Archive for the ‘ Narrativas ’ Category

Amor! Amor? Amor. A… mor… – Primeiro Caso

– O ônibus não, porra! Agora que eu estava entendendo!

A moça entra no ônibus após se despedir de seu amigo, que começa a caminhar reflexivo, enquanto o veículo passa por ele. Seria possível que ela estivesse entendendo realmente?

Há pouco, ambos saíram de um bar, onde pararam apenas para conversar. Após diversos assuntos – punks, skinheads, anarquismo, comunismo, capitalismo, arte, família, refrigerante, legalização, café – eles adentraram o pantanoso assunto do amor.

– Amor é apenas um nome para definir uma emoção. O problema é que nós tomamos esse nome como sendo a emoção em si. – disse ele, sendo encarado com um olhar confuso.

– Ah tá! Então o amor não existe! – ironizou ela.

– Não disse isso. Ele existe, mas como efeito de algo e não por ele mesmo, independente. Mas ainda assim, é apenas um nome. – retrucou ele, incerto se estava sendo claro. Parecia não estar.

Era isso que o deixava incomodado. Ela subira no ônibus dizendo que estava quase entendendo, mas ele mesmo não acreditava que entendia sobre o assunto para ter explicado tão bem.

Ele refaz o caminho até o bar, pois havia acompanhado ela até o ponto e se encaminhava para o seu próprio, que ficava direção oposta. Observou as pessoas que passavam por perto, sorrindo, conversando, se relacionando…

Certo, ele entendia isso: o amor necessitava de relações. Podemos amar quando estamos sozinhos, mas para isso necessitamos da imaginação ou de outros lugares mentais que nos são tão incontroláveis, as vezes inobserváveis. Ainda assim, para ele, o amar sozinho não é tão sozinho, mas povoado por seres imaginários, oníricos que seja, mas seres, que no extremo da subjetividade, não se diferem muito daqueles tomados como concretos, objetivos. O que os diferenciam, se não o estímulo a outros sentidos? Para alguns, nem isso…

Mas esse, não era o caso dele. Ele sentia sua imaginação apenas através de sua consciência mental, já quando sonhava, essa consciência mental parecia se estender para os outros sentidos, mas não era a mesma coisa.

Assim, ele sabia que para amar haveria de ter um outro ser.

– Não acho que seja apenas um nome. Eu realmente sinto o amor. – as palavras da amiga retornam a sua memória.

– Mas o que você está definindo como amor? Amor entre cas…

– Não, não! Não falo desse amor romântico não. Falo de querer bem os outros. – interrompe ela, impaciente.

– Que outros? – questiona.

– Meus amigos, familiares…

– Pessoas próximas a você?

– Sim.

– Seletivo assim?

– Uhum.

– Portanto dependente desse fator? – questiona mais uma vez.

– Como assim? – sua amiga o olha confusa.

– Você se sente bem com essas pessoas?

– Sim.

– Esse amor não estaria relacionado com isso? Amar aqueles que me trazem algum tipo de prazer? Não estou dizendo que é isso, apenas estou expondo a dúvida.

– Não, quando me afasto de alguém, continuo sentindo esse amor.

– Pela imagem que você mantém da pessoa. A imagem que lhe dá prazer. – cutuca ele, um pouco inseguro.

– Claro que é pela imagem. Não tem como nos relacionarmos sem criarmos uma imagem da pessoa.

– Concordo, mas ai que vem o risco: e quando a pessoa faz algo que destrói essa imagem, o amor acaba?

– Por que? O amor é eterno?

– Não sei… – responde ele confuso em sua memória, retornando sua atenção ao mundo externo, aquele com o qual seus outros sentidos se comunicam.

Descendo a rua escura, passando na frente de um hospital no qual anos atrás ele vira um rapaz chorando copiosamente pela morte da mãe, ele lembrou de sua própria, ainda viva. Por mais que haja um momento ou outro de atrito entre eles, ele não consegue lembrar das atitudes inconvenientes de sua mãe, mas de várias ações de bondade que ela já fez.

Claro que isso poderia advir da carga cultural de sua sociedade e dos valores católicos agregados… Ele crê que assim seria se sua família não fosse tão diversificada em questões de crenças. Ele crê, também, que assim seria se não tivesse presenciado realmente os atos de bondade de sua mãe: como ela cuidou de seu pai no leito de morte, como ela cuidou de seus irmãos e irmãs e, recentemente, como ela ajudava com seu tio e cuidava da proteção das cabeças carecas da molecada do hospital do câncer onde o tio se encontrava, fazendo tocas de crochê para eles, mesmo não os conhecendo pessoalmente.

Ele sabia que essa bondade não era intrínseca de sua mãe, mas era algo que ela cultivou. Causa e efeito. Reflexões que ela teve a respeito de quão benéfico isso era e quão negativo seria o oposto. E a primeira reflexão, levou para uma ação, que levou a outra reflexão, que levou a mais uma ação, que resultou em outra reflexão, disparando mais uma ação, e assim por diante.

– É e não é eterno. – respondeu ele para sua amiga, quando estavam no bar.

– Como assim? – perguntou confusa.

– Não é eterno como algo imutável, existente por si mesmo que durará para sempre, independente das causas e condições envolvidas, porque isso não é possível de existir. – responde ele ainda inseguro sobre a clareza de suas palavras – E é eterno se pensarmos que as causas que geram o amor, o desejo de que os outros sejam felizes, resultam em possibilidades de gerarmos mais causas para intensificar o amor, e assim por diante.

– Aaaaaahhhh!!! Não estou entendendo! – disse ela, angustiada, olhando para o relógio ainda mais angustiada, como se a ansiedade tivesse aumentado – Eu tenho que ir embora, mas quero entender isso!

Eles se levantaram e foram pagar o refrigerante, partindo em seguida ao ponto de ônibus.

– Então! É eterno ou não é?

– Não sei! – ele ri – Só creio que se pensarmos no amor como algo que surge a partir de causas e condições, ele pode ser eterno se cultivarmos constantemente as causas, tornando cada efeito mais intenso.

– Não estou entendendo – disse ela, olhando para um ônibus vindo ao longe – Ai, meu ônibus! Dá um exemplo na prática, por favor!

– Tá, responde rápido então: me diz um pensamento machista que você tinha e não tem mais.

– Que mulheres que ficavam com mais de um homem eram galinhas. – respondeu ela sem pestanejar.

– Você acha que algum dia voltará a considerar mulheres, que ficam com mais de um homem, galinhas?

– Não. – responde ela aflita com a proximidade do ônibus.

– Por que?

– Por que eu pensei muito sobre isso e agora não faz sentido.

– E continua pensando sobre isso, não é?

– Sim.

– E quanto mais você pensava sobre isso, mais esse tipo de pensamento foi se afastando da sua cabeça, gradualmente, né?

– Sim. – o ônibus parou – O ônibus não, porra! Agora que eu estava entendendo! Aiii… Amanhã vou na sua casa. Você vai terminar de explicar, eu acho que estou quase entendendo – e ela entrou no ônibus.

Ele chega ao seu ponto de ônibus, pensando em como explicar algo que ele não tem certeza se entende.

A Casa da Estrada Desconhecida – parte 3 (final)

Consegui dormir realmente às 4 da manhã. Acabei perdendo o café que é oferecido pela pousada. Fui ao centro comer algo antes de ir procurar a casa de Carlos e Juliana. Entrei em uma padaria na qual ofereciam café da manhã até às 10hs, o que me restava ainda quinze minutos para comer algo.

Me servi e sentei, colocando meu celular na mesa, para manter-me de olho no horário. De canto de olho, para minha surpresa, vi que haviam esquecido um livro na mesa ao lado. Curioso, peguei o livro e reconheci que era aquele best seller que conta a história de uma menina sem graça que tem uma relação amorosa com um vampiro. Coisa de adolescente, mas muito pertinente em relação a minha motivação de estar naquela cidade.

Nesse livro há uma boa representação de nossa idéia sobre o que é o amor. Se esse é eterno ou não. Ou, até mesmo, se pode vir a ser eterno. É perceptível que temos uma ansia por eternalisar aquilo que nos dá algum tipo de prazer, bem estar, ou algo do gênero. Uma vontade de ter o poder de repetir sempre que quisermos, as sensações agradáveis que temos em alguns momentos de nossas vidas. Porém, seria isso realmente o amor?

