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Immortuos – Notícias sobre o segundo livro

Olá a todos!

Estive escrevendo o segundo livro do cenário Immortuos, chamado: Necropolitan. Muitas coisas mudaram da idéia original, novos personagens surgiram, o próprio enredo que havia pensado tomou outros rumos, etc e tal. Ao meu ver, isso é muito positivo, pois creio que deixará a história mais interessante.

Evandro, Gustavo e Marcela, continuam tendo papeis centrais na trama, no entanto, agora outros dois personagens terão suas perspectivas abordadas. O sapien immortuos e psiquiatra Paulo Vieira Sales será um protagonista (se assim posso chamar), nessa trama. Cheio de questionamentos e frustrações, ele terá um papel importante na configuração da cidade de Campinas dentro do cenário.

O outro personagem, também um sapien immortuos, tem lá seus mistérios e prefiro não falar nada sobre ele, a não ser o fato de que “mora na capital”.

“Misterioszinhos” a parte, por conta de tantas mudanças e correrias a respeito de outros projetos, o segundo livro irá atrasar um pouco dentro do previsto, já que pretendia “lançá-lo” aqui no blog em fevereiro. Espero estar com ele pronto, revisado, corrigido e tudo o que for necessário, até abril. Enquanto isso, mantenho a publicação da saga de D&D Forgotten Realms, Outcasts, e meus rabiscos, além de novidades sobre os outros projetos.

Atenciosamente,

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Mudanças

– Filho da puta! – Gustavo escuta o comandante Rodrigues gritar, voltando a olhar pelo binóculo, tentando ver quem é o immortuos que está comandando o ataque.

A chegada da “sobrevivente” trouxe muitas perguntas para todos os moradores da Necropoli. Com Gustavo e Marcela não foi diferente.

– O que você está vendo? – pergunta Marcela.

– Não consegui ver nada além de um bando de insanus immortuos. – responde Gustavo, utilizando o termo que aprendeu com Paulo, que está desaparecido a mais de vinte dias com o grupo de busca que saiu atrás da localização do “criadouro humano”.

– E se eles invadirem a Necropoli? – pergunta Marcela preocupada.

– Não irão. Estamos seguros. – responde Gustavo vacilante.

Marcela desconfia da resposta.

– Você soube sobre o que aquela tal de Suzana falou, não soube? O que era aquele grupo de busca com o qual Paulo saiu? – questiona Marcela.

Gustavo acena com a cabeça e volta a observar com o binóculo.

– Ela sofreu muito, Ma. As coisas que ela fala não fazem sentido algum. – responde o mecânico tentando confortá-la.

– Mas olha o que está acontecendo agora. – sua voz é trêmula – Não quero ter que fugir novamente. – ela começa a chorar.

Gustavo coloca o binóculo de lado e se aproxima para confortar sua namorada.

Desde que eles construíram a Necropoli civil, Gustavo e Marcela sabiam que teriam que deixar o passado para trás e reconstruir suas vidas. Gustavo auxiliou bastante no desenvolvimento da Necropoli, além de auxiliar nas pesquisas de novos combustíveis para os automóveis. Enquanto Marcela teve que aprender novos ofícios, já que uma jornalista – em um momento que havia uma grande necessidade de mão obras – não era tão útil. Mesmo assim, Marcela não deixou por desejar, indo atrás de aprender tudo o que podia para ajudar a construir aquela “cidade dentro da cidade”.

Ambos foram morar em uma mesma república, ou mausoléu, como alguns chamam as residências. Uma casa de dois andares que dividem com mais três pessoas. Durante os meses que se passaram, Gustavo e Marcela tornaram-se cada vez mais próximos, até um inevitável relacionamento correr. Tudo parecia estar voltando a uma certa normalidade, eles já deslumbravam no horizonte um renascimento para a raça humana.

– Nós não vamos ter que fugir novamente.

Ela se desvencilha de seu abraço.

– Pare de tentar me confortar! – grita angustiada – Nem você mesmo acredita que estamos tão seguros!

Gustavo fica sem resposta. Um grande e incomodo silêncio entre os dois toma conta do lugar. O mecânico nem mesmo escuta os tiros dos militares contra a turba de mortos vivos.

– Ma…

– Não! Preciso de espaço no momento. – afirma afastando-o com as mãos.

Gustavo opta por respeitar, a fim de evitar uma possível discussão. Ele volta para a janela do quarto e pega o binóculo novamente, para ver que a multidão de immortuos havia partido após terem feito um grande estrago no portão um da Necropoli. Os militares se mantêm a postos, para caso eles voltem, mas aquela visão já lhe permite puxar assutno novamente com Marcela.

– Eles se foram. – diz ele.

– Mas vão voltar. – retruca ela.

– Sim, irão. – responde o mecânico novamente – É assim que o mundo está atualmente. No momento não temos o que fazer, a não ser nos defender.

– Até quando isso? – pergunta Marcela irritada.

– Não sei. Talvez para o resto de nossas vidas. Mas pelo menos estamos em uma situação melhor do que nos meses antes de virmos pra cá. – responde Gustavo, começando a se irritar.

– Talvez seja melhor morrer! – diz desesperada.

– E se tornar um deles? – questiona Gustavo – Não fala besteira.

– Claro que não! Estou dizendo morrer de verdade! Ter a cabeça arrancada e ser cremada. – responde ela.

– Ma, por favor, seja razoável. Nossa situação não é imensamente diferente da que vivíamos antes disso tudo ocorrer. – diz Gustavo com uma voz mais suave – Só que naquela época tínhamos outros problemas. Haviam…

– Juro que não quero conversar sobre isso agora. – Marcela encerra o assunto, saindo do quarto.

Gustavo senta-se na cama e fica pensando se a comparação que ia fazer entre a situação atual e a violência no mundo antes da “epidemia” era coerente. Entretanto, seus pensamentos flutuam de um assunto para outro – expectativas, cenas do passado, planos, esperanças, e assim por diante – impedindo que ele consiga refletir com profundidade sobre o tema.

“Se Evandro estivesse conosco”, pensa Gustavo sendo pego de surpresa pelo seu desejo de segurança. Mesmo com a morte de Carla, o mecânico não tinha rancor do policial. Ele sabia que a atitude dele tinha sido para ajudá-la, mesmo que tenha dado errado.

Duas batidas na porta do quarto tiram Gustavo do transe.

– Entra.

A porta se abre e um homem magro, alto, de cabelo comprido entra com uma caixa.

– Fala, Gustavo. Beleza? – cumprimenta o homem.

– Tudo bem sim, Lucas. – responde Gustavo olhando para a caixa – Aconteceu alguma coisa?

– Não, não! – gesticula Lucas enquanto fala – Só vim te entregar isso. – Lucas entrega a caixa para o mecânico.

– O que é isso?

– Os militares disseram que foi deixado na frente da guarita três hoje durante a troca de turno da tarde. – responde Lucas.

– E os militares não abriram para ver? – Gustavo pergunta suspeitando daquilo.

– Não abriram a caixa, apenas o bilhete.

– Bilhete? – a curiosidade de Gustavo aumenta, fazendo-o procurar o bilhete, que está em um envelope grudado em uma das laterais da caixa – Ok, Lucas. Valeu.

A sós com a caixa, ele abre o bilhete:

“Caro, Gustavo ‘Mecânico’,

Isso é para que você saiba que aquele que nos causou tanto sofrimento não mais caminha nesse mundo.

Atenciosamente,

Evandro”.

Sentindo um calafrio, pois sabe que a forma de agir, e provavelmente pensar, de Evandro não condiz com o de um ser humano normal, Gustavo abre cautelosamente a caixa. Assim que tira a tampa, um cheiro de carniça sobe até as narinas do mecânico, que imaginando o que é, fecha a caixa e sai do quarto com ela.

Ele desce a escada e passa pela sala onde Marcela está assistindo a um filme.

– Onde você vai? – pergunta sua namorada.

– Vou jogar isso no lixo.

– E o que é isso?

– Um dos presentes bizarros de Evandro. – responde o mecânico tentando encerrar logo a conversa.

Marcela se surpreende:

– Evandro está vivo?

– Parece que sim. – responde brevemente Gustavo – Agora me deixe levar isso para o lixo, por favor.

Marcela não responde, apenas faz cara de quem não gostou da resposta e volta a assistir o filme. Gustavo sai da casa e vai até onde os moradores colocam seus lixos que serão levados pelos militares até algum laboratório de combustível, ou até um lixão.

Chegando lá, ele coloca a caixa junto com os outros lixos.

– Evandro, Evandro. – ele suspira pensando alto – Imagino que você tenha feito com boa intenção, mas isso não é um bom presente.

– Ah não? E o que seria um bom presente? – Gustavo se assusta com a voz vinda de trás dele e se vira rapidamente.

– Evandro? – pergunta Gustavo, olhando para aquela feição familiar, porém com algo bem diferente do que se recorda – O que aconteceu com você?

Os olhos de Evandro estão vidrados, com veias aparentemente estouradas, seus músculos estão claramente tensos e um de seus antebraços está mutilado.

– Não interessa. – responde secamente – Não vim pra isso. Quero lhe fazer um convite.

– E qual seria?

– Construirei uma Necropoli e quero que você me ajude. – responde Evandro.

– Venha morar conosco. – convida Gustavo.

Evandro ri.

– Não. É um outro tipo de Necropoli que quero construir. – por algum motivo Gustavo fica preocupado, mas espera para escutar se o policial tem algo a mais para dizer – Nela, não haverá humanos e nem immortuos.

– Como? – Gustavo fica confuso.

– Irei atrás de alguns antigos colegas e te treinaremos. Quando você estiver pronto, será como eu. – responde Evandro.

– Como você? – pergunta o mecânico – E o que é ser como você?

– É ser o início de uma real transformação nesse mundo morto.

Gustavo o encara nos olhos. Ele nem imagina o que o policial está planejando, mas, até um certo ponto, confia nele. Quem sabe essa seja uma boa notícia para ajudar Marcela a acabar com suas preocupações e eles ficarem numa boa.

Entretanto, esse pensamento soa estranho, tendo em vista que quem está planejando algo é um homem que de “numa boa” não tem nada.

– Certo. Aceito te ajudar, mas a Marcela vai junto. – responde Gustavo um pouco vacilante.

– Como quiser. – da de ombros Evandro – Arrumem suas coisas. Partiremos amanhã.

Evandro vai embora assim que termina de falar. Gustavo fica olhando para o lixo por algum tempo, refletindo se sua resposta foi realmente a melhor escolha. Ele lembra de Carla e o que Evandro tentou fazer com ela para ajudá-la a sobreviver.

Gustavo volta para casa, com um caroço incomodo em seu estômago.

Infecta

A dor é lacerante. Segurando seu antebraço esquerdo mutilado com a mordida do insanus immortuos, o agente Paiva tenta pensar em uma solução para seu novo problema – enquanto foge de vários immortuos que o persegue – antes que a necrose tome todo seu braço e antes que as bactérias o matem.

Em sua mochila ele carrega a cabeça do debile immortuos que ele estava caçando. Um presente a um amigo, que ele não entregará se não fizer algo, e rápido. Correndo por um matagal, Paiva se recorda da perseguição que ele e o grupo de Paulo sofreram, e também recorda da morte de Carla, “a mulher do mecânico”.

Sem pensar duas vezes, Paiva vai na direção de um mercado que vê a quase cem metros de onde se encontra. Suas balas acabaram, tudo que tem agora é um pedaço de ferro que conseguiu no caminho e sua faca, algo não muito eficiente contra algumas dezenas de insanus immortuos.

Chegando no mercado, ele procura uma forma de subir ao telhado e, por sorte, encontra uma escada de marinheiro. Paiva sobe rapidamente – o mais veloz que esse tipo de escada permite – enquanto escuta alguma das criaturas tentando subir a escada também.

Ao chegar no telhado, Paiva sorri por seu plano estar dando certo, enquanto aguarda a criatura. Ele sabe que sua situação atual se difere em muito daquela na qual estava há meia hora atrás, quando sua presa tentou encurralá-lo dentro da residência e ele demonstrou não ser apenas mais uma vítima.

No momento em que o debile immortuos retirou sua tropa para que Paiva saísse da casa e visse o seu poder, o policial entendeu que a criatura não o deixaria ser morto por seus subordinados. Aquilo era um desafio entre titãs, e todos aqueles lacaios, nada mais eram do que meros artifícios de seu adversário para cansá-lo.

Paiva subiu ao telhado e observou sua situação. Após uma rápida análise, ele traçou o seu plano e subiu no ponto mais alto da casa, sua caixa d’agua, para ter uma visão completa do terreno e determinar de onde vinham as ordens.  Ao avaliar a provável direção, ele correu pelos telhados saltando de um para outro, alternando casas de forma a criar obstáculos para seus algozes; observando as criaturas persegui-lo com dificuldade pelas partes baixas.

Ao chegar no último telhado, no fim do quarteirão, Paiva pulou da casa e correu para a rua. Porém, sua atitude contrariou até mesmo seu bom senso. Ao invés de fugir de seus perseguidores, foi de encontro a eles. Derrubou pelo menos sete com tiros certeiros na cabeça, mas isso não foi o suficiente, os insanus immortuos se aproximaram e tentaram agarrá-lo, entretanto, ele foi muito bem treinado para enfrentar tais criaturas. Sacando sua faca com a outra mão, ele conseguiu derrubar mais três de seus inimigos, dois com tiro e um com uma facada precisa no centro da cabeça.

Após o corpo do terceiro cair estatelado ao chão, Paiva foi agarrado e tentando se desvencilhar, acabou sendo mordido no antebraço ao contrapô-lo à mordida que visava seu ombro, próximo ao pescoço. Mesmo pensando já estar morto, ele continuou lutando, e acabou sendo salvo pelo urro de seu real adversário.

Por causa da ordem do debile immortuos, o insanus o soltou e, enquanto todos se afastavam, ele fez um torniquete em seu antebraço com um pedaço de sua camisa. Após isso, agachou-se e pegou sua faca que ainda estava cravada no immortuos inanimado no chão, com sua mão tremendo devido a dor que sentia.

– Voooccê… seeeerrráa… grande…. aaajuuudaaa… nóos… – disse o debile immortuos aparecendo na entrada do grande corredor que se abriu.

Paiva ignorou. Como se nada estivesse ocorrendo, ele pegou de seu coldre mais um pente de sua pistola e se preparou.

– Ajuda? – perguntou Evandro respondendo ao seu adversário, que se aproximava cautelosamente – Mmm. Me mostre que você é digno de minha ajuda.

O debile entendeu o desafio e começou a se aproximar mais rápido. Paiva guardou sua faca e atirou em um dos joelhos do immortuos, que caiu no chão por inércia.

– É só isso que você tem a oferecer? – provocou o agente, percebendo o ódio da criatura aumentar.

Para sua surpresa, o debile também sacou uma arma e disparou, mas para sua sorte, o immortuos não parecia ter tanto treino quanto ele.

Paiva saltou rolando no chão e começou a correr em direção do final do corredor, por onde tinha vindo. Antes de passar os últimos immortuos que formavam o paredão, ele virou-se e atirou em seu adversário.

Como calculado corretamente, a criatura estava se preparando para soltar um de seus urros, que provavelmente ordenaria a seus subordinados para que o parassem. Seu tiro atingiu exatamente na garganta do débile, destruindo-a sem decapitá-lo, emudecendo-o.

Sem comemorar o ocorrido, o agente atingiu quatro dos immortuos que estavam em seu caminho e correu. O debile immortuos, não mais conseguindo dar outra ordem para seus lacaios e sabendo que não poderia contar com eles até o efeito da ordem passar, começou a caminhar mancando rapidamente atrás de Paiva. Seu ódio era imenso, o que obscureceu sua paciência.

Paiva esperou seu perseguidor, escondido atrás de um muro de uma casa aberta. Aguardou-o com toda cautela de um atirador de elite. A criatura surgiu bufando, como se tivesse perdido sua pequena capacidade mental.

Sentindo o cheiro do agente, ele olhou em direção do muro onde Paiva se encontrava, mas antes de conseguir vê-lo, um tiro estourou parte de sua cabeça, derrubando-o.

O policial, com sua faca, arrancou a cabeça de seu adversário – o que não foi tão difícil graças ao estrago que seu tiro havia feito – e a guardou, começando a correr logo em seguida. Ele sabia que os outros immortuos começariam a perseguí-lo a qualquer momento, o que não foi diferente.

Ele escuta os urros no estacionamento do mercado, enquanto espera a cabeça do insanus immortuos que está subindo a escada aparecer. Ele prepara o ferro e assim que a criatura aparece, crava-lhe sua “arma” na cabeça dele.

Paiva sente a dor no antebraço novamente quase lhe tirar a consciência. Ele retira a faca de seu coldre e corta um pedaço da bochecha do immortuos que está dependurado na entrada da escada.

Ele sabe o que fazer, mesmo não tendo certeza de que irá funcionar. “Se existem os sapiens immortuos, porque não seria possível existir infectas que conseguem manter sua mente intacta?”, se pergunta o Agente Paiva, se convencendo para fazer aquilo que deve fazer, “Além do mais, se eu não fizer isso, serei um deles logo logo”.

Sem mais argumentar, ele morde o pedaço de carniça crua e engole com grande esforço, vomitando em seguida. Ele se ajoelha e continua vomitando mais e mais, até seus vômitos serem apenas sangue.

Exausto, ele cai no chão e sente a tensão em seus músculos. A transformação é extremamente dolorida. Ele sente como se seus músculos e pele estivessem rasgando, e um grande calor começa a queimá-lo por dentro. Uma grande quantidade de adrenalina atinge seu cérebro e seus sentidos ficam extremamente excitados. Quando Paiva abre os olhos, vendo o mundo em matizes de vermelho, ele percebe que sua mente mudou profundamente.

Olhando para do telhado para os immortuos na vastidão do estacionamento, Paiva sorri. Ele quer mais, e sabe como conseguir.

Predadores

Ao se imaginar novamente em um grupo de sobreviventes, agente Paiva – mais conhecido como Evandro – sente que fez a coisa certa ao deixá-los. Ele achou que poderia ajudá-los, mas seus métodos eram distantes demais da realidade emocional daquelas pessoas.

Para sobreviver em um mundo como o atual, com poucos seres vivos e milhares de immortuos, as pessoas devem ser mais pragmáticas e objetivas se realmente não quiserem ser devoradas. Naquele grupo, ele via isso em um ou dois companheiros, mas infelizmente era a extrema minoria, principalmente depois que uma delas, Lúcia, havia morrido. O mundo está cada vez mais perigoso, e apenas aqueles capazes de encarar essa periculosidade de frente é que realmente sobreviverão.

Com o número de immortuos imensamente maior, a periculosidade aumentou não apenas por questões numéricas, mas também pela presença de um número maior de debile immortuos e, quem sabe, sapiens immortuos. Esses seres são sagazes, inteligentes, capazes de emboscar um ser humano como um gato faria com um rato, ou qualquer uma dessas metáforas; o que foi feito uma vez com Paiva e seu grupo, porém o jogo mudou, o policial, nessa nova situação, não é um rato, dessa vez ele é um cão de caça.

Esse foi o outro motivo que o fez se afastar do grupo: ele precisava caçar aquele que organizou a emboscada que quase os dizimou. Infelizmente, não importa o que fizesse, Carla não voltaria à vida. Evandro – agente Paiva –, se lamenta realmente pela morte da “mulher do mecânico”, pois imaginava o quanto àquela perda deve ter derrubado a única pessoa com quem ele teve algum real contato social nos seus trinta anos de profissão; dez de treinamento, vinte de caçada.

Além disso, ele havia falhado em sua missão auto-imposta de proteger o “mecânico e sua família”, aqueles que o aproximavam de sua humanidade. Porém, agora ele sabia: ele não é humano, não importa o quanto ele se esforce para se sentir assim.

Não foi tão difícil de encontrar os rastros de sua presa o que o trouxe até a esquina onde se encontra. Agente Paiva voltou ao local onde ocorreu a emboscada e observou bem o terreno. “Se você liderou seu bando nessa região, deve ter sido de algum ponto estratégico. Mas qual?”, era o que o policial pensava enquanto observava aquele local cheio de mato, com condomínios de escritórios ao longe.

Ao ver uma torre de caixa d’água em um dos condomínios, as esperanças de Paiva reascenderam e foi lá que ele buscou vestígios do debile immortuos, líder daquele bando. Foi lá que sua caçada realmente começou.

Olhando por detrás do muro da casa de esquina, o policial vê quatro insanus immortuos esparsos em estado avançado de decomposição caminhando lentamente sem rumo. Seu orgulho lhe faz pensar que seria fácil passar por eles, porém, seus anos de experiência lhe dizem que isso seria extremamente imprudente, afinal, sua presa está a espreita em algum lugar, o aguardando como se ela própria fosse o verdadeiro predador.

Paiva respira fundo, deixando o ar sair lentamente de seu pulmão, observando como está a situação ambiente. Ao respirar ele percebe o quão rançoso está o ar, com o cheiro de podridão quase o intoxicando. Ele sente o vento leve tocar sua pele e se dirigir ao sentido oposto ao que os immortuos se encontram, o que o contenta por confirmar aquilo que suspeitava: sendo espantoso o faro das criaturas, eles já o teriam sentido se o vento não estivesse ao seu favor. Seu único desejo é que não haja mais nenhum outro immortuos a pelo menos cem metros em sua retaguarda.

Percebendo que passar por aquela rua não é uma das melhores opções, Paiva, sem guardar seu revolver com silenciador, retorna duas casas e pula o muro, optando por fazer seu caminho por dentro.

Sem muita dificuldade ele abre a porta. Ela estava trancada, mas a fechadura era simples, nada que o policial nunca tivesse aberto antes. Ele caminha dentro da casa, buscando algum mantimento que não esteja estragado, pois sabe que não terá muitas outras oportunidades. No armário da cozinha ele encontra algumas bolachas com a data de vencimento para daqui dois meses, pega-as e as coloca em sua pequena mochila.

A casa está silenciosa, mas isso não quer dizer muita coisa quando se está caçando um debile immortuos – como é o seu caso – ou um sapien immortuos. Sentindo um pequeno incomodo, o policial opta por vasculhar a casa, ao menos para ver se sua presa passou por lá.

A porta do corredor está aberta e, ao entrar, ele se depara com sangue seco espalhado por todas as direções, além de pedaços de carne em putrefação, centenas de moscas e larvas. Aquilo lhe causa um certo enjôo pelo cheiro forte – algo que é difícil de se acostumar – e um estranhamento por todo esse sinal de luta, mas nenhum sinal de arrombamento nas portas de entrada da casa, entretanto, nada disso o impede de continuar em direção aos quartos.

Seus instintos de predador estão excitados. Algumas poucas vezes Paiva se confundiu entre sua natureza predatória e sua natureza sobrevivente, o que acabou lhe colocando em enrascadas. Porém, para ele, não é isso que está ocorrendo dessa vez, depois que entrou naquela casa, ele soube que há algo lá que vai lhe ajudar em sua caçada.

Ele entra em um dos três quartos da casa. O fedor está mais forte e ele se prepara para qualquer possível perigo. As venezianas estão fechadas, o que impede a entrada da luz do sol pela janela, mesmo assim é possível ver que a cama está ocupada por alguma “massa ondulante”. Ele clica no interruptor para ascender a luz, mas não tem energia, “Por que fiz isso?”, se pergunta já que a falta de energia não é uma novidade para ele. De sua mochila ele saca uma pequena lanterna e varre o local com sua luz, iniciando pela cama – onde há dois corpos com a cabeça estourada cheios de vermes se movimentando – e seguindo por todo o quarto.

Não há nada ali. Ele desliga a lanterna e caminha para o outro quarto, não aquele que está mais próximo, mas para o do fim do corredor. A porta está trancada, o que ele estranha, mas não se intimida. Com presteza e cuidado ele a destranca, quase sem fazer nenhum barulho; entretanto, não é com a mesma “delicadeza” que ele a abre. Após virar a maçaneta, Paiva a empurra com o pé, apontando sua pistola para todos os cantos daquele quarto, procurando um possível habitante.

A janela do quarto está escancarada, o que o torna completamente iluminado, sem possibilidades das sombras esconderem alguma surpresa. Não encontrando ninguém aparente, com cautela, Paiva se agacha para ver embaixo da cama, mas não encontra nada. Depois revista os armários e, novamente, nada. Ele se aproxima da janela gradeada, para ver se há alguém no quintal, mas não vê sequer um movimento.

Pensando que talvez aquela sua intuição investigativa, na verdade tenha sido um mero incomodo por sua situação, Paiva se afasta ainda olhando para o quintal e vê algo que o chama a atenção: um pingo de sangue fresco na beirada da janela.

Ele se aproxima para se certificar e sente a adrenalina aumentar quando uma mão desmorta toca a grade ao mesmo tempo que um berro monstruoso sai da garganta de seu dono. Por reflexo Paiva aponta sua arma para a testa da criatura e puxa o gatilho. Contudo, quando aquele cai, outros mais aparecem. “Merda! É uma armadilha!”, pragueja o policial correndo para a fora do cômodo.

Mais urros daquelas criaturas ecoa pela casa, Paiva chega até a entrada do corredor e se depara com vários já dentro da residência. Com três tiros ele derruba dois insanus immortuos e fecha a porta, correndo de volta para o quarto, enquanto escuta a madeira espatifando no chão.

Ele fecha a porta do quarto onde encontrou a gota de sangue e vê uma aglomeração de seres decompostos na janela. Encostando-se na porta ele recarrega sua arma e pega um objeto oval em sua mochila. “Hora de te usar”, comenta mentalmente enquanto se afasta da porta e aponta para aquela direção. Com a boca Paiva segura o pino da granada e o retira, a segurando sem deixar a alavanca cair.

Os insanus immortuos derrubam a porta, urrando insanamente, enquanto começam a cair pelos tiros de Paiva, que solta a alavanca da granada. Após o quinto tiro – e 3 segundos contados – ele arremessa a granada pelo espaço entre o batente da porta e a cabeça das criaturas, voltando a atirar logo em seguida. Antes da granada chegar ao nível das cabeças a explosão ocorre, elas são destroçadas pelos estilhaçoes e pedaços de cadáveres voam para dentro do quarto.

Sem perder tempo ele corre por cima do aglomerado de carne e já prepara sua segunda e última granada. Indo em direção a porta do corredor, ele vê mais um grupo de insanus immortuos o encarando. Um urro diferente interrompe todos os rosnados daqueles que o encaram na entrada do corredor, fazendo-os recuar. Mesmo desconfiando do que está acontecendo, Paiva caminha lentamente até a copa e depois para a cozinha: mais nenhum outro immortuos é encontrado.

Abrindo a porta dos fundos ele se espanta pela repentina ausência das criaturas, guarda a granada e corre até o muro, subindo nele. Agarra-se no telhado e o sobe, buscando ter um local estrategicamente melhor para lidar com a situação.

Olhando para todo seu entorno, Paiva percebe o jogo sádico no qual se encontra. Centenas de immortuos estão cercando a casa onde ele está. Ele sorri, reconhecendo o potencial de seu “inimigo”, e de algum lugar ele escuta uma risada sinistra e disforme.

“Finalmente um pouco de dificuldade”, comemora intimamente o policial com arrogância, trocando o pente de sua arma.

– Está na hora de definirmos melhor quem é o predador e quem é a presa. – desafia em voz alta o agente Paiva, escutando um berro que parece aceitar seu desafio.

Ossos do Ofício

Não era fácil se tornar um agente do “Project Immortuos”, pois devia-se não só treinar o corpo e as capacidades de investigação, como durante os dez anos de treinamento passava-se também estudando medicina tradicional chinesa, tibetana, indiana e ocidental. Só após os testes de conhecimento a respeito de sintomatologia baseadas nesses estudos é que o policial tornava-se um agente e começava a “caçar”.

No Brasil, isso não é diferente. Leandro Paiva, que recebeu a intimação para participar do “Projeto Immortuos” assim que ingressou nas forças armadas brasileiras e se destacou pelo seu preparo físico, foi dado como morto para a sociedade, recebeu o nome de Evandro Alberto de Oliveira e iniciou seu intenso treinamento diário, no qual acordava às quatro da manhã e dormia à meia-noite. Um agente em treinamento não tinha fim de semana ou feriado, os dez anos eram intensos e reveladores, além de o tornar um predador quase perfeito.

Mesmo isolado e sentindo-se uma criatura a par da humanidade, é graças a esse treino que Evandro sobrevive atualmente.

Ele escuta o som de um carro na frente de sua casa e pragueja pela ignorância do motorista; provavelmente ele está chamando a atenção de vários immortuos na região. O veículo parece parar e ele escuta a campainha tocar.

Com todo seu conhecimento, Evandro sabe o quanto deve-se ter cautela na “nova situação mundial”. Com certeza devem haver centenas de debile e sapiens immortuos espalhados por ai. Seria tolice dele atender a campainha.

O carro logo desliga e Evandro sorri, caminhando até a porta, de onde escuta barulhos de pancadas e estalos na cerca elétrica. Após escutar o segundo baque de alguém pulando o muro, ele a abre e vê um vulto pulando para dentro de sua residência. Sem pestanejar ele saca sua arma e derruba a “criatura” com um tiro no pescoço e outro na cabeça.

As outras duas “criaturas” pulam para trás de seu carro na garagem se escondendo de sua vista e gritando algo como: “Pare, por favor!”. “Se forem immortuos, são dos inteligentes”, constata Evandro resolvendo iniciar uma conversa:

– Quem são vocês?

– Somos vivos! Viemos buscar ajuda! – responde um deles com uma voz ansiosa.

Cautelosamente, Evandro prossegue:

– Vieram realmente buscar ajuda? Ou querem tomar minha casa? Ou, talvez, comer a minha carne?

Há um breve momento de silêncio, um possível sinal de surpresa por ele estar certo, ou espanto de alguns sobreviventes que achariam estranho alguém tentar conversar com os immortuos.

– Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! – responderam eles, surpreendendo o policial – Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!

“Gustavo?”, pensa o policial tentado a acabar com aquela conversa e ajudar o bom mecânico. O tal mecânico e sua família, mesmo não tendo uma relação real de amizade com ele, foram os únicos seres humanos com os quais Evandro se simpatizou após seu treinamento.

– Digam seus nomes. – ordena ele.

– O meu é Lúcia. – responde a mulher da dupla.

– Meu nome é Paulo Vieira Sales. – responde o homem logo em seguida.

– Venham até algum local que eu possa vê-los. – as duas pessoas caminham lentamente com as mãos na cabeça – Agora tirem as roupas.

Ambos se olham estupefatos, ouvindo o policial chamar suas atenções:

– Andem logo!

Afinal, não é porque eles sabem seu nome e o do mecânico que ele não se certificará dos sinais. Foi graças aos orientais que os agentes do “Project Immortuos” conheceram esses sinais, permitindo assim a identificação prévia de pessoas que tornariam-se immortuos após falecerem; porém, não era algo fácil de ser percebido. Evandro lembra de quando teve que matar um dos mecânicos que trabalhavam para Gustavo, ao perceber que tal funcionário possuía pelos menos três dos sinais da “doença”.

Atualmente, os sinais da “doença” são insignificantes, pois todo mundo os tem. Porém, os sinais daqueles que já se transformaram são outros, e são esses sinais que Evandro quer se certificar de que a dupla não possui.

– Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’. – ordena Evandro para o casal pelado a sua frente.

– Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos? – perguntou a mulher, que parecia ser mais corajosa, gerando um pequeno olhar de inveja por parte de seu parceiro. “Ele queria ter feito a pergunta”, comenta a si mesmo o policial, percebendo como aquele homem se sente incomodado pela figura de liderança que aquela mulher representa.

– Não. – sua resposta é seca, o que faz com que os dois o obedeçam sem mais questionamentos.

Ele observa com cuidado e vê alguns dos “sinais menores” mais óbvios que ele aprendeu na medicina oriental: peles um pouco ressecada, veias levemente atrofiadas, olhos com pouco brilho, baixa sudorese. Porém, nada dos sinais “maiores” que os caracterizariam como immortuos.

– Ótimo, seus amigos estão esperando na frente? – pergunta Evandro escutando o carro ligar novamente.

– Sim. Por favor, abra logo o portão, deve ter criaturas se aproximando. – responde Paulo.

Evandro pega o controle de seu bolso e abre o portão.

– Vistam-se. – diz ele para Paulo e Lúcia, enquanto vê o mecânico entrar com a fiorino.

O policial suspeita que a idéia de ter ido procurá-lo, tenha sido de Gustavo. Talvez, finalmente, ele tenha entendido o recado de sua “ameaça” e de que, na verdade, Evandro nunca representou perigo para ele e sua família.

Quando Evandro percebeu os “sinais menores” em Joel – um homem gordo, que se encharcava de suor em pouco tempo, mas estava seco após quatro horas de trabalho – sentiu um pequeno incomodo, pois saberia que aquilo colocaria seu “amigo” Gustavo em risco. Na mesma noite em que percebeu os tais “sinais”, Evandro começou a investigar Joel mais de perto, para certificar de que ele possuía os outros sinais: mucosas esbranquiçadas, diminuição do apetite, calcificação nas unhas, e assim por diante. Para isso, o policial, após analisar algumas fotos que tirou do tal Joel, optou por destruí-lo.

Ele foi até a casa de Joel e esperou dar 20:00hs, o horário que o mecânico deixava sua esposa e seus filhos em casa e ia tomar “uma dose”. Chegando na primeira esquina de sua rua, Joel foi interceptado por Evandro que o estrangulou, sem deixar brecha para perguntas como: “Por que?”, ou súplicas. Aquele homem não tinha culpa, era mais uma vítima do acaso genético ou seja lá o que for, Evandro não saberia o que lhe dizer e, portanto, preferia não conversar com sua presa.

Assim que Joel caiu desacordado, Evandro sacou sua pistola com silenciador e atirou na cabeça dele, no mesmo instante que esse abriu seus olhos famintos. Com um certo esforço, o policial levou o corpo de Joel para um terreno baldio próximo e lá esperou a pequena movimentação do bairro diminuir. Quando deu meia noite, foi que Evandro começou a mutilar o corpo para guardá-lo em sua caixa, sem sentir o mínimo de arrependimento, pois sabia que estava cumprindo seu dever.

Evandro passou aquela noite pensando como “contar” para Gustavo sem revelar exatamente o que ele fazia; ele não queria perder o contato com o mecânico. Foi assim que ele optou por não dar fim no corpo e levar seu carro para o mecânico logo de manhã.

Ao ver o mecânico estacionando o carro e o portão terminando de fechar sem nenhum immortuo adentrar, ele se aproxima para cumprimentá-lo. Ele é uma das poucas pessoas que o policial tem real consideração, e proteger a ele e sua família, trará alguma humanidade para sua vida novamente. “Com certeza trará”, conclui Evandro, sem refletir sobre como sua presença afetará a vida do “bom mecânico”.

Abusos

Há tempos que ninguém do grupo tomava banho de chuveiro. Os banhos, quando eles ainda estavam na casa do sr. Fábio, eram tomados com águas fervidas em panelas e deixadas para esfriar em baldes de plástico.

Inevitável não sentir o cheiro de plástico na água. Inevitável que os banhos fossem tomados com águas em temperaturas não condizentes com a vontade dos banhistas; ou estava muito fria, ou muito quente, mas dificilmente se encontrava da maneira desejada.

Aquilo, porém, era de extrema necessidade, supunham eles, afinal, como garantir que os mortos não haviam contaminado as reservas de água? Como garantir que a caixa-d’água, depois de esvaziada, não fosse enchida com água contaminada? Ou que o filtro de água, embutido na parede da cozinha, possuía real capacidade de eliminar as impurezas trazidas por pedaços de cadáveres em putrefação?

“É melhor prevenir”, dizia Sônia para seus colegas, durante os dias que passaram naquela residência no bairro do Taquaral. Era ela que cuidava “desses assuntos” – higiene e limpeza – para o grupo. Todo dia ela fervia a água que seria usada no banho e que seria tomada durante o dia. Uma vez ela tentou usar galões de água mineral para armazenar água para uns três dias, mas não conseguiu. Afinal, aquelas pessoas eram “mimadas”, dizia ela para si mesmo, tinham “personalidade forte”, dizia aos outros.

Agora no laboratório as coisas são diferentes. Ela não mais precisa ficar cuidando da água; da faxina sim, mas pelo menos uma responsabilidade a menos. Além disso, a cada dois dias cada civil tem direito a tomar banho de chuveiro, de uma água que vem de um reservatório próprio de lá. “Que bom”, pensou ela assim que soube da notícia.

Sentindo a água cair em seu corpo maltratado, de quem trabalhou desde a infância com trabalhos pesados para por alimento na mesa da família, Sônia se considera merecedora daquela regalia. Contenta-se por conseguir relaxar com um bom banho no final do dia de trabalho.

Mesmo sendo uma pessoa simples, com marcas de trabalho em seu corpo: mãos e pés calejados e rachados, algumas rugas aparecendo antes do tempo, pequenas cicatrizes de acidentes domésticos, ainda sim, Sônia era uma mulher bonita e vaidosa, forte, com cabelos bem cuidados, olhar meigo e amigável, e com um belo sorriso de quem se preocupa com sua saúde, assim como com a dos outros.

Como quase tudo na vida de Sônia, sua relação com a própria aparência caminhava em altos e baixos. Apesar de todos os cuidados, aquelas marcas das dificuldades pela qual passou – e ainda está passando – gritam mais aos seus olhos. Para ela, nunca alguém iria desejá-la além de seu marido. Por causa desse pensamento ela agüentou tudo o que passou nas mãos dele.

Mas agora isso é passado. Se há algo bom que os mortos trouxeram em sua perambulação faminta é a chance de renovação na vida das pessoas. Sônia sentia isso em seu íntimo, mas negava. Parecia um pensamento maldoso demais, ver esse “fim do mundo” como algo bom. Entretanto, sempre que pensava em seu passado, em seu marido, Sônia agradecia a Deus pelas coisas terem mudado, mas logo batia três vezes na madeira para afastar esse pensamento satânico. Essa alegria de ter deixado seus problemas para trás, enquanto várias pessoas sofrem com tudo o que está acontecendo.

Claro que Sônia também estava sofrendo com tudo isso. Ela havia, com certeza, perdido uma filha e um filho, seus pais, irmãos e avôs. Mas com a água caindo em sua cabeça e costas, Sônia se sentia aliviada, sem conseguir pensar em seus entes queridos. O toque da água do chuveiro em suas costas lembrava-lhe os dedos de um namorado que teve a muito tempo, pressionando os pontos tensos e fazendo-a relaxar.

Sônia abre os olhos com terror, a semelhança da pressão era grande demais. Ela tenta virar rapidamente, mas o soldado a impede, tirando-a de baixo d’água e arrastando-a para fora do box. Sônia pensa em gritar, mas logo vê que o soldado não está sozinho, que há um de seus companheiros apontando uma arma para ela. Ela engole o grito. Já havia passado por algo semelhante na adolescência; não desejava passar por aquilo de novo, mas gostaria de continuar vivendo.

O soldado que a está agarrando começa se despir em sua frente, enquanto ela se mantém estática, paralisada de medo e repulsa. Com o inferno solto na terra, ela foi tola em acreditar que os homens construiriam algum tipo de paraíso. “Os mortos estão andando e fazendo o que fazem, por causa dos nossos pecados”, disse ela uma vez para Paulo, o psiquiatra “safado” de seu grupo, que debochou da cara dela como um bom ateu.

Sônia se culpa por sua ingenuidade. E pensa em como sair daquilo, mas não consegue ver nenhuma possibilidade de escapatória sem se colocar em risco de morrer. Ela sabe que os militares mandam naquela base, então sua morte seria facilmente ignorada, o que a deixou mais temerosa.

“Por que eu não vim tomar banho com as outras faxineiras?”, se culpou mais uma vez Sônia enquanto o homem pelado em sua frente começava a lhe acariciar, deixando ela com mais repulsa e ódio. “Que Deus me perdoe!”, o homem nu cai ao chão curvado, urrando de dor. Ela sentiu os testículos dele esmagarem entre seu joelho e a pélvis do infeliz.

Sônia esperava escutar um som antes de cair morta, mas nada disso aconteceu. Ela nem escutou o som, nem caiu morta. Se afastou do soldado caído e olhou espantada para o outro soldado, que estava desarmado e paralisado olhando para ela com medo e um suor frio descendo em seu rosto.

– Vista-se. – disse Evandro para ela, enquanto mantinha sua arma apontada para lateral da cabeça do soldado. Junto com ele estava Beto e Ricardo. Beto apenas olhava tudo aquilo com curiosidade, já Ricardo havia se aproximado do soldado que estava agonizando no chão e apontava para a cabeça dele a sua arma. – E vamos sair daqui.

Sônia se enxugou rapidamente e se vestiu sem se preocupar com a presença dos outros homens no banheiro. Ela percebeu que eles estavam conversando algo sobre “o que fazer”, mas não conseguiu prestar atenção. Seu coração estava acelerado, mas agora era de alguma espécie de alegria e alívio.

– Vocês ficam e só saiam daqui, após dez minutos. Depois conversarei pessoalmente com vocês e seus superiores em um lugar mais apropriado. – disse Evandro aos dois soldados.

Sônia não entendia porque Evandro era tão temido e respeitado. Nem mesmo gostava dele, principalmente pelo que ele tinha feito com o irmão de Marcela, mas naquele momento ela percebeu que ele tinha um bom coração por baixo de todos aqueles calos. “Talvez ele só tenha sofrido muito nessa vida”, pensou.

– Muito obrigada, sr. Evandro. – agradece ela enquanto eles saiam do banheiro e iam em direção do dormitório dos civis.

– Não é a mim que você deve agradecer. – responde Evandro secamente, como se nem mesmo tivesse sido tocado pelo episódio – Agradeça a esse moleque punheteiro.

Aquelas palavras surpreenderam a todos, principalmente por estarem saindo da boca do policial. Sônia olha para Beto que instantaneamente fica vermelho, quase roxo de vergonha, enquanto a risada de Ricardo a deixa igualmente encabulada.

Ameaças

Ao mesmo tempo em que cumprimenta Evandro, Gustavo agradece a Deus por ter se mantido fiel àquele “assassino”. Ele nunca soube exatamente o que seu cliente fazia, após a ameaça, preferiu nunca perguntar, porém, com os atuais acontecimentos, ele suspeita realmente de que Evandro sabe algo sobre os cadáveres ambulantes que estão por toda parte.

Evandro já freqüentava a oficina mecânica de Gustavo a um ano, quando Joel, seu funcionário, encontrou várias marcas de sangue no porta-malas do policial. A partir desse ocorrido, Gustavo começou a cuidar pessoalmente do carro de Evandro após o expdiente, para que mais nenhum funcionário se envolvesse com aquilo.

O policial sempre foi um cliente sinistro. O mecânico o considerava “muito mafioso”, o que era assustador. Porém o mais grotesco aconteceu após um ano e meio de clientela.

– Joaquim, arruma essa calça! – disse Gustavo para um de seus subordinados – Os clientes não precisam ficar vendo seu cofre.

– Desculpe, senhor Gustavo. – Joaquim respondeu rindo enquanto arrumava sua calça.

– Você não sabe mesmo porque Joel faltou hoje? Ele nunca faltou sem avisar. – perguntou Gustavo sem deixar sua preocupação acabar com seu bom humor.

– Não sei não, senhor Gustavo. Talvez a mãe dele teve que ser internada de novo. – respondeu Joaquim parando o que estava fazendo para olhar para o seu chefe.

– Mmm. Pode ser. Vou ligar para ele e ver se está tudo bem. – comenta Gustavo.

Ele continuou observando o que seus mecânicos estavam fazendo, e depois retornou para o escritório a fim de ligar para Joel e resolver as questões burocráticas de compras de peças para a oficina. Sua oficina havia crescido nos dez anos de funcionamento, “Minhas duas filhas estão crescendo bonitas e saudáveis”, dizia ele se referindo a sua oficina e sua filha Sofia, mas ainda assim, sua prioridade no momento era saber como estava Joel.

Gustavo sempre teve muita consideração por seus funcionários. O bem estar deles era sua prioridade, sem hipocrisia, pois ele não dizia isso, não fazia propagandas de seu “bom coração”, mas as pessoas sabiam; ainda mais aqueles que conviviam diariamente com ele. Sua preocupação era sincera e aumentava a cada tentativa de telefonema frustrada. O telefone tocava e tocava e ninguém atendia.

Ocupado com as ligações e devaneios a respeito do que poderia estar acontecendo com Joel, ele não ouviu Evandro se aproximar da porta.

– Gustavo? – o chamou suavemente.

O mecânico deu um pulo na cadeira. Aquele homem lhe causava arrepios. Ele era a causa de suas más noites de sono e daquela frase sobre as duas filhas ter deixado de fazer sentido.

– Senhor Evandro. – Gustavo foi cumprimentar Evandro tentando não demonstrar o incomodo – Como o senhor está?

– Ótimo. – respondeu secamente – Estou com pressa, portanto tome a chave e cuide bem do meu carro.

Gustavo ficou perplexo, pegou a chave e demorou a dizer algo olhando o para o objeto que estava em sua mão. Quando foi se despedir, Evandro já havia partido. Sem demora Gustavo foi limpar o exterior do veículo e fazer o check-up completo, deixando para limpar o interior depois do expediente.

Quando todos os seus mecânicos foram embora e sua mulher e filha estavam assistindo tv, ele abriu o porta-mala da blazer e iniciou a limpeza interna de trás para frente, a fim de tirar qualquer cheiro “esquisito” que tivesse impregnado o veículo, mas para sua surpresa, ele percebeu que talvez a fonte daquele cheiro não havia sido retirada da pick-up.

No porta-malas havia uma caixa marrom. Por estar sem cadeado, Gustavo pensou que sua suposição estaria errada. Ele limpou as manchas de sangue da caixa e resolveu abri-la para limpar dentro, mas aquela foi a maior idiotice que ele fez em sua vida. Dentro da caixa havia um cadáver mutilado com sua cabeça em cima das outras partes, como se tivesse sido posta para encarar quem ousasse abrir a caixa.

Gustavo vomitou pelo menos umas cinco vezes seguidas, tentando não fazer muito barulho para que Carla não resolvesse ver o que estava acontecendo. A impressão que ele teve foi de que o rosto era de alguém conhecido e aquilo o incomodou ainda mais. Assim que conseguiu se recuperar, o mecânico olhou novamente para o rosto do cadáver e fechou rapidamente a caixa, horrorizado.

– Joel… – se lamentou enquanto pegava um cadeado para trancar a caixa. Ele assim o fez, deixando a chave no porta-luvas da blazer.

Suas emoções eram um misto de angústia, raiva e medo. Mesmo sentindo a miscelânea de sensações, Gustavo prosseguiu com seu trabalho com lágrimas nos olhos e foi tentar dormir, mas não conseguiu. Ele rolou de um lado para o outro da cama, fazendo com que Carla o expulsa-se para o sofá, já que ele tentou ao máximo esconder o verdadeiro motivo da insônia para ela.

Assim que ele abriu a oficina na manhã seguinte, Evandro já estava aguardando para pegar seu veículo. Gustavo não falou nada, nem mesmo o cumprimentou, apenas o levou até o escritório para entregar a chave. Ele queria falar para o policial que ele era um monstro e que desistia de tê-lo como cliente, que não queria ser seu cúmplice, mas ao mesmo tempo tinha medo. E se ele tivesse matado Joel justamente por ele ter visto o sangue em seu porta-mala? E se ele falasse algo que fizesse Evandro querer descontar em sua família? Essa confusão o estava corroendo.

Evandro pegou a chave e virou-se.

– Evandro? – Gustavo chamou sua atenção com uma voz carregada – Gostaria de conversar com você.

O policial olhou para ele, mas não demonstrou nenhuma surpresa. Aquilo parecia premeditado. “Será que ele deixou o cadáver para que eu o visse?”, se perguntou Gustavo.

– Seja breve. Tenho que fazer uma entrega de material. – disse Evandro secamente.

– Eu não quero mais participar disso. – respondeu Gustavo, controlando seu desespero – Vi o “material” que você tem para entregar, e ele era meu amigo. Como você pôde… – ele dá uma breve pausa – Não quero mais ser seu cúmplice.

O olhar de Evandro tornou-se ainda mais frio e agressivo.

– Espero que não esteja pensando em fazer besteira. – ameaça Evandro o encarando.

– Não. Não vou falar com ninguém, apenas não quero mais participar. – retrucou Gustavo quase gaguejando.

– Ele não era mais seu empregado, nem mesmo estava entre nós. Eu não mato nada que já não esteja morto. – disse com a voz fria, fazendo Gustavo engolir em seco ao escutar aquelas enigmáticas palavras – E acredite: me ajudar será benéfico para você e para sua família. – aconselhou o policial, fazendo Gustavo tremer ainda mais ao perceber a ameaça escondida naquelas palavras.

Ele não conseguiu dizer mais nada. O policial o cumprimentou e partiu.

Na época Gustavo não havia entendido. Agora, descendo da fiorino na garagem da casa de Evandro, sabendo o que tem lá fora, Gustavo não sente mais aquele medo e arrepio que sentia, na verdade, ele se sente mais seguro em sua presença.

– Cadê sua filha? – pergunta Evandro amigavelmente.

– Morreu. Foi pega por um “deles”. – respondeu Gustavo com pesar.

– Uma pena. – respondeu Evandro.

Gustavo queria lhe perguntar o que havia acontecido com Joel, mas preferiu não fazê-lo. Sua suspeita de que Evandro sabe sobre o que está acontecendo não é uma certeza, e ele prefere manter essa sensação de segurança que não sentia desde que tudo começou. Infelizmente essa segurança não o conforta completamente, pois junto com a sensação, está a tristeza da culpa pelo que ocorreu com Sofia.

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