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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 2)

            Enquanto o guerreiro Xorlarrin termina de interrogar inutilmente o orc e a clériga, novamente, perde a paciência e esmaga mais uma cabeça com sua maça, Sol’al Teken’Th’Tlar utiliza um pequeno anel que fica em seu dedo mindinho. Em sua incursão para o lower dark, as camadas mais profundas do Underdark, ele recebeu o anel de Jabor, seu tutor oficial dentro de sua própria Casa. O anel possui apenas um pequeno poder, mas é algo que é extremamente importante para ele: comunicação direta com seu mestre.

            Como nas magias de comunicação a distância, o feitiço desse anel possui um limite de palavras que podem ser usadas e só pode ser ativado duas vezes durante o período de um dia na superfície. Em outras palavras, deve ser utilizado brevemente e de maneira extremamente consciente. Sol’al acredita que o momento para entrar em contato com os superiores de sua Casa chegou. Durante todo o interrogatório, o guerreiro Xorlarrin não fez nenhuma pergunta referente ao culto a Lolth pelos escravos. As perguntas eram voltadas a um único assunto: os orcs fugitivos.

            Sol’al se concentra e profere quase que silenciosamente as palavras mágicas que ativam o anel. Ele sente o poder mágico fluindo do objeto e prepara a frase mentalmente. No momento certo ele apenas envia seus pensamentos ao seu superior. “Os Xorlarrin não buscam o culto, apenas fugitivos. Lolthianos encontrados e ignorados”, o mago acredita que para o momento aquilo é tudo o que deve ser dito. Qualquer futuro problema ele poderia utilizar o feitiço que resta no anel por hoje, ou uma de suas magias para se comunicar, mas isso é um disperdício para o momento.

            – Mago, descobriu alguma coisa? – pergunta a clériga com sua habitual arrogancia.

            Sol’al retoma sua concentração no momento e reflete rapidamente o que dizer sem oferecer todo o conhecimento que adquiriu sobre a situação das armadilhas.

            – Descobri, minha Senhora. – responde indo em direção ao orc – Segundo as palavras de poder e pelo que percebi, as armadilhas afetam apenas inimigos do demônio e não seus servos ou aliados.

            A Xorlarrin o encara por um tempo pensando que esse prosseguiria, mas como isso não ocorre ela pergunta secamente:

            – O que você sugere?

            Sol’al dá um sorriso fingindo uma pequena timidez e responde:

            – Acredito que as runas não são ativadas por orcs necessariamente. Orcs e pelo que percebemos, humanos também. – mente Sol’al.

            – Não são ativadas por orcs e humanos? – repete incrédulo Alak em subterrâneo comum para que Brum entendesse a suposição do mago que conversa com a clériga em baixo-drow.

            – Besteria. – Brum ri e vira as costas para o grupo, levantando o orc prisioneiro, que se encontra amarrado, em seu ombro.

            Sol’al encara as costas do ogro com raiva, mas logo ela passa quando a clériga comenta.

            – É uma suposição interessante, mago. Vamos fazer o teste. – Alak olha para ela ainda mais incrédulo e Brum apenas ri enquanto a clériga ordena em baixo-drow – Mercenário, peça para o inferior arremessar o orc pela armadilha.

            – Senhora, não acho que dará certo. – comenta o eremita.

            – Cale a boca, o Mestre Teken’Th’Tlar é o mago de nossa expedição. – responde ela fazendo com que o sorriso no rosto do mago se alargasse ainda mais.

            – Sim, Senhora. – diz Alak voltando-se a Brum e fazendo o pedido sem sentido que a clériga ordenou.

            Sol’al observa Brum se aproximando da armadilha e jogando levemente o orc através dela. Escutando com o máximo de atenção, o mago consegue captar algumas palavras em abissal que o orc sussurou enquanto estava para ser arremessado e durante o arremesso. Nada ocorreu. A armadilha não disparou e o mago simplesmente bateu com um baque no chão.

            Brum utilizando a corrente de uma de suas clavas laçou o orc e o puxou de volta. Alak encara surpreso o mago que o ignora e se encaminha para a clériga sorrindo.

            – Parece que você estava certo mago. – comenta surpresa.

            – Descobri mais que isso, minha senhora. – diz Sol’al enigmaticamente.

            – Como? – pergunta a Xorlarrin curiosa.

            – Mercenário, tire o colar que o orc mago está usando. – ordena ele a Brum, que olha para Alak com dúvidas se aquilo era ordens da clériga ou do próprio mago.

            – Peça para ele obedecer, mercenário. – diz a clériga à Alak que apenas faz um gesto positivo para saciar a dúvida de Brum.

            Brum, com toda sua delicadeza, retira o amuleto do pescoço do mago orc e o joga para Sol’al.

            – O que seria isso? – pergunta a Xorlarrin.

            – É semelhante ao da humana que encontramos lá fora e semelhante aos que encontrei em todos os mortos. Alguns usavam esse amuleto no braço, outros no pescoço. Acredito que para funcionar isso deva estar em contato com a pele. – responde Sol’al, todo orgulhoso de suas descobertas.

            – Esse é o símbolo sintético do nome do demônio, correto? – pergunta a clériga olhando para o amuleto do mago e o da humana gorda que está em sua posse.

            – Sim, minha Senhora. Quando o ogro arremessou o orc eu o escutei dizendo as palavras de ativação do amuleto. É uma espécie de oração em abissal. – comenta o mago retirando de sua piwafwi outros amuletos iguais àqueles que estão na mão da clériga.

            A Xorlarrin sorri e se aproxima de Sol’al dizendo em alto-drow.

            – Vejo que alguém estava escondendo o jogo.

            Sol’al sorri.

            – E quem não está? – responde o mago logo em seguida ensinando palavra por palavra a “oração” necessária para ativar o amuleto. Brum não aceitou o amuleto, porém ninguém insistiu, nem mesmo Alak, pois conhece Brum o suficiente para saber que o ogro é totalmente averso ao uso de magias; até mesmo para enfrentar outras formas de magias.

            Sol’al olha para os mercenários e os desafia sorrindo. Brum sorri de volta acenando com a mão, enquanto Alak o ignora. “Me subestimem rapazes. Vamos ver até onde durarão”, comenta consigo o mago Teken’Th’Tlar com um sorriso satisfeito em seu rosto.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 1)

“Maldição!”, pragueja mentalmente Alak Sel’Xarann após ser atingido novamente por uma espadada de um dos dois orcs com os quais está lutando. “Foco Alak!”, ordena a si mesmo recordando-se de lições importantes que seu mestre havia lhe passado sobre combates com múltiplos oponentes.

