Posts Tagged ‘ gnoll ’

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (parte 4)

            – Então vamos ver quem é a mais poderosa? – Sol’al escuta o que parece ser o final da discussão entre as duas clérigas, vindo em baixo drow da boca da Dyrr.

            Desde que a clériga Xorlarrin chamou a atenção de Alak, as duas clérigas estão discutindo firmemente. Sol’al, do início da discussão até o momento, está apenas observando o embate, sem tomar partido. “Vamos ver quem demonstra mais poder”, observa o mago enquanto reflete qual seria o melhor curso de ação a realizar. Com certeza em sua mente não se passa nenhuma idéia de entrar em confronto com qualquer clériga de Lolth, mas, mesmo assim, ele precisa ser capaz de escolher qual seria mais vantajosa de ter como aliada.

            – Nossa deusa está em silêncio, você sabe disso. – responde a clériga Xorlarrin, obviamente tentando contornar a situação.

            Sol’al sente uma ponta de decepção se misturar com o resto de ansiedade – que ele estava sentindo por ter passado pelo ninho abandonado – ao ver uma atitude medíocre de sua Senhora Xorlarrin.

            – E o que isso importa? Nossa deusa prega a busca por poder, não? Nosso objetivo não é cada vez ser mais poderosas? – inquire a clériga Dyrr, com um olhar ameaçador – Tamanha dependência de suas magias mostra apenas sua fraqueza.

            Sol’al se espanta com o imenso pragmatismo vindo da clériga e sente que seu coração concordou com cada palavra dela e, pelo que ele observa, a Xorlarrin também concordou. Vendo a Dyrr segurar sua maça com a mão direita, Sol’al percebe a Xorlarrin tremendo diante de uma oponente mais forte.

            Por mais que a aparência da Xorlarrin seja mais bela e sedutora, a Dyrr é mais ameaçadora e imponente. O semblante de liderança é facilmente perceptível nessa clériga.

            Sol’al observa a situação esperando uma reação da Xorlarrin, que não surge. Ele olha ao redor para tentar ver o que se passa no semblante de cada um que lá se encontra. Rizzen está apreensivo. “Ele sabe que se sua clériga desistir, será vergonhoso para sua Casa”, conclui mentalmente Sol’al. Alak já percebeu a superioridade da outra clériga e demonstra não estar ligando muito para o embate. O mercenário parece saber que não ocorrerá confronto físico, pois se tivesse alguma chance de ocorrer tal confronto, ele teria que estar preparado para proteger a Xorlarrin. “A não ser que ele quebre seu contrato de proteção. Ou que tenha sido a própria Dyrr que o tenha contratado”, reflete o mago.

            Os inferiores ele nem se preocupa em analisar, mas percebe que todos estão de olho no confronto, menos o goblin musculoso que está na boca do túnel, observando a caverna de onde vem o batuque dos tambores. “O que será que tem naquela caverna?”, se pergunta Sol’al quando sua atenção volta ao embate das servas de Lolth graças a uma forte risada da clériga Dyrr.

            – Patética. – comenta ela, balançando negativamente a cabeça.

            “Arrogante demais para uma líder de um culto herege”, se decepciona Sol’al.

            – Façam o que ela pedir. – diz a clériga Dyrr aos seus companheiros em subterrâneo comum.

            – Como? – o gnoll pergunta – Desculpe, Senhora, mas não entendi o porquê.

            Sol’al olha para a Dyrr, também estupefato.

            – Um confronto com eles seria inútil. Deixe que eles sigam essa tola. – responde ela em goblinóide para o gnoll.

            O mago compreende e resolve esperar para ver. Provavelmente a Xorlarrin irá querer algum tipo de punição para esse grupo e a morte da clériga. Ou talvez não, apenas a morte dos inferiores e a humilhação da herege. “Acho que nem mesmo a Casa Agrach Dyrr se importaria com isso”, comenta Sol’al mentalmente com um sorriso no rosto.

            – Mago, chame o ogro. – ordena a clériga a Sol’al, sem tirar o olho da Dyrr e ainda tremendo – Rápido!

            Sem entender, o mago Teken’Th’Tlar sai correndo em direção a abertura do túnel pelo qual entraram. No caminho, a ordem passa a fazer sentido. “Antes de tentar algo contra o grupo herege, ela parece querer se sentir mais segura. Afinal, o ogro também foi contratado para protegê-la”, raciocina Sol’al, se decepcionando ainda mais com a fraqueza da Xorlarrin. “Se Lolth estivesse ativa…”. Várias possibilidades passam pela mente de Sol’al, e nenhuma muito agradável para a clériga mais fraca.

            – Mercenário! Você está sendo convocado. – grita o mago para Brum, que logo começa a escalar.

            – Virou garoto de recados, maguinho? – pergunta Brum sarcasticamente.

            Ignorando o ogro e sem perder tempo, Sol’al parte de volta para ver se algo está ocorrendo. Ao chegar ele vê a mesma cena, como se nada tivesse mudado. Apenas o goblin musculoso se juntou à roda.

            – Então? O que você vai querer de nós? – pergunta a Dyrr, quebrando o que parecia ser um longo silêncio.

            – Larguem suas armas. – responde a Xorlarrin, ainda com as mãos fraquejando.

            “Até que sua voz está conseguindo esconder o medo e a raiva”, comenta consigo mesmo Sol’al.

            – Façam isso. – ordena a clériga Dyrr aos seus fiéis, com um sorriso no rosto.

            O goblin robusto olha com desconfiança para a clériga de seu culto, mas um olhar confidente por parte dela acaba fazendo com que ele coloque seus machados e sua zarabatana ao chão. A própria clériga Dyrr coloca sua morningstar e seu escudo junto aos machados do goblin e o gnoll deita sua halbert próximo ao monte. Ele espera que a kobold tire algo do seu robe, mas ela nada faz. O mago até pensa em pedir para que a Xorlarrin ordene que a pequena reptiliana jogue fora todos seus componentes mágicos – sim, é perceptível que ela é uma maga ou feiticeira -, mas prefere deixar o culto herege com uma pequena vantagem. Sua lealdade ainda não está tão clara em sua mente, afinal a Dyrr ainda é mais forte que a Xorlarrin, e mais confiante também.

            De trás, o mago escuta os passos ruidosos de Brum. Antes mesmo que esse chegue junto ao grupo a Xorlarrin grita em subterrâneo comum:

            – Ogro, pegue essas armas e cuide delas!

            Sol’al sente a surpresa abrir involuntariamente sua boca. Além de a clériga ter falado diretamente com o inferior, ela ainda utilizou uma língua baixa. “Ela não está com medo, ela está desesperada”, pensa Sol’al. O próprio Brum é pego de surpresa com a ordem e perde alguns segundos raciocinando se o que ele escutou é real.

            Logo que a surpresa passa, Brum vai até o monte de armas e as coloca no grande escudo utilizado pela Dyrr, como em uma bandeja. Porém, ao tentar levantar o escudo, Brum nem mesmo consegue movê-lo, como se tivesse grudado no chão. Sol’al vê a cena e percebe instantaneamente que o escudo é mágico e que a clériga Dyrr já esperava por uma cena semelhante.

            Sem perder tempo, o mago conjura uma magia para detectar objetos mágicos e percebe que não só o escudo o é, mas também os dois machados do goblin e a morningstar da clériga, além da armadura que ela está usando e alguns outros itens que estão em posse dos hereges e dos Xorlarrin. Por curiosidade, Sol’al olha para os mercenários também e reconhece a aura mágica apenas nas espadas de Alak, pois Brum não tem nada mágico com ele.

            “As espadas de Alak… Parecem…”, algo nelas atiça a curiosidade do mago enquanto a conversa ao seu redor prossegue.

            – Deixe o escudo no chão. Pegue as armas. – ordena a Xorlarrin ainda em subterrâneo comum.

            A nova ordem da clériga dispersa a atenção que Sol’al estava colocando sobre a espada de Alak, que ao perceber os olhos do mago em sua direção, escondeu melhor suas duas amigas.

            – Sim, Senhora. – responde Brum, pegando todas as armas no colo e deixando o escudo no chão.

            – Ogro! Qual é seu nome? – pergunta a clériga Dyrr a Brum, fazendo com que Sol’al se espante com a delicadeza da pergunta.

            – Brum. – responde Brum, também espantado.

            – Não fale com ela! – grita a Xorlarrin.

            – Não precisa responder para mim, Brum. Só tenha cuidado com a minha morningstar, pois ela pode te machucar se tocá-la diretamente. – avisa a clériga.

            O olhar da Xorlarrin se enche de ódio pela falta de respeito da Dyrr.

            – Mercenário, cuide deles. – ordena a Xorlarrin a Alak, voltando a conversar em baixo-drow – Diga ao inferior para se afastar da inferior.

            – Sim, Senhora. – responde Alak, enquanto a sua protegida se afasta para a boca do túnel junto com Rizzen. Sol’al os acompanha.

            – Avise-os para não chegar tão próximo da beirada, pois eles podem ser vistos. – Sol’al escuta a Dyrr falar com Alak.

            – Senhora…

            – Não repita o que ela disse. – a Xorlarrin ameaça o mercenário, mas mesmo assim mantém uma certa distância da beirada da boca do túnel.

            Rizzen e ela já estão observando o acampamento quando Sol’al se junta a eles. Ele olha para a grande caverna e vê vários acampamentos. Vários orcs tocando tambores em homenagem a algo. Um draegloth parecendo estar comandando os inferiores. Achando estranho a presença de um draegloth naquele local, o mago se concentra nele e tenta encontrar alguma insígnia ou sinal que denuncie sua Casa. Sol’al não se surpreende quando vê a insígnia dos Xorlarrin segurando a tanga de pele que o meio-abissal usa.

            Com um sorriso de satisfação por ter descoberto parcialmente o que está ocorrendo, Sol’al começa a observar os outros acampamentos. Ele vê orogs, humanos, hobgoblins, goblins, vários de raças inferiores, escravos e livres. O símbolo no centro do acampamento desperta em muito a curiosidade do mago a respeito do que eles estão fazendo naquela caverna, mas quando ele está prestes a se concentrar para decorar os símbolos que estão sendo utilizados, o canto de seu olho prega uma peça.

            “Um drider?”, se pergunta ao ver um vulto passando no acampamento ao lado direito do símbolo. Ele vira-se para ver se é o tal drider aranha espectral que se encontra lá, mas logo ao se virar um estranhamento toma conta de sua mente. Ele vê vários drows tatuados com algo que parecem runas de cor branca, utilizando armaduras que se assemelham a exoesqueletos. Para seu maior assombro, seus olhos se deparam com o drider do qual ele havia visto o vulto. Não é o drider aranha espectral, mas sim um amálgama de drow e escorpião.

            “Por Lolth! O que será isso?”, se pergunta Sol’al, boquiaberto.

Anúncios

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 3)

            Uma leve e quase inaudível batida ritmada é o único som que a clériga Sabal Dyrr está escutando naquele momento. Com todo o silêncio que tomou conta do ambiente, ela até se pergunta se aquela batida é de seu coração.

            Sabal, Mirka e Gromsh – junto aos dois espiões que os seguem – esperam o retorno de Stongest, que adentrou o ninho de um drider, aparentemente abandonado. Já faz algum tempo que Stongest está dentro da pequena caverna, mas sabendo que o meio-goblin-meio-algo é minucioso em seus trabalhos, Sabal não se preocupa em nenhum momento com isso. “Além do mais, provavelmente se houvesse algum drider nesse refúgio, ele já saberia que nós estamos aqui”, pensa a ex-Dyrr. Porém, a clériga se sente apreensiva em saber mais sobre o tal “filho de Lolth”, que nasceu como um drider. A história é bizarra demais para que ela consiga realmente acreditar; mas em nenhum momento ela deixa transparecer sua dúvida.

            – Ele não está mais aqui. – diz Stongest, retornando ao grupo.

            – Então é seguro continuarmos? – pergunta Sabal ao meio-goblin.

            Stongest responde positivamente com um aceno de cabeça. Sabal dá ordens simples com gestos de mão. Gromsh e Stongest vão à frente. Ambos já sabem que há algo ocorrendo no final do túnel adiante, pois as batidas, para eles, são claramente batuques de tambores. Mirka vai logo em seguida, já preparando feitiços de invisibilidade em sua mente, e relembrando uma ou outra magia de proteção contra qualquer possível ataque de seus acompanhantes. Sabal é á última, preferindo ficar mais próxima dos dois espiões.

            Eles caminham pela caverna cheia de teias, e o som dos batuques fica cada vez mais alto e distinguível. Algo está sendo realizado mais a diante. Um ou outro grito é escutado entre os batuques. “Gritos de louvor”, é o que parece a Sabal.

            Quanto mais eles caminham, mais altos ficam os sons. Quanto mais próximos eles chegam da boca do túnel, mais é perceptível que há algum tipo de acampamento ou cidadela na caverna adiante. Gromsh demonstra um grande espanto ao chegar furtivamente na boca do túnel, dizendo alguma frase em seu dialeto natal, não reconhecível por seus companheiros. Stongest logo se aproxima.

            – Encont’amos os o’cs. – diz ele quase sussurrando, fazendo com que Sabal tenha que aguçar seus ouvidos para escutá-lo direito.

            Sabal caminha vagarosamente para perto dos dois guerreiros, mas logo para quando Stongest faz um sinal para ela esperar.

            – Tentem não se ap’oxima’ tanto, há to’es de vigias p’óximas. Temos que toma’ cuidado pa’a não se’mos vistos.

            A ex-Dyrr continua ainda vagarosa, apenas para ter uma vista geral do que está ocorrendo. Ela consegue ver uma caverna gigantesca, na qual caberia, sem grandes problemas, uma pequena cidade drow. Vários acampamentos tomam conta do chão da caverna, e vários escravos – pelo que parece – trabalham na lapidação de algumas pedras preciosas do tamanho de cabeças de humanóides médios e as carregam para ornar um imenso símbolo – aparentemente arcano – que se encontra no centro do local. Próximo ao símbolo, uma grande criatura chama a atenção de Sabal.

            – Um Draegloth. – pensa ela em voz alta, mas sussurrando e vendo a criatura dar ordens a alguns orcs e hobgoblins que se encontram enfileirados. Observando mais atentamente o meio-abissal, percebe a insígnia de uma Casa. Ela respira fundo e tenta focar mais sua visão, para que possa ver sem ter que se aproximar mais da boca do túnel. “Xorlarrin”, suas suspeitas começam a fazer sentido agora. Provavelmente os Xorlarrin perderam o controle do meio-abissal, que acabou liderando a fuga dos orcs. “Para qual propósito?”, se pergunta Sabal.

            Sabal dá três passos para trás, considerando essa uma boa oportunidade para conversar com o tal Alak abertamente.

            – Me parece que suas respostas estão aqui, Alak. – diz Sabal em subterrâneo comum com o tom de voz habitual, não muito alto, mas audível o suficiente para ser bem compreendido.

            Ninguém responde de imediato, mas Sabal prefere esperar um pouco antes de tentar um novo convite. Sem muita demora, uma voz masculina surge há alguns metros atrás da clériga:

            – O que vocês encontraram?

            Não há nenhum constrangimento ou falsidade na voz do mercenário. “Pelo que parece, ele não está ligando para o que seu companheiro está pensando”, pensa Sabal.

            – O acampamento orc. – responde a clériga, sorrindo e olhando na direção de onde o eremita surge.

            Sabal se surpreende ao ver Alak. Ela não esperava que o drow que estava seguindo seu grupo fosse tão alto e não usasse uma piwafwi.

            – Rizzen, pode aparecer. Nós sabemos que você está aqui. – diz o eremita antes de prosseguir com a conversa – Poderia me aproximar, Senhora?

            – Claro. – responde Sabal fazendo um gesto amigável para que Alak vá até Gromsh e Stongest.

            – Se cê só tava esperando um acampamento orc, cuidado para não cair pra trás. – Sabal escuta Gromsh falando com Alak, enquanto ela observa o túnel esperando que o tal Rizzen se mostre, o que não demora muito.

            – O que vocês fazem aqui? – pergunta o guerreiro Xorlarrin a Sabal.

            – Um tanto mal educado você, não? – responde a clériga – Na sua Casa não ensinam os machos a serem mais respeitosos com as clérigas de Lolth?

            Rizzen deixa seu sorriso habitual tomar o rosto e responde cinicamente:

            – Desculpe, minha Senhora. Agora você poderia me dizer o que fazem por esses túneis?

            Sabal ri com a atitude de Rizzen.

            – Claro. Estamos em busca do filho de Lolth e vocês? – o tom de Sabal continua amigável.

            – Vaherun?

            Sabal ri ainda mais.

            – Que tal você responder antes?

            – Estamos atrás dos orcs desse acampamento. Não é óbvio? – Rizzen responde com arrogância, sem receio de punição.

            – É. Pelo que parece os Xorlarrin não ensinam bons modos a seus machos. – responde Sabal, deixando o sorriso de seu rosto se desfazer e fixando um olhar gelado no guerreiro – Ponha-se em seu lugar.

            A clériga segura firmemente o cabo de sua morningstar e começa a se aproximar do Xorlarrin.

            – Me desculpe, Senhora Dyrr. – diz ele ao ver o emblema da Casa de Sabal em seu escudo – Não irei repetir tal erro.

            Sabal tenta se controlar, mas não consegue segurar o riso.

            – Terminemos a conversa por aqui, pois desse jeito acabarei chamando a atenção de seu parente peludo ao explodir sua cabeça com minha arma. – diz ela ainda rindo e virando suas costas para o guerreiro Xorlarrin, sem ver a expressão de desgosto que toma conta de seu rosto.

            Ela sabe que Rizzen teria uma grande vantagem em atacá-la nesse momento, mas também sabe que ele não o faria por dois motivos: o primeiro porque ele está desconcertado demais para pensar em fazer algo, o segundo porque ele está em uma tremenda desvantagem numérica para agir tão estupidamente.

            Sabal vê na boca do túnel: Gromsh, Stongest e Alak. O mercenário e o guardião parecem estar analisando tudo e todos que estão no acampamento, enquanto o gnoll parece estar apenas de vigília.

            – Gostou da resposta, Alak? – pergunta a clériga sorrindo ao mercenário.

            Sem se virar ele responde:

            – Interessante…

            – Então encontrou seus “amigos”, herege? – Sabal, Alak e Gromsh viram-se simultaneamente ao ouvirem a voz da clériga Xorlarrin. Mirka já estava vigiando a retaguarda e por isso não se surpreendeu com a chegada.

            – Parece que alguém resolveu dar as caras, ao invés de apenas mandar espiões. – Sabal desafia a Xorlarrin não só com palavras, mas com um olhar penetrante.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 1)

            A boca do túnel possui alguns poucos vestígios de teias proporcionais às feitas por grandes aranhas. Olhando rapidamente, Sabal não reconhece de pronto qual tipo de aranha teceu aquelas teias, mas sabe que já faz um tempo considerável pela quantidade de poeira e danos. “Aparentemente não é nenhuma armadilha”, pensa a clériga ainda analisando o local.

            Foi bastante trabalhoso para o grupo de Sabal alcançar o túnel no qual se encontram. Stongest teve que auxiliá-la e a Mirka, pois a distância era considerável, além de o trajeto ser perigoso. Esse foi um dos túneis em que não havia orcs, mas logo ao lado desse – a uns cinco metros de distância – são visíveis os corpos de dois orcs queimados. A distância de onde se encontram e do túnel ao qual se encontravam é de aproximadamente vinte metros, supoz Sabal no momento em que partiram para a escalada. Além do fator distância, havia também o fator altura, que dificultou muito. Os túneis da imensa caverna não eram simétricos, suas alturas eram variadas e para alcançar esse túnel eles tiveram que descer ao mesmo tempo em que se deslocavam de lado pela parede. Por mais difícil que tenha sido, todos eles – Mirka, Gromsh, Stongest e a própria Sabal com sua armadura completa – alcançaram o local desejado.

            “Se forem teias do filho da Do’Urden, seria interessante que descobríssemos qual tipo de aranha forma seu corpo”, reflete Sabal, enquanto observa o interior da caverna. As teias diminuem em quantidade, mas um ou outro vestígio é encontrado. Stongest está um pouco mais a frente, tentando encontrar marcas de alguma criatura que possa estar vivendo ou tenha passado por aquele túnel. Mirka está próxima a Sabal, apenas observando as paredes em busca de runas ou palavras de poder. Já Gromsh, está mais próximo da boca do túnel vigiando qualquer movimentação na imensa caverna.

            – Pelo que pa’ece os o’cs passam po’ aqui com uma ce’ta f’eqüência. – diz Stongest, quebrando o silêncio – Não sou um expe’t em p’ocu’a’ ‘ast’os, mesmo assim consegui encont’a’ alguns.

            Stongest aponta para algumas marcas que estão no chão próximo a eles. Sabal para de observar as teias e se aproxima do meio’goblin.

            – Talvez po’ isso, não há nenhuma a’madilha física po’ aqui. – comenta o pequeno robusto.

            – Então creio que precisamos acelerar nossos passos, ficarmos mais atentos e preparados para nos escondermos a qualquer momento. – diz Sabal, observando atentamente as marcas que, como seu próprio companheiro lhe disse, estão bem óbvias – Talvez estejamos próximos de algum acampamento dos orcs fugitivos de Menzoberranzan.

            – Além disso, há o out’o g’upo. Eles sabem que estamos p’oximos. Como te disse, conve’sei com eles um pouco antes de pa’timos de nosso túnel. – diz Stongest, chamando Gromsh e Mirka com um breve grunhido.

            Um pouco antes de Mirka acordar e após a breve conversa que Stongest teve com Sabal, a clériga sabia que o meio-goblin-meio-algo havia feito uma breve visita ao outro grupo e conversado com um tal de Alak; o mesmo que já os tinha bisbilhotado. Segundo pareceu, os Xorlarrin a princípio estavam atrás do “culto herege de Lolth”, mas haviam “alterado seus planos”. Stongest disse que o tal Alak não pareceu ser de uma Casa nobre e sim tinha um quê de mercenário, o que já era um ponto positivo para Sabal. Além disso, entre eles havia um ogro mago, que como eles já supunham antes, poderia ser um escravo ou um mercenário. Em qualquer uma das opções, era uma vantagem que Sabal poderia aproveitar. Portanto, Sabal não está tão preocupada com o outro grupo como Stongest aparenta estar, pois para ela os orcs são uma preocupação mais imediata.

            – De qualquer forma temos que partir. Mirka, o túnel está seguro magicamente? – pergunta Sabal para a pequena kobold, que já está ao seu lado.

            – Não encontrei nenhuma runa ou inscrição, Senhora. Creio que o local esteja seguro. – responde a kobold confiante, porém Sabal percebe um leve ar de preocupação em seu olhar.

            – Algum problema, Mirka? – pergunta a clériga brandamente, enquanto Stongest e Gromsh começam a caminhar pelo túnel.

            Mirka fica em silêncio por um tempo olhando para o rosto da clériga, que faz sinal para que as duas comecem a caminhar.

            – Suspeitas, minha Senhora. – responde timidamente a kobold, enquanto caminha voltando seu olhar para o chão.

            – Que tipo de suspeitas?

            – Estou com uma sensação estranha. Preocupada com que tipo de criatura possa ter feito esses túneis. – responde Mirka, demonstrando receio em sua voz.

            – Alguma opinião a respeito, Mirka? – Sabal não esconde em nenhum momento sua curiosidade, pois sabe que Mirka deve ser levada a sério.

            – Pode ter sido aquilo que está no lago. Aquela sombra que vimos quando estávamos escalando para esse túnel. – responde Mirka, ponderando sobre suas palavras – Você percebeu como aquela caverna se assemelha a um ovo colossal?

            Sabal levanta uma de suas sobrancelhas e encara Mirka, que está com feições preocupadas. A kobold troca olhares com sua clériga enquanto caminham.

            Caminhando em silêncio, ambas refletem sobre aquilo. “Um ovo”, pensa Sabal. Gromsh prossegue na frente e Stongest diminui seus passos para ficar um pouco mais próximo das duas mulheres do grupo.

            “Conversem nessa linguagem, acho que estamos sendo espionados novamente”, diz o guardião na língua de grunhidos própria do culto.

            Nem Sabal nem Mirka fazem menção dele ter falado com elas e nem mesmo demonstram curiosidade em ver quem está seguindo-os. Mirka olha novamente para Sabal por uns instantes e volta a encarar a frente do caminho.

            “Um ovo colossal. Com uma gema e um imenso ‘filhote de dragão’ descansando em seu centro”, descreve Mirka toda sua impressão sobre o local. Sabal visualiza a caverna e realmente enxerga o mesmo ovo que Mirka descreveu e depois grunhe confirmando a suspeita da kobold. Sabal sente o desejo de prosseguir com a conversa, mas um novo aviso de Stongest sobre um espião a faz adiar a concretização de sua vontade.

            “Alak está aqui”, o rosnado do guardião é extremamente discreto, como um leve ronronar. Se eles não estivessem tão distantes da boca do túnel como estão, talvez a clériga não tivesse ouvido.

            Sabal discretamente respira fundo e pergunta levemente:

            – Então veio se juntar a nós?

            Nenhuma resposta é dada. Sabal sorri e, com o auxílio de um breve ronronar de Stontgest, dizendo onde o drow se encontra, ela mira um breve olhar no local e volta a dirigir sua atenção à sua frente.

            – Não seja tímido, Alak. Como Stongest já lhe disse: nós íamos nos encontrar novamente. – comenta Sabal, tranqüilamente.

            Uma voz sussurrante é escutada vindo de pelo menos quatro metros atrás deles.

            – Você sabe que não vim me juntar a vocês. – responde Alak, tentando não demonstrar frustração em sua voz por ter sido encontrado.

            – Sei, mas espero também que não tenha vindo tentar nos matar. – diz Sabal, mantendo tranqüilidade na voz.

            – Não, mesmo que me mandassem para isso.

            Um pequeno silêncio toma conta do local até Sabal retomar a conversa:

            – Por que está nos seguindo, então?

            – Porque foi isso que minha contratante me pediu. Tudo isso está muito confuso. Minha única curiosidade é saber o que está acontecendo nesse local. – responde Alak, surpreso consigo mesmo por estar tão falante na presença da clériga.

            Em nenhum momento o grupo para de se locomover. Sabal apenas sorri e olha discretamente mais uma vez na direção do mercenário.

            – Algo que os Xorlarrin temem. – blefa Sabal, tendo em mente apenas o que sabe a respeito das fugas dos orcs.

            – Mas o que seria? – pergunta Alak, mantendo o mesmo tom de voz desde o início da conversa.

            Sabal faz menção de iniciar a resposta, mas logo Stongest a interrompe com breves grunhidos avisando que mais um está seguindo o grupo. Outro drow. Sabal volta sua atenção para frente novamente apenas dizendo suavemente:

            – Acho que não confiam tanto em você. Parece que você tem companhia.

            Alak não responde, apenas olha para trás tentando encontrar alguém, mas não encontra nada. Suspeitando que seja o Xorlarrin, prefere ficar em silêncio, fingindo ainda não ter sido descoberto.

            A ex-clériga Dyrr continua tranqüila em seu caminho, pois sabe que o guardião dificilmente é pego de surpresa. Gromsh para mais a frente e, sabendo que estão sendo seguidos – por ter escutado os avisos de Stongest e parte da conversa de Sabal -, fala como se nada estivesse acontecendo, para não levantar suspeita sobre o conhecimento do grupo a respeito dos espiões.

            – Chegamo num ponto delicado, Senhora. – diz o gnoll, olhando na direção da clériga, que aperta um pouco o passo para ver sobre o que seu companheiro está falando.

            Chegando perto do gnoll, a clériga se depara com a boca de um túnel que acaba em uma pequena caverna, após um degrau causado por uma leve depressão. No chão dessa pequena caverna há um tapete de teia, enquanto no teto há alguns casúlos pendurados e nas paredes duas bocas de túneis: uma adiante e uma ao lado direito da caverna.

            – É. Acho que encontramos o ninho do filho de Lolth. – comenta a clériga.

            Stongest e Mirka se aproximam. Ambos começam a analisar o local, enquanto Sabal apenas observa e reflete. Gromsh aguça seus ouvidos, como se tivesse escutado algum som estranho.

            E quanto a Alak… Esse apenas se espanta e se pergunta: “Filho de Lolth?”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 3)

            Sentada e posicionada para iniciar uma meditação, Sabal Dyrr aguça seus sentidos e escuta alguns mínimos e discretos sons que denunciam o embate que está ocorrendo fora do túnel onde se encontra. A sua frente, a pequena kobold Mirka dorme tranqüila, com um leve sorriso no rosto, como se não houvesse motivo para nenhuma preocupação. “Como ela consegue?”, se pergunta a clériga olhando abismada para o rosto da kobold. O Underdark é um lugar extremamente hostil e perigoso, é inviável, na mente da clériga, que alguém que viva nos subterrâneos de Faêrun consiga dormir de forma tranqüíla e relaxada como Mirka dorme. Uma ou outra vez ela já testemunhou Gromsh e alguns dos falecidos pequenos também dormindo da mesma forma. Já Stongest, mesmo quando está dormindo não parece estar dormindo. Porém, o que lhe espanta necessariamente no caso de Mirka e de alguns outros pequenos, é que ela é uma kobold.

            “Eles são tão fracos”, ela comenta consigo enquanto recorda que os kobolds costumam viver em bandos coesos, justamente por não possuírem muita força individual. Ao contrário dos drows, os kobolds tiveram séculos de cultura enraizada na importância do grupo. Um kobold sozinho é praticamente ignorável, mas um grupo de kobolds é algo respeitável e em algumas situações temível. “Esses merdinhas não são nenhuma preocupação se não estiverem em um número maior que dez”, Sabal se recorda exatamente das palavras de Mariv, seu antigo professor em combate. “Talvez ela não saiba os riscos que corre no Underdark”, supõe a clériga, enquanto continua a observar a pequena kobold.

            Os traços de Mirka não se diferem muito dos de outros kobolds, mas a pequena maga está quase sempre encapuzada. Essa é uma das poucas vezes que a clériga consegue observar a companheirinha com o capuz deslocado enquanto dorme. O focinho repitiliano termina com um pequeno sorriso e as pontas de vários pequenos e afiados dentes aparecem por quase toda a extensão de sua boca. Sabal realmente não vê nenhuma cicatriz ou marca de combate em Mirka, parece realmente que essa nunca teve que enfrentar um desafio muito grande. “Será que se ela estivesse para ser sacrificada em um altar em homenagem a Lolth, ela conseguiria manter esse sorriso?”, se pergunta a clériga sem tirar os olhos de sua companheira.

            Refletindo a respeito de sua própria pergunta, Sabal acabaria respondendo para si: “Não”, se um momento de surpresa não a impedisse. Próximo da parte descoberta da nuca de Mirka Sabal vê a extremidade de uma pequena cicatriz. Cuidadosamente a clériga começa a retirar o capuz da kobold e percebe que essa cicatriz se extende até o centro da nuca. Pelo capuz ter sido deslocado ainda mais, parte do pescoço de Mirka aparece e Sabal percebe outras extremidades de cicatrizes. Aparentemente a cicatriz da nuca foi causada por algum impacto, talvez uma queda ou um golpe de maça. Mas o pequeno trecho da cicatriz do pescoço lhe mostra que Mirka já sofreu algumas queimaduras e cortes também. Pelo que parece a pequena kobold não é tão pouco vivida quanto parecia.

            “Certo. Então supondo que seu sorriso se mantivesse em um momento extremamente doloroso ou aterrorizante. Por que? Como? Não faz sentido estar tão seguro a ponto de não se preocupar com nada do que ocorre com você”, a mente de Sabal entra em um turbilhão de confusão e assombro. Ela recobre Mirka, que em nenhum momento acordou sobressaltada ou fez menção de se sentir incomodada, e aos poucos se posiciona de maneira confortável para poder meditar. Sabal já havia retirado o peitoral de sua armadura e ficado apenas com sua piwafwi.

            “Quero entender o que está ocorrendo. Pelo máximo que tudo pareça fazer algum sentido, de repente não faz mais”, comenta Sabal, inquieta. Ela fecha os olhos, tentando colocar a preocupação de estar em um ambiente hostil de lado para poder meditar e refletir de maneira profunda. Sim, sempre que um drow vai meditar ele está em um ambiente hostil, afinal que ambiente em toda Toril é mais hostil que uma grande metrópole drow? Porém, mesmo sabendo disso, Sabal sabe que cada drow constrói alguma espécie de santuário onde tem privacidade e proteção – mágica ou física – para poder refletir e resolver seus assuntos sem maiores preocupações. Sabal mesmo tinha seu pequeno santuário protegido por magias divinas em seu quarto no palácio Dyrr, mas no momento Lolth continua em silêncio e nem mesmo um pequeno santuário é possível de ser feito. A clériga está em território inimigo, onde os orcs que eles enfrentaram no início do túnel dominam, ou dão a entender isso.

            Respirando profundamente e deixando o ar sair lentamente de seus pulmões, Sabal coloca a maioria dessas preocupações de lado e aos poucos vai se preparando para meditar. Ela repete esse processo respiratório mais cinco vezes até estar pronta para iniciar sua meditação analítica a respeito do assunto que lhe deixa inquieta no momento: qual a influência da Do’Urden sobre seus fiéis? Da mesma forma que os kobolds são seres extremamente grupais, os drows são seres individualistas que, mesmo possuindo uma sociedade bem estruturada, maquinam uns contra os outros em busca de poder e prestígio. Não há um conceito a respeito de “amizade”, “companheirismo” e coisas do gênero entre eles. Da mesma forma, muitos kobolds agem com uma espécie de mentalidade grupal que parece não separar um dos outros. Mas desde que entrou no culto herege, Sabal passou ainda mais a entender o conceito de companheiro, da importância de um grupo. Antes ela agia amigavelmente por interesses próprios, agora não tem mais tanta certeza. “Será que ocorreu algo assim com Mirka?”, se pergunta horrorizada por pensar que Lolth, ou melhor, a Do’Urden foi capaz de fazer com que Mirka deixasse o extremo grupal e equilibrasse esse lado com o individualismo que propõe a própria filosofia do culto: somos todos um e em um estamos todos.

            Até onde Sabal conhece Mirka, essa foi criada e se relacionou com vários outros kobolds. A pequena companheira era acolita de um humano, discípulo de um dragão. Ela e sua “matilha” viviam com esse humano e seu mestre dracônico. Eles eram responsáveis por preparar armadilhas e cavar túneis bem estruturados para o covil de ambos, e em troca o mago humano e o dragão lhes davam proteção. Mirka se tornou acolita do humano pois demonstrou grandes capacidades intelectuais em relação aos seus outros companheiros. “Isso já é algo digno de respeito em uma kobold”, comenta Sabal, enquanto visualiza o pouco que conhece da história da Mirka.

            Pelas conversas que teve com a kobold a respeito disso, ela descobriu que Mirka estava junto com seu mentor humano e mais vinte kobolds em uma missão nos subterrâneos quando fora capturada. O mestre draconico deles havia lhes ordenado para buscar um artefato que lhe pertencera e fora roubado por trogloditas que viviam nos túneis do Underdark. Pelo menos isso era o que havia sido dito a Mirka, mas quando os drows atacaram a incursão bem antes deles chegarem a seu objetivo, seu mestre antes de morrer lhe pediu desculpas, pois na realidade todos aqueles kobolds estavam sendo levados para serem sacrificados diante de um altar, em homenagem a Rainha dos Dragões em um ritual para criar uma nova espécie de servos de Tiamat. “Mirka nunca me disse o que havia sentido no momento em que descobriu isso”, reconhece Sabal mas supõe, “Acredito que tenha sentido medo. Muito medo. Ela havia sido enganada por aquele em quem mais confiava e seria uma escrava dos drows. O que seria dela?”.

            Lembrando desses fatos, Sabal volta a ficar inquieta. Mirka já havia vivenciado a traição, já havia visto violência e a sentido em sua pele escamada, da mesma forma que Gromsh. Mesmo assim eles não perderam a capacidade de confiar, “Nem a capacidade de não se importar em serem traidos?”, se pergunta a clériga. Com Gromsh as coisas não foram tão diferentes. Ele era um guerreiro de um exército gnoll de tamanho médio. Em sua carreira já haviam pilhado e saqueado algumas vilas humanas e uma ou outra pequena cidade élfica. Em um ato de vingança cometido pelos elfos, a fortaleza dos gnolls foi atacada e esses foram quase massacrados. Um grande contingente conseguiu fugir, e nele se encontrava Gromsh. O guerreiro gnoll e seus companheiros sobreviveram por um tempo ainda na superfície, de modo difícil e estressante. Para todas as direções que iam, encontravam inimigos. Os únicos seres nos quais eles podiam depositar alguma confiança eram aqueles gnolls de seu grupo; ou pelo menos era isso que eles acreditavam, até seu líder ter feito um trato com mercadores drows. Esse escolheu alguns de seus guerreiros e trocou-os por um auxílio na passagem pelo subterrâneo até terras menos hostis para os gnolls poderem se reestruturar. Entre os escolhidos como pagamento estava Gromsh.

            A negociação parece que foi bem sucedida, porém não tanto quanto os gnolls gostariam. O preço foi alto e o território para o qual foram levados não era tão menos hostil quanto o que se encontravam. Ambos, Mirka e Gromsh foram levados para Menzoberranzan em momentos diferentes e ainda com seus companheiros. Foi no subúrbio da grande metrópole drow, cidade natal de Sabal, que eles conheceram Vishnara. “Quem era essa Do’Urden?”, se pergunta a Dyrr. Ela havia escutado algumas histórias dentro do culto sobre a primeira clériga, a “mãe” de Lolth. Porém, em algumas conversas com Stongest ela descobriu que Vishnara não havia dado a luz a Lolth, mas Stongest não deu nenhum outro detalhe. “Então provavelmente a Do’Urden não é uma Do’Urden, ou talvez seja, mas não filha de Vishnara”, pensa Sabal, respirando profundamente e colocando todas essas reflexões em ordem.

            Tudo ainda é muito nebuloso. Uma clériga louca cria uma criança e a batiza como Lolth. A própria Rainha das Aranhas não a pune nem manda um de seus servos matar a criança. Vishnara encontra alguém que ninguém conhecia, o nomeia como “Guardião da Deusa Encarnada” e o ensina sua filosofia alienígena. Após isso, o guardião treina Lolth em alguns aspectos enquanto a clériga louca lhe treina em outros, e mais tarde conseguem dois seguidores que foram escravizados por drows e passam a adorar a deusa demoníaca daqueles que lhes escravizaram e que já haviam sacrificado vários de seus companheiros ou irmãos de raça. “Não faz sentido”, sentencia Sabal, “O que essa pseudo-deusa tem para conseguir seduzir de tal maneira seus fieis?”. Acreditar que a Do’Urden é a encarnação ou um avatar de Lolth é inviável para a Dyrr. “Em toda a filosofia do culto herege nada é tratado sobre o mal e o medo”, argumenta ela, para proteger seu ponto de vista.

            “A Do’Urden alterou a mente de seus fiéis de alguma forma. Como pode alguém que passou pelo que Mirka e Gromsh passaram, agir da maneira que agem?”, a questão retorna a sua mente, “Quando estão em grupo, eles agem da maneira que sempre agiram com seus iguais”, acredita a clériga, “Mas quando estão sozinhos são tão confiantes que parece até que não estão sós. De onde seres de raças tão fracas retiram tanta força?”. Por um breve momento, uma imagem surge em sua mente. O coração de Sabal gela; não necessariamente de medo ou assombro, mas de uma mistura de ambos. Mariv está olhando para ela e caminhando para seu lado. Seus olhos se mantém fechados, mas ela sente a presença dele. Ela era uma drow muito jovem quando ele a iniciou na arte do combate. Sabal tenta espantar a presença de seu falecido professor, balançando a cabeça e não abrindo os olhos, o medo de encontrá-lo fisicamente é grande demais. Porém, mesmo com seu esforço, a presença permanece.

            – Você não pode espantar algo que está em você, Sabal. – ela escuta a voz daquele que tanto lhe ensinou soar em sua mente.

            A clériga engole em seco e sente seu corpo tremer.

            – Sentir culpa pelo que ocorreu não a ajudará em nada. – diz o guerreiro.

            Sabal o sente em suas costas e sente uma de suas mãos tocando seu ombro. Provavelmente ele se sentou atrás dela, como fazia para auxiliá-la em suas meditações.

            – Ele faz pa’te de você, Sabal. – diz o falecido guerreiro Dyrr. Sabal sente seus músculos tensos, ela percebe que de alguma forma o que ele está dizendo é real, pois os ensinamentos de Mariv fazem parte dela agora – Como nós também fazemos. Não cho’e.

            O espanto faz a clériga abrir os olhos imediatamente e virar-se em direção a voz que está em suas costas. Ela estava quase em transe, mas assim que retoma sua consciência vê que com suas mãos ela segurava uma das mãos de Mirka, e que a mão que está em seu ombro é a de Stongest. “Como?”, se pergunta horrorizada. Ela se levanta rapidamente e se afasta do meio-goblin-meio-algo. Vê que tanto ele quanto Gromsh já haviam voltado. Sentindo seu rosto molhado, ela o seca com as mãos.

            – Isso não está certo. – diz, convicta, Sabal – Tudo isso não faz sentido.

            – Esse está sendo seu e’o, Sabal. O Caos não p’ecisa faze’ sentido. – responde seriamente Stongest.

            Sabal o encara por alguns instantes antes de voltar a olhar para Gromsh e depois para Mirka, que prossegue dormindo. A tristeza ainda está presente, mas ela é uma drow. Seu orgulho se feriu por terem presenciado uma cena de tamanha fraqueza e ela não consegue deixar de demonstrar isso em seu olhar.

            – Não p’ecisa te’ ve’gonha. Nós somos aspectos dife’entes da mesma coisa. – diz Stongest, tentando suavizar a situação da forma mais sincera.

            – Eu não sou vocês! Vocês não são eu! – Sabal sente que seu corpo ainda está tremendo – Vocês são loucos! Vocês são loucos em ter me deixado com Mirka. E se eu a tivesse matado? E se esses anos que passei com vocês foram apenas para espioná-los e destruí-los?

            Sabal encara Stongest por alguns instantes e se irrita ainda mais por esse não se alterar.

            – Me responde, goblin! E se eu tivesse matado Mirka!? – grita Sabal, se esforçando para não chorar novamente.

            – Você te’ia feito o que e’a p’a se’ feito. – responde Stongest sem se alterar em nenhum momento.

            O horror da clériga aumenta e sobrepõe a raiva.

            – Eu não entendo. – as lágrimas começam a descer pelo rosto de Sabal novamente.

            – Não há o que entende’, Sabal. Há apenas o que se vive’. – responde Stongest suavemente.

            Sabal se ajoelha e não consegue mais segurar o choro. Stongest se aproxima e tentam tocá-la. Como instinto primário ela os afasta, mas logo desiste e deixa-o abraçá-la, enquanto Gromsh apenas observa.

            – Pode’ é sabe’ o que faze’ no momento que deve se’ feito. Não existe f’aqueza, Sabal. Esse é o ensinamento da nossa Lolth. Nunca se esqueça dele. – aconselha Stongest de maneira tão suave que parece que a Do’Urden está falando através dele. Até mesmo Gromsh se espanta.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 1)

            – Você dorme muito pouco para um goblin. – comenta Sabal Dyrr ao guardião do culto herege do qual faz parte.

            – Não começa. – corta o robusto meio-goblin-meio-algo secamente, enquanto observa a boca do túnel na qual eles chegaram após ultrapassar tantas armadilhas.

            Ninguém do grupo de Sabal se feriu, graças a ação coordenada das habilidades de todos os membros. Graças a Mirka eles descobriram e utilizaram os colares que permitiam a passagem dos orcs pelas armadilhas mágicas sem acioná-las. Enquanto as armadilhas físicas eram desarmadas por Stongest, que se concentrou apenas nisso, Gromsh observava os rastros deixados pelos orcs, o que foi útil nas duas vezes em que os túneis se bifurcaram. Enquanto isso, Sabal decifrava as orações e ajudava Mirka a compreender como a magia “divina”, o que para Mirka soava mais como profana, auxiliava as magias arcanas naquela situação.

            Ao caminhar pelos túneis aos poucos eles foram descobrindo que havia algo bem maior envolvendo os orcs. “Quem é Shormongur?”, se perguntou várias vezes Sabal. Infelizmente Mirka não estudou em Sorcere, portanto seu conhecimento sobre demônios e diabos era precário. Ela é a melhor maga Kobold que Sabal já conheceu, mas seus conhecimentos se limitavam a dragões, draconianos e humanos. Mesmo sem auxílio, Sabal tinha conhecimento sobre algumas poucas coisas, mas o máximo que ela conseguiu descobrir através do símbolo que sintetiza o nome do demônio, foi que Shormongur é um Glabrezu.

            Foi necessário um estudo analítico a respeito do símbolo que custou a eles um tempo razoável. “Mas pelo menos conseguimos uma certa vantagem sobre esse culto. Não estamos enfrentando um inimigo totalmente misterioso”, justificou mentalmente Sabal, quando percebeu que havia demorado muito para descobrir tão pouco.

            – O que você está vendo, Stongest? – Sabal pergunta ao guardião, enquanto esse observa atentamente algo que se encontra fora do túnel, em altura inferior.

            – Um g’upo. T’ês d’ows estão no chão e um está descendo uma co’da, enquanto um og’o mago está espe’ando sua vez pa’a desce’. – responde Stongest quase em sussurros, fazendo com que a clériga tenha que se esforçar para escutar melhor o que o guardião está dizendo, pois o som de uma queda d’água está forte o suficiente para atrapalhar a comunicação.

            – Interessante… Mas o que será que um ogro mago está fazendo com um grupo de drows? – pergunta, intrigada, a ex-clériga Dyrr.

            – Esc’avo. Me’cená’io. Qualque’ uma dessas coisas. Há uma clé’iga de Lolth ent’e eles e um mago. Pelo menos é o que pa’ece. – responde Stongest, sem tirar seu olhar atento do grupo que se encontra ao chão da imensa caverna oval.

            Sabal reflete sobre as informações do guardião enquanto olha para Mirka, que está dormindo, e para Gromsh, que está fixamente atento para o outro lado do túnel.

            – Como é a insígnia deles? – pergunta a clériga em um estalo mental.

            – Como? – pergunta Stongest confuso, mas sem tirar os olhos do grupo.

            – Me descreva a insígnia deles. Assim descobriremos a Casa a qual eles pertencem. – explica ela ao experiente goblin.

            – Deixe-me ve’. – responde Stongest, se concentrando no serviço que Sabal lhe pediu. Aos poucos ele vai desenhando uma runa no chão poeirento próximo a ele, enquanto observa sem parar a insígnia no peito da clériga – Está aqui.

            Sabal se levanta e caminha até o local do desenho.

            – Q’Xorlarrin. – comenta ela aproveitando que estava perto da boca do túnel e observando o grupo parado próximo a um grande lago e um imenso ogro mago descendo uma corda fina se comparada a suas proporções.

            Ela dá alguns passos para trás quando Stongest faz sinal para ela se afastar.

            – O’cs. – comenta ele, mostrando com acenos de cabeça os locais onde se encontram alguns orcs armados com grandes bestas.

            Sabal percebe que os orcs estão concentrados no grupo recém chegado e volta-se ao gnoll.

            – Gromsh, prepare-se. Talvez precisaremos entrar em combate. – avisa a clériga ao seu companheiro.

            – Finalmente. – comenta o gnoll rindo.

            – Depois que estiver mais calma a situação, você descansa um pouco, certo? – pergunta a clériga.

            – Não esquenta, Senhora. Ocê nunca vai encotrá gnoll mais resistente que eu. – responde Gromsh com um meio sorriso em seu rosto, que mostra apenas as pontas de seu canino do lado esquerdo de seu rosto.

            Sabal sorri e vira novamente em direção de Stongest enquanto Gromsh lhe faz uma pergunta:

            – Acorda a Mirka, Senhora?

            – Não. Eu cuidarei dela. Você e Stongest são os mais furtivos, eu iria apenas atrapalhar. Não queremos chamar a atenção. – responde Sabal enquanto faz um sinal de mão negativo ao seu companheiro.

            – Certo. – responde o gnoll.

            A clériga se aproxima novamente do goblin.

            – Stongest, você acha que eles nos viram? – pergunta ela, sussurrando próxima ao ouvido de Stongest.

            – Os o’cs ou o g’upo?

            – Os dois.

            – Os o’cs não. Um dos que está no g’upo lá de baixo foi quem nos obse’vou no início do túnel. Ele pa’ece te’ pe’cebido os o’cs e pe’cebido que há algo aqui. – responde o guardião refletindo sobre o assunto.

            – Entendo. Vamos esperar eles iniciarem um ataque contra os orcs para eliminarmos aqueles que podem vir a nos dar trabalho. – comanda Sabal ao guardião.

            – É o que eu p’etendia. – responde Stongest secamente.

            – Certo. – comenta, sentindo-se um tanto deslocada por ainda não ter se acostumado com a idéia de que um macho goblin tenha mais importância em um suposto culto a Lolth do que ela, uma clériga drow – Falarei com Gromsh.

            Stongest faz um aceno positivo com a cabeça e Sabal, ainda incomodada, inicia a conversa com o gnoll:

            – Gromsh, prepare-se. Quando o grupo que está lá embaixo começar um ataque contra os orcs, ou vice-versa, você se guiará pela indicação de Stongest e atacará o orc que poderia nos atrapalhar mais. – o gnoll a escuta atentamente quando ela dá uma pequena pausa antes de continuar – Será necessário uma grande habilidade em escalada. Você possui, não é Gromsh?

            – Sim, minha Senhora. – responde humildemente o gnoll.

            – Ótimo. Então junte-se ao Stongest. – ordena ela, olhando novamente para Mirka enquanto reflete – Stongest?

            – Diga, Sabal. – pergunta o goblin.

            – Você lembra quando os boatos sobre as fugas de orcs no Braeryn começaram, não é? – questiona a clériga ainda olhando para Mirka, que dorme como uma criança não drow, sem preocupação alguma.

            – Sim, me reco’do. – o goblin responde.

            – Você lembra quais ou qual Casa era comentada nesses boatos? Era a Q’Xorlarrin, não era? – pergunta a clériga.

            – Sim, e a Fey-B’anche. – responde brevemente o guardião.

            Sabal olha para o final do túnel onde estão Stongest e Gromsh, e sorri. Tudo começa a ficar mais interessante e curioso na cabeça da ex-Dyrr. Um culto de orcs à um glabrezu. Um grupo formado por uma clériga de uma das Casas nobres de onde fugiram alguns dos orcs escravos que possivelmente estão envolvidos no culto.

            – A Senhora viu que há algumas teias no túnel onde aquele orc se encontra? – pergunta Gromsh, apontando para um dos túneis no alto à esquerda do deles.

            – Bom sinal. – comenta ela, ainda sorrindo.

            “Espero que os Xorlarrin não demorem a iniciar o espetáculo”, comenta consigo Sabal.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 3)

            – Por Lolth. – Mirka escuta Sabal Dyrr comentar enquanto vê Stongest desativando mais uma armadilha física virtualmente invisível com extrema perícia.

            A pequena kobold apenas olha sorrindo em direção a clériga, enquanto essa observa pasma refletindo sobre todas as habilidades que o pequeno e robusto meio-goblin demonstrou.

            – Ele é o Guardião, afinal de contas. – diz Mirka ainda sorrindo chamando a atenção da espantada clériga.

            – É. – concorda a clériga sem saber mais o que dizer.

            Tanto Sabal quanto Mirka sabem que se Stongest não estivesse na batalha contra os orcs, havia grande probabilidade do grupo estar morto. Stongest é extremamente habilidoso com seus machados, em se esconder e se camuflar no ambiente, em desarmar e provavelmente armar armadilhas, em escalar e se esquivar.

            – Como alguém tão habilidoso passou despercebido tanto tempo no Braeryn? – pergunta a drow à sua pequena companheira.

            – O Guardião não busca a fama. Ele existe para proteger a deusa e a Fé que temos em seus ensinamentos. – responde Mirka com extrema certeza na veracidade de sua resposta.

            Sabal apenas sorri e dá uma olhada ao seu redor, para ver como andam as coisas. Ela vê Gromsh de vigília atrás do grupo, enquanto Mirka fica ao seu lado e Stongest a frente desarma e encontra armadilhas. A clériga volta a olhar para a kobold enquanto se poem a pensar a respeito do que a pequena havia acabado de dizer e um estalo surge em seus pensamentos:

            – Stongest existe desde que Lolth era uma criança, correto? – pergunta a clériga curiosa.

            – Não, Senhora. – responde a kobold sorrindo enquanto Sabal alivia sua suspeita – Na verdade desde antes dela encarnar.

            Os olhos de Sabal se arregalam. “Não tinha parado para pensar nisso”, constata mentalmente Sabal. Stongest é mais velho que a pseudo-deusa, sendo que, aparentemente, a Lolth herege é um pouco mais velha que ela.

            – O que foi, Senhora? – pergunta Mirka arrumando seu manto.

            – Nada. Apenas não havia parado para pensar em como o guardião é velho. Não me recordo de nenhum goblin viver por tanto tempo. – comenta Sabal enquanto Mirka se dispara a rir o mais discretamente que ela consegue.

            – Que foi Mirka? – pergunta a clériga.

            – Me desculpe, Senhora. Acho engraçado você ver o Guardião em padrões mortais. Ele não é um goblin. – responde Mirka com a cabeça baixa em sinal de respeito.

            – É. Havia me esquecido. – responde Sabal impressionada com a fé, não Fé, que a pequena kobold possui por Stongest.

            – O que vocês estão falando? – Stongest se inclui na conversa.

            – Não há mais armadilhas? – pergunta Sabal olhando analiticamente para o rosto de Stongest.

            – Não nessa á’ea. Vamos passa’ po’ out’as ‘unas. – responde Stongest se sentindo incomodado com o olhar da clériga.

            – Vamos. – concorda a clériga – Mas antes gostaria de ter uma conversa com você Stongest.

            O meio-goblin levanta uma de suas sobracelhas.

            – Mirka, você poderia nos deixar à sós por um tempo? – pergunta a clériga à kobold.

            – Sim, Senhora. – responde Mirka sorrindo e se afastando para junto de Gromsh.

            Quando a pequena kobold está em uma distancia considerável dentro do limite em que eles podem se locomover, Sabal volta a se dirigir a Stongest em baixo-drow e quase sussurrando:

            – Você é muito hábil Stongest. Muito mais hábil do que a maioria dos drows que eu conheci. Me diga a verdade: como você conseguiu não ser conhecido dentro do Braeryn?

            Stongest olha nos olhos da clériga.

            – Sabal, esse assunto é inútil. – responde secamente o guardião.

            A clériga sente sua face rubresser, mas não desiste:

            – Quero saber quem te treinou? Onde você nasceu? Quem são seus pais? Um goblin não vive tanto tempo quanto você está vivo. Seu pai ou sua mãe, algum deles, possuía algum tipo de longevidade.

            – P’a que você que’ sabe’ disso, Sabal? – pergunta o guardião desconfiado.

            – Preciso saber a respeito das capacidades de meus companheiros. Afinal sei que Gromsh fazia parte de um exército gnoll antes de ser capturado como escravo. Sei que Mirka era uma kobold acolita de um mago humano discípulo de um dragão. – diz a clériga olhando firmemente nos olhos do meio-goblin – Mas sobre você não sei nada. Não sei como lhe encaixar nas minhas estratégias. É complicado liderar aqueles que nem mesmo eu conheço as habilidades.

            O olhar de Stongest ganha um ar de surpresa, ele ainda não havia visto uma drow se desabafar de forma tão sincera a respeito de alguma fraqueza. Sabal continua analisando o rosto do meio-goblin, principalmente os traços ovalados de seus olhos, quando esse responde incomodado novamente com o olhar da clériga:

            – Você não p’ecisa sabe’ o que eu posso faze’. Quando eu p’ecisa’ faze’, eu faço.

            O meio-goblin vira as costas para a clériga e caminha em direção à próxima armadilha. Sabendo que não conseguirá tirar nada a respeito da história do guardião, Sabal tenta suavizar o final da conversa:

            – Então apenas me diga, como você consegue viver por tanto tempo? Não é normal de sua raça.

            – Eu tenho sangue elfico. – responde o guardião com desdém.

            Sabal ri.

            – Mirka. Gromsh. Vamos continuar. – comanda a clériga.

            O grupo caminha em direção a próxima runa. Sabal continua sorrindo pela resposta dada por Stongest, mas logo seu sorriso se desfaz. “Olhos ovalados”, constata ela com seus olhos vermelhos arregalados.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 1)

Menzoberranzan nunca foi um lugar seguro, ainda mais para aqueles que vivem no Braeryn. Esse é o local onde vivem escravos, ladrões, os párias da sociedade drow, entre outros “miseráveis”. De tempos em tempos alguns drows das Casas Maiores visitam o Braeryn a fim de praticarem um esporte tradicional na cultura dos elfos negros: a caçada a seres inferiores.

Mirka, como vários outros habitantes do subúrbio de Menzoberranzan, teve que aprender a se esconder e a sobreviver. Por ser uma kobold, sempre teve a noção de que um grupo é imensamente mais apto a sobreviver do que seres solitários. A importância de ter com quem contar é algo quase intrínseco em sua natureza, mesmo que ultimamente a importância de saber se virar sem depender de outros, tenha sido somado a essa “natureza”. Há muito tempo seu grupo mudou. Mesmo após ter sido iniciada no templo de Lolth, ela continuou vivendo entre os outros kobolds, para não chamar a atenção.

No início do culto a deusa encarnada, não havia mais de três seguidores e uma clériga. A clériga, Vishnara Do’Urden, foi quem trouxe Mirka e o gnoll Gromsh para o culto. O guardião de Lolth, Stongest, sempre existiu; ou assim parece na mente de Mirka. Ele é quase um semi-deus aos olhos da pequena kobold. É graças ao guardião e a deusa que o culto se mantém secreto.

Sim, Gromsh e Mirka tiveram participações importantíssimas, mas em seus pensamentos, se não fossem Stongest e Lolth, o culto teria sido descoberto e os drows, cheios de inveja, teriam acabado com a “igreja da Lolth encarnada” e Mirka nunca teria descoberto o que é ter realmente Fé.

Entre alguns lixos, a kobold se esconde esperando uma patrulha montada dos drows passar. Atualmente a situação piorou ainda mais. Desde que Lolth foi viajar novamente para superfície, coisas estranhas passaram a acontecer. Após mais ou menos seis meses depois de Lolth ter partido, segundo suas contagens, Mirka percebeu que Sabal não mais estava conseguindo conjurar suas magias e ouviu dizer que as outras drows clérigas de Lolth também não estavam.

“Elas têm pouca Fé”, pensa consigo mesma enquanto observa o drow montado em seu grande lagarto passar. Sabal passou a ser a clériga do culto mais ou menos dois anos após a morte de Vishnara. Por ser uma pessoa carismática, conseguiu facilmente conquistar Mirka e Gromsh. “Ótima drow, mas não muito boa clériga”, aos poucos a kobold sai do lixo onde se encontra, “Seria uma excelente clériga se ao menos tivesse mais Fé”.

Porém uma coisa que Mirka não pode negar foi que o carisma de Sabal atraiu mais alguns fieis para o culto e isso ajudou bastante para eles sobreviverem à insurreição dos escravos, mas atrapalhou bastante para manter sigilo, principalmente após alguns goblins seguidores de Lolth atacarem seus companheiros rebeldes gritando “Por Lolth!!” na frente de alguns drows.

Mirka caminha até o novo esconderijo no qual está vivendo junto com Gromsh, Stongest, Sabal, entre outros fieis. O templo foi desfeito durante a insurreição a mando de Sabal e Stongest. Seria ainda mais complicado, dada a situação, se eles o tivessem mantido, pois haveria provas incontestáveis da existência da deusa encarnada e do culto a ela.

Quando os escravos começaram a se encontrar para planejar a rebelião, os lolthianos se mantiveram a distância, com exceção dela e de Stongest. Sabal não poderia participar mesmo, ela estava sem suas magias e é uma drow. O ódio dos escravos por drows é imenso. Gromsh e os novatos ficaram com ela para proteger o sigilo do templo com muita dificuldade, pois por motivos obscuros, os impulsos agressivos desses aumentavam de uma hora para outra sem motivos aparentes. Mirka e Stongest observaram uma das “reuniões” para entender o que estava ocorrendo.

– Há algo muito fo’te po’ t’ás disso. Não devemos nos int’ometê’. – disse Stongest a Mirka naquela ocasião, que aceitou as palavras do guardião como lei.

A pequena kobold foi ponto chave para que os fieis não se misturassem aos rebeldes. Foi ela e Sabal que perceberam as ondas psíquicas que estavam influenciando e enfurecendo ainda mais os escravos, e graças às magias de proteção da pequena kobold que os fieis não tomaram parte da insurreição. A situação não foi fácil e todo o ocorrido foi extremamente desgastante. Mirka ficou fraca por muito tempo e teve que descansar bastante para se recuperar.

Já passaram muitos dias, na verdade semanas, e Mirka está com todas suas forças recobradas. Ela entra no esconderijo furtivamente. É uma espécie de barraca feita em rocha, próxima a dezenas de barracas semelhantes.

“Mirka, é ocê?”, pergunta um rosnado em tons baixos e guturais. Mesmo que a linguagem secreta deles não tenha sotaque, Mirka sabe de quem vem e não consegue evitar em traduzí-la mentalmente com as falhas que Gromsh costuma ter ao conversar.

“Sim Gromsh. Consegui encontrar o colar”, responde com um rosnadinho mais fino, porém ainda assim rouco e baixinho, enquanto sai de trás da porta que acabara de abrir. Ela se aproxima do gnoll e tira um colar de um de seus bolsos colocando na mão de seu companheiro.

Mesmo enxergando na escuridão que há dentro da barraca, Gromsh tateia cuidadosamente o colar e se empolga.

– Ele funciona Mirka? – pergunta o gnoll em meio a risos animalescos contidos.

– Funciona sim, Gromsh. Testei antes de chegar aqui. Não é tão difícil ativá-lo. – responde ela sorrindo para o gnoll.

– Brigado Mirka. Com ele vo consegui me camuflá nas rochas como o guardião? – pergunta o gnoll enquanto tenta colocar em seu pescoço. Percebendo que não fecha, ele resolve amarrar o colar em seu punho – He-he não cabe no pescoço. É só tá em contato, né?

– Sim. Não se preocupe. – responde Mirka sorrindo e emendando a outra resposta – E vai sim conseguir se camuflar, mas ainda acho que você devia praticar mais se esconder sem depender de itens. Ele não tem energia para muitas ativações, apenas para três vezes, depois você deve esperar um bom tempo até ele recarregar suas energias.

O gnoll torce o focinho.

– Já é alguma coisa. Agora o Stongest não é o único que consegue se infiltrá em lugares cheios de gente. – diz o gnoll olhando para o colar amarrado em seu pulso.

– Stongest não precisa disso para se infiltrar em lugar algum. Você devia treinar mais se pretende substituir ele como guardião da deusa. – responde Mirka rindo.

– Vo pensá no caso. – responde o gnoll contrariado.

Ela observa todo o refúgio e vê o rosto de uma dúzia de fieis, entre eles goblins, kobolds e um outro gnoll, mas nada de Sabal e Stongest.

– Onde estão o guardião e a clériga? – pergunta a pequena kobold.

– Foram ao Bazaar. Falaram que vão demorá e enquanto eles tiverem fora, eu e ocê somos responsáveis pelo culto.

Mirka concorda com um aceno de cabeça. “O que eles foram fazer lá?”, pergunta a kobold com seu rosnadinho fino, que mais se assemelha a um ronronar de algum pequeno felino.

“Descobri sobre o boato que a clériga ouviu a respeito de um possível ataque contra Menzoberrazan pelos anões cinzentos, e comprá equipamentos. Acho também que Stongest foi tê alguma conversa sobre a Fé da clériga”, responde o gnoll também em rosnado, porém um rosnado mais grave que de sua companheira.

“Imaginei”, responde Mirka ainda na linguagem do culto, enquanto deita sobre algumas almofadas e emenda:

– Estou com fome Gromsh. O que tem para comer?

– Só cogumelos. Faz tempo que nóis não come carne suculenta, né Mirka? As coisas andam perigosas lá fora. – responde o gnoll com tristeza em sua voz.

– Qué que eu vá buscá? Quiri é corajoso! – diz um pequeno e mirrado goblin com o sorriso aberto, olhando para Mirka.

– Não Quiri. Não podemos chamar atenção. – responde Mirka levantando-se e indo se servir com cogumelos.

%d blogueiros gostam disto: