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Fúria Feminina

– Paulo! Vem nos ajudar, porra! – grita Lúcia, enquanto leva as portas dos armários, junto com Ricardo, para reforçar o portão. Ela não ouve resposta alguma, o que a irrita ainda mais. – Filho da puta.

Ela e Ricardo continuam carregando as portas, enquanto sr. Fábio e José Fernando, pai de Marcela, as pregam no portão de madeira. Alguns mortos vivos começaram a se aproximar da casa por sentir o cheiro deles, agora eles tinham que dificultar ao máximo a entrada deles.

Lúcia está fazendo de tudo para sobreviver e ajudar os outros a sobreviverem, mesmo que suas esperanças a respeito do futuro da raça humana sejam quase nulas. Foi graças a ela que o grupo sobreviveu no caminho da casa da Marcela para a casa do sr. Fábio, mas ela não quer reconhecimento. Na verdade, consideraria bastante hipócrita de sua parte se buscasse elogio, já que ela os está ajudando para aumentar sua própria chance de sobrevivência, ou pelo menos é nisso que ela quer acreditar.

Pensando no que eles passaram até aquele momento, Lúcia se irrita ainda mais com Paulo.

– Paulo, caralho! Vem nos ajudar! – grita ela novamente quando entram na casa para pegar mais duas das seis portas restantes.

Novamente, o silêncio é a resposta.

Quando eles estavam na casa da Marcela, todos do grupo estavam presentes na sala, reunidos para decidir o que fazer. Durante a reunião, Paulo estava focado em escrever, fez uma ou outra anotação no seu laptop e começou a montar o design de um blog. Isso a deixou “p da vida” e, como ela nunca foi de meias palavras, soltou o verbo.

– Para de escrever nessa merda, seu folgado! – disse ela interrompendo Paulo em uma de suas anotações, apotando o dedo na cara do psiquiatra. – Ou você nos ajuda a pensar em algum plano para sairmos daqui, ou eu vou quebrar a sua cara.

Paulo a encarou como se tentasse analisar o que aquela atitude de Lúcia escondia, o que a deixou ainda com mais raiva.

– Vai ajudar ou não? – perguntou ameaçando-o com o olhar.

– Você é uma mulher bonita, Lúcia, porque se estraga usando esse linguajar? – questionou Paulo tentando desviar do assunto.

– Não foge. Agora levanta daí e vem nos ajudar. – ordenou ela.

– Estou ocupado preparando um arquivo de sobrevivência, Lúcia. – Paulo olhou para a tela do seu laptop encerrando o assunto.

– Você seria mais útil, NOS ajudando a sobreviver. – retrucou Lúcia, mas o psiquiatra a ignorou. – VAI SE FODER! – ela virou-se para sair da sala, quando Paulo a interrompeu.

– Você quer participar? Posso dividir meus dotes com você antes de me curtir.

A ironia de Paulo fez com que a fúria de Lúcia inrompesse. Ela correu na direção dele, pronta para chutar-lhe. Com medo, Paulo levantou-se rapidamente e se afastou, enquanto Ricardo, José Fernando e Sônia a seguravam com dificuldade.

– Eu vou arrebentar a sua cara, seu médico de bosta!

Paulo tentava controlar seu medo forjando um sorriso no rosto, mas ele sabia que não a estava enganando. Lúcia, percebendo a situação na qual se encontrava e não querendo machucar ninguém além de Paulo, parou de tentar pegá-lo e saiu da sala. Naquele momento, não compensava se meter naquele tipo de conflito.

Porém, com a reincidência de ocorrências como aquela, Lúcia estava começando a perder a paciência novamente. Ela pega mais uma porta e começa a caminhar, na silenciosa companhia de Ricardo.

– Lúcia, minha querida. Não de atenção para aquele doutor safado. – diz Sônia com uma voz suave e carinhosa, se aproximando de Lúcia. – Não vale a pena.

Sônia chama Paulo de doutor safado pela forma que ele olha para Lúcia e Marcela, sempre tentando seduzi-las de alguma forma. Lúcia age de forma indiferente em relação ao apelido, concordando com sua nova amiga em silêncio.

– Não dá Sônia. Ele é muito folgado e coloca a todos nós em risco. – responde ela.

– Você sabe como ele é inteligente, Lúcia. Tenho medo dele colocar os outros contra você. – confessa Sônia com sinceridade.

Lúcia dá de ombros.

– Ele não faria isso. Eu sou infantaria do grupo.

Sônia ri baixo, mesmo não entendendo o que Lúcia quis dizer.

– Ainda assim, me preocupo com você. – retruca Sônia.

Lúcia entrega a porta do armário para sr. Fábio.

– Agradeço, amiga. – ela sorri para Sônia – Mas confie em mim.

Lúcia, Sônia e Ricardo voltam para dentro da casa. Ricardo vai pegar mais porta de madeira e Sônia, triste, volta para a cozinha na companhia de Marcela e sua mãe. Lúcia sobe as escadas que levam até o escritório onde Paulo está escrevendo seu arquivo de sobrevivência. Ela pensa em cinco formas de ensiná-lo a ser mais cooperativo, porém as cinco o deixaria inutilizado por no mínimo seis meses e no máximo a vida toda.

– Paulo, desliga essa merda e vem ajudar. – diz rispidamente Lúcia, optando por resolver o conflito através de uma conversa amigável.

Espíritos Malígnos

Com cuidado o velho feiticeiro deposita o poderoso pó em três cabaças diferentes. Infelizmente aquele pó mágico era difícil e demorado para se preparar. Sua tribo inteira, localizada em uma reserva no Congo, estava morta ou haviam partido. Todos os corpos foram queimados e, naquele lugar, só residiam ainda Nzingu e três de suas cinco filhas.

O velho feiticeiro sabia que não adiantaria partir de lá. Que os nkadi-o-mpemba – espíritos do mau – estavam se espalhando pelo mundo. Que ele e suas filhas estavam mais protegidos lá, em seu território.

Nzingu é pai de cinco mulheres, para sua tristeza, não teve nenhum filho homem, nenhum herdeiro de seu conhecimento. Uma delas foi morta pelo nkadi-o-mpemba que rodeia sua tribo e se alimenta dos vivos que nela habita, enquanto a outra partiu com seu marido. As três que ficaram estavam viúvas e preferiram aceitar a poderosa proteção de seu pai.

O feiticeiro olha para as cabaças com o poderoso pó e sente uma breve hesitação, pois sabe que depois de feito o ritual, não terá mais volta. Porém, mesmo que demonstre a mais pura confiança para suas filhas, Nzingu sabe que aquela é uma medida desesperada. Que ele não vê como sobreviver no novo panorama do mundo que se descortinará em breve. As coisas estão mudando, os makulu – espíritos ancestrais – lhe disseram, e não é para melhor.

Ele ascende pilhas de madeira e ervas enquanto suas filhas ficam sentadas esteiras de palhas, uma fumaça grossa começa a erguer das pilhas incandescentes e cobrir todo o ambiente da cabana. Para olhos desacostumados, não se vê nem mesmo um palmo a frente do nariz, mas para o velho feiticeiro, aquilo é apenas semelhante a estar de olhos abertos embaixo d’água límpida do riacho próximo de lá. Essas ervas, diziam seus antepassados, servem para acalmar todos os ianda – espíritos –, com ela purificando o ar, nenhum deles é capaz de causar malefícios a qualquer ser vivo.

O velho feiticeiro inicia seus cânticos e toca seu atabaque com grande energia, elevando seus pensamentos aos nzambi de seu povo. Ao sentir a influência no recinto ele grita: “Tat’é!” parando de tocar e, em transe, deixa-se guiar pelas mãos divinas. Ao perceberem que o toque do atabaque cessou, as filhas deitam-se nas esteiras.

Utilizando-se de pedaços de planta de bananeira, usadas como pás, ele espalha o pó mágico pelo corpo de suas filhas e as cobre com folhas inteiras de bananeira. Elas morrerão em pouco tempo. Nzingu, e o nzambi que o guia, sabem que tradicionalmente o correto seria enterrá-las, para que tivessem que cavar sua saída e assim completarem realmente a transformação, mas eles sabem muito bem, que o principal efeito que eles querem, é causado apenas pelo pó.

Terminando de cobri-las, o velho se senta no centro, saindo do transe. A fumaça ainda cobre todo o espaço da cabana, quando ele escuta algo adentrando pela porta de palha solta. O nkadi-o-mpemba surge urrando. Parado no mesmo lugar, aquele ser, que já foi homem um dia, deseja encontrar algo vivo para se alimentar. Ele bufa e vira sua cabeça e seu corpo de um lado para ou outro procurando algo, mas nada encontra. Seus olhos selvagens se perdem na fumaça das ervas e parecem passar por Nzingu como se ele não estivesse lá.

O velho feiticeiro sabe, que ao fim do ritual, suas filhas serão vistas como iguais por tal ser, mesmo sendo diferentes. Elas retornarão como suas servas nzumbi e não mais serão alvos de tal criatura.

O nkadi-o-mpemba procura e procura, mas nada consegue perceber com aquela fumaça. Há algo nela que perturba seus sentidos, que o faz ficar confuso. Atordoado, ele parte.

O velho feiticeiro ri consigo mesmo, afinal, o que mais esperar de ervas que servem para acalmar os ianda?

Sobrevivência

Os gritos abafam os sons das sirenes, enquanto uma chuva forte começa a cair deixando as calçadas escorregadias. Cada passo é instável e inseguro, mas o medo faz com que os corredores se esforcem ao máximo para manter a velocidade e o equilíbrio. A queda deles significaria a aproximação dos mortos vivos e possivelmente uma dolorosa morte para os fugitivos.

Sem olhar para trás, Sônia e Beto se mantêm com dificuldade em seus ritmos de corrida em direção a rotatória conhecida como Balão do Bela Vista, pois é lá que Ricardo disse que esperaria eles com seu carro. Mesmo ambos estando na mesma situação árdua, fugindo do bando de cadáveres famintos, a idade e agilidade de Beto lhe dão grandes vantagens, o que lhe faz tomar a dianteira.

Sônia vê Beto se distanciar enormemente e entra em pânico. Por reflexo ela olha para trás e percebe o quão próximos dois de seus perseguidores estão. Sônia sente um desconforto descendo para a altura de seu abdome, suas pernas começam a fraquejar e uma pressão na garganta a incomoda enormemente, fazendo-a chorar enquanto cai no chão, sentindo sua esperança despedaçar e o mundo escurecer ao fechar os olhos em atitude submissa aos seus algozes que se aproximam. Ela nem mesmo escuta os gritos de Beto chamando-a, incentivando-a a correr e lutar por sua sobrevivência. Acreditando que está tudo acabado, Sônia começa a rezar quando escuta dois baques secos seguidos, e um líquido viscoso atingir seu rosto junto com as fortes gotas da chuva.

– Levanta! – ela escutou enquanto sentia uma mão forte lhe colocando de pé. Sônia abre os olhos e se surpreende ao ver uma mulher loira e vigorosa, mas ainda assim uma mulher, a sua frente. Com aquela força e firmeza que havia sentido ela pensou que, com certeza, estava sendo salva por um homem.

– Obri…

– Corre logo! – Lúcia grita, empurrando-a. Sônia quase perde o equilíbrio, mas consegue se firmar e correr. Mesmo com a fraqueza e o cansaço ainda lhe atrapalhando, ter sido salva lhe deu um novo ânimo.

Lúcia a acompanha, quase lado a lado, mas um pouco mais atrás. Diferente de Beto, ela não tenta tomar a dianteira, pois sabe que aquela mulher que acabara de salvar, não sobreviveria nem mais alguns segundos.

Sônia, ainda temerosa, tenta olhar para trás:

– Olha para frente! – repreende Lúcia com firmeza – Ignore-os!

A frente esta o Balão do Bela Vista, por onde cruza a Avenida Norte e Sul. Nela há vários carros parados, que já davam para ser visto. Pessoas correm de um lado para o outro, fugindo de alguns poucos cadáveres, sem saber o que fazer ou para onde ir. Lúcia não se surpreende ao ver aquilo, afinal, ela deixou seu carro mais a frente na avenida e se esgueirou pelas ruas para longe da multidão que se encontra mais adiante.

– Estou indo para a casa de uma amiga aqui perto. – diz Lúcia, sem nem mesmo perder o fôlego, o que surpreendeu ainda mais a exausta Sônia. – Para onde vocês estão indo?

– Pra… Encon.. trar… com… o… Ricardo…. aqui no… Balão… – se esforça para responder Sônia enquanto se aproximam de Beto, que está as está esperando na esquina.

– Corram mais rápido! – grita Beto, assustado com a aproximação daquelas outras criaturas.

Ao chegarem na rotatória, elas vêem que ainda há bastante pessoas vivas, o que de certa forma, trás uma inocente sensação de contentamento à Sônia. Aquele pensamento lhe dá mais vontade de sobreviver o que a ajuda a retomar muito de seu fôlego. Elas aceleram a corrida, e passam por Beto chamando-o a juntar a elas.

Ao perceberem que o bando de mortos havia se dissipado ao chegarem na rotatória, por causa da maior opção no cardápio, o trio dá uma pausa para respirar.

– Então, para onde vocês vão? – pergunta novamente Lúcia, percebendo a aproximação de um morto vivo. Antes de seus novos companheiros responderem, ela corre em direção ao cadáver ambulante e quebra-lhe a cabeça com uma porrada de seu taco de bets. Logo em seguida retornando próxima aos dois. – Então?

– Estamos esperando um playboy. – responde Beto estupefato com a atitude de Lúcia.

– Ele disse que nos encontraria aqui com seu carro. – complementou Sônia após tomar um ar.

– Ele foi pegar um carro e deixaram vocês para fugirem daquele bando a pé? – Lúcia balança a cabeça negativamente, como se quisesse apagar aquele pensamento – Não importa. O que importa é que não tem para onde ir de carro por aqui. Lá para frente está pior. Vocês dois venham comigo.

– Tudo bem. – responde Sônia, guiando-se pela confiança que está sentindo pela mulher forte que lhe salvou.

Antes de Lúcia pedir para eles acompanhá-la, Beto a interrompe:

– Olha o “zé porvinho”! – ele aponta em direção oposta da qual eles estavam indo.

Mesmo sem entender ao certo quem seria o “zé povinho”, ambas mulheres viraram para olhar. Sônia reconheceu Ricardo, mas Lúcia continuou sem entender.

– Vamos! Precisamos sair daqui. – disse Lúcia dando de ombros.

– É o Ricardo. – comenta Sônia – Vamos esperá-lo. Não é certo deixá-lo sozinho.

Lúcia faz sinal de que ia retrucar rudemente aquele comentário, mas opta por se silenciar.

Ricardo as vê e corre na direção do trio. Alguns mortos vivos se aproximam daqueles que o esperam e Lúcia consegue derrubar dois rachando seus crânios, enquanto Ricardo, após três tiros com sua pistola, derruba o outro.

– Cadê o carro? – Sônia pergunta quase chorando, agarrando Ricardo pelos braços.

– Estamos sem carro. – responde Ricardo desconcertado, se desvencilhando dela – Precisamos pensar para onde ir.

– Nós vamos com ela! – retruca Sônia apontando para Lúcia, sentindo raiva do advogado que lhes prometera levar para um lugar seguro.

– Quem é…

– Chega de conversa. – Lúcia interrompe Ricardo, apontando para os vários mortos-vivos que estão na direção de onde eles vieram – Vamos embora! Me acompanhem.

– Para onde vamos? – pergunta Ricardo quando eles começam a correr em direção ao pontilhão que leva ao Parque Taquaral.

– Para a casa de uma… – Lúcia se assusta com o estrondo de uma batida que os fazem parar. Lúcia olha para trás e vê Ricardo voltando para ajudar as pessoas que saíram de uma blazer cinza vítima do acidente.

– O que você está fazendo? – pergunta para Ricardo, enquanto Sônia se aproxima dela buscando proteção.

– Vou ajudá-los. – responde o advogado continuando seu caminho ainda com a arma na mão.

– Por que? É perigoso! – questiona Sônia preocupada com toda aquela situação.

– Talvez eles possam nos ajudar. – sem parar para responder, Ricardo corre até uma distância segura para atirar em um morto vivo que se aproxima de um dos sobreviventes da blazer. Após quatro tiros, o deixando quase sem munição no pente, ele o derruba.

O sobrevivente o olha espantado, ao mesmo tempo que olha em direção a família que saiu da mesma blazer que ele.

– Vocês tem para onde ir? – pergunta Ricardo.

– Não. – responde o homem.

– Então venham conosco. – retruca agilmente Ricardo, percebendo que os companheiros daquele homem se afastavam dele.

Ricardo o ouve gritar para seus amigos, mas não se atenta muito as palavras, pois está perdido em pensamentos ao olhar novamente a blazer: “Afinal, não deve existir muitas blazers cinzas em Campinas”, pensa ele sentindo um calafrio, “Muito menos blindada”, Ricardo volta sua atenção ao que está acontecendo e procura mortos vivos próximos, mas por sorte muitos estão se afastando para os locais de maior aglomeração de carros.

Aliviado, antes de voltar sua atenção àquele que ele salvou, Ricardo bate o olho no vidro da blazer, onde tem colado um adesivo da polícia federal. “Será que eles o conhecem?”, pensa o advogado ouvindo gritos de uma mãe desesperada que o impede de se distrair novamente.

Solidão

Júlia escutava os sons na rua com seu coração martelando em sua garganta. Ela olhou novamente pela janela de seu quarto, sem acender a luz. Chovia lá fora e de seu apartamento ela via pessoas correndo atrás de outras pessoas, não conseguia ver detalhes, mas sabia que algo muito estranho estava acontecendo, pois todas elas gritavam muito.

Não eram gritos de comemoração ou de alguma brincadeira: eram gritos de pavor, desespero. Sem entender nada ela viu alguém ser violentamente agarrada por outro e arremessado ao chão. O agressor agarrou-o firmemente e começou a: “Comê-lo?”, concluiu Júlia incrédula.

Tudo aquilo lhe transtornava como nunca antes. Todo o medo que sentia anulou como analgésico o mal estar que estava sentindo por ter brigado com seu namorado. Júlia queria que ele estivesse lá, protegendo-a, dando segurança a ela.

“Burra!”, se xingou em pensamentos. A culpa voltou em dobro. “Por que fui brigar com ele? Idiota!”, se criticava enquanto o medo ampliava seu apego, seu “amor”. Ela lembrou dos momentos bons, mas logo um grito, um tiro, uma sirene, cortava seus devaneios trazendo-a para a realidade.

– Preciso ligar pra ele. – pensou em voz alta pegando rapidamente o celular e discando o número.

Nada. As redes estavam congestionadas. Muitas pessoas deviam estar tentando se comunicar naquela noite. Júlia tentou telefonar para o fixo dele, mas ninguém atendia.

Histórias e mais histórias começaram a surgir em sua mente. De inicio, achou que ele havia saído para se vingar, por terem brigado, mas essa idéia foi rapidamente deixada de lado, por causa de um grito de socorro que ela escutou lá de baixo, trazendo-a novamente para a realidade.

Entretanto, isso não fez com que sua mente parasse de contar histórias. “O que pode ter acontecido com ele? Será que está bem?”, a culpa lhe apertava mais ainda seu coração. E se ele morresse sem saber o quanto ela o amava? O quanto ela precisava dele?

Uma balburdia vindo do pátio de seu prédio chamou-lhe a atenção. Júlia olhou pela janela novamente e viu aquelas pessoas histéricas adentrando seu prédio. Aquela visão aumentou ainda mais seu medo.

“Desgraçado!”, praguejou mentalmente, “Por que ainda não me ligou? Se ele realmente me amasse já teria me ligado para saber como eu estou”. O medo que sentia por aquelas pessoas e a raiva que sentia pelo seu namorado tornou-se um amalgama conflituoso no coração de Júlia.

“Foda-se ele!”, concluiu e resolveu pensar no que fazer para sair dali. Ela já estava escutando gritos nos andares de baixo. Não sabia o que eram aquelas pessoas e onde exatamente estavam em seu prédio, mas por alguma razão misteriosa, ela sentiu que era melhor ela pegar o elevador do que as escadas. E assim o fez.

Júlia pegou a chave de seu carro e desceu até a garagem pelo elevador. Não havia ninguém lá, mas a cada andar que ela passava, ouvia gritos e gemidos que lhe angustiavam. Seu estomago começou a se revirar. Ela sentia seus intestinos contraindo-se até doer. O medo fazia seu corpo reagir da pior maneira possível, e aquele elevador começou parecer pequeno demais para ela. Por um breve instante, pensou que fosse desmaiar, mas respirou fundo e socou a parede para se sentir consciente novamente.

A porta começou a abrir, ela estava no estacionamento no subsolo. A luz estava acesa e ela via pessoas gritando e correndo. Desesperadamente ela correu até seu carro, sem dar atenção a nada ao seu redor.

Para seu espanto, sua mão não tremia e ela conseguiu abrir a porta do veículo rapidamente. Ao fechá-la, ignorou os gritos e ligou o carro, precisava sair de lá. Precisava sobreviver, precisava mostrar para aquele filho da puta que não precisava dele.

Ela acelerou, abriu o portão eletrônico e subiu a rampa. Teve que atropelar quatro pessoas no processo, mas deu certo. “Antes eles do que eu”, pensou ela. Não sabia exatamente que pessoas eram aquelas, mas, lá embaixo, já conseguia ver diferenças entre as pessoas que fugiam e as que perseguiam.

As ruas estavam com sangue e pedaços de coisas que ela não conseguia identificar. Os perseguidores, normalmente, tinham pedaços faltando. Era tudo muito nojento e foi impossível segurar o vomito. Ela virou-se para o banco do passageiro e deixou sair. Por um instante ficou com raiva de si mesmo, mas logo imaginou seu namorado lá, sendo encharcado de vomito, aliviou um pouco a tensão e ela riu.

Porém, o efeito contrário logo apareceu. Ela continuou dirigindo pensando como seria bom se ele tivesse lá. “Eu vou buscá-lo!”, pensou Júlia pegando a rota mais curta para a casa dele, mal sabia ela das condições da cidade. Não havia visto jornal, não havia escutado o rádio. Logo ela se deparou com um imenso congestionamento, com pessoas correndo, urrando e berrando, tentando abrir os carros, ou fugindo daquelas pessoas loucas e mutiladas.

Vendo o que tinha em sua frente, tentou dar ré, mas bateu em um carro que estava atrás. Já tinham três carros atrapalhando sua passagem.

– Porra! – praguejou ela enquanto abria sua porta, mas assim que o fez, viu alguma daquelas pessoas histéricas correr em sua direção.

Fechou a porta rapidamente e abaixou o pino. O desespero retornou e lágrimas começaram a escorrer de seus olhos. “Bosta! Bosta! Bosta!”, ela chorava vendo aquela pessoa esmurrar o vidro do seu carro, começando a trincá-lo. Ela olhou para o banco de trás, viu um guarda-chuva e o pegou. Passou para o banco vomitado enquanto via a criatura estilhaçar a janela com o braço rasgando no vidro. Júlia aproveitou e empurrou o braço da criatura para baixo, fazendo-o cravar.

Ainda desesperada, ela abriu a porta do passageiro e saiu. Com o braço preso a criatura atrasou alguns instantes antes de começar a persegui-la. Outras criaturas a viram e começaram a correr atrás dela.

A chuva deixava sua roupa mais pesada, além de deixar a rua extremamente escorregadia, o que era uma grande desvantagem e vantagem, pois da mesma forma que ela estava com dificuldade para correr, sabia que eles também estavam.

Ela correu como nunca. Sentiu o impacto da sua corrida nos joelhos, e seus músculos chiarem de tanto esforço. Quando sentiu seu pulmão doer, pela respiração errada, ela olhou para trás: aquelas coisas pareciam não cansar. O desespero tomou seu corpo. Ela disparou loucamente em uma descida, mas não conseguiu se equilibrar. Desceu rolando a rua, escutando os passos daqueles seres se aproximando.

Assim que parou, tentou se levantar, mas logo percebeu que não conseguia esticar uma das pernas. Tinha certeza que a havia quebrado. As criaturas se aproximaram, e a agarraram. Ela sabia o que elas fariam e gritou, se debateu freneticamente. Seus pensamentos fluindo em turbilhão: queria seus pais, queria seus irmãos, queria qualquer um que pudesse salvá-la. Sentiu uma dor horrível quando uma das criaturas a mordeu. Depois outra.

Os choques das dores anestesiaram seu corpo, ela não sentia nada, mas ainda estava consciente. Júlia manteve os olhos fechados, com uma última dúvida: será que seu namorado e seus familiares sentiriam sua falta?

Passos no Quarto

14 de Março de 2011, um dia antes de seu aniversário, Michele continua escutando os passos de sua mãe. Justamente nesse dia, a pequena menina carioca de nove anos sofreu dois grandes traumas.

O primeiro foi quando sua mãe, enquanto comia junto a ela e fingia que ainda não tinha comprado seu presente – e nem mesmo iria comprar, pois a “grana estava curta” –, arregalou os olhos, apertando o cabo do garfo com uma mão e a toalha da mesa com a outra, começou a ficar vermelha e a pender para o lado contrário da parede. Michele imediatamente sabia que aquilo não era brincadeira – sua mãe não era de brincar com a saúde – e correu para chamar ajuda, ao mesmo tempo em que escutava o som abafado de sua mãe estatelando no chão.

Ela saiu de seu apartamento e correu para a vizinha da frente. Bateu em sua porta desesperadamente até ser atendida. Dona Sílvia, uma senhora de setenta e cinco anos, que ajudou a criar Michele, abriu velozmente a porta, preocupada, e atendeu a pequena menina a qual considerava uma neta.

– Dona Sílvia, me ajuda! Minha mãe… – Michele não conseguiu terminar de falar por causa da angústia que sentia e puxou a senhora até seu apartamento.

Quando elas entraram, Michele soltou a mão de sua vizinha e correu para a cozinha. Dona Sílvia, após fechar rapidamente a porta foi encontrá-la. Quando viu a mãe de Michele mole e imóvel no chão, com os olhos virados e boca aberta, chocou-se e correu para tocá-la, querendo que seu tato negasse aquilo que sua visão estava lhe dizendo.

Ao tocar no corpo gélido de Fátima, ela olhou desolada para sua querida Michele. Por alguns instantes ela não sabia o que fazer, mas logo se lembrou de chamar a emergência, afinal, ela não era médica e poderia estar apenas impressionada com tudo aquilo.

– Michele, pegue o telefone para mim. – ela pediu, querendo que Michele se afastasse de lá, abraçando o corpo desfalecido da amiga.

Assim que Michele lhe entregou o telefone sem fio, deu um salto para trás ao escutar o berro de dor que Dona Sílvia soltou. Sua mãe acabava de voltar a se mexer, mordendo o seio de sua amiga com tanta força, que o sangue espirrou no rosto de Michele.

Esse foi o segundo trauma. Michele, aterrorizada, correu para dentro do armário do quarto de sua mãe sem olhar para trás. Ela mal viu sua mãe dilacerar outras partes do corpo de dona Sílvia até essa cair morta, mas escutava nitidamente os berros de sua vizinha.

Com a porta do armário fechada, a jovem garota tremia e se encolhia esperando que aquilo acabasse logo, que ela acordasse, pois aquele tipo de coisa só acontecia em pesadelos ou em filmes de terror. Seus olhos encheram-se de lágrimas e sua respiração não queria se manter silenciosa.

Ela ainda tenta controlar ao máximo sua respiração, mesmo que sua vontade seja de berrar e chorar. Ela continua escutando os passos no quarto e tenciona ainda mais seu corpo em posição fetal, desejando profundamente que aquilo não a encontre.

Seja lá o que for aquilo, não é a sua mãe.

Seja lá o que aquilo quer, não é te dar conforto e proteção.

A angústia sobe como um caroço para sua garganta. Em pensamento Michele sabe que suas lágrimas devem esperar, porém, seu corpo não.

Condenado

A cada grito de socorro que a mulher dava do outro lado de sua porta, fazia com o que o homem barrigudo estremecesse. Ele queria que ela fosse embora, apenas isso.

Contudo, ela insistia. Batia na porta desesperadamente gritando:

– POR FAVOR! EU IMPLORO! ABRE A PORTA!

Mas tudo que o homem fazia era olhar paralisado para a porta de sua casa, tremendo, rezando para que eles não a escutassem.

– PELO AMOR DE DEUS! EU ESTOU COM UMA CRIANÇA! ABRA ESSA PORTA!

Uma gota de suor começou a descer na face do homem. Ele sentia sua camisa encharcar, principalmente embaixo de sua barriga. Ele segurou ainda mais firme o cabo do facão que estava em sua mão. Um facão cego e enferrujado, mas que lhe dava uma grande sensação de segurança naquele momento.

Ele pegou as chaves no armário ao lado, tremendo. Ela tinha parado de gritar, mas ainda era possível ouvir seu choro e da criança. Ele queria ajudá-la, mas tinha medo.

– ABRA ESSA PORTAA! ELES ESTÃO VINDO! ABRA ESSA PORTA! EU SEI QUE TEM ALGUÉM AI! PELO AMOR DE DEUS, ABRA!

O homem deu um passo para trás enquanto escutava a chave cair ao chão. Sua tremedeira beirava o desespero. Era agora ou nunca. Ele se abaixou para pegar a chave e tentou colocar na fechadura.

“Tec tec tec”, a mulher escutou as tentativas vãs do homem.

– Você é um homem bom, eu sei que é! Por favor, me ajude.

O som da chave entrando na fechadura fez com que ele se acalmasse e ela também. Ainda tinha tempo, mesmo eles estando muito próximos. O homem havia fechado a porta com dois giros na chave. Após o primeiro para abrir a porta, ele escutou um som forte no portão e aqueles urros.

Eles tinham chego!

– ELES ESTÃO AQUI! ABRE LOGO ESSA PORTA!

O homem queria. Com toda sinceridade, ele queria ajudar aquela mulher e a criança, mas não conseguia. Ao ouvir aqueles sons inumanos, ele sentiu sua pressão cair, seu corpo gelar e paralisar. Ele não mais conseguiu escutá-la gritando. Parecia que seus ouvidos haviam se desligado. Ele olhava para a porta como se fosse uma imensidão de terra, um outro lugar, mas não conseguia pensar em nada além.

PAM!

Aquele barulho o trouxe de volta. As criaturas estavam batendo em sua porta. Provavelmente haviam sentido seu cheiro, já que ele estava em pleno silêncio. O terror tomou-lhe o corpo e ele sentiu quase todo seu sangue indo para os pés e, sem pensar duas vezes, ele correu.

Correu em desespero para dentro de sua casa, sem saber o que fazer. Fechou todas as portas no caminho e se trancou em seu quarto. Se tudo desse certo eles esqueceriam que ele estava ali e iriam embora.

O homem agachou no canto de seu quarto, agarrando-se em seu facão como se fosse o que ele tinha de mais precioso. E naquele momento era.

PAM!

O barulho estava mais próximo. Eles estavam seguindo seu rastro. Após mais dois sons secos de pancada na porta, ele a escutou ceder. Ainda faltava uma porta até eles chegarem na do seu quarto.

Não havia futuro para ele naquele cômodo. O homem se levantou e abriu a janela, mas sua própria segurança o condenou.

Grades chumbadas.

Agarrando firmemente a elas ele tentou empurrá-las, puxá-las, entortá-las, mas nada disso teve algum efeito.

PAM!

Mais uma porta se quebrava e a passagem daquelas criaturas abria-se. Ele já conseguia escutar seus urros e gemidos.

PAM!

A primeira pancada na porta o fez tremer e seu facão caiu no chão. Ele agachou-se instantaneamente e o empunhou novamente.

PAM!

A lateral da porta começava a ceder. Com muito esforço o homem arrastou-se com dificuldade para baixo da cama, amaldiçoando sua barriga vantajosa, como uma criança com a esperança de que não seria encontrado.

PAM!

A porta cedeu. Dúzias de pés entraram alvoroçados no quarto. Eram muitos e agitados, procurando-o. Ele sentiu um vento em suas costas. Alguns deles haviam retirado o colchão da cama, deixando-a apenas com o estrado. Os urros aumentaram e seu terror também.

O cheiro daqueles mortos ambulantes tomou o quarto. Eles arrancavam o estrado enquanto outros se arrastavam no chão até ele. Aquilo pareceu uma eternidade, para o homem, mas não passou de segundos. Curtos segundos.

O homem fechou os olhos e quis acreditar que eles não o viam. Foram os dentes dilacerando sua carne que fez seus olhos abrirem e seu grito misturar-se aos gemido dos mortos.

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