Archive for the ‘ O Rei e o Cadáver ’ Category

O Rei e O Cadáver – 1º ATO – Cena 2 PC

Narrador: Na manhã seguinte, mesmo extremamente cansado por não ter dormido, e preocupado com a notícia que os médicos deram, o Rei foi ao salão de audiências e sentou-se no trono, para ouvir as petições e fazer justiça.

(Abre a cortina. Rei no trono e o Tesoureiro ao seu lado direito. Há uma pequena fila a sua frente. Ele recebe presentes e escuta o que os súditos têm a dizer, sempre demonstrando cansaço e preocupação. Uma pessoa acaba de ser atendida e a segunda lhe dá seu presente e começa a falar).

Narrador: A preocupação do Rei era imensa. Os médicos disseram a ele, logo de manhã, que não haviam descoberto nada a respeito do mal que afligia sua filha, mas que percebiam ser muito grave.

(Ele termina de atender a segunda pessoa da fila).

Rei: (Voltando-se ao Tesoureiro, antes desse permitir que a terceira pessoa vá falar com ele). Não consegui atender corretamente essas pessoas. Não sei se estar aqui foi a melhor coisa que fiz

Tesoureiro: Se o senhor preferir, posso dispensar os últimos súditos e dizer que o senhor não tem disposição para terminar de atendê-los hoje e peço para voltarem amanhã.

Rei: (Percebendo que o último da pequena fila é o Asceta). Não, faltam poucos. Além do mais, receberei o presente daquele Asceta com mais dignidade, quem sabe assim eu gero algum mérito que possa me ajudar a cessar o mal que aflige minha filha.

Narrador: (O rei começa a atender o terceiro da fila). Sabendo que ao agradar uma pessoa santa, gera-se mérito para se livrar dos maus acontecimentos, o Rei opta por se sacrificar mais um pouco e receber com o coração aberto o presente do Asceta. (Ele termina de atender a terceira [e penúltima] pessoa e o Asceta se aproxima se prostrando na frente do Rei).

Rei: (O Asceta lhe oferece sua fruta, como de costume. O Rei, dessa vez, a pega com as duas mãos e sorrindo). Aceito com imensa gratidão seu humilde presente.

Asceta: (Nada responde, nem mesmo olha para o rosto do Rei. Apenas une as mãos na altura do coração e se curva levemente, virando-se e partindo, deixando o Rei a sós com o Tesoureiro).

Rei: Como posso aceitar de coração uma fruta sem saboreá-la? (Pensa em voz alta. Aproxima a fruta da boca e a morde. Da fruta cai uma jóia. Surpreso). O que é isso?

Tesoureiro: (Também surpreso). É uma jóia, meu senhor!

Rei: Pegue-a! O que você fez com as outras frutas que o Asceta me deu?

Tesoureiro: (Enquanto pega a jóia e a observa). Joguei-as pela janela da sala do tesouro, meu senhor. Não imaginava que teriam tanto valor.

Rei: Vá vê-las!

Tesoureiro: (Com urgência). Sim, meu senhor! (E parte).

Rei: (Intrigado e sozinho na sala de audiências, se põe a pensar em voz alta). O que mais esse Asceta esconde? (Pausa pensativa). Será que ele pode ajudar minha filha? (Mais uma pausa pensativa, interrompida pelo retorno do Tesoureiro).

Tesoureiro: (Ansioso e surpreso). No meio das frutas podres haviam milhares de jóias! O que faremos, meu senhor?

Rei: (Pensativo). Pegue-as para você.

Tesoureiro: (Muito surpreso). P-pra mim?

Rei: Sim, pra você. Amanhã, antes de deixarmos a fila começar a andar procuraremos o Asceta e faremos o seguinte… (Ele começa a conversar com o Tesoureiro, mas sem som, pois a voz do Narrador os sobrepõe).

Narrador: O Rei havia visto uma luz. Uma leve e discreta luz, mas que não poderia ser desperdiçada. (A luz diminui). Na manhã seguinte, as portas do salão foram abertas e a fila começou a ser preparada pelos guardas quando…

Rei: (Voltando-se ao Tesoureiro). Lá está o asceta! Peça para que todos se retirem e traga-o a mim.

Tesoureiro: Sim, meu senhor. (Vai até a saída do palco e diz). Atenção todos! O rei não está com disposição hoje, e pediu para que os dispensasse a todos. (Ouve-se pessoas murmurando). Vejo um asceta entre vocês? (Diz como quem não quer nada). Sim você! Por favor, venha até o rei pois ele quer falar com o senhor.

(O Rei apenas observa e o Asceta entra em palco, sendo acompanhado pelo Tesoureiro até próximo ao Rei).

Asceta: (Prostrando em frente ao Rei). No que posso ajudá-lo, majestade?

Rei: (Equilibrado). Vi as jóias que me deu durante todos esses anos. Quanta paciência teve em me dá-las, sem nada pedir em troca, para que eu reconhecesse seu valor, grande asceta! (Emotivo). Mas não quero as jóias! Trocaria todas elas pela vida da jóia mais valiosa de minha vida: minha filha! (Ele dá uma pausa como se quisesse conter as lágrimas). Peço, por sua bondade, que a cure.

Asceta: (Após ouvir tudo com um olhar compassivo e grande paciência). Majestade fico contente em poder ajudá-lo. Tenho aqui um elixir que é capaz de curar quaisquer males físicos, porém, ele é incapaz de curar males espirituais como maldições. (Ele entrega o elixir diretamente nas mãos do Rei). Dê a ela todo o frasco e amanhã eu voltarei. Se ela não estiver curada, será outro procedimento que terei de fazer, mas nesse caso, precisarei de suas mãos.

Rei: O que for necessário, santo homem.

(Fim da Cena 2).

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O Rei e o Cadáver – 1º ATO – Cena 1 PC

Narrador: Senhoras e senhores! Foi extraordinária e, ao mesmo tempo, terrível a maneira como o Rei se viu envolvido na aventura.

(Abre a cortina. O Rei está sentado em seu trono com o Tesoureiro ao seu lado direito. A sua frente há uma fila de pessoas esperando para falar com o Rei, enquanto o primeiro da fila já age como se estivesse falando com ele. Cada uma das pessoas carrega um presente em suas mão. A segunda pessoa da fila é o Asceta).

Narrador: Diariamente, durante dez anos, aparecia no salão de audiências, onde o Rei solenemente sentado ouvia petições e dispensava justiça, (O Asceta passa a ser o primeiro da fila. Faz uma prostração), um Asceta mendicante que, sem dizer uma palavra sequer, lhe oferecia uma fruta. (O Asceta faz a oferenda e segue-se como na descrição que o Narrador está dando da cena). O soberano aceitava o presente trivial, passando-o, sem pensar nem um instante, a seu Tesoureiro, que permanecia em pé ao lado do trono. Sem fazer pedido algum, o mendigo se retirava. Perdia-se na multidão de suplicantes, não revelando o menor sinal de desapontamento ou impaciência.

(O Asceta sai de cena, o terceiro da fila entrega seu presente e começa a conversar com o Rei. A luz do palco diminui e a narrativa prossegue).

Narrador: Porém, o Rei sentiu sua nobre rotina se abalar quando a morte soprou nas janelas de seu palácio, o avisando de sua existência.

(A luz retorna ao palco. O Rei e o Tesoureiro ainda se encontram na sala do trono, entretanto, não há mais súditos).

Princesa: (Com fraqueza entrando na cena). Pai…

Rei: (Preocupado se aproximando da filha). O que foi minha filha?

Princesa: …não estou me sentindo bem. (Ela desmaia e o Rei a pega em seus braços. O Tesoureiro apenas observa sem saber como agir, até que o Rei olha para ele).

Rei: Chame os médicos! (Com urgência).

Tesoureiro: (Indo até a entrada do palco ele grita). Guardas! Chamem os médicos! Rápido!! (Ele se aproxima novamente do Rei e se ajoelha ao seu lado, sem tocá-lo).

Rei: (Com o olhar fixo no rosto de sua filha diz com medo). Ela está fria. Ela está morrendo!

Tesoureiro: Não diga isso meu senhor. Ela é uma jovem forte.

Rei: (Sentindo sua filha se mexendo). Filha?

Princesa: (Com a voz fraca). Pai! Ajude-me, por favor.

Rei: (Com muita tristeza) Não irei lhe perder como perdi sua mãe.

Princesa: Confio em você… pai. Sei que me salvará. (Eles se abraçam).

Narrador: O Rei era uma pessoa muito confiante em suas próprias capacidades, mas naquele momento, ele se sentiu impotente, e se pos a pensar durante toda à noite.

(Fim da Cena 1 da PC).

O Rei e o Cadáver – Apresentação

Bom dia a todos,

O Rei e o Cadáver foi uma adaptação de um conto indiano que eu e meus alunos do grupo de teatro da Casa do Saber – formado por alunos do ensino fundamental II – trabalhamos durante todo ano de 2010, apresentando-a dia 04/12.

Foi uma experiência muito interessante.

A peça é dividida em uma Peça Central (PC), que se passa na maior parte do tempo rodando em torno da conversa entre um Rei e um Cadáver animado, que através de enigmas tenta ajudar o nobre a compreender a enrascada na qual está metido. Esses anigmas surgem através de histórias, que são encenadas nas Peças Paralelas (PP) que permeiam a Central.

O roteiro que postarei aqui a partir de amanhã é a adaptação na forma original que fizemos, que contém 5 Peças Paralelas. Entretanto, durante os ensaios e a preparação da peça, reduzimos para 3 PPs, a fim de diminuir o tempo de apresentação e não sobrecarregarmos ninguém.

O conto pode ser encontrado no livro: A Conquista Psicológica do Mal, do alemão Heinrich Zimmer, livro que serviu como base para a adaptação.

Espero que gostem.

Max Sawaya

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