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Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 2 (Parte 3)

Enquanto limpa seu próprio corpo, Lolth observa a grande tatuagem violeta de aranha que contorna seu tórax. Quando ela era apenas uma adolescente, alguns dias após a sua segunda grande missão de treinamento, aquela tatuagem foi feita, utilizando-se veneno de aranhas-gigantes, tinta violeta extraída de alguns cogumelos que crescem em regiões mais próximas da superfície, pedaço de bambu e agulha. Atualmente a tatuagem não lhe causa desconforto, mas na época ela adoeceu por causa de infecção e efeitos do veneno, aos quais aos poucos seu corpo aprendeu a resistir.

Foi essa tatuagem que não permitiu que ela se deitasse mais uma vez com aquele Vaeruniano que a atraiu tanto. Tocando a aranha violeta, Lolth agradece, pois graças a ela que a fraqueza não a atingiu e a paixão por aquele que lhe deu os últimos ensinamentos sobre assassinatos não foi adiante, mesmo que esse romance tenha gerado um filho. Graças a essa tatuagem, a Quelícera está em sua posse.

Sorrindo, Lolth termina de se banhar e sai da banheira de madeira caminhando leve e sedutoramente em direção a sua roupa. Sua maneira de andar é natural e hipnotizante. Mesmo quando não há ninguém para vê-la, é assim que ela se move. Sem pressa ela se veste ainda relembrando do que ocorreu anos atrás. “Onde estará meu filho?” se pergunta com uma certa sensação de perda em seu peito, mas logo ela deixa com que esse pensamento e essa sensação se desfaçam, afinal ela é Lolth, e esse tipo de emoção não condiz com a deusa dos drows, dos assassinos, do Caos e da astúcia; o poder nada mais é que uma conseqüência de todos os outros aspectos.

Ela termina de se vestir, pega a Quelícera e parte em direção ao discreto templo que fizeram em sua homenagem no Braeryn para encontrar sua mãe. Vishnara Do’Urden já está extremamente velha e Lolth sabe que não poderá deixar sua mãe morrer de velhice, não é uma morte digna. Além disso, Vishnara ainda possui ensinamentos finais para passar à sua filha.

Enquanto Lolth e Stongest estavam fora de Menzoberranzan, treinando e se aventurando pela superfície, Vishnara levantava o discreto templo em sua homenagem no Braeryn com a ajuda daqueles escravos que estavam dispostos a servir a deusa. Atualmente o número de seguidores cresceu, mesmo ainda sendo pequeno. Vishnara sabia como convencer os outros, sabia como seduzi-los com promessas. Ela ainda tinha o que ensinar para Lolth.

Lolth possui uma beleza ímpar, com seus delicados contornos, magnífico rosto, de lábios finos mas extremamente bem desenhados, olhos magenta e cabelos de um branco tão puro quanto a neve recém caída na superfície. Ela compreendia que sua aparência agradava a muitos e que sua forma de agir e lidar com outros os faziam se apaixonar. Lolth utiliza isso de forma majestosa, porém, ainda assim, ela não tinha muita capacidade de persuasão. Não sabia como convencer outros seres sem recorrer à sedução carnal. Isso sempre foi uma complicação, pois nem todas as raças sentem atração pelos drows. Alguns indivíduos possuem uma repulsa tão grande pelos elfos negros que nem mesmo conseguem reconhecer sua beleza. Vishnara poderia ensiná-la a ser persuasiva sem necessitar apelar para sua aparência.

Chegando ao templo, Lolth encontra sua mãe deitada em algumas almofadas organizadas como uma grande cama em um dos cantos do templo, próxima ao altar onde se encontra o trono da deusa. Vishnara não mais consegue se mover sem auxílio, isso é extremamente vergonhoso para um drow. Lolth não sente vergonha de sua mãe, mas sabe o quanto essa sente de si mesma.

A jovem drow caminha em direção a velha, que a observa encantada com o que criou até agora. Era a deusa que vinha em sua direção, não sua filha. Não aquela que ela havia educado, mas sim toda a personificação do Caos, da Astúcia e do Poder. Vishnara sorri: hoje ela se juntará a sua deusa.

– Mãe, aqui estou para ter com você os últimos ensinamentos. – diz Lolth ajoelhando-se próxima a cabeça da drow moribunda, para sussurrar em seu ouvido.

– Minha deusa… não me trate como mãe… Fiz apenas o que a senhora… me designou a criando e… educando. – com muito esforço a velha responde com uma voz fraca e asmática.

– Ainda não personifiquei tudo que deveria personificar, mãe…

– Já lhe disse… não me chame mais de mãe… Chame-me de filha. – interrompe Vishnara com um tom mais severo.

– Sim filha. Prefere se comunicar através de sinais? Seu pulmão e sua voz não mais possuem o vigor que possuíam antes.

Vishnara sorri e concorda com um aceno de cabeça.

– Vishnara Do’Urden, o que mais você tem a me ensinar? O que mais preciso saber para realmente me tornar a deusa que sou?

Os olhos insanos da velha drow encaram o rosto da jovem deusa, que em nenhum momento se sente desconfortável e a encara de volta.

“Há mais alguns poucos ensinamentos que preciso lhe passar, minha Senhora. Não muitos, pois apenas em sua vida você os aprenderá de verdade” responde Vishnara, que ainda possui uma grande firmeza e destreza com as mãos.

– O que seria minha… filha? Por acaso você irá me ensinar maneiras de convencer os outros sem ter de utilizar minha aparência? – pergunta Lolth incerta.

“Não. Selvetarm lhe ensinará isso da maneira correta.”, responde Vishnara. Lolth sabe que quando sua velha mãe fala de Selvetarm, o Campeão de Lolth, ela está se referindo a Stongest, o meio-goblin-meio-algo que lhe protege e lhe ensinou os princípios da furtividade e da enganação. “Eu irei lhe passar apenas um último ensinamento de como você deve gerar a fé em você”.

Lolth a observa com uma certa apreensão por não compreender de antemão o que sua maior clériga quer dizer. Em muitos momentos Vishnara se mostra uma pessoa incompreensível, alguém que realmente encarnou o Caos como princípio de todas as coisas. Muitos a vêem como louca, mas Lolth sabe que aquela “loucura” é sua sabedoria. Muitas de suas atitudes são imprevisíveis, porém, quando chega o momento dela passar ensinamentos para sua filha-deusa, toda sua loucura se manifesta em sua forma verdadeira de sabedoria plena.

“Nunca ninguém irá lhe servir de forma correta se buscar em ti a salvação ou danação. Ninguém nunca irá ser uma verdadeira portadora da fé em ti se não se tornar àquilo que você representa. Um deus nada mais é do que a representação de princípios, se seus seguidores apenas louvarem você como uma entidade eles nunca irão incorporar o que você é e apenas esperarão retorno por sua lealdade e fé. Apenas quando seus seguidores se tornarem seus aspectos, se tornarem você, apenas nesse momento é que eles realmente serão seus filhos e filhas” Vishnara se interrompe por alguns instantes, como se tivesse parado para refletir. Lolth espera que ela continue seu discurso, mas o tempo passa e nada vem.

– Mãe? Digo, filha?

– Que bom que você está aqui… Chegou há muito tempo? – pergunta Vishnara olhando para Lolth como se tivesse saído de seu Reverie nesse exato momento.

– Tempo suficiente. Mas fale comigo através de sinais, é melhor para seu pulmão. – responde Lolth sorrindo.

Vishnara sorri. “Veio levar essa sua fiel serva, Senhora das Aranhas?”. Lolth percebe que chegou o momento que, em seu íntimo, estava querendo evitar.

– Sim, minha filha. – responde Lolth colocando a mão embaixo do travesseiro da velha drow, retirando um punhal na forma de uma aranha, onde as oito patas se estendem em uma direção formando a lâmina. O tradicional punhal de sacrifício.

Os olhos de Vishnara brilham de estase. “Você fica ainda mais bela carregando sua Quelícera”, diz a velha drow tocando no sabre que a jovem está carregando. Silenciando por um tempo e observando o sabre, Vishnara retoma: “Eu me juntarei a você?”.

– Você nunca deixou de ser parte de mim. – respirando fundo, Lolth crava o punhal na garganta de sua velha mãe. O sangue jorra, mas não a atinge.

Com a habilidade de um cirurgião, Lolth desce o afiado punhal até a altura do coração. Mesmo sentindo uma certa tristeza, a jovem drow coloca sua mão através do buraco aberto e retira o coração de sua mãe. Cortando qualquer nervo e artérias com o punhal ela abre o coração no meio e toma o sangue que escorre, sem se sujar em um momento sequer.

– Não há diferença entre você e o Caos.

Lolth guarda o punhal de sua falecida mãe, que agora lhe pertence. Pega o broche da Casa Do’Urden, que não mais terá utilidade para sua falecida mentora e se levanta para sair a procura Selvetarm. Balançando a cabeça ela se corrige: Stongest.

Uma aranha negra caminha pelo corpo de Vishnara Do’Urden.

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 2 (Parte 1)

Os anos em Arach-Tinilith passaram-se rápidos. Para surpresa de muitos, Sabal não sofreu tanto quanto acreditavam – ou desejavam – que sofreria. Sua força em muitos momentos fora testada enquanto se preparava para tornar-se uma clériga de Lolth. Em todas as ocasiões ela surpreendeu aqueles que a testaram.

Pelo máximo que suas atitudes parecessem fracas – sem o aparente senso de superioridade com o qual todos os drows, especialmente as mulheres, eram educados a ter – continham uma surpreendente força que deram vantagens a Sabal. Ninguém sabia o que esperar dela. Ninguém conseguia conceber o quanto aquelas características que a faziam parecer crédula, gentil e humilde, eram suas reais armas até que fosse tarde demais.

A nova clériga da Casa Agrach Dyrr, retornou ao seio de sua família considerada madura em termos de idade, já com seus vinte anos. Porém, suas irmãs e mãe continuavam subestimando-a. Acreditavam que fora pura sorte ela ter voltado de Arach-Tinilith sem nenhuma seqüela. Além de ter sido uma grande surpresa perceberem que Sabal mantinha seus hábitos em relação aos machos e aos escravos mesmo após tantos anos de treinamento como clériga de Lolth. “Uma vergonha para nossa Casa”, era o que pensava Nasshna Dyrr, mãe de Sabal.

Após ter retornado a sua Casa ela foi testada por suas irmãs e as derrotou na mais pura e simples intimidação. Os conflitos entre elas não chegavam ao confronto físico, pois Sabal sabia como fazer com que sua força fluísse através de seu olhar. Na maioria das vezes, as irmãs desistiam de qualquer investida, saindo pela tangente com desculpas diferentes em cada momento. A nova clériga conquistou aos poucos seu lugar de respeito, porém, sempre que possível, seus familiares a ignoravam. “Assim é melhor”, Sabal acreditava piamente nisso.

Em seis anos após seu retorno a Casa Agrach Dyrr, Sabal acabou descobrindo por parte dos machos que confiavam nela, como realmente funcionava a hierarquia Dyrr; o que lhe causou uma grande decepção. Em primeiro momento ela passou a ver a Matrona Ysraena Dyrr como uma fraca que deveria perder seu lugar, mesmo que fosse ela quem tivesse de usurpar o trono da Matrona. Com o tempo esse pensamento passou a mudar em sua mente. Ela sabia o quanto o Velho Dyrr era poderoso e o quanto a Casa devia a ele sua posição na hierarquia de Menzoberranzan. Mesmo assim era inviável para ela que esse quadro não mudasse. Após vários meses de planejamento Sabal foi tocada pelo desânimo e pela vergonha e resolveu que chegara a hora de deixar sua Casa no momento em que viu uma aranha negra descer pelo seu broche. Esse era o sacrifício que Lolth esperava dela, “tudo faz sentido agora”.

O que ela não sabia é que talvez sua dedução não estava completamente correta. Quando essa conclusão chegou em sua mente, as maquinações de suas irmãs e de sua mãe contra sua vida já estavam para ser postas em prática. Sabal estava em seu quarto arrumando suas coisas, vestindo sua armadura e pegando suas armas, – a mornigstar e seu grande escudo -, quando seu espaço foi invadido por um demônio menor, provavelmente invocado para acabar com sua vida ou enfraquecê-la o suficiente para que outro finalizasse o serviço. Esse adversário lhe deu trabalho, mas não o suficiente. Logo ela reconheceu que aquilo não havia sido invocado por uma clériga, mas por algum mago da família. Com o seu prestígio junto aos machos da Casa, não foi difícil que ela encontrasse o dono da artimanha e retirasse dele as informações que a levariam a sua mãe e suas irmãs.

Como se previsse a atitude da filha, Nasshna Dyrr e suas outras duas filhas se prepararam junto com alguns escravos em um dos cômodos do palácio. Sabal foi de encontro a elas para tirar satisfações e não estava se importando com o que teria de fazer, pois estava para deixar a Segunda Grande Casa de Menzoberranzan.

Ao chegar no local onde sua mãe se encontrava, Sabal percebeu estar em uma situação desvantajosa. O local estava com pelo menos dez goblins armados com bestas e dois minotauros carregando machados, além de suas irmãs e mãe com suas respectivas maças.

– Creio que chegou o fim para a vergonha que você me causa. – disse Nasshna brevemente – Sua morte virá pelas mãos daqueles que você considera seus iguais.

Com uma risada zombeteira, Nasshna ordenou um ataque a sua filha, que não ocorreu. Surpresa ela olhou para os escravos que demonstraram medo, porém algo os colocou em dúvida. Sabal reconheceu pelo menos quatro daqueles goblins e um daqueles minotauros e sabia que eles possuíam uma dívida para com ela. Nesses seis anos ela havia praticado todos os deveres de uma clériga de Lolth. Havia feito sacrifícios à deusa, porém sempre que possível ela conversava com os escravos e futuros sacrifícios a respeito. Fazia com que eles vissem a glória daquele ato, a glória de serem sacrificados para a grande deusa dos drows. Aqueles que ela percebia não terem compreendido, viviam por mais alguns dias, até compreenderem minimamente que seu destino era inevitável e se entregassem a Lolth em seus últimos momentos. Muitos dos escravos viam uma nobreza por parte da clériga que não viam em outras, e a respeitavam por isso.

– O que você faz é um sacrilégio! O medo é nossa maior arma, suavizá-lo vai contra os ensinamentos de Lolth – diziam suas irmãs clérigas, apenas para escutar a resposta seca de Sabal.

– É Lolth quem deve me julgar.

Percebendo que os escravos não atacariam, as irmãs de Sabal resolveram atacá-la, mas rapidamente foram executadas pelos goblins que as atingiram com uma grande quantidade de flechas. Nasshna tentou não demonstrar seu medo ao ver que a tática de sua filha havia sido mais eficaz que a sua de incitar medo nos escravos e iniciou orações para invocar os poderes da deusa. Porém, antes de conseguir completar as magias, os minotauros a atacaram e a mutilaram sem muitos esforços.

Sabendo que sua situação estava complicada, Sabal convenceu os escravos de que precisaria da ajuda deles para poder fugir com vida. Esses prontamente aceitaram fazer o que fosse preciso para ajudá-la. Como se estivessem preparados para que algo não corresse como planejado, os guerreiros que seguiam ordens diretas de Nasshna tentaram interceptar a fuga de Sabal, mas foram contidos pelos escravos que a acompanhavam em uma luta feroz. Todos os escravos morreram, porém não sem dar baixas no grupo de guerreiros. O tempo dessa luta foi suficiente para que ela alcançasse uma das saídas do palácio. As notícias se espalharam e um grupo de busca foi feito para caçar a desertora. A Matrona Ysraena não deu tanta importancia para o acontecimento, pois era uma menina estúpida que deixava a Casa Agrach Dyrr, o que resultou em poucos participantes na busca. O principal era Mariv que, conhecendo bem Sabal, sabia por onde ela iria e como evitar os escravos.

No momento em que Sabal está para deixar o palácio, Mariv a intercepta:

– Sabal, desista. Não há porquê você continuar com isso. Se você sobreviver a essa fuga estará arruinada socialmente. Pare e pense, vale a pena se rebelar contra sua própria Casa? – apontando seu sabre para a clériga de Lolth da Segunda Grande Casa de Menzoberranzan o guerreiro demonstra seu respeito apenas não a olhando diretamente nos olhos.

– Mariv abaixe essa espada. Posso não mais ter uma Casa, mas continuo sendo uma clériga de Lolth. – o guerreiro abaixa o sabre – Ótimo. Agora podemos conversar.

Abaixando a cabeça em sinal de vergonha o guerreiro espera algum castigo vindo da clériga, mas nada acontece. Então com uma voz baixa e respeitosa ele diz:

– Senhora, não faça isso. Morra nas mãos de seus familiares, é menos vergonhoso do que se tornar uma sem-Casa.

Sabal Dyrr toca o ombro daquele que lhe ensinou a manejar a morningstar e sente uma leve tremida, algo natural vindo de um macho. Falando suavemente ela tenta confortá-lo.

– Me escute Mariv, nossa Casa se corrompeu. Você não vê que quem a comanda é o velho Dyrr? Não há glória nenhuma em eu morrer como uma Dyrr e muito menos em viver como uma. Deixe-me ir. É o que Lolth quer.

O guerreiro levanta a cabeça vagarosamente. Espantado com a atitude da clériga, mas logo ele lembra o porquê Sabal era tão desdenhada por suas irmãs e o espanto passa. A afeição que ele sente por ela é muito grande, o que o incomoda. Ela não é muito bonita para os padrões dos drows. Sem a armadura ela se confundiria facilmente em uma multidão em Mezobenranzan. Mas ela sempre foi o que os povos da superfície chamam de “simpática”. Sempre tratou os outros de uma forma que a tornava fraca diante dos olhos das irmãs, mas nenhuma nunca conseguiu provar sua fraqueza. Na verdade muitas clérigas já provaram sua força e muitos guerreiros já caíram diante sua morningstar.

– Não posso deixá-la ir. Seu argumento é forte, mas não posso deixar de lado o que nossa Matrona me ordenou. Sinto muito. – por um momento Mariv fraqueja e abaixa a cabeça em sinal de vergonha novamente, o que é suficiente para que sua cabeça seja atingida pelo peso da arma de Sabal.

Mariv sente seu corpo se contorcer involutariamente devido à eletricidade conduzida pela arma e cai atordoado tateando o chão para encontrar seu sabre. Quando sua mão toca o cabo do sabre ele escuta a voz amigável da clériga.

– Eu também sinto muito, Mariv. – e um forte golpe dilacera a face do guerreiro que cai morto no chão com seu corpo tremendo.

Sabal Dyrr observa o cadáver do guerreiro e pensa no único lugar que pode lhe abrigar nesse momento: o Braeryn

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 1 (Parte 4)

O cheiro forte daquele ser era nauseante. Ela já o havia seduzido o suficiente, não era muito difícil de prever o que aquele tipo de criatura iria fazer. A jovem drow se afasta do corpulento orc caolho que se aproxima sedento por satisfazer seus desejos. “Não posso ter medo. Isso só atrapalha”, pensa a pequena drow enquanto procura seu sabre com o canto dos olhos. Sorrindo de forma sedutora ela prossegue suas artimanhas.

– Hey, vai com calma. Eu já sou sua. – seu olhar provocante atinge o único olho funcional do orc que se atiça, principalmente quando toca de forma provocante seu próprio corpo nu.

– Não! Eu quero! Quero agora! – rapidamente o orc dá o bote e mesmo com sua grande agilidade a Drow não consegue escapar a tempo. “Burra! Você sabia que ele iria fazer isso, por que foi tão mole?” ela se repreende enquanto tenta se desvencilhar do forte abraço do orc.

Não teria sido difícil esse trabalho para a jovem, mas a falta de experiência se mostrou muito presente em sua tática. Ele é um guerreiro de Grumsh, o deus fétido dos orcs e estava pretendendo unir sua raça – que vive como escravos no Braeryn – para se rebelarem e formarem uma comunidade nas cavernas do Underdark. Era seu dever e obrigação impedi-los. Ela sabia que se algum tipo de rebelião fosse feita, chamaria a atenção das grandes Casas de Menzoberranzan para o sujo distrito dos parias e seu culto poderia ser descoberto. Sua mãe sempre disse para ela ser o mais discreta possível, porque os drows ainda não estavam preparados para o reinado que se formaria, e poderiam ser um grande empecilho em seus objetivos divinos. Mas para impedir aquela possível rebelião a melhor forma seria eliminar seu líder. Sabendo que em combate direto ela não teria a menor chance, preferiu apelar para suas melhores habilidades, sedução e assassinato. Conseguiu seduzi-lo, mas deixou seu nojo e medo atrapalharem no principal momento da investida.

Lamentando-se, a drow sente os braços do corpulento orc a espremerem contra seu peito. O nojo percorre seu corpo e ela cospe em sua cara. O orc gargalha enquanto, sem afrouxar o abraço, começa a deslizar uma de suas mãos pelo corpo da drow.

Controlando-se para não entrar em pânico, a jovem apenas tenta afastar a boca do orc de seu rosto. Mas esse é muito mais forte e quando se aproxima a larga com um berro gutural. Rapidamente a pequena se recupera e percebe a flecha de besta cravada naquele que era o único olho bom da criatura. Sem perder a chance ela encontra seu sabre com o canto dos olhos e pula para agarrá-lo, desferindo um ataque mortalmente preciso logo em seguida.

Com seu rim, pancreas e estomago perfurado pelo ataque da Drow, o orc cai agonizando até sentir a lamina do sabre deslizando em seu pescoço e desfalecer não muito tempo depois banhado em seu próprio sangue.

– Tome mais cuidado da p’óxima vez. Você é uma deusa. Não é pa’a te’ medo. – diz o seu guardião goblin surgindo das sombras.

“Burra, burra, burra!”. Extremamente decepcionada consigo mesma a drow pega sua roupa no chão e começa a se vestir com o rosto emburrado.

– Foi um pequeno deslize. – responde ela tentando tornar sua falha mais branda, por máximo que não acreditasse que isso seria possível.

– Que pode’ía custá sua vida. – retruca seu guardião como um professor dando uma lição. – Sua mãe qué falá com você.

– Ela estava assistindo? – nesse momento a drow perde sua feição emburrada, dando lugar a uma feição arrependida e amedrontada. – Ela vai achar que estou sendo fraca para o que sou. Talvez ache que criou a criança errada.

– O que sua mãe vai achá ou não eu não sei, mas você tá deixando o medo lhe tomá novamente. Você é uma deusa Lolth! Aja como uma!

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 1 (Parte 3)

Ainda estupefato Sol’al tenta diminuir sua euforia através de práticas respiratórias para finalmente poder descansar. Nunca esse mago drow havia ficado tão maravilhado e contente quanto naquele dia. Há muito que o jovem Sol’al queria ver um drider livre pessoalmente.

Mesmo sendo de uma Casa menor, ele conseguiu ingressar em Sorcere e lá estava já há dois anos. Em todo esse tempo ele procurava em tomos e pergaminhos algo sobre esses amaldiçoados drows, que lhe trouxesse algum novo conhecimento ainda não possuído por sua Casa.

Toda a sociedade drow sempre ostracisou esses seres como aberrações e exemplos da incapacidade de alguns de servir sua própria deusa. Porém a maldição que Lolth impunha àqueles que não foram capazes de passar em seu misterioso teste, tinha um outro significado aos olhos do jovem mago: poder.

Muitos estudos mostravam que os driders se tornavam fisicamente mais fortes e muitas vezes mais hábeis no trato com magias do que os drows não “amaldiçoados”. Sua Casa, – a Casa Teken’th’tlar -, sempre estudou todas as espécies conhecidas de aracnídeos e de criaturas que possuíam algum parentesco com eles. Sua curiosidade por driders vem desde a infância, antes de ser aceito no Sorcere. Sabia como eles eram. Conhecia bem sua ecologia, sua forma de sobrevivência, sua fisiologia, suas forças e fraquezas, mas não era suficiente, ele queria mais. Até aquele dia, nunca havia visto um pessoalmente e isso, – ele acreditava -, poderia trazer muitas compreensões que livro algum traria.

Como um dos ajudantes e aprendizes do Mestre Orghz Q’Xorlarrin, Sol’al acompanhou-o em uma expedição para conseguir materiais raros e importantes ao uso de magias de Conjuração e principalmente para magia estudadas por Arachnomantes. O Mestre Q’Xorlarrin, desde o começo do aprendizado do jovem, se interessou por ele graças ao seu grande empenho em buscar conhecimento sobre os aracnídeos e tudo aquilo que se envolvia com esses seres, o que facilitou para que Sol’al conseguisse convencer seu Mestre para poder viajar junto.

No dia em que sua expedição começou, o jovem mago estava muito nervoso. Ele sabia que a área na qual os ingredientes dos feitiços se encontravam era possivelmente habitada por um drider. A viagem até o local também seria bastante perigosa, pois o caminho atravessava um grande enxame de mantos negros. Entre os viajantes havia apenas um guerreiro e vários aprendizes.

Ao entrar em Sorcere, Sol’al optou por aprender magias das escolas de Conjuração, Encantamento e Evocação, escolas que o ajudariam a lidar com aracnídeos especificamente e a se defender em casos de extrema necessidade. Seus pequenos conhecimentos nessas áreas somados ao seu conhecimento sobre driders acabaram por ajudar em seu argumento do porquê seria positivo para o Mestre deixá-lo ir junto.

A viagem, como previsto havia sido árdua. Sol’al mostrou sua eficiência e desejo de auxiliar o Mestre Q’Xorlarrin muitas vezes durante a expedição. Em um desses momentos que o experiente mago chamou o jovem de lado e aconselhou severamente:

– Não demonstre demais suas capacidades, jovem. Isso acaba tornando suas fraquezas evidentes demais.

Com certeza o jovem Teken’th’tlar aprendeu muito nesse período. Muito mais do que aprenderia apenas vendo um drider aprisionado em uma grade, pois quando eles chegaram na área habitada pelo drow amaldiçoado, não demorou muito para que um dos aprendizes menos experientes chamasse a atenção da aberração que atacou o grupo com velocidade e presteza imensas. Muitos morreram, antes que o Mestre Q’Xorlarrin conseguisse conter o drider, que paralizado nada podia fazer enquanto os drows saqueavam seus tesouros e colhiam os ingredientes necessários.

– Mestre Q’Xorlarrin, por que o senhor não mata esse monstro de uma vez? Não é perigoso mantê-lo paralisado apenas? – perguntou o único guerreiro que acompanhava a expedição.

O experiente mago não demonstrou sequer irritação pela audácia do guerreiro por questioná-lo e respondeu brevemente:

– Meu aprendiz tirará muito mais proveito desse monstro vivo. – e logo em seguida olhou para Sol’al, que de princípio ficou sem saber como agir, até que ao perceber o olhar do Mestre se tornando severo, se aproximou da aberração e começou a estudá-lo. – Ajude-o se ele precisar de algo, guerreiro. – finalizou o Mestre.

Sol’al estava muito tenso, mas vasculhou todas as partes do corpo do Drider. Observou a espessura de sua carapaça, a constituição da parte drow de seu corpo e por fim pediu para que o guerreiro abrisse o monstro para estudos internos. Mesmo isso tendo sido pedido na frente do drider esse nem mesmo demonstrou receio, seu olhar demonstrava apenas o mesmo ódio.

O retorno a Menzoberranzan foi bem mais calmo que a ida, o que não quer dizer muita coisa tendo em mente o que ocorreu na viagem. Porém ninguém mais morreu. Assim que Sol’al chegou em seu alojamento passou a escrever compulsivamente tudo o que havia aprendido.

Agora, respirando calmamente, Sol’al consegue acalmar sua euforia. Ele se posiciona em sua almofada ao chão e entra em Reverie. Suas anotações já estão feitas, e, agora que seu coração agitado se acalmou, só resta descansar.

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 1 (Parte 2)

– Você sabe que sua mãe e suas irmãs não confiam em sua força, Senhora Sabal. Não acreditam que você durará mais que um mês no Arach-Tinilith. Isso não te preocupa? – um forte guerreiro drow se dirige a uma jovem fêmea que parece absorta em pensamentos enquanto observa o presente que acabou de receber.

Ainda de joelhos no chão, sem tirar os olhos dos pés de Sabal e percebendo que a resposta não viria ele prossegue:

– Senhora, acredito que seja mais correto que treine formas de esconder aquilo que consideram ser suas fraquezas. Eu lhe ensinei bastante a respeito de combate e da utilização de certas armas, mas não seria capaz de lhe ensinar algo extremamente importante para nossa raça: astúcia.

Sabal, mesmo ainda sendo muito jovem, demonstra total compreensão a respeito do que o guerreiro de sua casa está tentando lhe dizer. Em seu íntimo ela sente uma pitada de orgulho ferido por um macho estar lhe dando conselhos, logo, em sua mente, surgem imagens das variadas formas de castigá-lo. Porém, ela opta por sua forma habitual de agir.

– Meu querido Mariv. Eu sei o que pensam ou deixam de pensar sobre mim, mas prefiro manter minha postura. – ela toca no queixo do guerreiro e ergue seu rosto para que ele a encare – Sendo amigável com os machos e escravos, consigo mais respeito e poder do que muitas dentro de nossa Casa, não concorda?

Mariv tenta desvencilhar do toque de Sabal para desviar o olhar de seu rosto. Mas não consegue. Percebendo que ela faz questão de encará-lo cara a cara, ele apenas fecha os olhos. Nesse momento o guerreiro sente a aproximação da morte. Aos poucos ele abre os olhos e se depara com os olhos vermelhos de Sabal Dyrr, futura clériga de Lolth. Seu corpo treme involuntariamente. “Como posso ter medo dela?” se pergunta surpreso o guerreiro “Como posso ter medo de uma fêmea tão…” as palavras fogem de sua mente, “amigável” soa muito estranho para um drow. Não conseguindo encará-la, seus olhos passeiam pelo rosto da jovem. Para os padrões drow, Sabal possui apenas uma aparência comum, se confundiria facilmente em uma multidão em Mezoberranzan, mas seu jeito de tratar os outros e de agir, – mesmo não sendo sensual -, atrai eficazmente os machos e aqueles de raça inferior; o que gera grande inveja em algumas fêmeas, que preferem considerá-la fraca por suas atitudes. Mariv reconhece isso, mas não consegue se desfazer da teia de confiança e amizade na qual foi o primeiro a ser preso. Sabendo que esses conceitos não pertencem ao seu povo, a muito ele se pergunta: “Até quando?”.

– Você já me ensinou algo muito importante Mariv: nunca depender de nada e ninguém. Eu vou sobreviver. – diz a fêmea finalizando a conversa e beijando Mariv na testa.

Com o corpo ainda abalado, o guerreiro a cumprimenta respeitosamente à distância e se retira do recinto. “Insolente” diz Sabal para ela mesma enquanto se prepara psicologicamente para sua mudança. Em poucos dias ela mudará de sua casa para o Arach-Tinilith e começará a ser treinada oficialmente como clériga; aquilo que sempre quis.

Em suas reflexões a jovem Dyrr se habitua aos pensamentos que devem dirigir suas ações. “O poder tem várias formas”, essa frase resume sua visão da deusa. “Se depender de algo que não sejam minhas habilidades e conhecimentos, nunca poderei servir a deusa com todo meu potencial”. Sabal Dyrr olha para a morningstar que Mariv lhe deu de presente e a observa por alguns instantes. “Engraçado minhas irmãs me acharem fraca por eu tratar escravos e machos como iguais, com suas experiências deveriam saber que tratar não é a mesma coisa que se considerar”, com um sorriso no rosto Sabal se dirige até a sua arma e a embrulha. Checando para ver se ninguém mais estava por perto ou no recinto, a drow desloca uma discreta pedra no canto de seu quarto revelando um buraco onde ela guarda a arma. “Melhor assim. Me subestimem o quanto puderem”. Ainda sorrindo, Sabal se levanta e com suas coisas sai do quarto em direção ao seu destino.

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 1 (Parte I)

Azirel Sel’Xarann fazia parte de uma família de mercadores de Menzoberranzan, mas há muito tempo deixou sua casa e seus deveres de lado, unindo-se a um mestre para se tornar um eremita nas cavernas do Underdark. Por muito tempo ele caminhou pelos gloriosos túneis subterrâneos de Faerun junto a seu mestre e posteriormente sozinho. Visitou várias das maravilhosas cidades drows, mas nenhuma se comparou a sua cidade natal. Mesmo assim, fez alianças fortes com vários mercenários, aceitando uma ou outra oferta de trabalho. Entre esses mercenários os Bregan D’Aerthe estavam no topo de sua estima.

Seus dias de andanças e explorações acabaram quando ele percebeu que havia se desenvolvido muito suas técnicas de combate e comunhão com a sinistra natureza do Underdark, e não havia ninguém para quem ele pudesse passar toda sabedoria e técnica de sua linhagem. Esses pensamentos o perturbaram por muito tempo, mas o destino reservou a ele surpresas agradáveis até demais para um drow não desconfiar.

O experiente Sel’Xarann ainda se encontra impressionado com o que ocorrera. Sem conseguir esconder toda a sua satisfação – que surge sempre que observa seu discípulo – ele reflete sobre até que ponto não está demonstrando fraqueza. Por mais que nunca tenha sido um drow muito religioso, sua ligação com Lolth é forte, afinal de contas seu maior companheiro é um macho de Aranha-Espada. Ele sabe que para muitos drows a afeição pelo seu discípulo seria uma demonstração de imensa fraqueza, mas em suas reflexões as razões para tal satisfação eram sim a manifestação de sua devoção à deusa. Ele conhecia muitos segredos do Underdark e técnicas sombrias de combate que muitos guerreiros nem mesmo sonhariam em aprender. Azirel estava apenas servindo Lolth fazendo com que esses conhecimentos não se perdessem quando sua vida chegasse ao fim. Afinal de contas, foi ela que o entregou de forma simbólica quando seu discípulo ainda era um bebê.

