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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (parte 4)

            – Então vamos ver quem é a mais poderosa? – Sol’al escuta o que parece ser o final da discussão entre as duas clérigas, vindo em baixo drow da boca da Dyrr.

            Desde que a clériga Xorlarrin chamou a atenção de Alak, as duas clérigas estão discutindo firmemente. Sol’al, do início da discussão até o momento, está apenas observando o embate, sem tomar partido. “Vamos ver quem demonstra mais poder”, observa o mago enquanto reflete qual seria o melhor curso de ação a realizar. Com certeza em sua mente não se passa nenhuma idéia de entrar em confronto com qualquer clériga de Lolth, mas, mesmo assim, ele precisa ser capaz de escolher qual seria mais vantajosa de ter como aliada.

            – Nossa deusa está em silêncio, você sabe disso. – responde a clériga Xorlarrin, obviamente tentando contornar a situação.

            Sol’al sente uma ponta de decepção se misturar com o resto de ansiedade – que ele estava sentindo por ter passado pelo ninho abandonado – ao ver uma atitude medíocre de sua Senhora Xorlarrin.

            – E o que isso importa? Nossa deusa prega a busca por poder, não? Nosso objetivo não é cada vez ser mais poderosas? – inquire a clériga Dyrr, com um olhar ameaçador – Tamanha dependência de suas magias mostra apenas sua fraqueza.

            Sol’al se espanta com o imenso pragmatismo vindo da clériga e sente que seu coração concordou com cada palavra dela e, pelo que ele observa, a Xorlarrin também concordou. Vendo a Dyrr segurar sua maça com a mão direita, Sol’al percebe a Xorlarrin tremendo diante de uma oponente mais forte.

            Por mais que a aparência da Xorlarrin seja mais bela e sedutora, a Dyrr é mais ameaçadora e imponente. O semblante de liderança é facilmente perceptível nessa clériga.

            Sol’al observa a situação esperando uma reação da Xorlarrin, que não surge. Ele olha ao redor para tentar ver o que se passa no semblante de cada um que lá se encontra. Rizzen está apreensivo. “Ele sabe que se sua clériga desistir, será vergonhoso para sua Casa”, conclui mentalmente Sol’al. Alak já percebeu a superioridade da outra clériga e demonstra não estar ligando muito para o embate. O mercenário parece saber que não ocorrerá confronto físico, pois se tivesse alguma chance de ocorrer tal confronto, ele teria que estar preparado para proteger a Xorlarrin. “A não ser que ele quebre seu contrato de proteção. Ou que tenha sido a própria Dyrr que o tenha contratado”, reflete o mago.

            Os inferiores ele nem se preocupa em analisar, mas percebe que todos estão de olho no confronto, menos o goblin musculoso que está na boca do túnel, observando a caverna de onde vem o batuque dos tambores. “O que será que tem naquela caverna?”, se pergunta Sol’al quando sua atenção volta ao embate das servas de Lolth graças a uma forte risada da clériga Dyrr.

            – Patética. – comenta ela, balançando negativamente a cabeça.

            “Arrogante demais para uma líder de um culto herege”, se decepciona Sol’al.

            – Façam o que ela pedir. – diz a clériga Dyrr aos seus companheiros em subterrâneo comum.

            – Como? – o gnoll pergunta – Desculpe, Senhora, mas não entendi o porquê.

            Sol’al olha para a Dyrr, também estupefato.

            – Um confronto com eles seria inútil. Deixe que eles sigam essa tola. – responde ela em goblinóide para o gnoll.

            O mago compreende e resolve esperar para ver. Provavelmente a Xorlarrin irá querer algum tipo de punição para esse grupo e a morte da clériga. Ou talvez não, apenas a morte dos inferiores e a humilhação da herege. “Acho que nem mesmo a Casa Agrach Dyrr se importaria com isso”, comenta Sol’al mentalmente com um sorriso no rosto.

            – Mago, chame o ogro. – ordena a clériga a Sol’al, sem tirar o olho da Dyrr e ainda tremendo – Rápido!

            Sem entender, o mago Teken’Th’Tlar sai correndo em direção a abertura do túnel pelo qual entraram. No caminho, a ordem passa a fazer sentido. “Antes de tentar algo contra o grupo herege, ela parece querer se sentir mais segura. Afinal, o ogro também foi contratado para protegê-la”, raciocina Sol’al, se decepcionando ainda mais com a fraqueza da Xorlarrin. “Se Lolth estivesse ativa…”. Várias possibilidades passam pela mente de Sol’al, e nenhuma muito agradável para a clériga mais fraca.

            – Mercenário! Você está sendo convocado. – grita o mago para Brum, que logo começa a escalar.

            – Virou garoto de recados, maguinho? – pergunta Brum sarcasticamente.

            Ignorando o ogro e sem perder tempo, Sol’al parte de volta para ver se algo está ocorrendo. Ao chegar ele vê a mesma cena, como se nada tivesse mudado. Apenas o goblin musculoso se juntou à roda.

            – Então? O que você vai querer de nós? – pergunta a Dyrr, quebrando o que parecia ser um longo silêncio.

            – Larguem suas armas. – responde a Xorlarrin, ainda com as mãos fraquejando.

            “Até que sua voz está conseguindo esconder o medo e a raiva”, comenta consigo mesmo Sol’al.

            – Façam isso. – ordena a clériga Dyrr aos seus fiéis, com um sorriso no rosto.

            O goblin robusto olha com desconfiança para a clériga de seu culto, mas um olhar confidente por parte dela acaba fazendo com que ele coloque seus machados e sua zarabatana ao chão. A própria clériga Dyrr coloca sua morningstar e seu escudo junto aos machados do goblin e o gnoll deita sua halbert próximo ao monte. Ele espera que a kobold tire algo do seu robe, mas ela nada faz. O mago até pensa em pedir para que a Xorlarrin ordene que a pequena reptiliana jogue fora todos seus componentes mágicos – sim, é perceptível que ela é uma maga ou feiticeira -, mas prefere deixar o culto herege com uma pequena vantagem. Sua lealdade ainda não está tão clara em sua mente, afinal a Dyrr ainda é mais forte que a Xorlarrin, e mais confiante também.

            De trás, o mago escuta os passos ruidosos de Brum. Antes mesmo que esse chegue junto ao grupo a Xorlarrin grita em subterrâneo comum:

            – Ogro, pegue essas armas e cuide delas!

            Sol’al sente a surpresa abrir involuntariamente sua boca. Além de a clériga ter falado diretamente com o inferior, ela ainda utilizou uma língua baixa. “Ela não está com medo, ela está desesperada”, pensa Sol’al. O próprio Brum é pego de surpresa com a ordem e perde alguns segundos raciocinando se o que ele escutou é real.

            Logo que a surpresa passa, Brum vai até o monte de armas e as coloca no grande escudo utilizado pela Dyrr, como em uma bandeja. Porém, ao tentar levantar o escudo, Brum nem mesmo consegue movê-lo, como se tivesse grudado no chão. Sol’al vê a cena e percebe instantaneamente que o escudo é mágico e que a clériga Dyrr já esperava por uma cena semelhante.

            Sem perder tempo, o mago conjura uma magia para detectar objetos mágicos e percebe que não só o escudo o é, mas também os dois machados do goblin e a morningstar da clériga, além da armadura que ela está usando e alguns outros itens que estão em posse dos hereges e dos Xorlarrin. Por curiosidade, Sol’al olha para os mercenários também e reconhece a aura mágica apenas nas espadas de Alak, pois Brum não tem nada mágico com ele.

            “As espadas de Alak… Parecem…”, algo nelas atiça a curiosidade do mago enquanto a conversa ao seu redor prossegue.

            – Deixe o escudo no chão. Pegue as armas. – ordena a Xorlarrin ainda em subterrâneo comum.

            A nova ordem da clériga dispersa a atenção que Sol’al estava colocando sobre a espada de Alak, que ao perceber os olhos do mago em sua direção, escondeu melhor suas duas amigas.

            – Sim, Senhora. – responde Brum, pegando todas as armas no colo e deixando o escudo no chão.

            – Ogro! Qual é seu nome? – pergunta a clériga Dyrr a Brum, fazendo com que Sol’al se espante com a delicadeza da pergunta.

            – Brum. – responde Brum, também espantado.

            – Não fale com ela! – grita a Xorlarrin.

            – Não precisa responder para mim, Brum. Só tenha cuidado com a minha morningstar, pois ela pode te machucar se tocá-la diretamente. – avisa a clériga.

            O olhar da Xorlarrin se enche de ódio pela falta de respeito da Dyrr.

            – Mercenário, cuide deles. – ordena a Xorlarrin a Alak, voltando a conversar em baixo-drow – Diga ao inferior para se afastar da inferior.

            – Sim, Senhora. – responde Alak, enquanto a sua protegida se afasta para a boca do túnel junto com Rizzen. Sol’al os acompanha.

            – Avise-os para não chegar tão próximo da beirada, pois eles podem ser vistos. – Sol’al escuta a Dyrr falar com Alak.

            – Senhora…

            – Não repita o que ela disse. – a Xorlarrin ameaça o mercenário, mas mesmo assim mantém uma certa distância da beirada da boca do túnel.

            Rizzen e ela já estão observando o acampamento quando Sol’al se junta a eles. Ele olha para a grande caverna e vê vários acampamentos. Vários orcs tocando tambores em homenagem a algo. Um draegloth parecendo estar comandando os inferiores. Achando estranho a presença de um draegloth naquele local, o mago se concentra nele e tenta encontrar alguma insígnia ou sinal que denuncie sua Casa. Sol’al não se surpreende quando vê a insígnia dos Xorlarrin segurando a tanga de pele que o meio-abissal usa.

            Com um sorriso de satisfação por ter descoberto parcialmente o que está ocorrendo, Sol’al começa a observar os outros acampamentos. Ele vê orogs, humanos, hobgoblins, goblins, vários de raças inferiores, escravos e livres. O símbolo no centro do acampamento desperta em muito a curiosidade do mago a respeito do que eles estão fazendo naquela caverna, mas quando ele está prestes a se concentrar para decorar os símbolos que estão sendo utilizados, o canto de seu olho prega uma peça.

            “Um drider?”, se pergunta ao ver um vulto passando no acampamento ao lado direito do símbolo. Ele vira-se para ver se é o tal drider aranha espectral que se encontra lá, mas logo ao se virar um estranhamento toma conta de sua mente. Ele vê vários drows tatuados com algo que parecem runas de cor branca, utilizando armaduras que se assemelham a exoesqueletos. Para seu maior assombro, seus olhos se deparam com o drider do qual ele havia visto o vulto. Não é o drider aranha espectral, mas sim um amálgama de drow e escorpião.

            “Por Lolth! O que será isso?”, se pergunta Sol’al, boquiaberto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 1)

“Maldição!”, pragueja mentalmente Alak Sel’Xarann após ser atingido novamente por uma espadada de um dos dois orcs com os quais está lutando. “Foco Alak!”, ordena a si mesmo recordando-se de lições importantes que seu mestre havia lhe passado sobre combates com múltiplos oponentes.

            O esguio mercenário drow esquiva-se de outro golpe desferido por um de seus adversários e atinge precisamente a garganta do outro. O orc ferido se ajoelha e cai ao chão morto com sangue escorrendo pelo seu pescoço. Alak sorri por não ter sido atingido por nenhum respingo, se esquiva novamente de outro ataque desferido pelo outro orc, que continua de pé. O mercenário dá um passo para trás esperando uma nova investida que logo vem. Jogando levemente seu corpo para o lado, Alak utiliza a parte plana de uma de suas espadas para forçar o braço do orc para baixo, enquanto crava a outra espada em suas costas, próximo ao trapézio.

            “Obrigado Vazmaghor”, o mercenário cumprimenta suas espadas enquanto o orc não resiste o ferimento e cai ao chão. Sem perder mais tempo, Alak observa o campo de batalha para ter uma noção de tudo o que está ocorrendo. Um dos magos, um humano, está morto com uma de suas adagas cravadas em seu peito. Dois orcs acabam de morrer por suas afiadas espadas. Mais a frente o Xorlarrin está lutando contra dois guerreiros orcs e um aparente mago ou xamã da mesma raça. A aproximadamente quatro metros a direita do guerreiro, Alak vê a ladina chegando furtivamente para atingir um outro mago humano.

            Alak se prepara para ir a auxílio do guerreiro Xorlarrin, mas percebe de canto de olho que um orc viu a pequena drow se aproximando do mago. Sabendo que não chegaria a tempo para auxiliá-la, o mercenário resolve arremessar suas duas espadas em direção ao orc.

            – Merda! – pragueja em voz alta Alak quando, no momento em que está arremessando sua espada, tropeça em um dos orcs mortos aos seus pés.

            A espada rodopia no ar com grande força, porém, ao invés de atingir o alvo planejado, atinge o peito da pequena ladina, que não resiste o ataque e morre. O mago humano percebe o ataque frustrado do drow e sorri, enquanto o orc que se aproximava da ladina começa a gargalhar.

            Alak sem perder mais tempo saca uma de suas adagas e arremessa no mago, que é atingido de raspão. “Burro!”, pragueja novamente Alak percebendo que aquele não era seu dia. O orc corre em sua direção e o mercenário aparentemente faz o mesmo, mas apenas para pular ao lado do orc e recuperar sua outra espada que está fincada no corpo da pequena ladina. Ele deseja em seu íntimo que o Xorlarrin não tenha visto o incidente.

            O orc para e se vira para enfrentar Alak, que se levanta rapidamente e corta um dos braços de seu oponente antes que esse reagisse. Rapidamente o drow chuta o rosto de seu adversári que cai ao chão, e finaliza cravando uma de suas espadas em seu olho.

Em suas costas Alak sente um calor aumentando e, mesmo tentando sair a tempo do caminho, acaba tendo uma pequena parte do seu corpo queimada pela magia do mago. Normalmente magias não possuem grandes efeitos em Alak, não que ele seja tão resistente quanto Brum, mas sua natureza drow e sua capacidade meditativa conquistada durante os treinamentos com seu mestre eremita, Azirel, o tornaram bem resistentes a investidas arcanas.

            “Esse mago com certeza é experiente, ou eu que não estou conseguindo manter minha mente tranqüila”, comenta e se contra argumenta Alak virando-se para o mago e desferindo uma ombrada em seu oponente, ao mesmo tempo que guarda uma de suas espadas. O mago cai ao chão devido ao impacto e Alak aproveita para atingir o rosto do mago com um potente golpe de mão. O mago fica atordoado, mas não perde a consciência, Alak se irrita e crava a espada no peito do humano.

            Olhando para o lado, o mercenário vê o guerreiro Xorlarrin ainda enfrentando um dos orcs guerreiros e o orc mago. “Todo esse tempo e ele só conseguiu matar um?”, pensa Alak com desdém, mas logo retoma o foco mental para a batalha. Dessa vez ele não deve, ou melhor, não pode cometer erros, seria deveras humilhante para seu nome e para o nome de seu mestre.

            Alak salta tendo em mira o mago, mas esse percebe a aproximação do drow e reage rapidamente recitando palavras de conjuração para disparar um pequeno dardo de ácido. O dardo atinge Alak, mas nada ocorre com ele. Ignorando o fato, Alak desfere um preciso golpe com as pontas de seus dedos – médio e indicador – em um dos braços do orc, que amolece instantaneamente. Aproveitando a pequena distração, ele guarda a outra espada que ainda estava empunhando e antes que o mago consiga reagir antecipadamente, Alak desfere três golpes extremamente rápidos que, para qualquer expectador menos experiente, parece ter sido um golpe e uma pequena ameaça. Porém dessa vez tudo dá certo para o mercenário. O orc sente seu corpo mole e tomba ao chão.

            Sorrindo com o sucesso, Alak vira o rosto para ver se o Xorlarrin deu conta do último orc. O guerreiro está terminando de atingir seu oponente com uma estocada de sua espada curta. Como de costume, ele não utilizou a espada que guarda em suas costas.

            – Não há mais nenhum. – diz o mercenário, quando o Xorlarrin, após eliminar seu adversário, olha ao redor em busca de mais algum – Imobilizei esse orc para vocês poderem interrogá-lo.

            O Xorlarrin sorri.

            – Bom trabalho mercenário. – ele olha em direção a ladina e simplesmente ignora o que vê.

            Alak acha suspeita da atitude do guerreiro, mas simplesmente finge que nada ocorreu. Vai de encontro ao corpo da pequena drow e, vendo que as adagas do mago humano é de um tamanho semelhante ao da lâmina de sua espada, não perde tempo e finca uma no buraco feito pelo péssimo ataque. Ele pega o corpo da drow e carrega enquanto o guerreiro Xorlarrin espera Brum, que caminha para carregar o orc imobilizado.

            A clériga Xorlarrin observa o campo de abatalha de longe, com o mago Sol’al ao seu lado. “Ela quem deve ter enviado Brum para pegar o corpo”, conclui Alak mentalmente enquanto vai em direção a eles.

            – Mago, reviste os corpos dos nossos inimigos. Vê se encontra algo útil para nós. – ordena a clériga. Dessa vez, Alak percebe que o mago não se sentiu contrariado nem ultrajado com a ordem da clériga para fazer trabalhos que seriam normalmente delegados a Brum.

            Alak chega perto da clériga e deixa a ladina mirim aos seus pés.

            – Não foi possível salvá-la. – diz o mercenário à clériga Xorlarrin, que apenas olha com desdém para o corpo da drow antes de perguntar.

            – Foram os orcs?

            – Um dos magos humanos. – responde Alak sem dúvida alguma.

            A Xorlarrin olha para seu guerreiro que confirma positivamente a resposta do mercenário.

            – Deixe-a ai. Interroguem o orc. – comanda a clériga.

            O eremita olha para o Xorlarrin que apenas responde com seu sorriso habitual. “Filho de uma gnoll sarnenta. Está esperando o momento certo para falar o que viu, não é?”, pergunta mentalmente, mas deixa apenas um sorriso de desafio transparecer no seu rosto.

            Ambos se aproximam do corpo do mago orc. O Xorlarrin empunha uma pequena faca de tortura escontida em sua armadura. Alak apenas observa.

            – Orc, onde vocês estão se escondendo? – pergunta o guerreiro, tendo apenas um silêncio como resposta.

            O Xorlarrin sorri e se aproxima do pé de seu prisioneiro. Todo o orc está coberto de sujeira, mas nem chega aos pés da humana gorda que eles encontraram fora da passagem, no Braeryn. Com sua faca, o Xorlarrin inicia uma precisa cirurgia nos pés do orc, em pontos altamente sensíveis, porém não vitais.

            – Por que no pé? Ele precisará andar depois. – questiona Alak considerando a atitude do guerreiro idiota.

            – Há pontos suficientemente sensíveis aqui, além do mais, para que temos o ogro senão para carregar? – responde o Xorlarrin em baixo-drow.

            Alak apenas sorri, não pelo comentário do guerreiro, mas pela covardia dele de não ter dito aquilo em uma linguagem a qual Brum entenderia. O eremita pega uma caixinha que ele guarda em sua humilde vestimenta, retira uma pequena agulha e um fio semelhante a seda, as quais usa para fechar seus ferimentos, pausando de vez enquando para observar o interrogatório.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 4)

            “Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”, um insight vem na mente no mago Sol’al Teken’Th’Tlar em meio ao seu Reverie. “Talvez seja isso”, diz a si mesmo enquanto escuta algumas conversas ao seu redor.

            Por não estar mais escutando nem sentindo a vibração do ronco de Brum, ele acredita que esse esteja fazendo parte da conversa. Atento e tentando aguçar sua audição, Sol’al começa a distinguir os sussurros.

            – Claro que não era pra nós. Eles não sabiam da nossa contratação. – diz o imenso ogro ao seu companheiro de conversa, que facilmente Sol’al percebe ser Alak.

            – É disso que estou falando Brum. Acho que a presença do mago é tão indigesta aos dois quanto a nossa. – comenta Alak tranqüilamente enquanto o ogro segura o riso.

            – De boa Alak, o maguinho nem tem como ser mais indigesto que nós. – comenta ele.

            Sol’al controla sua raiva ainda se mantendo na posição que estava quando entrou em Reverie, esperando que os dois mercenários falem algo que realmente os comprometam. Porém nada surge. Ambos ficam apenas conversando assuntos banais como cerveja, mulheres e táticas de guerra.

            Depois de algum tempo o mago Teken’Th’Tlar volta a escutar o ronco fortemente sonoro de Brum. Até que uma voz masculina chama a atenção de Alak:

            – Descobriu algo mercenário?

            A voz está baixa, mas Sol’al consegue reconhecer como sendo do guerreiro Xorlarrin, pois não teria como ser de outra pessoa; a não ser que mais um “suporte” estivesse por perto.

            – Sim. Há uma outra passagem, mas não me pareceu mais segura que essa. – responde o eremita também com voz baixa.

            – Por que? – questiona o guerreiro.

            – Há orcs e um grupo se digladiando. – responde Alak como se aquilo não importasse.

            – Grupo? – pergunta o guerreiro como se estivesse lendo a mente de Sol’al.

            – Sim, um grupo de seres inferiores liderados por uma clériga de Lolth. Aquilo que teoricamente estamos procurando. – responde cinicamente o eremita.

            “O culto a Lolth?”, se questiona surpreso o mago. A ansiedade começa a tomar conta do corpo de Sol’al, mas esse se controla para não perder a oportunidade de descobrir o que está ocorrendo na missão. O silêncio tomaria conta do local se não fosse pelo ronco do ogro, até que o Xorlarrin retoma a conversa:

            – Você não está procurando nada. Até onde entendi, você e seu amigo foram contratados para protegerem a clériga, correto? – diz secamente o guerreiro.

            – Correto, Mestre Q’Xorlarrin. – responde Alak com reverência.

            Sol’al não escuta resposta, mas acredita piamente que o guerreiro a fez com seu habitual sorriso. A mente do mago se entrega a um turbilhão de pensamentos, aos poucos ele começa a se concentrar para poder refletir de maneira mais coesa. “O culto a Lolth pelos escravos não é a real razão de tudo isso. Isso eu entendi”, comenta consigo mesmo, “Mas qual será o real objetivo dos Xorlarrin? Será que Orghz sabia ao pedir a ajuda da minha Casa? Será que esses dois Xorlarrin realmente se sentem incomodados com a minha presença?”. Enquanto várias questões palpitam na mente do mago, ele escuta Alak chamando o guerreiro Xorlarrin:

            – Mestre Q’Xorlarrin? Temos companhia.

            Sol’al com o olho semi-serrado vê ao longe uma luminosidade claramente mágica e alguns sussurros. “Esses sussurros parecem ser em abissal”, comenta mentalmente enquanto tenta entender direito o que está ocorrendo. “Eles estão refazendo as armadilhas destruídas!”, conclui Sol’al abrindo os olhos e vendo que o Xorlarrin, Alak e a ladina muda não mais estão lá.

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