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O Rei e O Cadáver – 3º ATO – Cena 1 da 2ª PP (As Filhas do Brâmane)

Cadáver: Um jovem brâmane foi morar com seu professor, para aprender todos os ofícios de sua casta. Instruir-se sobre os livros sagrados, astrologia e tudo o mais que um brâmane deve saber.

Brâmane: Escute bem, meu aluno: “Assim como os rios que correm vão descansar no oceano e lá deixam para trás seus nomes e formas, assim também o Conhecedor, liberto do nome e da forma, vai a esse Homem divino que está além do além”.

Aluno: As escrituras dizem que devemos ser ninguém para conseguir contemplar a face de Brahmam?

Brâmane: (Ri de forma descontraída). Não jovem. Isso quer dizer que devemos perceber nosso corpo, nosso nome e nossos pensamentos como eles realmente são. Como uma vestimenta. Não devemos nos agarrar a esse receptáculo provisório, como se isso fosse realmente o Eu.

(O Brâmane continua como se ainda estivesse ensinando ao seu aluno).

Cadáver: O Brâmane tinha três filhas que moravam com ele e o servia junto ao seu aluno durante as aulas, trazendo-lhe chás e pães. (As três filhas entram em cena. A Filha 1 com uma bandeja com chaleira e duas xícaras. A Filha 2 com uma cesta de pães. A Filha 3 com uma toalha. A que está com a toalha, forra o chão para que as outras duas depositem sua bandeja e sua cesta. A que carrega o chá serve ambos: o Brâmane primeiro e o Aluno em seguida. A todo momento elas paqueram o Aluno).

Brâmane: Obrigado, filhas.

Aluno: (Um pouco constrangido por estar sendo paquerado pelas três filhas de seu professor). Muito obrigado.

Cadáver: Como o jovem brâmane era um rapaz muito bonito, foi inevitável que as filhas de seu professor se apaixonassem por ele. Alguns dias se passaram e o que era previsto ocorreu: as três foram falar com seu pai.

Filha 1: Pai, estou apaixonada por seu aluno, gostaria que o senhor o convencesse de se casar comigo.

Filha 2: Não faça isso, pai! Pois eu o amo!!!

Filha 3: Não e não! Eu o vi primeiro! Sou eu quem realmente o amo!

(As três começam a discutir. O Brâmane as separa as três e intervem).

Brâmane: Não posso fazer o que me pedem, minhas filhas. Como poderia agradar uma sem que ferisse o coração das outras duas?

Filha 2: Mas pai!! Eu estou amando! O senhor não pode fazer isso comigo!

Brâmane: E poderia magoar minhas outras filhas?

Filha 1: Pai! Escolha uma de nós então! Prometemos que não nos magoaremos se não formos escolhidas pelo senhor.

(O Brâmane fica pensativo, mas desconfiado).

Filha 3: Isso pai! Por favor! (Suplicando).

Filha 2: Sim, sim! Escolha uma!

Brâmane: Não farei isso. Vocês mentem ao dizerem que não se magoarão. A paixão de vocês é tanta que não percebem como estão frágeis e como isso poderá criar desarmonia em nossa família. A resposta definitiva é não. Sem mais discussões a respeito.

Cadáver: Após a decisão de seu pai, só restou às três irmãs contemplar a beleza de seu amado enquanto ele vivesse em sua casa.

O Rei e O Cadáver – 2º ATO – Cena 5 PC

(No cemitério).

Cadáver: No reino da Donzela, os pais dela imaginaram que sua filha havia morrido na floresta e não suportaram a perda. Eles faleceram uma semana depois de desgosto. Agora me responda: quem foi culpado pela morte dos pais dela? Se souber a resposta e não der, voltarei para a árvore.

Rei: (Cautelosamente). O casal não teve culpa porque estavam cegos de paixão. O filho do chanceler também não foi o culpado, pois ele não agia sobre sua própria responsabilidade, mas sim para ajudar o seu senhor. O único culpado foi o rei daquelas terras, pois não conseguiu perceber a armadilha preparada pelo falso asceta. Nunca investigou as atividades dos dois forasteiros em sua capital, nem mesmo percebeu a presença deles. Portanto, ele é culpado por falhar em seu dever real, pois como rei ele deveria saber de tudo que ocorre em seu reino e proteger seu povo.

Cadáver: Hahahahhahaha! Excelente resposta! Mas…

Rei: (Suspira e balança a cabeça sabendo que será um longa noite).

Cadáver: … Não basta para mim. Como eu disse, a primeira seria fácil. Vamos ver como se sai com o próximo conto?

Rei: (Nada responde, apenas aguarda).

Cadáver: Ótimo!

O Rei e O Cadáver – 2º ATO – Cena 3 da 1ª PP (O Príncipe e A Donzela)

Cadáver: Entretanto, havia algo que a Donzela nem mesmo seria capaz de imaginar. A inteligência do filho do chanceler era descomunal. Antes mesmo do Príncipe ter partido para o encontro, seu Amigo já havia pensado na possibilidade da Donzela descobrir seu envolvimento naquele romance.

(Abre a cortina. Quarto do Amigo. Esse está sozinho. Pensativo).

Cadáver: Ele sabia da honestidade do Príncipe e que esse contaria sobre o que seu Amigo sabe, se a Donzela perguntasse. Deduzindo que ela tentaria fazer algo contra ele e, ainda assim, se preocupando com o bem estar do Príncipe, ele pensou em um plano.

Amigo: (Pensativo). E se eu… (Pensa mais um pouco e balança negativamente a cabeça). Não, não vai dar certo. (Pensa). Mas se eu… não, não. (Senta-se com a mão no queixo. Fica um tempo e se levanta bruscamente). JÁ SEI! Eu irei armar contra ela! Primeiro envenenarei o filho recém nascido do rei desse reino em que estamos. Depois, irei aproveitar-me do desespero dele para, fantasiado de asceta, dizer-lhe que seu filho morreu por conta da maldição de uma bruxa! (Pausa pensativa). Assim, com certeza ele me perguntará se sei quem é a bruxa, ai darei a descrição, de forma nebulosa, porém exata, da Donzela! Sim! É isso que farei! Começando agora mesmo! (Ele pega algumas coisas e sai de cena. A Luz diminui).

Cadáver: O filho do chanceler, colocou seu plano em prática. No dia seguinte, enquanto o Príncipe estava em outro encontro com a Donzela, ele foi ter a conversa com o rei, fantasiado de asceta, e esse acreditou em sua farsa. (Ainda no quarto a luz retorna).

Amigo: (Retirando a roupa de asceta). Pronto! Ele até mesmo já sentenciou a Donzela! Agora preciso esperar o Príncipe para que possamos salvá-la.

Príncipe: (Entrando no quarto, contente). O encontro foi maravilhoso, meu Amigo.

Amigo: (Fazendo uma cara extremamente preocupada, olha para o Príncipe).

Príncipe: (Ansioso). O que foi meu Amigo? O que aconteceu de tão horrível que te impede de dividir essa minha alegria?

Amigo: Sua Donzela foi condenada à morte no exílio.

Príncipe: (Assustadíssimo). Como assim? Conte-me tudo!

Amigo: Ouvi nas ruas que ela é uma bruxa e que foi responsável pela morte do filho do rei local!

Príncipe: Isso é mentira! Ela não é uma bruxa!

Amigo: Sei que você não se apaixonaria por esse tipo de pessoa, e por isso acredito também que ela não seja uma bruxa, mas a sentença foi dada.

Príncipe: Irei falar com o rei.

Amigo: Não! Você perdeu a razão, meu senhor? Se fizeres isso, sujará o seu nome e de sua família. Nós adentramos esse reino sem nem mesmo nos apresentar. (Breve Pausa). Majestade me ouça. O melhor será salvarmos a donzela do exílio e a levarmos ao seu reino.

Príncipe: Ótima idéia! Mas, para onde ela foi exilada?

Amigo: Para uma floresta próxima, que fica a oeste. Ela ficará lá até morrer pelas garras de algum animal.

Príncipe: Vamos então, não podemos perder tempo. (Os dois amigos começam a pegar suas coisas enquanto o cadáver fala).

Cadáver: Eles arrumaram suas coisas e partiram. (Os dois saem de cena). Salvaram a Donzela, levando-a ao reino do Príncipe e lá eles se casaram.

O Rei e O Cadáver – 2º ATO – Cena 2 da 1ª PP (O Príncipe e a Donzela)

Cadáver: Ao chegarem no reino onde a Donzela vivia, os dois amigos procuraram um local para dormirem e se alimentarem. Depois de algumas horas, encontraram uma hospedaria, onde uma velha senhora era dona. Em menos de um dia, os dois amigos passaram a pagar a Velha Senhora, para que ela servisse de mensageira para o Príncipe e sua Donzela.

