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Produção de Curtas de Ficção como Prática Pedagógica

Resumo

            Esse artigo tem como proposta trazer reflexões a respeito do uso da produção de curtas de ficção, com alunos do Ensino Fundamental II, como prática pedagógica que vai além do aprendizado técnico, estético e do desenvolvimento da criatividade, adentrando a possibilidade de reflexão, por parte do aluno, sobre suas relações com a realidade que chega a ele. Tais reflexões tem como virtualidade principal a capacidade de desconstrução e construção dessas relações.

Introdução

            É comum pensarmos na produção de vídeos de ficção com alunos, como uma prática de desenvolvimento da criatividade das crianças e adolescentes. Sabemos, contanto, que o objetivo de tal prática vai além, tal como as virtualidades do cinema, “a possibilidade que ele dá de recriar o mundo, reinventar a realidade, observar como poderia ser de outra forma” (NORTON 2013; p. 12). O cinema estimula os alunos a refletir sobre a realidade que os alcança e sua realidade interior, cuja relação entre elas dá-se, em primeira instância através das imagens, “superfície significativa na qual as ideias se inter-relacionam magicamente” (FLUSSER 2011; p. 12), posteriormente através da imaginação, “capacidade de compor e decifrar imagens” (FLUSSER 2011; p.12), e da conceituação, “capacidade de compor e decifrar textos” (FLUSSER 2011; p. 11).

            Ao pensar em histórias a serem contadas nos filmes, o aluno encara suas relações com a realidade, entretanto, esse enfrentamento a essas relações não é simples nem mesmo natural, mas deve ser estimulado pelos professores e, se assim não for feito, o aluno apenas representa sua interpretação costumeira da realidade, reproduz apenas “o mundo, sem refletir sobre esse ato, (…) desperdiçando a maior qualidade de toda arte, essa possibilidade de transfiguração” (NORTON 2013; p. 12). Tal transfiguração, essa transformação nas relações do aluno e a realidade que o alcança, ocorre principalmente quando os alunos superam seus limites de reflexão, o que necessita das bases de conhecimentos adquiridos em aulas diversas – de variadas áreas de conhecimento – e de lidar com as dificuldades de pensar em construções estruturadas das obras audiovisuais, quando se depara com a necessidade de pensar nos detalhes de como contar sua história: qual a iluminação, paleta de cores, enquadramentos, e assim por diante, mais adequados para comunicar melhor o que há de conotativo? Deparando-se com essas dificuldades o aluno se vê obrigado a pensar sobre o que está tentando contar, entrando em contato de forma mais sistemática com a maneira que ele interpreta suas relações, podendo, assim, reformulá-la. Dessa forma, o trabalho com o audiovisual “não visa modificar o mundo lá fora, (…) mas os nossos conceitos em relação ao mundo” (FLUSSER 2011; p. 27).

            É importante, entretanto, pensarmos bem a respeito de como as mudanças de relações, as transfigurações, não ocorrem de maneira meramente natural. Não é o mero fazer filme que fará com que o aluno reflita sobre novas possibilidades de interpretações da realidade, e o mesmo ocorre em qualquer prática e vivência artística. O mero fazer, o mero ver, assistir, nada mais faz do que reforçar valores e parâmetros pré-existentes. Até mesmo a maioria das artes às quais os alunos são expostos, também não detêm esse poder de naturalmente transformar as pessoas e o mundo, afinal, se o discurso presente na obra é um discurso com pressupostos aos quais já possuem, e valores que já são reforçados desde sua tenra infância, que transformação interpretativa e relacional isso de fato proporciona? Poderíamos argumentar que há filmes que trazem valores e interpretações da realidade que conflitam com aqueles que a sociedade na qual estamos inseridos possui, e isso faz com que os alunos tenham que pensar a respeito de si mesmo. Esse conflito realmente nos leva a questionar muita coisa, mas são capazes de mudar os pressupostos que embasam tais valores e interpretações? Esses valores e interpretações estão embasados em pressupostos diferentes daqueles que estão sendo questionados? Que desconstrução isso traria de fato? Claro que poderíamos também argumentar que ele desenvolveria um conhecimento estético que não possuía anteriormente, o possibilitando apreciar as obras de arte de maneira diferente. Isso é um fato, entretanto, volto a questionar, de que adianta tal conhecimento sem que haja novos parâmetros, novos pressupostos a serem comparados e investigados pelo próprio aluno? Não se tornaria um ferramental a mais para que ele ou ela apenas reforcem sua visão de mundo e valores já fixados por um constante estímulo social?

            Sendo então o trabalho com audiovisual possuidor de uma virtualidade tão poderosa, devemos refletir como podemos mediar o processo de reflexão do aluno sobre suas relações com a realidade que chega a ele através da produção audiovisual. No caso desse texto, proponho em trazer reflexões sobre como a produção de curtas de ficção pode ser usada para tal propósito.

A Linguagem Audiovisual de Ficção e Sua produção

            O audiovisual, para muitos alunos, é uma fonte de entretenimento, seja dentro da indústria cinematográfica ou dos vlogs e gameplays da internet. Quando pensamos nos filmes de ficção, a questão do entretenimento parece ficar ainda mais evidente, já que, aparentemente, não há uma realidade sendo representada. Entretanto, “temos acesso ao real apenas através da mediação dos discursos; todo discurso elabora ficções aproximativas à realidade, portanto, todo discurso funda-se pela ficção; logo, todo discurso é ficcional” (SCHÄFFAUER 2011; p. 226)[1], e adotando tal perspectiva, passamos a reconhecer o cinema de ficção como uma forma de discurso que pode mediar nosso acesso ao real.

            A relação com audiovisual de ficção, sendo visto como um discurso mediador, ainda pode ser investigado sob duas perspectivas: como espectador e como produtor. Dentro da prática pedagógica, podemos trabalhar ambas as perspectivas de maneira a proporcionar aos alunos momentos de desconstrução e reconstrução de suas relações com a realidade. A primeira é trabalhada com a apreciação e análise de filmes, que é importante ser tratada em outro momento, pois alongaria demais esse texto e sairia do recorte escolhido, a segunda é trabalhada com o fazer.

            Ao trabalhar a produção do audiovisual de ficção com os alunos, é importante pensarmos nisso como um trabalho de linguagem, já que a proposta aqui é o trabalho com os discursos que mediam nosso acesso à realidade, e não como um trabalho limitado à produção estética ou criativa. Sendo assim, os alunos devem adentrar essa concepção, serem apresentados ao audiovisual como linguagem, vislumbrando as virtualidades de comunicação de discursos presentes nesse ferramental.

A linguagem audiovisual é composta por elementos que se inter-relacionam estabelecendo um conjunto de relações com o espectador que entra em contato com a obra, tal como ocorre com qualquer outra linguagem. Esses elementos – enquadramentos, paletas de cores, iluminação, figurino, cenografia, ritmo, trilha e efeito sonoros, etc – possuem virtualidades que quando se tornam efeitos nas inter-relações com o espectador, geram experiências estéticas, cognitivas, se comunicar de forma denotativa e conotativa, e assim por diante. Com o conhecimento desses elementos, os alunos passam a pensar no audiovisual de maneira sistemática, a fim de construir o vídeo de maneira mais eficiente para aquilo que quer comunicar.

Quando nos deparamos com a linguagem do audiovisual dessa maneira, ao produzir um conteúdo, nos vemos obrigados a refletir sobre nosso discurso e como trabalhar os elementos de forma mais condizente a ele, o que nos leva ao contato com nossas interpretações da realidade. Se pararmos nesse contato, produzindo uma obra que simplesmente expõe essas interpretações em nossos discursos, não haverá um movimento de análise, reflexão, desconstrução e reconstrução das nossas relações atuais, muito pelo contrário, normalmente há um reforço delas. Esse processo é semelhante ao processo que ocorre com os alunos e, é nesse momento – no momento do contato com suas interpretações sobre a realidade –, que o professor deve agir de maneira a mediar possíveis direcionamentos de análises dos alunos.

Há várias formas, que não se anulam, de fazer essa mediação, desde fazendo perguntas sobre as escolhas que os alunos façam: Por que vocês escolheram essas cores? Que enquadramento vocês vão usar nessa cena? Por que vocês o escolheram? E assim por diante. Outra forma possível, por exemplo, é deixa-los fazerem o filme e, depois de finalizado – inclusive editado –, exibir a eles, para que tentem interpretar o próprio filme, tentando entender o discurso presente no vídeo e oque eles intencionavam, e assim por diante. Ainda há outras possibilidades, mas o mais importante de todas elas é que os alunos façam seus vídeos. Eles devem fazer desde o roteiro, até a filmagem e, se possível, a edição. Isso por um motivo principal: o aluno estará tentando entender seu próprio discurso, quanto mais o professor interfira no processo, menos haverá do discurso dos alunos e mais do professor.

            Essas explicações, entretanto, não justificam o uso da produção de curtas de ficção. A questão da produção de curtas, tem um lado prático, que é o tempo de pré-produção, produção e pós, mas também tem um lado mais abstrato relacionado a isso, que a quantidade de vídeos que os alunos produzirão até o final do ano e o número de vezes, proporcional a isso, que eles terão a oportunidade de encararem suas relações com a realidade. Agora, a razão de escolher o gênero de ficção é um pouco mais complexo.

            Filmes de ficção, inicialmente, possuem o apelo, como dito anteriormente, ao entretenimento, portanto há um elemento lúdico em sua produção, inclusive na atuação dos alunos como personagens. Entretanto, se a proposta é o uso da produção de curtas de ficção para possibilitar transformações nos alunos através de um senso crítico de suas relações na produção de seus vídeos, por que não trabalhamos com a produção de documentários? No trabalho com produção de documentários haverão outros questionamentos e direcionamentos, mas não deixa de ser possível. Entretanto, o cinema de ficção não tem a pretensão de ser real, não faz pose de pretensa verdade, tal como o documentário o faz. É fácil acreditar que documentários são registros e representações da realidade, mas ignoramos – ato que se tornou consciente no final do século XX e no início do XXI – que eles são feitos de recortes, de pontos de vista, tentam defender um discurso, uma ideologia, argumentações, etc. Os filmes de ficção também tentarão convencer seus apreciadores de algumas “verdades”, mas estarão fantasiados de mera fantasia, ou, quando baseados em fatos reais, não pretendem representar tais fatos, mas defender um discurso em uma roupagem despretensiosa de entretenimento. Ao tentar se comunicar de forma denotativa, os alunos tem que pensar bem mais em quais são os discursos que querem defender e como o farão através de uma história fictícia.

            Quando tentamos entender a realidade que nos alcança, o fazemos através de modelos que se estruturam através da língua. Esses modelos são ficções aproximativas da realidade, como visto anteriormente, desse modo, tal como afirmou o filósofo Vilém Flusser: “realidade é ficção, e ficção é realidade” (SCHÄFFAUER 2011; p. 227), ou seja, são “modelos que formulam uma hipótese sobre a relação entre sujeito e objeto”. Se fôssemos adentrar a questão dos sistemas metafísicos, poderíamos questionar, principalmente hoje, no século XXI, se há tal relação entre sujeito e objeto, ou se há uma inter-relação entre o que convencionamos chamar de sujeito e de objeto, mas não é o caso.

            O trabalho com a produção de curtas de ficção, portanto, pode ser um poderoso ferramental para estimular os alunos a refletirem sobre a realidade à qual estão em relação e a forma que essa relação se faz, podendo, assim, desconstruírem e construírem novas relações que os levem a, constantemente, investigarem a realidade e superarem a alienação que é viver sem entender os direcionamentos que nossa cultura nos trás, colhendo frutos muitas vezes amargos, pois agimos dentro de um programa. O programa atual visa a “manipulação objetivante do homem” (FLUSSER 2011; p. 26), sendo assim, a superação da alienação se inicia o entendimento dos processos que objetificam o ser humano e que faz parte de nossos discursos diários, das bases de nossos pensamentos, passando posteriormente a desconstrução desse “programa” e a construção de novos parâmetros que nos levam a não mais retornar a esses parâmetros antigos. Entretanto, quais os limites dessa desconstrução?

BIBLIOGRAFIA

SCHÄFFAUER, Markus; BERNARDO, Gustavo (Organizador). A Filosofia da Ficção de Vilém Flusser. Além da Ficção. Annablume, São Paulo, SP, 2011.

FLUSSER, Vilém. Pós-História: Vinte Instantâneos e um Modo de Usar. Annablume, São Paulo, SP, 2011.

______________. Filosofia da Caixa Preta: Ensaios Para uma Futura Filosofia da Fotografia. Annablume, São Paulo, SP, 2011.

NORTON, Maíra. Cinema Oficina: Técnica e Criatividade no Ensino do Audiovisual. UFF, Niterói, RJ, 2013.

[1] Citando Gustavo Bernardo em Livro da Metaficção.

PUNHO DE FERRO E O BUDISMO CHINFRIM

Começo esse texto já afirmando: gosto muito das séries da Netflix do universo Marvel. Adorei a primeira temporada do Demolidor, achei a primeira metade da segunda temporada muito foda, mesmo que tenha tropeçado na segunda metade, ainda assim não achei de toda ruim. Jessica Jones foi fantástica também e não me envergonho de dizer que gostei de Luke Cage do começo ao fim; mesmo que tenha achado o Diamondback, um antagonista mixuruca perto do Cottonmouth e de Mariah Dillard. Com Punho de Ferro não foi diferente: gostei da trama da série, alguns personagens como Ward, Madame Gao, acabam se destacando, mas ainda assim achei legal o Danny Rand perdidão e “inocente” que conduz a série.

Essa introdução é só para dizer que não pretendo meter o pau na série, isso outros bloggers e vloggers já estão fazendo, prefiro focar em outros tópicos. Como meu conhecimento de kung fu é bastante limitado, manterei meu comentário sobre esse ponto nesse mesmo limite: as coreografias são fracas. As cenas de luta do Demolidor deixam o “lendário” Punho de Ferro no chinelo, portanto deixou a desejar. Desse modo, opto por focar em como o budismo, o qual o meu conhecimento é menos limitado, foi representado na série.

Desde o início o budismo é apresentado apenas em seu aspecto sobrenatural e religioso, ou seja, mitológico, algo completamente natural dentro de um cenário de ficção e fantasia que é o caso do Punho de Ferro, entretanto, dá-se a ideia de que o Buddha Dharma – o sistema de ensinamentos estruturado por Buddha Shakyamuni – é baseado em citações (Danny Rand cita “ensinamentos” como se fosse aqueles populares livros de “meditações diárias”, “horas de sabedoria”, e assim por diante) e em reprimir emoções, como a própria Claire Temple observa nos últimos episódios. Em outros momentos, o budismo de Punho de Ferro é retratado como um escapismo da realidade, a ponto do personagem ter atitudes sociais extremamente estranhas, como ficar em “postura de meditação”¹ na frente da casa de Joy – sua amiga de infância – com flores, frutas e incenso, dizendo que aquilo é uma “tradição budista” para que eles se lembrarem de sua “ligação”. É até impressionante a personagem Joy ter relevado aquela bizarrice, mas ok.

Esse budismo chinfrim apresentado no Punho de Ferro soa estranho se levarmos em conta que: 1 – além dos Sutras, há centenas – senão milhares – de tratados budistas escritos e comentados por vários pensadores durante a história do budismo, o que não dá para ser resumido em citações jogadas ao vento, como o personagem faz²; 2 – que todos os sutras e tratados relacionados a eles, focam na compreensão e desenvolvimento de Dharmas (objetos de investigação) que objetivam a cessação do sofrimento e suas causas, através da desconstrução de interpretações aflitivas das relações que fazemos parte e interpretação das relações que sirvam de causas de felicidade, o que além de não ter nada a ver com repressão de emoções, leva o próximo ponto; 3 – a investigação da realidade possui uma importância tremenda para o desenvolvimento do budismo, principalmente do budismo acadêmico que advém desde as universidades de Nalendra, Odantapuri, e outras, sendo atualmente estudado seriamente em universidades do ocidente como Oxford.

Durante esse longo parágrafo alguns poderiam estar se preparando para jogar uma falácia do escocês na minha cara, esperando eu finalizar com um: “Isso não é budismo de verdade”. Mas bem, esse é, também, um budismo de verdade, tomando verdade não como um modelo, mas como algo que temos que lidar em nossas relações. No nosso “mundo ocidental” popular, esse budismo chinfrim, talvez seja o budismo mais verdadeiro, pois é com o qual mais nos relacionamos. Entretanto, isso não o torna menos destoante, no que diz respeito ao objetivo expresso nos sutras e os pressupostos que o fundamenta: a cessação do sofrimento e suas causas, através da compreensão da realidade da interdependência. Tal objetivo não é alcançado com citações, repressão das emoções e escapismo. Além disso, a própria ideia do Punho de Ferro, como um ser substancialmente existente – “Eu sou o Punho de Ferro! Eu devo proteger kun’lun!” – não condiz com o pressuposto de que o “eu” não tem existência inerente, existindo como efeito de relações³.

Como disse, não desgostei da série, acho até que ele é um bom retrato do efeito alienante do budismo comercial com o qual temos contato, onde aqueles que o “estudam” e escrevem livros, estão mais preocupados com aquilo que é vendível e que pode ser bastante prejudicial, do que com a estrutura sistematizada que possui maior probabilidade de trazer benefícios para as relações de quem se propõe a praticá-lo. Ainda espero ver um personagem budista que age a partir de pressupostos budistas inter-relacionais e não a partir de pressupostos transcendentais – que conhecemos muito bem – disfarçados com roupagens exóticas.

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NOTAS:

¹ Meditação, na tradição budista indiana antiga e em outras tantas, é algo que deve ser levado a sério e que não dá para ser aprendido em um curso de fim de semana. Não é uma forma de relaxamento, nem tão pouco uma mágica para nos livrarmos de nossos problemas, podendo até mesmo reforçar muitas de nossas interpretações aflitivas das relações, o que pode ser extremamente prejudicial, por isso a importância de um estudo sistemático e do acompanhamento de professores qualificados (que tenham uma tradição séria de estudo, além de ter treinado por anos, conhecendo assim os obstáculos e como superá-los). Portanto, sejam criteriosos na procura de uma escola budista.

² Há muitos desses sutras e tratados traduzidos para o inglês, russo, alemão, mas poucos em português.

³ Um bom livro para tentarmos entender melhor essa perspectiva, é o Como Saber Quem Você É, do XIV Dalai Lama.

Como Encaramos o Cinema?

Creio que quando algo nos incomoda é importante refletir a respeito, para podermos entender o que vem a ser esse incomodo, se ele faz sentido, ou se, na realidade, é resultante de algum preconceito, alguma interpretação distorcida ou algo do gênero. Refletir sobre incômodos, não necessita ser uma prática solitária, ainda mais com a rede de comunicações que temos hoje em dia, o que é bem interessante, pois nos colocamos diante de diversos contrapontos que talvez não nos colocaríamos sozinhos; o mesmo pode ocorrer quando lemos livros, assistimos filmes, peças teatrais, espetáculos de danças, entre outras linguagens que podem ou não nos “tirar do mesmo lugar”. Essas contraposições são necessárias para repensarmos nossos posicionamentos, mas não são receitas universais: uma linguagem que me impacta, não necessariamente impacta os outros. Entretanto isso também não serve como desculpas para não nos esforçarmos para tentar entender o outro independente da linguagem escolhida.

Toda essa introdução na verdade é apenas uma justificativa para eu falar de um incômodo, que é a ideia de que filmes, séries, novelas, e até mesmo outras formas de artes, como o teatro, a dança, pintura, etc, são apenas para serem sentidas, experienciadas. Isso me incomoda pois trabalha com o pressuposto de que existe uma cisão clara entre “razão e emoção”, entre sentir e pensar sobre algo. Essa perspectiva nos é natural por conta de todo nosso desenvolvimento cultural, cognitivo e filosófico. Por aprendermos isso desde pequenos acabamos por tomar tais pressupostos dicotômicos como verdades e nem mesmo mais paramos para refletir de fato sobre eles, desse modo nossa cultura estruturou a ideia de que um filme é bom se “conseguiu me convencer”, se conseguiu me fazer sentir algo que eu “nunca senti”. Para culturas com tão poucas definições emocionais é até estranho conseguirmos claramente distinguir quando sentimos ou não algo diferente.

Para não perder o foco, vou me manter sobre o incomodo em si e não em suas ramificações. Afinal, ele surge não pelo fato de ter pessoas que adotam essa postura, já que essa diferença é interessante e muito importante, quando se estabelecem diálogos – tal como qualquer posicionamento – caso o contrário torna-se apenas razão para isolamentos cada vez maiores e intolerâncias. Portanto o que me incomoda é que a linguagem cinematográfica – focarei nela – é uma linguagem complexa, que se utiliza de característica discursiva e não discursiva, algo que o filosofo Júlio Cabrera definiu como sendo uma característica “logo-pática” já que não separa a logica da emoção. O discurso cinematográfico, portanto, se utiliza do lógico e do emotivo simultaneamente, não sendo possível separa-los sem que haja uma limitação em nossa analise.

Desse modo o audiovisual, em especial o cinema, as novelas e as séries, transmitem seus discursos de maneira emotiva e com uma certa “atmosfera de verdade universal” (CABRERA 1999). O elemento logo-pático e essa “atmosfera de verdade universal”, possibilita que o discurso seja absorvido de maneira irrefletida, pois é logo-paticamente convincente. Isso de modo algum é uma defesa da influência determinante do cinema no comportamento das pessoas, mas sim a defesa de que essa linguagem, tal como todas as outras, são ferramentas para a reafirmação de valores, crenças, modelos, e por ai vai.

Por conta de toda essa complexidade, é que me incomoda o mero sentir como objetivo de ir assistir um filme. Gosto de buscar entender o filme não apenas em seu discurso explícito, – a história que está sendo contada, se faz sentido ou não dentro dos meus modelos e do meu conjunto de valores -, mas sim qual o discurso implícito, o discurso base para que o discurso explícito, a historia, seja contada. Que valores estão sendo defendidos ou questionados? De que maneira isso está sendo feito? Quais os pressupostos que sustentam a história? A narrativa está defendendo uma possibilidade de mudança natural? Ou um destino? Ou uma possibilidade de mudança através do esforço? Há um pressuposto metafísico ou uma inter-relacionalidade sendo trabalhada? Que elementos estéticos, estruturais, organizacionais, e qualquer outro elemento – tanto da produção quanto da pré e pós-produção – nos servem como indicadores desses pressupostos? E assim por diante.

Esse tipo de analise faz com que eu me interesse mais pelos filmes, dando a eles outros significados nos contextos que estou inserido, já que me levam a refletir ainda mais sobre o fluxo de relações interpessoais e intrapessoal às quais chamo de vida. Por conta disso, sinto um pouco de necessidade de ler ou assistir – no caso dos vlogs – análises cinematográficas que tentem adentrar os discursos implicitos, o que na maioria dos casos não ocorre, pois tendemos a nos manter em análises a respeito do discurso explícito dos filmes.

Tentando sair um pouco das justificativas dos meus interesses e finalizando com uma observação geral, creio que esse tipo de análise – mesmo que mais trabalhosa e cheia de riscos – encara o cinema pela complexidade que ele possui. De forma alguma estou dizendo que esse tipo de análise mais sistemática não exista. Existe sim, é possível ler a respeito nos trabalhos de Eisestein, Jacques Aumont, entre outros, mas penso que isso poderia, muito bem, estar mais presente para um público mais amplo, através de vlogs e blogs, para que pudéssemos pensar nossa forma de apreciar o cinema.

O aspecto de entretenimento está presente, é claro, mas não se limitar a isso, talvez, nos leve a pensar em como tornar o audiovisual ainda mais valioso e amplo como a linguagem que é.

Considerações Sobre Arte

Ontem, lendo um ótimo artigo, de 2013, chamado “Acerca do Problema da Definição de Arte“, do Professor Dr. em Filosofia pela Universidade Federal de Sergipe, Adilson Koslowski, fiquei refletindo sobre esse assunto, que como professor de Arte – mesmo que do ensino fundamental – é um tópico que considero de suma importância para estar constantemente analisando. No caso desse texto, achei ótimo por dois motivos: 1 – ele apresenta várias definições a respeito de arte, desde as tradicionais (a saber: a teoria mimética, a teoria da expressão e a formalista) até algumas menos tradicionais, mas muito interessantes como a que a arte é um conceito aberto, a institucional, a histórico-intencional e a teórico comunicativa da arte; 2 – porque me incomodou e isso me fez querer refletir ainda mais sobre o conceito de arte, o que me ajuda a definir melhor como direcionar meu trabalho como professor.

Não falarei muito sobre o texto em si, mas sobre o que venho pensando sobre arte. Ainda assim, acho importante explicar alguns pontos que me fizeram querer escrever essa reflexão. Um dos pontos que acho importante está no resumo, quando ele diz que uma definição não pode ter um único contraexemplo no mundo da arte, pois se tiver “a definição não é uma boa candidata a definir arte explicitamente”. Outro ponto, na verdade, tem relação direta com esse, que é como os contraexemplos surgem no texto, tal como quando o autor, expõe o contraexemplo da definição dada por Maria E. Reicher, a teórico comunicativa da arte. Só para ficar claro esse segundo ponto, a definição teórico comunicativa da arte, é a seguinte: “x é uma obra de arte exatamente quando x é intencionado por um emissor (produtor) como meio de uma experiência estética”, sendo assim, para o autor do texto um dos problemas é que ela é muito ampla e o contra exemplo que ele usa é: “Por exemplo, a maquiagem que uma mulher faz em seu rosto tem a intenção de provocar experiência estética, porém não é, obviamente, arte”.

É a partir daqui que inicio as minha considerações, fermentadas ainda mais com a leitura desse texto. Primeiro gostaria de falar sobre esse contraexemplo e depois adentrar na definição que desenvolvo a respeito de arte desde que comecei a dar aulas de Arte, já que na Universidade, na época, a mais defendida era a arte como um conceito aberto. Concordo com o Professor Dr. Adilson Koslowski, que a definição de Maria E. Reicher “satisfaz os critérios de uma boa definição apontados” no início de seu texto, mas não percebo da mesma forma que ele a respeito da validade de seu contraexemplo: 1 – pelo afirmação de que maquiagem “obviamente” não é arte; 2 – que está relacionada com a primeira, que é não considerar a possibilidade da maquiagem ser aceita como arte. Minha primeira discordância, advém dessa tal obviedade. Se a própria definição de arte não está fechada, considero inviável dizer que algo “obviamente” não é arte, afinal, que definição de arte está sendo usada para afirmar-se que a maquiagem não é arte? Em relação ao segundo ponto, dentro da definição teórico comunicativa da arte, a maquiagem pode sim ser estabelecida como arte, mas há “algo”, que não entendo, que não o permite. Se pensarmos na maquiagem como uma técnica que amplia a expressão facial de quem a utiliza, estando presente em diversas linguagens artísticas, como Dança, Teatro e Audiovisual, ela adentra a questão artística, mas isso pode ser refutado como se a maquiagem fosse apenas elemento que compõe tais artes. Nesse caso, acho interessante observar toda o desenvolvimento das maquiagens, a ponto dela acabar se tornando, como é atualmente, um objeto de apreciação, tal como uma tatuagem adentra o movimento da Body Art. Desse modo considero que esse contraexemplo não cumpriu seu papel.

De todas as definições encontradas no texto, como já disse, tendo a concordar com o autor, quando leva em consideração a teórico comunicativa da arte, pois se assemelha ao que venho definindo como arte nos meus trabalhos. Costumo definir arte como linguagens estéticas, ou seja, meios sistemáticos de se comunicar ideias ou sentimentos através de experiências estéticas.Dentro dessa definição é possível incluir subgrupos, tais como as linguagens artísticas Dança, Artes Visuais, Audiovisual, Artes Cênicas, Música, etc. Reconheço, tal como na definição teórico comunicativa, a amplitude das linguagens estéticas, mas considero uma amplitude válida. As relações sencientes no mundo se dá através de linguagens, definições, conceitos, ideias, interpretações, projeções, etc. Pelas artes terem a característica de estimularem nossas consciências sensoriais, afim de que alguma relação sensível desenvolva entre os envolvidos (nós, a obra, os sentidos, etc) – não que seja sempre bem sucedida nesse intuito – é possível interpretar tal processo como uma comunicação estética, uma comunicação que gera experiência estética. Além disso, como a eficiência dessa comunicação depende de conhecimento técnico e teórico – é necessário, por exemplo, que o artista não só saiba fazer algo, como saiba o que ele quer fazer, para quem ele quer fazer e como ele quer fazer – é possível também, dizer que, como uma linguagem, a arte é sistematizada, as vezes em grandes escolas ou movimentos, em outras, como processos criativos e experienciais de pequenos grupos ou pessoas.

Creio que por hoje é isso, muito provavelmente voltarei a escrever mais sobre essas considerações no futuro.

Psor!

“Ô, psor!”, é uma frase muito escutada por quem tem essa profissão. Isso seria muito óbvio, se as pessoas fossem chamadas por seus “oficios”, mas normalmente não é isso o que acontece. Vê-se muito pouco alguém pedindo a atenção de um engenheiro como “Ô, gnheiro!”, ou de um administrador como “Ô, dministrador!” ou qualquer outro exemplo possível. Na verdade tem duas profissões, é o que me vem a mente, nos quais as pessoas que lidam com seus profissionais chamando-os pelo “nome do seu ofício”: professores e prostitutas (prostitutos), ou se preferirem “psor”, “fessor”, “sor” e “puta”, “mixê”, “quenga”, talvez até tenham outros que não me recordo agora.

Bem, por mais chato que seja para os conservadores, tradicionalistas, moralistas, hipócritas e assim vai, essas duas profissões merecem RESPEITO, cada uma por seus motivos, mas tem um em comum: são seres sencientes que as praticam e, apenas por isso, já merecem RESPEITO. Mas para evitar que os leitores que tem asco com a ideia de respeito a outros seres – apenas porque eles tem consciência de sua relação com entorno e possuem uma mente, mesmo que simplista – vou especificar mais: são seres HUMANOS que as praticam e, portanto, já merecem RESPEITO.

Nesse texto, não pretendo falar sobre essas duas profissões, já que elas possuem complexidades muito particulares que, individualmente, podem encher livros de estudos, pesquisas, artigos, poesias…

Focarei em uma. Naquela que seus profissionais já possuem vários direitos grantidos…

MMM… bem… Algo soa estranho na frase anterior. Vou reformular…

Focarei em uma. Naquela que seus profissionais já possuem legalmente seus direitos, na teoria, garantidos!

Para quem não entendeu, são os professores. E se não entendeu, é compreensível. Isso não lhe torna “burro”, “incapaz”, ou seja lá qual palavra você queira usar para se rebaixar. Isso te torna, muito pelo contrário, uma pessoa atenta ao seu tempo, ao que anda acontecendo aos professores nesse pais em que vivemos.

Não se preocupe, não será um texto de síndrome de vira-lata, até porque meu contato com a educação de outros países limita-se a teoria. Então vamos continuar.

Notícias e mais notícias se espalham falando da luta dos professores pelos seus direitos! Minto, as noticias não falam muito bem isso, algumas poucas falam. Professores ganhando menos que o piso salarial, quando o salário não atrasa. Tendo que dar aulas em salas lotadas, com poucos recursos. Muitas vezes sem apoio dos pais dos alunos, outras tantas sem o mínimo respeito dos alunos.

Se forcarmos no ensino público, vemos um grande sucateamento das escolas por parte do governo e dos municípios. Isso ocorre até mesmo com as universidades públicas, por incrível que pareça. A situação desenvolvida por ações de políticos chega a ser tão grotesca, que a solução escrota apresentada, para muitos que estão de fora (da área da educação) parece ser a melhor solução: privatizar o serviço público.

Toda essa situação aponta para grupos de culpados. Por parte do governo, os professores e gestores não fazem seu trabalho direito. Por parte dos professores, os governos não cumprem o que devem. Entretanto, há outros problemas que TAMBÉM, devem ser solucionados. Problemas muito mais basais.

Qual o objetivo de nossa educação? Pública e particular.

Essa pergunta, que parece tão simples, é o que vai direcionar todas as ações das escolas e universidades. Todas as estruturas escolares devem ser direcionadas com a resposta dessa pergunta. Toda a valorização dos professores, também depende dessa resposta.

Se temos a educação como mera preparação técnica para uma vida profissional, o professor, basicamente, vai ser visto como o é hoje em dia: um instrumento para a formação de um profissional, mas ainda assim, uma instrumento. Tal como uma calculadora, que deve gerar os resultados numéricos de uma equação específica, assim é visto o professor. Esse cara, que está na sala de aula (e na rua lutando por seus direito, esses que já deviam estar garantidos) deve gerar números: diminuição da evasão escolar, notas boas para a avaliação nacional, número de alunos que passam no vestibular, número de artigos produzidos, números, números, números.

É… mas é isso que cobram de profissionais de empresas, lojas, comércio em geral. É isso que cobram…

Mas pásmem, a Educação (aqui em letra maiúscula para dar mesmo uma sentido ideal a palavra) não é uma empresa, ou não deveria ser. A Educação, não serve para manter uma estrutura que deseja ser permanente para continuar favorecendo alguns… Não… A Educação serve para trazer mudanças. Para ensinar métodos!

Não métodos para te encaixar no mercado de trabalho. A Educação é formada de métodos de hermenêutica, de interpretação do mundo e suas estruturas. Métodos de pensamentos que inovam. Entrar no mercado de trabalho….

“Entrar no mercado” o caralho! Ter uma participação ativa na sociedade através de habilidades desenvolvidas, é um resultado de ter uma mente e um corpo inteligente e ativo, através das diversas áreas do conhecimento desenvolvidas por nós, humanos!

Sendo assim, quanto mais desenvolvemos nossas habilidades de compreensão das várias facetas do mundo, mais poderemos contribuir positivamente com a sociedade da qual fazemos parte.

O professor é aquele que se utiliza de métodos – aprendidos, desenvolvidos e questionados – para ajudar os alunos a desenvolverem os seus próprios, através de aprendizado, treino e questionamentos.

Ser professor não é um dom. Não é algo que você nasce para ser. Na verdade, não há profissão alguma que você “nasça para ser”.

Ser professor é resultado de esforço, estudo, dedicação, reflexão, debates e por ai vai…

O que os profissionais dessa área querem é poder fazer seus trabalhos da melhor forma possível. Talvez isso assuste alguns.

Bem, para finalizar, não posso deixar de dizer que é no mínimo irônico, tudo isso estar acontecendo (as greves dos professores de São Paulo e do Paraná, além de outros estados, e truculência e estupidez pela qual eles vêm sendo tratados) na mesma época que o Plano Nacional de Educação, e os Planos Municipais e Estaduais, estão sendo discutidos, para nortear a educação no Brasil por mais 10 anos…

Mas o que, de fato, queremos com a Educação?

Amor! Amor? Amor. A… mor… – Segundo Caso

Uma flor só surge,

ao se plantar e alimentar a semente.

Assim também é com o amor,

o qual devemos plantar e alimentar para que surja.

Uma flor só se mantém,

se a nutrimos e cuidamos dela.

Assim é com o amor,

que se mantém com nossa nutrição e cuidado.

Uma flor morre,

mas de seu polem e sementes, surgem outras.

Assim é com o amor,

que do resultado, surge mais amor.

O mundo torna-se mais belo com as flores,

por suas cores, formas e cheiros.

O mundo torna-se mais feliz com o amor,

pelas ações benéficas que dele florescem.

É tiro, porrada e bomba!!

Não faço a mínima por onde começar esse texto, afinal, será que tenho algo a falar sobre o assunto que seja diferente do que já tenham falado? Bem, acho que antes de começar, vou tentar introduzir o tema do texto:

Esse texto não é para defender a Valeska Popozuda, pois isso ela já sabe fazer muito bem, sem precisar de mim ou de qualquer outro ou outra. Não é também para criticá-la ou criticar o professor de filosofia que colocou a questão na prova, pois também não vejo necessidade para tanto. De qualquer forma, essa frase já define o assunto do texto, que é: a ultra-sensibilidade que temos, que nos torna incapazes de ler nas entrelinhas, de refletir sobre o assunto, de aceitar um cutucão e parar para questionarmos nossos valores e tentarmos compreender a sociedade da qual somos parte.

E… é claro, tomarei o caso como exemplo.

“11 – Segundo a grande pensadora contemporânea Walesca Popozuda, se bater de frente:

a) É só tiro, porrada e bomba;

b) É só beijinho no ombro;

c) É recalque;

d) É vida longa.”

Porra! É claro que é a A!

TIRO, PORRADA E BOMBA!

Tem dúvidas?

Simples assim:

Questão de prova: “segundo a grande pensadora contemporânea x (insira o nome de uma pessoa famosa, de preferencia do sexo feminino, de algum movimento criticado por nossa moral social elitista brasileira), se (insira um trecho de alguma entrevista, música, ou qualquer coisa que a maioria escuta, canta, mas não curte que os outros saibam… sabe, para manter a imagem do bom comportamento elitista brasileiro)“.

Reação de quem lê tal questão: “Como assim?”, “É sério isso?”, “Falar que Walesca é uma pensadora contemporânea?”, “Funk nem é música”, “Funk nem é cultura”, e assim por diante.

Agora retomando a questão: Bateu de frente é o que mesmo? Putz! É mesmo!

TIRO, PORRADA E BOMBA!

Porra estudei tanto para trampar de (insira algum emprego que nós, dentro de nossa questionável moral elitista brasileira, considera um sub-emprego, ou um emprego não digno), e vai uma funkeira (sim, não precisamos saber dos antecedentes curriculares dela para criticar, afinal de contas, ser funkeira já a torna inferior dentro de nossa magnífica moral elitista brasileira) e é chamada de pensadora numa prova de filosofia? Vai tomar no cú! Que professorzinho de merda!

Afinal, bateu de frente?

TIRO, PORRADA E BOMBA!

Ah sim! Mas vivemos em um paizinho de merda. Que não tem jeito. Olha só, olha o tipo de música que nosso povo ouve: funk, que nem é o funk de verdade, aquele de James Brown (ok, vamos ignorar sex machine). Nosso funk só fala putaria! A música brasileira, que o povão ouve (pois nós não fazemos parte do povão, afinal) só tem putaria (ignorando qualquer música internacional que tenha putaria e nós relevamos, desde I Like Big But, até Candy Shop, passando I’m To Sexy, I Touch my Self, entre outras tantas músicas do movimento hip hop, pop, e, pasmem, rock).

(momento esquizofrênico de auto-questionamento)

Mas essa música não tem putaria!

(momento ainda mais esquizofrênico brigando com o nosso bom senso… quer dizer, com nossa amoralidade)

Cala boca! É Valesca Popozuda! É funk! É lixo…

E bem… Bateu de frente…

Ah! Sabemos o resto.

O professor, Antonio Kubitschek, que preparou a prova, disse que quis “gerar uma discussão sobre “formação de valores” entre os alunos e chamar atenção sobre o papel da imprensa “sensacionalista” no debate em torno do assunto” (fonte: http://oglobo.globo.com/sociedade/educacao/eu-quis-provocar-imprensa-diz-professor-sobre-musica-de-valesca-em-questao-de-prova-12126750 ).

Não sei entre os seus alunos ele gerou tal discussão, mas sei que fervilhou as redes sociais, onde foram distribuídos “tiros, porradas e bombas”.

Por que é o que acontece, quando batem de frente com nossos valores.

Poderia acabar por aqui, mas quero dar uma de Spielberg, que nunca termina seus filmes quando seria mais legal terminar, e vou foder com esse texto confuso com um final meia boca.

Hoje, um dos meus alunos de 9 anos, estava insistindo para que eu fizesse um desenho para ele em seu “caderno de artes”, uma outra aluna se aproximou, toda contente e disse: “Professor, olha o que eu consegui fazer”, pegou um lápis na mesa e rabiscou um círculo no caderno do aluno insistente (bateu de frente…). De imediato, o pentelho do “desenha pra mim, professor” disse: “Eu vou te bater!” (tiro, porrada e bomba / bateu de frente). Na hora, e digamos que por um momento de tranquilidade atípico, não impedi com nenhuma ameaça de ir para diretoria ou algo do gênero, nem mesmo o segurei de se atracar com a menina, simplesmente disse: “Não é mais fácil você pedir para ela apagar?”. Eis que na hora ele parou e pediu, como um pequeno ogrinho, “Apaga” e o risco foi apagado, uma briga evitada e todos vivemos felizes, saltitantes em campos verdejantes e blá blá blá.

Isso foi bem final do Spielberg, veja Inteligência Artificial…

É extremamente perceptível que está enraizado em nossa cultura o reagir com “tiro, porrada e bomba”. Queremos uma sociedade melhor e não queremos perceber que quando algo afronta nossos valores reagimos com tiro, porrada e bomba?

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