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31º Post

Este é o último post. E mesmo como último post, ainda assim, manterei minha intensão inicial de que seja um arquivo de sobrevivência.

Fui até o “criadouro” e descobri que não “criavam” seres humanos apenas com o intuito de se alimentar deles, e sim para que os humanos continuassem existindo. Isso me pareceu estranho de início, mas muita coisa foi esclarecida.

Como disse anteriormente, os immortuos dependem dos vivos para existirem, afinal, eles só se alimentam de carne viva e, além disso, mortos não procriam. Entretanto, as perguntas que devem vir à mente de quem está lendo este relato é: “Por que eles iriam querer procriar? Se manter existindo? Eles não estão mortos? Há, por acaso, alguma necessidade biológica envolvida? Eles não destroem tudo em seu caminho?”.

Bem, os immortuos não possuem nenhuma necessidade biológica para fazerem qualquer coisa, mas possuem “necessidades” psicológicas muito intensas; tal como um velho de oitenta anos tarado.

Em suas ações, não há mero desejo de destruição, não há mera vilania, simplesmente não há. Há angústia, dor, desespero. Morrer é um processo lento e doloroso, ainda mais do que existir. Alimentar faz as ânsias sumirem temporariamente, as angústias somem com aquele breve e efêmero prazer.

Não é esse o problema com aqueles que sofrem de bulimia? A incapacidade de compreender e lidar com seus medos e ansiedades? Não é essa a forma de fuga de muitos humanos, que se alimentam para saciar suas ânsias e angústias? Que matam para comer a fim de tentar preencher o vácuo existencial em seus corações, através de sensações de poder e prazeres que não extinguem o real problema?

Há algo em comum entre os humanos e os immortuos: MEDO! Ambos têm medo da realidade. Nossa real solidão. Nossa real situação de sofrimento constante, ocultada por fugidios prazeres. Medo da dor: física e emocional. Medo de deixar as memórias, medo que aquilo que nos dá prazer suma e que o futuro seja um buraco negro que nos suga sem compaixão.

O medo faz parte daqueles que estão morrendo. É difícil deixar de “existir”; aceitar a possibilidade de nossas memórias e experiências simplesmente se extinguirem. Aceitar o que vem depois, se é que vem algo depois. Aceitar o processo doloroso da morte, temendo que o que venha após, seja mais dor e sofrimento. Nossa maldita herança da crença no “inferno”.

Marcos me mostrou algo. Os immortuos não se matam, não se atacam, não por que se ignoram, mas por que sabem. Instintivamente sabem o que se passa com seus iguais. Nós sentimos uns aos outros. Sabemos que o tiro na cabeça apenas nos coloca em uma espécie de coma, a morte só vem com o apodrecimento. O doloroso e lento apodrecimento.

Da mesma forma, esse vínculo que temos com nossos iguais, nos dá a impressão, talvez uma falsa impressão, de continuidade de nossa existência. Diminui nosso medo de realmente morrermos. Dá uma sensação de continuidade, de segurança. Os humanos para nós, são como arquétipos dessa segurança e continuidade, porém, também são para nós um excelnte alimento.

Até o momento, não encontramos outra forma de fugir da dor e do medo a não ser alimentando-se. Poderíamos nos alimentar apenas de animais. Poderíamos extinguir os humanos e existir placidamente sem temer uma espécie que se revolte contra nós.

Mas os animais são imprevisíveis. Os humanos não.

Os humanos são como nós. E temos mais facilidade de compreender aquilo que se assemelha a nós. Sabemos o que esperar de vocês. Sabemos que vocês – tal como nós – querem apenas fugir da dor, do medo, do sofrimento. Sabemos que para evitar essas coisas, vocês agem de forma estúpida. Demente.

Há poucos de vocês com sabedoria o suficiente para agirem de outra forma. Tal como vocês, a poucos de nós também.

Precisamos realmente que vocês vivam. Portanto não se preocupem. Não deixaremos vocês se extinguirem.

Somos muito semelhantes. E essa semelhança nos faz bem.

            Sapiens Immortuos Paulo Vieira Sales.

30º Post

Não sei por onde começar. Estou atônito, confuso e com muito medo. Toda a perspectiva apontava para a melhoria da situação humana no mundo. As coisas estavam voltando a progredir. Essas criaturas podres estavam sumindo.

Simplesmente sumindo.

Já imaginava mesmo que algo estranho estava acontecendo. Tinha esperanças de que eles estivessem morrendo em áreas selvagens, procurando seres vivos dos quais se alimentarem, ou algo assim.

Sinceramente, queria que todos esses últimos ocorridos fossem algum tipo de pesadelo. Que eu estivesse dormindo e logo acordaria.

Depois da tentativa de invasão de immortuos “novos” nessa tarde, os moradores de nossa Necropoli, tanto a civil quanto a militar, ficaram bastante ansiosos com os presságios que isso nos trazia. Era o sussurro rastejante de uma noite sombria e aterrorizante e, pior, de um futuro ainda mais sombrio e amedrontador.

Os grupos de immortuos não retornaram, mas tivemos outra visita: uma sobrevivente. Ela chegou desnutrida com seus cabelos desgrenhados, com a pele imunda – cheia de sangue seco, terra, fuligem, e seja lá mais o que pode deixar a pele extremamente encardida –, roupas rasgadas, dentes podres e feridas pelo corpo, talvez resultado de alguma micose ou outra doença de pele. Seu olhar fundo é desesperador, de quem passou por horrores indescritíveis, algo semelhante ao olhar de sobreviventes de Auschwitz ou de testemunhas de algum crime hediondo. Seus olhos são inquietos, um sintoma grave de stress.

Quando ela apareceu no Portão 2, nossos vigias acionaram o alarme dos comunicadores e não a deixaram entrar, acreditando que essa mulher era mais um deles. Ela não falava nada inteligível, apenas gritava e grunhia em desespero, tentando inutilmente balançar as grades do portão, enquanto olhava aterrorizada para trás, como se estivesse sendo perseguida. “Deixe-me entrar!”, gritou ela com sua voz rouca – segundo os relatos dos vigias, eles acreditam que ela já estava gritando isso antes, mas eles não conseguiram compreendê-la –, mesmo assim, eles não abriram, pois havia uma ordem dos militares de não abrirem os portões para ninguém, mesmo que essa “pessoa” falasse. Eles obedeceram, mesmo sem saber o porquê.

Mas ela não desistiu. Quando os militares chegaram, ela continuou tentando abrir o portão, cansada, arfando, e só parou quando eles apontaram a lança para ela. “Por favor, deixe-me entrar”, ela chorava com a voz falha, e caiu de joelhos em pranto. Os militares arriscaram. Preferiram deixá-la entrar e examiná-la, para ver se não era nenhuma sapien immortuos, pois se não fosse, aquela mulher precisava seriamente de ajuda.

Ela foi trazida até meu consultório, acompanhada de soldados, médicos e o Comandante Rodrigues. Perguntei o que estava havendo e o Comandante respondeu: “É uma sobrevivente. Ela está falando algo sobre um ‘criadouro’, mas não conseguimos entender. Precisamos que você a acalme”. Vendo o estado da mulher, respondi: “Ela não se acalmará tão fácil, nem tão rápido”, e, com um olhar sério o militar ordenou: “As informações dela podem ser de extrema importância para nossa sobrevivência, dr. Faça o que for necessário”.

Eles me deixaram a sós com ela. Ela não parou de tentar falar sobre o “crriaadourro”, mas era muito difícil compreender sua fala. Pedi para que os soldados, que esperavam do lado de fora do consultório, trouxessem comida e água para ela. Da minha parte, optei por dar tranqüilizante àquela mulher. Não queria que ela fosse interrogada, porém ela insistia: “Nã… p… dorrmirr. Q…falarrr…”. A observando de perto, percebia sinais de desidratação. Não sei se ela teve sorte de ter sobrevivido, pois com certeza ficará com seqüelas físicas e mentais.

Os militares trouxeram o que pedi. Ela se alimentou vorazmente e bebeu água, pedi para ela não exagerar, pois passaria mal, mas entrou em um ouvido e saiu pelo outro. Ela vomitou grande parte do que tinha ingerido pouco depois. Após vomitar, ela bebeu água, mas dessa vez sob minha orientação, comeu algumas bolachas e sentou-se.

