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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (parte 4)

            – Então vamos ver quem é a mais poderosa? – Sol’al escuta o que parece ser o final da discussão entre as duas clérigas, vindo em baixo drow da boca da Dyrr.

            Desde que a clériga Xorlarrin chamou a atenção de Alak, as duas clérigas estão discutindo firmemente. Sol’al, do início da discussão até o momento, está apenas observando o embate, sem tomar partido. “Vamos ver quem demonstra mais poder”, observa o mago enquanto reflete qual seria o melhor curso de ação a realizar. Com certeza em sua mente não se passa nenhuma idéia de entrar em confronto com qualquer clériga de Lolth, mas, mesmo assim, ele precisa ser capaz de escolher qual seria mais vantajosa de ter como aliada.

            – Nossa deusa está em silêncio, você sabe disso. – responde a clériga Xorlarrin, obviamente tentando contornar a situação.

            Sol’al sente uma ponta de decepção se misturar com o resto de ansiedade – que ele estava sentindo por ter passado pelo ninho abandonado – ao ver uma atitude medíocre de sua Senhora Xorlarrin.

            – E o que isso importa? Nossa deusa prega a busca por poder, não? Nosso objetivo não é cada vez ser mais poderosas? – inquire a clériga Dyrr, com um olhar ameaçador – Tamanha dependência de suas magias mostra apenas sua fraqueza.

            Sol’al se espanta com o imenso pragmatismo vindo da clériga e sente que seu coração concordou com cada palavra dela e, pelo que ele observa, a Xorlarrin também concordou. Vendo a Dyrr segurar sua maça com a mão direita, Sol’al percebe a Xorlarrin tremendo diante de uma oponente mais forte.

            Por mais que a aparência da Xorlarrin seja mais bela e sedutora, a Dyrr é mais ameaçadora e imponente. O semblante de liderança é facilmente perceptível nessa clériga.

            Sol’al observa a situação esperando uma reação da Xorlarrin, que não surge. Ele olha ao redor para tentar ver o que se passa no semblante de cada um que lá se encontra. Rizzen está apreensivo. “Ele sabe que se sua clériga desistir, será vergonhoso para sua Casa”, conclui mentalmente Sol’al. Alak já percebeu a superioridade da outra clériga e demonstra não estar ligando muito para o embate. O mercenário parece saber que não ocorrerá confronto físico, pois se tivesse alguma chance de ocorrer tal confronto, ele teria que estar preparado para proteger a Xorlarrin. “A não ser que ele quebre seu contrato de proteção. Ou que tenha sido a própria Dyrr que o tenha contratado”, reflete o mago.

            Os inferiores ele nem se preocupa em analisar, mas percebe que todos estão de olho no confronto, menos o goblin musculoso que está na boca do túnel, observando a caverna de onde vem o batuque dos tambores. “O que será que tem naquela caverna?”, se pergunta Sol’al quando sua atenção volta ao embate das servas de Lolth graças a uma forte risada da clériga Dyrr.

            – Patética. – comenta ela, balançando negativamente a cabeça.

            “Arrogante demais para uma líder de um culto herege”, se decepciona Sol’al.

            – Façam o que ela pedir. – diz a clériga Dyrr aos seus companheiros em subterrâneo comum.

            – Como? – o gnoll pergunta – Desculpe, Senhora, mas não entendi o porquê.

            Sol’al olha para a Dyrr, também estupefato.

            – Um confronto com eles seria inútil. Deixe que eles sigam essa tola. – responde ela em goblinóide para o gnoll.

            O mago compreende e resolve esperar para ver. Provavelmente a Xorlarrin irá querer algum tipo de punição para esse grupo e a morte da clériga. Ou talvez não, apenas a morte dos inferiores e a humilhação da herege. “Acho que nem mesmo a Casa Agrach Dyrr se importaria com isso”, comenta Sol’al mentalmente com um sorriso no rosto.

            – Mago, chame o ogro. – ordena a clériga a Sol’al, sem tirar o olho da Dyrr e ainda tremendo – Rápido!

            Sem entender, o mago Teken’Th’Tlar sai correndo em direção a abertura do túnel pelo qual entraram. No caminho, a ordem passa a fazer sentido. “Antes de tentar algo contra o grupo herege, ela parece querer se sentir mais segura. Afinal, o ogro também foi contratado para protegê-la”, raciocina Sol’al, se decepcionando ainda mais com a fraqueza da Xorlarrin. “Se Lolth estivesse ativa…”. Várias possibilidades passam pela mente de Sol’al, e nenhuma muito agradável para a clériga mais fraca.

            – Mercenário! Você está sendo convocado. – grita o mago para Brum, que logo começa a escalar.

            – Virou garoto de recados, maguinho? – pergunta Brum sarcasticamente.

            Ignorando o ogro e sem perder tempo, Sol’al parte de volta para ver se algo está ocorrendo. Ao chegar ele vê a mesma cena, como se nada tivesse mudado. Apenas o goblin musculoso se juntou à roda.

            – Então? O que você vai querer de nós? – pergunta a Dyrr, quebrando o que parecia ser um longo silêncio.

            – Larguem suas armas. – responde a Xorlarrin, ainda com as mãos fraquejando.

            “Até que sua voz está conseguindo esconder o medo e a raiva”, comenta consigo mesmo Sol’al.

            – Façam isso. – ordena a clériga Dyrr aos seus fiéis, com um sorriso no rosto.

            O goblin robusto olha com desconfiança para a clériga de seu culto, mas um olhar confidente por parte dela acaba fazendo com que ele coloque seus machados e sua zarabatana ao chão. A própria clériga Dyrr coloca sua morningstar e seu escudo junto aos machados do goblin e o gnoll deita sua halbert próximo ao monte. Ele espera que a kobold tire algo do seu robe, mas ela nada faz. O mago até pensa em pedir para que a Xorlarrin ordene que a pequena reptiliana jogue fora todos seus componentes mágicos – sim, é perceptível que ela é uma maga ou feiticeira -, mas prefere deixar o culto herege com uma pequena vantagem. Sua lealdade ainda não está tão clara em sua mente, afinal a Dyrr ainda é mais forte que a Xorlarrin, e mais confiante também.

            De trás, o mago escuta os passos ruidosos de Brum. Antes mesmo que esse chegue junto ao grupo a Xorlarrin grita em subterrâneo comum:

            – Ogro, pegue essas armas e cuide delas!

            Sol’al sente a surpresa abrir involuntariamente sua boca. Além de a clériga ter falado diretamente com o inferior, ela ainda utilizou uma língua baixa. “Ela não está com medo, ela está desesperada”, pensa Sol’al. O próprio Brum é pego de surpresa com a ordem e perde alguns segundos raciocinando se o que ele escutou é real.

            Logo que a surpresa passa, Brum vai até o monte de armas e as coloca no grande escudo utilizado pela Dyrr, como em uma bandeja. Porém, ao tentar levantar o escudo, Brum nem mesmo consegue movê-lo, como se tivesse grudado no chão. Sol’al vê a cena e percebe instantaneamente que o escudo é mágico e que a clériga Dyrr já esperava por uma cena semelhante.

            Sem perder tempo, o mago conjura uma magia para detectar objetos mágicos e percebe que não só o escudo o é, mas também os dois machados do goblin e a morningstar da clériga, além da armadura que ela está usando e alguns outros itens que estão em posse dos hereges e dos Xorlarrin. Por curiosidade, Sol’al olha para os mercenários também e reconhece a aura mágica apenas nas espadas de Alak, pois Brum não tem nada mágico com ele.

            “As espadas de Alak… Parecem…”, algo nelas atiça a curiosidade do mago enquanto a conversa ao seu redor prossegue.

            – Deixe o escudo no chão. Pegue as armas. – ordena a Xorlarrin ainda em subterrâneo comum.

            A nova ordem da clériga dispersa a atenção que Sol’al estava colocando sobre a espada de Alak, que ao perceber os olhos do mago em sua direção, escondeu melhor suas duas amigas.

            – Sim, Senhora. – responde Brum, pegando todas as armas no colo e deixando o escudo no chão.

            – Ogro! Qual é seu nome? – pergunta a clériga Dyrr a Brum, fazendo com que Sol’al se espante com a delicadeza da pergunta.

            – Brum. – responde Brum, também espantado.

            – Não fale com ela! – grita a Xorlarrin.

            – Não precisa responder para mim, Brum. Só tenha cuidado com a minha morningstar, pois ela pode te machucar se tocá-la diretamente. – avisa a clériga.

            O olhar da Xorlarrin se enche de ódio pela falta de respeito da Dyrr.

            – Mercenário, cuide deles. – ordena a Xorlarrin a Alak, voltando a conversar em baixo-drow – Diga ao inferior para se afastar da inferior.

            – Sim, Senhora. – responde Alak, enquanto a sua protegida se afasta para a boca do túnel junto com Rizzen. Sol’al os acompanha.

            – Avise-os para não chegar tão próximo da beirada, pois eles podem ser vistos. – Sol’al escuta a Dyrr falar com Alak.

            – Senhora…

            – Não repita o que ela disse. – a Xorlarrin ameaça o mercenário, mas mesmo assim mantém uma certa distância da beirada da boca do túnel.

            Rizzen e ela já estão observando o acampamento quando Sol’al se junta a eles. Ele olha para a grande caverna e vê vários acampamentos. Vários orcs tocando tambores em homenagem a algo. Um draegloth parecendo estar comandando os inferiores. Achando estranho a presença de um draegloth naquele local, o mago se concentra nele e tenta encontrar alguma insígnia ou sinal que denuncie sua Casa. Sol’al não se surpreende quando vê a insígnia dos Xorlarrin segurando a tanga de pele que o meio-abissal usa.

            Com um sorriso de satisfação por ter descoberto parcialmente o que está ocorrendo, Sol’al começa a observar os outros acampamentos. Ele vê orogs, humanos, hobgoblins, goblins, vários de raças inferiores, escravos e livres. O símbolo no centro do acampamento desperta em muito a curiosidade do mago a respeito do que eles estão fazendo naquela caverna, mas quando ele está prestes a se concentrar para decorar os símbolos que estão sendo utilizados, o canto de seu olho prega uma peça.

            “Um drider?”, se pergunta ao ver um vulto passando no acampamento ao lado direito do símbolo. Ele vira-se para ver se é o tal drider aranha espectral que se encontra lá, mas logo ao se virar um estranhamento toma conta de sua mente. Ele vê vários drows tatuados com algo que parecem runas de cor branca, utilizando armaduras que se assemelham a exoesqueletos. Para seu maior assombro, seus olhos se deparam com o drider do qual ele havia visto o vulto. Não é o drider aranha espectral, mas sim um amálgama de drow e escorpião.

            “Por Lolth! O que será isso?”, se pergunta Sol’al, boquiaberto.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 3)

            Uma leve e quase inaudível batida ritmada é o único som que a clériga Sabal Dyrr está escutando naquele momento. Com todo o silêncio que tomou conta do ambiente, ela até se pergunta se aquela batida é de seu coração.

            Sabal, Mirka e Gromsh – junto aos dois espiões que os seguem – esperam o retorno de Stongest, que adentrou o ninho de um drider, aparentemente abandonado. Já faz algum tempo que Stongest está dentro da pequena caverna, mas sabendo que o meio-goblin-meio-algo é minucioso em seus trabalhos, Sabal não se preocupa em nenhum momento com isso. “Além do mais, provavelmente se houvesse algum drider nesse refúgio, ele já saberia que nós estamos aqui”, pensa a ex-Dyrr. Porém, a clériga se sente apreensiva em saber mais sobre o tal “filho de Lolth”, que nasceu como um drider. A história é bizarra demais para que ela consiga realmente acreditar; mas em nenhum momento ela deixa transparecer sua dúvida.

            – Ele não está mais aqui. – diz Stongest, retornando ao grupo.

            – Então é seguro continuarmos? – pergunta Sabal ao meio-goblin.

            Stongest responde positivamente com um aceno de cabeça. Sabal dá ordens simples com gestos de mão. Gromsh e Stongest vão à frente. Ambos já sabem que há algo ocorrendo no final do túnel adiante, pois as batidas, para eles, são claramente batuques de tambores. Mirka vai logo em seguida, já preparando feitiços de invisibilidade em sua mente, e relembrando uma ou outra magia de proteção contra qualquer possível ataque de seus acompanhantes. Sabal é á última, preferindo ficar mais próxima dos dois espiões.

            Eles caminham pela caverna cheia de teias, e o som dos batuques fica cada vez mais alto e distinguível. Algo está sendo realizado mais a diante. Um ou outro grito é escutado entre os batuques. “Gritos de louvor”, é o que parece a Sabal.

            Quanto mais eles caminham, mais altos ficam os sons. Quanto mais próximos eles chegam da boca do túnel, mais é perceptível que há algum tipo de acampamento ou cidadela na caverna adiante. Gromsh demonstra um grande espanto ao chegar furtivamente na boca do túnel, dizendo alguma frase em seu dialeto natal, não reconhecível por seus companheiros. Stongest logo se aproxima.

            – Encont’amos os o’cs. – diz ele quase sussurrando, fazendo com que Sabal tenha que aguçar seus ouvidos para escutá-lo direito.

            Sabal caminha vagarosamente para perto dos dois guerreiros, mas logo para quando Stongest faz um sinal para ela esperar.

            – Tentem não se ap’oxima’ tanto, há to’es de vigias p’óximas. Temos que toma’ cuidado pa’a não se’mos vistos.

            A ex-Dyrr continua ainda vagarosa, apenas para ter uma vista geral do que está ocorrendo. Ela consegue ver uma caverna gigantesca, na qual caberia, sem grandes problemas, uma pequena cidade drow. Vários acampamentos tomam conta do chão da caverna, e vários escravos – pelo que parece – trabalham na lapidação de algumas pedras preciosas do tamanho de cabeças de humanóides médios e as carregam para ornar um imenso símbolo – aparentemente arcano – que se encontra no centro do local. Próximo ao símbolo, uma grande criatura chama a atenção de Sabal.

            – Um Draegloth. – pensa ela em voz alta, mas sussurrando e vendo a criatura dar ordens a alguns orcs e hobgoblins que se encontram enfileirados. Observando mais atentamente o meio-abissal, percebe a insígnia de uma Casa. Ela respira fundo e tenta focar mais sua visão, para que possa ver sem ter que se aproximar mais da boca do túnel. “Xorlarrin”, suas suspeitas começam a fazer sentido agora. Provavelmente os Xorlarrin perderam o controle do meio-abissal, que acabou liderando a fuga dos orcs. “Para qual propósito?”, se pergunta Sabal.

            Sabal dá três passos para trás, considerando essa uma boa oportunidade para conversar com o tal Alak abertamente.

            – Me parece que suas respostas estão aqui, Alak. – diz Sabal em subterrâneo comum com o tom de voz habitual, não muito alto, mas audível o suficiente para ser bem compreendido.

            Ninguém responde de imediato, mas Sabal prefere esperar um pouco antes de tentar um novo convite. Sem muita demora, uma voz masculina surge há alguns metros atrás da clériga:

            – O que vocês encontraram?

            Não há nenhum constrangimento ou falsidade na voz do mercenário. “Pelo que parece, ele não está ligando para o que seu companheiro está pensando”, pensa Sabal.

            – O acampamento orc. – responde a clériga, sorrindo e olhando na direção de onde o eremita surge.

            Sabal se surpreende ao ver Alak. Ela não esperava que o drow que estava seguindo seu grupo fosse tão alto e não usasse uma piwafwi.

            – Rizzen, pode aparecer. Nós sabemos que você está aqui. – diz o eremita antes de prosseguir com a conversa – Poderia me aproximar, Senhora?

            – Claro. – responde Sabal fazendo um gesto amigável para que Alak vá até Gromsh e Stongest.

            – Se cê só tava esperando um acampamento orc, cuidado para não cair pra trás. – Sabal escuta Gromsh falando com Alak, enquanto ela observa o túnel esperando que o tal Rizzen se mostre, o que não demora muito.

            – O que vocês fazem aqui? – pergunta o guerreiro Xorlarrin a Sabal.

            – Um tanto mal educado você, não? – responde a clériga – Na sua Casa não ensinam os machos a serem mais respeitosos com as clérigas de Lolth?

            Rizzen deixa seu sorriso habitual tomar o rosto e responde cinicamente:

            – Desculpe, minha Senhora. Agora você poderia me dizer o que fazem por esses túneis?

            Sabal ri com a atitude de Rizzen.

            – Claro. Estamos em busca do filho de Lolth e vocês? – o tom de Sabal continua amigável.

            – Vaherun?

            Sabal ri ainda mais.

            – Que tal você responder antes?

            – Estamos atrás dos orcs desse acampamento. Não é óbvio? – Rizzen responde com arrogância, sem receio de punição.

            – É. Pelo que parece os Xorlarrin não ensinam bons modos a seus machos. – responde Sabal, deixando o sorriso de seu rosto se desfazer e fixando um olhar gelado no guerreiro – Ponha-se em seu lugar.

            A clériga segura firmemente o cabo de sua morningstar e começa a se aproximar do Xorlarrin.

            – Me desculpe, Senhora Dyrr. – diz ele ao ver o emblema da Casa de Sabal em seu escudo – Não irei repetir tal erro.

            Sabal tenta se controlar, mas não consegue segurar o riso.

            – Terminemos a conversa por aqui, pois desse jeito acabarei chamando a atenção de seu parente peludo ao explodir sua cabeça com minha arma. – diz ela ainda rindo e virando suas costas para o guerreiro Xorlarrin, sem ver a expressão de desgosto que toma conta de seu rosto.

            Ela sabe que Rizzen teria uma grande vantagem em atacá-la nesse momento, mas também sabe que ele não o faria por dois motivos: o primeiro porque ele está desconcertado demais para pensar em fazer algo, o segundo porque ele está em uma tremenda desvantagem numérica para agir tão estupidamente.

            Sabal vê na boca do túnel: Gromsh, Stongest e Alak. O mercenário e o guardião parecem estar analisando tudo e todos que estão no acampamento, enquanto o gnoll parece estar apenas de vigília.

            – Gostou da resposta, Alak? – pergunta a clériga sorrindo ao mercenário.

            Sem se virar ele responde:

            – Interessante…

            – Então encontrou seus “amigos”, herege? – Sabal, Alak e Gromsh viram-se simultaneamente ao ouvirem a voz da clériga Xorlarrin. Mirka já estava vigiando a retaguarda e por isso não se surpreendeu com a chegada.

            – Parece que alguém resolveu dar as caras, ao invés de apenas mandar espiões. – Sabal desafia a Xorlarrin não só com palavras, mas com um olhar penetrante.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (Parte 5)

            O cheiro de fezes e corpos em putrefação agrada a narina do humano Malazir Penaril, principalmente quando esses apreciados odores se misturam com o cheiro de sangue fresco de um recém sacrifício ao seu senhor demoníaco: Shormongur. Ele olha para seu companheiro e irmão de fé, Folkyr, um orog que seria muito belo, se não fossem os escrementos e sebos que encobrem grande parte de seu corpo.

            – Há muito que espero vocês me chamarem. – uma voz cavernosa ressoa por detrás de seus ombros, fazendo com que ambos se virem dando as costas ao altar de sacrifício – O que causou tanta demora?

            – Meu Senhor. Mestre da Degradação, da Destruição, da Corrupção e do Fogo que a tudo consome, nos perdoe pela demora, porém as preparações para o ritual está ocupando muito de nosso tempo. – responde Folkyr ajoelhado aos pés de seu mestre glabrezu, enquanto Malazir complementa.

            – Isso é verdade Grande Senhor. O Grande Ancião está ausente e, em sua ausência, eu e Folkyr somos os dois conjuradores mais competentes. Somos nós que devemos guiar os procedimentos e os preparatórios para o imenso ritual.

            O glabrezu esboça um sorriso no rosto.

            – Provavelmente a serpente está aumentando sua rede de intrigas e colaboradores. – comenta o demônio com contentamento em sua voz – E o meu filho?

            Malazir e Folkyr se olham antes de responder ao seu mestre. O local do altar, onde estão conversando com Shormongur, é uma caverna próxima a Menzoberranzan. O altar foi criado por Zaknafein – o filho de Shormongur – e seus servos orcs com toda a fé que esse possui em seu pai.

            – Tememos que ele possa estragar tudo, Senhor. Até o momento ele está sendo extremamente útil, entretanto, seu filho, sente a liderança do Grande Ancião como uma afronta ao Senhor. – responde Malazyr.

            O glabrezu gargalha.

            – Meu filho me surpreende com a fé que deposita em mim. Porém não permitam que estrague nosso plano. – ordena Shormongur com rispidez, antes mesmo que o eco de sua gargalhada deixasse o ambiente.

            – Não permitiremos, Senhor. – responde ambos conjuradores em uníssono.

            – Não importa o quanto não confiamos na serpente, não podemos de forma alguma encará-lo apenas como um empecilho. – diz o demônio seriamente aos seus seguidores – Não podemos subestimá-lo como um tolo que não sabe a amplitude do que está fazendo. Ele está a mais de um século criando as passagens necessárias para os principais pontos do grande ritual. Seja quais forem seus objetivos, não podemos perder a oportunidade de participar.

            Ambos os fieis concordam com um asceno de cabeça.

            – Se temos até mesmo companheiros de outros planos participando desse imenso ritual, por que nós, não iríamos concordar com o Grande Ancião? – Shormongur sorri e gargalha – Não importa a intenção da serpente, o Abismo abrirá suas portas e aqueles que estiverem preparados reinarão soberanos em todos os planos. A serpente que aguarde.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 5)

            – MOROR! – o grito sai como o urro de um animal enfurecido da garganta de uma criatura grande e negra, com uma volumosa juba branca e focinho semelhante ao de um lobo.

            Os orcs param de trabalhar em suas armas e barracas, e olham temerosos para o draegloth que está posicionado no topo de um barranco, olhando todos de cima para baixo. A cena faz alguns orcs lembrarem da imagem de um grande lobo se preparando para atacar um rebanho de indefesos animais. Eles tremem perante a majestade do filho de seu novo senhor.

            – CADÊ MOROR! – grita novamente o imenso draegloth.

            Os orcs se entreolham confusos. Moror era um antigo general orc que fora capturado pelos drows a muito tempo. Foi um dos principais servos de Zaknafein e de seu pai, mas em seu coração Gruumsh ainda morava. Alguns orcs sabiam disso e temiam que o meio-abissal tivesse descoberto algo.

            Fazia mais de um ano que os orcs haviam fugido aos poucos de Menzoberranzan, graças ao auxílio de Zaknafein e de seu pai demoníaco. Mas havia apenas algumas semanas, um pouco mais de um mês, que o draegloth tinha se juntado as fileiras orcs para liderá-los. Enquanto isso os orcs estavam se organizando de forma tribal através da liderança de Moror Mão de Machado e Lurk Vento Cortante. Ambos os comandantes tiveram maus momentos durante a administração da nova tribo. Moror insistia em continuar seu culto a Gruumsh enquanto Lurk tinha deixado suas antigas crenças para cultuar o demônio Shormongur.

            De dentro de uma tenda um forte orc, vestido com uma armadura pesada e cheio de cicatrizes no rosto e na cabeça descoberta, sai com um grande machado de batalha nas mãos.

            – Estou aqui demônio! – Zaknafein encara o orc e desce rapidamente o barranco com grande agilidade – Se você quer liderar meu povo ou escolher o comandante que o liderará, terá que me enfrentar e se mostrar digno.

            Desde que Zaknafein chegou ao acampamento, após o silêncio de Lolth ter começado, ele preferiu deixar que os orcs se liderassem, porém sempre seguindo suas ordens e de seu pai. Moror e Lurk demonstraram bastante eficácia nesse papel, porém Lurk, percebendo que não conseguiria convencer o ex-companheiro a deixar de cultuar seu antigo deus, comunicou-se com Zaknafein, que não perde tempo para ir tirar satisfações com o traidor.

            O draegloth atravessa agilmente as cabanas e as poucas tochas mágicas que iluminam o acampamento e se aproxima do orc, que com reflexos rápidos consegue bloquear uma garrada com o cabo de seu machado, logo se recuperando do impacto e desferindo um golpe contra o meio-abissal. Zaknafein se esquiva e segura o cabo do machado com uma de suas mãos dos braços maiores, puxando o orc para perto com tamanha força que esse perde o equilíbrio.

            Uma mordida certeira é desferida, arrancando a orelha e rasgando parte do rosto do guerreiro orc, que não cai e nem desiste de lutar. Levantando-se Moror dá um jogo de corpo em Zaknafein a fim de puxar seu machado novamente para perto do seu corpo e desferir um golpe que atingiria certeiro o pescoço do draegloth, se esse não fosse mais rápido. Com um passo para trás e uma inclinada em sua coluna, Zaknafein se esquiva do golpe e aproveita o movimento do machado para desferir uma garrada no braço direito do orc.

            Moror sente o tranco e cai de joelhos. O draegloth percebe o que o ex-general orc planeja e se aproxima devagar, como se estivesse subestimando-o, exatamente a ação que Moror imaginava que seria feita. O orc puxa seu machado que estava no chão e gira seu corpo visando atingir o tronco do draegloth, que por esperar aquilo simplesmente salta com tamanha força e velocidade que o machado nada atinge. Moror desloca a bacia com seu próprio movimento. Ao cair no chão não há nem tempo para ele sentir dor, pois as garras do draegloth o atingem pelas costas. Zaknafein, perfurando a armadura e o corpo caído de seu adversário segura sua coluna e a arranca, retirando com ela a cabeça do seu oponente. Ele a gira no ar e a bate com extrema força no chão, estraçalhando qualquer vestígio do rosto do falecido comandante orc.

            Zaknafein urra vitorioso e olha ao seu redor, procurando mais algum desafio.

            – QUEM MAIS PRETENDE NÃO SERVIR A MIM E A MEU PAI?! – pergunta esperando que algum orc fosse corajoso o suficiente para enfrentá-lo.

            O meio-abissal havia experimentado sangue e estava excitado com a chance de experimentar mais.

            – NÃO QUERO FRACOS E COVARDES DENTRO DE MEU EXÉRCITO!! NÃO ACEITAREI TRAIDORES!! – grita o draegloth com a respiração ofegante de fúria.

            Ao ver que ninguém mais responderia seu chamado para uma luta, Zaknafein começa a se concentrar para se acalmar. Ele oferece a vitória a seu pai através de uma prece mental e olha ao seu redor para encarar os orcs que lá se encontram. É um número relativamente pequeno de orcs, por volta de cento e cinqüenta. Lurk está próximo a Zaknafein e se ajoelha ao meio-abissal, os outros orcs o imitam.

            – Ótimo. – sorri o draegloth orgulhoso daquela cena – Agora se preparem, precisamos de mais escravos para ajudar na preparação do ritual.

            Os orcs se levantam e se organizam para a pequena campanha de escravização.

            – Lurk, guie alguns através da passagem que abrimos no Braeryn para conseguir mais soldados em Menzoberranzan. Converse com Sharlanara ela já está avisada. – ordena Zaknafein ao seu único general orc.

            – Sim mestre. – responde Lurk se inclinando e partindo com um grupo de oito orcs.

            Observando o acampamento, o draegloth sorri. Conseguiu unir uma quantidade razoável de orcs, além de uma quantidade considerável de escravos, entre eles drows, gnolls, kobolds e povo-lagarto. Zaknafein se regozija com a situação e prepara um pequeno exército de cinqüenta orcs para partir em busca de mais escravos.

            – Ao Senhor meu pai! – oferece mentalmente tudo aquilo que foi conquistado em homenagem ao seu pai demoníaco.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 5)

Em uma imensa caverna com vários túneis de acesso, um orog magro, de ossos grandes e com muitas cicatrizes, se encontra meditando próximo a um imenso lago. Folkyr sabe o quão artificial é aquele local e sabe o que foi capaz de criá-lo, mas isso não o intimida. Afinal de contas, o feiticeiro orog já tratou com centenas de demônios e diabos, e atualmente serve de clérigo para um dos que mais o impressionou: Shormongur.

Com os olhos amarelados fixos na água, Folkyr reflete sobre os planos de seu senhor, sabendo que dentro daquele lago artificial o Grande Ancião está refletindo sobre seus próprios planos. Não há como não ter respeito pelo Grande Ancião, afinal foi ele quem abriu os olhos de todos os que participarão do imenso ritual. Foi ele quem conseguiu a aliança com Shormongur e seus seguidores.

Folkyr encerra sua meditação com uma oração ao poderoso demônio. Ele sente que um de seus irmãos de fé está chegando à imensa caverna e, ao fim de sua oração, o orog se levanta e vira para a direção de onde surge um humano sujo e de feições duras.

– Malazir, como estão as preparações? – pergunta o orog a seu irmão de fé.

– Estão caminhando bem, Folkyr. – responde o humano, analisando como sempre seu companheiro orog que divide muitas características em comum consigo: o cabelo comprido e sujo e extremamente embaraçado, pele oleosa com sebos e fungos aparecendo nas linhas de dobras de seu pescoço e de seus braços – Tenho grandes expectativas a respeito de nosso sucesso, porém temos que ser pacientes.

– Sim, compreendo isso. Zaknafein deveria compreender melhor a importância da paciência em nosso trabalho atual. – diz o orog, virando-se em direção ao lago. – Ele virá hoje?

– Creio que não. Ele não dispõe de todo o tempo para dedicar-se a nossa causa diretamente. Seu papel de agente duplo dentro da Casa Xorlarrin requer cautela e dedicação em tempo integral. – responde o mago humano, se aproximando do lago ao lado de seu irmão.

– Imagino. Se ele não fosse filho do próprio Shormongur, eu não confiaria muito naquele híbrido.

– Idem.

Ambos ficam um tempo em silêncio enquanto observam as águas escuras e paradas do grande lago artificial. Folkyr não se espanta por Malazir conseguir enxergar na total escuridão, pois conhece muito bem as capacidades arcanas de seu irmão.

No fundo do lago é perceptível uma imensa sombra do que parece ser uma serpente começando a se mover.

– Ele está vindo. – diz Malazir.

– Sim. E o drider também está chegando. – complementa Folkyr, olhando na direção de onde ele sabe que a abominação aparecerá.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 1)

Zaknafein Q’Xorlarrin caminha de um canto para o outro em uma crípta nas cavernas próximas a Menzoberranzan. Sua grande juba branca balança acompanhando o movimento inquieto de seu corpo enquanto balbucia algumas palavras de raiva e descontentamento. As suas duas mãos menores se esfregam enquanto as grandes garras das patas maiores tocam no chão como se ele fosse um quadrúpede. É perceptível a fúria controlada em seus olhos.

– Desculpe a demora Zaknafein, surgiu um imprevisto no caminho. – diz um humano de manto vinho e preto, com feições duras, cabelos desgrenhados e sujos.

O draegloth bafeja em sua direção, com seus afiados dentes a mostra. O humano respira o ar fétido sem nem mesmo distorcer seu rosto.

– Sua demora pouco me importa! O que não agüento mais são aquelas chupadoras de aranhas! Quando eu poderei virar as costas para a Puta dos Fossos Demoníacos?!

– Calma! Tudo tem seu tempo. Tenha paciência, não podemos acelerar nada. O que estamos fazendo é um assunto delicado, qualquer atitude imprudente levaria tudo ao chão. – diz severamente o mago sem alterar sua feição, apenas seu olhar.

Com uma respiração forte, como se estivesse tentando se acalmar realmente, Zaknafein encara o mago por alguns instantes, até virar as costas que carregam marcas do flagelo das clérigas da Casa Xorlarrin.

– Sabe o quanto eu tenho que me segurar para não matá-las a cada vez que elas fazem isso?

– Agüente mais alguns anos, Zaknafein, e…

– ALGUNS ANOS??? – o draegloth interrompe o mago humano com um surto de raiva, atingindo um golpe na parede da cripta que deixa uma marca profunda.

– A pedido de seu pai. – complementa o mago mantendo a dura expressão em seu rosto.

Enquanto o draegloth controla sua respiração para se acalmar, o mago prossegue.

– Como anda a formação do exército?

Zaknafein o encara novamente, já com o olhar mais calmo, porém ainda cheio de ódio.

– Estou conseguindo unir vários orcs. Eles serão extremamente úteis em nossos objetivos. Estão dispostos a servir meu pai e se rebelarem contra as chupadoras de aranha. Só não sei se conseguirei segurá-los por “anos”. – responde o draegloth olhando severamente o mago humano.

– Mas assim deve ser. Deixe que alguns desses orcs escapem para formar comunidades fora de Menzoberranzan e esperem o momento em que você os liderará para a glória que é servir ao seu pai. – nesse momento o humano esboça um sorriso gratificante em seu rosto duro.

– Não creio que será muito difícil de fazer isso. Muitos desses orcs são veteranos e me disseram a respeito de um antigo plano de fugir de Menzoberranzan para formarem uma tribo e sobreviverem sozinhos. Na época eles serviam um campeão de Gruumsh, mas esse foi assassinado e o plano não foi em frente. – Zaknafein dá uma pausa e sorri mostrando seus caninos pontudos – Se eu auxiliá-los, eles saberão o que fazer.

O mago se vira e caminha para a entrada da cripta de onde veio.

– Ótimo. Apenas seja cauteloso.

– Sou um clérigo espião dentro de uma das grandes Casas de chupadores de aranhas de Menzoberranzan. Eu sou cauteloso. – responde secamente o draegloth.

Confirmando com um aceno de cabeça, o mago começa a caminhar para fora da cripta.

– E quando falaremos com o tal Drider? – pergunta Zaknafein.

– Em breve. Mais rápido do que imaginei. – responde o mago.

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