Lembro-me de uma cena de um dos filmes baseados nessa série de livros – o qual fui assistir com minha sobrinha e suas amigas, a pedido do pai dela – em que a personagem principal fica melancólica ao ser deixada pelo vampiro, mostrando a dependência emocional que ela gerou em relação ao seu suposto amor. Minha sobrinha e suas amigas entraram em êxtase ao ver tal cena, comentando: “é isso mesmo que acontece”.

Elas tem razão. Finais de relacionamentos, geram uma grande tristeza quando a emoção que sentimos é aquela que costumamos chamar de amor. Mas nem por isso, e nem por sentirmos nossa dependência rasgar nosso coração, é que esse sentimento torna-se realmente “amor”.

Deixei o livro novamente aonde tinha encontrado e continuei tomando meu café. Ao término, peguei o carro e parti para a estrada para do Pico do Itapeva. Dirigi tenso, tentando relaxar e me convencer de que nada demais estava acontecendo. Assim que entrei por ela, comecei a observar atentamente a kilometragem, como um matemático, acreditando que a medida feita pelo mapa seria exata, mas não foi. Quanto, mais adentrava a estrada, mais tenso ficava. Aquela contagem dos kilometros percorridos, não ajudavam em nada, muito menos toda aquela neblina que se formava no local, afinal, estava me dirigindo para um dos locais mais altos do Brasil.

Depois de percorrida a kilometragem, não havia ainda a entrada para algum estrada. Diminui a velocidade e procurei atentamente, esforçando-me para que minha visão atravessasse a neblina, que estava densa. Após andar mais trezentos metros, vi algo que assemelhava a uma grande trilha através das árvore. Meu carro passava tranquilamente, mas não sabia dizer até quando.

Adentrei a “estrada desconhecida” e, mesmo ao meio dia, o céu pareceu escurecer. Aumentei o farol – o qual já havia ligado por causa da neblina –, Abri a janela e, com a cabeça para fora, olhei para cima, as árvores pareciam mover-se por vontade própria, tapando com seus galhos as passagens dos raios do sol. Elas se envergavam em direção umas as outras, balançando suas folhas em uma dança mórbida e sinistra.

Aquilo me assutou muito, mas, novamente, optei por permanecer racional e continuei meu caminho, até encontrar o fim da trilha. Peguei uma lanterna e desliguei o carro. Sai para ver se encontrava algo. Para minha surpresa, havia uma outra trilha pela qual passei despercebido, mas essa, só era possível atravessar caminhando.

Respirei fundo, tomei coragem e fui cautelozamente. Os únicos sons que escutava era o de corujas, sapos e de meus passos quebrando os galhos e folhas secas no chão. Senti um arrepio ao ver uma espécie de clareira, um pouco mais iluminada, porém ainda notívaga, onde se encontravam uma cerca, um pequeno brejo e, bem ao fundo, uma casa, velha e aparentemente abandonada. Bem diferente da mansão com quadra de tênis e piscina aquecida que eu havia imaginado.

O portão da cerca estava quebrado e as madeiras estavam podres. Quis ir embora dizendo a mim mesmo que não havia ninguém ali. Que tudo não passou de uma grande confusão e eu quase havia entrado nas alucinações de uma mãe solitária e louca. Mas algo me atraía para o local e mesmo com muito medo, continuei caminhando em direção à casa.

Observei o brejo e o número de sapos que lá se encontravam era grande, talvez pela quantidade de mosquitos e moscas que sobrevoavam o local. Com um certo nojo, me aproximei da porta, sentindo o cheiro repulsivo de carniça que infestava o ambiente. Toquei com cautela a maçaneta e tirei um sapo do meu caminho com o pé. Abri a porta e, previsivelmente, a maldita rangeu como o miado de um gato que leva um pisão em seu rabo.

Dentro da residência não havia luz e era possível escutar uma espécie de sussurro. Minha lanterna parecia fraca demais para iluminar aquele interior, mas era possível ver alguns móveis sujos e manchados por alguma “tinta” escura. Tentei observar detalhes, mas não consegui, meus olhos não se acostumavam suficientemente àquele tipo de iluminação. Mesmo assim, fui capaz de ver o vulto de um homem, magro e corcunda, sair por uma das portas que, aparentemente, levava a algum cômodo.

