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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 2)

– A situação está complicada, Mirka. Não temos como sair da cidade pelas maneiras convencionais. – diz Sabal Dyrr, ex-clériga da segunda Casa mais poderosa de Menzoberranzan, a uma kobold.

Mirka olha para sua companheira drow com um rosto pensativo.

– Senhora, Quiri foi fazer uma busca pelo Braeryn um pouco antes de você e o Stongest chegarem. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa. – comenta a pequena kobold.

– Até onde eu saiba, todas as passagens conhecidas estão sendo guardadas por patrulhas drows. – diz a clériga apreensiva para sua pequena companheira – E a única que não era conhecida foi descoberta após a insurreição, e agora também tem proteção de guardas da cidade.

No canto da barraca onde o Culto a Lolth Encarnada se encontra escondido, está um gnoll se alimentando com a carne que seus companheiros trouxeram do Bazaar.

– Ouvi falá que tem uns orcs que fugiram pelo Braeryn. – diz o gnoll mastigando um grande pedaço de carne seca.

– Você está se referindo aos que escaparam da Casa Xorlarrin? – pergunta Sabal – Isso foi antes da insurreição, Gromsh. Talvez eles fizessem parte de todo o esquema.

– Não, Senhora. Num tô falando desses não. Tô falando de uns mais recentes. – responde Gromsh engolindo o que estava em sua boca e mordendo outro grande pedaço – Parece que uns orcs e hobgoblins conseguiram fugí da cidade há pouco tempo.

Sabal sorri para o gnoll.

– O que você está dizendo é fato, Gromsh?

– Com certeza, Senhora. Foram contatos confiáveis que me disseram. – responde o gnoll, orgulhoso.
Sabal se levanta da almofada onde estava sentada e caminha até a pequena janela próxima a porta de entrada e saída. Pensativa e concentrada, ela tenta encontrar o guardião meio-goblin lá fora, mas é quase impossível vê-lo quando esse não quer ser visto. Discretamente, a clériga começa a emitir alguns rosnados – por mais estranho que isso tenha soado no início de sua vida com aqueles hereges, atualmente é bem mais natural.

“Stongest. Se estiver tudo calmo ai fora, entre. Precisamos conversar”, diz a clériga na linguagem secreta do culto, logo após virando-se para seus outros dois companheiros.

– Vocês acham que Quiri tem capacidade de encontrar alguma passagem? Isso é, se ela realmente existir. – pergunta Sabal com uma das sobrancelhas erguidas.

– Sinceramente não, minha Senhora. – responde Mirka – Quiri é um goblin muito dedicado, mas não é muito inteligente nem perceptivo.

– Ah! Ele é um goblin. Goblins são estúpidos. – diz Gromsh rindo.

– Eu sou um goblin, G’omsh. Você me acha estúpido? – a voz de Stongest surge como uma invocação, do canto da cabana oposto ao que o gnoll se encontra.

Gromsh coça a cabeça constrangido.

– Cara, não foi bem isso que eu quis dizê. Sabe, você nem é um goblin direito, né? – o gnoll tenta consertar, desviando o olhar dos olhos do pequeno e robusto meio-goblin-meio-algo.

– Eu tenho sangue goblin, po’tanto sou um goblin. – finaliza Stongest, virando-se  para a clériga.

Sabal ri baixo. Gromsh continua coçando a cabeça envergonhado, enquanto Mirka sorri por ver o guardião.

– Já acabaram, crianças? – pergunta a clériga enquanto olha para o goblin que está sério a observando.

– O que você que’ conversa’, Sabal? – pergunta Stongest demonstrando toda sua simpatia.
Sabal ri mais um pouco antes de começar.

– Quiri foi atrás de alguma passagem para fora de Menzoberranzan aqui no Braeryn. O problema é que não confiamos na capacidade dele para encontrá-la, se é que ela existe. – diz a clériga resumindo a conversa.

– Onde estão os out’os fieis? – pergunta Stongest olhando ao redor da barraca.

– Foram conseguí informações com outros das mesmas raças. – responde Gromsh.

– Não acho isso uma boa idéia. Eles são muito inexpe’ientes. – diz o meio-goblin voltando-se para o gnoll.

– Eles foram antes de vocês voltarem, Senhor. Houve alguns poucos boatos a respeito de orcs e robgoblins que conseguiram fugir da cidade através de um túnel que começa aqui no Braeryn. Precisávamos saber de algo. – diz Mirka.

– Ce’to. – comenta Stongest, achando razoável a resposta da kobold.

– Então, Stongest, você poderia ir atrás de Quiri? Mirka irá convocar o resto dos fieis. Creio que todos devem ir conosco em nossa busca pelo filho de Lolth. Concorda? – pergunta Sabal voltando a se sentar em uma almofada, em posição de meditação.

Stongest olha para a clériga, pensativo. Sabal encara a feição séria do meio-goblin e percebe alguns traços bem delicados em seu rosto, apesar de todas as cicatrizes. O olho do meio-goblin tem um formato um pouco ovalado. “Como eu ainda não tinha percebido isso”, pergunta-se a clériga demonstrando surpresa.

– Que foi? – pergunta Stongest – Alguma idéia melho’?

– Nada não, Stongest. Apenas me perdi em pensamentos. – responde Sabal, enquanto sua mente tenta não acreditar naquele detalhe, “Não pode ser, eu devo estar vendo coisas”.

– Eu vou at’ás do Qui’i. – diz o meio-goblin desconcertado com as reações da clériga, sumindo novamente dos olhares de seus companheiros próximo à janela.

– Senhora, quer que eu vá atrás dos outros agora? – pergunta Mirka a clériga.

– Espere um pouco, Mirka. – diz Sabal pensando a respeito – Se você conhecer alguma magia para chamá-los sem precisar sair daqui, acho que seria melhor.

– Não tenho nada semelhante preparado no momento, Senhora. – responde Mirka.

– Então pode ir. Vá com Gromsh, assim vocês podem se separar e procurar mais rapido.

– Sim, Senhora. – responde Mirka indo até a porta – Vamos, Gromsh?

– Vamo sim. – responde o gnoll, limpando os dentes com a unha.

Quando ambos saem pela porta, Sabal se põe a refletir sobre a situação. É interessante ver como sua vida está bem diferente do que ela imaginava quando fugiu de sua Casa. Sempre imaginara que teria que sobreviver sozinha por muito tempo e apenas aos poucos conseguiria lacaios fieis, mas a Do’Urden e Stongest pouparam esforços para ela.

A lealdade desses seres é totalmente estranha a ela, que foi criada dentro da segunda maior Casa da Cidade da Rainha Aranha. Ela não é forjada com o medo, pois qualquer um deles seria capaz de sobreviver sozinho e não se importaria em deixar um traidor para trás. Porém, a lealdade deles é forjada pela Fé – não a fé dela, mas a Fé que Stongest explicou no Bazaar -, o que é muito mais forte do que a lealdade que os escravos tem pelos seus senhores drows. Supondo que tentasse controlar Mirka através do medo, a pequena kobold não a repreenderia, simplesmente sumiria e nunca mais seria vista. “É impressionante a lealdade e liberdade que esses hereges possuem”, pensa consigo mesmo.

Particularmente, Sabal se sente até inferiorizada ao ver as atitudes desses cultistas em relação à falsa-deusa. “Falsa-deusa. Por que me sinto tão vazia quando penso isso?”, ela se pergunta, e sua memória a leva ao seu último encontro com aquele que foi seu professor, seu aliado e seu amante: Mariv.

Sua memória não toca apenas os planos das imagens, seu braço ainda sente o impacto criado quando atingiu o rosto daquele que ela tanto respeitava. “Sem arrependimentos”, comenta para si tentando espantar o pensamento que a aflige. “Você realmente está se tornando uma fraca”, sentencia Sabal a si mesma, mas seus pensamentos surgem como a voz de sua mãe.

Sabal abre os olhos, não há ninguém na barraca. Apenas ela, seus pensamentos e um pequeno ídolo de Lolth. Qual Lolth? A Do’Urden não pode ser a deusa encarnada, pois negligencia aspectos importantes da natureza da Rainha das Aranhas. “Por que Lolth não a puniu até agora por sua heresia?”, se pergunta a clériga. Talvez suas respostas estejam certas, a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos pode ter planejado algo para a falsa-deusa e seus seguidores.

A clériga volta a fechar os olhos para começar a meditação. Nesses últimos tempos a verdadeira Lolth está em silêncio. Sabal não consegue contatá-la, ou melhor, contatar seus servos. Nem consegue comungar com sua deusa através das magias divinas que essa costumava canalizar pelo corpo de suas clérigas. Mas a fé ainda está em seu coração, e Sabal não pretende desistir.

Aos poucos sua mente entra em transe, tentando alcançar um plano superior de consciência para se comunicar com sua divindade. Nada. Apenas silêncio e vazio. Respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca, Sabal se concentra novamente. Sua consciência se expande aos poucos, seus sentidos parecem se ampliar. Dessa vez ela não se sente sozinha, o vazio parece ter se dissipado e uma voz feminina é ouvida ao fundo, de forma indefinida. A clériga se concentra ainda mais para tentar entender o que sua deusa está tentando lhe dizer. Aos poucos a voz parece estar se tornando mais e mais compreensível. Como um soco no estômago Sabal abre seus olhos ao escutar a voz de Lolth Do’Urden em seus ouvidos: “Nós não somos diferentes”.

Com a respiração arfando e as mãos tremendo, a ex-Dyrr olha ao seu redor. Para sua surpresa quem está lá não é a Do’Urden, mas Stongest, com um pequeno goblin ensangüentado no colo. Stongest e Quiri possuem alturas semelhantes, mas pela massa muscular de Stongest, Quiri parece bem menor.

– Stongest? Por que o trouxe para cá? – pergunta Sabal ainda assustada.

– Po’que ele é um de nós. Te’ uma mo’te jogado na ‘ua não é uma mo’te digna de um i’mão de Fé. – responde Songest como se estivesse dizendo o óbvio – T’ouxe ele pa’a você sac’ifica-lo e ele se uni’ a deusa.

– Ele ainda não está morto? – pergunta a clériga vendo o estado deplorável em que se encontra o mirrado goblin.
Quiri está desacordado e com a respiração lenta. Um imenso corte abriu algo como se fosse uma boca em seu estômago, que Stongest parece ter costurado para que ele não morresse no local do incidente. Um dos braços do pequeno goblin estava semidecepado, e novamente Stongest conseguiu retardar a morte de seu “irmão de Fé”, fazendo um torniquete acima do grande corte.

– Não. – responde Stongest secamente.

– Você está trazendo risco ao culto. Uma péssima atitude de um guardião. – censura Sabal com um olhar sério – Ele é descartável. Não precisava ter trazido ele pra cá.

– Já disse que não o t’ouxe pa’a cu’á-lo, mas pa’a da’-lhe uma mo’te mais digna.

