Posts Tagged ‘ Braeryn ’

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 1)

            Já fazia algum tempo que Sabal Dyrr não se envolvia em um confronto físico. Ela se sente um pouco enferrujada, mas nada que a atrapalhe, afinal, em nenhum momento deixou de treinar as técnicas de combate que seu falecido mentor Mariv a ensinou.

            Sua morningstar atinge a cabeça de mais um orc, que cai com a fratura em seu crânio exposta e com seu corpo tremendo devido à eletricidade que o percorre. Esse é o segundo dos dois oponentes com os quais lutava. Ela dá mais uma olhada ao redor para ver como estão seus companheiros. Todos estão lutando o máximo que conseguem, mas para alguns isso não é suficiente. Dois dos três goblins já estão mortos enquanto Reshna e Mirka são as únicas kobolds vivas. Gromsh está lutando habilmente com seu halbert, já Stongest só é visto no momento exato em que um orc cai morto com um grande ferimento aberto pelo machado do meio-goblin.

            Faz pouquíssimo tempo que eles chegaram na passagem descoberta por Quiri. Após Mirka ter relido seu grimório e descansado o suficiente, eles partiram da barraca do culto e adentraram a viela dos orcs. Lá encontram várias barracas destruídas e algumas patrulhas drows montadas em seus lagartos. Não houve grandes dificuldades de passarem por eles e tomarem o rumo para a entrada da caverna que os orcs aparentemente estavam utilizando para fugirem. Mirka utilizou algumas de suas magias para distrair e atrapalhar a percepção dos patrulheiros, enquanto eles, o mais furtivamente possível, continuavam seu caminho.

            Ao chegarem próximos às barracas que continuavam inteiras eles viram o corpo decapitado de uma humana gorda e extremamente suja. Olhando de relance, eles não souberam dizer se os orcs haviam feito aquilo, mas quando Stongest olhou mais detalhadamente ele percebeu que o corte era preciso e que a perfuração no peito da humana havia atingido magistralmente o coração.

            Com certeza não foram orcs, constataram eles. Havia algo acontecendo naquele local e isso poderia atrapalhar tudo. Sem perder tempo eles ultrapassaram algumas barracas e adentraram em um grande lixão de um aparente beco. Com um pouco de trabalho eles abriram passagem entre os lixos e encontraram um buraco pequeno pelo qual poderiam entrar.

            – É essa a passagem. – disse Stongest sussurrando – Ela é pequena pa’a que d’ows, due’ga’s, gnolls, até mesmo o’cs tenham que abaixa’ pa’a ent’a’. Assim os gua’das podem decapita’ o int’uso antes de qualque’ reação.

            Mesmo que esse fosse o intento do tamanho da passagem, havia uma vantagem para o grupo de Sabal: apenas ela e Gromsh eram grandes os suficientes para terem que abaixar. Sem perder tempo Stongest simplesmente sumiu da vista de todos e adentrou o local. Logo que isso ocorreu, Mirka utilizou magias de invisibilidade para tornar o resto do grupo invisível. Gromsh preferiu que ela não utilizasse nele, pois iria usar o anel para se camuflar e sua furtividade para se tornar virtualmente invisível. Mirka trocou olhares com Sabal e essa permitiu que assim fosse.

            Estava tudo perfeito. Eles adentraram o local e passaram os dois guardas; realmente, a estratégia que Stognest havia dito que era usada era verdadeira. A caverna em si era um túnel largo e alto. Sabal por não conhecer muito de formações rochosas, não sabia dizer se aquilo era natural, mas Stongest com certeza saberia. Após caminharem por um pequeno tempo no túnel eles viram uma reunião de orcs. Haviam pelo menos oito supostos guerreiros e três supostos magos.

            A situação se tornou ainda mais delicada. Se algo desse errado, eles teriam grandes problemas. Quando o grupo dos pequenos – os que tinham mais chances de estragarem segundo Sabal – passou pelos orcs, Sabal sorriu vitoriosa, quando de repente, para total decepção da clériga, Gromsh acabou tropeçando e chamando a atenção dos magos.

            A reação foi óbvia: um dos magos conjurou uma magia para revelar seres invisíveis. Percebendo que a entrada furtiva já havia falhado, Sabal atacou um dos guerreiros próximos, tendo em mente que Stongest e Mirka dariam cabo dos magos. Ela não se decepcionou dessa vez, Stongest atacou rápida e mortalmente um mago que estava preparando uma magia, enquanto Mirka atingiu seus mísseis mágicos naquele que havia feito a magia para revelar o invisível. Inspirados no guardião e na kobold maga, os outros pequenos atacaram todos ao mesmo tempo o mago que faltava, não dando chances de reação.

            A luta começou. Enquanto Sabal enfrentava dois guerreiros, Stongest eliminava facilmente o mago que Mirka havia atingido com seus misseis mágicos. Enquanto isso dois guerreiros enfrentavam os cinco pequenos e Mirka. Sabal não conseguia ver a situação de Gromsh, mas pela rápida reação de Stongest indo em direção de onde o gnoll se encontrava, algo nada bom estava ocorrendo.

            O foco de sua atenção passou a ser os dois guerreiros que ela estava enfrentando e apenas depois de matar o segundo que a clériga conseguiu olhar a batalha ao seu redor.

            – Mirka! Reshna! Fiquem perto de mim! – grita Sabal às duas kobolds.

            Reshna atinge mais uma flecha de sua besta no peito do único orc que sobreviveu aos seis pequenos e pede para Mirka ir para junto da clériga antes dela. Mirka fica indecisa, mas entende que Reshna seria mais hábil em atrapalhar a atenção do orc do que ela; talvez suas magias fossem mais úteis mais a frente.

            Sabal caminha para ficar um pouco mais perto das duas, mas logo se vira para enfrentar mais um orc. Pelo que havia reparado o orc que a está atacando é um dos guardas que veio em auxílio do grupo. O primeiro golpe é feito pelo orc, mas Sabal consegue defender habilmente com seu escudo. Logo o orc desfere um segundo golpe em sua direção, mais um bloqueio bem sucedido é feito, porém dessa vez ela encosta o escudo em seu corpo e utiliza a posição para dar um encontrão no orc, que perde o equilíbrio e cai no chão. Em suas costas Sabal escuta Mirka recitando algumas palavras arcanas enquanto Reshna grita. A clériga sente um estranho aperto em seu coração ao escutar o grito da kobold, mas ignora e prossegue em sua luta.

            Quando o orc está para se levantar Sabal o atinge com sua morningstar no seu ombro. O orc se contorce de dor ao sentir seu ombro se dilacerando e a eletricidade fluindo por seus músculos. Sem perder tempo a clériga esfacela o rosto do orc com um golpe extremamente brutal e logo se vira para ver o orc que havia matado Reshna.

            A clériga sente Mirka tocar em sua perna. Ela havia matado o orc que matou sua irmã de raça com alguma magia, mas outro orc já estava vindo na direção das duas. Sabal se posicionou para proteger a kobold, mas foi desnecessário, pois Stongest surgiu pelas costas do adversário e o atingiu mortalmente com seus dois machados na região dos rins.

            “Estávamos sendo vigiados”, rosna Stongest para Sabal enquanto essa observa para ver se mais algum orc estava vivo.

            “Estávamos? Já foi embora?”, pergunta a clériga na mesma linguagem, fazendo sinal a Gromsh para que esse se aproximasse dela.

            “Sim”, responde com um rosnado breve o meio-goblin enquanto a clériga saca sua varinha de cura para utilizar no gnoll que está com um grande ferimento causado por um dos machados dos orcs.

            “Então não podemos perder mais tempo. Precisamos ir”, rosna a clériga logo após ter dito as palavras de ativação da varinha e tocado o gnoll.

            – Brigado, Senhora. – agradece Gromsh.

            “Não sem antes fazer um pequeno ritual de homenagem aos nossos irmãos mortos”, retruca Stongest em rosnados, pegando os corpos dos cultistas de Lolth mortos e enfileirando-os.

            Sabal pensa em retrucar sobre a inutilidade daquele ato, mas percebe que não seria muito inteligente de sua parte, já que Gromsh e Mirka estão próximos.

            – Não se preocupe Stongest, eu farei um ritual em homenagem a eles. Enquanto isso você poderia acompanhar Gromsh mais a frente, para ver o que nos espera. – diz em tom baixo a clériga, enquanto retira seu punhal de aranha da sua piwafwi.

            Stongest e Gromsh partem, enquanto Mirka e Sabal fazem as orações e o ritual de arrancar o coração de seus irmãos e despejar o sangue no ídolo de Lolth, que está na bagagem da clériga.

            Após o termino do ritual Stongest e Gromsh retornam:

            – Sabal e Mi’ka, venham com nós. Encont’amos algo. – diz o guardião.

            – Antes vamos dar uma olhada no que esses orcs possuem e vamos dividir os alimentos que nossos irmãos carregavam. – responde Sabal enquanto Stongest faz um aceno positivo com a cabeça.

            Os alimentos são divididos enquanto Gromsh fiscaliza os orcs mortos.

            – Encontrei uns amuletos aqui. – diz Gromsh rindo – Será que são mágicos Mirka?

            Mirka recita algumas poucas palavras mágicas enquanto gesticula com suas pequenas mãos. Ela olha para os amuletos que o gnoll está segurando e depois de uma tempo diz:

            – São sim. Guarde eles, Gromsh.

            Após a divisão de alimentos e a coleta de amuletos, eles caminham mais a diante no túnel, onde uma oração em abissal está escrita na parede.

            – Palavras de poder. – diz a clériga.

            Mirka utiliza mais uma vez sua magia para detectar aura mágica e diz logo em seguida:

            – Runas mágicas. Parece que é uma armadilha.

            – Que pode estar tendo seu poder ampliado pelas oração a um demônio chamado Shormongur. – complementa a clériga.

            Stongest apenas observa o túnel mais adiante enquanto as duas conversam.

            – Você conseguiria desativá-las Mirka? – pergunta a clériga.

            – Consigo, mas não sei se é a melhor opção, Senhora. Afinal eu posso acabar ficando sem magias quando for realmente necessário. – responde a kobold humildemente.

            – Tem alguma outra idéia? – pergunta Sabal.

            – Quero analisar os amuletos antes, se a Senhora permitir. – responde a pequena kobold recebendo um aceno positivo com a cabeça por parte da clériga.

            – Deixem que eu cuido das a’madilhas físicas. – diz Stongest pegando as duas de surpresa.

            – Como? – pergunta Sabal sem entender direito.

            – Há a’madilhas físicas também além das mágicas. Deixem que eu desa’mo elas. – responde o meio-goblin como se dissesse o óbvio.

            – Que merda. Tô me sentindo tão inútil. – comenta Gromsh sentando no chão e encostando-se ao muro cabisbaixo.

            Mirka ri, enquanto Sabal apenas sorri e Stongest continua observando a passagem em busca de mais armadilhas.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (Parte 4)

Aquilo parece um formigueiro. Gnolls, hobgoblins, goblins, kobolds, um ou dois trolls que se destacam na multidão, todos se digladiando mutuamente enquanto Stongest e Gromsh assistem à distância.

Não demora muito para as patrulhas drows que se encontram no Braeryn chegarem até lá e perceberem que aquilo não era nada além de uma “briga de bar”. Não foi difícil para Gromsh causar uma confusão no Braeryn. Os nervos dos moradores do bairro ainda estão a flor da pele. Além do mais, nada como esbarrar, xingar e empurrar as pessoas certas. Confrontos entre raças diferentes sempre resultam em uma explosão frenética de fúria, principalmente quando essas raças são pré-dispostas a participar de uma luta.

Ao leste Stongest escuta o som de pedras sendo destruídas e fica contente ao ver que as patrulhas não perceberam, ou não deram importância, àquele som. Após a insurreição a população de escravos em Menzoberranzan diminuiu um tanto e como o cerco dos duergars parece estar apertando, não é hora de deixá-los se matarem em brigas de ruas estúpidas.

– Vamos embo’a G’omsh. Acho que eles já esta’ão ocupados po’ um bom tempo. – diz Stongest ao seu irmão de culto.

– Tá certo. Vambora discançá que vai demorá umas horas pra eles se preocuparem com o bairro dos orcs, né? – comenta Gromsh recebendo apenas um aceno de cabeça positivo do meio-goblin.

Deixando a balburdia para trás, ambos partem para se encontrarem com os companheiros de culto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 3)

As vielas dos orcs no Braeryn não é um dos lugares mais agradáveis para se estar ultimamente. Aparentemente um dos poucos focos da insurreição dos escravos se estabeleceu por lá. Algo sinistro parece estar ocorrendo, mas nada evidente. Pelo que Alak Sel’Xarann percebeu, as patrulhas drows evitam aquele lugar, não por medo, mas porque eles têm muito mais o que ganhar agindo dessa maneira, afinal, honestidade nunca foi o forte dos drows e quando surge alguma oportunidade para conseguirem ganhos, não há porque perder a oportunidade.

Desde que chegaram naquele local, o grupo da Xorlarrin está caminhando atento e cuidadosamente. Nenhum orc foi visto até o momento e pelo que o mercenário drow já percebeu e indicou através de sinais toscos – que nada se assemelham a linguagem de sinais de sua raça – ao seu companheiro ogro mago, eles estão sendo vigiados. Ambos caminham na frente, como que para chamar atenção, algo não muito difícil para um imenso ogro e um drow bem maior que a estatura normal da sua raça.

– Alak, estou ouvindo várias pegadas e ruidos subindo as barracas e não são orcs. – sussurra Brum sem desviar seu olhar do caminho que está a sua frente.

– Provavelmente alguns mercenários ou escravos dos orcs. Devem estar subindo nos telhados para nos cercarem com dardos e bestas. – sussurra em resposta o mercenário eremita, também sem fazer menção de que está preocupado com o que ocorre ao seu redor.

Ambos continuam caminhando sem saber o que está ocorrendo com o grupo atrás deles. “Eles continuam nos seguindo”, pensa Alak escutando o tilintar da armadura da clériga, “Espero apenas que não durmam no ponto”. O eremita mantém três adagas de arremesso preparadas em cada mão, enquanto Brum carrega suas clavas de pedra, preparado para entrar em combate a qualquer momento.

– O problema é que não sabemos nem para onde ir. – comenta o ogro sussurrando.

– Apenas temos que encontrar algum orc. – responde Alak também em sussurros quando um assovio corta o ar.

Uma pequena flecha de besta atinge o ombro de Brum, mas nem mesmo consegue penetrar sua pele grossa.

– Acho que os diabinhos resolveram mostrar suas caras. – diz Brum olhando para a direção de onde veio a flecha e encontrando um pequeno goblin preparando a besta novamente.

Alak vira rapidamente para o lado oposto de Brum, a fim de analisar a situação na qual eles se encontram. Seu grupo realmente está logo atrás. O mago está com uma adaga de arremesso preparada em sua mão direita, enquanto o guerreiro Xorlarrin está caminhando em posição defensiva ao seu lado, empunhando uma espada curta, já a clériga está posicionada na frente deles com sua maça e seu escudo médio, caminhando entre as duas divisões. Porém, nenhum deles pareceu ter percebido o ataque contra Brum. Após a rápida olhada em seu grupo o mercenário drow enxerga alguns outros goblins posicionados em telhados, preparando suas zarabatanas e bestas.

Sem perder tempo, o eremita arremessa suas adagas da mão esquerda em direção a dois goblins que estão no mesmo telhado, ao mesmo tempo em que escuta o mago Teken’Th’Tlar dar um aviso ao grupo de trás a respeito dos atiradores. Duas das adagas do mercenário atingem em cheio o pescoço de um dos goblins que cai do telhado aparentemente morto, enquanto a última adaga erra por pouco o segundo alvo.

– Brum! – grita o mercenário chamando a atenção do ogro quando vê que mais goblins estão surgindo em cima das barracas próximas.

O ogro vira seu rosto em direção de Alak que apenas faz o sinal de um círculo e finaliza com um “estouro” de dedos. Brum entendendo logo de imediato segura as compridas correntes de suas grandes clavas de pedra e prepara o corpo para impulsionar um giro.

– Todos abaixem!! – grita Alak pulando ao chão.

A clériga Xorlarrin olha para o mercenário com uma expressão de assombro e raiva, mas não perde tempo em mergulhar. Alak vê atrás da clériga o mago e o guerreiro fazendo o mesmo.

– Mercenário estúpido! – grita a clériga no dialeto drow em meio aos estouros das clavas de Brum atingindo as barracas, feitas de barro e pedra, e as demolindo.

Alak ri consigo mesmo e se vira para ver o estrago causado por seu companheiro ogro. Brum está terminando o segundo giro e parando. Ele balança a cabeça como se quisesse espantar a tontura e olha ao redor para tentar encontrar os goblins atiradores. No meio da fumaça de pó de argila, Alak vê alguns pequenos vultos se levantando e batendo e retirada.

– Boa, Brum. – comenta o eremita levantando-se já com uma de suas espadas em mãos.

– Não há como não ser. – responde Brum com um sorriso no rosto.

– Mercenário! Precisamos de um desses goblins para interrogatório! – grita o mago que está se levantando e limpando suas vestes.

– Faça isso! – grita a clériga em baixo-drow, concordando com o Teken’Th’Tlar.

Alak corre até um goblin perceptivelmente ferido que não conseguiu bater em retirada. O pega pelo cangote e leva até o grupo. O goblin treme desesperado na mão do drow, deixando um rastro de urina pelo caminho.

– Interrogue esse inferior imediatamente e descubra onde estão os orcs! – ordena a clériga em baixo-drow.

Alak a olha rapidamente com uma de suas sobrancelhas levantadas.

– Sim, Senhora. – Alak volta-se em direção ao pequeno goblin que continua tremendo convulsivamente de medo – Onde estão os orcs?

O goblin tenta falar, mas nada sai de sua garganta.

– Ela disse a palavra, não é? – interompe Brum.

– Agora não Brum. – corta Alak, voltando sua atenção novamente ao goblin seca e pausadamente – Responda… onde… estão… os… orcs?

A respiração do pequeno goblin acelera cada vez mais. Esse tenta responder novamente, mas as palavras não saem de sua boca de forma inteligível. Quando algum som semelhante a um “nã” está para sair da boca do goblin, a cabeça desse estoura espalhando pedaços e sangue aos pés dos mercenários que estavam próximos.

– Esse merdinha não ia ajudar em nada. Vamos embora. – diz a clériga Xorlarrin em baixo-drow, limpando sua maça suja com o sangue da criatura.

– Ela falou a palavra de novo, não foi? – pergunta Brum a Alak encarando a clériga.

– Não Brum. Pare com isso. – responde Alak ao seu companheiro.

A Xorlarrin encara o ogro de volta.

– Seu amigo está com algum problema? – a clériga pergunta para Alak ainda em baixo-drow.

– Não Senhora. – responde o eremita na mesma linguagem, logo voltando-se para o ogro em subterrâneo comum – Brum vamos andando.

Brum dá um passo a frente em direção a clériga que se afasta, mas logo se vira de costas e começa a procurar por orcs rindo da reação assustada da clériga.

– Quer que eu ensine alguma lição a ele, Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Não. Ele vai ser útil mais para frente. – responde secamente a clériga.

Alak apenas escuta a breve conversa dos dois e caminha para junto de seu companheiro quando ouve o guerreiro Xorlarrin mais à frente chamando a atenção do grupo.

“Encontrei alguns rastros”, diz ao grupo na linguagem de sinal drow, próximo a algumas barracas não atingidas pelas clavas de Brum.

Alak conhece pouco a linguagem de sinal, mas prefere fingir não conhecê-la e faz de desentendido. Quando a clériga e o mago ultrapassam ele e seu parceiro indo ao encontro do Xorlarrin, eles resolvem seguí-los. O guerreiro está observando algumas marcas no chão, que o eremita reconhece claramente como pegadas de orcs que adentraram aquela barraca.

– Ótimo, já sabemos por onde começar. – diz a clériga em baixo-drow com um sorriso no rosto – Mercenário, abra a porta.

Alak olha para a clériga, inclina levemente a cabeça e responde também em baixo drow:

– Sim, Senhora.

Armadilhas nunca foram o forte do eremita, muito menos em um contexto urbano. Mesmo assim ele prefere gastar um tempo observando a porta em busca de alguma possível ameaça. “Isso não está me cheirando bem”, comenta consigo quando a alguns metros um cântico profano é escutado. Alak para de analisar a porta e se vira para a direção da voz feminina que entoa aquelas silabas distorcidas.

Percebendo que todos do grupo foram pegos de surpresa, o eremita prepara suas duas espadas e tenta focar sua visão em uma figura larga e tremeluzente à pelo menos quinze metros de distância. Analisando o efeuito tremeluzente, Alak percebe que aquilo é causado por uma espécie de aura de calor e que aquele ser nada mais é que uma humana gorda e nua. Ao seu lado ele escuta o mago Teken’Th’Tlar recitando algumas palavras arcanas e vê o guerreiro Xorlarrin correndo em direção a humana.

– Brum, abra a porta enquanto eu os ajudo a enfrentar essa mulher. – diz Alak correndo também em direção da humana.

– Você demorou tudo isso só para abrir uma porta? – Brum ri e dá um forte murro, abrindo a passagem para dentro da barraca.

Alak ignora as risadas do seu companheiro e vê com uma certa distância, do seu lado esquerdo, uma esfera flamejante rolando pelo chão, deixando uma trilha de chamas, indo em direção da mulher que prossegue com seus cânticos. “Parece que o mago está mostrando porquê veio”, comenta mentalmente enquanto prepara para saltar em direção da mulher e arremessar uma de suas espadas.

Quando o momento se aproxima a bola ultrapassa o eremita e o guerreiro Xorlarrin e atinge seu alvo. Uma pequena explosão ocorre, tanto Alak quanto o Xorlarrin conseguem se esquivar de qualquer resíduo, mas assim que olham na direção da humana vêem que nada ocorreu a ela e que o cântico nem mesmo parou.

– Ela possui proteção mágica. – diz o Xorlarrin a Alak no dialeto drow – Atraia a atenção dela que a atacarei por trás.

– Fácil. – responde Alak pegando impulso para saltar e rolar pelo chão na frente da humana.

O salto sai perfeito. Com o próprio deslocamento de seu corpo, Alak rola pelo chão parando agachado em frente a sua adversária e arremessando uma de suas espadas, que acaba sendo desviada por algum vento quente que a circunda. Mesmo assim, a lâmina da espada passa de raspão pelo ombro da humana e abre um profundo corte, mas isso não é o suficiente para tirar-lhe a concentração. “Merda!”, pragueja mentalmente o eremita enquanto um círculo de fogo se levanta ao redor da clériga.

– Brum! Arremessa uma clava! – grita Alak vendo a adaga que parece ser do mago atingindo também de raspão a mulher gorda.

Atrás do círculo o eremita vê o guerreiro caminhando em uma posição estratégica que lhe permitiria atingi-la com um golpe fatal, porém sem conseguir se aproximar. A humana realmente não conseguiu perceber sua aproximação, mas o que ocorre ao seu redor não parece preocupá-la. Ela já havia iniciado outro cântico. Sua voz alcança uma potência preocupante e um brilho flamejante é disparado de sua mão ao mesmo tempo em que uma tora de pedra atinge em cheio a mulher que é arremessada para fora de seu próprio círculo.

Alak consegue se esquivar por pouco do raio flamejante disparado contra ele. Parte de sua armadura de couro batido é queimada no processo, mas sem perder tempo ele se desfaz dela e salta em direção à conjuradora, cravando sua espada em seu peito assim que pousa no chão. Ela ainda tenta segurar o pescoço do eremita, mas logo a espada curta do guerreiro Xorlarrin rasga-lhe a garganta.

O eremita percebe que ela, além de estar nua, é extremamente imunda, cheia de sebo, terra, excrementos. Sentindo nojo ele arranca a espada de seu peito e se afasta. O Xorlarrin também sente nojo e dá um passo para trás.

– Vou pegar minhas armas. – diz Alak como se já tivesse feito seu serviço e se afastando para recuperar sua outra espada e seus punhais arremessáveis.

Enquanto se afasta da humana o mago e a clériga se aproximam, e passam a observar o corpo.

– Ela é uma clériga. – comenta o mago.

– Sim, eu já sabia. – responde a Xolarrin secamente – Mas quem ela venera é que me intriga.

“Se sabia por que não avisou antes, sua puta”, comenta mentalmente Alak sentindo sua raiva ferver.

– Tem uma corrente passando pelo pescoço dela, Senhora. – comenta o mago.

Alak se vira em direção à conversa enquanto pega sua outra espada e vê o guerreiro Xorlarrin arrancando uma corrente com um pequeno pingente e entregando para sua senhora. O rosto da clériga se distorce em fúria, mas ela nada diz, apenas o guarda e faz alguns sinais quase imperceptíveis para seu guerreiro.

– O que seria isso, minha Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Silêncio, macho. Quando eu quiser falar com você assim o farei. – responde rudemente a clériga Xorlarrin partindo junto ao guerreiro para a cabana que Brum havia derrubado a porta.

“Guarde seus segredos enquanto pode clériga”, comenta consigo Alak vendo o rosto contrariado do mago Teken’Th’Tlar por ter acabado de perceber que sua subida na hierarquia de confiança da Xorlarrin havia sido ilusória. Alak apenas sorri e volta a procurar suas adagas.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 2)

– Você se p’eocupa demais Sabal. – diz o meio-goblin-meio-algo a ex-clériga da Segunda Casa Maior de Menzoberranzan – Fiz o se’viço di’eito quando t’ouxe o Qui’i p’a cá.

– Confio em você Stongest, mas temos que planejar logo o que fazer, pois já perdemos tempo demais para ir em busca do filho de Lolth. – responde Sabal Dyrr ao Guardião.

Todos os cultistas da Lolth encarnada se encontram na barraca junto ao guardião e a clériga. Mirka e Gromsh estão posicionados de forma que fique mais fácil para eles participarem do planejamento, enquanto três goblins arrumam os mantimentos em mochilas diferentes e dois kobolds guardam os objetos sagrados de Lolth; um pequeno ídolo, um tufo de cabelo da primeira clériga – Vishnara Do’Urden – e uma pequena aranha de adamantina.

– Sabendo que Quiri conseguiu descobrir uma passagem para fora da cidade, já facilita muito para nós. – diz Sabal.

Logo que Gromsh e Mirka chegaram da busca pelos outros seguidores da deusa encarnada, Stongest contou a Sabal exatamente como Quiri havia sido atacado. O pequeno e mirrado goblin havia encontrado uma das possíveis passagens utilizadas pelos orcs, porém furtividade nunca foi o forte de Quiri. Os orcs que guardavam o local atacaram Quiri, mas Stongest conseguiu salvá-lo a tempo. Para os orcs, Quiri simplesmente sumiu diante de seus olhos.

– O problema é que eles cultuam algum demônio, e isso pode vir a ser um grande empecilho. – complementa a clériga, colocando todos a par da informação que Quiri conseguiu e Stongest havia passado a ela – Precisamos ultrapassar a área controlada por esse culto, sem sermos vistos.

– Acho que isso não será problema, posso preparar apenas magias que auxiliem em nossa furtividade, Senhora. Mas precisaria de um tempo para descansar. – diz a pequena maga kobold Mirka.

– Creio que no momento não temos tempo para isso Mirka. Precisamos sair ainda hoje. – responde a cleriga olhando para os kobolds que estão guardando as relíquias como se refletisse a respeito de tudo o que estava ocorrendo.

– Não acho que temos que te’ tanta p’essa, Sabal. – diz Stongest chamando a atenção da clériga para ele – Ac’edito que a Mi’ka possa te’ um tempo pa’a descansa’ e pa’ti’mos logo que ela estive’ p’epa’ada.

– Sinceramente não concordo Stongest, já disse que estamos perdendo tempo demais. Talvez essas horas de descanso que a Mirka necessita seja o suficiente para as patrulhas descobrirem a passagem que Quiri descobriu. – opina a clériga claramente preocupada.

– Concordo. Afinal, se Quiri acho num deve sê difícil otro achá. – comenta Gromsh.

Stongest olha sério para seu companheiro gnoll:

– Qui’i fez um bom t’abalho, G’omsh. Muito melho’ do que todos espe’ávamos. – retruca o meio-goblin.

– Dexa disso. Foi só um comentário. – se defende Gromsh enquanto Stongest esboça aquilo que parece ser um sorriso.

– Não se p’eocupe. Apenas não acho ce’to esse tipo de comentá’io sob’e alguém que se sac’ificou po’ nossa causa. – diz Stongest tentando ser simpático.

– Por favor, sabemos que Quiri fez um trabalho ótimo, mas precisamos planejar o que iremos fazer com o que ele descobriu. Vamos voltar ao assunto? – diz Sabal tentando fazer com que seus dois companheiros retomem o foco do início da conversa.

– Isso é um tanto problemático mesmo, Senhora. Talvez não seja muito sabio de nossa parte utilizarmos nosso tempo para que eu decore algumas magias no momento. – diz humildemente Mirka à clériga – Ainda consigo fazer algumas poucas magias antes da minha mente ficar exausta. Acho que pode ser o suficiente para adentrarmos a passagem.

– A minha pe’gunta é: como você p’etende se’ fu’tiva com sua a’madu’a, Sabal? – pergunta o meio-goblin, questionando o plano.

Sabal o encara refletindo a respeito do que ele acabou de perguntar.

– Mirka? – a clériga volta à kobold como se estivesse pedindo auxílio.

– No momento não seria capaz de ajudá-la, Senhora. Utilizei todo meu conhecimento desse tipo de magia trazendo nossos companheiros para cá. Minha mente não consegue mais se focar nesse conhecimento no momento, precisaria realmente reler meu grimório e descansar. – responde Mirka tristemente.

Sabal sorri para Stongest:

– Acho que você tem razão guardião. – se rende Sabal.

– Mas por que não podemos ir de peito aberto, Senhora? Temos que nos escondê mesmo? – pergunta Gromsh.

– Chamaria muita atenção Gromsh. – responde Sabal.

– Mas e as patrulhas? E se descobrirem a passagem? – Gromsh emenda outra pergunta logo após a resposta da clériga.

– Ai teremos que passar por eles. – responde a clériga ao gnoll.

– Ou talvez possamos atrasar esse acontecimento. – diz Mirka olhando para a clériga.

Sabal sorri para a kobold compreendendo o que ela quis dizer e volta o seu olhar para Gromsh e Stongest.

– Gromsh, me responda uma coisa: como anda sua capacidade de arranjar encrenca sem se envolver diretamente? – pergunta a ex-Dyrr ao seu companheiro gnoll.

– Cada veiz melhor, Senhora. – responde o gnoll sorrindo com seus caninos amarelos e afiados aparecendo no canto de sua boca.

– Stongest? Você o acompanharia? – pergunta a clériga ao guardião.

Stongest olha para ela e para Mirka, como se refletisse a respeito do que elas estão sugerindo.

– Você que’em uma confusão? – pergunta o meio-goblin.

Mirka sorri em resposta, Sabal apenas inclina a cabeça afirmativamente.

– Vocês te’ão. – complementa Stongest.

– Mas precisamos que vocês não estejam diretamente envolvidos, não queremos chamar atenção, lembra? – comenta Sabal.

– Eu sei cle’iga. Já disse, não se p’eocupe.

Stongest se levanta e se prepara enquanto Mirka abre seu grimório e se põe a estudar.

– Faz tempo que não me divirto. – comenta Gromsh rindo – Finalmente vou colocá a capacidade do anel a prova, Mirka.

Mirka olha para seu companheiro gnoll e sorri. Sabal se levanta da almofada e caminha até Stongest, sussurrando em seu ouvido:

– Cuide de Gromsh. Não deixe que ele cometa nenhuma falha.

– Sou o gua’dião, Sabal. Eu entendi o po’quê você quis me manda’ junto. – responde Stongest com sua maneira confiante habitual.

– Sua dedicação me tranqüiliza Stongest. – comenta Sabal sorrindo para o meio-goblin, que devolve o sorriso da forma mais simpática que consegue.

Stongest chama Gromsh com um breve rosnado. O gnoll caminha para a porta junto ao meio-goblin e ambos saem para as vielas do Braeryn. Sabal realmente se sente mais tranqüila ao ver que Stongest está acompanhando o gnoll. “Gromsh é um ótimo e fiel guerreiro, mas infelizmente nunca foi um gênio”, comenta mentalmente a clériga caminhando para uma almofada a fim de iniciar uma meditação.

– Senhora, não consigo mexer seu escudo. – diz um dos kobolds que após arrumarem as relíquias agora estão arrumando os pertences de seus companheiros.

Sabal sorri:

– Não se preocupe Rashna, eu o pegarei quando formos partir.

Mesmo confusa, a kobold concorda e caminha a uma das almofadas para descansar após os serviços terem sido finalizados.

“Se Lolth não tivesse em silêncio, tudo seria mais fácil”, pensa Sabal, “Ou se pelo menos a Do’Urden realmente fosse uma deusa”. Sabal se sente ultrajada por pensar assim e balança sua cabeça negativamente, “Mariv se sentiria envergonhado de me ver pensado nisso”, novamente o pensamento lhe faz balançar a cabeça negativamente, “Que importa o que ele pensaria?”. A cleriga respira fundo, “Não posso criar dependências a forças e coisas externas”, Sabal sorri, “Chega a ser irônico encontrar outros que realmente pensam assim em um grupo de hereges”. A clériga se põe a meditar com a leve sensação de conforto que a identificação com o grupo trouxe a sua mente.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 1)

Desde que sairam do Bazaar, Sol’al Teken’Th’Tlar desenvolveu uma grande antipatia pelos mercenários, em principal pelo ogro mago chamado Brum. Somada ao último encontro com os dois longe da presença da clériga, essa antipatia cresceu. Entretanto, a situação como um todo não está das melhores.

A clériga é igual à maioria que ele já conheceu, o que não o surpreende. Arrogante, impulsiva e orgulhosa, tudo que se espera de uma serva da Rainha das Aranhas. O que realmente lhe deixa inseguro é, que na hierarquia de confiança da clériga, está claro que ele só está acima dos mercenários, o que não lhe parece tão difícil dada a situação em que os dois se apresentaram. Já Sol’al, foi enviado a pedido de um mago da própria Casa da clériga, não lhe é confortável ser o segundo nessa “hierarquia”.

O guerreiro ou assassino e porta voz da clériga, o qual ele também não sabe o nome, age como se não tivesse nada a esconder. Parece ser um servo fiel e honrado, o que cria um paradoxo na mente do mago. Além de ser um drow, o que já deixa a situação suspeita demais, ele é claramente um assassino aos olhos de Sol’al, e assassinos são tão ou mais traiçoeiros que serpentes. Mesmo assim a clériga possui uma confiança inestimável ao tal guerreiro. Sol’al percebeu o motivo no caminho para o Braeryn, ao se deparar com os olhares desejosos e cheios de luxúria que a clériga mirava no macho Xorlarrin.

“Isso complica muito a minha situação”, reflete Sol’al enquanto escuta o fim da breve discussão que se desenrolava entre o mercenário drow Alak e a clériga Xorlarrin, obviamente através de seu fiel guerreiro.

– Não iremos mais deixar vocês a sós, Senhora. Não insista. Fomos contratados para protegê-la e não conseguiremos fazer isso se continuar nos enviando para longe. – diz o mercenário ao guerreiro logo se voltando a clériga – E, pelo menos, tente parar de se dirigir a mim através de seu macho. É constrangedor.

A clériga fulmina Alak com um olhar cheio de raiva e o guerreiro Xorlarrin posiciona a mão em sua espada curta como se estivesse preparado para alguma ordem de sua senhora. Sol’al os observa. A discussão estava para pegar fogo desde o começo, mas sem a participação do ogro insolente, que ficou quieto o tempo todo, ela se estendeu sem balburdias maiores, até agora. Para o mago sua ação será óbvia se houver algum embate, ele atacará o imenso ogro com uma de suas magias mais destrutivas, para que esse não auxilie o seu companheiro.

– Preste atenção como se dirige a mim macho! Sou uma clériga de Lolth! Ponha-se em seu lugar! – grita a Xorlarrin se aproximando de Alak para desferir-lhe um tapa, quando Brum, como quem não quer nada, apenas dá um passo à frente.

– Desculpe Senhora. – responde Alak se curvando levemente à clériga que olha para o imenso ogro e abaixa a mão, mas sem perder a pose finaliza a discussão:

– Então, estamos entendidos?

– Sim, Senhora. – responde Alak com um leve sorriso no rosto.

Sol’al fica pasmo com a cena. “Ela ficou com medo do ogro?”, se pergunta horrorizado, “Ela é uma clériga de Lolth, não pode ser tão fraca”. O mago fica olhando para ela que caminha até seu guerreiro e o faz guardar sua espada com apenas um gesto. “Não, ela deve estar esperando o momento certo para colocar seu assassino em ação. Assim será uma atitude mais nobre”, justifica a si mesmo Sol’al.

– Com sua permissão para lhe dirigir uma pergunta. Por onde iremos agora, minha Senhora? – pergunta o mago Teken’Th’Tlar de sua forma extremamente humilde à Xorlarrin mudando o assunto em sua mente.

– Pelo que parece nada foi descoberto por vocês até o momento. – começa a responder secamente a clériga – Porém nós conseguimos uma pista a respeito de alguns escravos que fugiram do Braeryn. Possivelmente eles estão envolvidos no culto a Lolth.

Sol’al não consegue acompanhar qual raciocínio a levou a concluir aquilo, mas não a contraria, apenas inclina a cabeça em sinal de entendimento.

– Como a maioria dos escravos que fugiram foram orcs, iremos para a região do Braeryn onde os orcs costumam se reunir. – se intromete o guerreiro Xorlarrin.

– Onde fica isso Mestre Q’Xorlarrin? – pergunta o mago.

– Ao leste, próximo ao extremo do bairro, próximo ao caminho que leva ao dornigaten. – responde o guerreiro após uma rápida olhada ao redor.

Por incrível que pareça o local onde eles se encontram não tem nenhum ser inferior por perto, com exceção de Brum. Sol’al, logo após observar a atitude do guerreiro, olha ao redor para ver se não encontra ninguém escondido antes de responder.

– Não se preocupe, não há ninguém além de nós e do patrulheiro que se aproxima por lá. – diz Alak se incluindo na conversa e apontando para uma viela a sua direita de onde um patrulheiro sai com seu lagarto de montaria.

Sol’al olha para o mercenário com desdém, enquanto o guerreiro Xorlarrin apenas sorri, uma atitude bem estranha aos olhos do mago.

– O que estão fazendo por essa região, senhores? – pergunta o patrulheiro.

– O que lhe interessa macho? – interrompe a clériga segurando sua maça firmemente na mão.

– Desculpe Senhora, não havia visto que uma clériga de Lolth os acompanhava. – se justifica rapidamente o patrulheiro antes que a situação fique pior – Estou fazendo apenas o meu trabalho para poder reportar à Matrona Baenre o que está se passando aqui no Braeryn.

– Estou em missão para descobrir sobre os cultos hereges que ocorrem nesse local. – responde a clériga – Isso é tudo que você precisa saber.

– S-sim, Senhora. – diz o patrulheiro olhando para todos ao seu redor.

Sol’al, satisfeito com as atitudes intimidantes da clériga, pondera: “Ela não vai perguntar se o patrulheiro não ouviu nada a respeito?”.

– Antes que você vá. Você sabe de algo sobre alguns orcs escravos que fugiram de Menzoberranzan? – pergunta o Xorlarrin.

O mago Teken’Th’Tlar estranha a pergunta, mas fica esperando a resposta do patrulheiro que logo vem.

– Ouvi boatos, Senhor, mas nada concreto. – responde de maneira esquiva o patrulheiro.

– O que você ouviu? – o guerreiro prossegue a conversa com um olhar fixo e penetrante em direção ao patrulheiro.

Sol’al apenas se mantém atento:

– Os orcs tiveram grandes perdas durante a insurreição, por isso seu número está tão menor e eles estão tão irritados. Alguns dizem coisas diferentes, mas não sei se é verdade. Dizem que os orcs encontraram alguma passagem, guiados por uma humana, mas nós patrulheiros não descobrimos nada, Senhor. – responde abertamente o patrulheiro para o estranhamento geral do grupo, menos da clériga.

“Interessante”, pensa Sol’al.

– O suficiente. Continue sua patrulha. – comanda o Xorlarrin voltando-se à clériga em alto-drow – Acredito que seja por lá mesmo minha Senhora.

Enquanto o patrulheiro parte e Alak e Brum não compreendem nada do que o guerreiro disse na linguagem nobre, Sol’al apenas escuta.

– Então não vamos perder tempo. – responde a clériga também em alto-drow – Mago, quero você de olho nesses dois mercenários, entendeu?

– Sim minha Senhora. – Sol’al responde mantendo a conversa na mesma linguagem para que os dois mercenários continuem sem compreender.

Enquanto eles iniciam a nova caminhada nas vielas fétidas do Braeryn, o mago Teke’Th’Tlar apenas reflete: “O que eles estão procurando? Com certeza não é o tal culto a Lolth”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 3)

  – Então quer dizer que ela acha que fomos contratados para espioná-la? – pergunta Brum ao seu companheiro drow Alak Sel’Xarann, enquanto caminham por uma viela cheirando urina e carniça no Braeryn, onde chegaram a pouco tempo.

– Isso mesmo, Brum. – responde o eremita mercenário observando seu ambiente, vendo mais a frente um grupo de gnolls conversando. Ele se prepara mentalmente para qualquer eventualidade.

– Até que ela não é tão burra quanto parece. – comenta o imenso ogro.

Alak olha para Brum como se não tivesse escutado direito o que seu companheiro falou.

– O que você disse Brum?

– Sei que você não tem muito a ver com isso, mas como já trabalhamos juntos outras vezes, não vou esconder de você. – responde o ogro incerto de como dizer que os contratos foram diferentes.

– Esconder o que? – Alak pergunta, voltando a olhar para o grupo de gnolls mais a frente que começa a se mexer inquieto com a aproximação dos dois mercenários.

– Eu não fui contratado apenas para protegê-la. – responde Brum como se tivesse falado o suficiente.

O eremita percebe a resposta implícita na frase de seu companheiro e prefere não entrar em detalhes naquele momento, pois os gnolls estão com as armas nas mãos, preparando-se para os interceptar. Eles continuam caminhando na direção do grupo como se nada estivesse ocorrendo, afinal aquele grupo pode ter alguma informação a respeito do culto a Lolth.

– Ainda acho que não é uma boa deixar a clériga e aqueles dois sozinhos. – comenta Alak ao seu companheiro.

– Fazer o que? Foram ordens dela. – responde Brum sorrindo.

– Ainda acho que deveríamos voltar para fazermos nosso papel de guarda-costas.

– Cês diviam memo voltá. Pra num pisarem onde não são bem vindos, drow. – ameaça um dos gnolls do bando.

Alak o analisa antes de encará-lo nos olhos. O gnoll está segurando uma clava e um escudo pequeno. Sua armadura é um trapo de couro batido e seus braceletes são de metais com pequenas lâminas protuberantes.

– Coloque-se no seu lugar, animal. – diz secamente Alak ao gnoll – Ou eu o colocarei.

– Certo! Agora você está agindo como um drow de verdade. – diz seu companheiro ironicamente.

– Brum, poupe-me de seus comentários. – responde o eremita, olhando para o ogro com cara de indignado.

– Mmmm, que coisa. Pensei que a clériga tinha ficado lá pra trás. Acho que me enganei. – comenta Brum rindo e ignorando completamente a presença dos gnolls.

– Prefiro ficar quieto a discutir com um…

– Cês são louco?! Cês invadem nosso território pra ficar discutindo o relacionamento? – o gnoll interrompe Alak.

Ambos os mercenários viram em direção ao gnoll e o encaram. Reflexivamente, o bárbaro dá um passo para trás, tentando não demonstrar ainda mais o pensamento que brota em sua mente “Putz, falei merda”.

– Cê cuida dele, Alak? – pergunta Brum.

O eremita não responde, apenas se vira em direção ao gnoll bárbaro e se aproxima.

– Vamos ver se você entende com quem está falando antes de morrer. – ameaça Alak.

O gnoll parte para cima do drow, enquanto seus companheiros ficam acuados pela presença do imenso ogro. O bárbaro tenta atingir a cabeça do mercenário, mas esse se esquiva com uma agilidade surpreendente e um deslocamento de ar passa próximo ao focinho do gnoll. Os olhos do bárbaro se arregalam ao ver seu braço com a clava cair ao chão, acompanhando o movimento do ataque. Olhando desesperado para seu oponente, o gnoll vê na mão do drow uma espada estranha cheia de sangue.

– Compreendeu? – pergunta o eremita desferindo um golpe certeiro no pescoço do gnoll, que cai ao chão tremendo próximo ao seu próprio braço.

Os outros gnolls seguram suas armas com mãos trêmulas.

– Acho que agora eles estão com mais vontade de cooperar, não acha, Alak? – pergunta Brum se aproximando do grupo de cinco gnolls que tentam manter uma aparência sólida.

– O que vocês sabem a respeito de um culto a Lolth aqui no Braeryn? – Alak vai direto ao assunto enquanto limpa sua espada.

– N-não sa-sabemos de nenhum culto. – responde um dos gnolls.

– Certo. Vou ter que tirar essa informação à força? Já aviso que força é o que não me falta. – ameaça Brum, sorrindo e segurando uma de suas imensas clavas de pedra acorrentadas com uma única mão.

Ao ver aquilo o gnoll treme ainda mais, e outro entra na conversa:

– É verdade, senhor. Nois nunca ouviu falá em nenhum culto a Lolth aqui nesse lugar.

Alak observa o olhar do gnoll e entende que o medo que eles estão sentindo não permitiria que eles mentissem. Com certeza, por pior que seja, eles realmente não sabem de nada.

– Que senhor o que, ô! Eu pareço um drow? – pergunta Brum cinicamente.

– Brum, não é hora de piadas. – diz Alak enquanto Brum ri – Vocês não viram nenhum…

– Pode falar “ser inferior”, eu deixo. – o ogro interrompe o eremita, que o olha severamente.

– Brum!

– Certo. Certo. Parei. – comenta Brum levantando as mãos como se estivesse sendo parado pela guarda da cidade.

– Prosseguindo. – diz Alak, voltando sua atenção para o gnoll – Vocês viram alguém usando alguma insígnia que lembrasse uma aranha?

– Não, senhor. – responde o gnoll balançando a cabeça, com um olhar de medo e espantado com a maneira pela qual os dois mercenários se tratam – é estranho para eles ver um ogro e um drow se tratarem abertamente daquela forma.

– Vamos embora, Brum. Não vamos conseguir nada aqui. – diz Alak se virando para a direção de onde veio.

– Infelizmente. – responde Brum com uma voz decepcionada.

Os gnolls ficam parados enquanto os dois mercenários se afastam. Ambos caminhando lentamente, o drow um tanto mais rápido que o ogro, para poder ficar lado a lado com ele.

– Então você foi contratado para espionar a clériga? – Alak reinicia o assunto.

– Espionar não. Pelo que entendi eu fui contratado para sobreviver e retornar com informações para nosso misterioso contratante. – responde Brum.

– Sobreviver? Essa missão não me parece tão perigosa. – comenta Alak.

– Acho que tem mais coisa por trás disso tudo, Alak. – diz Brum quando o eremita levanta a mão em sinal de silêncio.

Um barulho chamou a atenção do eremita, que rapidamente observa a direção de onde esse veio. Sem muito esforço ele encontra o mago que estava acompanhando a clériga e o guerreiro.

– Você não deveria estar acompanhando a clériga? – pergunta Alak para Sol’al.

– E vocês não deveriam estar conversando menos? – retruca Sol’al secamente – Você é um drow bastante paciente para tolerar esse ogro insolente.

Brum começa a rir, Alak abre um sorriso.

– Certo, maguinho. Você não acha que deveríamos deixar a clériga menos desprotegida? – pergunta Brum rindo.
Sol’al o olha com irritação e desdém.

– Concordo com Brum. A Clériga está sozinha com o guerreiro, em território extremamente hostil. Por que você veio nos seguir ao invés de protegê-la? – acrescenta Alak deixando o sorriso se desfazer em seu rosto.

– Não é de sua conta, mercenário. – Sol’al encara o eremita, mas logo vem em sua mente: “Pare de demonstrar tanta auto-confiança, Sol’al” – Mas vocês estão certos. Não me agrada ter deixado os dois a sós.

Alak levanta uma de suas sobrancelhas.

– Então vamos parar de discutir inutilidades e encontrá-los? – pergunta o eremita.

– Melhor assim. – responde o mago se virando e começando a caminhar na frente dos dois.

Brum e Alak trocam olhares curiosos enquanto caminham seguindo o mago. Brum levanta a ponta do seu nariz achatado com a ponta do indicador. Alak sorri e balança a cabeça, compreendendo o que seu companheiro quis dizer com aquele gesto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 2)

– A situação está complicada, Mirka. Não temos como sair da cidade pelas maneiras convencionais. – diz Sabal Dyrr, ex-clériga da segunda Casa mais poderosa de Menzoberranzan, a uma kobold.

Mirka olha para sua companheira drow com um rosto pensativo.

– Senhora, Quiri foi fazer uma busca pelo Braeryn um pouco antes de você e o Stongest chegarem. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa. – comenta a pequena kobold.

– Até onde eu saiba, todas as passagens conhecidas estão sendo guardadas por patrulhas drows. – diz a clériga apreensiva para sua pequena companheira – E a única que não era conhecida foi descoberta após a insurreição, e agora também tem proteção de guardas da cidade.

No canto da barraca onde o Culto a Lolth Encarnada se encontra escondido, está um gnoll se alimentando com a carne que seus companheiros trouxeram do Bazaar.

– Ouvi falá que tem uns orcs que fugiram pelo Braeryn. – diz o gnoll mastigando um grande pedaço de carne seca.

– Você está se referindo aos que escaparam da Casa Xorlarrin? – pergunta Sabal – Isso foi antes da insurreição, Gromsh. Talvez eles fizessem parte de todo o esquema.

– Não, Senhora. Num tô falando desses não. Tô falando de uns mais recentes. – responde Gromsh engolindo o que estava em sua boca e mordendo outro grande pedaço – Parece que uns orcs e hobgoblins conseguiram fugí da cidade há pouco tempo.

Sabal sorri para o gnoll.

– O que você está dizendo é fato, Gromsh?

– Com certeza, Senhora. Foram contatos confiáveis que me disseram. – responde o gnoll, orgulhoso.
Sabal se levanta da almofada onde estava sentada e caminha até a pequena janela próxima a porta de entrada e saída. Pensativa e concentrada, ela tenta encontrar o guardião meio-goblin lá fora, mas é quase impossível vê-lo quando esse não quer ser visto. Discretamente, a clériga começa a emitir alguns rosnados – por mais estranho que isso tenha soado no início de sua vida com aqueles hereges, atualmente é bem mais natural.

“Stongest. Se estiver tudo calmo ai fora, entre. Precisamos conversar”, diz a clériga na linguagem secreta do culto, logo após virando-se para seus outros dois companheiros.

– Vocês acham que Quiri tem capacidade de encontrar alguma passagem? Isso é, se ela realmente existir. – pergunta Sabal com uma das sobrancelhas erguidas.

– Sinceramente não, minha Senhora. – responde Mirka – Quiri é um goblin muito dedicado, mas não é muito inteligente nem perceptivo.

– Ah! Ele é um goblin. Goblins são estúpidos. – diz Gromsh rindo.

– Eu sou um goblin, G’omsh. Você me acha estúpido? – a voz de Stongest surge como uma invocação, do canto da cabana oposto ao que o gnoll se encontra.

Gromsh coça a cabeça constrangido.

– Cara, não foi bem isso que eu quis dizê. Sabe, você nem é um goblin direito, né? – o gnoll tenta consertar, desviando o olhar dos olhos do pequeno e robusto meio-goblin-meio-algo.

– Eu tenho sangue goblin, po’tanto sou um goblin. – finaliza Stongest, virando-se  para a clériga.

Sabal ri baixo. Gromsh continua coçando a cabeça envergonhado, enquanto Mirka sorri por ver o guardião.

– Já acabaram, crianças? – pergunta a clériga enquanto olha para o goblin que está sério a observando.

– O que você que’ conversa’, Sabal? – pergunta Stongest demonstrando toda sua simpatia.
Sabal ri mais um pouco antes de começar.

– Quiri foi atrás de alguma passagem para fora de Menzoberranzan aqui no Braeryn. O problema é que não confiamos na capacidade dele para encontrá-la, se é que ela existe. – diz a clériga resumindo a conversa.

– Onde estão os out’os fieis? – pergunta Stongest olhando ao redor da barraca.

– Foram conseguí informações com outros das mesmas raças. – responde Gromsh.

– Não acho isso uma boa idéia. Eles são muito inexpe’ientes. – diz o meio-goblin voltando-se para o gnoll.

– Eles foram antes de vocês voltarem, Senhor. Houve alguns poucos boatos a respeito de orcs e robgoblins que conseguiram fugir da cidade através de um túnel que começa aqui no Braeryn. Precisávamos saber de algo. – diz Mirka.

– Ce’to. – comenta Stongest, achando razoável a resposta da kobold.

– Então, Stongest, você poderia ir atrás de Quiri? Mirka irá convocar o resto dos fieis. Creio que todos devem ir conosco em nossa busca pelo filho de Lolth. Concorda? – pergunta Sabal voltando a se sentar em uma almofada, em posição de meditação.

Stongest olha para a clériga, pensativo. Sabal encara a feição séria do meio-goblin e percebe alguns traços bem delicados em seu rosto, apesar de todas as cicatrizes. O olho do meio-goblin tem um formato um pouco ovalado. “Como eu ainda não tinha percebido isso”, pergunta-se a clériga demonstrando surpresa.

– Que foi? – pergunta Stongest – Alguma idéia melho’?

– Nada não, Stongest. Apenas me perdi em pensamentos. – responde Sabal, enquanto sua mente tenta não acreditar naquele detalhe, “Não pode ser, eu devo estar vendo coisas”.

– Eu vou at’ás do Qui’i. – diz o meio-goblin desconcertado com as reações da clériga, sumindo novamente dos olhares de seus companheiros próximo à janela.

– Senhora, quer que eu vá atrás dos outros agora? – pergunta Mirka a clériga.

– Espere um pouco, Mirka. – diz Sabal pensando a respeito – Se você conhecer alguma magia para chamá-los sem precisar sair daqui, acho que seria melhor.

– Não tenho nada semelhante preparado no momento, Senhora. – responde Mirka.

– Então pode ir. Vá com Gromsh, assim vocês podem se separar e procurar mais rapido.

– Sim, Senhora. – responde Mirka indo até a porta – Vamos, Gromsh?

– Vamo sim. – responde o gnoll, limpando os dentes com a unha.

Quando ambos saem pela porta, Sabal se põe a refletir sobre a situação. É interessante ver como sua vida está bem diferente do que ela imaginava quando fugiu de sua Casa. Sempre imaginara que teria que sobreviver sozinha por muito tempo e apenas aos poucos conseguiria lacaios fieis, mas a Do’Urden e Stongest pouparam esforços para ela.

A lealdade desses seres é totalmente estranha a ela, que foi criada dentro da segunda maior Casa da Cidade da Rainha Aranha. Ela não é forjada com o medo, pois qualquer um deles seria capaz de sobreviver sozinho e não se importaria em deixar um traidor para trás. Porém, a lealdade deles é forjada pela Fé – não a fé dela, mas a Fé que Stongest explicou no Bazaar -, o que é muito mais forte do que a lealdade que os escravos tem pelos seus senhores drows. Supondo que tentasse controlar Mirka através do medo, a pequena kobold não a repreenderia, simplesmente sumiria e nunca mais seria vista. “É impressionante a lealdade e liberdade que esses hereges possuem”, pensa consigo mesmo.

Particularmente, Sabal se sente até inferiorizada ao ver as atitudes desses cultistas em relação à falsa-deusa. “Falsa-deusa. Por que me sinto tão vazia quando penso isso?”, ela se pergunta, e sua memória a leva ao seu último encontro com aquele que foi seu professor, seu aliado e seu amante: Mariv.

Sua memória não toca apenas os planos das imagens, seu braço ainda sente o impacto criado quando atingiu o rosto daquele que ela tanto respeitava. “Sem arrependimentos”, comenta para si tentando espantar o pensamento que a aflige. “Você realmente está se tornando uma fraca”, sentencia Sabal a si mesma, mas seus pensamentos surgem como a voz de sua mãe.

Sabal abre os olhos, não há ninguém na barraca. Apenas ela, seus pensamentos e um pequeno ídolo de Lolth. Qual Lolth? A Do’Urden não pode ser a deusa encarnada, pois negligencia aspectos importantes da natureza da Rainha das Aranhas. “Por que Lolth não a puniu até agora por sua heresia?”, se pergunta a clériga. Talvez suas respostas estejam certas, a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos pode ter planejado algo para a falsa-deusa e seus seguidores.

A clériga volta a fechar os olhos para começar a meditação. Nesses últimos tempos a verdadeira Lolth está em silêncio. Sabal não consegue contatá-la, ou melhor, contatar seus servos. Nem consegue comungar com sua deusa através das magias divinas que essa costumava canalizar pelo corpo de suas clérigas. Mas a fé ainda está em seu coração, e Sabal não pretende desistir.

Aos poucos sua mente entra em transe, tentando alcançar um plano superior de consciência para se comunicar com sua divindade. Nada. Apenas silêncio e vazio. Respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca, Sabal se concentra novamente. Sua consciência se expande aos poucos, seus sentidos parecem se ampliar. Dessa vez ela não se sente sozinha, o vazio parece ter se dissipado e uma voz feminina é ouvida ao fundo, de forma indefinida. A clériga se concentra ainda mais para tentar entender o que sua deusa está tentando lhe dizer. Aos poucos a voz parece estar se tornando mais e mais compreensível. Como um soco no estômago Sabal abre seus olhos ao escutar a voz de Lolth Do’Urden em seus ouvidos: “Nós não somos diferentes”.

Com a respiração arfando e as mãos tremendo, a ex-Dyrr olha ao seu redor. Para sua surpresa quem está lá não é a Do’Urden, mas Stongest, com um pequeno goblin ensangüentado no colo. Stongest e Quiri possuem alturas semelhantes, mas pela massa muscular de Stongest, Quiri parece bem menor.

– Stongest? Por que o trouxe para cá? – pergunta Sabal ainda assustada.

– Po’que ele é um de nós. Te’ uma mo’te jogado na ‘ua não é uma mo’te digna de um i’mão de Fé. – responde Songest como se estivesse dizendo o óbvio – T’ouxe ele pa’a você sac’ifica-lo e ele se uni’ a deusa.

– Ele ainda não está morto? – pergunta a clériga vendo o estado deplorável em que se encontra o mirrado goblin.
Quiri está desacordado e com a respiração lenta. Um imenso corte abriu algo como se fosse uma boca em seu estômago, que Stongest parece ter costurado para que ele não morresse no local do incidente. Um dos braços do pequeno goblin estava semidecepado, e novamente Stongest conseguiu retardar a morte de seu “irmão de Fé”, fazendo um torniquete acima do grande corte.

– Não. – responde Stongest secamente.

– Você está trazendo risco ao culto. Uma péssima atitude de um guardião. – censura Sabal com um olhar sério – Ele é descartável. Não precisava ter trazido ele pra cá.

– Já disse que não o t’ouxe pa’a cu’á-lo, mas pa’a da’-lhe uma mo’te mais digna.

– E acabar com o segredo do culto? – pergunta Sabal alterada.

– Não esta’emos mais aqui quando alguém consegui’ encont’a’ uma t’ilha. – responde Stongest a encarando – Todos somos desca’táveis, Sabal, mas nem po’ isso vi’amos as costas uns pa’a os out’os. Se você não quise’ matá-lo ‘itualmente, eu mesmo fa’ei.

Sabal encara o meio-goblin-meio-algo sem compreender direito o que está ocorrendo. “Por que se preocupa tanto com a forma pela qual ele vai morrer?”, se pergunta confusa.

– Mesmo sem entender o que leva você a querer isso, Stongest, eu farei o sacrifício. – diz a clériga.

– Cla’o que você ainda não entende. – diz o guardião ajeitando o pequeno goblin perto do ídolo de Lolth, e preparando algumas ervas que o farão retomar a consciência.

– Se você se preocupa tanto com ele, por que não me deixa curá-lo? Você sabe que eu tenho uma varinha de cura. – retruca Sabal.

– Po’que ele se sac’ificou pa’a p’otege a imagem de nossa deusa. Tudo o que ela ‘epesenta. Não pe’miti’ que ele mo’a é ti’a’ dele toda sua satisfação po’ te’ se sac’ificado po’ aquilo que ele ac’edita. – responde Stongest.

– Então por que você não o deixou lá? – pergunta Sabal achando a resposta do meio-goblin completamente ilógica.

Stongest termina de preparar a loção para Quiri recobrar a consciência, e começa a preparar outra loção para que esse não sinta muita dor nos locais feridos.

– Po’que ele ainda não comp’eendeu. Como você. Pa’a ele Lolth é algo fo’a dele, esse é o momento de fazê-lo senti’ o que Lolth ‘ealmente é. – responde Stongest, de forma séria, mas tranqüila, à sua colega.

Sabal o observa um tanto irritada, pois sabe que o guardião ainda não confia tanto nela quanto ela gostaria. Sempre que esse assunto entra em pauta, a clériga se sente inferiorizada pelo meio-goblin, o que fere seu orgulho drow.

– Você é capaz de faze’ isso? – Stongest desafia Sabal.

Sabal o encara com raiva.

– Com certeza mais capaz do que você. – responde a clériga.

– Ótimo. – diz Stongest sorrindo e finalizando a segunda poção, que ele passa nas feridas do mirrado goblin.

Sabal observa a cena. Ao ver o meio-goblin-meio-algo passar a loção em seu “irmão”, a imagem de Mariv volta em sua mente. “Se a Do’Urden estivesse em meu lugar, ela o teria convencido a vir junto. Ele não precisaria estar morto”, comenta a si mesma. Um sentimento de repúdio a esse pensamento surge em seu peito, “Como você pode estar se tornando tão fraca?!”, repreende-se a clériga.

– Qui’i? Você está me ouvindo? – pergunta Stongest.

O pequeno goblin sorri ao ver o guardião e balança afirmativamente a cabeça. A dor que ele está sentindo é mínima, ignorável.

– Você está p’epa’ado pa’a se junta’ a deusa? – pergunta novamente Stongest, recebendo outra resposta afirmativa com a cabeça.

O meio-goblin se vira em direção a Sabal e solta um curto e baixo rosnado: “Você sabe o que fazer”.

A clériga se aproxima lentamente do pequeno goblin e sente um nervosismo tomar conta de seu corpo. Ela olha para Stongest, que a está encarando. Seu orgulho retorna: “Eu sei o que fazer”, comenta consigo.

– Quiri, você agiu corretamente ao defender nossa deusa, mas perceba que não foi Lolth que você defendeu, e sim a todos nós. Lolth é você, meu irmão. – diz Sabal sem saber julgar se ela estava mentindo ou dizendo a verdade.
Quiri sorri para ela. A clériga crava o punhal de sacrifício no peito miúdo do goblin, que vira seu rosto em direção ao pequeno ídolo de Lolth, e mais uma vez seu sorriso se abre e seus olhos se fecham tranqüilamente enquanto a clériga retira o pequeno coração e o corta em dois, banhando o ídolo com o sangue do goblin.

Sabal fica perplexa com a reação do goblin e encara o corpo inerte.

– Ago’a você ‘ealmente está em nós, i’mão. – diz Stongest curvando-se em direção ao corpo.

A clériga vira-se em direção ao meio-goblin com uma feição curiosa.

– O que você passou nele para não sentir dor?

– Anestesiei apenas os fe’imentos. Ele sentiu tudo o que você fez a ele. – responde Stongest olhando para a porta – Mi’ka e G’omsh chega’am.

Olhando estática para o robusto goblin, ela escuta a porta se abrir e alguns passos de seres entrando. “Você é louco, guardião”, pensa a ex-Dyrr sentindo o vazio retornar ao seu peito, “Espero que um dia eu consiga fazer parte dessa loucura”.

%d blogueiros gostam disto: