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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 1)

            A boca do túnel possui alguns poucos vestígios de teias proporcionais às feitas por grandes aranhas. Olhando rapidamente, Sabal não reconhece de pronto qual tipo de aranha teceu aquelas teias, mas sabe que já faz um tempo considerável pela quantidade de poeira e danos. “Aparentemente não é nenhuma armadilha”, pensa a clériga ainda analisando o local.

            Foi bastante trabalhoso para o grupo de Sabal alcançar o túnel no qual se encontram. Stongest teve que auxiliá-la e a Mirka, pois a distância era considerável, além de o trajeto ser perigoso. Esse foi um dos túneis em que não havia orcs, mas logo ao lado desse – a uns cinco metros de distância – são visíveis os corpos de dois orcs queimados. A distância de onde se encontram e do túnel ao qual se encontravam é de aproximadamente vinte metros, supoz Sabal no momento em que partiram para a escalada. Além do fator distância, havia também o fator altura, que dificultou muito. Os túneis da imensa caverna não eram simétricos, suas alturas eram variadas e para alcançar esse túnel eles tiveram que descer ao mesmo tempo em que se deslocavam de lado pela parede. Por mais difícil que tenha sido, todos eles – Mirka, Gromsh, Stongest e a própria Sabal com sua armadura completa – alcançaram o local desejado.

            “Se forem teias do filho da Do’Urden, seria interessante que descobríssemos qual tipo de aranha forma seu corpo”, reflete Sabal, enquanto observa o interior da caverna. As teias diminuem em quantidade, mas um ou outro vestígio é encontrado. Stongest está um pouco mais a frente, tentando encontrar marcas de alguma criatura que possa estar vivendo ou tenha passado por aquele túnel. Mirka está próxima a Sabal, apenas observando as paredes em busca de runas ou palavras de poder. Já Gromsh, está mais próximo da boca do túnel vigiando qualquer movimentação na imensa caverna.

            – Pelo que pa’ece os o’cs passam po’ aqui com uma ce’ta f’eqüência. – diz Stongest, quebrando o silêncio – Não sou um expe’t em p’ocu’a’ ‘ast’os, mesmo assim consegui encont’a’ alguns.

            Stongest aponta para algumas marcas que estão no chão próximo a eles. Sabal para de observar as teias e se aproxima do meio’goblin.

            – Talvez po’ isso, não há nenhuma a’madilha física po’ aqui. – comenta o pequeno robusto.

            – Então creio que precisamos acelerar nossos passos, ficarmos mais atentos e preparados para nos escondermos a qualquer momento. – diz Sabal, observando atentamente as marcas que, como seu próprio companheiro lhe disse, estão bem óbvias – Talvez estejamos próximos de algum acampamento dos orcs fugitivos de Menzoberranzan.

            – Além disso, há o out’o g’upo. Eles sabem que estamos p’oximos. Como te disse, conve’sei com eles um pouco antes de pa’timos de nosso túnel. – diz Stongest, chamando Gromsh e Mirka com um breve grunhido.

            Um pouco antes de Mirka acordar e após a breve conversa que Stongest teve com Sabal, a clériga sabia que o meio-goblin-meio-algo havia feito uma breve visita ao outro grupo e conversado com um tal de Alak; o mesmo que já os tinha bisbilhotado. Segundo pareceu, os Xorlarrin a princípio estavam atrás do “culto herege de Lolth”, mas haviam “alterado seus planos”. Stongest disse que o tal Alak não pareceu ser de uma Casa nobre e sim tinha um quê de mercenário, o que já era um ponto positivo para Sabal. Além disso, entre eles havia um ogro mago, que como eles já supunham antes, poderia ser um escravo ou um mercenário. Em qualquer uma das opções, era uma vantagem que Sabal poderia aproveitar. Portanto, Sabal não está tão preocupada com o outro grupo como Stongest aparenta estar, pois para ela os orcs são uma preocupação mais imediata.

            – De qualquer forma temos que partir. Mirka, o túnel está seguro magicamente? – pergunta Sabal para a pequena kobold, que já está ao seu lado.

            – Não encontrei nenhuma runa ou inscrição, Senhora. Creio que o local esteja seguro. – responde a kobold confiante, porém Sabal percebe um leve ar de preocupação em seu olhar.

            – Algum problema, Mirka? – pergunta a clériga brandamente, enquanto Stongest e Gromsh começam a caminhar pelo túnel.

            Mirka fica em silêncio por um tempo olhando para o rosto da clériga, que faz sinal para que as duas comecem a caminhar.

            – Suspeitas, minha Senhora. – responde timidamente a kobold, enquanto caminha voltando seu olhar para o chão.

            – Que tipo de suspeitas?

            – Estou com uma sensação estranha. Preocupada com que tipo de criatura possa ter feito esses túneis. – responde Mirka, demonstrando receio em sua voz.

            – Alguma opinião a respeito, Mirka? – Sabal não esconde em nenhum momento sua curiosidade, pois sabe que Mirka deve ser levada a sério.

            – Pode ter sido aquilo que está no lago. Aquela sombra que vimos quando estávamos escalando para esse túnel. – responde Mirka, ponderando sobre suas palavras – Você percebeu como aquela caverna se assemelha a um ovo colossal?

            Sabal levanta uma de suas sobrancelhas e encara Mirka, que está com feições preocupadas. A kobold troca olhares com sua clériga enquanto caminham.

            Caminhando em silêncio, ambas refletem sobre aquilo. “Um ovo”, pensa Sabal. Gromsh prossegue na frente e Stongest diminui seus passos para ficar um pouco mais próximo das duas mulheres do grupo.

            “Conversem nessa linguagem, acho que estamos sendo espionados novamente”, diz o guardião na língua de grunhidos própria do culto.

            Nem Sabal nem Mirka fazem menção dele ter falado com elas e nem mesmo demonstram curiosidade em ver quem está seguindo-os. Mirka olha novamente para Sabal por uns instantes e volta a encarar a frente do caminho.

            “Um ovo colossal. Com uma gema e um imenso ‘filhote de dragão’ descansando em seu centro”, descreve Mirka toda sua impressão sobre o local. Sabal visualiza a caverna e realmente enxerga o mesmo ovo que Mirka descreveu e depois grunhe confirmando a suspeita da kobold. Sabal sente o desejo de prosseguir com a conversa, mas um novo aviso de Stongest sobre um espião a faz adiar a concretização de sua vontade.

            “Alak está aqui”, o rosnado do guardião é extremamente discreto, como um leve ronronar. Se eles não estivessem tão distantes da boca do túnel como estão, talvez a clériga não tivesse ouvido.

            Sabal discretamente respira fundo e pergunta levemente:

            – Então veio se juntar a nós?

            Nenhuma resposta é dada. Sabal sorri e, com o auxílio de um breve ronronar de Stontgest, dizendo onde o drow se encontra, ela mira um breve olhar no local e volta a dirigir sua atenção à sua frente.

            – Não seja tímido, Alak. Como Stongest já lhe disse: nós íamos nos encontrar novamente. – comenta Sabal, tranqüilamente.

            Uma voz sussurrante é escutada vindo de pelo menos quatro metros atrás deles.

            – Você sabe que não vim me juntar a vocês. – responde Alak, tentando não demonstrar frustração em sua voz por ter sido encontrado.

            – Sei, mas espero também que não tenha vindo tentar nos matar. – diz Sabal, mantendo tranqüilidade na voz.

            – Não, mesmo que me mandassem para isso.

            Um pequeno silêncio toma conta do local até Sabal retomar a conversa:

            – Por que está nos seguindo, então?

            – Porque foi isso que minha contratante me pediu. Tudo isso está muito confuso. Minha única curiosidade é saber o que está acontecendo nesse local. – responde Alak, surpreso consigo mesmo por estar tão falante na presença da clériga.

            Em nenhum momento o grupo para de se locomover. Sabal apenas sorri e olha discretamente mais uma vez na direção do mercenário.

            – Algo que os Xorlarrin temem. – blefa Sabal, tendo em mente apenas o que sabe a respeito das fugas dos orcs.

            – Mas o que seria? – pergunta Alak, mantendo o mesmo tom de voz desde o início da conversa.

            Sabal faz menção de iniciar a resposta, mas logo Stongest a interrompe com breves grunhidos avisando que mais um está seguindo o grupo. Outro drow. Sabal volta sua atenção para frente novamente apenas dizendo suavemente:

            – Acho que não confiam tanto em você. Parece que você tem companhia.

            Alak não responde, apenas olha para trás tentando encontrar alguém, mas não encontra nada. Suspeitando que seja o Xorlarrin, prefere ficar em silêncio, fingindo ainda não ter sido descoberto.

            A ex-clériga Dyrr continua tranqüila em seu caminho, pois sabe que o guardião dificilmente é pego de surpresa. Gromsh para mais a frente e, sabendo que estão sendo seguidos – por ter escutado os avisos de Stongest e parte da conversa de Sabal -, fala como se nada estivesse acontecendo, para não levantar suspeita sobre o conhecimento do grupo a respeito dos espiões.

            – Chegamo num ponto delicado, Senhora. – diz o gnoll, olhando na direção da clériga, que aperta um pouco o passo para ver sobre o que seu companheiro está falando.

            Chegando perto do gnoll, a clériga se depara com a boca de um túnel que acaba em uma pequena caverna, após um degrau causado por uma leve depressão. No chão dessa pequena caverna há um tapete de teia, enquanto no teto há alguns casúlos pendurados e nas paredes duas bocas de túneis: uma adiante e uma ao lado direito da caverna.

            – É. Acho que encontramos o ninho do filho de Lolth. – comenta a clériga.

            Stongest e Mirka se aproximam. Ambos começam a analisar o local, enquanto Sabal apenas observa e reflete. Gromsh aguça seus ouvidos, como se tivesse escutado algum som estranho.

            E quanto a Alak… Esse apenas se espanta e se pergunta: “Filho de Lolth?”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 2)

– Você se p’eocupa demais Sabal. – diz o meio-goblin-meio-algo a ex-clériga da Segunda Casa Maior de Menzoberranzan – Fiz o se’viço di’eito quando t’ouxe o Qui’i p’a cá.

– Confio em você Stongest, mas temos que planejar logo o que fazer, pois já perdemos tempo demais para ir em busca do filho de Lolth. – responde Sabal Dyrr ao Guardião.

Todos os cultistas da Lolth encarnada se encontram na barraca junto ao guardião e a clériga. Mirka e Gromsh estão posicionados de forma que fique mais fácil para eles participarem do planejamento, enquanto três goblins arrumam os mantimentos em mochilas diferentes e dois kobolds guardam os objetos sagrados de Lolth; um pequeno ídolo, um tufo de cabelo da primeira clériga – Vishnara Do’Urden – e uma pequena aranha de adamantina.

– Sabendo que Quiri conseguiu descobrir uma passagem para fora da cidade, já facilita muito para nós. – diz Sabal.

Logo que Gromsh e Mirka chegaram da busca pelos outros seguidores da deusa encarnada, Stongest contou a Sabal exatamente como Quiri havia sido atacado. O pequeno e mirrado goblin havia encontrado uma das possíveis passagens utilizadas pelos orcs, porém furtividade nunca foi o forte de Quiri. Os orcs que guardavam o local atacaram Quiri, mas Stongest conseguiu salvá-lo a tempo. Para os orcs, Quiri simplesmente sumiu diante de seus olhos.

– O problema é que eles cultuam algum demônio, e isso pode vir a ser um grande empecilho. – complementa a clériga, colocando todos a par da informação que Quiri conseguiu e Stongest havia passado a ela – Precisamos ultrapassar a área controlada por esse culto, sem sermos vistos.

– Acho que isso não será problema, posso preparar apenas magias que auxiliem em nossa furtividade, Senhora. Mas precisaria de um tempo para descansar. – diz a pequena maga kobold Mirka.

– Creio que no momento não temos tempo para isso Mirka. Precisamos sair ainda hoje. – responde a cleriga olhando para os kobolds que estão guardando as relíquias como se refletisse a respeito de tudo o que estava ocorrendo.

– Não acho que temos que te’ tanta p’essa, Sabal. – diz Stongest chamando a atenção da clériga para ele – Ac’edito que a Mi’ka possa te’ um tempo pa’a descansa’ e pa’ti’mos logo que ela estive’ p’epa’ada.

– Sinceramente não concordo Stongest, já disse que estamos perdendo tempo demais. Talvez essas horas de descanso que a Mirka necessita seja o suficiente para as patrulhas descobrirem a passagem que Quiri descobriu. – opina a clériga claramente preocupada.

– Concordo. Afinal, se Quiri acho num deve sê difícil otro achá. – comenta Gromsh.

Stongest olha sério para seu companheiro gnoll:

– Qui’i fez um bom t’abalho, G’omsh. Muito melho’ do que todos espe’ávamos. – retruca o meio-goblin.

– Dexa disso. Foi só um comentário. – se defende Gromsh enquanto Stongest esboça aquilo que parece ser um sorriso.

– Não se p’eocupe. Apenas não acho ce’to esse tipo de comentá’io sob’e alguém que se sac’ificou po’ nossa causa. – diz Stongest tentando ser simpático.

– Por favor, sabemos que Quiri fez um trabalho ótimo, mas precisamos planejar o que iremos fazer com o que ele descobriu. Vamos voltar ao assunto? – diz Sabal tentando fazer com que seus dois companheiros retomem o foco do início da conversa.

– Isso é um tanto problemático mesmo, Senhora. Talvez não seja muito sabio de nossa parte utilizarmos nosso tempo para que eu decore algumas magias no momento. – diz humildemente Mirka à clériga – Ainda consigo fazer algumas poucas magias antes da minha mente ficar exausta. Acho que pode ser o suficiente para adentrarmos a passagem.

– A minha pe’gunta é: como você p’etende se’ fu’tiva com sua a’madu’a, Sabal? – pergunta o meio-goblin, questionando o plano.

Sabal o encara refletindo a respeito do que ele acabou de perguntar.

– Mirka? – a clériga volta à kobold como se estivesse pedindo auxílio.

– No momento não seria capaz de ajudá-la, Senhora. Utilizei todo meu conhecimento desse tipo de magia trazendo nossos companheiros para cá. Minha mente não consegue mais se focar nesse conhecimento no momento, precisaria realmente reler meu grimório e descansar. – responde Mirka tristemente.

Sabal sorri para Stongest:

– Acho que você tem razão guardião. – se rende Sabal.

– Mas por que não podemos ir de peito aberto, Senhora? Temos que nos escondê mesmo? – pergunta Gromsh.

– Chamaria muita atenção Gromsh. – responde Sabal.

– Mas e as patrulhas? E se descobrirem a passagem? – Gromsh emenda outra pergunta logo após a resposta da clériga.

– Ai teremos que passar por eles. – responde a clériga ao gnoll.

– Ou talvez possamos atrasar esse acontecimento. – diz Mirka olhando para a clériga.

Sabal sorri para a kobold compreendendo o que ela quis dizer e volta o seu olhar para Gromsh e Stongest.

– Gromsh, me responda uma coisa: como anda sua capacidade de arranjar encrenca sem se envolver diretamente? – pergunta a ex-Dyrr ao seu companheiro gnoll.

– Cada veiz melhor, Senhora. – responde o gnoll sorrindo com seus caninos amarelos e afiados aparecendo no canto de sua boca.

– Stongest? Você o acompanharia? – pergunta a clériga ao guardião.

Stongest olha para ela e para Mirka, como se refletisse a respeito do que elas estão sugerindo.

– Você que’em uma confusão? – pergunta o meio-goblin.

Mirka sorri em resposta, Sabal apenas inclina a cabeça afirmativamente.

– Vocês te’ão. – complementa Stongest.

– Mas precisamos que vocês não estejam diretamente envolvidos, não queremos chamar atenção, lembra? – comenta Sabal.

– Eu sei cle’iga. Já disse, não se p’eocupe.

Stongest se levanta e se prepara enquanto Mirka abre seu grimório e se põe a estudar.

– Faz tempo que não me divirto. – comenta Gromsh rindo – Finalmente vou colocá a capacidade do anel a prova, Mirka.

Mirka olha para seu companheiro gnoll e sorri. Sabal se levanta da almofada e caminha até Stongest, sussurrando em seu ouvido:

– Cuide de Gromsh. Não deixe que ele cometa nenhuma falha.

– Sou o gua’dião, Sabal. Eu entendi o po’quê você quis me manda’ junto. – responde Stongest com sua maneira confiante habitual.

– Sua dedicação me tranqüiliza Stongest. – comenta Sabal sorrindo para o meio-goblin, que devolve o sorriso da forma mais simpática que consegue.

Stongest chama Gromsh com um breve rosnado. O gnoll caminha para a porta junto ao meio-goblin e ambos saem para as vielas do Braeryn. Sabal realmente se sente mais tranqüila ao ver que Stongest está acompanhando o gnoll. “Gromsh é um ótimo e fiel guerreiro, mas infelizmente nunca foi um gênio”, comenta mentalmente a clériga caminhando para uma almofada a fim de iniciar uma meditação.

– Senhora, não consigo mexer seu escudo. – diz um dos kobolds que após arrumarem as relíquias agora estão arrumando os pertences de seus companheiros.

Sabal sorri:

– Não se preocupe Rashna, eu o pegarei quando formos partir.

Mesmo confusa, a kobold concorda e caminha a uma das almofadas para descansar após os serviços terem sido finalizados.

“Se Lolth não tivesse em silêncio, tudo seria mais fácil”, pensa Sabal, “Ou se pelo menos a Do’Urden realmente fosse uma deusa”. Sabal se sente ultrajada por pensar assim e balança sua cabeça negativamente, “Mariv se sentiria envergonhado de me ver pensado nisso”, novamente o pensamento lhe faz balançar a cabeça negativamente, “Que importa o que ele pensaria?”. A cleriga respira fundo, “Não posso criar dependências a forças e coisas externas”, Sabal sorri, “Chega a ser irônico encontrar outros que realmente pensam assim em um grupo de hereges”. A clériga se põe a meditar com a leve sensação de conforto que a identificação com o grupo trouxe a sua mente.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 3)

  – Então quer dizer que ela acha que fomos contratados para espioná-la? – pergunta Brum ao seu companheiro drow Alak Sel’Xarann, enquanto caminham por uma viela cheirando urina e carniça no Braeryn, onde chegaram a pouco tempo.

– Isso mesmo, Brum. – responde o eremita mercenário observando seu ambiente, vendo mais a frente um grupo de gnolls conversando. Ele se prepara mentalmente para qualquer eventualidade.

– Até que ela não é tão burra quanto parece. – comenta o imenso ogro.

Alak olha para Brum como se não tivesse escutado direito o que seu companheiro falou.

– O que você disse Brum?

– Sei que você não tem muito a ver com isso, mas como já trabalhamos juntos outras vezes, não vou esconder de você. – responde o ogro incerto de como dizer que os contratos foram diferentes.

– Esconder o que? – Alak pergunta, voltando a olhar para o grupo de gnolls mais a frente que começa a se mexer inquieto com a aproximação dos dois mercenários.

– Eu não fui contratado apenas para protegê-la. – responde Brum como se tivesse falado o suficiente.

O eremita percebe a resposta implícita na frase de seu companheiro e prefere não entrar em detalhes naquele momento, pois os gnolls estão com as armas nas mãos, preparando-se para os interceptar. Eles continuam caminhando na direção do grupo como se nada estivesse ocorrendo, afinal aquele grupo pode ter alguma informação a respeito do culto a Lolth.

– Ainda acho que não é uma boa deixar a clériga e aqueles dois sozinhos. – comenta Alak ao seu companheiro.

– Fazer o que? Foram ordens dela. – responde Brum sorrindo.

– Ainda acho que deveríamos voltar para fazermos nosso papel de guarda-costas.

– Cês diviam memo voltá. Pra num pisarem onde não são bem vindos, drow. – ameaça um dos gnolls do bando.

Alak o analisa antes de encará-lo nos olhos. O gnoll está segurando uma clava e um escudo pequeno. Sua armadura é um trapo de couro batido e seus braceletes são de metais com pequenas lâminas protuberantes.

– Coloque-se no seu lugar, animal. – diz secamente Alak ao gnoll – Ou eu o colocarei.

– Certo! Agora você está agindo como um drow de verdade. – diz seu companheiro ironicamente.

– Brum, poupe-me de seus comentários. – responde o eremita, olhando para o ogro com cara de indignado.

– Mmmm, que coisa. Pensei que a clériga tinha ficado lá pra trás. Acho que me enganei. – comenta Brum rindo e ignorando completamente a presença dos gnolls.

– Prefiro ficar quieto a discutir com um…

– Cês são louco?! Cês invadem nosso território pra ficar discutindo o relacionamento? – o gnoll interrompe Alak.

Ambos os mercenários viram em direção ao gnoll e o encaram. Reflexivamente, o bárbaro dá um passo para trás, tentando não demonstrar ainda mais o pensamento que brota em sua mente “Putz, falei merda”.

– Cê cuida dele, Alak? – pergunta Brum.

O eremita não responde, apenas se vira em direção ao gnoll bárbaro e se aproxima.

– Vamos ver se você entende com quem está falando antes de morrer. – ameaça Alak.

O gnoll parte para cima do drow, enquanto seus companheiros ficam acuados pela presença do imenso ogro. O bárbaro tenta atingir a cabeça do mercenário, mas esse se esquiva com uma agilidade surpreendente e um deslocamento de ar passa próximo ao focinho do gnoll. Os olhos do bárbaro se arregalam ao ver seu braço com a clava cair ao chão, acompanhando o movimento do ataque. Olhando desesperado para seu oponente, o gnoll vê na mão do drow uma espada estranha cheia de sangue.

– Compreendeu? – pergunta o eremita desferindo um golpe certeiro no pescoço do gnoll, que cai ao chão tremendo próximo ao seu próprio braço.

Os outros gnolls seguram suas armas com mãos trêmulas.

– Acho que agora eles estão com mais vontade de cooperar, não acha, Alak? – pergunta Brum se aproximando do grupo de cinco gnolls que tentam manter uma aparência sólida.

– O que vocês sabem a respeito de um culto a Lolth aqui no Braeryn? – Alak vai direto ao assunto enquanto limpa sua espada.

– N-não sa-sabemos de nenhum culto. – responde um dos gnolls.

– Certo. Vou ter que tirar essa informação à força? Já aviso que força é o que não me falta. – ameaça Brum, sorrindo e segurando uma de suas imensas clavas de pedra acorrentadas com uma única mão.

Ao ver aquilo o gnoll treme ainda mais, e outro entra na conversa:

– É verdade, senhor. Nois nunca ouviu falá em nenhum culto a Lolth aqui nesse lugar.

Alak observa o olhar do gnoll e entende que o medo que eles estão sentindo não permitiria que eles mentissem. Com certeza, por pior que seja, eles realmente não sabem de nada.

– Que senhor o que, ô! Eu pareço um drow? – pergunta Brum cinicamente.

– Brum, não é hora de piadas. – diz Alak enquanto Brum ri – Vocês não viram nenhum…

– Pode falar “ser inferior”, eu deixo. – o ogro interrompe o eremita, que o olha severamente.

– Brum!

– Certo. Certo. Parei. – comenta Brum levantando as mãos como se estivesse sendo parado pela guarda da cidade.

– Prosseguindo. – diz Alak, voltando sua atenção para o gnoll – Vocês viram alguém usando alguma insígnia que lembrasse uma aranha?

– Não, senhor. – responde o gnoll balançando a cabeça, com um olhar de medo e espantado com a maneira pela qual os dois mercenários se tratam – é estranho para eles ver um ogro e um drow se tratarem abertamente daquela forma.

– Vamos embora, Brum. Não vamos conseguir nada aqui. – diz Alak se virando para a direção de onde veio.

– Infelizmente. – responde Brum com uma voz decepcionada.

Os gnolls ficam parados enquanto os dois mercenários se afastam. Ambos caminhando lentamente, o drow um tanto mais rápido que o ogro, para poder ficar lado a lado com ele.

– Então você foi contratado para espionar a clériga? – Alak reinicia o assunto.

– Espionar não. Pelo que entendi eu fui contratado para sobreviver e retornar com informações para nosso misterioso contratante. – responde Brum.

– Sobreviver? Essa missão não me parece tão perigosa. – comenta Alak.

– Acho que tem mais coisa por trás disso tudo, Alak. – diz Brum quando o eremita levanta a mão em sinal de silêncio.

Um barulho chamou a atenção do eremita, que rapidamente observa a direção de onde esse veio. Sem muito esforço ele encontra o mago que estava acompanhando a clériga e o guerreiro.

– Você não deveria estar acompanhando a clériga? – pergunta Alak para Sol’al.

– E vocês não deveriam estar conversando menos? – retruca Sol’al secamente – Você é um drow bastante paciente para tolerar esse ogro insolente.

Brum começa a rir, Alak abre um sorriso.

– Certo, maguinho. Você não acha que deveríamos deixar a clériga menos desprotegida? – pergunta Brum rindo.
Sol’al o olha com irritação e desdém.

– Concordo com Brum. A Clériga está sozinha com o guerreiro, em território extremamente hostil. Por que você veio nos seguir ao invés de protegê-la? – acrescenta Alak deixando o sorriso se desfazer em seu rosto.

– Não é de sua conta, mercenário. – Sol’al encara o eremita, mas logo vem em sua mente: “Pare de demonstrar tanta auto-confiança, Sol’al” – Mas vocês estão certos. Não me agrada ter deixado os dois a sós.

Alak levanta uma de suas sobrancelhas.

– Então vamos parar de discutir inutilidades e encontrá-los? – pergunta o eremita.

– Melhor assim. – responde o mago se virando e começando a caminhar na frente dos dois.

Brum e Alak trocam olhares curiosos enquanto caminham seguindo o mago. Brum levanta a ponta do seu nariz achatado com a ponta do indicador. Alak sorri e balança a cabeça, compreendendo o que seu companheiro quis dizer com aquele gesto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 2)

– A situação está complicada, Mirka. Não temos como sair da cidade pelas maneiras convencionais. – diz Sabal Dyrr, ex-clériga da segunda Casa mais poderosa de Menzoberranzan, a uma kobold.

Mirka olha para sua companheira drow com um rosto pensativo.

– Senhora, Quiri foi fazer uma busca pelo Braeryn um pouco antes de você e o Stongest chegarem. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa. – comenta a pequena kobold.

– Até onde eu saiba, todas as passagens conhecidas estão sendo guardadas por patrulhas drows. – diz a clériga apreensiva para sua pequena companheira – E a única que não era conhecida foi descoberta após a insurreição, e agora também tem proteção de guardas da cidade.

No canto da barraca onde o Culto a Lolth Encarnada se encontra escondido, está um gnoll se alimentando com a carne que seus companheiros trouxeram do Bazaar.

– Ouvi falá que tem uns orcs que fugiram pelo Braeryn. – diz o gnoll mastigando um grande pedaço de carne seca.

– Você está se referindo aos que escaparam da Casa Xorlarrin? – pergunta Sabal – Isso foi antes da insurreição, Gromsh. Talvez eles fizessem parte de todo o esquema.

– Não, Senhora. Num tô falando desses não. Tô falando de uns mais recentes. – responde Gromsh engolindo o que estava em sua boca e mordendo outro grande pedaço – Parece que uns orcs e hobgoblins conseguiram fugí da cidade há pouco tempo.

Sabal sorri para o gnoll.

– O que você está dizendo é fato, Gromsh?

– Com certeza, Senhora. Foram contatos confiáveis que me disseram. – responde o gnoll, orgulhoso.
Sabal se levanta da almofada onde estava sentada e caminha até a pequena janela próxima a porta de entrada e saída. Pensativa e concentrada, ela tenta encontrar o guardião meio-goblin lá fora, mas é quase impossível vê-lo quando esse não quer ser visto. Discretamente, a clériga começa a emitir alguns rosnados – por mais estranho que isso tenha soado no início de sua vida com aqueles hereges, atualmente é bem mais natural.

“Stongest. Se estiver tudo calmo ai fora, entre. Precisamos conversar”, diz a clériga na linguagem secreta do culto, logo após virando-se para seus outros dois companheiros.

– Vocês acham que Quiri tem capacidade de encontrar alguma passagem? Isso é, se ela realmente existir. – pergunta Sabal com uma das sobrancelhas erguidas.

– Sinceramente não, minha Senhora. – responde Mirka – Quiri é um goblin muito dedicado, mas não é muito inteligente nem perceptivo.

– Ah! Ele é um goblin. Goblins são estúpidos. – diz Gromsh rindo.

– Eu sou um goblin, G’omsh. Você me acha estúpido? – a voz de Stongest surge como uma invocação, do canto da cabana oposto ao que o gnoll se encontra.

Gromsh coça a cabeça constrangido.

– Cara, não foi bem isso que eu quis dizê. Sabe, você nem é um goblin direito, né? – o gnoll tenta consertar, desviando o olhar dos olhos do pequeno e robusto meio-goblin-meio-algo.

– Eu tenho sangue goblin, po’tanto sou um goblin. – finaliza Stongest, virando-se  para a clériga.

Sabal ri baixo. Gromsh continua coçando a cabeça envergonhado, enquanto Mirka sorri por ver o guardião.

– Já acabaram, crianças? – pergunta a clériga enquanto olha para o goblin que está sério a observando.

– O que você que’ conversa’, Sabal? – pergunta Stongest demonstrando toda sua simpatia.
Sabal ri mais um pouco antes de começar.

– Quiri foi atrás de alguma passagem para fora de Menzoberranzan aqui no Braeryn. O problema é que não confiamos na capacidade dele para encontrá-la, se é que ela existe. – diz a clériga resumindo a conversa.

– Onde estão os out’os fieis? – pergunta Stongest olhando ao redor da barraca.

– Foram conseguí informações com outros das mesmas raças. – responde Gromsh.

– Não acho isso uma boa idéia. Eles são muito inexpe’ientes. – diz o meio-goblin voltando-se para o gnoll.

– Eles foram antes de vocês voltarem, Senhor. Houve alguns poucos boatos a respeito de orcs e robgoblins que conseguiram fugir da cidade através de um túnel que começa aqui no Braeryn. Precisávamos saber de algo. – diz Mirka.

– Ce’to. – comenta Stongest, achando razoável a resposta da kobold.

– Então, Stongest, você poderia ir atrás de Quiri? Mirka irá convocar o resto dos fieis. Creio que todos devem ir conosco em nossa busca pelo filho de Lolth. Concorda? – pergunta Sabal voltando a se sentar em uma almofada, em posição de meditação.

Stongest olha para a clériga, pensativo. Sabal encara a feição séria do meio-goblin e percebe alguns traços bem delicados em seu rosto, apesar de todas as cicatrizes. O olho do meio-goblin tem um formato um pouco ovalado. “Como eu ainda não tinha percebido isso”, pergunta-se a clériga demonstrando surpresa.

– Que foi? – pergunta Stongest – Alguma idéia melho’?

– Nada não, Stongest. Apenas me perdi em pensamentos. – responde Sabal, enquanto sua mente tenta não acreditar naquele detalhe, “Não pode ser, eu devo estar vendo coisas”.

– Eu vou at’ás do Qui’i. – diz o meio-goblin desconcertado com as reações da clériga, sumindo novamente dos olhares de seus companheiros próximo à janela.

– Senhora, quer que eu vá atrás dos outros agora? – pergunta Mirka a clériga.

– Espere um pouco, Mirka. – diz Sabal pensando a respeito – Se você conhecer alguma magia para chamá-los sem precisar sair daqui, acho que seria melhor.

– Não tenho nada semelhante preparado no momento, Senhora. – responde Mirka.

– Então pode ir. Vá com Gromsh, assim vocês podem se separar e procurar mais rapido.

– Sim, Senhora. – responde Mirka indo até a porta – Vamos, Gromsh?

– Vamo sim. – responde o gnoll, limpando os dentes com a unha.

Quando ambos saem pela porta, Sabal se põe a refletir sobre a situação. É interessante ver como sua vida está bem diferente do que ela imaginava quando fugiu de sua Casa. Sempre imaginara que teria que sobreviver sozinha por muito tempo e apenas aos poucos conseguiria lacaios fieis, mas a Do’Urden e Stongest pouparam esforços para ela.

A lealdade desses seres é totalmente estranha a ela, que foi criada dentro da segunda maior Casa da Cidade da Rainha Aranha. Ela não é forjada com o medo, pois qualquer um deles seria capaz de sobreviver sozinho e não se importaria em deixar um traidor para trás. Porém, a lealdade deles é forjada pela Fé – não a fé dela, mas a Fé que Stongest explicou no Bazaar -, o que é muito mais forte do que a lealdade que os escravos tem pelos seus senhores drows. Supondo que tentasse controlar Mirka através do medo, a pequena kobold não a repreenderia, simplesmente sumiria e nunca mais seria vista. “É impressionante a lealdade e liberdade que esses hereges possuem”, pensa consigo mesmo.

Particularmente, Sabal se sente até inferiorizada ao ver as atitudes desses cultistas em relação à falsa-deusa. “Falsa-deusa. Por que me sinto tão vazia quando penso isso?”, ela se pergunta, e sua memória a leva ao seu último encontro com aquele que foi seu professor, seu aliado e seu amante: Mariv.

Sua memória não toca apenas os planos das imagens, seu braço ainda sente o impacto criado quando atingiu o rosto daquele que ela tanto respeitava. “Sem arrependimentos”, comenta para si tentando espantar o pensamento que a aflige. “Você realmente está se tornando uma fraca”, sentencia Sabal a si mesma, mas seus pensamentos surgem como a voz de sua mãe.

Sabal abre os olhos, não há ninguém na barraca. Apenas ela, seus pensamentos e um pequeno ídolo de Lolth. Qual Lolth? A Do’Urden não pode ser a deusa encarnada, pois negligencia aspectos importantes da natureza da Rainha das Aranhas. “Por que Lolth não a puniu até agora por sua heresia?”, se pergunta a clériga. Talvez suas respostas estejam certas, a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos pode ter planejado algo para a falsa-deusa e seus seguidores.

A clériga volta a fechar os olhos para começar a meditação. Nesses últimos tempos a verdadeira Lolth está em silêncio. Sabal não consegue contatá-la, ou melhor, contatar seus servos. Nem consegue comungar com sua deusa através das magias divinas que essa costumava canalizar pelo corpo de suas clérigas. Mas a fé ainda está em seu coração, e Sabal não pretende desistir.

Aos poucos sua mente entra em transe, tentando alcançar um plano superior de consciência para se comunicar com sua divindade. Nada. Apenas silêncio e vazio. Respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca, Sabal se concentra novamente. Sua consciência se expande aos poucos, seus sentidos parecem se ampliar. Dessa vez ela não se sente sozinha, o vazio parece ter se dissipado e uma voz feminina é ouvida ao fundo, de forma indefinida. A clériga se concentra ainda mais para tentar entender o que sua deusa está tentando lhe dizer. Aos poucos a voz parece estar se tornando mais e mais compreensível. Como um soco no estômago Sabal abre seus olhos ao escutar a voz de Lolth Do’Urden em seus ouvidos: “Nós não somos diferentes”.

Com a respiração arfando e as mãos tremendo, a ex-Dyrr olha ao seu redor. Para sua surpresa quem está lá não é a Do’Urden, mas Stongest, com um pequeno goblin ensangüentado no colo. Stongest e Quiri possuem alturas semelhantes, mas pela massa muscular de Stongest, Quiri parece bem menor.

– Stongest? Por que o trouxe para cá? – pergunta Sabal ainda assustada.

– Po’que ele é um de nós. Te’ uma mo’te jogado na ‘ua não é uma mo’te digna de um i’mão de Fé. – responde Songest como se estivesse dizendo o óbvio – T’ouxe ele pa’a você sac’ifica-lo e ele se uni’ a deusa.

– Ele ainda não está morto? – pergunta a clériga vendo o estado deplorável em que se encontra o mirrado goblin.
Quiri está desacordado e com a respiração lenta. Um imenso corte abriu algo como se fosse uma boca em seu estômago, que Stongest parece ter costurado para que ele não morresse no local do incidente. Um dos braços do pequeno goblin estava semidecepado, e novamente Stongest conseguiu retardar a morte de seu “irmão de Fé”, fazendo um torniquete acima do grande corte.

– Não. – responde Stongest secamente.

– Você está trazendo risco ao culto. Uma péssima atitude de um guardião. – censura Sabal com um olhar sério – Ele é descartável. Não precisava ter trazido ele pra cá.

– Já disse que não o t’ouxe pa’a cu’á-lo, mas pa’a da’-lhe uma mo’te mais digna.

– E acabar com o segredo do culto? – pergunta Sabal alterada.

– Não esta’emos mais aqui quando alguém consegui’ encont’a’ uma t’ilha. – responde Stongest a encarando – Todos somos desca’táveis, Sabal, mas nem po’ isso vi’amos as costas uns pa’a os out’os. Se você não quise’ matá-lo ‘itualmente, eu mesmo fa’ei.

Sabal encara o meio-goblin-meio-algo sem compreender direito o que está ocorrendo. “Por que se preocupa tanto com a forma pela qual ele vai morrer?”, se pergunta confusa.

– Mesmo sem entender o que leva você a querer isso, Stongest, eu farei o sacrifício. – diz a clériga.

– Cla’o que você ainda não entende. – diz o guardião ajeitando o pequeno goblin perto do ídolo de Lolth, e preparando algumas ervas que o farão retomar a consciência.

– Se você se preocupa tanto com ele, por que não me deixa curá-lo? Você sabe que eu tenho uma varinha de cura. – retruca Sabal.

– Po’que ele se sac’ificou pa’a p’otege a imagem de nossa deusa. Tudo o que ela ‘epesenta. Não pe’miti’ que ele mo’a é ti’a’ dele toda sua satisfação po’ te’ se sac’ificado po’ aquilo que ele ac’edita. – responde Stongest.

– Então por que você não o deixou lá? – pergunta Sabal achando a resposta do meio-goblin completamente ilógica.

Stongest termina de preparar a loção para Quiri recobrar a consciência, e começa a preparar outra loção para que esse não sinta muita dor nos locais feridos.

– Po’que ele ainda não comp’eendeu. Como você. Pa’a ele Lolth é algo fo’a dele, esse é o momento de fazê-lo senti’ o que Lolth ‘ealmente é. – responde Stongest, de forma séria, mas tranqüila, à sua colega.

Sabal o observa um tanto irritada, pois sabe que o guardião ainda não confia tanto nela quanto ela gostaria. Sempre que esse assunto entra em pauta, a clériga se sente inferiorizada pelo meio-goblin, o que fere seu orgulho drow.

– Você é capaz de faze’ isso? – Stongest desafia Sabal.

Sabal o encara com raiva.

– Com certeza mais capaz do que você. – responde a clériga.

– Ótimo. – diz Stongest sorrindo e finalizando a segunda poção, que ele passa nas feridas do mirrado goblin.

Sabal observa a cena. Ao ver o meio-goblin-meio-algo passar a loção em seu “irmão”, a imagem de Mariv volta em sua mente. “Se a Do’Urden estivesse em meu lugar, ela o teria convencido a vir junto. Ele não precisaria estar morto”, comenta a si mesma. Um sentimento de repúdio a esse pensamento surge em seu peito, “Como você pode estar se tornando tão fraca?!”, repreende-se a clériga.

– Qui’i? Você está me ouvindo? – pergunta Stongest.

O pequeno goblin sorri ao ver o guardião e balança afirmativamente a cabeça. A dor que ele está sentindo é mínima, ignorável.

– Você está p’epa’ado pa’a se junta’ a deusa? – pergunta novamente Stongest, recebendo outra resposta afirmativa com a cabeça.

O meio-goblin se vira em direção a Sabal e solta um curto e baixo rosnado: “Você sabe o que fazer”.

A clériga se aproxima lentamente do pequeno goblin e sente um nervosismo tomar conta de seu corpo. Ela olha para Stongest, que a está encarando. Seu orgulho retorna: “Eu sei o que fazer”, comenta consigo.

– Quiri, você agiu corretamente ao defender nossa deusa, mas perceba que não foi Lolth que você defendeu, e sim a todos nós. Lolth é você, meu irmão. – diz Sabal sem saber julgar se ela estava mentindo ou dizendo a verdade.
Quiri sorri para ela. A clériga crava o punhal de sacrifício no peito miúdo do goblin, que vira seu rosto em direção ao pequeno ídolo de Lolth, e mais uma vez seu sorriso se abre e seus olhos se fecham tranqüilamente enquanto a clériga retira o pequeno coração e o corta em dois, banhando o ídolo com o sangue do goblin.

Sabal fica perplexa com a reação do goblin e encara o corpo inerte.

– Ago’a você ‘ealmente está em nós, i’mão. – diz Stongest curvando-se em direção ao corpo.

A clériga vira-se em direção ao meio-goblin com uma feição curiosa.

– O que você passou nele para não sentir dor?

– Anestesiei apenas os fe’imentos. Ele sentiu tudo o que você fez a ele. – responde Stongest olhando para a porta – Mi’ka e G’omsh chega’am.

Olhando estática para o robusto goblin, ela escuta a porta se abrir e alguns passos de seres entrando. “Você é louco, guardião”, pensa a ex-Dyrr sentindo o vazio retornar ao seu peito, “Espero que um dia eu consiga fazer parte dessa loucura”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 3)

Stongest leva mais carne de lagarto para a boca enquanto tenta escutar algo que preste nas conversas que ocorrem ao seu redor. Sabal apenas toma mais um gole de seu vinho de cogumelo enquanto também tenta selecionar da melhor forma possível o que está sendo conversado naquele ambiente. Já tem alguns minutos que os dois estão sentados na mesa da taverna apenas se “alimentando”.

Faz dois dias que eles chegaram ao Bazaar. Nesse pequeno espaço de tempo eles conseguiram saber que algum batedor da Casa Agrach Dyrr descobriu a respeito de um exército de duergars que estava vindo na direção de Menzoberranzan, algo que apenas fortificou o boato que um escravo Dyrr havia lhe passado recentemente. Segundo outros boatos, as Casas Maiores estavam preparando um ataque aos duergars no meio do percurso. O local exato eles não descobriram.

Hoje o dia está totalmente infrutífero. Percebendo que eles não conseguirão nada de útil apenas escutando, Stongest prefere comentar alto algo que está passando por sua cabeça enquanto ele come aquele pedaço de carne suculenta.

– Acho que se’ia inte’essante leva’mos algumas dessas ca’nes pa’a os fieis. Eles vão fica’ f’acos comendo apenas cogumelos. – diz em goblinoide o quase-goblin em meio a mastigadas.

Sabal, ao perceber que Stongest estava falando, retorna como se estivesse em um reverie profundo.

– Como? – pergunta a clériga.

– Eu disse pa’a leva’mos comida pa’a o pessoal. Eles estão p’ecisando. – responde Stongest, olhando sério para ela.

– Ah sim. Com certeza. Temos que levar alguma comida para a viagem também se pretendemos realmente encontrar o filho da Do’Urden. Digo, de Lolth. – diz a clériga também em globinóide, se corrigindo imediatamente quando vê o olhar de desaprovação do meio-goblin-meio-algo.

– Se você não ac’edita, po’ que aceitou consegui’ fieis pa’a ela? – pergunta seriamente Stongest enquanto morde mais um pedaço da carne e toma um gole da cerveja em sua caneca.

Sabal o olha fixamente e sorri.

– Stongest, seja sincero. Você acredita mesmo que ela é Lolth? A Deusa-demônio das Aranhas, encarnada? – pergunta a clériga enquanto o goblin responde positivamente com um aceno de cabeça – Pois eu não. Minha deusa nada me disse a respeito de enviar uma manifestação para o plano material.

– Então po’ que você a se’ve, se não ac’edita? – pergunta Stongest ainda mastigando a carne.

– Eu não a sirvo Stongest. Eu sirvo Lolth. A Do’Urden pode ser muito útil para os propósitos de minha deusa. Afinal, cada seguidor que “ela” consegue, louvará Lolth. Não ela, mas Lolth. – responde Sabal sorrindo.

O meio-goblin engole a carne e sorri como se tivesse acabado de escutar uma tolice.

– Eu já acho que louva’ão Lolth, como a ‘ep’esentação do Caos, da Astúcia, do Pode’ e da Escu’idão.

– E do Mal? – interrompe Sabal introduzindo uma questão – Por que vocês nunca mencionaram o Mal? Se ela é a representação dos aspectos que minha deusa representa, por que vocês negligenciam um de seus aspectos?

Stongest toma mais um grande gole de cerveja e coloca a caneca na mesa antes de responder.

– Po’que esse aspecto diz ‘espeito a sua ‘aça e não a quem ela que’ alcança’ ago’a com um co’po mate’ial. – responde o meio-goblin olhando fixamente os olhos da clériga como se tivesse certeza da resposta.

– Não faz sentido, Stongest. O que faz sentido é que ela não é a deusa e sim uma tentativa falha de uma louca em transformar sua filha, ou seja lá o que, em algo divino. – diz Sabal ignorando o olhar severo de Stongest – Estou com ela, pois ela pode ser a chave para aumentar o poder e a área de influência de minha deusa.

– Você ainda não sabe o que é te’ Fé de ve’dade, Sabal. – diz secamente o meio-goblin à drow, que gargalha.

– Você está falando com uma clériga, goblin. Se eu não soubesse o que é ter fé, nunca iria conseguir conjurar as bênçãos de minha deusa. – responde a ex-Dyrr como se falasse algo óbvio.

– Você tem fé em algo que não está em você. Você não sabe o que é te’ Fé ve’dadei’a, clé’iga. – responde Stongest ainda sério e seco.

O rosto de Sabal torna-se raivoso, algo que nunca havia ocorrido em qualquer outra conversa com Stongest.

– Stongest! Não fale sobre o que você não conhece. Você tem fé em uma mortal que foi criada para ser uma falsa-deusa. Você é um infiel. Não terá nem mesmo para onde ir quando morrer. – diz Sabal com um tom bem mais seco e severo do que de costume – Tente entender Stongest, sua fé é que é falsa.

– Eu não tenho fé na pessoa, mas no que ela ‘ep’esenta. Eu tenho Fé naquilo que ela me fez ve’ em mim mesmo. – retruca o meio-goblin após um gole de cerveja que finaliza a bebida de dentro da caneca – Você sabe do que estou falando, sentiu isso quando ela lhe aceitou como sendo uma extensão sua.

– Eu sei que aquilo foi uma experiência estranha, Stongest. Eu não posso negar que fiquei dias, até meses sem saber se acreditava ou não naquilo tudo, mas agora que ela partiu em viagem e está longe, consegui refletir e não faz nenhum sentido. – se justifica Sabal.

– E é p’a faze’? – pergunta Stongest colocando sua caneca e seu prato de lado – O que ela semp’e p’egou é que a ve’dadei’a Fé só é possível quando você enca’na aquilo que ac’edita. Você não conco’da com isso?

– Concordo. Mas me diz: minha sociedade não encarna todos os aspectos de nossa deusa? – responde Sabal como se estivesse dizendo algo óbvio, tomando logo após o último gole de seu vinho de cogumelo.

– Enca’na o que eles vêem em uma entidade exte’io’. Eles não enca’nam o aspecto que eles possuem inte’io’mente. – responde Stongest.

– Qual a diferença? Não vejo nenhuma. – retruca Sabal achando aquilo tudo muito ilógico.

– Há uma g’ande dife’ença Sabal. Da fo’ma que fazem, vocês apenas se’vem algo ou alguém. Vocês estão sujeitos a decepções, a dúvidas e a questionamentos. – começa responder Stongest olhando ao redor – Você ouviu alguns dos comentá’ios a respeito do “sumiço” da sua deusa, não é? Você sabe que muitos de seus fieis i’ão pa’a out’os deuses em busca do mesmo ab’igo que eles tinham em suas teias. Muitas de suas i’mãs clé’igas fa’ão isso. Você sabe que é ve’dade. Que é questão de sob’evivencia. Essa é a falha do seu tipo de fé.

Sabal olha espantada para Stongest como se não acreditasse que aquele goblin extremamente robusto fosse capaz de tamanho raciocínio.

– O nosso tipo de Fé, p’ega que devemos se’ um só com nossa divindade. Um só com aquilo que ela ‘ep’esenta. Lolth não está aqui e pode nunca mais volta’, mas eu continuo sendo um com ela. Mi’ka sob’evive’á mesmo que sozinha, algo ext’emamente difícil pa’a alguém de sua ‘aça, po’que ela é uma só com sua divindade. Ela é astúcia, ela não louva a astúcia, e isso a mante’á apta a sob’evive’. Você sentiu o que é se’ uma com sua divindade. Ac’edito que vá’ias vezes você sentiu isso em suas meditações ou ao senti’ o pode’ de sua deusa at’avessa’ o seu co’po, mas a última vez que você sentiu isso foi quando conheceu Lolth. A Lolth que eu p’otejo.

A clériga não consegue responder, apenas fica olhando para o goblin ainda com cara de espanto, como se não acreditasse que aquilo tudo estava saindo de sua boca.

– Você ainda não tem Fé de ve’dade Sabal, mas com o tempo e vivência i’á entende’ o que eu digo. – Stongest finaliza o assunto.

– Veremos. – diz Sabal ainda pasma.

Stongest dá mais uma olhada ao redor. A taverna está cheia, com vários comerciantes e mercenários bebendo e comendo. Ele tenta escutar alguma coisa ao seu redor, mas não ouve nada de útil até Sabal o interromper.

– Me conte mais a respeito do filho de Lolth. Como ele nasceu já sendo um drider? – pergunta a clériga que até o momento não tirou os olhos de seu pequeno e forte companheiro.

– Não sei. Sei que eu estava junto e uma espécie de casulo saiu dela no lugar de uma c’iança. Um pouco depois o casulo começou a se ‘ompe’ e apa’ece’am as patas de uma a’anha, e só depois os b’aços de um d’ow. – diz Stongest olhando Sabal nos olhos.

– E com quem ela o deixou?

– Com uma Vae’uniana que ju’ou c’iá-lo pa’a odiá-la o máximo possível. – responde como se fosse algo sem importância.

– Você está falando sério, Stongest? – pergunta Sabal duvidosamente.

– Sim. – responde rapidamente o goblin que passa a olhar de canto de olho para um Ogro e um drow que passam perto de sua mesa.

– Para que iremos atrás do filho de Lolth se ele é um inimigo em potencial? – pergunta Sabal incrédula.

– Pois nada é imutável, e um d’ide’ se’ia um g’ande aliado pa’a nossa ig’eja. – responde o meio-goblin sem perder os dois de vista.

Sabal percebe que o drow que acompanha o ogro a está olhando curiosamente e sabe o porquê. Não é a primeira vez que ela é observada daquela maneira em sua vida. Dando de ombros, ela apenas sorri para Stongest e continua falando em goblinoide.

– Espero que você esteja certo. Então vamos parar de perder tempo e nos preparar para encontrar o filho de Lolth.

– Sim. – concorda Stongest se levantando e indo comprar comida para a viagem e para os outros fieis, enquanto Sabal observa a dupla bizarra subindo as escadas para o dormitório da taverna.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 1)

Menzoberranzan nunca foi um lugar seguro, ainda mais para aqueles que vivem no Braeryn. Esse é o local onde vivem escravos, ladrões, os párias da sociedade drow, entre outros “miseráveis”. De tempos em tempos alguns drows das Casas Maiores visitam o Braeryn a fim de praticarem um esporte tradicional na cultura dos elfos negros: a caçada a seres inferiores.

Mirka, como vários outros habitantes do subúrbio de Menzoberranzan, teve que aprender a se esconder e a sobreviver. Por ser uma kobold, sempre teve a noção de que um grupo é imensamente mais apto a sobreviver do que seres solitários. A importância de ter com quem contar é algo quase intrínseco em sua natureza, mesmo que ultimamente a importância de saber se virar sem depender de outros, tenha sido somado a essa “natureza”. Há muito tempo seu grupo mudou. Mesmo após ter sido iniciada no templo de Lolth, ela continuou vivendo entre os outros kobolds, para não chamar a atenção.

No início do culto a deusa encarnada, não havia mais de três seguidores e uma clériga. A clériga, Vishnara Do’Urden, foi quem trouxe Mirka e o gnoll Gromsh para o culto. O guardião de Lolth, Stongest, sempre existiu; ou assim parece na mente de Mirka. Ele é quase um semi-deus aos olhos da pequena kobold. É graças ao guardião e a deusa que o culto se mantém secreto.

Sim, Gromsh e Mirka tiveram participações importantíssimas, mas em seus pensamentos, se não fossem Stongest e Lolth, o culto teria sido descoberto e os drows, cheios de inveja, teriam acabado com a “igreja da Lolth encarnada” e Mirka nunca teria descoberto o que é ter realmente Fé.

Entre alguns lixos, a kobold se esconde esperando uma patrulha montada dos drows passar. Atualmente a situação piorou ainda mais. Desde que Lolth foi viajar novamente para superfície, coisas estranhas passaram a acontecer. Após mais ou menos seis meses depois de Lolth ter partido, segundo suas contagens, Mirka percebeu que Sabal não mais estava conseguindo conjurar suas magias e ouviu dizer que as outras drows clérigas de Lolth também não estavam.

“Elas têm pouca Fé”, pensa consigo mesma enquanto observa o drow montado em seu grande lagarto passar. Sabal passou a ser a clériga do culto mais ou menos dois anos após a morte de Vishnara. Por ser uma pessoa carismática, conseguiu facilmente conquistar Mirka e Gromsh. “Ótima drow, mas não muito boa clériga”, aos poucos a kobold sai do lixo onde se encontra, “Seria uma excelente clériga se ao menos tivesse mais Fé”.

Porém uma coisa que Mirka não pode negar foi que o carisma de Sabal atraiu mais alguns fieis para o culto e isso ajudou bastante para eles sobreviverem à insurreição dos escravos, mas atrapalhou bastante para manter sigilo, principalmente após alguns goblins seguidores de Lolth atacarem seus companheiros rebeldes gritando “Por Lolth!!” na frente de alguns drows.

Mirka caminha até o novo esconderijo no qual está vivendo junto com Gromsh, Stongest, Sabal, entre outros fieis. O templo foi desfeito durante a insurreição a mando de Sabal e Stongest. Seria ainda mais complicado, dada a situação, se eles o tivessem mantido, pois haveria provas incontestáveis da existência da deusa encarnada e do culto a ela.

Quando os escravos começaram a se encontrar para planejar a rebelião, os lolthianos se mantiveram a distância, com exceção dela e de Stongest. Sabal não poderia participar mesmo, ela estava sem suas magias e é uma drow. O ódio dos escravos por drows é imenso. Gromsh e os novatos ficaram com ela para proteger o sigilo do templo com muita dificuldade, pois por motivos obscuros, os impulsos agressivos desses aumentavam de uma hora para outra sem motivos aparentes. Mirka e Stongest observaram uma das “reuniões” para entender o que estava ocorrendo.

– Há algo muito fo’te po’ t’ás disso. Não devemos nos int’ometê’. – disse Stongest a Mirka naquela ocasião, que aceitou as palavras do guardião como lei.

A pequena kobold foi ponto chave para que os fieis não se misturassem aos rebeldes. Foi ela e Sabal que perceberam as ondas psíquicas que estavam influenciando e enfurecendo ainda mais os escravos, e graças às magias de proteção da pequena kobold que os fieis não tomaram parte da insurreição. A situação não foi fácil e todo o ocorrido foi extremamente desgastante. Mirka ficou fraca por muito tempo e teve que descansar bastante para se recuperar.

Já passaram muitos dias, na verdade semanas, e Mirka está com todas suas forças recobradas. Ela entra no esconderijo furtivamente. É uma espécie de barraca feita em rocha, próxima a dezenas de barracas semelhantes.

“Mirka, é ocê?”, pergunta um rosnado em tons baixos e guturais. Mesmo que a linguagem secreta deles não tenha sotaque, Mirka sabe de quem vem e não consegue evitar em traduzí-la mentalmente com as falhas que Gromsh costuma ter ao conversar.

“Sim Gromsh. Consegui encontrar o colar”, responde com um rosnadinho mais fino, porém ainda assim rouco e baixinho, enquanto sai de trás da porta que acabara de abrir. Ela se aproxima do gnoll e tira um colar de um de seus bolsos colocando na mão de seu companheiro.

Mesmo enxergando na escuridão que há dentro da barraca, Gromsh tateia cuidadosamente o colar e se empolga.

– Ele funciona Mirka? – pergunta o gnoll em meio a risos animalescos contidos.

– Funciona sim, Gromsh. Testei antes de chegar aqui. Não é tão difícil ativá-lo. – responde ela sorrindo para o gnoll.

– Brigado Mirka. Com ele vo consegui me camuflá nas rochas como o guardião? – pergunta o gnoll enquanto tenta colocar em seu pescoço. Percebendo que não fecha, ele resolve amarrar o colar em seu punho – He-he não cabe no pescoço. É só tá em contato, né?

– Sim. Não se preocupe. – responde Mirka sorrindo e emendando a outra resposta – E vai sim conseguir se camuflar, mas ainda acho que você devia praticar mais se esconder sem depender de itens. Ele não tem energia para muitas ativações, apenas para três vezes, depois você deve esperar um bom tempo até ele recarregar suas energias.

O gnoll torce o focinho.

– Já é alguma coisa. Agora o Stongest não é o único que consegue se infiltrá em lugares cheios de gente. – diz o gnoll olhando para o colar amarrado em seu pulso.

– Stongest não precisa disso para se infiltrar em lugar algum. Você devia treinar mais se pretende substituir ele como guardião da deusa. – responde Mirka rindo.

– Vo pensá no caso. – responde o gnoll contrariado.

Ela observa todo o refúgio e vê o rosto de uma dúzia de fieis, entre eles goblins, kobolds e um outro gnoll, mas nada de Sabal e Stongest.

– Onde estão o guardião e a clériga? – pergunta a pequena kobold.

– Foram ao Bazaar. Falaram que vão demorá e enquanto eles tiverem fora, eu e ocê somos responsáveis pelo culto.

Mirka concorda com um aceno de cabeça. “O que eles foram fazer lá?”, pergunta a kobold com seu rosnadinho fino, que mais se assemelha a um ronronar de algum pequeno felino.

“Descobri sobre o boato que a clériga ouviu a respeito de um possível ataque contra Menzoberrazan pelos anões cinzentos, e comprá equipamentos. Acho também que Stongest foi tê alguma conversa sobre a Fé da clériga”, responde o gnoll também em rosnado, porém um rosnado mais grave que de sua companheira.

“Imaginei”, responde Mirka ainda na linguagem do culto, enquanto deita sobre algumas almofadas e emenda:

– Estou com fome Gromsh. O que tem para comer?

– Só cogumelos. Faz tempo que nóis não come carne suculenta, né Mirka? As coisas andam perigosas lá fora. – responde o gnoll com tristeza em sua voz.

– Qué que eu vá buscá? Quiri é corajoso! – diz um pequeno e mirrado goblin com o sorriso aberto, olhando para Mirka.

– Não Quiri. Não podemos chamar atenção. – responde Mirka levantando-se e indo se servir com cogumelos.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 3)

– SACRILÉGIO!!! – Sabal Dyrr sente a fúria tomar seu corpo completamente – COMO OUSA USAR O NOME DA DEUSA COMO SE FOSSE ELA?!

Lolth a observa, com um sorriso no rosto, pacientemente enquanto Stongest encara de baixo para cima a clériga que já pertenceu a Segunda Casa Maior de Menzoberranzan. Faz dois anos que Sabal se mudou para o Braeryn, mas apenas algumas semanas que ela descobriu um culto a Lolth feito por escravos. Esse fato não a havia afetado até o momento em que ela descobriu que a suposta Lolth que os inferiores estavam cultuando nada mais era que uma drow.

– COMO OUSA SE PASSAR PELA RAINHA DAS ARANHAS?! – grita novamente a clériga enquanto a pseudo-deusa a encara tranqüilamente, ainda com um sorriso no rosto.

– ‘Espeito ao se di’igi’ a Lolth. – Stongest interrompe o monólogo rosnando entre os dentes com um de seus machados na mão.

– E por acaso quem é você? Selvetarm? – responde Sabal, complementando com um sorriso sarcástico no rosto.

A clériga encara aquele goblin estranho. Por mais que ela perceba o sangue goblin nele, há algo fora do comum no ser baixinho e troncudo. “Que tipo de ‘coisas’ são essas?” se pergunta a ex-Dyrr, antes de voltar o seu olhar a Lolth. Seguindo o contorno do corpo da pseudo-deusa, Sabal se atordoa momentaneamente com a beleza daquela drow, mas logo sacode a cabeça e retorna a atenção à heresia que está ocorrendo no Braeryn. Nesse momento ela percebe em Lolth uma insígnia que se assemelha a uma aranha com armas nas oito patas.

– Você é uma Do’Urden? – pergunta Sabal sem conseguir esconder sua surpresa.

– Não. Minha mãe era. – responde suavemente Lolth, sorrindo para Sabal – Está mais calma? Podemos conversar agora?

– Não tenho o que conversar com uma herege! Em honra a minha deusa devo apenas eliminá-la! – a surpresa torna-se raiva novamente.

Sabal tenta dar um passo a frente empunhando sua morningstar, mas é barrada por Stongest que saca seu outro machado. Subestimando aquela coisa-goblin Sabal tenta colocá-lo de lado com seu grande escudo, mas se surpreende quando esse age mais rápido e rola para trás de seu corpo desferindo um golpe em um ponto falho de sua armadura entre uma camada de placa e outra.

– Stongest! Pare! – Sabal sente a lâmina do machado do goblin tocando seu corpo através de sua piwafwi. “Maldita! Deixe-o terminar o serviço”, pragueja a clériga a si mesma, sem saber o que fazer – Ela já entendeu o recado.

Sabal encara Lolth, que não está mais sorrindo, e sim com um olhar severo. A clériga sente um calafrio lhe percorrer o corpo. A imagem daquela drow a atordoa, não só por sua beleza, mas pela forma que age. Em nenhum momento ela sentiu medo de Sabal. Em nenhum momento a tal Do’Urden desviou o olhar da clériga, e isso nunca foi algo comum.

– O que você quer Do’Urden? – pergunta a ex-Dyrr com uma mistura de raiva e espanto.

– Quero que você seja a líder espiritual dos escravos que me seguem. – responde Lolth retomando o sorriso em seu rosto.

Um momento de confusão atinge a mente de Sabal. Ela não sente mais a lâmina do machado de Stongest, mas mesmo assim continua paralisada sem saber como agir. Ela observa a pseudodeusa com um olhar confuso. “Será que isso tudo faz parte de algum plano da deusa?”, pergunta-se a clériga sem desviar o olhar confuso da herege. “Não. Não pode ser” responde a si mesma.

– Você quer que eu participe dessa heresia? Você é louca?

– Não há heresia alguma aqui. Os escravos que fazem parte do culto louvam a Lolth. Sou a manifestação dos aspectos que Lolth representa. Assim eles me vêem. – responde Lolth mantendo toda serenidade do início da conversa, mesmo quando Sabal dispara a gargalhar.

– Você realmente é louca, Do’Urden! Como você quer que eu acredite nisso? Você acha mesmo que servirei a uma falsa deusa? A uma mera drow que tenta se passar pela Rainha dos Fossos de Teias Demoníacas? – a clériga ri com desdém antes de prosseguir – Me surpreende que nenhum Yochlol tenha vindo eliminá-la.

– Talvez você esteja aqui para isso. Para me eliminar. – responde Lolth enquanto caminha para perto de Sabal – Ou talvez você tenha me encontrado por que eu quis assim.

Sabal desfaz o sorriso sarcástico e encara Lolth seriamente.

– Não quero que você me sirva, quero que você me compreenda. Eu não sou a sua deusa, pois não procuro sua veneração. Sou o Caos, a astúcia, o assassinato, a tecelã, a escuridão, o poder. Sou Lolth.

A feição de Lolth se torna séria e imponente. A ex-Dyrr hesita. Sente o calafrio aumentar. “Quem é ela?” se pergunta estupefata.

– Compreenda, Sabal: você nunca me servirá enquanto me vir como uma drow ou uma deusa. Você apenas servirá Lolth de forma completa quando você compreender que somos uma.

Quebrando seu próprio transe, Sabal volta a falar com a voz falha:

– V-você é louca.

Lolth gargalha. Uma risada bela e gostosa, ao mesmo tempo com um leve tom que faz Stongest lembrar de Vishnara.

– Sou? Você ainda não compreendeu, Sabal? Eu sou o Caos.

“Você já está começando a me convencer disso” pensa a clériga ironicamente emendando uma pergunta:

– O que você propõe?

– Eu vi a forma com a qual você lida com os seres de outras raças. Vi a forma com a qual se adapta às situações em que você se encontrou. Você já encarnou a astúcia, e possui uma grande característica do caos: a adaptabilidade. Quero que você me ajude a guiar os escravos no caminho da verdadeira Fé. A Fé que você está desenvolvendo em seu íntimo.

Sabal não consegue segurar o pequeno riso de espanto que lhe escapa pela boca.

– Você quer que eu seja sua clériga?

Lolth sorri e se aproxima mais da clériga. Stongest caminha até a porta do templo, se afastando das duas.

– Quero que não haja diferença entre eu e você Sabal Dyrr. Da mesma forma que não há diferença entre eu e Stongest. Nem entre eu e Mirka ou eu e Gromsh.

– Isso me soa como estagnação, não como Caos. – responde Sabal.

– Ser igual a mim não é agir como eu ajo ou dizer o que eu digo. Ser igual a mim é ser o Caos, a Escuridão e todos os outros aspectos que represento. – complementa Lolth quase tocando a ex-Dyrr.

– É ser louca? – pergunta Sabal sentindo o calafrio aumentar cada vez mais, mas por algum motivo sem conseguir se afastar.

– Se é assim que me vê, é assim que deve ser. – Lolth sorri e toca sua delicada mão no rosto de Sabal, aproximando seus rostos.

Sabal sente seu corpo tremer, mas não consegue agir, como se estivesse encantada. Os lábios tocam, a mão de Lolth desliza pelo rosto de Sabal descendo além do pescoço. A clériga nada consegue fazer a não ser participar daquilo. A excitação toma conta. O calafrio dá lugar a um calor que sobe do abdômen ao peito. Enquanto uma das mãos de Lolth desliza pelo braço de Sabal, a outra segura sua mão. O calor do corpo da ex-Dyrr parece se misturar com o calor do corpo de Lolth, como se a sua armadura e a roupa da Do’Urden não existissem. As mãos se encontram suavemente e os lábios se desencontram vagarosamente.

– Nós não somos diferentes. – Sabal escuta a voz suave da encantadora drow em sua mente, como se tivesse passado despercebida por seus ouvidos.

Tremendo, Sabal se ajoelha.

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