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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 4)

            “Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”, um insight vem na mente no mago Sol’al Teken’Th’Tlar em meio ao seu Reverie. “Talvez seja isso”, diz a si mesmo enquanto escuta algumas conversas ao seu redor.

            Por não estar mais escutando nem sentindo a vibração do ronco de Brum, ele acredita que esse esteja fazendo parte da conversa. Atento e tentando aguçar sua audição, Sol’al começa a distinguir os sussurros.

            – Claro que não era pra nós. Eles não sabiam da nossa contratação. – diz o imenso ogro ao seu companheiro de conversa, que facilmente Sol’al percebe ser Alak.

            – É disso que estou falando Brum. Acho que a presença do mago é tão indigesta aos dois quanto a nossa. – comenta Alak tranqüilamente enquanto o ogro segura o riso.

            – De boa Alak, o maguinho nem tem como ser mais indigesto que nós. – comenta ele.

            Sol’al controla sua raiva ainda se mantendo na posição que estava quando entrou em Reverie, esperando que os dois mercenários falem algo que realmente os comprometam. Porém nada surge. Ambos ficam apenas conversando assuntos banais como cerveja, mulheres e táticas de guerra.

            Depois de algum tempo o mago Teken’Th’Tlar volta a escutar o ronco fortemente sonoro de Brum. Até que uma voz masculina chama a atenção de Alak:

            – Descobriu algo mercenário?

            A voz está baixa, mas Sol’al consegue reconhecer como sendo do guerreiro Xorlarrin, pois não teria como ser de outra pessoa; a não ser que mais um “suporte” estivesse por perto.

            – Sim. Há uma outra passagem, mas não me pareceu mais segura que essa. – responde o eremita também com voz baixa.

            – Por que? – questiona o guerreiro.

            – Há orcs e um grupo se digladiando. – responde Alak como se aquilo não importasse.

            – Grupo? – pergunta o guerreiro como se estivesse lendo a mente de Sol’al.

            – Sim, um grupo de seres inferiores liderados por uma clériga de Lolth. Aquilo que teoricamente estamos procurando. – responde cinicamente o eremita.

            “O culto a Lolth?”, se questiona surpreso o mago. A ansiedade começa a tomar conta do corpo de Sol’al, mas esse se controla para não perder a oportunidade de descobrir o que está ocorrendo na missão. O silêncio tomaria conta do local se não fosse pelo ronco do ogro, até que o Xorlarrin retoma a conversa:

            – Você não está procurando nada. Até onde entendi, você e seu amigo foram contratados para protegerem a clériga, correto? – diz secamente o guerreiro.

            – Correto, Mestre Q’Xorlarrin. – responde Alak com reverência.

            Sol’al não escuta resposta, mas acredita piamente que o guerreiro a fez com seu habitual sorriso. A mente do mago se entrega a um turbilhão de pensamentos, aos poucos ele começa a se concentrar para poder refletir de maneira mais coesa. “O culto a Lolth pelos escravos não é a real razão de tudo isso. Isso eu entendi”, comenta consigo mesmo, “Mas qual será o real objetivo dos Xorlarrin? Será que Orghz sabia ao pedir a ajuda da minha Casa? Será que esses dois Xorlarrin realmente se sentem incomodados com a minha presença?”. Enquanto várias questões palpitam na mente do mago, ele escuta Alak chamando o guerreiro Xorlarrin:

            – Mestre Q’Xorlarrin? Temos companhia.

            Sol’al com o olho semi-serrado vê ao longe uma luminosidade claramente mágica e alguns sussurros. “Esses sussurros parecem ser em abissal”, comenta mentalmente enquanto tenta entender direito o que está ocorrendo. “Eles estão refazendo as armadilhas destruídas!”, conclui Sol’al abrindo os olhos e vendo que o Xorlarrin, Alak e a ladina muda não mais estão lá.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 2)

            Após cinco explosões mágicas que se alternavam entre cortinas de fogo e tapetes de corrente elétrica, Brum começa a ser ferido pelas armadilhas. Alak Sel’Xarann, após muito dialogar com a clériga Xorlarrin, consegue que eles dêem uma pausa na investida sem planejamento que estavam fazendo. Era claro para ele que a clériga queria que Brum morresse no processo e que ela estava completamente decepcionada com o fato dele ser tão resistente e de sua assassina mirim não ter conseguido ser furtiva o suficiente.

            Depois de ter ultrapassado duas vezes a primeira armadilha, eles decidiram que Brum deveria quebrar o trecho da parede onde as runas estavam desenhadas. Isso provavelmente ativaria a armadilha com força total, mas – fora Alak – ninguém se importava.

            Logo que as primeiras runas foram destruídas, a pequena ladina foi colocada na frente para procurar armadilhas físicas que pudessem estar no local. Assim que essas eram encontradas, ela logo se prontificava em desarmá-las. Observando a relação da clériga e da pequena drow, Alak percebeu que a nobre era “dona” da ladina, pois essa não parecia pertencer a Casa Xorlarrin. Ela teve sua língua amputada, “talvez por falar demais, algo comum entre mercenário ou ladrões pertencentes a alguma guilda”, refletia Alak.

            Como um animalzinho de estimação da clériga Xorlarrin, a pequena drow obedecia todas as ordens e se arriscava o quanto fosse necessário para deixar sua dona feliz. Felizmente para ela, a Xorlarrin não a havia colocado em risco como fez com Brum.

            Cada armadilha mágica que Brum destruía, todos os outros se afastavam para não sofrerem com a explosão. A mediada que iam adentrando mais e mais o túnel as armadilhas ficavam cada vez piores e mais poderosas. O mago Teken’Th’Tlar havia observado de antemão que possivelmente o poder das runas seriam crescente.

            – Acredito que a cada passo que dermos mais adentro da “morada” do demônio, mais poderosas serão as defesas. – disse ele logo após a terceira armadilha.

            Brum resistiu sem nenhum arranhão até a quarta armadilha. Na quinta, não foi possível e Alak decidiu intervir por seu colega mercenário.

            – Sacrificá-lo nessa altura da missão é loucura. Não sabemos o que encontraremos mais à frente. – dizia Alak para o guerreiro Xorlarrin em baixo-drow.

            – Não adianta mercenário, ela não vai mudar de idéia. – respondia ele.

            Não satisfeito com as respostas negativas do guerreiro, Alak foi ter uma conversa com a própria clériga.

            – Você quer mesmo que ele morra agora? – perguntou o eremita à Xorlarrin.

            – Não necessariamente, mas se ocorrer: ótimo. – respondeu ela secamente.

            – E você sabe o que encontraremos por lá? Você conhece o demônio que possivelmente nós encontraremos? – retrucou Alak em tom de desafio.

            – Isso não é da sua conta mercenário. – respondeu a clériga com raiva em sua voz.

            – É da minha conta a partir do momento que fui contratado para protegê-la. Brum é um dos únicos nesse grupo que poderia parar um demônio tempo suficiente para que conseguíssemos sobreviver. – disse Alak como quem diz uma verdade incontestável.

            – Você conhece bem a capacidade de todos no nosso grupo, hein? – respondeu ironicamente a clériga.

            – Não. Não conheço o suficiente, apenas sei que você não tem suas mágias no momento e que a única fonte de magia que possui é uma varinha de cura. Suas armas mágicas serão inúteis em uma luta contra alguém mais hábil que você. – a clériga virou-se em direção a Alak com a fúria fervendo em seu rosto, mas o mercenário prosseguiu – Talvez seu assassino que faz pose de guerreiro pudesse lhe ajudar, mas acredito que o que você sente por ele não é necessariamente confiança. Já sua pequena ladina de estimação não seria capaz nem de causar transtorno a um demônio ou aos servos do mesmo.

            A clériga encarou o mercenário por um tempo, com a respiração ofegante de raiva.

            – Com quem você irá contar, Senhora? – finalizou Alak sem deixar de olhá-la nos olhos.

            Ela gritou em alto-drow – palavras que para o mercenário soaram desconexas -, chamando a atenção de todos do grupo.

            – Senhora, eu não entendo alto-drow. Por favor, fale em baixo-drow. – interpôs Alak.

            Ela respirou fundo e retomou um tom de diálogo, porém sem deixar a raiva de lado:

            – Eu tenho um mago e um ótimo guerreiro ao meu lado. – respondeu a Xorlarrin.

            Alak olhou para o mago que estava próximo a parede analisando as runas e voltou-se para a clériga novamente.

            – Eu acredito que seu assassino seja um ótimo guerreiro, mas o mago é ignorável. – disse ele – Além disso, ele não seria capaz nem de manchar a pele de meu companheiro ogro.

            A Xorlarrin o olhou com um ódio mortal palpitando em todos os seus músculos como se ela fosse um coração.

            – Certo. Pensem em algo, mas saiba que quando terminarmos essa missão irei fazer de tudo para que você morra como um herege, macho. – sentenciou a clériga ao mercenário.

            – Sim, minha Senhora. – respondeu Alak voltando-se rapidamente ao seu companheiro em subterrâneo comum e puxando conversa com a ladina e com o mago.

            Os quatro conversaram a respeito do que fazer em seguida. Alak sabia que atrás deles a clériga e o guerreiro planejavam sua morte, mas ele mantinha sua mente tranqüila, pois enquanto Brum estivesse vivo, ninguém tentaria contra sua vida.

            Em relação às armadilhas, muitas idéias surgiram, mas todas tinham alguma falha. Por fim, eles optaram por aceitar um plano bizarro do mago.

            – Talvez não seja necessário destruir a runa para “desativá-la”, talvez apenas um risco bem feito possa inutilizá-la. – diz ele.

            A pequena ladina comenta, de forma discreta, algo ao Teken’Th’Tlar na linguagem de sinais drow, que Alak não entende.

            – O que você propõe então mago? – pergunta Brum.

            – Vi que você arremessa bem suas facas Alak. – responde Sol’al como se o eremita que tivesse perguntado – Você conseguiria acertar aquela runa lá atrás?

            Alak observa a runa que Sol’al havia apontado a vinte metros de distância e responde:

            – Com certeza.

            O mago explica a todos que aquilo pode dar uma reação em cadeia e todos, menos os dois mercenários, se afastam até próximo da entrada. No momento combinado Alak arremessa dois de seus punhais, um em cada mão, e atinge de forma perfeita as duas runas que formam a armadilha a vinte metros. Logo após ter disparado, Brum o cobre como uma barraca. Fogo e eletricidade os atingiram com força total, Alak acreditou que Brum não sobreviveria. Cada armadilha que ultrapassada pela cortina destrutiva de magia se acionava e somava-se à primeira.

            Após tudo aquilo parar e as magias se desfazerem, Brum se levanta e diz a Alak:

            – Tivemos sorte dessa vez, hein? Se esses loucos continuarem agindo dessa forma morreremos antes deles.

            – Eu sei Brum. – responde Alak com uma certa tristeza na voz.

            O eremita sabe que aquilo é verdade e não gosta da idéia de morrer de forma tão estúpida. Por isso ele tem que pensar rápido e logo algo que parecia uma estratégia palpável veio em sua mente.

            Aproximando-se do grupo ele se dirige a clériga:

            – Senhora, acredito que eu poderia procurar alguma outra passagem enquanto o mago estuda formas de desarmar essas armadilhas sem por em risco o grupo. – diz Alak.

            – E você acha que haverá outra passagem? – pergunta a clériga descrente.

            – Não sei, mas sei que fui treinado nas áreas selvagens do Underdark e se houver outra passagem, sou aquele que pode achá-la. – responde Alak com convicção.

            O guerreiro sorri aprovando a atitude orgulhosa do mercenário, enquanto a clériga apenas o encara:

            – Mago, consiga uma maneira de anular essas armadilhas. Mercenário pode ir atrás da outra passagem, mas antes diga ao seu amigo que fique longe do grupo, para que possamos descansar sem a presença de um inferior contaminando nosso ar. – ordena a clériga.

            Alak faz uma breve reverência e vai conversar com Brumm, que o recebe com as frases já conhecidas: “Ela disse a palavra, não é?” e “Sim, senhor meu mestre”.

            O eremita parte em busca de uma outra passagem no Braeryn ou próxima a ele. De início a busca é nos arredores, pois ele acredita que os orcs não são estúpidos de prepararem duas passagens uma próxima a outra. Porém, para sua surpresa, a outra passagem se encontra à mais ou menos vinte e cinco metros da passagem na qual eles entraram, mas, pelo menos, não é tão óbvia.

            A passagem é pequena e estreita, principalmente para ele, um drow de um metro e noventa de altura. Cuidadosamente o eremita adentra a passagem e não encontra guardas onde acreditava que haveria. Entretanto escuta uma batalha ocorrendo mais a frente do túnel. Era um túnel bem semelhante ao que eles estavam: artificial e com muitas protuberâncias rochosas. A pequena familiaridade facilita para que ele se esconda e assista a luta que ocorre no local. A clériga que ele havia visto conversando com aquilo que parecia um goblin no Bazaar, está lutando habilmente contra dois orcs, ao lado de um gnoll e alguns kobolds e goblins.

            A batalha é ferrenha. Os orcs urram seus gritos de guerra, enquanto os companheiros da clériga gritam: “Por Lolth!”. Alak sorri por ter encontrado o culto, mas o fato deles estarem combatendo os orcs, deixa tudo ainda mais estranho.

            O eremita fica algum tempo observando e refletindo sobre o que via, quando percebe que dois orcs caem sem sinal de ter sido atingidos pelo gnoll, mas com cortes profundos no corpo. Ao prestar atenção ele vê o meio-goblin-meio-algo furtivo e camuflado como um camaleão, andando livremente no campo de batalha e escolhendo a dedo sua vítima e a hora certa de atingi-la.

            Alak sente uma preocupação surgir em sua mente quando o pequeno goblin-coisa olha de canto de olho em sua direção. “Ele sabe que estou aqui”, conclui o eremita partindo o mais rápido possível.

            Não demora muito para que ele chegue ao seu grupo novamente. Pelo que parece, Brum está dormindo mais a frente enquanto o mago estuda seu grimório, enquanto a clériga e o assassino estão em Reverie. A ladina apenas observa a todos; é ela quem está de vigia.

            Alak se senta perto de uma parede, esperando o momento oportuno para se dirigir a clériga ou ao guerreiro. O tempo se passa e o mago também entra em Reverie. Alak diz para a ladina dormir que ele fica na vigília. Ela recusa e ele apenas sorri dizendo:

            – Me chame quando for a minha vez. – se posiciona comodamente e entra em Reverie.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (Parte 1)

Temeroso Sol’al Teken’Th’Tlar bate na porta do quarto onde disseram que os Xorlarrin estavam esperando. Parte de seu nervosismo deve-se ao bom tempo que havia se passado desde a sua ultima visita ao Bazaar e, a outra parte, deve-se a extrema ansiedade que está sentindo por começar sua nova missão.

Após a reunião no hall de estudos da Casa Teken’Th’Tlar, Riklaunim e Akordia o deixaram a sós com Jabor para que esse explicasse o que ele deveria fazer. Naquele momento sua ansiedade já era grande, devido ao pouco conhecimento a respeito de sua missão. Depois que Jabor lhe contou mais sobre o possível culto a Lolth por seres de raças inferiores, na Cidade da Rainha Aranha, descoberto pelas Casas Xorlarrin, Del’Armgo e Dyrr, sua curiosidade fervilhou como as águas termais de um lago próximo a áreas vulcânicas. Não foi possível nem mesmo esconder de seu Mestre a excitação que sentiu.

– Sol’al, contenha-se. – disse Jabor severamente ao jovem quando esse começou a esfregar as mãos uma na outra e a ficar inquieto em sua cadeira – Não é útil você demonstrar tamanha excitação por essa missão. Se deixar sua ansiedade tomar conta poderá cometer erros imperdoáveis. Estamos entendidos?

O jovem mago compreendia aquilo, e aos poucos começou a por em prática as técnicas de concentração ensinadas em Sorcere, para que o mago não perca seu foco. Aos poucos, Sol’al retomou o seu ritmo normal e escutou o resto do que seu Mestre tinha a dizer.

Aparentemente o culto é feito pelos escravos no Braeryn. Isso não é um problema em si, afinal os chitines, que são uma raça inferior, também louvam a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos. No entanto, pode-se tecer várias hipóteses a respeito do porquê algum drow ou Casa começaria um culto à deusa com os escravos. Um dos principais é: aumentar o número de seu contingente, já que a maior parte do exército drow é formado por escravos. Escravos que sirvam a deusa dariam suas vidas por ela. “Somos todos alimento para Lolth”. Com certeza isso estaria sendo pregado, e escravos fanáticos e controlados com uma pseudo-liberdade poderiam ser guerreiros ferozes. Mesmo que isso seja feito em homenagem à Rainha das Aranhas, soa como uma tremenda heresia aos da Casa Teken’Th’Tlar e provavelmente aos drows de todas as outras Casas de Menzoberranzan.

– Acreditamos que os Xorlarrin também vejam isso como uma imensa heresia. Estamos os auxiliando para que possamos eliminar esses hereges, ou consigamos reverter o jogo da misteriosa Casa que está planejando qualquer nova insurreição. – disse Jabor a Sol’al, que o escutou concentrado, sem deixar sua ansiedade tomá-lo novamente.

– Mas Mestre, uma insurreição acabou de ocorrer. Os escravos estão enfraquecidos, não fariam grandes estragos. – comentou o jovem mago.

– Não farão grandes estragos se não tiverem uma liderança forte como a de uma das Casas Nobres, por exemplo. – foi a resposta de Jabor ao comentário de seu discípulo – Dê o melhor de si por nossa cidade e nossa deusa.

– Por Menzoberranzan e por Lolth. – respondeu Sol’al no final da conversa.

Ele teve pouco tempo para se aprontar e ir para o Bazaar, mas o tempo foi suficiente para preparar seus componentes mágicos, suas adagas e suas roupas. Apenas ao chegar à taverna Sol’al lembrou dos alimentos, e comprou algumas provisões por lá mesmo, pois não sabia ao certo quanto tempo eles ficariam no Braeryn.

Após a primeira batida na porta, ninguém atendeu. Sol’al respirou profundamente e se focou, deixando seus receios de lado, bateu na porta novamente.

– Quem está ai? – pergunta uma voz masculina de dentro do quarto.

– Sou o enviado da Casa Teken’Th’Tlar para auxiliá-los. – responde Sol’al sem deixar transparecer o nervosismo que voltou a inundá-lo ao escutar a voz do possível Xorlarrin.

A porta se abre aos poucos, e um homem atlético, de cabelo comprido e trançado o observa rapidamente com um olhar analítico. Sol’al estranha o fato de o possível guerreiro estar com sua mão esquerda posicionada na região inferior de suas costas, como um velho com problemas no nervo ciático.

– Entre, mago. – diz o guerreiro ao recém-chegado logo após a rápida análise.

– Com licença. – diz Sol’al, entrando devagar no quarto.

Seria um quarto de taverna simples, se não fosse uma porta que leva a outro aposento. Essa porta se encontra fechada, e Sol’al supõe que lá se encontre a clériga. Ao ver o guerreiro caminhando até sua cama, ele percebe que esse guarda uma espécie de sabre mais curto e curvo de ponta cabeça em suas costas. Em cima da cama há uma espada curta que o Xolarrin guarda em uma bainha e coloca em sua cintura na parte direita. “Ele é canhoto”, comenta para si mesmo Sol’al.

– Chegou há muito tempo no Bazaar, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro, se voltando ao mago enquanto arruma sua piwafwi composta com trechos de couro de lagarto batido; “Essa armadura é leve para um guerreiro, não?”, observa Sol’al.

– Não faz muito tempo não, Senhor Xorlarrin. – responde o jovem mago olhando para o emblema da Casa do guerreiro.

– Estávamos esperando o senhor já faz um tempo. Minha Senhora está se aprontando e logo se juntará a nós. – diz o guerreiro vestindo suas botas sem perder a atenção voltada ao jovem mago.

As botas do guerreiro são acolchoadas. “Ele não é um guerreiro, talvez um assassino”, conclui o mago abrindo as portas para uma nova dúvida, “Será que ele é mesmo um Xorlarrin?”. A dúvida de Sol’al cria uma suspeita que o deixa apreensivo. Concentrando-se, ele começa a observar todos os movimentos do tal “guerreiro Xorlarrin”, que o observa de volta.

Em silêncio, ambos trocam olhares. Sol’al sério, enquanto o Xorlarrin sorrindo ao perceber que sua presença deixa o mago inquieto.

– Não fique apreensivo. Minha Senhora logo se juntará a nós. – diz o guerreiro levantando-se da cama.

Sol’al coloca sua mão esquerda discretamente em um dos bolsos de sua piwafwi e pega um componente de magia para o caso de necessidade.

– Não estou apreensivo, não se preocupe. – diz Sol’al.

– Poderia saber seu nome, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro.

– Meu nome é Sol’al, Senhor. – responde o jovem mago, curvando-se levemente – E o seu? Qual seria?

– Meu nome é… – o guerreiro é interrompido em meio a sua resposta, quando a porta do outro aposento se abre.

De dentro da sala uma jovem e bela drow sai caminhando devagar, com sua piwafwi negra caindo levemente por cima de sua cota de malha, como um vestido justo até sua cintura, após a qual abre-se mostrando sua coxa direita que está protegida por uma placa de metal.

– Qual o nome dele? – pergunta a clériga para o guerreiro de sua Casa em alto-drow.

– Sol’al Teken’Th’Tlar, Senhora. – responde o guerreiro.

– Ele é o tal mago? – pergunta novamente a clériga ao guerreiro, ignorando completamente o recém-chegado.

– É o que parece, Senhora.

Sol’al, sentindo-se fora da conversa, tenta cumprimentar a clériga com sua forma habitual.

– Sou Sol’al Teken’Th’Tlar, a seu serviço, minha Senhora. – diz ele ajoelhando e curvando-se plenamente em frente a clériga como se essa fosse a própria imagem da Rainha Aranha.

A clériga o olha com profundo desdém:

– Sei quem você é. Quando quiser que você se dirija a mim, eu direi. – dá de ombros a clériga, voltando-se novamente ao guerreiro.

Sol’al sente a ofensa de forma indiferente, afinal em sua própria Casa o tratamento que ele recebe é este. “Faz parte do jogo, não é?”, relembra sempre que qualquer ofensa lhe faz ferver o sangue. Além do mais, Sol’al não seria capaz de agir contra ou ofender uma clériga de sua deusa. Mesmo assim, ele se sente perdido sobre o que fazer.

– Está tudo pronto para a viagem? – pergunta ela para seu companheiro.

– Sim, minha Senhora. – Sol’al escuta o guerreiro confirmando a pergunta da clériga.

– Senhora, com todo o respeito, mas gostaria de saber o nome de vocês. – diz Sol’al se curvando, tentando entrar novamente na conversa.

O olhar da clériga parece soltar faíscas quando Sol’al finaliza sua pergunta.

– Para você meu nome é Senhora, seu macho insolente. – diz ela, aproximando-se do mago e erguendo sua mão para desferir-lhe um tapa quando da porta ouve-se uma forte batida.

A clériga vira-se espantada para o guerreiro, que a devolve um olhar semelhante ao dela.

– Quem está ai? – pergunta o guerreiro em linguagem subterrânea comum, fazendo sinal de silencio ao mago.

A clériga prepara sua maça enquanto Sol’al mantém os componentes mágicos em sua mão. O guerreiro posiciona sua mão esquerda na espada que se encontra em suas costas e se aproxima da porta.

Sol’al ouve alguns sussurros vindo do outro lado: duas vozes discutindo algo em linguagem subterrânea comum. Ele não consegue compreender muito da conversa, apenas alguns avisos como: “Eu falo”, “Não tente se intrometer”, “Brum! Eles são drows, não vão te escutar”.

– Responda! Quem está ai? – intima o guerreiro Xorlarrin.

– Somos mercenários a mando dos Bregan D’Aerthe para auxiliar os membros da Casa Xorlarrin no Braeryn. – responde uma voz masculina.

O guerreiro Xorlarrin olha para sua clériga ainda mais espantado. “Abra a porta com cuidado”, diz ela na linguagem de sinais drow ao guerreiro, logo após se dirigindo a Sol’al na mesma linguagem: “Mago, prepare alguma coisa útil”.

Sol’al segura os componentes necessários para a magia de cegueira em uma das mãos e confere se suas adagas de arremesso estão bem posicionadas. Enquanto isso, aos poucos a porta vai se abrindo e o Xorlarrin vê um drow alto e magro, de cabelo curto e armadura leve e acolchoada que cobre apenas pontos realmente vitais como o pescoço. Logo atrás do drow, está um ogro mago parado, quase sem roupas, apenas com trapos de couro batido que cobrem as áreas íntimas.

– Identifiquem-se. – diz o guerreiro Xorlarrin aos estranhos mercenários enquanto Sol’al e a clériga se posicionam em locais não visíveis, preparando-se para atacar quando necessário.

– Sou Alak Sel’Xarann. Estou aqui a mando dos Bregan D’Aerthe para proteger a clériga Xorlarrin que está pronta para uma missão investigativa no Braeryn. – responde o mercenário drow em baixo-drow ao Xorlarrin – Creio que você e a clériga que está ai dentro sejam os Xorlarrin, não?

O guerreiro fixa seu olhar desconfiado no eremita.

– Não me recordo de terem contratado mercenários para proteger minha Senhora. – diz o drow secamente – O que os Bregan D’Aerthe estão pensando?

– Leia isso. – diz Alak, pegando o pergaminho da mão de Brum e entregando ao Xorlarrin – Não sabemos quem nos contratou através dos Bregan D’Aerthe, mas ele nos entregou esse pergaminho. Espero que esclareça.

Olhando desconfiadamente, o guerreiro abre o pergaminho com cuidado. Seu olhar demonstra total dúvida em relação àquele pergaminho. Enquanto ele lê, seu olhar duvidoso vai se alterando para um olhar cheio de raiva e espanto. Dando um passo para trás o guerreiro entrega o pergaminho a sua senhora que o lê e engole em seco, enquanto Alak e Brum esperam do lado de fora.

Sol’al apenas observa a clériga e o guerreiro com suspeita. Ele devolve os componentes da magia de cegueira e coloca a mão em outro bolso de sua piwafwi, preparando o componente para uma magia de proteção. Afinal, sabe-se lá o que tem naquele pergaminho. Curioso, ele tenta bisbilhotar o que está escrito no pergaminho, mas infelizmente não consegue ler nada além de um nome, Zaknafein, e uma assinatura rúnica que ele não consegue identificar de pronto.

– Deixe-o entrar. – a clériga ordena ao guerreiro em alto-drow, claramente contrariada.

O guerreiro abre a porta. Percebendo que Alak não entendeu o que a clériga havia falado, diz em subterrâneo comum:

– Podem entrar.

Logo que a porta se abre, a Xorlarrin se depara com o imenso ogro mago que está junto ao drow.

– Menos o inferior. – ordena a clériga ainda em alto-drow ao seu guerreiro.

– Menos o ogro. – diz o Xorlarrin em baixo-drow.

Parando, Alak se vira para Brum.

– Brum, fique aqui fora. – diz ele em subterrâneo comum.

– Ela me chamou daquilo? – pergunta o ogro, com uma feição revoltada.

– Não sei, Brum. – responde Alak – Apenas fique aqui.

Brum se afasta da porta resmungando em goblinóide. Sol’al escuta os resmungos do ogro mago e sabe exatamente o que ele está dizendo: “Vou mostrar pra ela quem é inferior. Tenho certeza que ela falou essa palavra. Drows patéticos”. Mesmo sabendo disso, o mago prefere guardar para si a informação. Enquanto ele não ganha a confiança da clériga, não é bom se passar por puxa-saco dedo duro.

Alak entra no quarto e o guerreiro fecha a porta com o ogro de fora. Sol’al o analisa completamente da cabeça aos pés e percebe onde o recém-chegado guarda suas armas: seis facas arremessáveis nos dois lados da cintura e duas espadas semelhantes a patas dianteiras de aranhas-espadas nas costas. O mago observa mais atentamente as espadas, para ter certeza que seus olhos não lhe pregaram nenhum truque, mas não consegue ter certeza do que viu, pois o eremita se vira e o analisa rapidamente.

– Pergunte ao mercenário se ele e seu amigo já estão prontos para ir, pois não tolerarei atrasos. – diz a clériga ao Xorlarrin em alto-drow.

– Você e o ogro já estão prontos para partir, senhor Alak? – pergunta o guerreiro ao eremita.

– Sim. Já estamos preparados. – responde Alak prontamente voltando sua atenção ao guerreiro.

Sol’al observa os dois. As diferenças superficiais são óbvias: enquanto o Xorlarrin aparenta ter grande perícia com uma única espada, o mercenário aparenta ser capaz de usar duas armas ao mesmo tempo. Porém, no que realmente é focado o treinamento de ambos é o que intriga o jovem mago. Ele se concentra observando ambos enquanto eles conversam coisas supérfluas a respeito de bagagens e comidas, até que a Xorlarrin chama sua atenção.

– Mago, nos espere lá embaixo e leve o inferior junto. – ordena a clériga a Sol’al em alto-drow – Já o encontraremos lá.

– Sim, minha Senhora. – responde Sol’al se curvando.

O mago sai do quarto e fecha a porta com cuidado. Quando está a sós com o ogro ele diz em globinóide:

– A clériga ordenou que a esperássemos lá embaixo.

Brum olha para o mago com um certo desdém e sorri.

– Muito espertinhos vocês drows, não? – comenta Brum caminhando lentamente na frente do mago, que o olha sério, como se estivesse advertindo o imenso ogro pelo seu comentário.

Percebendo que Brum o ignorou e começou a descer as escadas, Sol’al prefere dizer em voz alta, mas ainda em globinóide:

– Cuidado com seus comentários, ogro. Pode ser prejudicial a sua vida.

– Sim, senhor. – responde com mais desdém ainda o imenso ogro.

Com a cara amarrada e pensando sobre como castigar aquele ser inferior, Sol’al espera no salão de entrada da taverna. Enquanto isso seus pensamentos se transformam: “O que será que eles estão conversando?”.

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