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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 3)

            – Por Lolth. – Mirka escuta Sabal Dyrr comentar enquanto vê Stongest desativando mais uma armadilha física virtualmente invisível com extrema perícia.

            A pequena kobold apenas olha sorrindo em direção a clériga, enquanto essa observa pasma refletindo sobre todas as habilidades que o pequeno e robusto meio-goblin demonstrou.

            – Ele é o Guardião, afinal de contas. – diz Mirka ainda sorrindo chamando a atenção da espantada clériga.

            – É. – concorda a clériga sem saber mais o que dizer.

            Tanto Sabal quanto Mirka sabem que se Stongest não estivesse na batalha contra os orcs, havia grande probabilidade do grupo estar morto. Stongest é extremamente habilidoso com seus machados, em se esconder e se camuflar no ambiente, em desarmar e provavelmente armar armadilhas, em escalar e se esquivar.

            – Como alguém tão habilidoso passou despercebido tanto tempo no Braeryn? – pergunta a drow à sua pequena companheira.

            – O Guardião não busca a fama. Ele existe para proteger a deusa e a Fé que temos em seus ensinamentos. – responde Mirka com extrema certeza na veracidade de sua resposta.

            Sabal apenas sorri e dá uma olhada ao seu redor, para ver como andam as coisas. Ela vê Gromsh de vigília atrás do grupo, enquanto Mirka fica ao seu lado e Stongest a frente desarma e encontra armadilhas. A clériga volta a olhar para a kobold enquanto se poem a pensar a respeito do que a pequena havia acabado de dizer e um estalo surge em seus pensamentos:

            – Stongest existe desde que Lolth era uma criança, correto? – pergunta a clériga curiosa.

            – Não, Senhora. – responde a kobold sorrindo enquanto Sabal alivia sua suspeita – Na verdade desde antes dela encarnar.

            Os olhos de Sabal se arregalam. “Não tinha parado para pensar nisso”, constata mentalmente Sabal. Stongest é mais velho que a pseudo-deusa, sendo que, aparentemente, a Lolth herege é um pouco mais velha que ela.

            – O que foi, Senhora? – pergunta Mirka arrumando seu manto.

            – Nada. Apenas não havia parado para pensar em como o guardião é velho. Não me recordo de nenhum goblin viver por tanto tempo. – comenta Sabal enquanto Mirka se dispara a rir o mais discretamente que ela consegue.

            – Que foi Mirka? – pergunta a clériga.

            – Me desculpe, Senhora. Acho engraçado você ver o Guardião em padrões mortais. Ele não é um goblin. – responde Mirka com a cabeça baixa em sinal de respeito.

            – É. Havia me esquecido. – responde Sabal impressionada com a fé, não Fé, que a pequena kobold possui por Stongest.

            – O que vocês estão falando? – Stongest se inclui na conversa.

            – Não há mais armadilhas? – pergunta Sabal olhando analiticamente para o rosto de Stongest.

            – Não nessa á’ea. Vamos passa’ po’ out’as ‘unas. – responde Stongest se sentindo incomodado com o olhar da clériga.

            – Vamos. – concorda a clériga – Mas antes gostaria de ter uma conversa com você Stongest.

            O meio-goblin levanta uma de suas sobracelhas.

            – Mirka, você poderia nos deixar à sós por um tempo? – pergunta a clériga à kobold.

            – Sim, Senhora. – responde Mirka sorrindo e se afastando para junto de Gromsh.

            Quando a pequena kobold está em uma distancia considerável dentro do limite em que eles podem se locomover, Sabal volta a se dirigir a Stongest em baixo-drow e quase sussurrando:

            – Você é muito hábil Stongest. Muito mais hábil do que a maioria dos drows que eu conheci. Me diga a verdade: como você conseguiu não ser conhecido dentro do Braeryn?

            Stongest olha nos olhos da clériga.

            – Sabal, esse assunto é inútil. – responde secamente o guardião.

            A clériga sente sua face rubresser, mas não desiste:

            – Quero saber quem te treinou? Onde você nasceu? Quem são seus pais? Um goblin não vive tanto tempo quanto você está vivo. Seu pai ou sua mãe, algum deles, possuía algum tipo de longevidade.

            – P’a que você que’ sabe’ disso, Sabal? – pergunta o guardião desconfiado.

            – Preciso saber a respeito das capacidades de meus companheiros. Afinal sei que Gromsh fazia parte de um exército gnoll antes de ser capturado como escravo. Sei que Mirka era uma kobold acolita de um mago humano discípulo de um dragão. – diz a clériga olhando firmemente nos olhos do meio-goblin – Mas sobre você não sei nada. Não sei como lhe encaixar nas minhas estratégias. É complicado liderar aqueles que nem mesmo eu conheço as habilidades.

            O olhar de Stongest ganha um ar de surpresa, ele ainda não havia visto uma drow se desabafar de forma tão sincera a respeito de alguma fraqueza. Sabal continua analisando o rosto do meio-goblin, principalmente os traços ovalados de seus olhos, quando esse responde incomodado novamente com o olhar da clériga:

            – Você não p’ecisa sabe’ o que eu posso faze’. Quando eu p’ecisa’ faze’, eu faço.

            O meio-goblin vira as costas para a clériga e caminha em direção à próxima armadilha. Sabendo que não conseguirá tirar nada a respeito da história do guardião, Sabal tenta suavizar o final da conversa:

            – Então apenas me diga, como você consegue viver por tanto tempo? Não é normal de sua raça.

            – Eu tenho sangue elfico. – responde o guardião com desdém.

            Sabal ri.

            – Mirka. Gromsh. Vamos continuar. – comanda a clériga.

            O grupo caminha em direção a próxima runa. Sabal continua sorrindo pela resposta dada por Stongest, mas logo seu sorriso se desfaz. “Olhos ovalados”, constata ela com seus olhos vermelhos arregalados.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 1)

            Já fazia algum tempo que Sabal Dyrr não se envolvia em um confronto físico. Ela se sente um pouco enferrujada, mas nada que a atrapalhe, afinal, em nenhum momento deixou de treinar as técnicas de combate que seu falecido mentor Mariv a ensinou.

            Sua morningstar atinge a cabeça de mais um orc, que cai com a fratura em seu crânio exposta e com seu corpo tremendo devido à eletricidade que o percorre. Esse é o segundo dos dois oponentes com os quais lutava. Ela dá mais uma olhada ao redor para ver como estão seus companheiros. Todos estão lutando o máximo que conseguem, mas para alguns isso não é suficiente. Dois dos três goblins já estão mortos enquanto Reshna e Mirka são as únicas kobolds vivas. Gromsh está lutando habilmente com seu halbert, já Stongest só é visto no momento exato em que um orc cai morto com um grande ferimento aberto pelo machado do meio-goblin.

            Faz pouquíssimo tempo que eles chegaram na passagem descoberta por Quiri. Após Mirka ter relido seu grimório e descansado o suficiente, eles partiram da barraca do culto e adentraram a viela dos orcs. Lá encontram várias barracas destruídas e algumas patrulhas drows montadas em seus lagartos. Não houve grandes dificuldades de passarem por eles e tomarem o rumo para a entrada da caverna que os orcs aparentemente estavam utilizando para fugirem. Mirka utilizou algumas de suas magias para distrair e atrapalhar a percepção dos patrulheiros, enquanto eles, o mais furtivamente possível, continuavam seu caminho.

            Ao chegarem próximos às barracas que continuavam inteiras eles viram o corpo decapitado de uma humana gorda e extremamente suja. Olhando de relance, eles não souberam dizer se os orcs haviam feito aquilo, mas quando Stongest olhou mais detalhadamente ele percebeu que o corte era preciso e que a perfuração no peito da humana havia atingido magistralmente o coração.

            Com certeza não foram orcs, constataram eles. Havia algo acontecendo naquele local e isso poderia atrapalhar tudo. Sem perder tempo eles ultrapassaram algumas barracas e adentraram em um grande lixão de um aparente beco. Com um pouco de trabalho eles abriram passagem entre os lixos e encontraram um buraco pequeno pelo qual poderiam entrar.

            – É essa a passagem. – disse Stongest sussurrando – Ela é pequena pa’a que d’ows, due’ga’s, gnolls, até mesmo o’cs tenham que abaixa’ pa’a ent’a’. Assim os gua’das podem decapita’ o int’uso antes de qualque’ reação.

            Mesmo que esse fosse o intento do tamanho da passagem, havia uma vantagem para o grupo de Sabal: apenas ela e Gromsh eram grandes os suficientes para terem que abaixar. Sem perder tempo Stongest simplesmente sumiu da vista de todos e adentrou o local. Logo que isso ocorreu, Mirka utilizou magias de invisibilidade para tornar o resto do grupo invisível. Gromsh preferiu que ela não utilizasse nele, pois iria usar o anel para se camuflar e sua furtividade para se tornar virtualmente invisível. Mirka trocou olhares com Sabal e essa permitiu que assim fosse.

            Estava tudo perfeito. Eles adentraram o local e passaram os dois guardas; realmente, a estratégia que Stognest havia dito que era usada era verdadeira. A caverna em si era um túnel largo e alto. Sabal por não conhecer muito de formações rochosas, não sabia dizer se aquilo era natural, mas Stongest com certeza saberia. Após caminharem por um pequeno tempo no túnel eles viram uma reunião de orcs. Haviam pelo menos oito supostos guerreiros e três supostos magos.

            A situação se tornou ainda mais delicada. Se algo desse errado, eles teriam grandes problemas. Quando o grupo dos pequenos – os que tinham mais chances de estragarem segundo Sabal – passou pelos orcs, Sabal sorriu vitoriosa, quando de repente, para total decepção da clériga, Gromsh acabou tropeçando e chamando a atenção dos magos.

            A reação foi óbvia: um dos magos conjurou uma magia para revelar seres invisíveis. Percebendo que a entrada furtiva já havia falhado, Sabal atacou um dos guerreiros próximos, tendo em mente que Stongest e Mirka dariam cabo dos magos. Ela não se decepcionou dessa vez, Stongest atacou rápida e mortalmente um mago que estava preparando uma magia, enquanto Mirka atingiu seus mísseis mágicos naquele que havia feito a magia para revelar o invisível. Inspirados no guardião e na kobold maga, os outros pequenos atacaram todos ao mesmo tempo o mago que faltava, não dando chances de reação.

            A luta começou. Enquanto Sabal enfrentava dois guerreiros, Stongest eliminava facilmente o mago que Mirka havia atingido com seus misseis mágicos. Enquanto isso dois guerreiros enfrentavam os cinco pequenos e Mirka. Sabal não conseguia ver a situação de Gromsh, mas pela rápida reação de Stongest indo em direção de onde o gnoll se encontrava, algo nada bom estava ocorrendo.

            O foco de sua atenção passou a ser os dois guerreiros que ela estava enfrentando e apenas depois de matar o segundo que a clériga conseguiu olhar a batalha ao seu redor.

            – Mirka! Reshna! Fiquem perto de mim! – grita Sabal às duas kobolds.

            Reshna atinge mais uma flecha de sua besta no peito do único orc que sobreviveu aos seis pequenos e pede para Mirka ir para junto da clériga antes dela. Mirka fica indecisa, mas entende que Reshna seria mais hábil em atrapalhar a atenção do orc do que ela; talvez suas magias fossem mais úteis mais a frente.

            Sabal caminha para ficar um pouco mais perto das duas, mas logo se vira para enfrentar mais um orc. Pelo que havia reparado o orc que a está atacando é um dos guardas que veio em auxílio do grupo. O primeiro golpe é feito pelo orc, mas Sabal consegue defender habilmente com seu escudo. Logo o orc desfere um segundo golpe em sua direção, mais um bloqueio bem sucedido é feito, porém dessa vez ela encosta o escudo em seu corpo e utiliza a posição para dar um encontrão no orc, que perde o equilíbrio e cai no chão. Em suas costas Sabal escuta Mirka recitando algumas palavras arcanas enquanto Reshna grita. A clériga sente um estranho aperto em seu coração ao escutar o grito da kobold, mas ignora e prossegue em sua luta.

            Quando o orc está para se levantar Sabal o atinge com sua morningstar no seu ombro. O orc se contorce de dor ao sentir seu ombro se dilacerando e a eletricidade fluindo por seus músculos. Sem perder tempo a clériga esfacela o rosto do orc com um golpe extremamente brutal e logo se vira para ver o orc que havia matado Reshna.