            O esguio mercenário drow esquiva-se de outro golpe desferido por um de seus adversários e atinge precisamente a garganta do outro. O orc ferido se ajoelha e cai ao chão morto com sangue escorrendo pelo seu pescoço. Alak sorri por não ter sido atingido por nenhum respingo, se esquiva novamente de outro ataque desferido pelo outro orc, que continua de pé. O mercenário dá um passo para trás esperando uma nova investida que logo vem. Jogando levemente seu corpo para o lado, Alak utiliza a parte plana de uma de suas espadas para forçar o braço do orc para baixo, enquanto crava a outra espada em suas costas, próximo ao trapézio.

            “Obrigado Vazmaghor”, o mercenário cumprimenta suas espadas enquanto o orc não resiste o ferimento e cai ao chão. Sem perder mais tempo, Alak observa o campo de batalha para ter uma noção de tudo o que está ocorrendo. Um dos magos, um humano, está morto com uma de suas adagas cravadas em seu peito. Dois orcs acabam de morrer por suas afiadas espadas. Mais a frente o Xorlarrin está lutando contra dois guerreiros orcs e um aparente mago ou xamã da mesma raça. A aproximadamente quatro metros a direita do guerreiro, Alak vê a ladina chegando furtivamente para atingir um outro mago humano.

            Alak se prepara para ir a auxílio do guerreiro Xorlarrin, mas percebe de canto de olho que um orc viu a pequena drow se aproximando do mago. Sabendo que não chegaria a tempo para auxiliá-la, o mercenário resolve arremessar suas duas espadas em direção ao orc.

            – Merda! – pragueja em voz alta Alak quando, no momento em que está arremessando sua espada, tropeça em um dos orcs mortos aos seus pés.

            A espada rodopia no ar com grande força, porém, ao invés de atingir o alvo planejado, atinge o peito da pequena ladina, que não resiste o ataque e morre. O mago humano percebe o ataque frustrado do drow e sorri, enquanto o orc que se aproximava da ladina começa a gargalhar.

            Alak sem perder mais tempo saca uma de suas adagas e arremessa no mago, que é atingido de raspão. “Burro!”, pragueja novamente Alak percebendo que aquele não era seu dia. O orc corre em sua direção e o mercenário aparentemente faz o mesmo, mas apenas para pular ao lado do orc e recuperar sua outra espada que está fincada no corpo da pequena ladina. Ele deseja em seu íntimo que o Xorlarrin não tenha visto o incidente.

            O orc para e se vira para enfrentar Alak, que se levanta rapidamente e corta um dos braços de seu oponente antes que esse reagisse. Rapidamente o drow chuta o rosto de seu adversári que cai ao chão, e finaliza cravando uma de suas espadas em seu olho.

Em suas costas Alak sente um calor aumentando e, mesmo tentando sair a tempo do caminho, acaba tendo uma pequena parte do seu corpo queimada pela magia do mago. Normalmente magias não possuem grandes efeitos em Alak, não que ele seja tão resistente quanto Brum, mas sua natureza drow e sua capacidade meditativa conquistada durante os treinamentos com seu mestre eremita, Azirel, o tornaram bem resistentes a investidas arcanas.

            “Esse mago com certeza é experiente, ou eu que não estou conseguindo manter minha mente tranqüila”, comenta e se contra argumenta Alak virando-se para o mago e desferindo uma ombrada em seu oponente, ao mesmo tempo que guarda uma de suas espadas. O mago cai ao chão devido ao impacto e Alak aproveita para atingir o rosto do mago com um potente golpe de mão. O mago fica atordoado, mas não perde a consciência, Alak se irrita e crava a espada no peito do humano.

            Olhando para o lado, o mercenário vê o guerreiro Xorlarrin ainda enfrentando um dos orcs guerreiros e o orc mago. “Todo esse tempo e ele só conseguiu matar um?”, pensa Alak com desdém, mas logo retoma o foco mental para a batalha. Dessa vez ele não deve, ou melhor, não pode cometer erros, seria deveras humilhante para seu nome e para o nome de seu mestre.

            Alak salta tendo em mira o mago, mas esse percebe a aproximação do drow e reage rapidamente recitando palavras de conjuração para disparar um pequeno dardo de ácido. O dardo atinge Alak, mas nada ocorre com ele. Ignorando o fato, Alak desfere um preciso golpe com as pontas de seus dedos – médio e indicador – em um dos braços do orc, que amolece instantaneamente. Aproveitando a pequena distração, ele guarda a outra espada que ainda estava empunhando e antes que o mago consiga reagir antecipadamente, Alak desfere três golpes extremamente rápidos que, para qualquer expectador menos experiente, parece ter sido um golpe e uma pequena ameaça. Porém dessa vez tudo dá certo para o mercenário. O orc sente seu corpo mole e tomba ao chão.

            Sorrindo com o sucesso, Alak vira o rosto para ver se o Xorlarrin deu conta do último orc. O guerreiro está terminando de atingir seu oponente com uma estocada de sua espada curta. Como de costume, ele não utilizou a espada que guarda em suas costas.

            – Não há mais nenhum. – diz o mercenário, quando o Xorlarrin, após eliminar seu adversário, olha ao redor em busca de mais algum – Imobilizei esse orc para vocês poderem interrogá-lo.

            O Xorlarrin sorri.

            – Bom trabalho mercenário. – ele olha em direção a ladina e simplesmente ignora o que vê.

            Alak acha suspeita da atitude do guerreiro, mas simplesmente finge que nada ocorreu. Vai de encontro ao corpo da pequena drow e, vendo que as adagas do mago humano é de um tamanho semelhante ao da lâmina de sua espada, não perde tempo e finca uma no buraco feito pelo péssimo ataque. Ele pega o corpo da drow e carrega enquanto o guerreiro Xorlarrin espera Brum, que caminha para carregar o orc imobilizado.

            A clériga Xorlarrin observa o campo de abatalha de longe, com o mago Sol’al ao seu lado. “Ela quem deve ter enviado Brum para pegar o corpo”, conclui Alak mentalmente enquanto vai em direção a eles.

            – Mago, reviste os corpos dos nossos inimigos. Vê se encontra algo útil para nós. – ordena a clériga. Dessa vez, Alak percebe que o mago não se sentiu contrariado nem ultrajado com a ordem da clériga para fazer trabalhos que seriam normalmente delegados a Brum.

            Alak chega perto da clériga e deixa a ladina mirim aos seus pés.

            – Não foi possível salvá-la. – diz o mercenário à clériga Xorlarrin, que apenas olha com desdém para o corpo da drow antes de perguntar.

            – Foram os orcs?

            – Um dos magos humanos. – responde Alak sem dúvida alguma.

            A Xorlarrin olha para seu guerreiro que confirma positivamente a resposta do mercenário.

            – Deixe-a ai. Interroguem o orc. – comanda a clériga.

            O eremita olha para o Xorlarrin que apenas responde com seu sorriso habitual. “Filho de uma gnoll sarnenta. Está esperando o momento certo para falar o que viu, não é?”, pergunta mentalmente, mas deixa apenas um sorriso de desafio transparecer no seu rosto.

            Ambos se aproximam do corpo do mago orc. O Xorlarrin empunha uma pequena faca de tortura escontida em sua armadura. Alak apenas observa.

            – Orc, onde vocês estão se escondendo? – pergunta o guerreiro, tendo apenas um silêncio como resposta.

            O Xorlarrin sorri e se aproxima do pé de seu prisioneiro. Todo o orc está coberto de sujeira, mas nem chega aos pés da humana gorda que eles encontraram fora da passagem, no Braeryn. Com sua faca, o Xorlarrin inicia uma precisa cirurgia nos pés do orc, em pontos altamente sensíveis, porém não vitais.

            – Por que no pé? Ele precisará andar depois. – questiona Alak considerando a atitude do guerreiro idiota.

            – Há pontos suficientemente sensíveis aqui, além do mais, para que temos o ogro senão para carregar? – responde o Xorlarrin em baixo-drow.

            Alak apenas sorri, não pelo comentário do guerreiro, mas pela covardia dele de não ter dito aquilo em uma linguagem a qual Brum entenderia. O eremita pega uma caixinha que ele guarda em sua humilde vestimenta, retira uma pequena agulha e um fio semelhante a seda, as quais usa para fechar seus ferimentos, pausando de vez enquando para observar o interrogatório.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (Parte 5)

            O cheiro de fezes e corpos em putrefação agrada a narina do humano Malazir Penaril, principalmente quando esses apreciados odores se misturam com o cheiro de sangue fresco de um recém sacrifício ao seu senhor demoníaco: Shormongur. Ele olha para seu companheiro e irmão de fé, Folkyr, um orog que seria muito belo, se não fossem os escrementos e sebos que encobrem grande parte de seu corpo.

            – Há muito que espero vocês me chamarem. – uma voz cavernosa ressoa por detrás de seus ombros, fazendo com que ambos se virem dando as costas ao altar de sacrifício – O que causou tanta demora?

            – Meu Senhor. Mestre da Degradação, da Destruição, da Corrupção e do Fogo que a tudo consome, nos perdoe pela demora, porém as preparações para o ritual está ocupando muito de nosso tempo. – responde Folkyr ajoelhado aos pés de seu mestre glabrezu, enquanto Malazir complementa.

            – Isso é verdade Grande Senhor. O Grande Ancião está ausente e, em sua ausência, eu e Folkyr somos os dois conjuradores mais competentes. Somos nós que devemos guiar os procedimentos e os preparatórios para o imenso ritual.

            O glabrezu esboça um sorriso no rosto.

            – Provavelmente a serpente está aumentando sua rede de intrigas e colaboradores. – comenta o demônio com contentamento em sua voz – E o meu filho?

            Malazir e Folkyr se olham antes de responder ao seu mestre. O local do altar, onde estão conversando com Shormongur, é uma caverna próxima a Menzoberranzan. O altar foi criado por Zaknafein – o filho de Shormongur – e seus servos orcs com toda a fé que esse possui em seu pai.

            – Tememos que ele possa estragar tudo, Senhor. Até o momento ele está sendo extremamente útil, entretanto, seu filho, sente a liderança do Grande Ancião como uma afronta ao Senhor. – responde Malazyr.

            O glabrezu gargalha.

            – Meu filho me surpreende com a fé que deposita em mim. Porém não permitam que estrague nosso plano. – ordena Shormongur com rispidez, antes mesmo que o eco de sua gargalhada deixasse o ambiente.

            – Não permitiremos, Senhor. – responde ambos conjuradores em uníssono.

            – Não importa o quanto não confiamos na serpente, não podemos de forma alguma encará-lo apenas como um empecilho. – diz o demônio seriamente aos seus seguidores – Não podemos subestimá-lo como um tolo que não sabe a amplitude do que está fazendo. Ele está a mais de um século criando as passagens necessárias para os principais pontos do grande ritual. Seja quais forem seus objetivos, não podemos perder a oportunidade de participar.

            Ambos os fieis concordam com um asceno de cabeça.

            – Se temos até mesmo companheiros de outros planos participando desse imenso ritual, por que nós, não iríamos concordar com o Grande Ancião? – Shormongur sorri e gargalha – Não importa a intenção da serpente, o Abismo abrirá suas portas e aqueles que estiverem preparados reinarão soberanos em todos os planos. A serpente que aguarde.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 4)

            Tudo está ocorrendo perfeitamente. Enquanto estava na superfície, Lolth Do’Urden não se recordava exatamente o quão fácil era criar uma situação de intriga favorável entre membros da sua própria raça: os drows. Ela sorri vendo que a terceira investida contra os grimlocks está sendo da maneira que havia previsto. Os drows estão com grandes vantagens, porém há muitas chances dos grimlocks sobreviverem.

            Um pouco antes de partirem para a terceira investida, os exercitos se prepararam e esperaram seus líderes, que estavam atrasados. Nadal estava com uma baita dor de cabeça, resultado da bebida que havia tomado com Alystin logo após a conversa com as duas facções do exército. O mercenário não sabia o porquê dele ter agüentado tão pouca bebida, mas isso não era algo para se preocupar no momento.

Enquanto a Calimar…

            O mago foi encontrado morto por um de seus discípulos, junto ao corpo de uma drow, possívelmente uma aluna dele que também havia sumido. Quem o matou? Todos se perguntaram, mas logo Erelda tomou a liderança oficial e ordenou que Nadal comandasse o exército. Muitos dos alunos de Calimar perceberam alguma possível trama entre aqueles dois, mas nada que os fizessem ficar sedentos por vingança, afinal, agora que Calimar estava morto, muitos poderiam tentar tomar a cadeira de Mestre em Evocação que ele ocupava. Porém, havia um drow mago que não estava feliz com tudo aquilo: Guldar Khalazza.

            Logo que descobriram os corpos, a falsa Alystin foi se encontrar com o jovem mago. Ela estava em prantos, tentando esconder suas lágrimas atrás de um capuz, para que ninguém mais a visse assim, principalmente Erelda. Guldar sabia que ela era obsecada por seu irmão, e toda aquela trama óbvia havia atingido-a como uma bola de fogo. Na conversa que tiveram antes da investida começar, ela disse:

            – Vingue-nos! Mate o responsável pela morte de seu irmão e pela sedução de Erelda!

            Guldar sabia que era isso mesmo que ele deveria fazer. Nadal causou a ruptura do exército. Colocou o cerco em risco tendo matado seu irmão, o grande estrategísta Calimar. E além disso, conseguiu seduzir de alguma forma Erelda, sua Senhora, com o objetivo de ficar com as glórias da batalha.

            Lolth percebeu tudo o que ocorreu internamente com o jovem mago. Ela sabia que ele daria tudo de si para exterminar Nadal. Em suas mãos faltava apenas Erelda, a qual ela teria de esperar o cerco se iniciar para poder cocluir seu objetivo.

            A pseudo-deusa agradace profundamente os itens mágicos que conseguiu com a falecida Alystin. Ela possuía a capacidade de criar ilusões, graças a três aneis que pertenciam à verdadeira ilusionista. Foram esses itens que ajudaram em muito criação de toda a teia que ela teceu. Calimar estava morto, todos acreditavam no envolvimento de Nadal, até mesmo Erelda. Guldar deixou seu ódio pelo mercenário o guiar, enquanto Erelda percebeu uma situação na qual poderia usufruir da morte do mago líder do cerco para aumentar o prestígio de sua casa e da guilda de mercenários liderada por Nadal. Uma aliança útil, sugestão de Alystin.

            Agora Guldar está prestes a enfrentar Nadal, mas antes que isso ocorra, Lolth deve matar Erelda. Assim todos os possíveis líderes estarão mortos e isso deixará o exército sem cabeça, porém ainda forte. Alguém com certeza acabará tomando a liderança, mas até que isso ocorra, o grupo de grimlocks guiados por Braços de Adamantina já terá partido. É nisso que ela acredita.

É isso que ela espera.

            Não é tão difícil para a sedutora assassina encontrar a clériga. O momento do parto chegou. Erelda está em sua cabana com uma parteira e outra clériga de Lolth, enquanto do lado de fora, duas guardas tomam conta.

            A Rainha das Aranhas continua em silêncio, o que torna o parto ainda mais infrutífero. Se essa estivesse dando seus dons às suas clérigas, todo o sofrimento de Erelda poderia ser oferecido a deusa-demoníaca, e com certaza uma magia de imenso poder poderia ser conjurada.

            Lolth não tem muitas dificuldades para passar pelas guardas, utilizando um dos aneis de ilusão para cirar a imagem de um drow que tenta se aproximar da cabana. Tentando impedi-lo de se aproximar, as duas guardiãs abrem o espaço suficiente para a Do’Urden adentrar. Erelda grita de dor, enquanto a parteira retira a pequena cria de dentro da clériga. Um flash atinge a mente de Lolth, que se recorda do parto de seu filho, mas logo ela recobra sua concentração e age da forma mais rápida possível. A ilusão lá fora não durará muito, portanto ela sabe que deve agir antes que isso ocorra e as guardas descubram que estam sendo enganadas.

Lolth saca seu sabre – a Quelícera – e atinge a clériga, que está orando para Lolth durante o parto, com uma estocada no pescoço. Logo o poder de sua mortal arma entra em ação. Antes mesmo que essa possa gritar, seu pescoço começa a tomar uma coloração arroxeada com veios amarelos. A necrose sufoca a clériga enquanto Lolth elimina a parteira de modo mais simples e mais rápido.

            Quando Erelda entende o que está ocorrendo e tenta pegar seu flagelo de cinco pontas com ganchos de ferro, Lolth decepa o braço da clériga. E cria, com outro dos três aneis de Alystin, uma ilusão sonora para abafar o grito de ódio de Erelda, para logo em seguida decepar a cabeça da clériga com a Quelícera, porém sem utilizar seu poder.

            Lolth sabe que a ilusão lá fora acabou e logo logo, as guardas irão adentrar o aposento. Rapidamente, a pseudo-deusa pega a cabeça da clériga e espalha o sangue no aposento, pega a filha de Erelda e parte rasgando a tenda.

            No campo de batalha o exército liderado por Nadal está com uma imensa vantagem em relação aos grimlocks. Guldar percebe que Nadal já está com alguns ferimentos e com a concentração completamente comprometida graças ao veneno que Alystin colocou em sua bebida. Mesmo assim, o jovem mago duvida que o mercenário irá morrer naturalmente durante a batalha, pois a vantagem de sua tropa é enorme.

            Guldar utiliza algumas de suas magias mais simples, para guardar aquelas que serão úteis para exterminar Nadal. Ele luta e espera o sinal de Alystin. Evoca um raio de gelo em direção a um bárbaro grimlock que está dando muito trabalho aos soldados drows e vê, de canto de olho algumas aranhas rastejando-se no campo de batalha. O cenário muda, Guldar se torna um grimlock e vários outros brotam do chão. O jovem mago sorri, pois reconhece a maestria das ilusões de Alystin, muitas vezes até mesmo duvida que a ilusionista seja uma seguidora de Lolth, pois essa se parece muito com uma devota de Shar.

            Na forma de um grimlock, o mago se aproxima pelas costas de Nadal e, com suas mãos flamejantes, toca a cabeça do mercenário. Nadal sente uma forte dor de queimadura e logo se vira desferindo um golpe que é defletido por um escudo mágico que Guldar criou de antemão. Para Nadal, quem está enfretando ele é um grimlock, mas o mercenário se surpreende por ser um grimlock mago.

            Guldar rapidamente toma a dianteira e atinge Nadal com um raio congelante, deixando seus movimentos lentos e seus músculos doloridos pelo frio. O jovem mago gargalha acreditando ter conseguido superar o exímio guerreiro, mas surpresas sempre acontecem entre os drows. Nadal, mesmo com seus movimentos comprometidos, consegue fintar mais um raio de gelo e atingir o abdomen do oponente com uma estocada de seu sabre. Guldar sente o ódio ferver com uma bola de guano na mão e com os outros componentes materiais de uma bola de fogo, ele conjura a mais poderosa evocação que conhece. Tendo Nadal como centro da explosão, as chamas da bola de fogo se espalha, atingindo todos os que estão próximos, até mesmo Guldar.

            Isso não é o suficiente para matar o jovem mago, pois por mais impulsivo que ele seja, não é estúpido. Defesas mágicas foram preparadas antes do confronto. Mesmo ferido, Guldar sorri olhando para o chão sabendo que haveria poucas chances de Nadal ter sobrevivido.

            – Bem que Alystin me avisou que você tentaria algo estúpido. – comenta o mercenário surpreendendo Guldar, que levanta seu olhar estupefato com as mãos tremendo.

            Nadal está todo ferido, segurando em sua mão esquerda um amuleto, enquanto em sua mão direita está seu sabre de adamantina.

            – Você e ela irão morrer, malditos! – grita o mago recitando as palavras mágicas para criar chamas em suas mãos novamente, e partindo em direção ao guerreiro.

            O sentimento de ter sido traido pela ilusionita, somado a todo o resto que está ocorrendo, fez com que Guldar perdesse ainda mais o bom senso. Ele se aproxima do mercenário que lhe crava o sabre em seu abdomem. Mesmo sentindo a lâmina atravessá-lo o mago caminha ainda mais próximo e toca sua mão no peito do mercenário que berra de dor.

            Ambos estão em péssimo estado, mas para eles a batalha se resume àquela situação: um enfrentando o outro. Após o grito, Nadal sorri e Guldar fixa um olhar perturbado em seu oponente, até sentir algo tocando seu pé e o fazendo olhar para baixo.

            – Erelda? – horrorizado ele diz o nome do objeto de sua paixão ao ver a cabeça da clériga aos seus pés.

            O espanto atinge Nadal também, que olha para baixo o tempo suficiente para Lolth estocar ambos com sua Quelícera, varando seus corpos por uma pequena mas suficiente brecha de suas piwafwi e armaduras.

            Ambos já estavam extremamente feridos e não haveria como eles sobreviverem àquele golpe final. Os dois caem ao chão tentando ver a assassina, Nadal não consegue e desfalece. Enquanto Guldar.

            – Sua puta! – é tudo o que ele consegue dizer olhando Lolth segurando a filha de Erelda.

            Em um breve instante parece que tudo faz sentido na mente do mago. Alystin planejou tudo para tomar o controle do cerco. Mas por que? Ele se pergunta até que um pequeno detalhe vem sem sua mente quando os seus olhos se encontram com o da falsa ilusionista. Alystin nunca teve olhos magentas, mas sim carmim.

            Lolth vê Guldar desfalecendo e sente a última emoção do mago em relação a ela. Ilustrado em um profundo olhar de puro ódio.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 3)

            Calimar Khalazza adentra sua barraca irritado por não ter encontrado sua atual amante. “Provavelmente está com aquele mercenário nojento”, conclui o mago tomado de ciúme. Faz alguns dias que Alystin se tornou um objeto de desejo do mago líder do cerco drow. Antes de tudo ocorrer, ele nem mesmo imaginava se relacionando com a ilusionista. Porém sempre que se põe a pensar nela, não entende como passou tanto tempo longe da bela e sensual drow.

            Sua cabana é uma das duas maiores do acampamento drow, a outra obviamente pertence a Erelda, sua ex-amante e atual alvo de seu desdém. Seus livros e pergaminhos ficam próximos à algumas almofadas utilizadas para meditação. “Não acredito que terei que entrar em Reviere sem poder relaxar nos braços dela”, pragueja consigo o mago que se põe a sentar em uma das almofadas e se preparar para decorar suas magias antes de seu Reviere.

            Ele pega um de seus tomos e o abre, folhando página por página em busca das melhores magias para a próxima investida, que será, como programado, após o descanso das tropas. Assim fora planejado para não haver chances dos grimlocks se recuperarem. “Portanto é melhor eu deixar de me preocupar com prazeres carnais e me concentrar nisso”, comenta mentalmente enquanto prossegue na busca das magias mais apropriadas.

            O mago focaliza toda a atenção em seu estudo, sendo absorvido por suas anotações. Os simbolos e palavras que lhe são importantes fixam em sua mente, enquanto aqueles que não lhe parecem apropriados são deixados de lado. Quando terminar todo o processo de estudo, Calimar sabe que apenas necessitará descansar sua mente para que as magias se fixem.

            Todo o stress dos momentos passados teve de ser deixado de lado. Toda a discução com seus magos e toda a discução seguinte com a enfantaria de Nadal havia deixado-o tenso, mas não tanto quanto o próprio Nadal havia ficado. A discução ferveu o sangue do mercenário drow, pois a todo momento Calimar jogava em sua cara que quem deve apoiar o exército principal é ele, pois ele é o mercenário contratado. Porém, ao fim da discução, quem saiu em companhia da disputada ilusionista foi Nadal.

            – Maldição! – pragueja em voz alta o mago, tendo sua concentração quebrada pelo ciúme.

            – Calimar? – o mago sente sua pressão caindo ao escutar a voz suave de Alystin.

            Ele olha para trás com um sorriso arteiro em seu rosto e observa a jovem dama deitada sobre algumas almofadas, com seus delicados seios a mostra e aos poucos se cobrindo cum uma manta. Aquele pequeno espaço de luxúria não existia antes dele e Alystin começarem a ter momentos de prazer juntos. Agora, para Calimar, parece que sempre existiu.

            – Você parece tenso. Vem que eu lhe farei relaxar. – diz a ilusionista com um sorriso excitante em seus lábios, terminando de cobrir seu corpo com a manta.

            Calimar sente seu coração pulsando velozmente. Seu corpo começa a suar e a excitação palpita em seus órgãos. Ele vai aos poucos em direção a manta que se mexe suavemente, como se Alystin já estivesse começando a brincadeira sozinha.

            Com cuidado ele toca a manta, sorri para si mesmo e retira com ferocidade a coberta. Para seu horror, não é Alystin apenas que ele vê lá dentro – não é Alystin de forma alguma. Milhares de aranhas de espécies diferentes saem de seu espaço de luxúria rastejando-se pelo aposento, deixando para trás o corpo de uma drow rececado, como se estivesse morto há algum tempo e conservado através de poções.

            “Nadal!” pensa o mago indo em direção a uma varinha que fica próximas a seus livros. Ele tenta olhar para todo o aposento a procura do mercenário.

            – Apareça seu mercenário maldito! Sei que você a matou! – desafia o mago com ódio, ainda procurando por seu adversário e sentindo o desespero tomar conta. Ele está sem suas magias e com alguns poucos itens mágicos para se defender, já Nadal é um guerreiro formidável.

            – Não amor, quem a matou fui eu. – ele escuta uma voz feminina, ainda mais sedutora do que de Alystin, soando bem próximo de seus ouvidos enquanto algo perfura suas costas e vara seu coração.

            Tudo ocorre tão rápido, que ele não tem chance nenhuma de defesa. Enquanto aquilo que lhe perfura é arrancado de seu peito, ele apenas vira-se em direção a sua assassina para amaldiçoá-la, mas ao vê-la a estupefação toma-lhe conta.

            – Q-quem? – pergunta com esforço, enquanto sente uma dor intensa em seu peito, como se tivesse levado uma picada de algum animal peçonhento, suas mãos tremem e sua mente fica paralizada pela visão de tanta beleza.

            – Eu sou Lolth, macho. Você já me serviu como deveria, agora não me é mais útil. – responde com uma voz bela, potente e cheia de autoridade.

            Calimar sente sua vida deixar seu corpo. Sua própria deusa o matou. Ele sorri e cai aos pés de Lolth.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 2)

            Já foram duas investidas que a tribo de Braços de Adamantina suportou nesses últimos dias. Pelo estado físico e mental de seus combatentes, o escultor não acredita que a tribo agüentará um novo ataque.

            Sempre após um ataque, todos os participantes normalmente vão ao encontro das esculturas de Braços, e de seu falecido mentor, para recuperar a inspiração. Eles tocam todos os trabalhos detalhados e maestrais, deixando com que sua mente vislumbre e se regojize com toda aquela beleza sensível. As esculturas deles servem como as músicas dos bardos para o pós batalha. Porém apenas um combatente tocava a escultura de Araushnee, um jovem bárbaro que ouviu falar a respeito da visita de uma deusa a tribo.

            Quando algum combate está se aproximando, os bardos da tribo, aqueles que guardam as lendas e história do povo, inspiram seus companheiros que entram no fronte vindos do campo de batalha.

            Braços ouve os guerreiros exaustos após terem retornado à algum tempo do último combate. Os bardos estão desanimados, os druidas e aqueles poucos clérigos de entidades medusas estão perdendo completamente seu ânimo. Para o escultor o pior de tudo isso é que, aparentemente o desespero está para tomar conta de sua tribo novamente. Ele conhece seu povo e sabe que os grimlocks sempre foram sobreviventes desesperados. Quando mais de um clã consegue se juntar em um pacto de caça e formar uma tribo, esse desespero deve ser colocado de lado para que a sobrevivência mútua seja garantida.

            “Daqui a pouco os clãs se separarão novamente”, reflete o grimlock com tristeza, pois ele sabe que o pacto que une os clãs em uma tribo, não é tão forte quanto o pacto que une cada grimlock dentro de um clã.

            Com o desanimo prestes a tomar conta, Braços de Adamantina segura sua marreta firme e retorna a sua cabana para passar esse desânimo em uma nova escultura, aquela que ao ser vista pelos seus inimigos os farão desistir temporariamente de uma nova investida ao serem tocado por toda a emoção que escultor está vivenciando, ampliado através de sua capacidade artística. Ele pensa em como traduzir aquilo para uma forma sólida. Como passar aquilo para uma pedra e logo compreende onde ele deve fazer. Ele resolve esculpir sua mais nova obra em um ponto visível. “Não poderá ser muito grande, mas deverá ser visível a distância”, comenta consigo sabendo que não terá muito tempo para esculpir uma obra monumental.

            Ele pega suas outras ferramentas e se prepara para sair de sua barraca, mas antes ele toca a escultura de Araushnee quando é surpreendido pelo cheiro da drow com nome de deusa.

            – Achei que encontraria Mãos Calejadas, mas você cresceu basntante não é Braços? – o grimlock escuta a voz suave de uma drow que, por mais tempo que tenha passado, nunca saiu de sua memória.

            Surpreso e ao mesmo tempo sentindo seu ânimo retornar, ele se vira para tocar aquela que tanto o inspirou.

            – Como não escutei você chegar? – sorri o grimlock enquanto toca o rosto de Lolth – Eu sabia que você estava por perto. Senti seu cheiro antes das investidas.

            Ele escuta a respiração de Lolth se alterando como se ela estivesse sorrindo.

            – Não poderei ficar muito tempo, meu filho. Preciso terminar o que iniciei entre os drows que cercam sua tribo. Vim apenas dizer que ajudarei ao máximo, porém vocês devem preparar uma pequena caravana para uma possível fuga. – diz a drow com um leve tom de tristeza em sua voz.

            – Não podemos fugir e deixar companheiros para traz, Araushnee. – comenta Braços deixando a preocupação retornar ao seu íntimo.

            – Sei o quanto vocês louvam seus votos. Não pretendo torná-los desonrados, mas enquanto pelo menos um de vocês viverem, seu povo viverá. Todos os seus companheiros viverão naquele que sair com vida desse confronto. – Lolth demonstra preocupação em sua voz – Aquele primeiro cerco que enfrentamos, não foi tão poderoso quanto esse. A cidade dos duergars que estavam atacando nossa tribo é distante daqui e eles não tinham como se reforçar sem perder um tempo precioso para suas estratégias.

            A inspiração do escultor luta para esvair. Ele coloca suas ferramentas ao chão e toca a drow com suas duas mãos, sentindo toda a curva e beleza dela. Ele sabe que a preocupação de Araushnee ou Lolth, é verdadeira. Ele sabe que quando ela diz “nossa tribo”, é porque realmente ela se sente parte da mesma tribo. A importância do que ela diz ao seus ouvidos é imensa.

            – Eu sei que nossa situação é complicada. Mas como convencerei os outros a se prepararem para partir? – pergunta realmente o grimlock confuso.

            – Você sabe que não será difícil, meu filho, meu irmão. Nosso povo está começando a se desesperar. Você não pode deixar que isso ocorra. – responde a drow.

            – Mas por que eu? Como poderei ajudá-los? – questiona o escultor ainda mais confuso, quase desesperado.

            – Porque você compreende as emoções. Porque você é inspiração. Faça com que um ou vários bardos compreendam isso. Faça com que eles se tornem a inspiração e através de suas canções despertem a natureza de nossos irmãos. Você é o ponto inicial do despertar de sua tribo. – afirma a deusa de forma categórica.

            Braços sente-se contagiar pela esperança que a drow com nome de deusa trouxe a ele. Ele sabe que o que ela disse é verdade.

            – Farei isso Araushnee. Em… – responde ele pensando em complementar com um louvor, mas se interrompendo no exato momento em que o cheiro da drow se enfraqueceu no ar.

            “Mais uma vez você me surpreende deixando o local como se nunca tivesse estado aqui”, sorri Braços pegando suas ferramentas novamente do chão, “As vezes me pergunto se você realmente existe, Araushnee, ou se nada mais é que minha inspiração tomando forma em minha mente”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 1)

            “Agüentem mais essa investida, por favor”, deseja mentalmente Lolth Do’Urden enquanto observa do acampamento drow a segunda investida deles à tribo grimlock em menos de dois dias. Os grimlocks novamente resistem com bravura utilizando suas habilidades em combate e suas magias naturais, o que surpreendeu muitos dos drows de Sshamath que lideram o cerco.

            Mesmo com o silêncio de Lolth, o cerco está intenso, pois Sshamath nunca foi dependente de suas clérigas como muitas outras cidades drows. Estudiosos arcanos sempre tiveram uma maior importância para eles, ainda mais nas atuais circunstâncias.

            Antes de se infiltrar entre a comitiva drow de Sshamath, Lolth os observou por pelo menos duas semanas para descobrir a estrutura de poder e de relacionamento entre eles. Descobriu os principais nomes do cerco, quem era amante ou aliado de quem, quais as richas pessoais de cada um dos principais integrantes do exército. Entre os drows de Sshamath, os magos e feiticeiros possuem uma importância bem mais relevante que as clérigas de Lolth, mesmo esses sendo fieis a deusa. Esse comportamento reflete no exército que está cercando a tribo grimlock.

            Como Lolth veio descobrir o líder oficial do cerco é um mago de nome Calimar Khalazza da Escola de Evocação. Em termos simbólicos, havia também a liderança de uma drow clériga de Lolth chamada Erelda Dhuunyl, gráviada aparentemente de Calimar ou do mercenário Nadal Zaphresz, há anos, os dois principais amantes da clériga. Sua barriga já está imensa, provavelmente logo logo o novo ou a nova drow nascerá. Entre esse triângulo amoroso há também Guldar Khalazza, um mago mais jovem, ofuscado pela sombra de seu irmão mais velho, e que também é apaixonado por Erelda, e Alystin Elpragh, uma ilusionista obsecivamente apaixonada por Calimar e que estava aos poucos colocando o irmão e o mercenário contra o líder mago do cerco, até Lolth a escolher. “Nada mais perfeito”, disse consigo mesmo Lolth quando descobriu todas essas pequenas intrigas a respeito dos principais personagens do acampamento drow.

            O exército possui um pequeno contigente de guerreiros, por isso Nadal foi contratado com sua tropa, formada de drows e raças inferiores escravizadas, para auxiliar os magos de Sshamath. Nadal é o líder da infantaria, enquanto Calimar é o estrategista e líder do cerco. Mesmo Erelda possuindo um valor simbólico na liderança, ainda é respeitada por grande parte do exército. O jovem Guldar não possui grandes importâncias políticas, mas estrategicamente para a pseudo-deusa ele é uma chave mestra. Enquanto a Alystin Elpragh…

            Todas essas informações Lolth conseguiu através de sua maestria em esconder-se e espionar, além de sua maestria em se infiltrar em locais como um membro nativo. Após as duas semanas de espionagens intensas, alguém precisava ser substituida: Alystin Elpragh. Não foi difícil para Lolth, principalmente com a posse da Quelícera, matar Alystin. Ela escondeu seu corpo e pegou todos os pertences e as vestes da ilusionista.

            Para a sorte de Lolth, essa possuía alguns itens mágicos que seriam úteis para simular as ilusões da recém falecida drow. Com alguns equipamentos e as condições certas Lolth conseguiria se passar por Alystin, desde que não permanecesse muito tempo na presença de seus companheiros. A Elpragh não era uma peça tão importante na missão do cerco, e isso ajudava muito para que os diálogos fossem curtos na maioria das vezes.

            Apenas após uma semana de infiltração, durante a espionagem, que a pseudo-deusa disfarçada resolveu enviar uma mensagem olfativa a qualquer grimlock da tribo que se recordasse dela. Tomando um banho em um lago próximo com os sais minerais certos, ela apenas aguardou que uma corrente de ar levasse seu cheiro. Do fundo de seu coração Lolth esperou que tivessem entendido que ela estava infiltrada no acampamento drow, e que estará auxiliando na sobrevivencia da tribo.

            Dentro desse tempo de infiltração, muito progresso foi feito. Lolth como Alystin iniciou o processo de sedução de Calimar e Nadal. Guldar já estava a meio caminho andado, já que a própria Alystin havia feito grande parte do serviço. Erelda passou a se sentir rejeitada depois de algum tempo e começou a questionar as intenções da ilusionista. Lolth apenas se esquivou da conversa e iniciou uma contra-argumentação, colocando os machos envolvidos como os sedutores da história. Erelda de início não acreditou muito na falsa Alystin, porém aos poucos percebeu como os machos estavam mais oferecidos em relação a ilusionista e aquilo tudo que essa havia dito passou a fazer sentido.

            A pseudo-deusa continua observando a batalha. Muito tempo já se passou desde o início da investida. O contentamento toma conta de seu peito, “Terei tempo para terminar meu serviço”, pensa sorrindo.

            Há muito pouco tempo que Lolth conseguiu a arma que precisava para atingir o vespeiro. Nadal estava viciado nas habilidade da falsa ilusionista em dar prazer, enquanto Guldar cada vez mais se apaixonava por Erelda graças algumas conversas com a ilusionista. Calimar caía de paixão por Alystin enquanto Erelda a via como uma puta fraca que era facilmente seduzida pelos seus ex-amantes traidores. “Tive sorte mais uma vez”, a Do’Urden complementa seu próprio pensamento ainda sorrindo. Ela sabe que se a trama já não estivesse, de certa forma, desenvolvida, uma semana nunca seria o suficiente para que tudo isso desse certo, mesmo com suas habilidades, carisma e beleza.

            Agora ela tem tempo. O exército drow está retornando ao acampamento com mais um fracasso. “Isso esquentará ainda mais as coisas”, comenta Lolth vendo mais uma oportunidade se formando com a derrota. O orgulho drow está ferido novamente, Calimar e Nadal estarão se atritando ainda mais com os nervos à flor da pele. Logo quando a primeira investida terminou, eles começaram a demonstrar que havia inveja e cíume mútuo. Além disso, cada um gosta de se aliviar da culpa e da vergonha do fracasso, jogando a responsabilidade por qualquer falha cometida nas mãos do outro.

            Logo todos estão reunidos novamente no acampamento. Nadal e seu exército conversam a respeito da batalha e tentam encontrar quais foram as falhas. Enquanto isso, Calimar conversa com seus magos para descobrir o que deu errado na estratégia utilizada. Em ambos os grupos os envolvidos dizem que faltou cooperação do outro contigente, enquanto os grimlocks pareciam um bloco impenetrável de pedra graças a sua “unidade militar”, se assim poderia ser chamado.

            Durante a conversa entre os contigentes e seus respectivos líderes, Lolth prefere conversar com Guldar Khalazza e já colocar parte de seu plano em ação.

            – Guldar, meu caro. Vi que trabalhou arduamente na batalha de hoje. – comenta como se nada quizesse a peseudo-deusa.

            – Mas foi inútil. Meu irmão e aquele imbecil do Nadal estão deixando suas rixas atrapalharem os planos de Sshamath. Iremos perder esse sítio de adamantina se os dois se digladiarem antes do serviço ter terminado. – comenta Guldar com raiva na voz enquanto Alystin toca seu ombro.

            – Há coisas piores acontecendo, Guldar. – comenta a falsa ilusionista deixando claro a tristeza em sua voz.

            – Como assim, Alystin? O que você sabe? – pergunta preocupado o jovem mago olhando nos olhos magentas de Lolth.

            Ela responde o olhar com uma feição de tristeza, sem medo de demonstrar fraqueza ao mago.

            – Pode me dizer, você sabe que somos confidentes. – diz o mago com o intuito de tranqüilizá-la.

            Durante essa última semana, Alystin tornou-se a conselheira de Guldar. Por ter sido por décadas apenas uma sombra de seu irmão, Guldar sempre sentiu o peso de ser considerado fraco. Para todos seus companheiros drows, ele tinha que manter ao máximo uma pose imponente a fim de não desonrar sua Casa nem sua Escola de magia. Porém esse esforço era exaustivo para o jovem Khalazza. Quando Alystin se tornou sua “amiga”, ele teve com quem se desabafar e isso cada vez mais o tornava dependente dela. Ter em quem confiar, isso é ótimo ao jovem mago, mesmo que pareça uma doce mentira dentro da sociedade drow.

            – Nadal pretende levar as honras da vitória e entregar o sítio à responsabilidade dos Dhuunyl. Sua Casa não ficará com as honras se o plano dele der certo. – diz ela exitante.

            – Mas ainda sim o sítio será de nossa grande cidade. – retruca ele tentando não acreditar naquilo.

            – Sim, teoricamente será. Na prática o sítio servirá aos propósitos dos Dhuunyl e do grupo de mercenários de Nadal. – responde Alystin dando uma pequena pausa para um suspiro antes de prosseguir – Acredito até mesmo que o grupo será o mais beneficiado, já que Nadal está cada vez mais, conseguindo tirar seu irmão do jogo de sedução entre ele e Erelda.

            – Como!? – pergunta cheio de ódio o jovem mago, deixando o ciúme controlá-lo.

            – Nadal está me usando, confessou isso a mim. Ele me seduziu para causar ciúmes a Erelda. Usou o que eu sinto por seu irmão para que eu o conquistasse e fizesse com que Erelda acreditasse que Calimar estava me seduzindo. – responde Alystin com a voz tremida enquanto uma lágrima escorre em seu rosto.

            Guldar apenas encara a ilusionista com uma mistúra de cíume e ódio no olhar.

            – Como você se deixou ser usada dessa forma? – pergunta o jovem mago deixando a raiva sair com sua voz.

            – Eu fui fraca. Fui fraca por não conseguir seu irmão de verdade. Quando Nadal me seduziu eu ainda não sabia o que fazer para ter seu irmão. – ela pausa para controlar o choro – Agora eu tenho seu irmão e falta pouco para Nadal ter Erelda de vez. Você tem que fazer algo.

            Guldar toca o ombro de Alystin.

            – Não se preocupe. Farei algo. – diz em tom amigável com receio de perder a confidente por ter sido tão rude – Mas não sei o que fazer no momento. Minha vontade é simplesmente matar Nadal.

            – Podemos fazer isso sem comprometer a campanha. – responde Alystin com um olhar traiçoeiro, característico da ilusionista original.

            – O que você sugere? – pergunta o mago intrigado.

            – Já tirei seu irmão de Erelda, agora a briga é entre você e Nadal. Se ele morrer durante a batalha, quando essa já estiver próxima a ser ganha, não haverá grandes problemas e você não será visto como traidor de Sshamath. – diz ela tentando esboçar um sorriso em seu rosto umido.

            Guldar olha fixo para sua confidente. Ele parece notar algo de estranho na face de Alystin, mas logo ignora qualquer suspeita, pois o que há de estranho é o próprio fato dela ter chorado; ele nunca havia testemunhado.

            – E como faremos isso? Nadal é um guerreiro ímpar. Não conseguiria enfrentá-lo. – pergunta o mago.

            Lolth sorri:

            – Eu o enfraquecerei o suficiente. Deixarei-o cansado para a próxima investida. Durante a batalha, você o atingirá com suas maiores magias, enquanto cubro seus atos através das minhas ilusões. – Guldar sorri ao escutar sua companheira – Faça da maneira correta e todos acharão que os grimlocks o mataram.

            Guldar sente seu ódio se tornando prazer por ver que sua vingança e seu desejo serão satisfeitos em breve. Por um momento Alystin parece mais bela do que o normal e mais inspiradora. O mago ri para si mesmo, ele sabe que isso é uma ilusão causada por sua ansiedade. Por um momento a ilusionista parecia uma deusa.

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