– E acabar com o segredo do culto? – pergunta Sabal alterada.

– Não esta’emos mais aqui quando alguém consegui’ encont’a’ uma t’ilha. – responde Stongest a encarando – Todos somos desca’táveis, Sabal, mas nem po’ isso vi’amos as costas uns pa’a os out’os. Se você não quise’ matá-lo ‘itualmente, eu mesmo fa’ei.

Sabal encara o meio-goblin-meio-algo sem compreender direito o que está ocorrendo. “Por que se preocupa tanto com a forma pela qual ele vai morrer?”, se pergunta confusa.

– Mesmo sem entender o que leva você a querer isso, Stongest, eu farei o sacrifício. – diz a clériga.

– Cla’o que você ainda não entende. – diz o guardião ajeitando o pequeno goblin perto do ídolo de Lolth, e preparando algumas ervas que o farão retomar a consciência.

– Se você se preocupa tanto com ele, por que não me deixa curá-lo? Você sabe que eu tenho uma varinha de cura. – retruca Sabal.

– Po’que ele se sac’ificou pa’a p’otege a imagem de nossa deusa. Tudo o que ela ‘epesenta. Não pe’miti’ que ele mo’a é ti’a’ dele toda sua satisfação po’ te’ se sac’ificado po’ aquilo que ele ac’edita. – responde Stongest.

– Então por que você não o deixou lá? – pergunta Sabal achando a resposta do meio-goblin completamente ilógica.

Stongest termina de preparar a loção para Quiri recobrar a consciência, e começa a preparar outra loção para que esse não sinta muita dor nos locais feridos.

– Po’que ele ainda não comp’eendeu. Como você. Pa’a ele Lolth é algo fo’a dele, esse é o momento de fazê-lo senti’ o que Lolth ‘ealmente é. – responde Stongest, de forma séria, mas tranqüila, à sua colega.

Sabal o observa um tanto irritada, pois sabe que o guardião ainda não confia tanto nela quanto ela gostaria. Sempre que esse assunto entra em pauta, a clériga se sente inferiorizada pelo meio-goblin, o que fere seu orgulho drow.

– Você é capaz de faze’ isso? – Stongest desafia Sabal.

Sabal o encara com raiva.

– Com certeza mais capaz do que você. – responde a clériga.

– Ótimo. – diz Stongest sorrindo e finalizando a segunda poção, que ele passa nas feridas do mirrado goblin.

Sabal observa a cena. Ao ver o meio-goblin-meio-algo passar a loção em seu “irmão”, a imagem de Mariv volta em sua mente. “Se a Do’Urden estivesse em meu lugar, ela o teria convencido a vir junto. Ele não precisaria estar morto”, comenta a si mesma. Um sentimento de repúdio a esse pensamento surge em seu peito, “Como você pode estar se tornando tão fraca?!”, repreende-se a clériga.

– Qui’i? Você está me ouvindo? – pergunta Stongest.

O pequeno goblin sorri ao ver o guardião e balança afirmativamente a cabeça. A dor que ele está sentindo é mínima, ignorável.

– Você está p’epa’ado pa’a se junta’ a deusa? – pergunta novamente Stongest, recebendo outra resposta afirmativa com a cabeça.

O meio-goblin se vira em direção a Sabal e solta um curto e baixo rosnado: “Você sabe o que fazer”.

A clériga se aproxima lentamente do pequeno goblin e sente um nervosismo tomar conta de seu corpo. Ela olha para Stongest, que a está encarando. Seu orgulho retorna: “Eu sei o que fazer”, comenta consigo.

– Quiri, você agiu corretamente ao defender nossa deusa, mas perceba que não foi Lolth que você defendeu, e sim a todos nós. Lolth é você, meu irmão. – diz Sabal sem saber julgar se ela estava mentindo ou dizendo a verdade.
Quiri sorri para ela. A clériga crava o punhal de sacrifício no peito miúdo do goblin, que vira seu rosto em direção ao pequeno ídolo de Lolth, e mais uma vez seu sorriso se abre e seus olhos se fecham tranqüilamente enquanto a clériga retira o pequeno coração e o corta em dois, banhando o ídolo com o sangue do goblin.

Sabal fica perplexa com a reação do goblin e encara o corpo inerte.

– Ago’a você ‘ealmente está em nós, i’mão. – diz Stongest curvando-se em direção ao corpo.

A clériga vira-se em direção ao meio-goblin com uma feição curiosa.

– O que você passou nele para não sentir dor?

– Anestesiei apenas os fe’imentos. Ele sentiu tudo o que você fez a ele. – responde Stongest olhando para a porta – Mi’ka e G’omsh chega’am.

Olhando estática para o robusto goblin, ela escuta a porta se abrir e alguns passos de seres entrando. “Você é louco, guardião”, pensa a ex-Dyrr sentindo o vazio retornar ao seu peito, “Espero que um dia eu consiga fazer parte dessa loucura”.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 3)

Stongest leva mais carne de lagarto para a boca enquanto tenta escutar algo que preste nas conversas que ocorrem ao seu redor. Sabal apenas toma mais um gole de seu vinho de cogumelo enquanto também tenta selecionar da melhor forma possível o que está sendo conversado naquele ambiente. Já tem alguns minutos que os dois estão sentados na mesa da taverna apenas se “alimentando”.

Faz dois dias que eles chegaram ao Bazaar. Nesse pequeno espaço de tempo eles conseguiram saber que algum batedor da Casa Agrach Dyrr descobriu a respeito de um exército de duergars que estava vindo na direção de Menzoberranzan, algo que apenas fortificou o boato que um escravo Dyrr havia lhe passado recentemente. Segundo outros boatos, as Casas Maiores estavam preparando um ataque aos duergars no meio do percurso. O local exato eles não descobriram.

Hoje o dia está totalmente infrutífero. Percebendo que eles não conseguirão nada de útil apenas escutando, Stongest prefere comentar alto algo que está passando por sua cabeça enquanto ele come aquele pedaço de carne suculenta.

– Acho que se’ia inte’essante leva’mos algumas dessas ca’nes pa’a os fieis. Eles vão fica’ f’acos comendo apenas cogumelos. – diz em goblinoide o quase-goblin em meio a mastigadas.

Sabal, ao perceber que Stongest estava falando, retorna como se estivesse em um reverie profundo.

– Como? – pergunta a clériga.

– Eu disse pa’a leva’mos comida pa’a o pessoal. Eles estão p’ecisando. – responde Stongest, olhando sério para ela.

– Ah sim. Com certeza. Temos que levar alguma comida para a viagem também se pretendemos realmente encontrar o filho da Do’Urden. Digo, de Lolth. – diz a clériga também em globinóide, se corrigindo imediatamente quando vê o olhar de desaprovação do meio-goblin-meio-algo.

– Se você não ac’edita, po’ que aceitou consegui’ fieis pa’a ela? – pergunta seriamente Stongest enquanto morde mais um pedaço da carne e toma um gole da cerveja em sua caneca.

Sabal o olha fixamente e sorri.

– Stongest, seja sincero. Você acredita mesmo que ela é Lolth? A Deusa-demônio das Aranhas, encarnada? – pergunta a clériga enquanto o goblin responde positivamente com um aceno de cabeça – Pois eu não. Minha deusa nada me disse a respeito de enviar uma manifestação para o plano material.

– Então po’ que você a se’ve, se não ac’edita? – pergunta Stongest ainda mastigando a carne.

– Eu não a sirvo Stongest. Eu sirvo Lolth. A Do’Urden pode ser muito útil para os propósitos de minha deusa. Afinal, cada seguidor que “ela” consegue, louvará Lolth. Não ela, mas Lolth. – responde Sabal sorrindo.

O meio-goblin engole a carne e sorri como se tivesse acabado de escutar uma tolice.

– Eu já acho que louva’ão Lolth, como a ‘ep’esentação do Caos, da Astúcia, do Pode’ e da Escu’idão.

– E do Mal? – interrompe Sabal introduzindo uma questão – Por que vocês nunca mencionaram o Mal? Se ela é a representação dos aspectos que minha deusa representa, por que vocês negligenciam um de seus aspectos?

Stongest toma mais um grande gole de cerveja e coloca a caneca na mesa antes de responder.

– Po’que esse aspecto diz ‘espeito a sua ‘aça e não a quem ela que’ alcança’ ago’a com um co’po mate’ial. – responde o meio-goblin olhando fixamente os olhos da clériga como se tivesse certeza da resposta.

– Não faz sentido, Stongest. O que faz sentido é que ela não é a deusa e sim uma tentativa falha de uma louca em transformar sua filha, ou seja lá o que, em algo divino. – diz Sabal ignorando o olhar severo de Stongest – Estou com ela, pois ela pode ser a chave para aumentar o poder e a área de influência de minha deusa.

– Você ainda não sabe o que é te’ Fé de ve’dade, Sabal. – diz secamente o meio-goblin à drow, que gargalha.

– Você está falando com uma clériga, goblin. Se eu não soubesse o que é ter fé, nunca iria conseguir conjurar as bênçãos de minha deusa. – responde a ex-Dyrr como se falasse algo óbvio.

– Você tem fé em algo que não está em você. Você não sabe o que é te’ Fé ve’dadei’a, clé’iga. – responde Stongest ainda sério e seco.

O rosto de Sabal torna-se raivoso, algo que nunca havia ocorrido em qualquer outra conversa com Stongest.

– Stongest! Não fale sobre o que você não conhece. Você tem fé em uma mortal que foi criada para ser uma falsa-deusa. Você é um infiel. Não terá nem mesmo para onde ir quando morrer. – diz Sabal com um tom bem mais seco e severo do que de costume – Tente entender Stongest, sua fé é que é falsa.

– Eu não tenho fé na pessoa, mas no que ela ‘ep’esenta. Eu tenho Fé naquilo que ela me fez ve’ em mim mesmo. – retruca o meio-goblin após um gole de cerveja que finaliza a bebida de dentro da caneca – Você sabe do que estou falando, sentiu isso quando ela lhe aceitou como sendo uma extensão sua.

– Eu sei que aquilo foi uma experiência estranha, Stongest. Eu não posso negar que fiquei dias, até meses sem saber se acreditava ou não naquilo tudo, mas agora que ela partiu em viagem e está longe, consegui refletir e não faz nenhum sentido. – se justifica Sabal.

– E é p’a faze’? – pergunta Stongest colocando sua caneca e seu prato de lado – O que ela semp’e p’egou é que a ve’dadei’a Fé só é possível quando você enca’na aquilo que ac’edita. Você não conco’da com isso?

– Concordo. Mas me diz: minha sociedade não encarna todos os aspectos de nossa deusa? – responde Sabal como se estivesse dizendo algo óbvio, tomando logo após o último gole de seu vinho de cogumelo.

– Enca’na o que eles vêem em uma entidade exte’io’. Eles não enca’nam o aspecto que eles possuem inte’io’mente. – responde Stongest.

– Qual a diferença? Não vejo nenhuma. – retruca Sabal achando aquilo tudo muito ilógico.

– Há uma g’ande dife’ença Sabal. Da fo’ma que fazem, vocês apenas se’vem algo ou alguém. Vocês estão sujeitos a decepções, a dúvidas e a questionamentos. – começa responder Stongest olhando ao redor – Você ouviu alguns dos comentá’ios a respeito do “sumiço” da sua deusa, não é? Você sabe que muitos de seus fieis i’ão pa’a out’os deuses em busca do mesmo ab’igo que eles tinham em suas teias. Muitas de suas i’mãs clé’igas fa’ão isso. Você sabe que é ve’dade. Que é questão de sob’evivencia. Essa é a falha do seu tipo de fé.

Sabal olha espantada para Stongest como se não acreditasse que aquele goblin extremamente robusto fosse capaz de tamanho raciocínio.

– O nosso tipo de Fé, p’ega que devemos se’ um só com nossa divindade. Um só com aquilo que ela ‘ep’esenta. Lolth não está aqui e pode nunca mais volta’, mas eu continuo sendo um com ela. Mi’ka sob’evive’á mesmo que sozinha, algo ext’emamente difícil pa’a alguém de sua ‘aça, po’que ela é uma só com sua divindade. Ela é astúcia, ela não louva a astúcia, e isso a mante’á apta a sob’evive’. Você sentiu o que é se’ uma com sua divindade. Ac’edito que vá’ias vezes você sentiu isso em suas meditações ou ao senti’ o pode’ de sua deusa at’avessa’ o seu co’po, mas a última vez que você sentiu isso foi quando conheceu Lolth. A Lolth que eu p’otejo.

A clériga não consegue responder, apenas fica olhando para o goblin ainda com cara de espanto, como se não acreditasse que aquilo tudo estava saindo de sua boca.

– Você ainda não tem Fé de ve’dade Sabal, mas com o tempo e vivência i’á entende’ o que eu digo. – Stongest finaliza o assunto.

– Veremos. – diz Sabal ainda pasma.

Stongest dá mais uma olhada ao redor. A taverna está cheia, com vários comerciantes e mercenários bebendo e comendo. Ele tenta escutar alguma coisa ao seu redor, mas não ouve nada de útil até Sabal o interromper.

– Me conte mais a respeito do filho de Lolth. Como ele nasceu já sendo um drider? – pergunta a clériga que até o momento não tirou os olhos de seu pequeno e forte companheiro.

– Não sei. Sei que eu estava junto e uma espécie de casulo saiu dela no lugar de uma c’iança. Um pouco depois o casulo começou a se ‘ompe’ e apa’ece’am as patas de uma a’anha, e só depois os b’aços de um d’ow. – diz Stongest olhando Sabal nos olhos.

– E com quem ela o deixou?

– Com uma Vae’uniana que ju’ou c’iá-lo pa’a odiá-la o máximo possível. – responde como se fosse algo sem importância.

– Você está falando sério, Stongest? – pergunta Sabal duvidosamente.

– Sim. – responde rapidamente o goblin que passa a olhar de canto de olho para um Ogro e um drow que passam perto de sua mesa.

– Para que iremos atrás do filho de Lolth se ele é um inimigo em potencial? – pergunta Sabal incrédula.

– Pois nada é imutável, e um d’ide’ se’ia um g’ande aliado pa’a nossa ig’eja. – responde o meio-goblin sem perder os dois de vista.

Sabal percebe que o drow que acompanha o ogro a está olhando curiosamente e sabe o porquê. Não é a primeira vez que ela é observada daquela maneira em sua vida. Dando de ombros, ela apenas sorri para Stongest e continua falando em goblinoide.

– Espero que você esteja certo. Então vamos parar de perder tempo e nos preparar para encontrar o filho de Lolth.

– Sim. – concorda Stongest se levantando e indo comprar comida para a viagem e para os outros fieis, enquanto Sabal observa a dupla bizarra subindo as escadas para o dormitório da taverna.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 1)

Menzoberranzan está prestes a ser atacada. A Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos está em silêncio. O Bregan D’Aerthe que traria o novo contrato está atrasado. E “a cerveja tá acabando”, segundo seu amigo ogro. Entretanto, nada disso importa para Alak Sel’Xarann no momento. Há mais ou menos um dia e meio ele matara seu próprio mestre e pai de criação.

Sua mente ainda não se adaptou a idéia de que ele não mais é o “discípulo do eremita”, mas que havia tomado o lugar do próprio eremita. Porém, o que realmente não desce por sua garganta é que seu mestre tivesse que morrer por suas próprias mãos. Seria muito mais honrado e belo para a imagem daquele que o criou, se sua morte tivesse ocorrido enquanto lutando contra os duergars, protegendo sua cidade e sua deusa.

Sua deusa.

Aquela que “lhe disse” para morrer “pelas mãos de seu sucessor”. Alak deixa o pensamento se desfazer com desdém. “Não importa mais”, diz para si mesmo. “Da mesma forma que Vazmaghor continua sendo um excelente companheiro através de minhas espadas, Azirel, meu pai, continuará sendo um excelente mestre através de minhas ações”.

– Você não acha que está pensando demais não? – pergunta Brum, dando um cutucão no ombro de Alak.

– Bobagem, Brum. – responde o novo eremita, fazendo um gesto desdenhoso com a mão.

– Sim, bobagem, mas se Nym fosse um assassino contratado para te matar, nesse momento você estaria morto. – comenta o ogro gargalhando.

Alak olha para trás e vê Nym parado com um punhal preparado perto de um ponto vital próximo a sua garganta. “Concentre-se, estúpido”, repreende-se enquanto escuta seus companheiros de serviço gargalharem.

– Com certeza eu estaria morto, mas Nym falaria fino pelo resto de sua vida. – retruca Alak com um sorriso no rosto.

Nym para de gargalhar e olha surpreso para suas regiões baixas, percebendo que a ponta de uma das espadas de Alak está próxima a sua “área sensível”. Brum gargalha ainda mais, dando alguns socos contra a mesa que treme. Nym, ainda surpreso, começa a rir devagar enquanto o eremita continua apenas sorrindo, vitorioso.

– Muito bem, Alak, eu o subestimei. – comenta Nym, guardando seu punhal e cumprimentando-o – Desculpem-me pelo atraso.

– Não se preocupe. – responde Alak ainda sorrindo. Seu blefe foi excelente, seus companheiros nem mesmo desconfiaram que ele apenas aproveitou o momento das risadas para posicionar sua espada e ficar com a imagem menos suja. “Concentre-se, idiota”, reprime-se novamente.

– Não se preocupar?! Claro que você tem que preocupar! A cerveja tá acabando e nenhuma caravana de mercadores poderá sair ou entrar em Menzoberranzan até essa merda toda acabar! – diz Brum, exaltado como se o mundo ao seu redor estivesse em chamas – Sabe o que isso significa? Que não haverá mais cerveja daqui algumas horas e ficaremos sem até essa guerra ter fim!

Nym e Alak olham para o ogro com as sobrancelhas erguidas.

– Tudo bem, Brum. – responde Alak encerrando a cena do companheiro – Vamos aos negócios.

– Só esperem um pouco, vou pegar mais uma caneca. – diz Brum levantando-se e indo para o bar.

O Bregan D’Aerthe sorri para Alak, que continua sério.

– Alak, não sei o que aconteceu, mas tente relaxar. Você conhece o Brum faz tempo, não vai ser difícil trabalhar com ele de novo. – diz Nym.

– Não se preocupe com isso, apenas me responda: de onde ele tira tanto dinheiro? – pergunta Alak sorrindo.

– Ele venceu o desafio de um mago anteontem. – responde Nym com uma semi-verdade.

– Certo, faz sentido vindo dele.

O ogro retorna e senta-se à mesa junto com os outros dois. Toma um gole de sua cerveja e oferece para ambos, que negam com acenos de mão.

– Vamos aos negócios agora? – pergunta Alak.

– Por mim, tudo bem. – concorda Brum sorrindo como uma criança com um brinquedo novo.

Nym tira do bolso o pergaminho dado pela figura misteriosa e o entrega para Brum antes de começar a conversa:

– O trabalho é simples, Alak. Como já disse a Brum em outra oportunidade antes de você chegar a Menzoberranzan, vocês servirão de guarda costas para uma clériga de Lolth de uma das Casas Maiores. – sintetiza o mercenário Bregan D’Aerthe.

– Guarda costas? A cidade entrará em guerra e uma clériga quer guarda costas? – pergunta o eremita como se ainda não tivesse entendido exatamente o que o contratante quis dizer.

– Vocês não participarão da guerra. A clériga foi encarregada para uma missão investigativa no Braerym, e vocês deverão acompanhá-la para garantir que ela retorne com vida dessa missão. – responde Nym.

– Compreendo. Então essa clériga não possui guerreiros em sua Casa para acompanhá-la? – pergunta Alak levantando uma sobrancelha.

– Na realidade possui. E um deles irá também, porém vocês não estão sendo contratados por ela. – responde o Bregan D’Aerthe enquanto Alak o olha, esperando a continuação, enquanto Brum toma mais um gole de sua cerveja – Vocês foram contratados por alguém que não quer ser identificado e que pertence a uma das Oito Casas Maiores de Menzoberranzan.

– E ele apenas quer que protejamos a clériga? Você não está escondendo nada? – pergunta o lutador eremita desconfiado.

Nym sorri:

– Não estou, Alak. Não se preocupe. Ele realmente quer apenas que vocês protejam a clériga para que essa possa completar sua missão e voltar para sua Casa com as informações necessárias.

Alak dá de ombros e toma um gole de seu vinho.

– Lembre-se, Alak: estamos em tempos perigosos. As Casas Maiores estão ocupadas com o possível ataque que se aproxima. Lolth está em um silêncio misterioso. Os Xorlarrin não iam se dispor de uma alto-clériga para uma missão investigativa em um território hostil. – comenta Nym encarando Alak seriamente.

– Então seremos babás de uma clériga iniciante? – pergunta Alak rindo.

– Quase. – responde Nym sorrindo – Ela possui experiência, mas não é uma das mais poderosas de sua Casa.

O eremita balança a cabeça indicando ter entendido o que o Bregan D’Aerthe acabou de lhe dizer. Brum dá mais um gole de sua cerveja e arrota.

– Foi mal. Não quis atrapalhar. – diz Brum quando os dois olham em sua direção.

Nym ri, enquanto Alak apenas sorri e retoma o asunto:

– Quanto iremos receber? – pergunta Alak.

Colocando a mão em um de seus bolsos o mercenário contratante tira duas pequenas sacolas com algumas gemas:

– Essa é a primeira parte do pagamento. – diz Nym – A segunda virá quando vocês voltarem com a clériga viva e salva.

Alak abre uma das bolsas, a que ele supôs ser sua, e vê uma dúzia de ametistas. Com os olhos arregalados de espanto, ele apenas responde:

– Estou nessa.

– Não irá se arrepender, discípulo do eremita. – diz Nym se curvando e sorrindo para Alak.

– Imagino que não. – responde o eremita cumprimentando e selando o acordo com o Bregan D’Aerthe.

Nym se levanta e prepara-se para sair:

– Ah sim! E você deve cuidar para que Brum não chateie ninguém com sua personalidade. Você sabe como são as clérigas, não é? – comenta em baixo-drow o contratante, virando as costas e partindo.

– Não se preocupe. – responde Alak também em baixo-drow.

– É. Me tirem da conversa mesmo. Sou ignorável, apenas um pequeno, ignorante e mirrado ogro apreciador de cerveja. – diz Brum, com seus três metros de altura tomando mais um gole de sua bebida favorita.

Alak ri e finaliza seu vinho.

– O que era aquele pergaminho que Nym lhe deu? – pergunta o eremita, um tanto curioso.

– É nossa “carta de recomendação”, pelo que entendi. – responde Brum, mostrando para ele – Parece que apenas os Xorlarrin tem permissão de abrir.

– Interessante. – comenta Alak olhando para o item – Você ficará por aqui também?

Alak olha para o rosto de Brum enquanto esse guarda o pergaminho.

– Eu estou instalado aqui no Bazaar já faz alguns dias. Até deixo minhas armas no quarto. – responde Brum despreocupado.

Alak não se surpreende com a resposta do companheiro. A única coisa valiosa que o ogro realmente possui são as pedras preciosas que recebe como pagamento e a cerveja e comida em seu estômago. Suas armas são apenas dois grandes pedaços de pedra moldados na forma de clavas, amarrados com correntes. Enquanto sua armadura, – se é que aquilo que ele usa pode ser considerado uma armadura -, não é nada além de trapos de couro.

– Ficarei por aqui também. Vamos dividir o quarto, sairá mais barato. – diz Alak.

– Se não fosse a parte do ficar mais barato, eu ia desconfiar das suas opções sexuais. – comenta Brum olhando severamente o companheiro.

Alak ri e se levanta.

– Vamos descansar, Brum. Creio que o Bregan D’Aerthe tenha lhe passado a data e o local onde encontraremos a clériga, não é?

– Sim. Será amanhã, na taverna ao lado. – responde o ogro também se levantando. Brum é o único que Alak conhece que o faz sentir-se baixinho, pois ele sempre foi bem maior que a grande maioria dos drows – Na verdade, será em um dos dormitórios da taverna ao lado.

– Ótimo. – diz Alak começando a caminhar.

Ambos vão em direção às escadas que levam ao dormitório, mas no meio do caminho uma cena chama a atenção do eremita. Uma clériga de Lolth conversando de igual para igual com um goblin, ou “seja lá o que for aquilo”, em uma língua que não é drow.

– Brum, você entende o que eles estão dizendo? – pergunta Alak enquanto passam por perto dos dois.

– Nada de mais. Tão falando algo sobre encontrar o filho de Lolth. Besteira. – diz o ogro dando de ombros.

Ainda estranhando a cena, Alak sobe as escadas com seu companheiro ogro. “Sem sua deusa para lhe dar poder, ela deve estar pensando em servir a Vaherun”, responde a si mesmo o lutador eremita enquanto prossegue em seu caminho.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 1)

Zaknafein Q’Xorlarrin caminha de um canto para o outro em uma crípta nas cavernas próximas a Menzoberranzan. Sua grande juba branca balança acompanhando o movimento inquieto de seu corpo enquanto balbucia algumas palavras de raiva e descontentamento. As suas duas mãos menores se esfregam enquanto as grandes garras das patas maiores tocam no chão como se ele fosse um quadrúpede. É perceptível a fúria controlada em seus olhos.

– Desculpe a demora Zaknafein, surgiu um imprevisto no caminho. – diz um humano de manto vinho e preto, com feições duras, cabelos desgrenhados e sujos.

O draegloth bafeja em sua direção, com seus afiados dentes a mostra. O humano respira o ar fétido sem nem mesmo distorcer seu rosto.

– Sua demora pouco me importa! O que não agüento mais são aquelas chupadoras de aranhas! Quando eu poderei virar as costas para a Puta dos Fossos Demoníacos?!

– Calma! Tudo tem seu tempo. Tenha paciência, não podemos acelerar nada. O que estamos fazendo é um assunto delicado, qualquer atitude imprudente levaria tudo ao chão. – diz severamente o mago sem alterar sua feição, apenas seu olhar.

Com uma respiração forte, como se estivesse tentando se acalmar realmente, Zaknafein encara o mago por alguns instantes, até virar as costas que carregam marcas do flagelo das clérigas da Casa Xorlarrin.

– Sabe o quanto eu tenho que me segurar para não matá-las a cada vez que elas fazem isso?

– Agüente mais alguns anos, Zaknafein, e…

– ALGUNS ANOS??? – o draegloth interrompe o mago humano com um surto de raiva, atingindo um golpe na parede da cripta que deixa uma marca profunda.

– A pedido de seu pai. – complementa o mago mantendo a dura expressão em seu rosto.

Enquanto o draegloth controla sua respiração para se acalmar, o mago prossegue.

– Como anda a formação do exército?

Zaknafein o encara novamente, já com o olhar mais calmo, porém ainda cheio de ódio.

– Estou conseguindo unir vários orcs. Eles serão extremamente úteis em nossos objetivos. Estão dispostos a servir meu pai e se rebelarem contra as chupadoras de aranha. Só não sei se conseguirei segurá-los por “anos”. – responde o draegloth olhando severamente o mago humano.

– Mas assim deve ser. Deixe que alguns desses orcs escapem para formar comunidades fora de Menzoberranzan e esperem o momento em que você os liderará para a glória que é servir ao seu pai. – nesse momento o humano esboça um sorriso gratificante em seu rosto duro.

– Não creio que será muito difícil de fazer isso. Muitos desses orcs são veteranos e me disseram a respeito de um antigo plano de fugir de Menzoberranzan para formarem uma tribo e sobreviverem sozinhos. Na época eles serviam um campeão de Gruumsh, mas esse foi assassinado e o plano não foi em frente. – Zaknafein dá uma pausa e sorri mostrando seus caninos pontudos – Se eu auxiliá-los, eles saberão o que fazer.

O mago se vira e caminha para a entrada da cripta de onde veio.

– Ótimo. Apenas seja cauteloso.

– Sou um clérigo espião dentro de uma das grandes Casas de chupadores de aranhas de Menzoberranzan. Eu sou cauteloso. – responde secamente o draegloth.

Confirmando com um aceno de cabeça, o mago começa a caminhar para fora da cripta.

– E quando falaremos com o tal Drider? – pergunta Zaknafein.

– Em breve. Mais rápido do que imaginei. – responde o mago.

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 1 (Parte I)

Azirel Sel’Xarann fazia parte de uma família de mercadores de Menzoberranzan, mas há muito tempo deixou sua casa e seus deveres de lado, unindo-se a um mestre para se tornar um eremita nas cavernas do Underdark. Por muito tempo ele caminhou pelos gloriosos túneis subterrâneos de Faerun junto a seu mestre e posteriormente sozinho. Visitou várias das maravilhosas cidades drows, mas nenhuma se comparou a sua cidade natal. Mesmo assim, fez alianças fortes com vários mercenários, aceitando uma ou outra oferta de trabalho. Entre esses mercenários os Bregan D’Aerthe estavam no topo de sua estima.

Seus dias de andanças e explorações acabaram quando ele percebeu que havia se desenvolvido muito suas técnicas de combate e comunhão com a sinistra natureza do Underdark, e não havia ninguém para quem ele pudesse passar toda sabedoria e técnica de sua linhagem. Esses pensamentos o perturbaram por muito tempo, mas o destino reservou a ele surpresas agradáveis até demais para um drow não desconfiar.

O experiente Sel’Xarann ainda se encontra impressionado com o que ocorrera. Sem conseguir esconder toda a sua satisfação – que surge sempre que observa seu discípulo – ele reflete sobre até que ponto não está demonstrando fraqueza. Por mais que nunca tenha sido um drow muito religioso, sua ligação com Lolth é forte, afinal de contas seu maior companheiro é um macho de Aranha-Espada. Ele sabe que para muitos drows a afeição pelo seu discípulo seria uma demonstração de imensa fraqueza, mas em suas reflexões as razões para tal satisfação eram sim a manifestação de sua devoção à deusa. Ele conhecia muitos segredos do Underdark e técnicas sombrias de combate que muitos guerreiros nem mesmo sonhariam em aprender. Azirel estava apenas servindo Lolth fazendo com que esses conhecimentos não se perdessem quando sua vida chegasse ao fim. Afinal de contas, foi ela que o entregou de forma simbólica quando seu discípulo ainda era um bebê.

“Como você teve sorte”, pensa Azirel enquanto sorri lembrando do momento em que Vazmaghor, sua Aranha-Espada, encontrou o bebê preso nas teias de uma Aranha-Enorme nas proximidades de Menzoberranzan. Mesmo sendo um macho, Vazmaghor é de uma espécie de aranha superior ao da fêmea que ameaçava a criança. O primeiro impulso da Aranha-Espada não era “salvar” o bebê, muito pelo contrário, porém seu companheiro assim exigiu. Foi necessário que Vazmaghor matasse a fêmea para que pudesse levar de lá aquela pequena criança. Uma heresia, mas Azirel Sel’Xarann sabia que Lolth estava envolvida em toda a trama que salvou aquela vida. Aquele acontecimento tinha um propósito e ele tem certeza que está de acordo com os misteriosos desejos da deusa. Caso não, ele é um dos maiores hereges de Menzoberranzan.

Esticando seus braços para o alto como se os alongassem, o eremita deixa com que aqueles pensamentos e lembranças se desfaçam e volta a observar seu jovem discípulo que se exercita dedicadamente.

– Alak! Por hoje é o suficiente. Descanse um pouco e depois vá buscar água para nós.

O jovem o olha e se inclina respeitosamente.

– Sim, meu senhor. – se endireitando rapidamente e partindo para buscar água para seu mestre.

Quando seu discípulo parte, Sel’Xarann adentra sua cabana e pega em sua trouxa um pequeno broche que foi encontrado há pouco tempo no mesmo lugar que encontrou seu discípulo. Olhando profundamente o broche, como se sentisse tristeza, Azirel Sel’Xarann sai da cabana e coloca o objeto no chão.

“Infelizmente você nunca poderá saber de que Casa você veio Alak. Pelo menos nunca saberá por mim”, concentrando-se no broche e sacando rapidamente sua espada, o eremita desfere um poderoso golpe que corta o objeto ao meio. Pegando as duas parte do chão, ele as joga fora, em lugares distantes uma da outra. Quando retorna a seu acampamento, Alak já se encontra com a água.

– Onde você estava mestre? – pergunta o jovem curioso.

– Me purificando.

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