Archive for the ‘ O Rei e o Cadáver ’ Category

O Rei e O Cadáver – 4º ATO – Cena 7 da PC

Cadáver: …a qual nem ele, nem o sacerdote que realizou a cerimônia sabiam o que fazer. (Abre as cortinas. No cemitério). Bem, a que mão deveria o filho entregar sua oferenda? Se souber a resposta e não disser, voltarei para a árvore.

Rei: (Pensando por pouco tempo). A oferenda deveria ser colocada na mão do ladrão. O brâmane se vendeu, e o rei recebeu sua compensação com as peças de ouro. Foi o ladrão o homem que tornou possível ao príncipe nascer; seu tesouro pagou-lhe a concepção e o sustento. Além disso, o casamento qualificou-o como pai da criança.

Cadáver: Vossa majestade deve amar profundamente vossa filha. Está se esforçando bastante para concluir sua missão. (O Rei se controla para não dizer nada). Para deixar a noite mais divertida, contar-lhe-ei mais uma história.

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O Rei e O Cadáver – 4º ATO – Cena 3 da 3ª PP (O Filho Póstumo do Ladrão)

Cadáver: A filha seguiu seu sonho e deixou seu filho recém nascido, junto com o que restava do tesouro do Ladrão, em uma carroça que levava mercadorias para o palácio do rei, mas ela não era a única a ter tido sonhos proféticos. (As cortinas se abrem. No palco está um rei inquieto). O rei aguardava ansiosamente a carroça com a qual sonhara, pois lá estaria a solução de um de seus maiores problemas: a falta de um herdeiro.

Tesoureiro: (Entrando no palco, com um pacote em mãos e um saco de moedas e jóias). Majestade!

Rei: (Ansioso). Não me deixe mais esperar! Dei-me as notícias!

Tesoureiro: A carroça que o senhor descreveu, chegou! E nela, estava… (O Tesoureiro estica os braços, entregando o pacote ao seu rei. Do pacote, vem um choro de bêbe).

Rei: (Assombrado). Não acredito! (Pega o pacote e olha dentro do embrulho). É um bebê! Um menino! Meu sonho não me enganou! O deuses conspiraram para que eu tivesse um herdeiro!

Tesoureiro: (Alegre). Sim meu rei! E junto com ele estava todo esse dinheiro! Tem o suficiente para dar uma boa criação a essa criança!

Rei: (Bastante contente e com a criança cuidadosamente em seu colo). Eu o criarei como um verdadeiro príncipe! Ele será um grande rei, como um filho legítimo meu seria!

(A luz diminui).

Cadáver: Assim o rei criou a criança de seu sonho. E essa herdou o trono, vinte anos depois, quando o rei faleceu.

(A luz do palco retorna e lá está o Filho com uma cesta de frutas e sedas na frente de um altar com um sacerdote ao lado).

Cadáver: No período em que as almas dos mortos são honradas, no início da primavera, o jovem príncipe foi, pela primeira vez após a morte do rei, fazer as oferendas e orações devidas ao seu falecido pai.

Filho Póstumo: Ó meu pai, que seu espírito alcance a paz onde quer que esteja, na forma em que se manifeste. Que todas as virtudes que eu cultivar em vida tragam alegria ao seu coração. Que ao cumprir com meus deveres, o contentamento preencha todo seu ser, iluminando seu caminho para a verdadeira luz de Brahma!

(O Filho faz três prostrações diante do altar. Depois caminha até uma cesta com frutas e sedas, a pega, retorna à frente do altar e a ergue na altura do seu coração).

Filho Póstumo: Por favor, pai. Aceite essa oferenda, para dar-lhe forças em seu caminho. Para que o senhor tenha um bom renascimento.

(Quando o jovem estica os braços com a vasilha para entregar as oferendas, no altar surgem três mãos e saem três vozes).

Vozes: Essa oferenda é minha!

Sacerdote: (Olha para o altar assustado e se afasta).

Filho Póstumo: (Confuso e assustado se afasta do altar e fica sem saber o que fazer com a cesta).

Cadáver: O filho, sem saber que tinha três pais, se encontrou em uma situação inusitada…

O Rei e O Cadáver – 4º ATO – Cena 2 da 3ª PP (O Filho Póstumo do Ladrão)

Cadáver: Após encontrarem o tesouro do Ladrão, a velha mãe e sua filha foram morar em um reino próximo da floresta onde ele morreu. Naquele lugar, puderam recomeçar suas vidas como mercadoras, graças a imensa riqueza do tesouro que receberam. Após um ano morando lá, a filha conheceu um jovem Brâmane pelo qual se apaixonou. (Abrem as cortinas. No palco está a Filha e o Brâmane em uma sala).

Brâmane: Percebo em seu olhar a paixão que sentes por mim, mas você não esconde que é viúva, não é mesmo?

Filha: Sim, sou viúva. Não mentiria sobre isso. Mesmo assim, quero viver com você, brâmane. Faça de mim sua esposa.

Brâmane: (Com um certo ar de arrogância). Não posso casar-me com você, mas posso aceitá-la junto a mim em meu lar. Porém, por você já ter sido casada, terá de pagar a mim um dote, pela sua impureza. Pelo favor que estou fazendo em aceitá-la.

Filha: (Submissa). Aceito o que for para estar ao seu lado.

(A luz do palco diminui).

Cadáver: A jovem foi morar junto com seu amado. Após dividirem por nove meses o mesmo teto, o brâmane caiu doente, no mesmo instante em que a jovem deu a luz ao seu filho. (O palco volta a ser iluminado. O Brâmane está deitado no chão com uma criada cuidando dele. A filha entra no palco e, de longe, montra o Filho ao Brâmane).

Brâmane: Esse é o nosso filho! Será ele que fará oferendas e orações, para que minha alma receba as bênçãos dos deuses?

Filha: (Confusa). É… (Uma pequena Pausa). Será ele…

(A luz do palco diminui novamente).

Cadáver: Naquela noite, o brâmane faleceu. (A luz do palco retorna. A Filha está deitada em um colchonete, tentando dormir. Ao seu lado, em uma espécie de berço improvisado, está seu filho). A jovem teve dificuldade para dormir, pois não sabia como criar seu filho sozinha, já que não mais podia contar com sua velha mãe.

Filha: (Tentando dormir, rolando “na cama”, até que ela senta-se com as duas mãos na cabeça, em desespero). Minha mãe já está muito velha para poder me ajudar. (Preocupada). Ainda tenho muito dinheiro, o suficiente para a criação de meu filho, mas não o suficiente para nós dois. Como terei que trabalhar, não terei tempo para cuidar corretamente de meu filho. (Põem a mão no rosto, quase em desespero). AAAHHH!! O que eu faço?!

Cadáver: As palavras dela foram como mágica. No mesmo instante, ela caiu no sono e sonhou com o que deveria fazer.

O Rei e O Cadáver – 4º ATO – Cena 1 da 3ª PP (O Filho Póstumo do Ladrão)

Cadáver: Uma velha senhora, ao ficar viúva, perdeu tudo o que tinha direito para os familiares de seu marido. Com o passar dos anos, percebeu que ela e sua filha estavam sendo usadas como escravas pelos parentes amorais. Sendo assim, preferiram partir de seu reino, sem rumo e sem nada além das roupas que vestiam, considerando esse um destino melhor. (Abrem a cortina e, em um dos cantos do palco, está A Velha Mãe e A Filha caminhando, enquanto no outro canto se encontra o Ladrão moribundo). Na situação de mais pura desgraça, mãe e filha caminhavam sem rumo por uma estrada quando…

Filha: (Apontando para o Ladrão). Mãe! Olha lá! Há um homem ferido!

Velha Mãe: É mesmo filha. Ele está em um estado pior que o nosso. Vamos ver se podemos ajudá-lo de alguma forma.

(Ambas se aproximam cuidadosamente do Ladrão, que ao vê-las, se enche de contentamento, mesmo ainda gemendo de dor e sem conseguir movimentar seu corpo direito).

Ladrão: (Falando com esforço). Ó boas almas! Por favor… Ouçam meu pedido.

Filha: (Vendo o estado do Ladrão e com um leve tom de horror). Oh não! O sr. está muito ferido! Não sei se poderemos salvá-lo.

Ladrão: (Falando com esforço). Não quero que salvem meu corpo… Quero apenas que ouçam o que tenho para pedir… e pensem com carinho.

Filha: (Ainda tentando controlar seu desespero). Mas precisamos…

Velha Mãe: (Com autoridade). Silêncio, filha! Deixe o homem falar. Senão é capaz dele falecer antes de conseguir proferir uma frase sequer de seu pedido. (Carionhosamente). O que o você tem a nos pedir?

Ladrão: Estou morrendo… Sei que não poderei ser salvo… Sei que por ter roubado e até matado… Não terei um bom destino após minha morte… Muito menos sem ser casado e sem ter um filho para orar e fazer oferendas aos deuses por mim… Tudo que peço, é… Sua jovem filha em casamento… Assim… Quando ela tiver um filho… Esse será por direito meu… E fará todas as obrigações que um filho deve fazer ao seu falecido pai… Quem sabe… Assim… Terei alguma salvação.

Velha Mãe: Muito difícil seu pedido, meu jovem. Não temos nada, a não ser as roupas que vestimos. Talvez, não sobrevivamos nem mais uma semana.

Ladrão: Não se preocupe… Não deixaria minha esposa e minha sogra sem nada… Após você conceder a mão de sua filha… Eu lhes direi onde vocês podem encontrar o tesouro que escondi… Com ele… Vocês conseguirão sobreviver e ter uma vida realmente digna.

Velha Mãe: Se esse é o caso, não vejo problemas de satisfazer seu último desejo.

Filha: (Atordoada). Mãe…

Velha Mãe: Filha, essa será a ação mais bondosa que faremos em nossas vidas com toda certeza. Além do mais, não temos nada a perder.

Filha: (Pensando por alguns instantes). Sim, minha mãe. Então me casarei com esse senhor.

Ladrão: (Com a voz ainda mais fraca). E então?… Não tenho muito mais tempo.

Velha Mãe: (Segurando a mão de sua Filha com mão esquerda e a mão do Ladrão com a mão direita). Jovem homem, concedo-lhe a mão de minha filha em casamento. Você aceita casar-se com ela?

Ladrão: (Com toda sua força). Sim!

Velha Mãe: E você minha filha, aceita esse homem como legítimo esposo?

Filha: Sim, minha mãe.

Velha Mãe: Então, com as bênçãos dos deuses e com o direito a mim reservado como a mãe da noiva, eu os declaro casados.

Ladrão: (Contente, mas com muita dificuldade para falar). Agora… Aproximem-se… Contarei onde está meu tesouro.

(A Velha Mãe e a Filha se aproximam mais do Ladrão e o escutam sussurrar, para logo após ele falecer).

O Rei e O Cadáver – 3º ATO – Cena 6 da PC

Cadáver: …muito tempo. Ninguém sabia o que deveria ser feito do jovem brâmane, nem mesmo o pai das moças, que fora consultado depois do incidente.

(Abrem as cortinas. Cemitério).

Cadáver: E então, a quem ele pertence como esposo? Se você tiver resposta e não me disser, você sabe para onde eu volto, não é?

Rei: (Após um pequeno tempo de reflexão). Aquela que o trouxe de volta a vida com a força da magia é sua mãe. A que emprestou serviço piedoso a seus ossos, lavando-os no Ganges, cumpriu o dever de filha. Mas aquela que dormiu sobre as cinzas, que não se separou dele e lhe devotou a vida, merece o nome de esposa.

Cadáver: (Irônico). Hahahahah! Fantástico majestade! Sua sabedoria é imensa! Agora vamos para a próxima história! Hahahahha!

Rei: (Suspira e faz cara de cansaço sabendo o que viria).

O Rei e O Cadáver – 3º ATO – Cena 3 da 2ª PP (As Filhas do Brâmane)

Cadáver: Por um tempo a filha mais velha procurou as outras irmãs. Quando todas estavam reunidas, elas voltaram para onde seu amado fora cremado. (Abrem as cortinas. No palco estão as três irmãs conversando).

Filha 3: (Com curiosidade). O que você diz é verdade irmã?

Filha 1: (Com insistência). Sim, é a mais pura verdade!

Filha 2: (Com arrogância). Pois eu duvido.

Filha 1: Mas eu vi com meus próprios olhos!

Filha 3: Pode ser verdade mesmo. (Se dirigindo à Filha 2).

Filha 2: Não sei se acredito tanto na sua visão.

Filha 1: (Um pouco impaciente). Não foi uma ‘VISÃO’! Eu fui testemunha de um FA-TO! Eu vi a criança ser ressuscitada a partir de suas cinzas, com a recitação das palavras mágicas desse livro! (Ela mostra o livro).

Filha 2: Não sei ainda se acredito.

Filha 3: Não custa nada tentarmos, não é irmã? (Perguntando para a mais velha).

Filha 1: Também acho que não custa nada tentarmos. Se você não quiser participar, tudo bem, mas precisaremos que você saia para não nos atrapalhar!

Filha 2: Eu vou participar, mesmo não acreditando. Participarei, pois minha maior intenção é que meu amado volte a vida.

Filha 3: NOSSO amado!

Filha 2: Sim, nosso amado.

Filha 3: Do que precisaremos?

Filha 1: Das cinzas, dos ossos, alguns incensos e das palavras mágicas do livro.

Filha 2: Creio que temos tudo isso aqui.

Cadáver: Elas se prepararam para o ritual. Fizeram as oferendas de odor e oração aos deuses (Filha 1 “acende” [não é para acender nada! É de mentirinha, ok? rs] alguns incensos e se prepara com o livro aberto na sua frente e começa a recitação [sem som, apenas interpretando que está recitando algo]), para depois a filha mais velha, iniciar a recitação que ela presenciou. Dessa forma, dos restos do jovem brâmane ele ressurgiu cheio de vida, mais belo do que antes! E a paixão das três irmãs aumentou ainda mais.

Filha 2: Meu amado voltou!

Filha 3: Não! Ele é MEU amado!

Filha 1: Não importa o que vocês sintam, sou eu que me casarei com ele!

Filha 3: Nunca! Você nunca teria conseguido trazê-lo de volta se não fosse pelos ossos que eu trouxe!

Filha 2: (Ri debochando). Hahahaha! E se não fosse as cinzas que guardei? Como ele poderia ter sido ressuscitado?

Filha 1: Você estão esquecendo, que se eu não tivesse testemunhado essa magia e roubado esse livro, vocês estariam choramingando sem nada para fazer a respeito! Portanto ele é MEU!

Filhas: (Discutindo). É MEU! É MEU! NÃO, É MEU!

Cadáver: E a disputa continuou por muito, muito…

O Rei e O Cadáver – 3º ATO – Cena 2 da 2ª PP (As Filhas do Brâmane)

Cadáver: Meses se passaram e o fogo da paixão nos três corações, não se extinguiu. As três filhas do Brâmane continuaram a observar aquele que amavam tanto, até chegar o fatídico dia.

(A cortina se abre. O Aluno está deitado em uma esteira no chão, coberto com uma manta. Ao seu lado há uma cumbuca com água, panos úmidos, jarra com algum líquido e xícara; nesse lado se encontra o Brâmane. Do outro lado estão as três filhas muito apreensivas).

Brâmane: Não creio que ele agüentará. Já faz quase um mês que ele está muito doente.

Filha 1: Por favor pai! Faça alguma coisa!

Brâmane: (Calmo, para tranqüilizar a filha). É o karma dele, minha filha. Ele deve passar por isso. O que tenho para fazer, estou fazendo, mas se o karma dele for para que morra, assim será.

Filha 2: E o que será de nós?

Brâmanes: A vocês restará aceitar a lei natural e fazer preces para que esse jovem tenha um bom renascimento em vidas futuras. Quem sabe, assim, vocês criarão karma para ficarem juntos.

Filha 3: Mas eu não quero esperar tanto para ficar junto a ele.

Brâmane: (Firme). Filha! Você terá de esperar. Nessa vida vocês não ficariam juntos de qualquer forma enquanto eu ainda estivesse vivo. Não deixaria que, em seu egoísmo, você magoasse suas duas irmãs. (Nesse instante o Aluno tem uma reação. Ele segura a mão de seu guru, que está passando um pano umedecido em sua testa, e dá seu último suspiro. O Brâmane junta as mãos em oração). Rama, Rama, Rama, Rama.

(As filhas, vendo a ação do pai, entram em desespero e choram. O Brâmane, bastante triste, cobre o jovem aluno).

Cadáver: Então, o corpo do jovem Brâmane foi devidamente preparado para ser cremado após todos os ritos funerários que seu guru faria. (As luzes diminuem). A tristeza das três jovens foi tanta, que as levaram a atitudes extremas, as quais, seu pai, fora incapaz de impedi-las.

(As luzes retornam e no palco está apenas a Filha 1).

Cadáver: A filha mais velha, com a dor da perda de seu amado, deu todas as suas coisas e partiu pelo mundo como uma peregrina mendicante.

Filha 1: (Pega suas coisas, joga para fora do palco e começa a andar errante pelo palco até sair de cena).

Cadáver: A filha do meio, (Entra a Filha 2) pegou, das cinzas, os ossos do jovem e partiu em viagem até o Ganges, para mergulhá-los nas águas sagradas.

Filha 2: (Com um embrulho no colo, vai até a beira do palco e faz como se mergulhasse o embrulho nas águas do rio Ganges, levanta-se com o embrulho e sai de cena).

Cadáver: Por fim, a filha caçula (Entra a Filha 3), ficou ao lado de onde seu amado foi cremado, onde estavam suas cinzas. Lá ela montou uma cabana onde passou a morar.

Filha 3: (Termina de colocar a cabana do lado do local onde o jovem brâmane estava. E dorme por lá. A luz diminui).

Cadáver: Porém, um dia, algo prodigioso aconteceu. A filha mais velha, aquela que vagueava como peregrina mendicante, presenciou um milagre.

(A luz aumenta. No palco está uma mulher recitando um livro e das cinzas uma criança ressuscita).

Cadáver: Após ver a criança ressuscitar, ela se aproveitou da distração da mãe (A mãe coloca o livro de lado e vai abraçar a criança. A Filha 1 rouba o livro e vai embora). Com a esperança de fazer o mesmo com seu amado.

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