Undead Project” apenas após o Eixo ser derrotado quando, ao invadirmos laboratórios deles na Renânia, Boemia, Áustria e Japão, descobrimos seus experimentos. O que me impressiona, na verdade, é que nenhum governo tinha informações sobre esses seres, ou pelo menos, nenhum expôs tal conhecimento.

– Mas o Eixo sabia da existência desses seres. – retrucou a oficial Swan recebendo um severo olhar de advertência – Desculpe, senhor.

– Prosseguindo. A policia internacional ainda desconhecia a existência daqueles desmortos que surgem a milênios entre os vivos. Compreenda que tanto durante a Segunda Grande Guerra quanto durante a Guerra Fria, os governos estavam preocupados com os experimentos feitos pelo Eixo, EUA e URSS. Nunca tivemos prova de que esses experimentos deram origem a alguma “doença”… – nesse ponto houve um fraquejo na voz do superintendente que não passou despercebido pela primeira oficial – As pesquisas que encontramos, foram fracassadas em criar uma arma biológica tão terrível, porém, sabemos que os Nazistas destruíram algumas pesquisas desse projeto, antes de colocarmos as mãos nelas. Além disso, tanto os EUA quanto a URSS mantiveram suas pesquisas extremamente bem escondidas.

Um silêncio mórbido tomou conta da sala por um tempo.

– Você acha que o problema que estamos enfrentando no mundo seja resultado de alguma falha desses experimentos, senhor? – a oficial quebra o silêncio com a mesma pergunta que James se fazia mentalmente.

Ele reflete por algum tempo e responde afirmativamente com um balanço de cabeça e um olhar triste.

– As informações que as “instituições” nos trouxeram na Conferência Geral de 1963, nos falavam da existência de seres que “espontaneamente” tornavam-se “immortuos” após a morte. Porém, eles não mencionavam nada a respeito de que aquilo era uma doença contagiosa. Isso aparecia apenas nos relatos folclóricos e lendários, mas nada além disso.

A desesperança torna-se ainda mais presente nos olhos de Christine.

– O que faremos agora, senhor? – pergunta com um profundo desânimo na voz.

– Vamos nos preparar para o que está ocorrendo. Dê as ordens para a abertura do terceiro abrigo. Reúna um contingente e leve o máximo de civis possíveis para lá. Eu contatarei o exército para saber como estão indo as operações de sobrevivência.

– Sim, senhor! – responde a oficial Swan passando uma toalha em seu rosto e parte. Mais uma vez James releva a falta de trato da oficial e se aproxima do computador.

Vendo o mapa mundi ele se espanta mais uma vez com a quantidade e velocidade de “contágio”, e mais uma vez acredita em sua teoria de que algo deu errado com algum experimento. Até a última semana a proporção de immortuos eram de um para um milhão de mortos, logo no começo dessa semana essa proporção caiu para um pra cada quinhentos mil mortos, e hoje a proporção está estabelecida de um pra um.

Ao fim de sua reflexão, uma forte melancolia toma conta. Nunca sua arma esteve tão pesada em seu coldre.

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