“Você precisa se acalmar, por favor, tome o tranqüilizante”, disse a ela com um tom calmo de voz. Ela me olhou e falou de vagar, engasgando um pouco: “Eu… preciso falar…”. Respondi a ela: “Esse remédio não irá derrubá-la, apenas deixará você mais tranqüila. Você poderá falar”. Ela negou com a cabeça e disse: “Não… quero… ficar grogue”. Garanti que não ficaria, que lhe daria uma dose apenas para baixar sua ansiedade, ela, mesmo desconfiando um pouco, aceitou e tomou o remédio.

Assim que o engoliu, pediu para que eu chamasse o Comandante. Então pedi para que os soldados o chamassem e, junto a ele, pelo menos um médico para examiná-la direito. Enquanto esperávamos pelo militar, sugeri a ela que tomasse um banho, já que meu consultório era o quarto de uma das residências da Necropoli. Ela aceitou. Pedi para uma das moradoras emprestar-lhe uma roupa e ajudá-la com o que fosse necessário. Antes de sair, perguntei seu nome: “Suzana”, respondeu-me.

Suzana demorou bastante no banho, talvez para tentar tirar o grosso da sujeira, nisso o Comandante chegou. Sabendo que ele não era um homem sensível, conversei brevemente a respeito do interrogatório que faríamos: como fazer as perguntas e até onde ir; já que iríamos interrogar uma pessoa em choque. Ele concordou, mesmo tendo deixado sua impaciência tomar conta da conversa em alguns momentos.

Suzana voltou, ainda encardida, mas aparentemente mais limpa. Pedimos para que ela se sentasse e contasse o que ela queria nos dizer. Colocarei os trechos mais importantes da conversa:

Suzana: Eu sobrevivi… (Pausa, olhando para o espaço a frente como se estivesse em outro lugar. Seus olhos ficaram úmidos). Sobrevivi… (Mais uma breve pausa). Aquele lugar… horrível! O cheiro! O ambiente! A tensão… A morte era certa… Era inevitável… inevitável. (Chora copiosamente).

Eu: Suzana. (Pausa. Ela chora mais um pouco e depois me olha). Quer falar sobre isso outra hora?

Suzana: (Desesperada) NÃO! Vocês não sabem o que é aquilo! Vocês não sabem o perigo que correm! (Levanta-se).

Eu: Por favor, Suzana, acalme-se. (Pausa). Você pode falar. Que lugar é esse?

Suzana: Um criadouro! (Pausa. Suzana senta-se, balançando as pernas ansiosamente). Eles nos capturam e criam como se fossemos animais. (Chora mais um pouco).

Comandante: (Impaciente). Eles quem?

Suzana: Os mortos. Os mortos nos colocam para viver em grandes valas. Nos alimentam como porcos. (Olha chocada para a parede branca, como se deslumbrasse exatamente a cena em sua frente). Eles queriam que nós procriássemos! (Volta a chorar).

Eu: (Atônito). Os mortos faziam isso com vocês? Esses mesmos mortos que a estava perseguindo?

Suzana: Não! (Olha para os meus olhos. Olhar desesperado). Outros! Esses não sabem o que fazem… Eles me perseguiram porque os outros descobriram que nós fugimos.

Comandante: Quem são “nós” e os “outros”?

Suzana: Eu não fugi sozinha… Fizemos uma rebelião… Éramos alguns, mas só eu sobrevivi. (Pausa). Meus amigos foram devorados e se tornaram amigos deles.

Comandante: (Desconfiado). Os que te perseguiam eram seus “ex-amigos”?

Suzana: Não só. Alguns poucos eram. (Pausa). Bem poucos… A maioria não.

Comandante: Eles não estavam apodrecendo…

Suzana: Não! Eles se alimentavam de nós e de animais! O criadouro é pra isso! Para eles terem alimentos!

Comandante: (Ainda mais impaciente). Mas por que um criadouro humano?! Demoramos demais para ter filhos.

Suzana: Não tinha só o nosso! (Pausa). Vi criadouros de coelhos e ratos também.

Comandante: (Pensativo). O que eles faziam com vocês?

Suzana: Só nos alimentavam e queriam que procriássemos! (Pausa. Chorando). Mas não dava! Não lá! Não daquele jeito!

Comandante: (Perdendo a paciência). Se eles se alimentavam de animais, pra que criar humanos? Nós damos mais problemas para eles do que meros animais! Me diga o que eles faziam com vocês? Por que eles queriam que procriassem?

Suzana: NÃO! (Em choque). Não!

Eu: Suzana! Está tudo bem. (Com voz calma e amigável). Você está salva. (Pausa). Por favor, acalme-se. (Pausa maior). Nos fale quem são os “outros”.

Suzana: (Chorando, tentando se acalmar). São os líderes… (Pausa). Eles olhavam diferente. Falavam… (Pausa). bem lentos… Pareciam débeis mentais.

Comandante: (Constatando). Debile Immortuos.

Eu: (Confirmo com a cabeça).

Suzana: (Olhando desconfiada). Eles só pareciam débeis mentais… Eles não eram.

Eu: (Confidente). Acreditamos em você, Suzana.

Suzana: Principalmente o dono. (Pausa). Ele nos ameaçava. Dizia que se não procriássemos, seríamos levados para alimentar seus “irmãos”, ou algo parecido. (Pausa). Ele falava como se estivesse vivo.

Comandante: (Olhando para mim). Você sabe o que é, não?

Eu: Sim, Comandante.

Comandante: (Olhando para ela). Quem é esse dono?

Suzana: Não sei seu nome. Mas era um morto.

Eu: Você o viu? Pode descrevê-lo?

Suzana: Não o vi. Apenas sua sombra, quando eu fugi. (Pausa). Ele nos disse: “Inútil fugir! Não há portas que sejam capazes de impedir a morte de pegá-los”. (Grifo meu).

O interrogatório não foi muito além disso, mas aquela frase está me perturbando. A semelhança é muito grande. O Comandante disse que enviará amanhã um grupo de busca ao local que Suzana nos indicou; pedi para ir junto.

Eu realmente preciso saber. Preciso acabar com minhas dúvidas.

29º Post

A dúvida prossegue, mas soma-se outro evento a ela. Logo após ter terminado de escrever o post anterior, ouvi o comunicador de minha república tocar em alerta. Fui ver o que era e havia uma grande movimentação de militares dentro de nossa Necropoli. Escutei tiros – o que me deixava ainda mais preocupado com a gravidade da situação – e urros furiosos aparentemente fora de nossos muros.

Curioso, segui os militares e vi dezenas de immortuos empurrando o Portão 3, quase o derrubando. De dentro, os militares usavam lanças, enquanto quatro ficavam nas guaritas próximas com fuzis e pistolas. O que mais me impressionava disso tudo era o fato de que aqueles immortuos não estavam podres e lentos. Eles eram “novos” e rápidos, talvez tivessem acabado de passar pelo rigor mortis, não sei dizer, mas ainda estavam “novos”.

Senti meu coração perder o compasso e um frio gelou minha espinha. Os militares tiveram muita dificuldade para parar aqueles seres, e provavelmente não conseguiriam, se algo não os tivesse chamado para longe de nosso portão. Um urro gutural e aterrorizante pareceu soar como uma trombeta e aquelas criaturas deram meia volta e passaram a nos ignorar indo embora tão rápido quanto surgiram.

Nunca tinha visto aquilo. Não sabia o que estava acontecendo, nem quem tinha dado o tal urro, sei apenas que havia algo comandando aquela turba; o que era extremamente perturbador.

Os militares estavam tão pasmos e assustados quanto eu. Eles haviam gastado muitas munições e quase perderam lanceiros. Além disso, tínhamos um novo problema estrutural, o portão estava inutilizável e frágil. Convocamos vários moradores e consertamos rapidamente o portão da melhor forma possível.

A dúvida persiste. Mais forte e mais aterradora.

28º Post

Hoje, aproximadamente duas horas atrás, tivemos a visita de um grupo numeroso de immortuos em um de nossos portões. Estavam todos decompostos quase ao extremo. Alguns deles se arrastavam, outros caminhavam lentamente. Nossos vigias nos avisaram e nos mantivemos longe dos portões, com a intenção de não atiçá-los.

Eles se permaneceram por lá tentando derrubar o Portão 3 até a chegada dos militares, que com lanças longas de metal perfuravam suas cabeças. Cada lança era manuseada por dois militares através do portão, pois esses immortuos apodrecidos eram muito fortes e resistentes. Alguns deles, por reflexo, tiravam a lança de sua direção com tamanha força que as entortavam. Mesmo assim eles foram executados, um por um; infelizmente, não antes de deixar o portão 3 levemente danificado.

Talvez soe estranho eu mencionar que os militares utilizam lanças, mas isso é um fato por aqui. Atualmente, cada militar anda com apenas uma pistola com um único pente e uma tonfa ou cacetete de ferro que são ineficientes quando se entra em contato com um número grande dessas criaturas; as armas mais pesadas ficam para proteger a Necropoli Militar.

Na situação atual é muito difícil produzir armas de fogo, portanto retomamos práticas antigas. Os arcos e bestas de mão, além de flechas e setas estão voltando a serem produzidas de forma artesanal. Além disso, também estão sendo feitas azagaias, fundas, lanças longas, bastões de madeira, boleadeiras e facões. Futuramente, acreditamos, que voltaremos a desenvolver tecnologias bélicas que nos protejam com mais eficiência, porém no momento é isso que temos.

Em comparação, não são apenas os nossos armamentos que retrocederam a um “período” medieval. Nossa forma de subsistência também. Nós, da Necropoli Civil e da Necropoli Militar, utilizamos um vasto terreno comunitário, também protegido por muros e guaritas, onde há plantações de verduras, legumes e frutas, além de criação de galinhas, coelhos e ratos de laboratório; fontes de carne que não ocupam muito espaço.

Porém, até mesmo criar esses animais dá muito trabalho. Eles são monitorados constantemente, para que não haja problemas com mortos em seus viveiros. Além disso, a preparação da carne é sempre muito cuidadosa, para que não criemos infectas acidentalmente.

Esses cuidados também são estendidos para nossos próprios mortos. Adotamos uma prática que nossa sociedade cristã consideraria bárbara: mutilação do cadáver. Como os cadáveres agora são fonte de combustível, todo recém falecido tem seu cérebro destruído imediatamente, depois ele é mutilado e suas partes são levadas aos laboratórios.

Com essa nova prática funerária, as alas hospitalares tiveram que passar por mudanças, além de nós todos estarmos passando por um processo de reeducação: necessidade versus crenças e taboos.

Os doentes graves são amarrados nas camas. Até mesmo no caso de cirurgias, eles amarram o paciente anestesiado, para o caso de, acidentalmente, eles falecerem durante o processo. Afinal de contas, cuidado nunca é demais.

Já tivemos problemas de pessoas que tiveram mortes fulminantes em casa, mas a situação foi rapidamente resolvida, por sorte. Os próprios moradores da república destruíram o immortuos recém erguido.

Retornando ao caso que me levou a escrever esse post. Após a destruição dos immortuos que estavam em um de nossos portões, os militares pegaram os corpos e levaram para seus laboratórios. Agora, o que levou essas criaturas a se aproximarem de nossa Necrópoli em grande número ainda não descobrimos. Talvez nosso cheiro voltou a atraí-los.

Quem sabe?

27º Post

Atualmente, com todas as minhas responsabilidades, tem sido difícil eu parar para escrever aqui no blog. Estou trabalhando como psicólogo para os moradores de nossa Necropoli. Há muitas histórias difíceis aqui dentro. Muitas pessoas precisando se reestruturar internamente.

Entretanto, vamos ao que interessa realmente para esse arquivo de sobrevivência. No post anterior contextualizei historicamente esse tempo que fiquei sem escrever e expliquei por cima como estamos vivendo nas Necropolis aqui em Campinas. Porém, não disse nada do que vimos lá no Laboratório Médico. Já considerava o que eu havia testemunhado no outro laboratório algo avançado nos estudos sobre esses seres que nos aterrorizam, porém, os arquivos que os militares do Laboratório Médico possuem é de se espantar. Evandro estava certo quando disse que havia arquivos que remetiam a “antigüidade”.

No primeiro mês que estive aqui na Necropoli Militar, eu e Alessandra fizemos amizade com alguns cientistas. Contei a eles sobre meu arquivo de sobrevivência e sobre o que já tinha observado a respeito dos immortuos. Porém, não revelei nada a respeito de minhas experiências no outro laboratório. Com o tempo, demonstrando minha curiosidade e reflexões, além do carisma e conhecimentos biológicos de Alessandra, conseguimos a simpatia deles e eles nos permitiram ler um ou outro arquivo mais superficial sobre o assunto. Foi apenas quando eu citei o “agente Paiva” e seus comentários, e Alessandra contou sobre seu trabalho no outro laboratório, que eles nos viram como “iguais”; porém, sem o direito de entrar nos laboratórios, eles apenas nos permitiram ver os arquivos.

Sei que foi arriscado abrir o jogo de tal forma, mas era o que nós podíamos fazer; e valeu a pena. Li registros que soariam para mim, antes disso tudo acontecer, como folclore ou coisas do gênero. Histórias sobre mortos que se levantavam do túmulo por ter um funeral “pagão”, ou pessoas que faziam pactos com espíritos malignos e se tornavam canibais longevos, mas extremamente malignos e inumanos. Entre outras coisas.

Me questionei: Como tudo isso chegou no estado que chegou? Como permitiram que esse fenômeno, muito antes conhecido, saísse do controle? Foi apenas quando reli meus posts que retomei algo que Evandro tinha dito sobre as proporções. Aqueles que detinham o conhecimento sobre esse fenômeno o viam, inicialmente, como algo extremamente raro e o tratavam assim. Foi em questão de uma semana que tudo mudou: que uma proporção de um para um milhão, caiu para um por um. Acredito que, quando eles perceberam que as coisas estavam mudando, já era tarde demais.

Fora essa proporção quantitativa, houve uma mudança na questão temporal da transformação. Li arquivos que estabeleciam o tempo de transformação de um cadáver em um immortuos como sendo de 1 a 3 dias – o que talvez explique a prática de longos funerais, com o intuito de garantir que o cadáver não voltaria, suponho – e em questão do mesmo período de ampliação dos immortuos, o tempo baixou, segundo os poucos arquivos que trataram disso, para de 6 a 12 horas, posteriormente caindo para o que conhecemos atualmente de 2 a 60 segundos. Algo extremamente rápido.

Outro fator importante é que: há muito tempo que os pesquisadores descartaram a idéia de que era uma doença virótica ou bacteriológica. Muitos acreditam que seja algo genético; mas isso não passa de uma crença, não há comprovações. Ela não é contagiosa como mostram nos “filmes de zumbis”. Não é a mordida que passa a “doença”, como eu já disse anteriormente. Esse foi um outro ponto que pegou os conhecedores do assunto de surpresa. Por não ser “contagioso”, eles não tinham como imaginar que o número desses seres aumentaria de uma hora para outra.

Pelo que parece, esse fenômeno era conhecido por muitos países do mundo e todos tinham estabelecido monitorias em seus devidos territórios. Eles sabiam que as pessoas teriam dificuldade de lidar com tal fenômeno, principalmente porque ele colocava em cheque várias explicações científicas além de que esses seres são mortíferos, altamente perigosos. Por essas razões, dizem, eles mantiveram as informações escondidas. Esses países mantinham contatos periódicos a fim de trocar informações, descobertas e formas de alertar o público sem alardear; talvez daí tenham surgido alguns “filmes de zumbis”.

Por esse motivo também, os arquivos continham nomenclaturas iguais as que vi no outro laboratório: Infectas, Immortuos, Bestia Infecta, Bestia Immortuos. Porém, aqui há sub-divisões, ou sub-classes desses seres. Os infectas e Bestia infecta, “infelizmente”, mantinham-se sem subdivisões, pois todos possuíam os mesmos traços comportamentais. Já os Immortuos e Bestia Immortuos possuíam diferenças comportamentais em seus próprios grupos.

Immortuos: Insanus Immortuos, Debile Immortuos, Sapien Immortuos. Respectivamente: aqueles immortuos insanos, sem nenhuma capacidade intelectual; os immortuos com capacidade intelectual mediana, porém o suficiente para utilizarem até mesmo armas de fogo, mesmo que com pouca precisão; e os com capacidade intelectual idêntica a que tinham quando eram vivos. Ou seja, finalmente eu vi algo que confirmou minhas suspeitas sobre o caso “Marcos”.

No caso dos animais há apenas duas subdivisões: Insanus Bestia Immortuos e os Bestia Immortuos. Sobre os primeiros não há necessidade de explicação. Os segundos são animais desmortos que mantém seus hábitos táticos. Às vezes é muito difícil de diferenciar um do outro, mas segundo os experimentos realizados no Laboratório Médico, eles perceberam que havia diferenças comportamentais bem sutis entre os bestia immortuos.

Creio que sejam importantes essas definições e delineamentos dos comportamentos desses seres, para entendermos a variedade de situações que podemos ter de lidar. É importante saber que são raras, segundo as pesquisas, a existência dos debile immortuos e muito raras as dos sapiens immortuos. No Laboratório eles nunca tiveram nenhum espécime da sub-classe mais inteligente. Tudo que eles possuem são relatos de campo.

Tudo isso na verdade, me deixa ainda mais apreensivo a respeito do que está acontecendo. Onde estão esses immortuos? Como sumiram tantos?

26º Post

Muito tempo se passou. Muitas coisas mudaram. Conseguimos sobreviver, creio que 60% foi por sorte, 30% por boa vontade de outros e 10% por habilidades nossas.

Não podemos negar que uma das nossas vantagens – dos seres humanos em geral – em relação aos immortuos, é que eles não se procriam. Para que um deles passe a existir, deve haver quem morra. Com o aumento no número de immortuos, houve uma diminuição no número de vivos. Não sei exatamente se eles começaram a apodrecer em algum recanto enquanto buscavam animais longe dos centros urbanos, ou se simplesmente já não sabiam o que fazer sem ter de quem se alimentar e começaram a apodrecer em lugares exclusos das cidades. Realmente não sei. Sei apenas que o número deles decaiu muito. A maioria dos que estão por ai, estão em estados diferenciados de putrefação e o que os deixam lentos; até mesmo os animais immortuos são raros de serem vistos. Isso me deixa realmente preocupado, principalmente que nenhum daqueles que tive contato nesses últimos meses apresentavam algum sinal de inteligência. Onde estão eles? A imagem da emboscada que sofremos em minha memória ainda me faz refletir bastante sobre esse assunto.

De qualquer modo, após sermos encontrados pelos militares, aproximadamente um mês depois dos últimos ocorridos que postei, eu, Gustavo, Marcela e Alessandra fomos levados para o Laboratório Médico da UC, atualmente uma Necropoli Militar. Também estranhei esse termo de início, tal como a maioria das pessoas ao redor do mundo deve ter estranhado quando essa palavra: “Necropoli”, começou a designar não mais cemitérios e lugares onde os mortos “moram”, mas onde os sobreviventes, os seres vivos que restam, vivem.

Passei todo esse tempo sem postar por vários motivos. Desde adaptação à Necropoli Militar que estávamos – afinal, precisava conhecer as pessoas com quem eu estava lidando – até problemas tecnológicos que passaram a existir. Na época que parei de escrever, a bateria do meu laptop havia esgotado completamente, fui descobrir isso quando tentei recarregá-la no Laboratório Médico, mas ela não só não recarregou como meu laptop sofreu algum curto. Consegui resgatar o que tinha no HD assim que adquiri um novo computador, o que demorou muito para acontecer.

Parece que as Necropolis de Campinas não foram as únicas a se erguerem. Em todo o mundo tiveram novas sociedades surgindo, soubemos de algumas graças às tecnologias de comunicação que ressurgiram após o período de escuridão pelo qual passamos.

Certo. Estou jogando um monte de informação, talvez porque esteja um pouco ansioso após esse longo período sem escrever. Tentarei esclarecer melhor como vivenciamos tudo isso em Campinas.

O período de escuridão durou aproximadamente dois meses, onde não tínhamos mais fontes de energia. Não sei exatamente o que levou a esse apagão, sei apenas que ele não durou muito, pois os cientistas e os militares já estavam contando com esse tipo de evento. Assim eles começaram um processo de desenvolvimento de baterias solares, transformação do gás metano dos cadáveres em combustível e dínamos movimentados por energia cinética; física não é meu forte, portanto não entrarei em detalhes sobre isso.

Durante esses dois meses, nossas luzes eram basicamente: tochas e lamparinas, além de lanternas com o mesmo mecanismo de dínamos cinéticos que mencionei no parágrafo anterior. Ao fim dessa fase, ou seja, recentemente, já com energia, os meios de comunicação foram sendo restaurados. Graças a isso estou escrevendo aqui novamente.

Na Necropoli Militar do Laboratório Médico, tinham por volta de três mil sobreviventes; bastante para a área reduzida onde ela foi formada. A relação militares e civis era bem melhor que no antigo laboratório, mas há razões para isso, a principal era que: dos três mil habitantes, um pouco mais de dois terços eram civis (contando com alguns cientistas). Maus tratos lá, com certeza gerariam tumultos entre outras situações bastante tensas; o que acabou ocorrendo uma hora ou outra.

Recentemente, após uma grande reunião e votação democrática na Necropoli Militar, decidimos por criar, em outro espaço, mas bem próximo, a primeira Necropoli Civil. Aproveitamos a diminuição no número de immortuos para fazê-lo, claro que com a ajuda dos militares.

A nossa Necropoli Civil da Cidade Universitária foi erguida com bastante suor. Fechamos uma área de aproximadamente duzentas residências com cercas e barricadas, que mantivemos até que terminássemos de construir muros altos o suficiente para que os immortuos tivessem dificuldade de pulá-los. Essa construção demorou razoavelmente, pois tivemos que fazer excursões para outros lugares em busca de materiais, porém, todos os civis estavam envolvidos em alguma atividade, o que acelerou bastante o levantamento do muro propriamente dito. Até mesmo a “esterilização” auxiliada pelos militares foi feita na maior parte por civis.

Caçamos e destruímos cada immortuos que se encontrava em nossa área. Limpamos todas as casas, desinfetamos com produtos químicos fortíssimos e as dividimos em repúblicas; infelizmente ainda não há como dividir por famílias, pois precisaríamos de uma área bem maior, o que é proporcionalmente arriscado. Para as necessidades atuais, duzentas residências já estão de bom tamanho. Não posso negar que a divisão das repúblicas foi um processo complicado, já que nem todo mundo se sentia agradado com as decisões, mesmo que essas tenham sido feitas democraticamente.

Cada república, ou “mausoléu” como alguns dizem, contam com pelo menos duas bicicletas – sim, no momento é inviável manter automóveis, mas os cientistas, engenheiros mecânicos (incluindo Gustavo), entre outros, estão pesquisando novas formas de “combustível” para carros, motos, etc – além de possuírem um comunicador direto com a base militar.

Na extensão dos muros temos vinte guaritas altas, na qual ficam dois vigias por turno. Esses vigias não possuem armas de longo alcance e têm em mãos um sistema bem simples de comunicação, o papel deles é simplesmente deixar as pessoas avisadas da proximidade de immortuos e em casos de risco, eles também possuem comunicação direta com os militares. Até o momento tivemos poucos problemas para resolver.

Nas escolas tivemos que priorizar além das ciências exatas – que nos ajudará a reformular a tecnologia futuramente – a pratica de esportes. Todos sabem da importância de ter um bom preparo físico para sobreviver esse tipo de calamidade, portanto: atletismo, le parkour, artes marciais (principalmente as que mexem com armas brancas), etc, passaram a ser parte do currículo não só como “educação física”, mas como disciplinas a parte; o estudante escolhe pelo menos dois esportes que quer treinar.

As decisões da Necropoli são feitas em “praça pública”, onde todos têm o direito de opinar e votar, porém é opcional, vai quem quer. Preferimos assim, pois nos dá uma sensação de retorno a democracia e a vida, não a “sobrevida”.

Com o tempo vou falando de como estamos vivendo em nossa Necropoli e os planos de ampliação futuras. Quem sabe um dia, poderemos povoar o mundo novamente e tornar isso tudo mais seguro, ao contrário do que acreditava Lúcia.

25º Post

A bateria do laptop está acabando. Como não tem energia elétrica onde estamos e talvez em toda cidade, provavelmente esse é o último post.

Provavelmente o último de todos. Espero que esse arquivo tenha serventia para quem o ler. Mesmo sabendo de tudo o que sabíamos, não conseguimos sobreviver. Não vejo muita perspectiva para nós quatro, só estamos adiando o irremediável.

Atenciosamente,

Paulo Vieira Sales.

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