“Como você teve sorte”, pensa Azirel enquanto sorri lembrando do momento em que Vazmaghor, sua Aranha-Espada, encontrou o bebê preso nas teias de uma Aranha-Enorme nas proximidades de Menzoberranzan. Mesmo sendo um macho, Vazmaghor é de uma espécie de aranha superior ao da fêmea que ameaçava a criança. O primeiro impulso da Aranha-Espada não era “salvar” o bebê, muito pelo contrário, porém seu companheiro assim exigiu. Foi necessário que Vazmaghor matasse a fêmea para que pudesse levar de lá aquela pequena criança. Uma heresia, mas Azirel Sel’Xarann sabia que Lolth estava envolvida em toda a trama que salvou aquela vida. Aquele acontecimento tinha um propósito e ele tem certeza que está de acordo com os misteriosos desejos da deusa. Caso não, ele é um dos maiores hereges de Menzoberranzan.

Esticando seus braços para o alto como se os alongassem, o eremita deixa com que aqueles pensamentos e lembranças se desfaçam e volta a observar seu jovem discípulo que se exercita dedicadamente.

– Alak! Por hoje é o suficiente. Descanse um pouco e depois vá buscar água para nós.

O jovem o olha e se inclina respeitosamente.

– Sim, meu senhor. – se endireitando rapidamente e partindo para buscar água para seu mestre.

Quando seu discípulo parte, Sel’Xarann adentra sua cabana e pega em sua trouxa um pequeno broche que foi encontrado há pouco tempo no mesmo lugar que encontrou seu discípulo. Olhando profundamente o broche, como se sentisse tristeza, Azirel Sel’Xarann sai da cabana e coloca o objeto no chão.

“Infelizmente você nunca poderá saber de que Casa você veio Alak. Pelo menos nunca saberá por mim”, concentrando-se no broche e sacando rapidamente sua espada, o eremita desfere um poderoso golpe que corta o objeto ao meio. Pegando as duas parte do chão, ele as joga fora, em lugares distantes uma da outra. Quando retorna a seu acampamento, Alak já se encontra com a água.

– Onde você estava mestre? – pergunta o jovem curioso.

– Me purificando.

Outcasts – Livro I: Párias – Prelúdio

Vishnara Do’Urden observa o único goblin robusto e com orelhas tão compridas que ela viu em toda sua longa vida. Há muito tempo que ela deixou sua Casa de lado, dada como louca e digna de piada, caminhou pelos lugares onde sua deusa havia lhe dito para ir.  Há pouco que está morando onde o lixo mora. Seus pensamentos estam todos embaralhados. De forma alguma ela lembra como aquela criança fora parar em seus braços, mas sabe quem ela é. As coisas ainda estão confusas, mas há duas certezas além da identidade da criança: ela deve criá-la e para isso necessita de um protetor para a mesma.

Com dificuldade a velha Drow se aproxima do goblin, que a olha com profunda desconfiança.

– A quem você serve goblin?

O rosto da criatura parece se distorcer com desdém ao escutar a pergunta.

– Ninguém. Fui pego pa’ se esc’avo, mas não se’vi’ía ninguém que eu não achasse digno ou que não pagasse bem.

A velha sorri.

– E como você conseguiu manter sua liberdade estando em Menzoberranzan?

– Não sou cova’de feito os out’os da minha ‘aça. Sei me vi’á sozinho. – responde o goblin tocando o cabo de um dos machados que ficam em suas costas.

A velha solta uma gargalhada esganiçada que atrai a atenção de alguns outros escravos que se encontram pelas ruas imundas do Braeryn. O goblin se sente incomodado e olha de forma agressiva para a velha Drow.

– Você me agrada. – ri comicamente – Agora responda jovem goblin: você serviria uma deusa? – diz a Drow mudando imediatamente sua feição cômica para uma olhar extremamente sério.

Para o goblin aquela velha não parece um exemplo de sanidade. Ele a olha com uma desconfiança ainda maior e a encara por algum tempo antes de responder. Percebe o quanto o olhar dela reflete algo caótico em seu espírito, isso o hipnotiza por alguns instantes até que ele balança a cabeça para desfazer o pequeno transe no qual entrou e retoma a conversa de onde parou – não importando quanto tempo ele tenha ficado parado encarando o olhar da Drow.

–  Po’ que uma deusa i’ía que’e’ meus se’viços?

– Pois você carrega um de seus aspectos. – a resposta causa ainda mais estranhamento no goblin, mas a velha prossegue – A astúcia, o caos, o poder, a escuridão. Ela nasceu e necessita de um protetor enquanto está nessa forma frágil de bebê.

A velha descobre, em seu braço, aquilo que parecia um pacote para o goblin e esse vê um lindo bebê Drow, que o encanta de uma maneira que ele nunca acreditou que fosse possível. Sentindo um calafrio o goblin olha nos olhos insanos da Drow que emitem um sinistro brilho malicioso.

– Me responda goblin! Você serviria Lolth?

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