(Abrem as cortinas. Amigo e Príncipe em um quarto. Príncipe sentado na cama. Amigo de pé indo a direção da porta. Há alguém batendo).

Amigo: (Abrindo a porta para a Velha Senhora). Bom dia, senhora! Está bela como sempre! Seja bem vinda! Traz notícias?

Velha Senhora: (Sorrindo). Como é bom ser tão bem recebida logo de manhã! Você é muito gentil, meu jovem. Trago notícias sim! Tenho uma carta para o Príncipe.

Príncipe: (Levantando-se com ansiedade). Você me faz muito feliz, gentil senhora!

Velha Senhora: (Rindo). Não, meu jovem! Não sou eu quem faço você feliz! Mas essa carta que traz notícias de seu amor! (Ela entrega a ele, que a abraça e a beija no rosto).

Príncipe: Muito obrigado por todo o trabalho que está fazendo por mim.

Velha Senhora: Não se preocupe, aceitei fazer esse trabalho, não é mesmo? (Ela se vira para sair do quarto). Agora vou deixá-los a sós para que você leia a carta em paz, Príncipe.

Príncipe: (Abrindo a carta). Grato. (Ele tentar ler, mas não consegue). Não consigo entender. (Entrega a carta ao amigo).

Amigo: (Observa a carta por um tempo). Mmm… Está em código. Talvez ela esteja fazendo isso para manter segredo sobre a relação que quer ter com você.

Príncipe: (Pensativo). Faz sentido. Afinal, sou um Príncipe e ela, filha de mercadores.

Amigo: (Lendo a carta). É. Pode ser (Termina de ler a carta). Ela está marcando um encontro. (O Príncipe desperta de sua reflexão ansioso por detalhes. Eles conversam sem fazer sons, pois a voz do Cadáver sobrepõe).

Cadáver: Sabendo dos detalhes de como adentrar os jardins da casa da Donzela e de como chegar ao seu quarto sem ser notado, o Príncipe partiu para seu encontro.

(A luz diminui no palco. Sai o Amigo de cena. Todas as mudanças do cenário são feitas rapidamente. No quarto da Donzela está apenas ela, a luz volta a ser forte. A donzela está ansiosa, aguardando o Príncipe).

Cadáver: Seguindo todas as instruções corretamente, o Príncipe chega ao quarto de seu amor. (O Príncipe entra em cena).

Príncipe: (Apaixonado). Finalmente nos conhecemos meu amor.

Donzela: (Apreensiva, se aproximando dele e segurando suas mãos). Pensei que não conseguiria passar pelos guardas do portão, meu amado.

Príncipe: (Sorrindo e a abraçando). Faria de tudo para poder vê-la!

Donzela: (Mesmo estando gostando do abraço, a Donzela se afasta um pouco, como se estivesse incomodada com algo).

Príncipe: (Preocupado). O que foi?

Donzela: Ainda nem o conheço direito, – mesmo que eu sinta que já nos conhecemos a anos -, ainda assim devo saber mais de você…

Príncipe: (Solta uma breve risada e relaxa).

Donzela: … e você mais de mim.

Príncipe: O que você quer que eu lhe conte?

Donzela: Diga-me de onde vem, qual sua casta, o que faz em sua vida.

Príncipe: Venho de… (Eles continuam interpretando como se estivessem conversando quando entra a voz do Cadáver).

Cadáver: Então o Príncipe lhe contou seus antecedentes. Deu-lhe detalhes do que já fez, do que fazia e de seus planos.

Príncipe: Creio que isso é tudo. E você? O que tem a me contar?

Donzela: (Ficando preocupada). Bem… eu estou prometida em casamento para um nobre que não conheço. (Se aproximando do Príncipe e segurando suas mãos). Não quero isso para mim, quero ficar com você.

Príncipe: (Empolgado). Fiquemos juntos então!

Donzela: (Negando com a cabeça. Com tristeza). Não posso! Meus pais ficariam arrasados!

Príncipe: (Condescendente). Pensaremos em algo.

Donzela: (Animada). Sim meu amor! Nós somos inteligentes! Juntos ainda mais! (O Príncipe ri, a Donzela sorri). Não estou brincando. Criei códigos que achei que você não decifraria. Na verdade, fiquei muito preocupada que você não decifrasse! E você decifrou!!!

Príncipe: (Rindo sem graça). Faltou eu lhe contar uma coisa. (Diz envergonhado soltando a mão da princesa e olhando para outra direção dando uma pequena pausa). Não fui eu quem decifrou seus códigos, foi meu amigo e conselheiro. (Sem que o Príncipe veja, ela o olha com grande preocupação, ela se recompões um pouco antes dele se virar para ela). Espero que isso não afete o amor que você sente por mim.

Donzela: (Com sinceridade). Não meu amor! Não afetou! (Eles se abraçam).

Príncipe: (Afastando um pouco seu abraço). Creio que é melhor eu ir. É perigoso eu ficar aqui por tanto tempo, seus pais podem desconfiar de algo.

Donzela: Você tem razão.

Príncipe: Combinaremos um novo encontro em breve, minha amada. (Ele beija as mãos da Donzela e vai até a janela pela qual entrou). Até mais.

Donzela: Até mais, meu amado! (A Donzela fica um tempo olhando para a janela com olhar apaixonado e suspira). Finalmente encontrei o amor da minha vida. (Mas logo seu olhar apaixonado começa a mudar para uma feição muito preocupada). Mas o amigo dele está sabendo sobre nosso relacionamento. E se ele estragar tudo? E se ele contar algo aos meus pais ou a qualquer outra pessoa? (A preocupação torna-se quase um desespero). Não posso deixar que isso aconteça! (Quase chorando). Ele não pode viver…

Cadáver: Preocupada, e ao mesmo tempo apaixonada, ela não conseguiu dormir aquela noite e passou toda a madrugada, planejando como matar o amigo do seu amado, sem que esse soubesse de seu envolvimento nesse ato tão vil.

O Rei e O Cadáver – 2º ATO – Cena 1 da 1ª PP (O Príncipe e a Donzela)

Cadáver: Em um reino não tão longe, um jovem Príncipe saiu para caçar com vários nobres. Acompanhado de seu Amigo, filho do chanceler, o Príncipe resolveu se separar de todos e descansar próximo a um rio.

(Abre as cortinas. Na floresta os dois amigos descansam. O Amigo está encostado em uma árvore olhando para a extensão do rio enquanto o Príncipe olha para a outra margem).

Amigo: (Tranqüilamente e observando o horizonte). Príncipe, creio que daqui a pouco devemos voltar para o grupo de caça, eles já devem ter percebido nossa ausência.

Príncipe: (Rindo levemente). Percebo sua preocupação disso ter acontecido. Vamos descansar mais um pouco ai partiremos. Não se preocupe que tomarei a responsabilidade para mim e direi que te obriguei a se afastar deles comigo.

Amigo: (Rindo também). Mas a idéia realmente foi sua.

Príncipe: (Rindo um pouco mais). Melhor, assim não precisarei mentir. (Ambos começam a rir e, de repente, o príncipe se silencia e se levanta surpreso, se aproximando do rio). Quem é aquela deusa?

Amigo: (Se levantando e vendo sobre o que o Príncipe esta falando). Quem?

Príncipe: (Com ênfase). AQUELA DEUSA!

Amigo: Não sei, mas parece que ela te notou. (Olhando curioso). Ela está fazendo sinais.

Príncipe: Você tem razão! O que ela está dizendo? Não consigo entender.

Amigo: Ela está perguntando seu nome.

Príncipe: Sério? Como você sabe?

Amigo: Consigo compreender seus gestos. Quer que eu responda?

Príncipe: Ainda não. Diga a ela que quero saber seu nome antes de dizer o meu.

Amigo: (Fazendo alguns gestos). Ela disse que lhe contará tudo sobre ela se esse é seu desejo.

Cadáver: E assim a Donzela contou ao jovem Príncipe qual o seu nome, sua casta, de que reino ela vinha, aonde morava, porque estava naquele rio, entre outras tantas coisas. (Escurece o palco). O Príncipe foi embora, com aquela maravilhosa imagem vívida em sua mente. No dia seguinte, o Príncipe convenceu seu Amigo, filho do chanceler, a retornar com ele até aquele rio, na esperança de se reencontrar com a Donzela.

Príncipe: (Procurando na outra margem). Nada dela! Como farei para me encontrar com ela novamente?

Amigo: Não se preocupe Príncipe, ela nos deu todas as informações que precisamos para encontrá-la.

Príncipe: Você está sugerindo para irmos ao reino onde ela vive e visitá-la?

Amigo: Se essa for sua vontade, sim.

Príncipe: Claro que é minha vontade, meu Amigo! Avisarei meu pai que sairei em viagem e partiremos.

Cadáver: Ansioso, o Príncipe retornou ao seu reino e preparou-se para a viagem.

O Rei e O Cadáver – 1º ATO – Cena 4 PC

Narrador: (Sons fantasmagóricos). O cemitério é lar de criaturas horríveis, tais como fantasmas, zumbis, carniçais, entre outras tantas. (A cortina se abre. No palco a luz está pálida. O Feiticeiro está de pé, arrumando os preparativos). Mas isso, em momento algum, foi um obstáculo para que o Rei chegasse ao seu destino. (O Rei entra no palco, atento ao que o cerca, mas sem demonstrar nenhuma sombra de medo).

Feiticeiro: (Sorrindo). Que bom que veio, majestade.

Rei: Não deixaria minha filha na mão. (Curioso). Para que tudo isso?

Feiticeiro: Lembra-se do que falei para o senhor em seu palácio?

Rei: (Após uma pausa). Sim, lembro-me. (Breve pausa). Você está diferente.

Feiticeiro: Procedimentos diferentes requerem pequenas mudanças.

Rei: Entendo.

Feiticeiro: Então, preparado para cumprir sua primeira missão do ritual que desfará a maldição que impuseram em sua filha?

Rei: (Confiante, porém estranhando o ambiente e as parafernálias do Asceta). O que for preciso para salvá-la.

Feiticeiro: (Voltando a atenção aos seus atos preparatórios do ritual). Então lhe direi qual o seu dever. O senhor deve ir até a árvore que fica a oeste de onde nós estamos. Ela é a única árvore que teria um enforcado pendurado, mas a corda arrebentou com o tempo, e o corpo agora jaz encostado em seu tronco. É o cadáver de um criminoso. Pegue-o e traga-o a mim.

Rei: (Mesmo estranhando a imposição na voz do Asceta). Assim será feito. (Vira-se para partir).

Feiticeiro: (Interrompendo a partida do Rei). Tome cuidado, majestade. O cemitério é cheio de perigos.

Rei: (Confiante, sem se virar). Não se preocupe. Eu sou um rei! (E parte).

Narrador: (A luz escurece e o Feiticeiro sai da cena). E confiante, o Rei partiu. Caminhou na direção oeste por um longo, loongo, looongo teempo até avistar a arvore do enforcado. (Quando a luz retorna, está apenas o Rei no cenário do cemitério com a árvore e o cadáver encostado em seu tronco).

Rei: (Se aproxima da árvore, onde o enforcado está encostado, como se estivesse descansando. Ele tenta pegar o corpo, mas esse nem mesmo se mexe).

Cadáver: Hahahahahahaha!!

Rei: (Surpreso e se afastando). Como? Você está rindo?

(A resposta não vem. O Rei se aproxima cautelosamente. Ele tenta mover o cadáver do lugar, mas não consegue. Ele se esforça e continua não conseguindo).

Cadáver: Hahahahahhaha!!

Rei: (Se assusta e cai para trás, levantando-se rapidamente e disfarçando como se nada tivesse ocorrido, recuperando sua postura nobre). Oras! Que brincadeira de mal gosto é essa?

Cadáver: (Sem se mover). Não há brincadeira nenhuma aqui, majestade.

Rei: (Encarando o cadáver. Com orgulho ferido). Então, por que você riu?

Cadáver: (Mexe-se um pouco e encara o Rei). Vossa majestade nunca conseguirá me tirar daqui. Para isso ser feito, você deve me provar que é sábio.

Rei: (Arrogante). Haha. Isso é ridículo! Eu sou um rei! Um bom rei. Não é possível ser um bom rei, sem ser sábio, meu caro defunto!

Cadáver: Ah, sim! Claro! (Comenta ironicamente o cadáver). Bem, então você não se importaria em ser testado?

Rei: (Arrogante). Vá! Teste-me! Se é apenas assim que conseguirei levá-lo comigo, então seja breve.

Cadáver: Hahahha! Sua impaciência pode nublar sua sabedoria, majestade.

Rei: (Contrariado). Seja breve com essa conversa sem sentido. Faça logo o teste!

(O Cadáver se levanta. O Rei dá um passo para trás e aproxima lentamente a mão de sua espada).

Cadáver: Não adianta me atacar, Rei. Pois se me ferir, voltarei para aquela árvore e lá ficarei em silêncio. Assim você nunca mais poderá me carregar.

Rei: (Dissimulado). Não pretendia atacá-lo.

Cadáver: Claro que não, majestade. Apenas comentei, para caso você considerasse que eu estou apenas brincando com você.

Rei: Não pensaria isso. Comece logo o teste, por favor.

Cadáver: Sente-se então, majestade, pois o teste será longo. (O Rei se senta). O teste é simples: contarei histórias e após cada história lhe farei perguntas. O seu papel é tentar respondê-las.

Rei: Isso é simples.

Cadáver: Sim, é. As regras também são simples. A primeira é que você não poderá dizer nada além das respostas, se assim o fizer, o teste estará encerrado e voltarei para a árvore.

Rei: (Pensativo). Mmm… Prossiga.

Cadáver: A segunda regra: se você souber a resposta, seja ela certa ou errada, e não disser, eu voltarei para a árvore.

Rei: Certo.

Cadáver: Por fim, você só passará no teste, quando demonstrar a devida sabedoria.

Rei: Que sabedoria é essa que você espera que eu demonstre?

Cadáver: No momento certo vossa majestade saberá. Ainda assim aceita fazer o teste?

Rei: É claro que sim! Afinal, tenho outra escolha?

Cadáver: NÃO!! Hahahahhahaha!

Rei: (Desconcertado). Então comece logo!

Cadáver: A primeira história é bem simples majestade…

O Rei e O Cadáver – 1º ATO – Cena 3 PC

Narrador: (A cortina se abrindo. Sala de audiências. Rei no trono triste e preocupado). Na manhã seguinte, o Rei nem mesmo deixou com que os súditos adentrassem a sala de audiência. Pediu ao Tesoureiro que dissesse a todos que não estava disposto a atender. Foi a primeira vez que isso ocorreu, desde que substituiu seu pai no trono. (Tesoureiro entra em cena).

Rei: (Levantando-se ansioso). Cadê o Asceta?

Tesoureiro: Não tenho notícias, meu senhor. Os guardas já foram avisados para deixá-lo entrar.

Rei: (Ainda ansioso): Mas e se ele não vier?

Tesoureiro: Então não será um homem de palavra. Demonstrará que não é confiável.

Rei: (Se acalmando e sentando-se). Você tem razão. Acha que estou depositando demasiada fé nesse homem?

Tesoureiro: Não sei, meu senhor. Vamos ver o quão digno ele é de sua fé.

(Ambos olham em direção aos portões da sala de audiência).

Rei: (Animando-se). Asceta! Que bom que veio!

Asceta: (Entrando em cena. Prostrando-se diante do Rei sem dizer nada. Depois se voltando a ele sem olhar em sua face). Eu disse que viria, majestade.

Rei: (Ansioso). Sim, disse. Preciso lhe contar o que ocorreu!

Asceta: (Tranqüilo). Estou lhe ouvindo, majestade.

Rei: (Levantando-se novamente do trono e caminhando de um lado para ou outro). Dei o elixir que me deste à minha filha. Não surtiu nenhum efeito! (Sua preocupação é nítida em sua face). Por favor, santo homem, me diga: minha filha foi amaldiçoada?

Asceta: (Pensativo). Temo que sim, majestade.

Rei: (Ainda mais preocupado). O que devo fazer então?

Asceta: O procedimento, agora, é outro. Você deve me encontrar no cemitério depois de amanhã à noite, a primeira noite de lua cheia. Não posso dar-lhe detalhes do que será feito, pois isso acabaria com qualquer sucesso que poderíamos ter. No cemitério, lhe darei as instruções nos devidos momentos.

Rei: (Ansioso e ainda preocupado). Não posso nem mesmo saber o que será feito?

Asceta: A demonstração de confiança e coragem contra o desconhecido faz parte do procedimento que devemos tomar. Se tiveres dúvidas em sua mente e em seu coração, porá tudo a perder.

Rei: (Pensativo). Se assim é. Amanhã à noite, estarei no cemitério.

Narrador: Decidido, o Rei foi rezar aos deuses que cuidassem de sua filha até que conseguisse completar sua missão, depois ele foi descansar.

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