            A clériga sente Mirka tocar em sua perna. Ela havia matado o orc que matou sua irmã de raça com alguma magia, mas outro orc já estava vindo na direção das duas. Sabal se posicionou para proteger a kobold, mas foi desnecessário, pois Stongest surgiu pelas costas do adversário e o atingiu mortalmente com seus dois machados na região dos rins.

            “Estávamos sendo vigiados”, rosna Stongest para Sabal enquanto essa observa para ver se mais algum orc estava vivo.

            “Estávamos? Já foi embora?”, pergunta a clériga na mesma linguagem, fazendo sinal a Gromsh para que esse se aproximasse dela.

            “Sim”, responde com um rosnado breve o meio-goblin enquanto a clériga saca sua varinha de cura para utilizar no gnoll que está com um grande ferimento causado por um dos machados dos orcs.

            “Então não podemos perder mais tempo. Precisamos ir”, rosna a clériga logo após ter dito as palavras de ativação da varinha e tocado o gnoll.

            – Brigado, Senhora. – agradece Gromsh.

            “Não sem antes fazer um pequeno ritual de homenagem aos nossos irmãos mortos”, retruca Stongest em rosnados, pegando os corpos dos cultistas de Lolth mortos e enfileirando-os.

            Sabal pensa em retrucar sobre a inutilidade daquele ato, mas percebe que não seria muito inteligente de sua parte, já que Gromsh e Mirka estão próximos.

            – Não se preocupe Stongest, eu farei um ritual em homenagem a eles. Enquanto isso você poderia acompanhar Gromsh mais a frente, para ver o que nos espera. – diz em tom baixo a clériga, enquanto retira seu punhal de aranha da sua piwafwi.

            Stongest e Gromsh partem, enquanto Mirka e Sabal fazem as orações e o ritual de arrancar o coração de seus irmãos e despejar o sangue no ídolo de Lolth, que está na bagagem da clériga.

            Após o termino do ritual Stongest e Gromsh retornam:

            – Sabal e Mi’ka, venham com nós. Encont’amos algo. – diz o guardião.

            – Antes vamos dar uma olhada no que esses orcs possuem e vamos dividir os alimentos que nossos irmãos carregavam. – responde Sabal enquanto Stongest faz um aceno positivo com a cabeça.

            Os alimentos são divididos enquanto Gromsh fiscaliza os orcs mortos.

            – Encontrei uns amuletos aqui. – diz Gromsh rindo – Será que são mágicos Mirka?

            Mirka recita algumas poucas palavras mágicas enquanto gesticula com suas pequenas mãos. Ela olha para os amuletos que o gnoll está segurando e depois de uma tempo diz:

            – São sim. Guarde eles, Gromsh.

            Após a divisão de alimentos e a coleta de amuletos, eles caminham mais a diante no túnel, onde uma oração em abissal está escrita na parede.

            – Palavras de poder. – diz a clériga.

            Mirka utiliza mais uma vez sua magia para detectar aura mágica e diz logo em seguida:

            – Runas mágicas. Parece que é uma armadilha.

            – Que pode estar tendo seu poder ampliado pelas oração a um demônio chamado Shormongur. – complementa a clériga.

            Stongest apenas observa o túnel mais adiante enquanto as duas conversam.

            – Você conseguiria desativá-las Mirka? – pergunta a clériga.

            – Consigo, mas não sei se é a melhor opção, Senhora. Afinal eu posso acabar ficando sem magias quando for realmente necessário. – responde a kobold humildemente.

            – Tem alguma outra idéia? – pergunta Sabal.

            – Quero analisar os amuletos antes, se a Senhora permitir. – responde a pequena kobold recebendo um aceno positivo com a cabeça por parte da clériga.

            – Deixem que eu cuido das a’madilhas físicas. – diz Stongest pegando as duas de surpresa.

            – Como? – pergunta Sabal sem entender direito.

            – Há a’madilhas físicas também além das mágicas. Deixem que eu desa’mo elas. – responde o meio-goblin como se dissesse o óbvio.

            – Que merda. Tô me sentindo tão inútil. – comenta Gromsh sentando no chão e encostando-se ao muro cabisbaixo.

            Mirka ri, enquanto Sabal apenas sorri e Stongest continua observando a passagem em busca de mais armadilhas.

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