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Immortuos – Notícias sobre o segundo livro

Olá a todos!

Estive escrevendo o segundo livro do cenário Immortuos, chamado: Necropolitan. Muitas coisas mudaram da idéia original, novos personagens surgiram, o próprio enredo que havia pensado tomou outros rumos, etc e tal. Ao meu ver, isso é muito positivo, pois creio que deixará a história mais interessante.

Evandro, Gustavo e Marcela, continuam tendo papeis centrais na trama, no entanto, agora outros dois personagens terão suas perspectivas abordadas. O sapien immortuos e psiquiatra Paulo Vieira Sales será um protagonista (se assim posso chamar), nessa trama. Cheio de questionamentos e frustrações, ele terá um papel importante na configuração da cidade de Campinas dentro do cenário.

O outro personagem, também um sapien immortuos, tem lá seus mistérios e prefiro não falar nada sobre ele, a não ser o fato de que “mora na capital”.

“Misterioszinhos” a parte, por conta de tantas mudanças e correrias a respeito de outros projetos, o segundo livro irá atrasar um pouco dentro do previsto, já que pretendia “lançá-lo” aqui no blog em fevereiro. Espero estar com ele pronto, revisado, corrigido e tudo o que for necessário, até abril. Enquanto isso, mantenho a publicação da saga de D&D Forgotten Realms, Outcasts, e meus rabiscos, além de novidades sobre os outros projetos.

Atenciosamente,

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Mudanças

– Filho da puta! – Gustavo escuta o comandante Rodrigues gritar, voltando a olhar pelo binóculo, tentando ver quem é o immortuos que está comandando o ataque.

A chegada da “sobrevivente” trouxe muitas perguntas para todos os moradores da Necropoli. Com Gustavo e Marcela não foi diferente.

– O que você está vendo? – pergunta Marcela.

– Não consegui ver nada além de um bando de insanus immortuos. – responde Gustavo, utilizando o termo que aprendeu com Paulo, que está desaparecido a mais de vinte dias com o grupo de busca que saiu atrás da localização do “criadouro humano”.

– E se eles invadirem a Necropoli? – pergunta Marcela preocupada.

– Não irão. Estamos seguros. – responde Gustavo vacilante.

Marcela desconfia da resposta.

– Você soube sobre o que aquela tal de Suzana falou, não soube? O que era aquele grupo de busca com o qual Paulo saiu? – questiona Marcela.

Gustavo acena com a cabeça e volta a observar com o binóculo.

– Ela sofreu muito, Ma. As coisas que ela fala não fazem sentido algum. – responde o mecânico tentando confortá-la.

– Mas olha o que está acontecendo agora. – sua voz é trêmula – Não quero ter que fugir novamente. – ela começa a chorar.

Gustavo coloca o binóculo de lado e se aproxima para confortar sua namorada.

Desde que eles construíram a Necropoli civil, Gustavo e Marcela sabiam que teriam que deixar o passado para trás e reconstruir suas vidas. Gustavo auxiliou bastante no desenvolvimento da Necropoli, além de auxiliar nas pesquisas de novos combustíveis para os automóveis. Enquanto Marcela teve que aprender novos ofícios, já que uma jornalista – em um momento que havia uma grande necessidade de mão obras – não era tão útil. Mesmo assim, Marcela não deixou por desejar, indo atrás de aprender tudo o que podia para ajudar a construir aquela “cidade dentro da cidade”.

Ambos foram morar em uma mesma república, ou mausoléu, como alguns chamam as residências. Uma casa de dois andares que dividem com mais três pessoas. Durante os meses que se passaram, Gustavo e Marcela tornaram-se cada vez mais próximos, até um inevitável relacionamento correr. Tudo parecia estar voltando a uma certa normalidade, eles já deslumbravam no horizonte um renascimento para a raça humana.

– Nós não vamos ter que fugir novamente.

Ela se desvencilha de seu abraço.

– Pare de tentar me confortar! – grita angustiada – Nem você mesmo acredita que estamos tão seguros!

Gustavo fica sem resposta. Um grande e incomodo silêncio entre os dois toma conta do lugar. O mecânico nem mesmo escuta os tiros dos militares contra a turba de mortos vivos.

– Ma…

– Não! Preciso de espaço no momento. – afirma afastando-o com as mãos.

Gustavo opta por respeitar, a fim de evitar uma possível discussão. Ele volta para a janela do quarto e pega o binóculo novamente, para ver que a multidão de immortuos havia partido após terem feito um grande estrago no portão um da Necropoli. Os militares se mantêm a postos, para caso eles voltem, mas aquela visão já lhe permite puxar assutno novamente com Marcela.

– Eles se foram. – diz ele.

– Mas vão voltar. – retruca ela.

– Sim, irão. – responde o mecânico novamente – É assim que o mundo está atualmente. No momento não temos o que fazer, a não ser nos defender.

– Até quando isso? – pergunta Marcela irritada.

– Não sei. Talvez para o resto de nossas vidas. Mas pelo menos estamos em uma situação melhor do que nos meses antes de virmos pra cá. – responde Gustavo, começando a se irritar.

– Talvez seja melhor morrer! – diz desesperada.

– E se tornar um deles? – questiona Gustavo – Não fala besteira.

– Claro que não! Estou dizendo morrer de verdade! Ter a cabeça arrancada e ser cremada. – responde ela.

– Ma, por favor, seja razoável. Nossa situação não é imensamente diferente da que vivíamos antes disso tudo ocorrer. – diz Gustavo com uma voz mais suave – Só que naquela época tínhamos outros problemas. Haviam…

– Juro que não quero conversar sobre isso agora. – Marcela encerra o assunto, saindo do quarto.

Gustavo senta-se na cama e fica pensando se a comparação que ia fazer entre a situação atual e a violência no mundo antes da “epidemia” era coerente. Entretanto, seus pensamentos flutuam de um assunto para outro – expectativas, cenas do passado, planos, esperanças, e assim por diante – impedindo que ele consiga refletir com profundidade sobre o tema.

“Se Evandro estivesse conosco”, pensa Gustavo sendo pego de surpresa pelo seu desejo de segurança. Mesmo com a morte de Carla, o mecânico não tinha rancor do policial. Ele sabia que a atitude dele tinha sido para ajudá-la, mesmo que tenha dado errado.

Duas batidas na porta do quarto tiram Gustavo do transe.

– Entra.

A porta se abre e um homem magro, alto, de cabelo comprido entra com uma caixa.

– Fala, Gustavo. Beleza? – cumprimenta o homem.

– Tudo bem sim, Lucas. – responde Gustavo olhando para a caixa – Aconteceu alguma coisa?

– Não, não! – gesticula Lucas enquanto fala – Só vim te entregar isso. – Lucas entrega a caixa para o mecânico.

– O que é isso?

– Os militares disseram que foi deixado na frente da guarita três hoje durante a troca de turno da tarde. – responde Lucas.

– E os militares não abriram para ver? – Gustavo pergunta suspeitando daquilo.

– Não abriram a caixa, apenas o bilhete.

– Bilhete? – a curiosidade de Gustavo aumenta, fazendo-o procurar o bilhete, que está em um envelope grudado em uma das laterais da caixa – Ok, Lucas. Valeu.

A sós com a caixa, ele abre o bilhete:

“Caro, Gustavo ‘Mecânico’,

Isso é para que você saiba que aquele que nos causou tanto sofrimento não mais caminha nesse mundo.

Atenciosamente,

Evandro”.

Sentindo um calafrio, pois sabe que a forma de agir, e provavelmente pensar, de Evandro não condiz com o de um ser humano normal, Gustavo abre cautelosamente a caixa. Assim que tira a tampa, um cheiro de carniça sobe até as narinas do mecânico, que imaginando o que é, fecha a caixa e sai do quarto com ela.

Ele desce a escada e passa pela sala onde Marcela está assistindo a um filme.

– Onde você vai? – pergunta sua namorada.

– Vou jogar isso no lixo.

– E o que é isso?

– Um dos presentes bizarros de Evandro. – responde o mecânico tentando encerrar logo a conversa.

Marcela se surpreende:

– Evandro está vivo?

– Parece que sim. – responde brevemente Gustavo – Agora me deixe levar isso para o lixo, por favor.

Marcela não responde, apenas faz cara de quem não gostou da resposta e volta a assistir o filme. Gustavo sai da casa e vai até onde os moradores colocam seus lixos que serão levados pelos militares até algum laboratório de combustível, ou até um lixão.

Chegando lá, ele coloca a caixa junto com os outros lixos.

– Evandro, Evandro. – ele suspira pensando alto – Imagino que você tenha feito com boa intenção, mas isso não é um bom presente.

– Ah não? E o que seria um bom presente? – Gustavo se assusta com a voz vinda de trás dele e se vira rapidamente.

– Evandro? – pergunta Gustavo, olhando para aquela feição familiar, porém com algo bem diferente do que se recorda – O que aconteceu com você?

Os olhos de Evandro estão vidrados, com veias aparentemente estouradas, seus músculos estão claramente tensos e um de seus antebraços está mutilado.

– Não interessa. – responde secamente – Não vim pra isso. Quero lhe fazer um convite.

– E qual seria?

– Construirei uma Necropoli e quero que você me ajude. – responde Evandro.

– Venha morar conosco. – convida Gustavo.

Evandro ri.

– Não. É um outro tipo de Necropoli que quero construir. – por algum motivo Gustavo fica preocupado, mas espera para escutar se o policial tem algo a mais para dizer – Nela, não haverá humanos e nem immortuos.

– Como? – Gustavo fica confuso.

– Irei atrás de alguns antigos colegas e te treinaremos. Quando você estiver pronto, será como eu. – responde Evandro.

– Como você? – pergunta o mecânico – E o que é ser como você?

– É ser o início de uma real transformação nesse mundo morto.

Gustavo o encara nos olhos. Ele nem imagina o que o policial está planejando, mas, até um certo ponto, confia nele. Quem sabe essa seja uma boa notícia para ajudar Marcela a acabar com suas preocupações e eles ficarem numa boa.

Entretanto, esse pensamento soa estranho, tendo em vista que quem está planejando algo é um homem que de “numa boa” não tem nada.

– Certo. Aceito te ajudar, mas a Marcela vai junto. – responde Gustavo um pouco vacilante.

– Como quiser. – da de ombros Evandro – Arrumem suas coisas. Partiremos amanhã.

Evandro vai embora assim que termina de falar. Gustavo fica olhando para o lixo por algum tempo, refletindo se sua resposta foi realmente a melhor escolha. Ele lembra de Carla e o que Evandro tentou fazer com ela para ajudá-la a sobreviver.

Gustavo volta para casa, com um caroço incomodo em seu estômago.

Ossos do Ofício

Não era fácil se tornar um agente do “Project Immortuos”, pois devia-se não só treinar o corpo e as capacidades de investigação, como durante os dez anos de treinamento passava-se também estudando medicina tradicional chinesa, tibetana, indiana e ocidental. Só após os testes de conhecimento a respeito de sintomatologia baseadas nesses estudos é que o policial tornava-se um agente e começava a “caçar”.

No Brasil, isso não é diferente. Leandro Paiva, que recebeu a intimação para participar do “Projeto Immortuos” assim que ingressou nas forças armadas brasileiras e se destacou pelo seu preparo físico, foi dado como morto para a sociedade, recebeu o nome de Evandro Alberto de Oliveira e iniciou seu intenso treinamento diário, no qual acordava às quatro da manhã e dormia à meia-noite. Um agente em treinamento não tinha fim de semana ou feriado, os dez anos eram intensos e reveladores, além de o tornar um predador quase perfeito.

Mesmo isolado e sentindo-se uma criatura a par da humanidade, é graças a esse treino que Evandro sobrevive atualmente.

Ele escuta o som de um carro na frente de sua casa e pragueja pela ignorância do motorista; provavelmente ele está chamando a atenção de vários immortuos na região. O veículo parece parar e ele escuta a campainha tocar.

Com todo seu conhecimento, Evandro sabe o quanto deve-se ter cautela na “nova situação mundial”. Com certeza devem haver centenas de debile e sapiens immortuos espalhados por ai. Seria tolice dele atender a campainha.

O carro logo desliga e Evandro sorri, caminhando até a porta, de onde escuta barulhos de pancadas e estalos na cerca elétrica. Após escutar o segundo baque de alguém pulando o muro, ele a abre e vê um vulto pulando para dentro de sua residência. Sem pestanejar ele saca sua arma e derruba a “criatura” com um tiro no pescoço e outro na cabeça.

As outras duas “criaturas” pulam para trás de seu carro na garagem se escondendo de sua vista e gritando algo como: “Pare, por favor!”. “Se forem immortuos, são dos inteligentes”, constata Evandro resolvendo iniciar uma conversa:

– Quem são vocês?

– Somos vivos! Viemos buscar ajuda! – responde um deles com uma voz ansiosa.

Cautelosamente, Evandro prossegue:

– Vieram realmente buscar ajuda? Ou querem tomar minha casa? Ou, talvez, comer a minha carne?

Há um breve momento de silêncio, um possível sinal de surpresa por ele estar certo, ou espanto de alguns sobreviventes que achariam estranho alguém tentar conversar com os immortuos.

– Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! – responderam eles, surpreendendo o policial – Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!

“Gustavo?”, pensa o policial tentado a acabar com aquela conversa e ajudar o bom mecânico. O tal mecânico e sua família, mesmo não tendo uma relação real de amizade com ele, foram os únicos seres humanos com os quais Evandro se simpatizou após seu treinamento.

– Digam seus nomes. – ordena ele.

– O meu é Lúcia. – responde a mulher da dupla.

– Meu nome é Paulo Vieira Sales. – responde o homem logo em seguida.

– Venham até algum local que eu possa vê-los. – as duas pessoas caminham lentamente com as mãos na cabeça – Agora tirem as roupas.

Ambos se olham estupefatos, ouvindo o policial chamar suas atenções:

– Andem logo!

Afinal, não é porque eles sabem seu nome e o do mecânico que ele não se certificará dos sinais. Foi graças aos orientais que os agentes do “Project Immortuos” conheceram esses sinais, permitindo assim a identificação prévia de pessoas que tornariam-se immortuos após falecerem; porém, não era algo fácil de ser percebido. Evandro lembra de quando teve que matar um dos mecânicos que trabalhavam para Gustavo, ao perceber que tal funcionário possuía pelos menos três dos sinais da “doença”.

Atualmente, os sinais da “doença” são insignificantes, pois todo mundo os tem. Porém, os sinais daqueles que já se transformaram são outros, e são esses sinais que Evandro quer se certificar de que a dupla não possui.

– Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’. – ordena Evandro para o casal pelado a sua frente.

– Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos? – perguntou a mulher, que parecia ser mais corajosa, gerando um pequeno olhar de inveja por parte de seu parceiro. “Ele queria ter feito a pergunta”, comenta a si mesmo o policial, percebendo como aquele homem se sente incomodado pela figura de liderança que aquela mulher representa.

– Não. – sua resposta é seca, o que faz com que os dois o obedeçam sem mais questionamentos.

Ele observa com cuidado e vê alguns dos “sinais menores” mais óbvios que ele aprendeu na medicina oriental: peles um pouco ressecada, veias levemente atrofiadas, olhos com pouco brilho, baixa sudorese. Porém, nada dos sinais “maiores” que os caracterizariam como immortuos.

– Ótimo, seus amigos estão esperando na frente? – pergunta Evandro escutando o carro ligar novamente.

– Sim. Por favor, abra logo o portão, deve ter criaturas se aproximando. – responde Paulo.

Evandro pega o controle de seu bolso e abre o portão.

– Vistam-se. – diz ele para Paulo e Lúcia, enquanto vê o mecânico entrar com a fiorino.

O policial suspeita que a idéia de ter ido procurá-lo, tenha sido de Gustavo. Talvez, finalmente, ele tenha entendido o recado de sua “ameaça” e de que, na verdade, Evandro nunca representou perigo para ele e sua família.

Quando Evandro percebeu os “sinais menores” em Joel – um homem gordo, que se encharcava de suor em pouco tempo, mas estava seco após quatro horas de trabalho – sentiu um pequeno incomodo, pois saberia que aquilo colocaria seu “amigo” Gustavo em risco. Na mesma noite em que percebeu os tais “sinais”, Evandro começou a investigar Joel mais de perto, para certificar de que ele possuía os outros sinais: mucosas esbranquiçadas, diminuição do apetite, calcificação nas unhas, e assim por diante. Para isso, o policial, após analisar algumas fotos que tirou do tal Joel, optou por destruí-lo.

Ele foi até a casa de Joel e esperou dar 20:00hs, o horário que o mecânico deixava sua esposa e seus filhos em casa e ia tomar “uma dose”. Chegando na primeira esquina de sua rua, Joel foi interceptado por Evandro que o estrangulou, sem deixar brecha para perguntas como: “Por que?”, ou súplicas. Aquele homem não tinha culpa, era mais uma vítima do acaso genético ou seja lá o que for, Evandro não saberia o que lhe dizer e, portanto, preferia não conversar com sua presa.

Assim que Joel caiu desacordado, Evandro sacou sua pistola com silenciador e atirou na cabeça dele, no mesmo instante que esse abriu seus olhos famintos. Com um certo esforço, o policial levou o corpo de Joel para um terreno baldio próximo e lá esperou a pequena movimentação do bairro diminuir. Quando deu meia noite, foi que Evandro começou a mutilar o corpo para guardá-lo em sua caixa, sem sentir o mínimo de arrependimento, pois sabia que estava cumprindo seu dever.

Evandro passou aquela noite pensando como “contar” para Gustavo sem revelar exatamente o que ele fazia; ele não queria perder o contato com o mecânico. Foi assim que ele optou por não dar fim no corpo e levar seu carro para o mecânico logo de manhã.

Ao ver o mecânico estacionando o carro e o portão terminando de fechar sem nenhum immortuo adentrar, ele se aproxima para cumprimentá-lo. Ele é uma das poucas pessoas que o policial tem real consideração, e proteger a ele e sua família, trará alguma humanidade para sua vida novamente. “Com certeza trará”, conclui Evandro, sem refletir sobre como sua presença afetará a vida do “bom mecânico”.

Ameaças

Ao mesmo tempo em que cumprimenta Evandro, Gustavo agradece a Deus por ter se mantido fiel àquele “assassino”. Ele nunca soube exatamente o que seu cliente fazia, após a ameaça, preferiu nunca perguntar, porém, com os atuais acontecimentos, ele suspeita realmente de que Evandro sabe algo sobre os cadáveres ambulantes que estão por toda parte.

Evandro já freqüentava a oficina mecânica de Gustavo a um ano, quando Joel, seu funcionário, encontrou várias marcas de sangue no porta-malas do policial. A partir desse ocorrido, Gustavo começou a cuidar pessoalmente do carro de Evandro após o expdiente, para que mais nenhum funcionário se envolvesse com aquilo.

O policial sempre foi um cliente sinistro. O mecânico o considerava “muito mafioso”, o que era assustador. Porém o mais grotesco aconteceu após um ano e meio de clientela.

– Joaquim, arruma essa calça! – disse Gustavo para um de seus subordinados – Os clientes não precisam ficar vendo seu cofre.

– Desculpe, senhor Gustavo. – Joaquim respondeu rindo enquanto arrumava sua calça.

– Você não sabe mesmo porque Joel faltou hoje? Ele nunca faltou sem avisar. – perguntou Gustavo sem deixar sua preocupação acabar com seu bom humor.

– Não sei não, senhor Gustavo. Talvez a mãe dele teve que ser internada de novo. – respondeu Joaquim parando o que estava fazendo para olhar para o seu chefe.

– Mmm. Pode ser. Vou ligar para ele e ver se está tudo bem. – comenta Gustavo.

Ele continuou observando o que seus mecânicos estavam fazendo, e depois retornou para o escritório a fim de ligar para Joel e resolver as questões burocráticas de compras de peças para a oficina. Sua oficina havia crescido nos dez anos de funcionamento, “Minhas duas filhas estão crescendo bonitas e saudáveis”, dizia ele se referindo a sua oficina e sua filha Sofia, mas ainda assim, sua prioridade no momento era saber como estava Joel.

Gustavo sempre teve muita consideração por seus funcionários. O bem estar deles era sua prioridade, sem hipocrisia, pois ele não dizia isso, não fazia propagandas de seu “bom coração”, mas as pessoas sabiam; ainda mais aqueles que conviviam diariamente com ele. Sua preocupação era sincera e aumentava a cada tentativa de telefonema frustrada. O telefone tocava e tocava e ninguém atendia.

Ocupado com as ligações e devaneios a respeito do que poderia estar acontecendo com Joel, ele não ouviu Evandro se aproximar da porta.

– Gustavo? – o chamou suavemente.

O mecânico deu um pulo na cadeira. Aquele homem lhe causava arrepios. Ele era a causa de suas más noites de sono e daquela frase sobre as duas filhas ter deixado de fazer sentido.

– Senhor Evandro. – Gustavo foi cumprimentar Evandro tentando não demonstrar o incomodo – Como o senhor está?

– Ótimo. – respondeu secamente – Estou com pressa, portanto tome a chave e cuide bem do meu carro.

Gustavo ficou perplexo, pegou a chave e demorou a dizer algo olhando o para o objeto que estava em sua mão. Quando foi se despedir, Evandro já havia partido. Sem demora Gustavo foi limpar o exterior do veículo e fazer o check-up completo, deixando para limpar o interior depois do expediente.

Quando todos os seus mecânicos foram embora e sua mulher e filha estavam assistindo tv, ele abriu o porta-mala da blazer e iniciou a limpeza interna de trás para frente, a fim de tirar qualquer cheiro “esquisito” que tivesse impregnado o veículo, mas para sua surpresa, ele percebeu que talvez a fonte daquele cheiro não havia sido retirada da pick-up.

No porta-malas havia uma caixa marrom. Por estar sem cadeado, Gustavo pensou que sua suposição estaria errada. Ele limpou as manchas de sangue da caixa e resolveu abri-la para limpar dentro, mas aquela foi a maior idiotice que ele fez em sua vida. Dentro da caixa havia um cadáver mutilado com sua cabeça em cima das outras partes, como se tivesse sido posta para encarar quem ousasse abrir a caixa.

Gustavo vomitou pelo menos umas cinco vezes seguidas, tentando não fazer muito barulho para que Carla não resolvesse ver o que estava acontecendo. A impressão que ele teve foi de que o rosto era de alguém conhecido e aquilo o incomodou ainda mais. Assim que conseguiu se recuperar, o mecânico olhou novamente para o rosto do cadáver e fechou rapidamente a caixa, horrorizado.

– Joel… – se lamentou enquanto pegava um cadeado para trancar a caixa. Ele assim o fez, deixando a chave no porta-luvas da blazer.

Suas emoções eram um misto de angústia, raiva e medo. Mesmo sentindo a miscelânea de sensações, Gustavo prosseguiu com seu trabalho com lágrimas nos olhos e foi tentar dormir, mas não conseguiu. Ele rolou de um lado para o outro da cama, fazendo com que Carla o expulsa-se para o sofá, já que ele tentou ao máximo esconder o verdadeiro motivo da insônia para ela.

Assim que ele abriu a oficina na manhã seguinte, Evandro já estava aguardando para pegar seu veículo. Gustavo não falou nada, nem mesmo o cumprimentou, apenas o levou até o escritório para entregar a chave. Ele queria falar para o policial que ele era um monstro e que desistia de tê-lo como cliente, que não queria ser seu cúmplice, mas ao mesmo tempo tinha medo. E se ele tivesse matado Joel justamente por ele ter visto o sangue em seu porta-mala? E se ele falasse algo que fizesse Evandro querer descontar em sua família? Essa confusão o estava corroendo.

Evandro pegou a chave e virou-se.

– Evandro? – Gustavo chamou sua atenção com uma voz carregada – Gostaria de conversar com você.

O policial olhou para ele, mas não demonstrou nenhuma surpresa. Aquilo parecia premeditado. “Será que ele deixou o cadáver para que eu o visse?”, se perguntou Gustavo.

– Seja breve. Tenho que fazer uma entrega de material. – disse Evandro secamente.

– Eu não quero mais participar disso. – respondeu Gustavo, controlando seu desespero – Vi o “material” que você tem para entregar, e ele era meu amigo. Como você pôde… – ele dá uma breve pausa – Não quero mais ser seu cúmplice.

O olhar de Evandro tornou-se ainda mais frio e agressivo.

– Espero que não esteja pensando em fazer besteira. – ameaça Evandro o encarando.

– Não. Não vou falar com ninguém, apenas não quero mais participar. – retrucou Gustavo quase gaguejando.

– Ele não era mais seu empregado, nem mesmo estava entre nós. Eu não mato nada que já não esteja morto. – disse com a voz fria, fazendo Gustavo engolir em seco ao escutar aquelas enigmáticas palavras – E acredite: me ajudar será benéfico para você e para sua família. – aconselhou o policial, fazendo Gustavo tremer ainda mais ao perceber a ameaça escondida naquelas palavras.

Ele não conseguiu dizer mais nada. O policial o cumprimentou e partiu.

Na época Gustavo não havia entendido. Agora, descendo da fiorino na garagem da casa de Evandro, sabendo o que tem lá fora, Gustavo não sente mais aquele medo e arrepio que sentia, na verdade, ele se sente mais seguro em sua presença.

– Cadê sua filha? – pergunta Evandro amigavelmente.

– Morreu. Foi pega por um “deles”. – respondeu Gustavo com pesar.

– Uma pena. – respondeu Evandro.

Gustavo queria lhe perguntar o que havia acontecido com Joel, mas preferiu não fazê-lo. Sua suspeita de que Evandro sabe sobre o que está acontecendo não é uma certeza, e ele prefere manter essa sensação de segurança que não sentia desde que tudo começou. Infelizmente essa segurança não o conforta completamente, pois junto com a sensação, está a tristeza da culpa pelo que ocorreu com Sofia.

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