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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 3)

Stongest leva mais carne de lagarto para a boca enquanto tenta escutar algo que preste nas conversas que ocorrem ao seu redor. Sabal apenas toma mais um gole de seu vinho de cogumelo enquanto também tenta selecionar da melhor forma possível o que está sendo conversado naquele ambiente. Já tem alguns minutos que os dois estão sentados na mesa da taverna apenas se “alimentando”.

Faz dois dias que eles chegaram ao Bazaar. Nesse pequeno espaço de tempo eles conseguiram saber que algum batedor da Casa Agrach Dyrr descobriu a respeito de um exército de duergars que estava vindo na direção de Menzoberranzan, algo que apenas fortificou o boato que um escravo Dyrr havia lhe passado recentemente. Segundo outros boatos, as Casas Maiores estavam preparando um ataque aos duergars no meio do percurso. O local exato eles não descobriram.

Hoje o dia está totalmente infrutífero. Percebendo que eles não conseguirão nada de útil apenas escutando, Stongest prefere comentar alto algo que está passando por sua cabeça enquanto ele come aquele pedaço de carne suculenta.

– Acho que se’ia inte’essante leva’mos algumas dessas ca’nes pa’a os fieis. Eles vão fica’ f’acos comendo apenas cogumelos. – diz em goblinoide o quase-goblin em meio a mastigadas.

Sabal, ao perceber que Stongest estava falando, retorna como se estivesse em um reverie profundo.

– Como? – pergunta a clériga.

– Eu disse pa’a leva’mos comida pa’a o pessoal. Eles estão p’ecisando. – responde Stongest, olhando sério para ela.

– Ah sim. Com certeza. Temos que levar alguma comida para a viagem também se pretendemos realmente encontrar o filho da Do’Urden. Digo, de Lolth. – diz a clériga também em globinóide, se corrigindo imediatamente quando vê o olhar de desaprovação do meio-goblin-meio-algo.

– Se você não ac’edita, po’ que aceitou consegui’ fieis pa’a ela? – pergunta seriamente Stongest enquanto morde mais um pedaço da carne e toma um gole da cerveja em sua caneca.

Sabal o olha fixamente e sorri.

– Stongest, seja sincero. Você acredita mesmo que ela é Lolth? A Deusa-demônio das Aranhas, encarnada? – pergunta a clériga enquanto o goblin responde positivamente com um aceno de cabeça – Pois eu não. Minha deusa nada me disse a respeito de enviar uma manifestação para o plano material.

– Então po’ que você a se’ve, se não ac’edita? – pergunta Stongest ainda mastigando a carne.

– Eu não a sirvo Stongest. Eu sirvo Lolth. A Do’Urden pode ser muito útil para os propósitos de minha deusa. Afinal, cada seguidor que “ela” consegue, louvará Lolth. Não ela, mas Lolth. – responde Sabal sorrindo.

O meio-goblin engole a carne e sorri como se tivesse acabado de escutar uma tolice.

– Eu já acho que louva’ão Lolth, como a ‘ep’esentação do Caos, da Astúcia, do Pode’ e da Escu’idão.

– E do Mal? – interrompe Sabal introduzindo uma questão – Por que vocês nunca mencionaram o Mal? Se ela é a representação dos aspectos que minha deusa representa, por que vocês negligenciam um de seus aspectos?

Stongest toma mais um grande gole de cerveja e coloca a caneca na mesa antes de responder.

– Po’que esse aspecto diz ‘espeito a sua ‘aça e não a quem ela que’ alcança’ ago’a com um co’po mate’ial. – responde o meio-goblin olhando fixamente os olhos da clériga como se tivesse certeza da resposta.

– Não faz sentido, Stongest. O que faz sentido é que ela não é a deusa e sim uma tentativa falha de uma louca em transformar sua filha, ou seja lá o que, em algo divino. – diz Sabal ignorando o olhar severo de Stongest – Estou com ela, pois ela pode ser a chave para aumentar o poder e a área de influência de minha deusa.

– Você ainda não sabe o que é te’ Fé de ve’dade, Sabal. – diz secamente o meio-goblin à drow, que gargalha.

– Você está falando com uma clériga, goblin. Se eu não soubesse o que é ter fé, nunca iria conseguir conjurar as bênçãos de minha deusa. – responde a ex-Dyrr como se falasse algo óbvio.

– Você tem fé em algo que não está em você. Você não sabe o que é te’ Fé ve’dadei’a, clé’iga. – responde Stongest ainda sério e seco.

O rosto de Sabal torna-se raivoso, algo que nunca havia ocorrido em qualquer outra conversa com Stongest.

– Stongest! Não fale sobre o que você não conhece. Você tem fé em uma mortal que foi criada para ser uma falsa-deusa. Você é um infiel. Não terá nem mesmo para onde ir quando morrer. – diz Sabal com um tom bem mais seco e severo do que de costume – Tente entender Stongest, sua fé é que é falsa.

– Eu não tenho fé na pessoa, mas no que ela ‘ep’esenta. Eu tenho Fé naquilo que ela me fez ve’ em mim mesmo. – retruca o meio-goblin após um gole de cerveja que finaliza a bebida de dentro da caneca – Você sabe do que estou falando, sentiu isso quando ela lhe aceitou como sendo uma extensão sua.

– Eu sei que aquilo foi uma experiência estranha, Stongest. Eu não posso negar que fiquei dias, até meses sem saber se acreditava ou não naquilo tudo, mas agora que ela partiu em viagem e está longe, consegui refletir e não faz nenhum sentido. – se justifica Sabal.

– E é p’a faze’? – pergunta Stongest colocando sua caneca e seu prato de lado – O que ela semp’e p’egou é que a ve’dadei’a Fé só é possível quando você enca’na aquilo que ac’edita. Você não conco’da com isso?

– Concordo. Mas me diz: minha sociedade não encarna todos os aspectos de nossa deusa? – responde Sabal como se estivesse dizendo algo óbvio, tomando logo após o último gole de seu vinho de cogumelo.

– Enca’na o que eles vêem em uma entidade exte’io’. Eles não enca’nam o aspecto que eles possuem inte’io’mente. – responde Stongest.

– Qual a diferença? Não vejo nenhuma. – retruca Sabal achando aquilo tudo muito ilógico.

– Há uma g’ande dife’ença Sabal. Da fo’ma que fazem, vocês apenas se’vem algo ou alguém. Vocês estão sujeitos a decepções, a dúvidas e a questionamentos. – começa responder Stongest olhando ao redor – Você ouviu alguns dos comentá’ios a respeito do “sumiço” da sua deusa, não é? Você sabe que muitos de seus fieis i’ão pa’a out’os deuses em busca do mesmo ab’igo que eles tinham em suas teias. Muitas de suas i’mãs clé’igas fa’ão isso. Você sabe que é ve’dade. Que é questão de sob’evivencia. Essa é a falha do seu tipo de fé.

Sabal olha espantada para Stongest como se não acreditasse que aquele goblin extremamente robusto fosse capaz de tamanho raciocínio.

– O nosso tipo de Fé, p’ega que devemos se’ um só com nossa divindade. Um só com aquilo que ela ‘ep’esenta. Lolth não está aqui e pode nunca mais volta’, mas eu continuo sendo um com ela. Mi’ka sob’evive’á mesmo que sozinha, algo ext’emamente difícil pa’a alguém de sua ‘aça, po’que ela é uma só com sua divindade. Ela é astúcia, ela não louva a astúcia, e isso a mante’á apta a sob’evive’. Você sentiu o que é se’ uma com sua divindade. Ac’edito que vá’ias vezes você sentiu isso em suas meditações ou ao senti’ o pode’ de sua deusa at’avessa’ o seu co’po, mas a última vez que você sentiu isso foi quando conheceu Lolth. A Lolth que eu p’otejo.

A clériga não consegue responder, apenas fica olhando para o goblin ainda com cara de espanto, como se não acreditasse que aquilo tudo estava saindo de sua boca.

– Você ainda não tem Fé de ve’dade Sabal, mas com o tempo e vivência i’á entende’ o que eu digo. – Stongest finaliza o assunto.

– Veremos. – diz Sabal ainda pasma.

Stongest dá mais uma olhada ao redor. A taverna está cheia, com vários comerciantes e mercenários bebendo e comendo. Ele tenta escutar alguma coisa ao seu redor, mas não ouve nada de útil até Sabal o interromper.

– Me conte mais a respeito do filho de Lolth. Como ele nasceu já sendo um drider? – pergunta a clériga que até o momento não tirou os olhos de seu pequeno e forte companheiro.

– Não sei. Sei que eu estava junto e uma espécie de casulo saiu dela no lugar de uma c’iança. Um pouco depois o casulo começou a se ‘ompe’ e apa’ece’am as patas de uma a’anha, e só depois os b’aços de um d’ow. – diz Stongest olhando Sabal nos olhos.

– E com quem ela o deixou?

– Com uma Vae’uniana que ju’ou c’iá-lo pa’a odiá-la o máximo possível. – responde como se fosse algo sem importância.

– Você está falando sério, Stongest? – pergunta Sabal duvidosamente.

– Sim. – responde rapidamente o goblin que passa a olhar de canto de olho para um Ogro e um drow que passam perto de sua mesa.

– Para que iremos atrás do filho de Lolth se ele é um inimigo em potencial? – pergunta Sabal incrédula.

– Pois nada é imutável, e um d’ide’ se’ia um g’ande aliado pa’a nossa ig’eja. – responde o meio-goblin sem perder os dois de vista.

Sabal percebe que o drow que acompanha o ogro a está olhando curiosamente e sabe o porquê. Não é a primeira vez que ela é observada daquela maneira em sua vida. Dando de ombros, ela apenas sorri para Stongest e continua falando em goblinoide.

– Espero que você esteja certo. Então vamos parar de perder tempo e nos preparar para encontrar o filho de Lolth.

– Sim. – concorda Stongest se levantando e indo comprar comida para a viagem e para os outros fieis, enquanto Sabal observa a dupla bizarra subindo as escadas para o dormitório da taverna.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 6)

Enquanto medita após um treinamento com seu discípulo, Azirel percebe pequenas patas de aracnídeo caminhando pelo seu rosto e descendo no seu peito nú. Ao abrir os olhos ele vê ao longe seu discípulo carregando baldes d’água para a cabana. O velho eremita sabe o quanto aquele seu pedido foi inútil, pois essas águas, tais como suas cabanas, irão perecer com a passagem do exército Duergar que se aproxima. Mesmo assim, a hora de avisar o seu discípulo não chegou.

Há poucos instantes um Bregan D’Aerthe, pediu para Azirel enviar Alak para Menzoberranzan, pois lá precisariam dele. A resposta do velho eremita foi: “Enviarei, não se preocupem, mas antes o momento certo deve se manifestar”. O batedor ficou confuso com a resposta, mesmo assim a levou até Nym e o restante da guilda de mercenários. Talvez o “momento certo se manifestar” demore.

Talvez.

Azirel sente uma picada em seu peito. Nesse momento ele deixa de observar seu discípulo e olha em direção da aranha que acabara de lhe chamar a atenção. É uma viúva-negra. Nem uma expressão de preocupação toma o rosto do velho, apenas um sorriso de sincera felicidade. O veneno do pequeno aracnídeo nem mesmo chega a percorrer seu corpo, pois com todo o treinamento do eremita, esse é logo expelido. Azirel pega a pequena aranha com a mão direita e a beija, logo em seguida colocando-a no chão para que essa parta.

– Finalmente a hora chegou. – sorri e se levanta Azirel Sel’Xarann, caminhando na direção de seu substituto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 3)

– Minha mãe, não vejo porquê levar algum guerreiro junto comigo para investigar sobre um culto de escravos a Lolth. – diz uma jovem clériga Xorlarrin ajoelhada na frente de uma clériga obviamente mais experiente e madura.

– Você é idiota? – responde a clériga mais velha, olhando sua filha com espanto e ódio – Você não estará indo investigar um “culto de escravos a Lolth” sua imbecil, você estará indo descobrir algo sobre seu irmão traidor.

Contendo a raiva, Chalithra controla seu tom de voz.

– Desculpe.

– Não achei que seria necessário que eu fosse mais direta. Você já sabia que seu irmão foi visto nas proximidades do Braeryn. – diz Baltana Q’Xorlarrin ainda olhando secamente para sua filha.

– Sim, sabia. – responde Chalithra concentrando-se enormemente para se controlar e demonstrar apenas seu falso respeito.

– Agora que você já me fez perder a paciência, compreenda seu desígnio: você irá ao Braeryn com o falso objetivo de descobrir coisas a respeito do culto a Lolth pelos seres inferiores, porém, você estará realmente indo lá para descobrir onde está seu irmão e o que ele está fazendo. Compreendeu? – finaliza ironicamente o discurso.

– Sim Senhora. – responde Chalithra sentindo suas mãos tremerem.

Desde que iniciou o silêncio de Lolth, a Casa Xorlarrin não tem passado por bons momentos. Uma das piores situações foi descobrir que o Draegloth hermafrodita Zaknafein, que era um clérigo de Lolth, na verdade era um agente duplo. Isso afetou ainda mais a parte da família que era mais diretamente relacionada a ele.

Chalithra Q’Xorlarrin foi escolhida entre as suas outras irmãs, por ser a “menos preparada” e a mais “sacrificável” caso algo desse errado. Zaknafein demonstrou-se um adversário temível ao fugir de Menzoberranzan. Chalithra, no fundo de seu coração, desejava não ter sido a escolhida.

– Leve um de seus amantes. Aconselho você a levar Rizzen, pois ele será mais ápto a sobreviver. E alguém precisará sobreviver para nos trazer as informações.

Chalithra se mantém em silêncio.

– Concorda? – Baltana intíma sua filha com o olhar ainda mais severo a responder.

– Sim, minha Senhora. – se esforça Chalithra para concordar. Rizzen sempre foi seu amante favorito e ela não gostaria de tê-lo como guerreiro acompanhante, pois prefere imensamente ele em sua cama ou como assassino particular.

– Covarde. – pensa alto Baltana com desdém – Que esteja claro que, caso você retornar sem informações, morrerá pelas minhas próprias mãos. Entendido?

– Sim, minha Senhora.

Baltana observa sua filha por um tempo e percebe que seu corpo treme discretamente. Em um acesso de raiva Baltana golpeia o rosto da filha ajoelhada com um forte tapa. Chalithra cai ao chão e brevemente olha a mãe com ódio.

– Melhor assim. Não quero uma filha covarde e fraca manchando o nome de nossa Casa. – diz rispidamente Baltana.

Chalithra desvia o olhar e se levanta aos poucos, voltando a se ajoelhar.

– Isso é tudo, Senhora? – pergunta a jovem clériga com rancor.

– Não. Esteja avisada: um mago dos Teken’Th’Tlar irá acompanhar você e seu amante. Não permita que ele saiba o que está realmente ocorrendo, compreendeu? Caso ele descobrir, mate-o.

– Sim, minha Senhora.

– Ótimo. Agora sim, pode se retirar. – diz a clériga fazendo um gesto de desdém com a mão direita, como se estivesse tirando o pó da capa de um livro.

– Sim, Senhora. – responde a jovem Xorlarrin levantando-se e caminhando até a entrada do aposento, sem voltar, em momento algum, o olhar para sua mãe.

“Você morrerá, sua velha maldita”, pragueja a jovem clériga mentalmente durante a caminhada. Ao chegar lá ela se ajoelha para orar para sua silenciosa deusa. “Como poderei enfrentar Zaknafein sem o auxílio de Lolth?”, se pergunta a clériga.

Olhando para seu amuleto em forma de aranha, Chalithra sabe que sua missão será complicadíssima sem a assistência de sua deusa. Mesmo sabendo que não há necessidade para que entre em conflito direto com seu irmão, ela também sabe que erros podem ser cometidos e isso seria extremamente perigoso.

Ao pensar em Rizzen a clériga sorri e se excita. Ela coloca seu amuleto novamente no pescoço e se levanta, saindo de seu aposento e indo se encontrar com seu assassino favorito, para ter, talvez, seus últimos momentos prazerosos em companhia daquele macho submisso.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 5)

Em uma imensa caverna com vários túneis de acesso, um orog magro, de ossos grandes e com muitas cicatrizes, se encontra meditando próximo a um imenso lago. Folkyr sabe o quão artificial é aquele local e sabe o que foi capaz de criá-lo, mas isso não o intimida. Afinal de contas, o feiticeiro orog já tratou com centenas de demônios e diabos, e atualmente serve de clérigo para um dos que mais o impressionou: Shormongur.

Com os olhos amarelados fixos na água, Folkyr reflete sobre os planos de seu senhor, sabendo que dentro daquele lago artificial o Grande Ancião está refletindo sobre seus próprios planos. Não há como não ter respeito pelo Grande Ancião, afinal foi ele quem abriu os olhos de todos os que participarão do imenso ritual. Foi ele quem conseguiu a aliança com Shormongur e seus seguidores.

Folkyr encerra sua meditação com uma oração ao poderoso demônio. Ele sente que um de seus irmãos de fé está chegando à imensa caverna e, ao fim de sua oração, o orog se levanta e vira para a direção de onde surge um humano sujo e de feições duras.

– Malazir, como estão as preparações? – pergunta o orog a seu irmão de fé.

– Estão caminhando bem, Folkyr. – responde o humano, analisando como sempre seu companheiro orog que divide muitas características em comum consigo: o cabelo comprido e sujo e extremamente embaraçado, pele oleosa com sebos e fungos aparecendo nas linhas de dobras de seu pescoço e de seus braços – Tenho grandes expectativas a respeito de nosso sucesso, porém temos que ser pacientes.

– Sim, compreendo isso. Zaknafein deveria compreender melhor a importância da paciência em nosso trabalho atual. – diz o orog, virando-se em direção ao lago. – Ele virá hoje?

– Creio que não. Ele não dispõe de todo o tempo para dedicar-se a nossa causa diretamente. Seu papel de agente duplo dentro da Casa Xorlarrin requer cautela e dedicação em tempo integral. – responde o mago humano, se aproximando do lago ao lado de seu irmão.

– Imagino. Se ele não fosse filho do próprio Shormongur, eu não confiaria muito naquele híbrido.

– Idem.

Ambos ficam um tempo em silêncio enquanto observam as águas escuras e paradas do grande lago artificial. Folkyr não se espanta por Malazir conseguir enxergar na total escuridão, pois conhece muito bem as capacidades arcanas de seu irmão.

No fundo do lago é perceptível uma imensa sombra do que parece ser uma serpente começando a se mover.

– Ele está vindo. – diz Malazir.

– Sim. E o drider também está chegando. – complementa Folkyr, olhando na direção de onde ele sabe que a abominação aparecerá.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 2)

Enquanto Alak prepara os óleos que ajudarão a manter suas novas espadas resistentes às ações do tempo, Azirel limpa as duas patas dianteiras de seu falecido companheiro Aranha-Espada, Vazmaghor, purificando-as com o poder da terra. Foi difícil para os dois encontrarem o pequeno Nodo de Terra, mas em momento algum eles desistiram de seu objetivo. Vazmaghor morreu durante uma enorme e difícil batalha entre drows e trogloditas próximos a uma estação mercante importante para Ched Nasad e, conseqüentemente, importante para Menzoberranzan. Alak não se recorda do nome da estação, mas isso pouco importa para ele no momento.

A batalha foi brutal, Vazmaghor demonstrou ser um adversário terrível aos trogloditas, mas o número deles era bem maior que o exército drow. A grande Aranha-Espada acabou cercada e mutilada pelos seus adversários. Enquanto isso ocorria, Alak estava totalmente tomado pela excitação do momento. Era sua primeira grande missão como mercenário e a adrenalina fez sua cabeça e seu coração pulsarem em uníssono. Muitas vezes ele quase perdeu a classe e a técnica que tanto custaram para aprender. Mesmo assim o “discípulo do Eremita”, – como os Bregan D’Aerthe passaram a chamá-lo -, surpreendeu muitos descrentes com suas técnicas de combate e de rastreamento.

Em um certo momento os trogloditas perceberam que estavam em desvantagem, não numérica, mas tática, e bateram em retirada levando algumas mercadorias e itens mágicos roubados. Foi Alak, supervisionado por Azirel, que os caçou e recuperou os objetos sem entrar em confronto novamente com os reptilianos. Quando esses perceberam a “perda” dos itens inflaram em fúria, porém sabiam que não tinham condições de recuperar o território que lhes era de direito. Assim tiveram que conter toda sua ira até o momento oportuno.

Os trogloditas gastaram um bom tempo se preparando para uma nova investida. Foram-se dias para que eles tentassem novamente, mas agora a situação havia piorado. Em seu tempo de planejamento e reestruturação – ou o mais próximo que eles podiam chegar disso – os mercenários prepararam emboscadas e o reforço drow chegou de Ched Nasad à estação mercante.

A caminho de seu novo ataque, eles perceberam que não poderiam ir pela rota que utilizaram para fugir, pois essa se encontrava cheia de armadilhas extremamente bem preparadas. Tiveram que morrer cerca de dez batedores para que eles percebessem a inutilidade de tentar prosseguir por aquela trilha. Assim, tomaram uma outra rota, um pouco mais demorada, mas aparentemente menos preocupante. Toda aquela calmaria começou a preocupar os líderes xamãs dos reptilianos, mas quando a preocupação realmente os atingiu já era tarde demais.

Sua retaguarda estava cercada por mercenários drows e alguns de outras raças. Durante a batalha os trogloditas foram obrigados a seguir em seu caminho e acabaram se deparando com o exército de drows e escravos que estava protegendo a estação. O massacre foi imenso. Alak e os mercenários sabiam que precisavam apenas finalizar o serviço e retornar para o Bazaar de Menzoberranzan para receber a soma que lhes havia sido prometida. O problema era que o serviço para o qual foram ocntratados não era tão fácil dentro de uma batalha tão grande e caótica.

Alak trocou olhares breves com Azirel, pois não sabia como no meio daquela carnificina, aprisionar os trogloditas mais saudáveis e levá-los escravizados para Menzoberranzan antes que a batalha terminasse e os escravos fossem levados para Ched Nasad. Os Bregan D’Aerthe faziam sua parte com extrema perícia, porém Alak precisava demonstrar seu valor. Era isso que Azirel queria quando ofereceu sua ajuda e a ajuda do seu discípulo à guilda de mercenários.

A troca de olhares fora infrutífera. Azirel não deu nenhuma dica e simplesmente sumiu dentro de um foco caótico de combate. Alak continuou lutando até que, ao observar Brum – um ogro mago mercenário, também a serviço dos Bregan D’Aerthe, com o qual Alak tinha uma grande afinidade – teve uma idéia simplista, mas era tudo naquele momento.

– Brum! – gritou o drow para chamar a atenção do gigante.

Quando esse olhou, Alak fez um sinal com a mão como se pedisse para o ogro fazer um corte em algo finalizando em uma “explosão”. Brum entendeu de imediato o que o drow queria dizer. O gigante agarrou firmemente as correntes das quais pendiam suas clavas de pedra e desferiu um golpe com suas duas armas, que formou uma circunferência quase completa de nove metros de diâmetro. Aquele ataque varreu todos os trogloditas da proximidade e alguns drows que não conseguiram escapar a tempo. Aquela explosão de força acabou chamando a atenção da batalha para aquele local. Enquanto os trogloditas atingidos tentavam se levantar, outros começaram a atacar o ogro, enquanto os drows não sabiam se atacavam os inimigos distraídos ou deixavam eles darem cabo no ogro – que afinal era outra ameaça aparente – para depois cuidarem do que restasse. Para Alak, o importante daquilo tudo era que Brum havia chamado atenção o suficiente para ele agir.

Sem muita demora, e percebendo que a maioria dos mercenários já haviam ido embora, Alak observou rapidamente o campo de batalha para encontrar alguns trogloditas que demonstrassem saúde e resistência para servirem como bons escravos. Encontrou dois. O primeiro ele não teve dificuldade para derrubar, porém o segundo lhe feriu bastante antes que ele conseguisse atordoá-lo e amarrá-lo em uma corda de teia que sempre carregava consigo. Agora vinha o segundo problema: Alak, mesmo sendo grande, sempre foi ágil e preciso, mas nunca foi forte. Carregar dois trogloditas seria complicadíssimo.

Percebendo que Brum havia fugido em uma espécie de fúria pela sobrevivência, Alak ficou ainda mais perdido. Não havia Brum nem Vazmaghor para carregar aqueles dois. Observando novamente o ambiente, ele viu um lagarto de montaria que estava perdido de seu patrulheiro. Correu até o lagarto e pulou sem sua cela. Com um pouco de dificuldade para guiá-lo, pois esse estava bastante estressado pelo ambiente de combate, Alak conseguiu aproximá-lo de seus dois prisioneiros. Saltando ao chão, Alak não conseguiu impedir a tempo que o lagarto de montaria devorasse um braço do troglodita desmaiado, que logo acordou aos berros. “Merda!”, praguejou Alak a si mesmo, mas não perdeu tempo choramingando. Colocou seu prisioneiro amarrado nas costas do lagarto de montaria e subiu na cela partido o mais rápido possível antes que os berros do outro troglodita chamassem atenção suficiente.

Ao fim de sua primeira grande missão, Alak não havia ficado feliz. Muitos erros foram cometidos e seu Mestre estava pesaroso com a perda de Vazmaghor. Porém, os Bregan D’Aerthe ficaram satisfeito com o desempenho do “discípulo do Eremita”, e isso foi o suficiente para Azirel ter algum contentamento; o suficiente para querer presentear Alak.

Azirel termina a purificação e inicia alguns cânticos invocando a magia natural que irá tornar as patas de Vazmaghor ainda mais letais do que eram quando esse ainda estava vivo. Durante a invocação, Alak despeja cuidadosamente os óleos sobre as patas e com sua própria mão os espalha por toda extensão de suas novas espadas.

Uma forte energia vinda da terra começa a ser sentida pelo esguio mercenário enquanto esse ainda esfrega os óleos. Os cânticos de Azirel começam a aumentar a potência e sua voz torna-se mais grave. A pata começa a esquentar. Alak afasta sua mão quando sente as primeiras queimaduras se formarem. Azirel se aproxima e toca as patas incandescentes, que começam a esfriar visivelmente e tomar uma aparência mais metálica. Por alguns instantes Alak pensa que seu Mestre transformou as patas de Vazmaghor em espadas de metal, mas logo esse pensamento foge de sua mente quando as patas começam a voltar a sua aparência normal. Azirel emite alguns cânticos sussurrados finalizando o processo.

– Pronto. Agora falta apenas forjar um cabo equilibrado para suas novas espadas. – diz o velho eremita a seu discípulo.

Alak ainda impressionado o observa antes de por em voz alta a única questão que está em sua mente:

– Quando você vai me ensinar isso?

– Nunca. – responde rápida e secamente o velho eremita – Esse segredo morrerá comigo. Ensinarei-lhe coisas que lhe serão mais úteis do que transformar as patas do seu companheiro em armas.

Contrariado, Alak fica em silêncio e ajuda seu Mestre a terminar o trabalho. “O que mais meu Mestre conhece?”, se pergunta curiosamente o discípulo.

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