Não havia razão nenhuma para eu associar aquela pessoa ao Carlos, mas instintivamente perguntei se era ele. “Quem é você?”, foi a resposta com uma voz fraca e arrastada. Me apresentei, torcendo para ele não se aproximar de mim. “Ah!”, ele exclamou, dando a entender que me reconhecia. Com ele no mesmo comodo, os sussurros pareciam mais altos, porém, ainda sim, ininteligíveis. “O que veio fazer aqui?”, ele me perguntou, sem muita emoção em sua voz. Respondi que estava lá para ver como ele e Juliana estavam, pois senti saudades de nosso grupo de amigos. Nesse instante, parecia que tinha entendido o que o sussurro dizia. Parecia um “eu te amo”.

Aquilo me arrepiou e senti vontade de fugir, enquanto Carlos me respondia apatico: “Juliana morreu”. Vi um movimento do seu rosto e acompanhei com a lanterna, deparando-me com aquela cena horrenda: havia uma pilha de ossos no chão, alguns ainda com carne em putrefação e larvas de moscas se contorcendo no local. Não era apenas de Juliana, pois eram muitos ossos. Voltei rapidamente a luz em direção ao Carlos, pois temi que ele estivesse se aproximando.

Realmente, ele havia dado alguns passos em minha direção e passei vê-lo um pouco melhor. Sua aparência era como a de um velho, fraco e doente, pálido, com olheiras imensas iguais de sua mãe no hospital. Seus cabelos estavam compridos, mas bem ralos e sua barba, cheia de falhas visíveis. Conseguia reconhecer o velho Carlos pelo formato de seu rosto, mas não muito mais que isso.

A corcunda era algo novo, pois ele nunca teve, contudo, havia algo estranho naquilo. Aquela grande protuberância parecia se mexer por vontade própria. Perguntei o que aconteceu com ele, como Juliana morreu. Ele percebeu que eu estava nervoso e mostrou os dentes podres, me confundindo, pois tive a impressão de que ele queria me amedrontar ainda mais, mas ao mesmo tempo, parecia que estava esboçando um sorriso. Novamente eu escutei o sussurro dizendo: “Eu te amo” e senti meu coração subir para minha garganta. “Juliana já morreu faz tempo. É difícil o perder alguém que se ama, não é?”, não houve alteração na voz apática de Carlos, “Mas o amor nunca morre”, concluiu, andando lentamente em minha direção, tornando ainda mais claro o “eu te amo”, proferido por aqueles sussurros.

Quanto mais próximo ele chegava, mais eu percebia os detelhes. Seus olhos fundos, ainda guardavam os traços da imagem que eu tinha de Carlos em minha memória. Percebi também, que a corcunda, na verdade, parecia um grande tumor, com variações de tamanho em toda sua extensão. “Agora eu tenho certeza disso”, senti um prazer sórdido em sua voz, enquanto o sussurro prosseguia dizendo “eu te amo”. Foi quando eu percebi de onde vinha o sussurro e uma indiscritível sensação de repulsa e horror tomaram conta de minha mente.

Senti minhas forças diminuirem, como se fosse desmaiar. Queria muito correr, mas não conseguia me mover. “O amor é isso. Viver para sempre ao lado de quem se ama. Ser UM com aquele que amamos”, foi suas últimas palavras até me deparar com aquilo que nunca imaginaria existir e que seria melhor se nunca tivesse visto. Me senti pequeno e quase paralisado, não só pelo terror que sentia, mas também por todo sofrimento com o qual me deparava.

Aquilo foi demais para mim. Mesmo fraco, corri o máximo que pude até chegar em meu carro. Consegui sair de lá, como você pode perceber por esse e-mail, mas não ileso. Não digo só fisicamente, pois desde que voltei continuo fraco, mas também mentalmente. A imagem de Carlos me assombra a todo instante. Em todos os lugares que fecho meus olhos, ele e seu tumor, surgem como assombrações, me tirando a paz e a alegria.

Talvez, teria conseguido lidar com Carlos, conversar com ele, mas no momento em que o tumor se moveu, mostrando uma espécie de rosto, com um orifício semelhante a uma boca cheia de pequenas presas, de onde escorria sangue, me encararando com olhos sinistramente familiares – me remetendo a Juliana – enquanto sussurrava no ouvido de Carlos: “Eu te amo”, não mais fui capaz de suportar. Essa frase, quando recitadas em filmes, novelas, ou mesmo na vida real, me dá um calafrio e me faz recordar daquela relação parasita.

O que vi lá, não era tão diferente do que vejo em nossa definição de amor. Talvez eles, Carlos e aquilo – Juliana, quem sabe? – só levaram essa idéia a um extremo. Mas quantos extremos não vemos desse conceito, que nos levam a crer que há algo distorcido em nossa concepção dessa emoção? Poderia realmente esse amor ser uma virtude, se é causa para tamanho sofrimento? Se gera uma dependência emocional tão grande que parece que não sejamos capazes viver sem o objeto desse amor? Que prisão!

Com certeza, isso que somos acostumados a chamar de “amor” está longe de ser virtuoso. Se o amor é realmente uma virtude, quero descobrí-lo, pois o desconheço. Talvez, o querer bem daqueles que gostamos, seja um ponto inicial para descobrirmos tal significado.

Entretanto, o que me dá medo, é nossa motivação no gostar. Gostamos de algo, normalmente, porque nos dá prazer, conforto, etc. Não seria essa motivação a causa para o “parasitismo”?

Não quero ser como Carlos, mas sei que, por enquanto, em menor escala, não sou diferente dele.

Atenciosamente,

A Casa da Estrada Desconhecida – parte 2

Ela me recebeu bem. Mesmo quando disse que estava atrás de Carlos, ela não alterou seu comportamento, na verdade, estava tão confusa quanto eu e preocupada com sua amiga. Disse ela que Dona Lúcia tinha ido para Campos do Jordão atrás do filho e que algo aconteceu lá, pois sua visinha ligou desesperada pedindo para que a fosse buscar, pois não estava em condições de dirigir e nem mesmo de pegar um ônibus.

O desespero na voz de Dona Lúcia a assustou, o que levou-lhe a não perder tempo e dirigir rapidamente até a elegante cidade montanhosa. Chegando lá, o susto foi ainda maior, a aparência da mãe de Carlos estava péssima. Ela tinha envelhecido alguns anos em menos de 48 horas e seu olhar beirava a insanidade.

Andréia perguntou o que aconteceu, mas Lúcia nada respondeu. Foi apenas quando ela disse que iria até a casa de Carlos saber o que havia ocorrido, é que a mãe de nosso amigo quase surtou, tirando da bolsa um papel com o endereço e picando-o. Andréia tentou impedir, mas tudo que conseguiu foi fazê-la deixar o papel picado cair no chão do seu carro.

Sabendo disso, perguntei-lhe se ainda tinha como pegar os pedaços de papel no qual constava o endereço. Ela disse que sim, já que não tinha tido tempo de limpar o carro desde a viagem, que ocorreu um dia antes de Lúcia ter tido o derrame. Assim, vasculhamos o carro dela atrás de todos os pedaços e encontramos a maioria, o suficiente para descobrir as principais informações sobre o endereço.

Antes de ir embora para juntar os pedaços do papel, perguntei o que mais ela sabia sobre Carlos, antes do incidente. Andréia respondeu que sempre teve muita dó de Lúcia, por viver em solidão, já a maioria dos seus filhos e seu marido haviam falecido, e que Carlos era alguém “indiferente”, bem “distante e frio”. Ele não se comunicava com a mãe desde que foi embora morar com Juliana, quem dona Lúcia culpava pelo “sumiço” do filho.

Há alguns meses atrás, dona Lúcia havia recebido uma ligação de seu filho. Ele estava desesperado e inconsolável. Andréia não soube me responder o motivo disso, mas disse que foi essa a razão pela qual a mãe de nosso amigo procurou onde ele estava morando e foi visitá-lo. Pelo que a vizinha sabia, Lúcia pegou o endereço com o agente imobiliário de seu filho, que ela só conseguiu encontrar quase seis meses após o ínicio de suas investigações.

Agradeci Andréia pelas informações e parti. Em casa, mesmo incomodado com toda essa história sinistra, juntei os pedaços de papeis e consegui ler “Estrada Desconhecida, 2,5k… da ent… ada do Pico do Itape…”, e acabei fazendo minhas deduções sobre o pouco de informações que faltava.

Cheguei a conclusão de que a suposta moradia dele ficava em uma “estrada desconhecida” com acesso pela “Estrada do Pico do Itapeva”, a aproximadamente 2,5 km após entrar na estrada. Pesquisei na internet onde poderia ficar o lugar. Tudo estava muito misterioso e foi inevitável que eu começasse a ter calafrios e a me sentir em uma história de terror. Optei então por não dar vasão a esse tipo de pensamento, e voltei a tentar imaginar que Carlos e Juliana estavam vivendo bem em alguma mansão nas montanhas e que, o problema com a Dona Lúcia, não fora causado por eles, mas sim, pelo histórico familiar de insanidade presente nos genes da mãe de nosso amigo. Mal sabia que, era exatamente nesse momento, que eu estava realmente me enganando.

O fato, é que eu estava em uma história de terror.

Pela internet fiz um mapa de como chegar ao local. Por sorte, estamos fora de temporada em Campos do Jordão, o que facilitou para que eu achasse uma pousada mais em conta para pagar pelos quatro dias que pretendia ficar lá. De acordo com o mapa, dessa pousada até o a “estrada desconhecida” – que também era a forma que aparecia na internet – a distância era de 3,5 km, o que me pareceu bem satisfatório, e por isso, foi lá que me hospedei.

 Cheguei no início da noite na cidade e parei para tomar um café, enquanto pensava como abordaria Carlos e Juliana após tanto tempo sem vê-los. Refleti se era necessário falar sobre a mãe dele, e se isso seria positivo para a minha aproximação. Antes mesmo de terminar o café, já tinha chego a conclusão de que o assunto “Dona Lúcia” não seria nem um pouco positivo, então me dirigi a pousada decidido que no dia seguinte, logo de manhã, iria atrás do casal apenas para saber como estavam e analisar se o amor deles realmente perdurava.

Mesmo já envolvido em toda a trama macabra que se descortinava, não podia perder o foco da minha busca. Afinal de contas, não estava atrás de Carlos e Juliana com o intuito de ajudá-los a resolver suas questões familiares, mas sim, para tentar compreender ainda mais o assunto de nossos atuais debates. Para tentar analisar mais, o que seria o tal amor virtude e aquilo que nós e nossa sociedade concebe como amor. Seriam esses dois conceitos a mesma coisa? Quais seriam as diferenças? Haveria alguma semelhança?

Chegando na pousada, fui para o meu quarto, pedi uma pizza e tomei um banho enquanto a esperava. Assisti um pouco de tv enquanto comia apressadamente, sem perceber. Comi cinco pedaços, por pura gula, ou ansiedade. Não sabia o que estava me esperando, mas algo em mim dizia que não seria bom, mesmo tentando me convencer do contrário.

Tentei dormir cedo, mas não consegui. Realmente estava ansioso. Rolei de um lado para o outro da cama, sem entender exatamente o porquê de tudo aquilo. Cochilei algumas vezes, mas os sonhos agitados me faziam acordar. Cheguei a questionar se valia a pena me envolver tanto nessa história. Se por causa do interesse pelo entendimento do que vem a ser o amor filosófico, fazia sentido ir atrás de um casal que, no máximo, poderia apenas corroborar na consolidação da crença comum desse sentimento: o amor entre duas pessoas, aquele amor que um casal constrói, que por algum motivo, parece desassociado do amor fraternal e do amor pelo próximo. Porém, mesmo diferentes, a mesma palavra é usada. A mesma palavra que designa um forte desejo por ter alguém específico do seu lado, é usada para designar um estado de loucura onde um namorado mata o outro, e ao mesmo tempo, é usada em um sentido de puro altruísmo entre os seres.

Agora sei a resposta, mas no dia não. Entretanto, percebi que minhas justificativas para desistir, eram na verdade o medo que sentia pelo desconhecido. Por todo aquele mistério que rondava nossos velhos amigos.

A Casa da Estrada Desconhecida – parte 1

Boa tarde, Nath. Como você está?

Não posso negar que depois dos últimos acontecimentos, até mesmo escrever “boa tarde” é bastante difícil.

Sei que deve estar confusa sobre o que estou falando, mas logo esclarecerei; tal como a razão do título desse e-mail, que provavelmente você já deve suspeitar. Afinal, a muito tempo que estamos discutindo os significados dessa palavra, não é mesmo? Não sei exatamente há quantos meses estamos questionando o que vem a ser “amor”, “amar”, e tudo que se deriva disso. Se aquilo que chamamos de amor, aquilo que está enraigado em nós e em nossa sociedade, realmente tem algo em comum com certas virtudes exaltadas em algumas filosofias e religiões.

Bem, em nossa última conversa, não sei se recorda, comentamos sobre um casal de amigos que tivemos na adolescência, lembra-se? Creio que foi a três semanas atrás que conversamos sobre Carlos e Juliana. O quanto eles “pareciam feitos um para o outro”. O quanto encarnavam o “amor” que concebemos como sendo uma virtude, a razão da felicidade.

Se conheceram desde pequenos e fizeram juras de amor eterno. Até onde sabemos, mantiveram seus compromissos. Fizeram planos e tudo mais. Pareciam um casal excepcionalmente feliz. Com eles, a eternidade do amor parecia real. Até mesmo quando começaram a se afastar de nosso círculo de amigos, não pareciam sofrer com a decisão, muito pelo contrário, demonstravam certeza e contentamento.

A razão do título do e-mail, “Amor”, é esse: me encontrei com eles, ou melhor, com Carlos e gostaria de lhe contar como foi. Já lhe digo que colocar esse título para um evento tão sinistro, gera um conflito em minha mente.

Sei que muito do que está escrito aqui não fará sentido, ou até mesmo parecerá alucinação ou algum outro tipo de devaneio. Mas prefiro correr o risco de ser tido como louco e expor os fatos para que possamos ampliar nosso debate a respeito da suposta virtude do amor, do que esconder o que vi e mantermos nossa discussão no senso comum.

Após nossa última conversa, curioso como sou, aproveitei meu mês de férias e procurei pelo nosso “casal exemplo”. Queria saber o que aconteceu com eles. Como estavam depois desses quinze anos que não nos víamos.

A minha busca me levou à cidade de Campos do Jordão, aproximadamente 260 km de Campinas. Uma cidade com um certo luxo. Foi inevitável imaginar que encontraria o casal morando em alguma casa luxuosa nas montanhas, parecida com um castelo ou com alguma mansão européia, com pelo menos dois carros na garagem, quadra de tênis, piscina aquecida, sauna e coisas do gênero; mesmo que as evidências me dissessem o contrário.

Para descobrir onde ele se encontrava, revirei minhas anotações das pesquisas que fiz a respeito de nossos amigos. Entrevistei ex-colegas do colégio que freqüentamos, outros velhos amigos, ex-colegas de trabalho de ambos. Ninguém sabia exatamente onde eu poderia encontrá-los, mas todos tinham palpites: Serra Negra, Atibaia, Monte Verde, Santo Antônio do Pinhal, me disseram até mesmo Valinhos, em alguma fazenda isolada. Sabiam apenas que Carlos e Juliana, se afastaram cada vez mais de todos, até de seus familiares, e que ambos, venderam tudo e limparam suas contas para comprar uma mansão ou algo semelhante em uma dessas cidades.

Assim, procurei pela família de Carlos, que era com quem eu tinha mais contato. Por incrível que pareça, quase ninguém estava vivo ou em sã consciência. Seus irmãos haviam morrido, o mais velho de ataque cardíaco, o do meio de câncer, igual ao pai, as duas mais novas foram assassinadas durante um assalto. Já seus primos e tios – dos que estavam vivos – dois primos estavam em uma clínica para dependentes químicos – casos graves de dependência – e um de seus tios se encontrava em um asilo para idosos, porém, sem condições de me dar alguma informação válida, já que é um quadro grave de esquizofrenia. Quem me restou para conversar foi a mãe.

Depois de dois dias procurando, descobri que ela havia tido um derrame recentemente e estava correndo risco de morte no hospital do bairro Ouro Verde. Fui tentar visitá-la, mas por não ser um familiar, quase não me deixaram entrar. Expliquei-lhes a situação da família e que vinha dar notícias do filho “desaparecido”. Por sorte, ou azar, o médico dela estava voltando do horário de almoço e escutou minha história. Ele considerou uma boa idéia eu fazer a visita, e liberou minha entrada na UTI.

Caminhei pelos corredores com uma certa apreensão, somada a uma sensação desconfortável de que algo não muito bom estava para acontecer. Pensei em várias coisas. Tetava imaginar como o Carlos conseguia se manter longe, sabendo que sua mãe estava sozinha a, pelo menos, cinco anos, quando seu marido faleceu por causa de um tumor cerebral.

Cheguei até mesmo a refletir como esse amor que ele sente por sua mulher, é tão exclusivo, tão limitado, a ponto de ignorar o sofrimento da própria mãe para se manter junto, a sós, com ela. Seria realmente esse amor, a virtude sobre a qual tanto falam?

O quarto com a mãe morimbunda, tinha um ar rançoso e denso. O médico me disse que ela estava em uma espécie de coma induzido, ou algo do gênero, não me recordo muito bem; na verdade, creio que nem prestei muita atenção, pois estava pasmo com a aparência daquela mulher, que em minhas memórias advindas da adolescência era uma pessoa forte e “iluminada”. Ela estava decrépta, esquelética, com os olhos fundos e olheras enormes. Sua face era quase um mapa rodoviário de tantas linhas de expressão, que a deixava vinte anos mais velha do que realmente era.

Perguntei ao médico se ela estava daquele jeito por causa do derrame. A resposta triturou meu coração. Um simples “Não. Ela estava assim quando chegou”, fez meu mundo se abalar frente a tamanho sofrimento que via naquele semblante.

Exitei em tocar em sua mão, mas o fiz, pois o médico havia me dito que ela sentiria o toque e me ouviria perfeitamente. Ao tocá-la, seu corpo estremeceu. O médico sorriu e nos deixou a sos. Aprovietei aquele momento, mesmo acreditando que não conseguiria resposta alguma, para lhe perguntar onde eu poderia encontrar Carlos e Juliana.

Meu coração saltou em minha boca quando seus olhos abriram, desesperados, me encarando fixamente. Seu corpo tremia e sua cabeça balançava rapidamente de um lado para o outro, como se quisesse negar o que havia lhe perguntado. Murmúrios ininteligíveis saíram de sua boca. Ela percebia que eu não estava entendendo e apertou ainda mais forte minha mão, tentando levantar seu corpo. Por reflexo abaixei o meu para escutá-la melhor e foi quando ouvi a frase: “Nãã vaáá atrrss dee Carrss”, dita com muito esforço. Ela soltou minha mão e começou a chorar compulsivamente. Duas enfermeiras entraram no quarto. Uma tentou acalmá-la e a outra foi chamar o médico. Fui esperar o doutor do lado de fora. Queria muito conversar com ele. Saber mais a respeito do que aconteceu com aquela mulher.

Assim que o médico a atendeu e saiu, conversei com ele, iniciando com perguntas a respeito do bem estar dela, logo após, passamos a conversar sobre sua familia e como ela chegou no hospital. Quem puxou a conversa, convenientemente, foi o doutor.

Descobri, nessa conversa, que a mãe de Carlos, dona Lúcia, havia sido levada ao hospital pela vizinha, Andréia, e que ainda estava consciente ao ser hospitalizada. Quando o médico perguntou sobre sua família, ela respondeu com dificuldade que estavam todos mortos, mas a vizinha a corrigiu, dizendo que havia um filho ainda vivo. Dona Lúcia tentou dizer algo, mas no lugar de palavras, saiu um urro, pois ela teve outro AVC.

Fui embora abalado. Foi inevitável chorar no caminho de casa. Entretanto, havia uma coisa que me contentava: o médico me passou o endereço de Dona Lúcia. Assim, fui visitar a vizinha, Andréia.

%d blogueiros gostam disto: