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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (parte 4)

            – Então vamos ver quem é a mais poderosa? – Sol’al escuta o que parece ser o final da discussão entre as duas clérigas, vindo em baixo drow da boca da Dyrr.

            Desde que a clériga Xorlarrin chamou a atenção de Alak, as duas clérigas estão discutindo firmemente. Sol’al, do início da discussão até o momento, está apenas observando o embate, sem tomar partido. “Vamos ver quem demonstra mais poder”, observa o mago enquanto reflete qual seria o melhor curso de ação a realizar. Com certeza em sua mente não se passa nenhuma idéia de entrar em confronto com qualquer clériga de Lolth, mas, mesmo assim, ele precisa ser capaz de escolher qual seria mais vantajosa de ter como aliada.

            – Nossa deusa está em silêncio, você sabe disso. – responde a clériga Xorlarrin, obviamente tentando contornar a situação.

            Sol’al sente uma ponta de decepção se misturar com o resto de ansiedade – que ele estava sentindo por ter passado pelo ninho abandonado – ao ver uma atitude medíocre de sua Senhora Xorlarrin.

            – E o que isso importa? Nossa deusa prega a busca por poder, não? Nosso objetivo não é cada vez ser mais poderosas? – inquire a clériga Dyrr, com um olhar ameaçador – Tamanha dependência de suas magias mostra apenas sua fraqueza.

            Sol’al se espanta com o imenso pragmatismo vindo da clériga e sente que seu coração concordou com cada palavra dela e, pelo que ele observa, a Xorlarrin também concordou. Vendo a Dyrr segurar sua maça com a mão direita, Sol’al percebe a Xorlarrin tremendo diante de uma oponente mais forte.

            Por mais que a aparência da Xorlarrin seja mais bela e sedutora, a Dyrr é mais ameaçadora e imponente. O semblante de liderança é facilmente perceptível nessa clériga.

            Sol’al observa a situação esperando uma reação da Xorlarrin, que não surge. Ele olha ao redor para tentar ver o que se passa no semblante de cada um que lá se encontra. Rizzen está apreensivo. “Ele sabe que se sua clériga desistir, será vergonhoso para sua Casa”, conclui mentalmente Sol’al. Alak já percebeu a superioridade da outra clériga e demonstra não estar ligando muito para o embate. O mercenário parece saber que não ocorrerá confronto físico, pois se tivesse alguma chance de ocorrer tal confronto, ele teria que estar preparado para proteger a Xorlarrin. “A não ser que ele quebre seu contrato de proteção. Ou que tenha sido a própria Dyrr que o tenha contratado”, reflete o mago.

            Os inferiores ele nem se preocupa em analisar, mas percebe que todos estão de olho no confronto, menos o goblin musculoso que está na boca do túnel, observando a caverna de onde vem o batuque dos tambores. “O que será que tem naquela caverna?”, se pergunta Sol’al quando sua atenção volta ao embate das servas de Lolth graças a uma forte risada da clériga Dyrr.

            – Patética. – comenta ela, balançando negativamente a cabeça.

            “Arrogante demais para uma líder de um culto herege”, se decepciona Sol’al.

            – Façam o que ela pedir. – diz a clériga Dyrr aos seus companheiros em subterrâneo comum.

            – Como? – o gnoll pergunta – Desculpe, Senhora, mas não entendi o porquê.

            Sol’al olha para a Dyrr, também estupefato.

            – Um confronto com eles seria inútil. Deixe que eles sigam essa tola. – responde ela em goblinóide para o gnoll.

            O mago compreende e resolve esperar para ver. Provavelmente a Xorlarrin irá querer algum tipo de punição para esse grupo e a morte da clériga. Ou talvez não, apenas a morte dos inferiores e a humilhação da herege. “Acho que nem mesmo a Casa Agrach Dyrr se importaria com isso”, comenta Sol’al mentalmente com um sorriso no rosto.

            – Mago, chame o ogro. – ordena a clériga a Sol’al, sem tirar o olho da Dyrr e ainda tremendo – Rápido!

            Sem entender, o mago Teken’Th’Tlar sai correndo em direção a abertura do túnel pelo qual entraram. No caminho, a ordem passa a fazer sentido. “Antes de tentar algo contra o grupo herege, ela parece querer se sentir mais segura. Afinal, o ogro também foi contratado para protegê-la”, raciocina Sol’al, se decepcionando ainda mais com a fraqueza da Xorlarrin. “Se Lolth estivesse ativa…”. Várias possibilidades passam pela mente de Sol’al, e nenhuma muito agradável para a clériga mais fraca.

            – Mercenário! Você está sendo convocado. – grita o mago para Brum, que logo começa a escalar.

            – Virou garoto de recados, maguinho? – pergunta Brum sarcasticamente.

            Ignorando o ogro e sem perder tempo, Sol’al parte de volta para ver se algo está ocorrendo. Ao chegar ele vê a mesma cena, como se nada tivesse mudado. Apenas o goblin musculoso se juntou à roda.

            – Então? O que você vai querer de nós? – pergunta a Dyrr, quebrando o que parecia ser um longo silêncio.

            – Larguem suas armas. – responde a Xorlarrin, ainda com as mãos fraquejando.

            “Até que sua voz está conseguindo esconder o medo e a raiva”, comenta consigo mesmo Sol’al.

            – Façam isso. – ordena a clériga Dyrr aos seus fiéis, com um sorriso no rosto.

            O goblin robusto olha com desconfiança para a clériga de seu culto, mas um olhar confidente por parte dela acaba fazendo com que ele coloque seus machados e sua zarabatana ao chão. A própria clériga Dyrr coloca sua morningstar e seu escudo junto aos machados do goblin e o gnoll deita sua halbert próximo ao monte. Ele espera que a kobold tire algo do seu robe, mas ela nada faz. O mago até pensa em pedir para que a Xorlarrin ordene que a pequena reptiliana jogue fora todos seus componentes mágicos – sim, é perceptível que ela é uma maga ou feiticeira -, mas prefere deixar o culto herege com uma pequena vantagem. Sua lealdade ainda não está tão clara em sua mente, afinal a Dyrr ainda é mais forte que a Xorlarrin, e mais confiante também.

            De trás, o mago escuta os passos ruidosos de Brum. Antes mesmo que esse chegue junto ao grupo a Xorlarrin grita em subterrâneo comum:

            – Ogro, pegue essas armas e cuide delas!

            Sol’al sente a surpresa abrir involuntariamente sua boca. Além de a clériga ter falado diretamente com o inferior, ela ainda utilizou uma língua baixa. “Ela não está com medo, ela está desesperada”, pensa Sol’al. O próprio Brum é pego de surpresa com a ordem e perde alguns segundos raciocinando se o que ele escutou é real.

            Logo que a surpresa passa, Brum vai até o monte de armas e as coloca no grande escudo utilizado pela Dyrr, como em uma bandeja. Porém, ao tentar levantar o escudo, Brum nem mesmo consegue movê-lo, como se tivesse grudado no chão. Sol’al vê a cena e percebe instantaneamente que o escudo é mágico e que a clériga Dyrr já esperava por uma cena semelhante.

            Sem perder tempo, o mago conjura uma magia para detectar objetos mágicos e percebe que não só o escudo o é, mas também os dois machados do goblin e a morningstar da clériga, além da armadura que ela está usando e alguns outros itens que estão em posse dos hereges e dos Xorlarrin. Por curiosidade, Sol’al olha para os mercenários também e reconhece a aura mágica apenas nas espadas de Alak, pois Brum não tem nada mágico com ele.

            “As espadas de Alak… Parecem…”, algo nelas atiça a curiosidade do mago enquanto a conversa ao seu redor prossegue.

            – Deixe o escudo no chão. Pegue as armas. – ordena a Xorlarrin ainda em subterrâneo comum.

            A nova ordem da clériga dispersa a atenção que Sol’al estava colocando sobre a espada de Alak, que ao perceber os olhos do mago em sua direção, escondeu melhor suas duas amigas.

            – Sim, Senhora. – responde Brum, pegando todas as armas no colo e deixando o escudo no chão.

            – Ogro! Qual é seu nome? – pergunta a clériga Dyrr a Brum, fazendo com que Sol’al se espante com a delicadeza da pergunta.

            – Brum. – responde Brum, também espantado.

            – Não fale com ela! – grita a Xorlarrin.

            – Não precisa responder para mim, Brum. Só tenha cuidado com a minha morningstar, pois ela pode te machucar se tocá-la diretamente. – avisa a clériga.

            O olhar da Xorlarrin se enche de ódio pela falta de respeito da Dyrr.

            – Mercenário, cuide deles. – ordena a Xorlarrin a Alak, voltando a conversar em baixo-drow – Diga ao inferior para se afastar da inferior.

            – Sim, Senhora. – responde Alak, enquanto a sua protegida se afasta para a boca do túnel junto com Rizzen. Sol’al os acompanha.

            – Avise-os para não chegar tão próximo da beirada, pois eles podem ser vistos. – Sol’al escuta a Dyrr falar com Alak.

            – Senhora…

            – Não repita o que ela disse. – a Xorlarrin ameaça o mercenário, mas mesmo assim mantém uma certa distância da beirada da boca do túnel.

            Rizzen e ela já estão observando o acampamento quando Sol’al se junta a eles. Ele olha para a grande caverna e vê vários acampamentos. Vários orcs tocando tambores em homenagem a algo. Um draegloth parecendo estar comandando os inferiores. Achando estranho a presença de um draegloth naquele local, o mago se concentra nele e tenta encontrar alguma insígnia ou sinal que denuncie sua Casa. Sol’al não se surpreende quando vê a insígnia dos Xorlarrin segurando a tanga de pele que o meio-abissal usa.

            Com um sorriso de satisfação por ter descoberto parcialmente o que está ocorrendo, Sol’al começa a observar os outros acampamentos. Ele vê orogs, humanos, hobgoblins, goblins, vários de raças inferiores, escravos e livres. O símbolo no centro do acampamento desperta em muito a curiosidade do mago a respeito do que eles estão fazendo naquela caverna, mas quando ele está prestes a se concentrar para decorar os símbolos que estão sendo utilizados, o canto de seu olho prega uma peça.

            “Um drider?”, se pergunta ao ver um vulto passando no acampamento ao lado direito do símbolo. Ele vira-se para ver se é o tal drider aranha espectral que se encontra lá, mas logo ao se virar um estranhamento toma conta de sua mente. Ele vê vários drows tatuados com algo que parecem runas de cor branca, utilizando armaduras que se assemelham a exoesqueletos. Para seu maior assombro, seus olhos se deparam com o drider do qual ele havia visto o vulto. Não é o drider aranha espectral, mas sim um amálgama de drow e escorpião.

            “Por Lolth! O que será isso?”, se pergunta Sol’al, boquiaberto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 1)

“Maldição!”, pragueja mentalmente Alak Sel’Xarann após ser atingido novamente por uma espadada de um dos dois orcs com os quais está lutando. “Foco Alak!”, ordena a si mesmo recordando-se de lições importantes que seu mestre havia lhe passado sobre combates com múltiplos oponentes.

            O esguio mercenário drow esquiva-se de outro golpe desferido por um de seus adversários e atinge precisamente a garganta do outro. O orc ferido se ajoelha e cai ao chão morto com sangue escorrendo pelo seu pescoço. Alak sorri por não ter sido atingido por nenhum respingo, se esquiva novamente de outro ataque desferido pelo outro orc, que continua de pé. O mercenário dá um passo para trás esperando uma nova investida que logo vem. Jogando levemente seu corpo para o lado, Alak utiliza a parte plana de uma de suas espadas para forçar o braço do orc para baixo, enquanto crava a outra espada em suas costas, próximo ao trapézio.

            “Obrigado Vazmaghor”, o mercenário cumprimenta suas espadas enquanto o orc não resiste o ferimento e cai ao chão. Sem perder mais tempo, Alak observa o campo de batalha para ter uma noção de tudo o que está ocorrendo. Um dos magos, um humano, está morto com uma de suas adagas cravadas em seu peito. Dois orcs acabam de morrer por suas afiadas espadas. Mais a frente o Xorlarrin está lutando contra dois guerreiros orcs e um aparente mago ou xamã da mesma raça. A aproximadamente quatro metros a direita do guerreiro, Alak vê a ladina chegando furtivamente para atingir um outro mago humano.

            Alak se prepara para ir a auxílio do guerreiro Xorlarrin, mas percebe de canto de olho que um orc viu a pequena drow se aproximando do mago. Sabendo que não chegaria a tempo para auxiliá-la, o mercenário resolve arremessar suas duas espadas em direção ao orc.

            – Merda! – pragueja em voz alta Alak quando, no momento em que está arremessando sua espada, tropeça em um dos orcs mortos aos seus pés.

            A espada rodopia no ar com grande força, porém, ao invés de atingir o alvo planejado, atinge o peito da pequena ladina, que não resiste o ataque e morre. O mago humano percebe o ataque frustrado do drow e sorri, enquanto o orc que se aproximava da ladina começa a gargalhar.

            Alak sem perder mais tempo saca uma de suas adagas e arremessa no mago, que é atingido de raspão. “Burro!”, pragueja novamente Alak percebendo que aquele não era seu dia. O orc corre em sua direção e o mercenário aparentemente faz o mesmo, mas apenas para pular ao lado do orc e recuperar sua outra espada que está fincada no corpo da pequena ladina. Ele deseja em seu íntimo que o Xorlarrin não tenha visto o incidente.

            O orc para e se vira para enfrentar Alak, que se levanta rapidamente e corta um dos braços de seu oponente antes que esse reagisse. Rapidamente o drow chuta o rosto de seu adversári que cai ao chão, e finaliza cravando uma de suas espadas em seu olho.

Em suas costas Alak sente um calor aumentando e, mesmo tentando sair a tempo do caminho, acaba tendo uma pequena parte do seu corpo queimada pela magia do mago. Normalmente magias não possuem grandes efeitos em Alak, não que ele seja tão resistente quanto Brum, mas sua natureza drow e sua capacidade meditativa conquistada durante os treinamentos com seu mestre eremita, Azirel, o tornaram bem resistentes a investidas arcanas.

            “Esse mago com certeza é experiente, ou eu que não estou conseguindo manter minha mente tranqüila”, comenta e se contra argumenta Alak virando-se para o mago e desferindo uma ombrada em seu oponente, ao mesmo tempo que guarda uma de suas espadas. O mago cai ao chão devido ao impacto e Alak aproveita para atingir o rosto do mago com um potente golpe de mão. O mago fica atordoado, mas não perde a consciência, Alak se irrita e crava a espada no peito do humano.

            Olhando para o lado, o mercenário vê o guerreiro Xorlarrin ainda enfrentando um dos orcs guerreiros e o orc mago. “Todo esse tempo e ele só conseguiu matar um?”, pensa Alak com desdém, mas logo retoma o foco mental para a batalha. Dessa vez ele não deve, ou melhor, não pode cometer erros, seria deveras humilhante para seu nome e para o nome de seu mestre.

            Alak salta tendo em mira o mago, mas esse percebe a aproximação do drow e reage rapidamente recitando palavras de conjuração para disparar um pequeno dardo de ácido. O dardo atinge Alak, mas nada ocorre com ele. Ignorando o fato, Alak desfere um preciso golpe com as pontas de seus dedos – médio e indicador – em um dos braços do orc, que amolece instantaneamente. Aproveitando a pequena distração, ele guarda a outra espada que ainda estava empunhando e antes que o mago consiga reagir antecipadamente, Alak desfere três golpes extremamente rápidos que, para qualquer expectador menos experiente, parece ter sido um golpe e uma pequena ameaça. Porém dessa vez tudo dá certo para o mercenário. O orc sente seu corpo mole e tomba ao chão.

            Sorrindo com o sucesso, Alak vira o rosto para ver se o Xorlarrin deu conta do último orc. O guerreiro está terminando de atingir seu oponente com uma estocada de sua espada curta. Como de costume, ele não utilizou a espada que guarda em suas costas.

            – Não há mais nenhum. – diz o mercenário, quando o Xorlarrin, após eliminar seu adversário, olha ao redor em busca de mais algum – Imobilizei esse orc para vocês poderem interrogá-lo.

            O Xorlarrin sorri.

            – Bom trabalho mercenário. – ele olha em direção a ladina e simplesmente ignora o que vê.

            Alak acha suspeita da atitude do guerreiro, mas simplesmente finge que nada ocorreu. Vai de encontro ao corpo da pequena drow e, vendo que as adagas do mago humano é de um tamanho semelhante ao da lâmina de sua espada, não perde tempo e finca uma no buraco feito pelo péssimo ataque. Ele pega o corpo da drow e carrega enquanto o guerreiro Xorlarrin espera Brum, que caminha para carregar o orc imobilizado.

            A clériga Xorlarrin observa o campo de abatalha de longe, com o mago Sol’al ao seu lado. “Ela quem deve ter enviado Brum para pegar o corpo”, conclui Alak mentalmente enquanto vai em direção a eles.

            – Mago, reviste os corpos dos nossos inimigos. Vê se encontra algo útil para nós. – ordena a clériga. Dessa vez, Alak percebe que o mago não se sentiu contrariado nem ultrajado com a ordem da clériga para fazer trabalhos que seriam normalmente delegados a Brum.

            Alak chega perto da clériga e deixa a ladina mirim aos seus pés.

            – Não foi possível salvá-la. – diz o mercenário à clériga Xorlarrin, que apenas olha com desdém para o corpo da drow antes de perguntar.

            – Foram os orcs?

            – Um dos magos humanos. – responde Alak sem dúvida alguma.

            A Xorlarrin olha para seu guerreiro que confirma positivamente a resposta do mercenário.

            – Deixe-a ai. Interroguem o orc. – comanda a clériga.

            O eremita olha para o Xorlarrin que apenas responde com seu sorriso habitual. “Filho de uma gnoll sarnenta. Está esperando o momento certo para falar o que viu, não é?”, pergunta mentalmente, mas deixa apenas um sorriso de desafio transparecer no seu rosto.

            Ambos se aproximam do corpo do mago orc. O Xorlarrin empunha uma pequena faca de tortura escontida em sua armadura. Alak apenas observa.

            – Orc, onde vocês estão se escondendo? – pergunta o guerreiro, tendo apenas um silêncio como resposta.

            O Xorlarrin sorri e se aproxima do pé de seu prisioneiro. Todo o orc está coberto de sujeira, mas nem chega aos pés da humana gorda que eles encontraram fora da passagem, no Braeryn. Com sua faca, o Xorlarrin inicia uma precisa cirurgia nos pés do orc, em pontos altamente sensíveis, porém não vitais.

            – Por que no pé? Ele precisará andar depois. – questiona Alak considerando a atitude do guerreiro idiota.

            – Há pontos suficientemente sensíveis aqui, além do mais, para que temos o ogro senão para carregar? – responde o Xorlarrin em baixo-drow.

            Alak apenas sorri, não pelo comentário do guerreiro, mas pela covardia dele de não ter dito aquilo em uma linguagem a qual Brum entenderia. O eremita pega uma caixinha que ele guarda em sua humilde vestimenta, retira uma pequena agulha e um fio semelhante a seda, as quais usa para fechar seus ferimentos, pausando de vez enquando para observar o interrogatório.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 4)

            “Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”, um insight vem na mente no mago Sol’al Teken’Th’Tlar em meio ao seu Reverie. “Talvez seja isso”, diz a si mesmo enquanto escuta algumas conversas ao seu redor.

            Por não estar mais escutando nem sentindo a vibração do ronco de Brum, ele acredita que esse esteja fazendo parte da conversa. Atento e tentando aguçar sua audição, Sol’al começa a distinguir os sussurros.

            – Claro que não era pra nós. Eles não sabiam da nossa contratação. – diz o imenso ogro ao seu companheiro de conversa, que facilmente Sol’al percebe ser Alak.

            – É disso que estou falando Brum. Acho que a presença do mago é tão indigesta aos dois quanto a nossa. – comenta Alak tranqüilamente enquanto o ogro segura o riso.

            – De boa Alak, o maguinho nem tem como ser mais indigesto que nós. – comenta ele.

            Sol’al controla sua raiva ainda se mantendo na posição que estava quando entrou em Reverie, esperando que os dois mercenários falem algo que realmente os comprometam. Porém nada surge. Ambos ficam apenas conversando assuntos banais como cerveja, mulheres e táticas de guerra.

            Depois de algum tempo o mago Teken’Th’Tlar volta a escutar o ronco fortemente sonoro de Brum. Até que uma voz masculina chama a atenção de Alak:

            – Descobriu algo mercenário?

            A voz está baixa, mas Sol’al consegue reconhecer como sendo do guerreiro Xorlarrin, pois não teria como ser de outra pessoa; a não ser que mais um “suporte” estivesse por perto.

            – Sim. Há uma outra passagem, mas não me pareceu mais segura que essa. – responde o eremita também com voz baixa.

            – Por que? – questiona o guerreiro.

            – Há orcs e um grupo se digladiando. – responde Alak como se aquilo não importasse.

            – Grupo? – pergunta o guerreiro como se estivesse lendo a mente de Sol’al.

            – Sim, um grupo de seres inferiores liderados por uma clériga de Lolth. Aquilo que teoricamente estamos procurando. – responde cinicamente o eremita.

            “O culto a Lolth?”, se questiona surpreso o mago. A ansiedade começa a tomar conta do corpo de Sol’al, mas esse se controla para não perder a oportunidade de descobrir o que está ocorrendo na missão. O silêncio tomaria conta do local se não fosse pelo ronco do ogro, até que o Xorlarrin retoma a conversa:

            – Você não está procurando nada. Até onde entendi, você e seu amigo foram contratados para protegerem a clériga, correto? – diz secamente o guerreiro.

            – Correto, Mestre Q’Xorlarrin. – responde Alak com reverência.

            Sol’al não escuta resposta, mas acredita piamente que o guerreiro a fez com seu habitual sorriso. A mente do mago se entrega a um turbilhão de pensamentos, aos poucos ele começa a se concentrar para poder refletir de maneira mais coesa. “O culto a Lolth pelos escravos não é a real razão de tudo isso. Isso eu entendi”, comenta consigo mesmo, “Mas qual será o real objetivo dos Xorlarrin? Será que Orghz sabia ao pedir a ajuda da minha Casa? Será que esses dois Xorlarrin realmente se sentem incomodados com a minha presença?”. Enquanto várias questões palpitam na mente do mago, ele escuta Alak chamando o guerreiro Xorlarrin:

            – Mestre Q’Xorlarrin? Temos companhia.

            Sol’al com o olho semi-serrado vê ao longe uma luminosidade claramente mágica e alguns sussurros. “Esses sussurros parecem ser em abissal”, comenta mentalmente enquanto tenta entender direito o que está ocorrendo. “Eles estão refazendo as armadilhas destruídas!”, conclui Sol’al abrindo os olhos e vendo que o Xorlarrin, Alak e a ladina muda não mais estão lá.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 2)

            Após cinco explosões mágicas que se alternavam entre cortinas de fogo e tapetes de corrente elétrica, Brum começa a ser ferido pelas armadilhas. Alak Sel’Xarann, após muito dialogar com a clériga Xorlarrin, consegue que eles dêem uma pausa na investida sem planejamento que estavam fazendo. Era claro para ele que a clériga queria que Brum morresse no processo e que ela estava completamente decepcionada com o fato dele ser tão resistente e de sua assassina mirim não ter conseguido ser furtiva o suficiente.

            Depois de ter ultrapassado duas vezes a primeira armadilha, eles decidiram que Brum deveria quebrar o trecho da parede onde as runas estavam desenhadas. Isso provavelmente ativaria a armadilha com força total, mas – fora Alak – ninguém se importava.

            Logo que as primeiras runas foram destruídas, a pequena ladina foi colocada na frente para procurar armadilhas físicas que pudessem estar no local. Assim que essas eram encontradas, ela logo se prontificava em desarmá-las. Observando a relação da clériga e da pequena drow, Alak percebeu que a nobre era “dona” da ladina, pois essa não parecia pertencer a Casa Xorlarrin. Ela teve sua língua amputada, “talvez por falar demais, algo comum entre mercenário ou ladrões pertencentes a alguma guilda”, refletia Alak.

            Como um animalzinho de estimação da clériga Xorlarrin, a pequena drow obedecia todas as ordens e se arriscava o quanto fosse necessário para deixar sua dona feliz. Felizmente para ela, a Xorlarrin não a havia colocado em risco como fez com Brum.

            Cada armadilha mágica que Brum destruía, todos os outros se afastavam para não sofrerem com a explosão. A mediada que iam adentrando mais e mais o túnel as armadilhas ficavam cada vez piores e mais poderosas. O mago Teken’Th’Tlar havia observado de antemão que possivelmente o poder das runas seriam crescente.

            – Acredito que a cada passo que dermos mais adentro da “morada” do demônio, mais poderosas serão as defesas. – disse ele logo após a terceira armadilha.

            Brum resistiu sem nenhum arranhão até a quarta armadilha. Na quinta, não foi possível e Alak decidiu intervir por seu colega mercenário.

            – Sacrificá-lo nessa altura da missão é loucura. Não sabemos o que encontraremos mais à frente. – dizia Alak para o guerreiro Xorlarrin em baixo-drow.

            – Não adianta mercenário, ela não vai mudar de idéia. – respondia ele.

            Não satisfeito com as respostas negativas do guerreiro, Alak foi ter uma conversa com a própria clériga.

            – Você quer mesmo que ele morra agora? – perguntou o eremita à Xorlarrin.

            – Não necessariamente, mas se ocorrer: ótimo. – respondeu ela secamente.

            – E você sabe o que encontraremos por lá? Você conhece o demônio que possivelmente nós encontraremos? – retrucou Alak em tom de desafio.

            – Isso não é da sua conta mercenário. – respondeu a clériga com raiva em sua voz.

            – É da minha conta a partir do momento que fui contratado para protegê-la. Brum é um dos únicos nesse grupo que poderia parar um demônio tempo suficiente para que conseguíssemos sobreviver. – disse Alak como quem diz uma verdade incontestável.

            – Você conhece bem a capacidade de todos no nosso grupo, hein? – respondeu ironicamente a clériga.

            – Não. Não conheço o suficiente, apenas sei que você não tem suas mágias no momento e que a única fonte de magia que possui é uma varinha de cura. Suas armas mágicas serão inúteis em uma luta contra alguém mais hábil que você. – a clériga virou-se em direção a Alak com a fúria fervendo em seu rosto, mas o mercenário prosseguiu – Talvez seu assassino que faz pose de guerreiro pudesse lhe ajudar, mas acredito que o que você sente por ele não é necessariamente confiança. Já sua pequena ladina de estimação não seria capaz nem de causar transtorno a um demônio ou aos servos do mesmo.

            A clériga encarou o mercenário por um tempo, com a respiração ofegante de raiva.

            – Com quem você irá contar, Senhora? – finalizou Alak sem deixar de olhá-la nos olhos.

            Ela gritou em alto-drow – palavras que para o mercenário soaram desconexas -, chamando a atenção de todos do grupo.

            – Senhora, eu não entendo alto-drow. Por favor, fale em baixo-drow. – interpôs Alak.

            Ela respirou fundo e retomou um tom de diálogo, porém sem deixar a raiva de lado:

            – Eu tenho um mago e um ótimo guerreiro ao meu lado. – respondeu a Xorlarrin.

            Alak olhou para o mago que estava próximo a parede analisando as runas e voltou-se para a clériga novamente.

            – Eu acredito que seu assassino seja um ótimo guerreiro, mas o mago é ignorável. – disse ele – Além disso, ele não seria capaz nem de manchar a pele de meu companheiro ogro.

            A Xorlarrin o olhou com um ódio mortal palpitando em todos os seus músculos como se ela fosse um coração.

            – Certo. Pensem em algo, mas saiba que quando terminarmos essa missão irei fazer de tudo para que você morra como um herege, macho. – sentenciou a clériga ao mercenário.

            – Sim, minha Senhora. – respondeu Alak voltando-se rapidamente ao seu companheiro em subterrâneo comum e puxando conversa com a ladina e com o mago.

            Os quatro conversaram a respeito do que fazer em seguida. Alak sabia que atrás deles a clériga e o guerreiro planejavam sua morte, mas ele mantinha sua mente tranqüila, pois enquanto Brum estivesse vivo, ninguém tentaria contra sua vida.

            Em relação às armadilhas, muitas idéias surgiram, mas todas tinham alguma falha. Por fim, eles optaram por aceitar um plano bizarro do mago.

            – Talvez não seja necessário destruir a runa para “desativá-la”, talvez apenas um risco bem feito possa inutilizá-la. – diz ele.

            A pequena ladina comenta, de forma discreta, algo ao Teken’Th’Tlar na linguagem de sinais drow, que Alak não entende.

            – O que você propõe então mago? – pergunta Brum.

            – Vi que você arremessa bem suas facas Alak. – responde Sol’al como se o eremita que tivesse perguntado – Você conseguiria acertar aquela runa lá atrás?

            Alak observa a runa que Sol’al havia apontado a vinte metros de distância e responde:

            – Com certeza.

            O mago explica a todos que aquilo pode dar uma reação em cadeia e todos, menos os dois mercenários, se afastam até próximo da entrada. No momento combinado Alak arremessa dois de seus punhais, um em cada mão, e atinge de forma perfeita as duas runas que formam a armadilha a vinte metros. Logo após ter disparado, Brum o cobre como uma barraca. Fogo e eletricidade os atingiram com força total, Alak acreditou que Brum não sobreviveria. Cada armadilha que ultrapassada pela cortina destrutiva de magia se acionava e somava-se à primeira.

            Após tudo aquilo parar e as magias se desfazerem, Brum se levanta e diz a Alak:

            – Tivemos sorte dessa vez, hein? Se esses loucos continuarem agindo dessa forma morreremos antes deles.

            – Eu sei Brum. – responde Alak com uma certa tristeza na voz.

            O eremita sabe que aquilo é verdade e não gosta da idéia de morrer de forma tão estúpida. Por isso ele tem que pensar rápido e logo algo que parecia uma estratégia palpável veio em sua mente.

            Aproximando-se do grupo ele se dirige a clériga:

            – Senhora, acredito que eu poderia procurar alguma outra passagem enquanto o mago estuda formas de desarmar essas armadilhas sem por em risco o grupo. – diz Alak.

            – E você acha que haverá outra passagem? – pergunta a clériga descrente.

            – Não sei, mas sei que fui treinado nas áreas selvagens do Underdark e se houver outra passagem, sou aquele que pode achá-la. – responde Alak com convicção.

            O guerreiro sorri aprovando a atitude orgulhosa do mercenário, enquanto a clériga apenas o encara:

            – Mago, consiga uma maneira de anular essas armadilhas. Mercenário pode ir atrás da outra passagem, mas antes diga ao seu amigo que fique longe do grupo, para que possamos descansar sem a presença de um inferior contaminando nosso ar. – ordena a clériga.

            Alak faz uma breve reverência e vai conversar com Brumm, que o recebe com as frases já conhecidas: “Ela disse a palavra, não é?” e “Sim, senhor meu mestre”.

            O eremita parte em busca de uma outra passagem no Braeryn ou próxima a ele. De início a busca é nos arredores, pois ele acredita que os orcs não são estúpidos de prepararem duas passagens uma próxima a outra. Porém, para sua surpresa, a outra passagem se encontra à mais ou menos vinte e cinco metros da passagem na qual eles entraram, mas, pelo menos, não é tão óbvia.

            A passagem é pequena e estreita, principalmente para ele, um drow de um metro e noventa de altura. Cuidadosamente o eremita adentra a passagem e não encontra guardas onde acreditava que haveria. Entretanto escuta uma batalha ocorrendo mais a frente do túnel. Era um túnel bem semelhante ao que eles estavam: artificial e com muitas protuberâncias rochosas. A pequena familiaridade facilita para que ele se esconda e assista a luta que ocorre no local. A clériga que ele havia visto conversando com aquilo que parecia um goblin no Bazaar, está lutando habilmente contra dois orcs, ao lado de um gnoll e alguns kobolds e goblins.

            A batalha é ferrenha. Os orcs urram seus gritos de guerra, enquanto os companheiros da clériga gritam: “Por Lolth!”. Alak sorri por ter encontrado o culto, mas o fato deles estarem combatendo os orcs, deixa tudo ainda mais estranho.

            O eremita fica algum tempo observando e refletindo sobre o que via, quando percebe que dois orcs caem sem sinal de ter sido atingidos pelo gnoll, mas com cortes profundos no corpo. Ao prestar atenção ele vê o meio-goblin-meio-algo furtivo e camuflado como um camaleão, andando livremente no campo de batalha e escolhendo a dedo sua vítima e a hora certa de atingi-la.

            Alak sente uma preocupação surgir em sua mente quando o pequeno goblin-coisa olha de canto de olho em sua direção. “Ele sabe que estou aqui”, conclui o eremita partindo o mais rápido possível.

            Não demora muito para que ele chegue ao seu grupo novamente. Pelo que parece, Brum está dormindo mais a frente enquanto o mago estuda seu grimório, enquanto a clériga e o assassino estão em Reverie. A ladina apenas observa a todos; é ela quem está de vigia.

            Alak se senta perto de uma parede, esperando o momento oportuno para se dirigir a clériga ou ao guerreiro. O tempo se passa e o mago também entra em Reverie. Alak diz para a ladina dormir que ele fica na vigília. Ela recusa e ele apenas sorri dizendo:

            – Me chame quando for a minha vez. – se posiciona comodamente e entra em Reverie.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 3)

As vielas dos orcs no Braeryn não é um dos lugares mais agradáveis para se estar ultimamente. Aparentemente um dos poucos focos da insurreição dos escravos se estabeleceu por lá. Algo sinistro parece estar ocorrendo, mas nada evidente. Pelo que Alak Sel’Xarann percebeu, as patrulhas drows evitam aquele lugar, não por medo, mas porque eles têm muito mais o que ganhar agindo dessa maneira, afinal, honestidade nunca foi o forte dos drows e quando surge alguma oportunidade para conseguirem ganhos, não há porque perder a oportunidade.

Desde que chegaram naquele local, o grupo da Xorlarrin está caminhando atento e cuidadosamente. Nenhum orc foi visto até o momento e pelo que o mercenário drow já percebeu e indicou através de sinais toscos – que nada se assemelham a linguagem de sinais de sua raça – ao seu companheiro ogro mago, eles estão sendo vigiados. Ambos caminham na frente, como que para chamar atenção, algo não muito difícil para um imenso ogro e um drow bem maior que a estatura normal da sua raça.

– Alak, estou ouvindo várias pegadas e ruidos subindo as barracas e não são orcs. – sussurra Brum sem desviar seu olhar do caminho que está a sua frente.

– Provavelmente alguns mercenários ou escravos dos orcs. Devem estar subindo nos telhados para nos cercarem com dardos e bestas. – sussurra em resposta o mercenário eremita, também sem fazer menção de que está preocupado com o que ocorre ao seu redor.

Ambos continuam caminhando sem saber o que está ocorrendo com o grupo atrás deles. “Eles continuam nos seguindo”, pensa Alak escutando o tilintar da armadura da clériga, “Espero apenas que não durmam no ponto”. O eremita mantém três adagas de arremesso preparadas em cada mão, enquanto Brum carrega suas clavas de pedra, preparado para entrar em combate a qualquer momento.

– O problema é que não sabemos nem para onde ir. – comenta o ogro sussurrando.

– Apenas temos que encontrar algum orc. – responde Alak também em sussurros quando um assovio corta o ar.

Uma pequena flecha de besta atinge o ombro de Brum, mas nem mesmo consegue penetrar sua pele grossa.

– Acho que os diabinhos resolveram mostrar suas caras. – diz Brum olhando para a direção de onde veio a flecha e encontrando um pequeno goblin preparando a besta novamente.

Alak vira rapidamente para o lado oposto de Brum, a fim de analisar a situação na qual eles se encontram. Seu grupo realmente está logo atrás. O mago está com uma adaga de arremesso preparada em sua mão direita, enquanto o guerreiro Xorlarrin está caminhando em posição defensiva ao seu lado, empunhando uma espada curta, já a clériga está posicionada na frente deles com sua maça e seu escudo médio, caminhando entre as duas divisões. Porém, nenhum deles pareceu ter percebido o ataque contra Brum. Após a rápida olhada em seu grupo o mercenário drow enxerga alguns outros goblins posicionados em telhados, preparando suas zarabatanas e bestas.

Sem perder tempo, o eremita arremessa suas adagas da mão esquerda em direção a dois goblins que estão no mesmo telhado, ao mesmo tempo em que escuta o mago Teken’Th’Tlar dar um aviso ao grupo de trás a respeito dos atiradores. Duas das adagas do mercenário atingem em cheio o pescoço de um dos goblins que cai do telhado aparentemente morto, enquanto a última adaga erra por pouco o segundo alvo.

– Brum! – grita o mercenário chamando a atenção do ogro quando vê que mais goblins estão surgindo em cima das barracas próximas.

O ogro vira seu rosto em direção de Alak que apenas faz o sinal de um círculo e finaliza com um “estouro” de dedos. Brum entendendo logo de imediato segura as compridas correntes de suas grandes clavas de pedra e prepara o corpo para impulsionar um giro.

– Todos abaixem!! – grita Alak pulando ao chão.

A clériga Xorlarrin olha para o mercenário com uma expressão de assombro e raiva, mas não perde tempo em mergulhar. Alak vê atrás da clériga o mago e o guerreiro fazendo o mesmo.

– Mercenário estúpido! – grita a clériga no dialeto drow em meio aos estouros das clavas de Brum atingindo as barracas, feitas de barro e pedra, e as demolindo.

Alak ri consigo mesmo e se vira para ver o estrago causado por seu companheiro ogro. Brum está terminando o segundo giro e parando. Ele balança a cabeça como se quisesse espantar a tontura e olha ao redor para tentar encontrar os goblins atiradores. No meio da fumaça de pó de argila, Alak vê alguns pequenos vultos se levantando e batendo e retirada.

– Boa, Brum. – comenta o eremita levantando-se já com uma de suas espadas em mãos.

– Não há como não ser. – responde Brum com um sorriso no rosto.

– Mercenário! Precisamos de um desses goblins para interrogatório! – grita o mago que está se levantando e limpando suas vestes.

– Faça isso! – grita a clériga em baixo-drow, concordando com o Teken’Th’Tlar.

Alak corre até um goblin perceptivelmente ferido que não conseguiu bater em retirada. O pega pelo cangote e leva até o grupo. O goblin treme desesperado na mão do drow, deixando um rastro de urina pelo caminho.

– Interrogue esse inferior imediatamente e descubra onde estão os orcs! – ordena a clériga em baixo-drow.

Alak a olha rapidamente com uma de suas sobrancelhas levantadas.

– Sim, Senhora. – Alak volta-se em direção ao pequeno goblin que continua tremendo convulsivamente de medo – Onde estão os orcs?

O goblin tenta falar, mas nada sai de sua garganta.

– Ela disse a palavra, não é? – interompe Brum.

– Agora não Brum. – corta Alak, voltando sua atenção novamente ao goblin seca e pausadamente – Responda… onde… estão… os… orcs?

A respiração do pequeno goblin acelera cada vez mais. Esse tenta responder novamente, mas as palavras não saem de sua boca de forma inteligível. Quando algum som semelhante a um “nã” está para sair da boca do goblin, a cabeça desse estoura espalhando pedaços e sangue aos pés dos mercenários que estavam próximos.

– Esse merdinha não ia ajudar em nada. Vamos embora. – diz a clériga Xorlarrin em baixo-drow, limpando sua maça suja com o sangue da criatura.

– Ela falou a palavra de novo, não foi? – pergunta Brum a Alak encarando a clériga.

– Não Brum. Pare com isso. – responde Alak ao seu companheiro.

A Xorlarrin encara o ogro de volta.

– Seu amigo está com algum problema? – a clériga pergunta para Alak ainda em baixo-drow.

– Não Senhora. – responde o eremita na mesma linguagem, logo voltando-se para o ogro em subterrâneo comum – Brum vamos andando.

Brum dá um passo a frente em direção a clériga que se afasta, mas logo se vira de costas e começa a procurar por orcs rindo da reação assustada da clériga.

– Quer que eu ensine alguma lição a ele, Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Não. Ele vai ser útil mais para frente. – responde secamente a clériga.

Alak apenas escuta a breve conversa dos dois e caminha para junto de seu companheiro quando ouve o guerreiro Xorlarrin mais à frente chamando a atenção do grupo.

“Encontrei alguns rastros”, diz ao grupo na linguagem de sinal drow, próximo a algumas barracas não atingidas pelas clavas de Brum.

Alak conhece pouco a linguagem de sinal, mas prefere fingir não conhecê-la e faz de desentendido. Quando a clériga e o mago ultrapassam ele e seu parceiro indo ao encontro do Xorlarrin, eles resolvem seguí-los. O guerreiro está observando algumas marcas no chão, que o eremita reconhece claramente como pegadas de orcs que adentraram aquela barraca.

– Ótimo, já sabemos por onde começar. – diz a clériga em baixo-drow com um sorriso no rosto – Mercenário, abra a porta.

Alak olha para a clériga, inclina levemente a cabeça e responde também em baixo drow:

– Sim, Senhora.

Armadilhas nunca foram o forte do eremita, muito menos em um contexto urbano. Mesmo assim ele prefere gastar um tempo observando a porta em busca de alguma possível ameaça. “Isso não está me cheirando bem”, comenta consigo quando a alguns metros um cântico profano é escutado. Alak para de analisar a porta e se vira para a direção da voz feminina que entoa aquelas silabas distorcidas.

Percebendo que todos do grupo foram pegos de surpresa, o eremita prepara suas duas espadas e tenta focar sua visão em uma figura larga e tremeluzente à pelo menos quinze metros de distância. Analisando o efeuito tremeluzente, Alak percebe que aquilo é causado por uma espécie de aura de calor e que aquele ser nada mais é que uma humana gorda e nua. Ao seu lado ele escuta o mago Teken’Th’Tlar recitando algumas palavras arcanas e vê o guerreiro Xorlarrin correndo em direção a humana.

– Brum, abra a porta enquanto eu os ajudo a enfrentar essa mulher. – diz Alak correndo também em direção da humana.

– Você demorou tudo isso só para abrir uma porta? – Brum ri e dá um forte murro, abrindo a passagem para dentro da barraca.

Alak ignora as risadas do seu companheiro e vê com uma certa distância, do seu lado esquerdo, uma esfera flamejante rolando pelo chão, deixando uma trilha de chamas, indo em direção da mulher que prossegue com seus cânticos. “Parece que o mago está mostrando porquê veio”, comenta mentalmente enquanto prepara para saltar em direção da mulher e arremessar uma de suas espadas.

Quando o momento se aproxima a bola ultrapassa o eremita e o guerreiro Xorlarrin e atinge seu alvo. Uma pequena explosão ocorre, tanto Alak quanto o Xorlarrin conseguem se esquivar de qualquer resíduo, mas assim que olham na direção da humana vêem que nada ocorreu a ela e que o cântico nem mesmo parou.

– Ela possui proteção mágica. – diz o Xorlarrin a Alak no dialeto drow – Atraia a atenção dela que a atacarei por trás.

– Fácil. – responde Alak pegando impulso para saltar e rolar pelo chão na frente da humana.

O salto sai perfeito. Com o próprio deslocamento de seu corpo, Alak rola pelo chão parando agachado em frente a sua adversária e arremessando uma de suas espadas, que acaba sendo desviada por algum vento quente que a circunda. Mesmo assim, a lâmina da espada passa de raspão pelo ombro da humana e abre um profundo corte, mas isso não é o suficiente para tirar-lhe a concentração. “Merda!”, pragueja mentalmente o eremita enquanto um círculo de fogo se levanta ao redor da clériga.

– Brum! Arremessa uma clava! – grita Alak vendo a adaga que parece ser do mago atingindo também de raspão a mulher gorda.

Atrás do círculo o eremita vê o guerreiro caminhando em uma posição estratégica que lhe permitiria atingi-la com um golpe fatal, porém sem conseguir se aproximar. A humana realmente não conseguiu perceber sua aproximação, mas o que ocorre ao seu redor não parece preocupá-la. Ela já havia iniciado outro cântico. Sua voz alcança uma potência preocupante e um brilho flamejante é disparado de sua mão ao mesmo tempo em que uma tora de pedra atinge em cheio a mulher que é arremessada para fora de seu próprio círculo.

Alak consegue se esquivar por pouco do raio flamejante disparado contra ele. Parte de sua armadura de couro batido é queimada no processo, mas sem perder tempo ele se desfaz dela e salta em direção à conjuradora, cravando sua espada em seu peito assim que pousa no chão. Ela ainda tenta segurar o pescoço do eremita, mas logo a espada curta do guerreiro Xorlarrin rasga-lhe a garganta.

O eremita percebe que ela, além de estar nua, é extremamente imunda, cheia de sebo, terra, excrementos. Sentindo nojo ele arranca a espada de seu peito e se afasta. O Xorlarrin também sente nojo e dá um passo para trás.

– Vou pegar minhas armas. – diz Alak como se já tivesse feito seu serviço e se afastando para recuperar sua outra espada e seus punhais arremessáveis.

Enquanto se afasta da humana o mago e a clériga se aproximam, e passam a observar o corpo.

– Ela é uma clériga. – comenta o mago.

– Sim, eu já sabia. – responde a Xolarrin secamente – Mas quem ela venera é que me intriga.

“Se sabia por que não avisou antes, sua puta”, comenta mentalmente Alak sentindo sua raiva ferver.

– Tem uma corrente passando pelo pescoço dela, Senhora. – comenta o mago.

Alak se vira em direção à conversa enquanto pega sua outra espada e vê o guerreiro Xorlarrin arrancando uma corrente com um pequeno pingente e entregando para sua senhora. O rosto da clériga se distorce em fúria, mas ela nada diz, apenas o guarda e faz alguns sinais quase imperceptíveis para seu guerreiro.

– O que seria isso, minha Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Silêncio, macho. Quando eu quiser falar com você assim o farei. – responde rudemente a clériga Xorlarrin partindo junto ao guerreiro para a cabana que Brum havia derrubado a porta.

“Guarde seus segredos enquanto pode clériga”, comenta consigo Alak vendo o rosto contrariado do mago Teken’Th’Tlar por ter acabado de perceber que sua subida na hierarquia de confiança da Xorlarrin havia sido ilusória. Alak apenas sorri e volta a procurar suas adagas.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 1)

Desde que sairam do Bazaar, Sol’al Teken’Th’Tlar desenvolveu uma grande antipatia pelos mercenários, em principal pelo ogro mago chamado Brum. Somada ao último encontro com os dois longe da presença da clériga, essa antipatia cresceu. Entretanto, a situação como um todo não está das melhores.

A clériga é igual à maioria que ele já conheceu, o que não o surpreende. Arrogante, impulsiva e orgulhosa, tudo que se espera de uma serva da Rainha das Aranhas. O que realmente lhe deixa inseguro é, que na hierarquia de confiança da clériga, está claro que ele só está acima dos mercenários, o que não lhe parece tão difícil dada a situação em que os dois se apresentaram. Já Sol’al, foi enviado a pedido de um mago da própria Casa da clériga, não lhe é confortável ser o segundo nessa “hierarquia”.

O guerreiro ou assassino e porta voz da clériga, o qual ele também não sabe o nome, age como se não tivesse nada a esconder. Parece ser um servo fiel e honrado, o que cria um paradoxo na mente do mago. Além de ser um drow, o que já deixa a situação suspeita demais, ele é claramente um assassino aos olhos de Sol’al, e assassinos são tão ou mais traiçoeiros que serpentes. Mesmo assim a clériga possui uma confiança inestimável ao tal guerreiro. Sol’al percebeu o motivo no caminho para o Braeryn, ao se deparar com os olhares desejosos e cheios de luxúria que a clériga mirava no macho Xorlarrin.

“Isso complica muito a minha situação”, reflete Sol’al enquanto escuta o fim da breve discussão que se desenrolava entre o mercenário drow Alak e a clériga Xorlarrin, obviamente através de seu fiel guerreiro.

– Não iremos mais deixar vocês a sós, Senhora. Não insista. Fomos contratados para protegê-la e não conseguiremos fazer isso se continuar nos enviando para longe. – diz o mercenário ao guerreiro logo se voltando a clériga – E, pelo menos, tente parar de se dirigir a mim através de seu macho. É constrangedor.

A clériga fulmina Alak com um olhar cheio de raiva e o guerreiro Xorlarrin posiciona a mão em sua espada curta como se estivesse preparado para alguma ordem de sua senhora. Sol’al os observa. A discussão estava para pegar fogo desde o começo, mas sem a participação do ogro insolente, que ficou quieto o tempo todo, ela se estendeu sem balburdias maiores, até agora. Para o mago sua ação será óbvia se houver algum embate, ele atacará o imenso ogro com uma de suas magias mais destrutivas, para que esse não auxilie o seu companheiro.

– Preste atenção como se dirige a mim macho! Sou uma clériga de Lolth! Ponha-se em seu lugar! – grita a Xorlarrin se aproximando de Alak para desferir-lhe um tapa, quando Brum, como quem não quer nada, apenas dá um passo à frente.

– Desculpe Senhora. – responde Alak se curvando levemente à clériga que olha para o imenso ogro e abaixa a mão, mas sem perder a pose finaliza a discussão:

– Então, estamos entendidos?

– Sim, Senhora. – responde Alak com um leve sorriso no rosto.

Sol’al fica pasmo com a cena. “Ela ficou com medo do ogro?”, se pergunta horrorizado, “Ela é uma clériga de Lolth, não pode ser tão fraca”. O mago fica olhando para ela que caminha até seu guerreiro e o faz guardar sua espada com apenas um gesto. “Não, ela deve estar esperando o momento certo para colocar seu assassino em ação. Assim será uma atitude mais nobre”, justifica a si mesmo Sol’al.

– Com sua permissão para lhe dirigir uma pergunta. Por onde iremos agora, minha Senhora? – pergunta o mago Teken’Th’Tlar de sua forma extremamente humilde à Xorlarrin mudando o assunto em sua mente.

– Pelo que parece nada foi descoberto por vocês até o momento. – começa a responder secamente a clériga – Porém nós conseguimos uma pista a respeito de alguns escravos que fugiram do Braeryn. Possivelmente eles estão envolvidos no culto a Lolth.

Sol’al não consegue acompanhar qual raciocínio a levou a concluir aquilo, mas não a contraria, apenas inclina a cabeça em sinal de entendimento.

– Como a maioria dos escravos que fugiram foram orcs, iremos para a região do Braeryn onde os orcs costumam se reunir. – se intromete o guerreiro Xorlarrin.

– Onde fica isso Mestre Q’Xorlarrin? – pergunta o mago.

– Ao leste, próximo ao extremo do bairro, próximo ao caminho que leva ao dornigaten. – responde o guerreiro após uma rápida olhada ao redor.

Por incrível que pareça o local onde eles se encontram não tem nenhum ser inferior por perto, com exceção de Brum. Sol’al, logo após observar a atitude do guerreiro, olha ao redor para ver se não encontra ninguém escondido antes de responder.

– Não se preocupe, não há ninguém além de nós e do patrulheiro que se aproxima por lá. – diz Alak se incluindo na conversa e apontando para uma viela a sua direita de onde um patrulheiro sai com seu lagarto de montaria.

Sol’al olha para o mercenário com desdém, enquanto o guerreiro Xorlarrin apenas sorri, uma atitude bem estranha aos olhos do mago.

– O que estão fazendo por essa região, senhores? – pergunta o patrulheiro.

– O que lhe interessa macho? – interrompe a clériga segurando sua maça firmemente na mão.

– Desculpe Senhora, não havia visto que uma clériga de Lolth os acompanhava. – se justifica rapidamente o patrulheiro antes que a situação fique pior – Estou fazendo apenas o meu trabalho para poder reportar à Matrona Baenre o que está se passando aqui no Braeryn.

– Estou em missão para descobrir sobre os cultos hereges que ocorrem nesse local. – responde a clériga – Isso é tudo que você precisa saber.

– S-sim, Senhora. – diz o patrulheiro olhando para todos ao seu redor.

Sol’al, satisfeito com as atitudes intimidantes da clériga, pondera: “Ela não vai perguntar se o patrulheiro não ouviu nada a respeito?”.

– Antes que você vá. Você sabe de algo sobre alguns orcs escravos que fugiram de Menzoberranzan? – pergunta o Xorlarrin.

O mago Teken’Th’Tlar estranha a pergunta, mas fica esperando a resposta do patrulheiro que logo vem.

– Ouvi boatos, Senhor, mas nada concreto. – responde de maneira esquiva o patrulheiro.

– O que você ouviu? – o guerreiro prossegue a conversa com um olhar fixo e penetrante em direção ao patrulheiro.

Sol’al apenas se mantém atento:

– Os orcs tiveram grandes perdas durante a insurreição, por isso seu número está tão menor e eles estão tão irritados. Alguns dizem coisas diferentes, mas não sei se é verdade. Dizem que os orcs encontraram alguma passagem, guiados por uma humana, mas nós patrulheiros não descobrimos nada, Senhor. – responde abertamente o patrulheiro para o estranhamento geral do grupo, menos da clériga.

“Interessante”, pensa Sol’al.

– O suficiente. Continue sua patrulha. – comanda o Xorlarrin voltando-se à clériga em alto-drow – Acredito que seja por lá mesmo minha Senhora.

Enquanto o patrulheiro parte e Alak e Brum não compreendem nada do que o guerreiro disse na linguagem nobre, Sol’al apenas escuta.

– Então não vamos perder tempo. – responde a clériga também em alto-drow – Mago, quero você de olho nesses dois mercenários, entendeu?

– Sim minha Senhora. – Sol’al responde mantendo a conversa na mesma linguagem para que os dois mercenários continuem sem compreender.

Enquanto eles iniciam a nova caminhada nas vielas fétidas do Braeryn, o mago Teke’Th’Tlar apenas reflete: “O que eles estão procurando? Com certeza não é o tal culto a Lolth”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 3)

  – Então quer dizer que ela acha que fomos contratados para espioná-la? – pergunta Brum ao seu companheiro drow Alak Sel’Xarann, enquanto caminham por uma viela cheirando urina e carniça no Braeryn, onde chegaram a pouco tempo.

– Isso mesmo, Brum. – responde o eremita mercenário observando seu ambiente, vendo mais a frente um grupo de gnolls conversando. Ele se prepara mentalmente para qualquer eventualidade.

– Até que ela não é tão burra quanto parece. – comenta o imenso ogro.

Alak olha para Brum como se não tivesse escutado direito o que seu companheiro falou.

– O que você disse Brum?

– Sei que você não tem muito a ver com isso, mas como já trabalhamos juntos outras vezes, não vou esconder de você. – responde o ogro incerto de como dizer que os contratos foram diferentes.

– Esconder o que? – Alak pergunta, voltando a olhar para o grupo de gnolls mais a frente que começa a se mexer inquieto com a aproximação dos dois mercenários.

– Eu não fui contratado apenas para protegê-la. – responde Brum como se tivesse falado o suficiente.

O eremita percebe a resposta implícita na frase de seu companheiro e prefere não entrar em detalhes naquele momento, pois os gnolls estão com as armas nas mãos, preparando-se para os interceptar. Eles continuam caminhando na direção do grupo como se nada estivesse ocorrendo, afinal aquele grupo pode ter alguma informação a respeito do culto a Lolth.

– Ainda acho que não é uma boa deixar a clériga e aqueles dois sozinhos. – comenta Alak ao seu companheiro.

– Fazer o que? Foram ordens dela. – responde Brum sorrindo.

– Ainda acho que deveríamos voltar para fazermos nosso papel de guarda-costas.

– Cês diviam memo voltá. Pra num pisarem onde não são bem vindos, drow. – ameaça um dos gnolls do bando.

Alak o analisa antes de encará-lo nos olhos. O gnoll está segurando uma clava e um escudo pequeno. Sua armadura é um trapo de couro batido e seus braceletes são de metais com pequenas lâminas protuberantes.

– Coloque-se no seu lugar, animal. – diz secamente Alak ao gnoll – Ou eu o colocarei.

– Certo! Agora você está agindo como um drow de verdade. – diz seu companheiro ironicamente.

– Brum, poupe-me de seus comentários. – responde o eremita, olhando para o ogro com cara de indignado.

– Mmmm, que coisa. Pensei que a clériga tinha ficado lá pra trás. Acho que me enganei. – comenta Brum rindo e ignorando completamente a presença dos gnolls.

– Prefiro ficar quieto a discutir com um…

– Cês são louco?! Cês invadem nosso território pra ficar discutindo o relacionamento? – o gnoll interrompe Alak.

Ambos os mercenários viram em direção ao gnoll e o encaram. Reflexivamente, o bárbaro dá um passo para trás, tentando não demonstrar ainda mais o pensamento que brota em sua mente “Putz, falei merda”.

– Cê cuida dele, Alak? – pergunta Brum.

O eremita não responde, apenas se vira em direção ao gnoll bárbaro e se aproxima.

– Vamos ver se você entende com quem está falando antes de morrer. – ameaça Alak.

O gnoll parte para cima do drow, enquanto seus companheiros ficam acuados pela presença do imenso ogro. O bárbaro tenta atingir a cabeça do mercenário, mas esse se esquiva com uma agilidade surpreendente e um deslocamento de ar passa próximo ao focinho do gnoll. Os olhos do bárbaro se arregalam ao ver seu braço com a clava cair ao chão, acompanhando o movimento do ataque. Olhando desesperado para seu oponente, o gnoll vê na mão do drow uma espada estranha cheia de sangue.

– Compreendeu? – pergunta o eremita desferindo um golpe certeiro no pescoço do gnoll, que cai ao chão tremendo próximo ao seu próprio braço.

Os outros gnolls seguram suas armas com mãos trêmulas.

– Acho que agora eles estão com mais vontade de cooperar, não acha, Alak? – pergunta Brum se aproximando do grupo de cinco gnolls que tentam manter uma aparência sólida.

– O que vocês sabem a respeito de um culto a Lolth aqui no Braeryn? – Alak vai direto ao assunto enquanto limpa sua espada.

– N-não sa-sabemos de nenhum culto. – responde um dos gnolls.

– Certo. Vou ter que tirar essa informação à força? Já aviso que força é o que não me falta. – ameaça Brum, sorrindo e segurando uma de suas imensas clavas de pedra acorrentadas com uma única mão.

Ao ver aquilo o gnoll treme ainda mais, e outro entra na conversa:

– É verdade, senhor. Nois nunca ouviu falá em nenhum culto a Lolth aqui nesse lugar.

Alak observa o olhar do gnoll e entende que o medo que eles estão sentindo não permitiria que eles mentissem. Com certeza, por pior que seja, eles realmente não sabem de nada.

– Que senhor o que, ô! Eu pareço um drow? – pergunta Brum cinicamente.

– Brum, não é hora de piadas. – diz Alak enquanto Brum ri – Vocês não viram nenhum…

– Pode falar “ser inferior”, eu deixo. – o ogro interrompe o eremita, que o olha severamente.

– Brum!

– Certo. Certo. Parei. – comenta Brum levantando as mãos como se estivesse sendo parado pela guarda da cidade.

– Prosseguindo. – diz Alak, voltando sua atenção para o gnoll – Vocês viram alguém usando alguma insígnia que lembrasse uma aranha?

– Não, senhor. – responde o gnoll balançando a cabeça, com um olhar de medo e espantado com a maneira pela qual os dois mercenários se tratam – é estranho para eles ver um ogro e um drow se tratarem abertamente daquela forma.

– Vamos embora, Brum. Não vamos conseguir nada aqui. – diz Alak se virando para a direção de onde veio.

– Infelizmente. – responde Brum com uma voz decepcionada.

Os gnolls ficam parados enquanto os dois mercenários se afastam. Ambos caminhando lentamente, o drow um tanto mais rápido que o ogro, para poder ficar lado a lado com ele.

– Então você foi contratado para espionar a clériga? – Alak reinicia o assunto.

– Espionar não. Pelo que entendi eu fui contratado para sobreviver e retornar com informações para nosso misterioso contratante. – responde Brum.

– Sobreviver? Essa missão não me parece tão perigosa. – comenta Alak.

– Acho que tem mais coisa por trás disso tudo, Alak. – diz Brum quando o eremita levanta a mão em sinal de silêncio.

Um barulho chamou a atenção do eremita, que rapidamente observa a direção de onde esse veio. Sem muito esforço ele encontra o mago que estava acompanhando a clériga e o guerreiro.

– Você não deveria estar acompanhando a clériga? – pergunta Alak para Sol’al.

– E vocês não deveriam estar conversando menos? – retruca Sol’al secamente – Você é um drow bastante paciente para tolerar esse ogro insolente.

Brum começa a rir, Alak abre um sorriso.

– Certo, maguinho. Você não acha que deveríamos deixar a clériga menos desprotegida? – pergunta Brum rindo.
Sol’al o olha com irritação e desdém.

– Concordo com Brum. A Clériga está sozinha com o guerreiro, em território extremamente hostil. Por que você veio nos seguir ao invés de protegê-la? – acrescenta Alak deixando o sorriso se desfazer em seu rosto.

– Não é de sua conta, mercenário. – Sol’al encara o eremita, mas logo vem em sua mente: “Pare de demonstrar tanta auto-confiança, Sol’al” – Mas vocês estão certos. Não me agrada ter deixado os dois a sós.

Alak levanta uma de suas sobrancelhas.

– Então vamos parar de discutir inutilidades e encontrá-los? – pergunta o eremita.

– Melhor assim. – responde o mago se virando e começando a caminhar na frente dos dois.

Brum e Alak trocam olhares curiosos enquanto caminham seguindo o mago. Brum levanta a ponta do seu nariz achatado com a ponta do indicador. Alak sorri e balança a cabeça, compreendendo o que seu companheiro quis dizer com aquele gesto.

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