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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 1)

            A boca do túnel possui alguns poucos vestígios de teias proporcionais às feitas por grandes aranhas. Olhando rapidamente, Sabal não reconhece de pronto qual tipo de aranha teceu aquelas teias, mas sabe que já faz um tempo considerável pela quantidade de poeira e danos. “Aparentemente não é nenhuma armadilha”, pensa a clériga ainda analisando o local.

            Foi bastante trabalhoso para o grupo de Sabal alcançar o túnel no qual se encontram. Stongest teve que auxiliá-la e a Mirka, pois a distância era considerável, além de o trajeto ser perigoso. Esse foi um dos túneis em que não havia orcs, mas logo ao lado desse – a uns cinco metros de distância – são visíveis os corpos de dois orcs queimados. A distância de onde se encontram e do túnel ao qual se encontravam é de aproximadamente vinte metros, supoz Sabal no momento em que partiram para a escalada. Além do fator distância, havia também o fator altura, que dificultou muito. Os túneis da imensa caverna não eram simétricos, suas alturas eram variadas e para alcançar esse túnel eles tiveram que descer ao mesmo tempo em que se deslocavam de lado pela parede. Por mais difícil que tenha sido, todos eles – Mirka, Gromsh, Stongest e a própria Sabal com sua armadura completa – alcançaram o local desejado.

            “Se forem teias do filho da Do’Urden, seria interessante que descobríssemos qual tipo de aranha forma seu corpo”, reflete Sabal, enquanto observa o interior da caverna. As teias diminuem em quantidade, mas um ou outro vestígio é encontrado. Stongest está um pouco mais a frente, tentando encontrar marcas de alguma criatura que possa estar vivendo ou tenha passado por aquele túnel. Mirka está próxima a Sabal, apenas observando as paredes em busca de runas ou palavras de poder. Já Gromsh, está mais próximo da boca do túnel vigiando qualquer movimentação na imensa caverna.

            – Pelo que pa’ece os o’cs passam po’ aqui com uma ce’ta f’eqüência. – diz Stongest, quebrando o silêncio – Não sou um expe’t em p’ocu’a’ ‘ast’os, mesmo assim consegui encont’a’ alguns.

            Stongest aponta para algumas marcas que estão no chão próximo a eles. Sabal para de observar as teias e se aproxima do meio’goblin.

            – Talvez po’ isso, não há nenhuma a’madilha física po’ aqui. – comenta o pequeno robusto.

            – Então creio que precisamos acelerar nossos passos, ficarmos mais atentos e preparados para nos escondermos a qualquer momento. – diz Sabal, observando atentamente as marcas que, como seu próprio companheiro lhe disse, estão bem óbvias – Talvez estejamos próximos de algum acampamento dos orcs fugitivos de Menzoberranzan.

            – Além disso, há o out’o g’upo. Eles sabem que estamos p’oximos. Como te disse, conve’sei com eles um pouco antes de pa’timos de nosso túnel. – diz Stongest, chamando Gromsh e Mirka com um breve grunhido.

            Um pouco antes de Mirka acordar e após a breve conversa que Stongest teve com Sabal, a clériga sabia que o meio-goblin-meio-algo havia feito uma breve visita ao outro grupo e conversado com um tal de Alak; o mesmo que já os tinha bisbilhotado. Segundo pareceu, os Xorlarrin a princípio estavam atrás do “culto herege de Lolth”, mas haviam “alterado seus planos”. Stongest disse que o tal Alak não pareceu ser de uma Casa nobre e sim tinha um quê de mercenário, o que já era um ponto positivo para Sabal. Além disso, entre eles havia um ogro mago, que como eles já supunham antes, poderia ser um escravo ou um mercenário. Em qualquer uma das opções, era uma vantagem que Sabal poderia aproveitar. Portanto, Sabal não está tão preocupada com o outro grupo como Stongest aparenta estar, pois para ela os orcs são uma preocupação mais imediata.

            – De qualquer forma temos que partir. Mirka, o túnel está seguro magicamente? – pergunta Sabal para a pequena kobold, que já está ao seu lado.

            – Não encontrei nenhuma runa ou inscrição, Senhora. Creio que o local esteja seguro. – responde a kobold confiante, porém Sabal percebe um leve ar de preocupação em seu olhar.

            – Algum problema, Mirka? – pergunta a clériga brandamente, enquanto Stongest e Gromsh começam a caminhar pelo túnel.

            Mirka fica em silêncio por um tempo olhando para o rosto da clériga, que faz sinal para que as duas comecem a caminhar.

            – Suspeitas, minha Senhora. – responde timidamente a kobold, enquanto caminha voltando seu olhar para o chão.

            – Que tipo de suspeitas?

            – Estou com uma sensação estranha. Preocupada com que tipo de criatura possa ter feito esses túneis. – responde Mirka, demonstrando receio em sua voz.

            – Alguma opinião a respeito, Mirka? – Sabal não esconde em nenhum momento sua curiosidade, pois sabe que Mirka deve ser levada a sério.

            – Pode ter sido aquilo que está no lago. Aquela sombra que vimos quando estávamos escalando para esse túnel. – responde Mirka, ponderando sobre suas palavras – Você percebeu como aquela caverna se assemelha a um ovo colossal?

            Sabal levanta uma de suas sobrancelhas e encara Mirka, que está com feições preocupadas. A kobold troca olhares com sua clériga enquanto caminham.

            Caminhando em silêncio, ambas refletem sobre aquilo. “Um ovo”, pensa Sabal. Gromsh prossegue na frente e Stongest diminui seus passos para ficar um pouco mais próximo das duas mulheres do grupo.

            “Conversem nessa linguagem, acho que estamos sendo espionados novamente”, diz o guardião na língua de grunhidos própria do culto.

            Nem Sabal nem Mirka fazem menção dele ter falado com elas e nem mesmo demonstram curiosidade em ver quem está seguindo-os. Mirka olha novamente para Sabal por uns instantes e volta a encarar a frente do caminho.

            “Um ovo colossal. Com uma gema e um imenso ‘filhote de dragão’ descansando em seu centro”, descreve Mirka toda sua impressão sobre o local. Sabal visualiza a caverna e realmente enxerga o mesmo ovo que Mirka descreveu e depois grunhe confirmando a suspeita da kobold. Sabal sente o desejo de prosseguir com a conversa, mas um novo aviso de Stongest sobre um espião a faz adiar a concretização de sua vontade.

            “Alak está aqui”, o rosnado do guardião é extremamente discreto, como um leve ronronar. Se eles não estivessem tão distantes da boca do túnel como estão, talvez a clériga não tivesse ouvido.

            Sabal discretamente respira fundo e pergunta levemente:

            – Então veio se juntar a nós?

            Nenhuma resposta é dada. Sabal sorri e, com o auxílio de um breve ronronar de Stontgest, dizendo onde o drow se encontra, ela mira um breve olhar no local e volta a dirigir sua atenção à sua frente.

            – Não seja tímido, Alak. Como Stongest já lhe disse: nós íamos nos encontrar novamente. – comenta Sabal, tranqüilamente.

            Uma voz sussurrante é escutada vindo de pelo menos quatro metros atrás deles.

            – Você sabe que não vim me juntar a vocês. – responde Alak, tentando não demonstrar frustração em sua voz por ter sido encontrado.

            – Sei, mas espero também que não tenha vindo tentar nos matar. – diz Sabal, mantendo tranqüilidade na voz.

            – Não, mesmo que me mandassem para isso.

            Um pequeno silêncio toma conta do local até Sabal retomar a conversa:

            – Por que está nos seguindo, então?

            – Porque foi isso que minha contratante me pediu. Tudo isso está muito confuso. Minha única curiosidade é saber o que está acontecendo nesse local. – responde Alak, surpreso consigo mesmo por estar tão falante na presença da clériga.

            Em nenhum momento o grupo para de se locomover. Sabal apenas sorri e olha discretamente mais uma vez na direção do mercenário.

            – Algo que os Xorlarrin temem. – blefa Sabal, tendo em mente apenas o que sabe a respeito das fugas dos orcs.

            – Mas o que seria? – pergunta Alak, mantendo o mesmo tom de voz desde o início da conversa.

            Sabal faz menção de iniciar a resposta, mas logo Stongest a interrompe com breves grunhidos avisando que mais um está seguindo o grupo. Outro drow. Sabal volta sua atenção para frente novamente apenas dizendo suavemente:

            – Acho que não confiam tanto em você. Parece que você tem companhia.

            Alak não responde, apenas olha para trás tentando encontrar alguém, mas não encontra nada. Suspeitando que seja o Xorlarrin, prefere ficar em silêncio, fingindo ainda não ter sido descoberto.

            A ex-clériga Dyrr continua tranqüila em seu caminho, pois sabe que o guardião dificilmente é pego de surpresa. Gromsh para mais a frente e, sabendo que estão sendo seguidos – por ter escutado os avisos de Stongest e parte da conversa de Sabal -, fala como se nada estivesse acontecendo, para não levantar suspeita sobre o conhecimento do grupo a respeito dos espiões.

            – Chegamo num ponto delicado, Senhora. – diz o gnoll, olhando na direção da clériga, que aperta um pouco o passo para ver sobre o que seu companheiro está falando.

            Chegando perto do gnoll, a clériga se depara com a boca de um túnel que acaba em uma pequena caverna, após um degrau causado por uma leve depressão. No chão dessa pequena caverna há um tapete de teia, enquanto no teto há alguns casúlos pendurados e nas paredes duas bocas de túneis: uma adiante e uma ao lado direito da caverna.

            – É. Acho que encontramos o ninho do filho de Lolth. – comenta a clériga.

            Stongest e Mirka se aproximam. Ambos começam a analisar o local, enquanto Sabal apenas observa e reflete. Gromsh aguça seus ouvidos, como se tivesse escutado algum som estranho.

            E quanto a Alak… Esse apenas se espanta e se pergunta: “Filho de Lolth?”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 3)

            Sentada e posicionada para iniciar uma meditação, Sabal Dyrr aguça seus sentidos e escuta alguns mínimos e discretos sons que denunciam o embate que está ocorrendo fora do túnel onde se encontra. A sua frente, a pequena kobold Mirka dorme tranqüila, com um leve sorriso no rosto, como se não houvesse motivo para nenhuma preocupação. “Como ela consegue?”, se pergunta a clériga olhando abismada para o rosto da kobold. O Underdark é um lugar extremamente hostil e perigoso, é inviável, na mente da clériga, que alguém que viva nos subterrâneos de Faêrun consiga dormir de forma tranqüíla e relaxada como Mirka dorme. Uma ou outra vez ela já testemunhou Gromsh e alguns dos falecidos pequenos também dormindo da mesma forma. Já Stongest, mesmo quando está dormindo não parece estar dormindo. Porém, o que lhe espanta necessariamente no caso de Mirka e de alguns outros pequenos, é que ela é uma kobold.

            “Eles são tão fracos”, ela comenta consigo enquanto recorda que os kobolds costumam viver em bandos coesos, justamente por não possuírem muita força individual. Ao contrário dos drows, os kobolds tiveram séculos de cultura enraizada na importância do grupo. Um kobold sozinho é praticamente ignorável, mas um grupo de kobolds é algo respeitável e em algumas situações temível. “Esses merdinhas não são nenhuma preocupação se não estiverem em um número maior que dez”, Sabal se recorda exatamente das palavras de Mariv, seu antigo professor em combate. “Talvez ela não saiba os riscos que corre no Underdark”, supõe a clériga, enquanto continua a observar a pequena kobold.

            Os traços de Mirka não se diferem muito dos de outros kobolds, mas a pequena maga está quase sempre encapuzada. Essa é uma das poucas vezes que a clériga consegue observar a companheirinha com o capuz deslocado enquanto dorme. O focinho repitiliano termina com um pequeno sorriso e as pontas de vários pequenos e afiados dentes aparecem por quase toda a extensão de sua boca. Sabal realmente não vê nenhuma cicatriz ou marca de combate em Mirka, parece realmente que essa nunca teve que enfrentar um desafio muito grande. “Será que se ela estivesse para ser sacrificada em um altar em homenagem a Lolth, ela conseguiria manter esse sorriso?”, se pergunta a clériga sem tirar os olhos de sua companheira.

            Refletindo a respeito de sua própria pergunta, Sabal acabaria respondendo para si: “Não”, se um momento de surpresa não a impedisse. Próximo da parte descoberta da nuca de Mirka Sabal vê a extremidade de uma pequena cicatriz. Cuidadosamente a clériga começa a retirar o capuz da kobold e percebe que essa cicatriz se extende até o centro da nuca. Pelo capuz ter sido deslocado ainda mais, parte do pescoço de Mirka aparece e Sabal percebe outras extremidades de cicatrizes. Aparentemente a cicatriz da nuca foi causada por algum impacto, talvez uma queda ou um golpe de maça. Mas o pequeno trecho da cicatriz do pescoço lhe mostra que Mirka já sofreu algumas queimaduras e cortes também. Pelo que parece a pequena kobold não é tão pouco vivida quanto parecia.

            “Certo. Então supondo que seu sorriso se mantivesse em um momento extremamente doloroso ou aterrorizante. Por que? Como? Não faz sentido estar tão seguro a ponto de não se preocupar com nada do que ocorre com você”, a mente de Sabal entra em um turbilhão de confusão e assombro. Ela recobre Mirka, que em nenhum momento acordou sobressaltada ou fez menção de se sentir incomodada, e aos poucos se posiciona de maneira confortável para poder meditar. Sabal já havia retirado o peitoral de sua armadura e ficado apenas com sua piwafwi.

            “Quero entender o que está ocorrendo. Pelo máximo que tudo pareça fazer algum sentido, de repente não faz mais”, comenta Sabal, inquieta. Ela fecha os olhos, tentando colocar a preocupação de estar em um ambiente hostil de lado para poder meditar e refletir de maneira profunda. Sim, sempre que um drow vai meditar ele está em um ambiente hostil, afinal que ambiente em toda Toril é mais hostil que uma grande metrópole drow? Porém, mesmo sabendo disso, Sabal sabe que cada drow constrói alguma espécie de santuário onde tem privacidade e proteção – mágica ou física – para poder refletir e resolver seus assuntos sem maiores preocupações. Sabal mesmo tinha seu pequeno santuário protegido por magias divinas em seu quarto no palácio Dyrr, mas no momento Lolth continua em silêncio e nem mesmo um pequeno santuário é possível de ser feito. A clériga está em território inimigo, onde os orcs que eles enfrentaram no início do túnel dominam, ou dão a entender isso.

            Respirando profundamente e deixando o ar sair lentamente de seus pulmões, Sabal coloca a maioria dessas preocupações de lado e aos poucos vai se preparando para meditar. Ela repete esse processo respiratório mais cinco vezes até estar pronta para iniciar sua meditação analítica a respeito do assunto que lhe deixa inquieta no momento: qual a influência da Do’Urden sobre seus fiéis? Da mesma forma que os kobolds são seres extremamente grupais, os drows são seres individualistas que, mesmo possuindo uma sociedade bem estruturada, maquinam uns contra os outros em busca de poder e prestígio. Não há um conceito a respeito de “amizade”, “companheirismo” e coisas do gênero entre eles. Da mesma forma, muitos kobolds agem com uma espécie de mentalidade grupal que parece não separar um dos outros. Mas desde que entrou no culto herege, Sabal passou ainda mais a entender o conceito de companheiro, da importância de um grupo. Antes ela agia amigavelmente por interesses próprios, agora não tem mais tanta certeza. “Será que ocorreu algo assim com Mirka?”, se pergunta horrorizada por pensar que Lolth, ou melhor, a Do’Urden foi capaz de fazer com que Mirka deixasse o extremo grupal e equilibrasse esse lado com o individualismo que propõe a própria filosofia do culto: somos todos um e em um estamos todos.

            Até onde Sabal conhece Mirka, essa foi criada e se relacionou com vários outros kobolds. A pequena companheira era acolita de um humano, discípulo de um dragão. Ela e sua “matilha” viviam com esse humano e seu mestre dracônico. Eles eram responsáveis por preparar armadilhas e cavar túneis bem estruturados para o covil de ambos, e em troca o mago humano e o dragão lhes davam proteção. Mirka se tornou acolita do humano pois demonstrou grandes capacidades intelectuais em relação aos seus outros companheiros. “Isso já é algo digno de respeito em uma kobold”, comenta Sabal, enquanto visualiza o pouco que conhece da história da Mirka.

            Pelas conversas que teve com a kobold a respeito disso, ela descobriu que Mirka estava junto com seu mentor humano e mais vinte kobolds em uma missão nos subterrâneos quando fora capturada. O mestre draconico deles havia lhes ordenado para buscar um artefato que lhe pertencera e fora roubado por trogloditas que viviam nos túneis do Underdark. Pelo menos isso era o que havia sido dito a Mirka, mas quando os drows atacaram a incursão bem antes deles chegarem a seu objetivo, seu mestre antes de morrer lhe pediu desculpas, pois na realidade todos aqueles kobolds estavam sendo levados para serem sacrificados diante de um altar, em homenagem a Rainha dos Dragões em um ritual para criar uma nova espécie de servos de Tiamat. “Mirka nunca me disse o que havia sentido no momento em que descobriu isso”, reconhece Sabal mas supõe, “Acredito que tenha sentido medo. Muito medo. Ela havia sido enganada por aquele em quem mais confiava e seria uma escrava dos drows. O que seria dela?”.

            Lembrando desses fatos, Sabal volta a ficar inquieta. Mirka já havia vivenciado a traição, já havia visto violência e a sentido em sua pele escamada, da mesma forma que Gromsh. Mesmo assim eles não perderam a capacidade de confiar, “Nem a capacidade de não se importar em serem traidos?”, se pergunta a clériga. Com Gromsh as coisas não foram tão diferentes. Ele era um guerreiro de um exército gnoll de tamanho médio. Em sua carreira já haviam pilhado e saqueado algumas vilas humanas e uma ou outra pequena cidade élfica. Em um ato de vingança cometido pelos elfos, a fortaleza dos gnolls foi atacada e esses foram quase massacrados. Um grande contingente conseguiu fugir, e nele se encontrava Gromsh. O guerreiro gnoll e seus companheiros sobreviveram por um tempo ainda na superfície, de modo difícil e estressante. Para todas as direções que iam, encontravam inimigos. Os únicos seres nos quais eles podiam depositar alguma confiança eram aqueles gnolls de seu grupo; ou pelo menos era isso que eles acreditavam, até seu líder ter feito um trato com mercadores drows. Esse escolheu alguns de seus guerreiros e trocou-os por um auxílio na passagem pelo subterrâneo até terras menos hostis para os gnolls poderem se reestruturar. Entre os escolhidos como pagamento estava Gromsh.

            A negociação parece que foi bem sucedida, porém não tanto quanto os gnolls gostariam. O preço foi alto e o território para o qual foram levados não era tão menos hostil quanto o que se encontravam. Ambos, Mirka e Gromsh foram levados para Menzoberranzan em momentos diferentes e ainda com seus companheiros. Foi no subúrbio da grande metrópole drow, cidade natal de Sabal, que eles conheceram Vishnara. “Quem era essa Do’Urden?”, se pergunta a Dyrr. Ela havia escutado algumas histórias dentro do culto sobre a primeira clériga, a “mãe” de Lolth. Porém, em algumas conversas com Stongest ela descobriu que Vishnara não havia dado a luz a Lolth, mas Stongest não deu nenhum outro detalhe. “Então provavelmente a Do’Urden não é uma Do’Urden, ou talvez seja, mas não filha de Vishnara”, pensa Sabal, respirando profundamente e colocando todas essas reflexões em ordem.

            Tudo ainda é muito nebuloso. Uma clériga louca cria uma criança e a batiza como Lolth. A própria Rainha das Aranhas não a pune nem manda um de seus servos matar a criança. Vishnara encontra alguém que ninguém conhecia, o nomeia como “Guardião da Deusa Encarnada” e o ensina sua filosofia alienígena. Após isso, o guardião treina Lolth em alguns aspectos enquanto a clériga louca lhe treina em outros, e mais tarde conseguem dois seguidores que foram escravizados por drows e passam a adorar a deusa demoníaca daqueles que lhes escravizaram e que já haviam sacrificado vários de seus companheiros ou irmãos de raça. “Não faz sentido”, sentencia Sabal, “O que essa pseudo-deusa tem para conseguir seduzir de tal maneira seus fieis?”. Acreditar que a Do’Urden é a encarnação ou um avatar de Lolth é inviável para a Dyrr. “Em toda a filosofia do culto herege nada é tratado sobre o mal e o medo”, argumenta ela, para proteger seu ponto de vista.

            “A Do’Urden alterou a mente de seus fiéis de alguma forma. Como pode alguém que passou pelo que Mirka e Gromsh passaram, agir da maneira que agem?”, a questão retorna a sua mente, “Quando estão em grupo, eles agem da maneira que sempre agiram com seus iguais”, acredita a clériga, “Mas quando estão sozinhos são tão confiantes que parece até que não estão sós. De onde seres de raças tão fracas retiram tanta força?”. Por um breve momento, uma imagem surge em sua mente. O coração de Sabal gela; não necessariamente de medo ou assombro, mas de uma mistura de ambos. Mariv está olhando para ela e caminhando para seu lado. Seus olhos se mantém fechados, mas ela sente a presença dele. Ela era uma drow muito jovem quando ele a iniciou na arte do combate. Sabal tenta espantar a presença de seu falecido professor, balançando a cabeça e não abrindo os olhos, o medo de encontrá-lo fisicamente é grande demais. Porém, mesmo com seu esforço, a presença permanece.

            – Você não pode espantar algo que está em você, Sabal. – ela escuta a voz daquele que tanto lhe ensinou soar em sua mente.

            A clériga engole em seco e sente seu corpo tremer.

            – Sentir culpa pelo que ocorreu não a ajudará em nada. – diz o guerreiro.

            Sabal o sente em suas costas e sente uma de suas mãos tocando seu ombro. Provavelmente ele se sentou atrás dela, como fazia para auxiliá-la em suas meditações.

            – Ele faz pa’te de você, Sabal. – diz o falecido guerreiro Dyrr. Sabal sente seus músculos tensos, ela percebe que de alguma forma o que ele está dizendo é real, pois os ensinamentos de Mariv fazem parte dela agora – Como nós também fazemos. Não cho’e.

            O espanto faz a clériga abrir os olhos imediatamente e virar-se em direção a voz que está em suas costas. Ela estava quase em transe, mas assim que retoma sua consciência vê que com suas mãos ela segurava uma das mãos de Mirka, e que a mão que está em seu ombro é a de Stongest. “Como?”, se pergunta horrorizada. Ela se levanta rapidamente e se afasta do meio-goblin-meio-algo. Vê que tanto ele quanto Gromsh já haviam voltado. Sentindo seu rosto molhado, ela o seca com as mãos.

            – Isso não está certo. – diz, convicta, Sabal – Tudo isso não faz sentido.

            – Esse está sendo seu e’o, Sabal. O Caos não p’ecisa faze’ sentido. – responde seriamente Stongest.

            Sabal o encara por alguns instantes antes de voltar a olhar para Gromsh e depois para Mirka, que prossegue dormindo. A tristeza ainda está presente, mas ela é uma drow. Seu orgulho se feriu por terem presenciado uma cena de tamanha fraqueza e ela não consegue deixar de demonstrar isso em seu olhar.

            – Não p’ecisa te’ ve’gonha. Nós somos aspectos dife’entes da mesma coisa. – diz Stongest, tentando suavizar a situação da forma mais sincera.

            – Eu não sou vocês! Vocês não são eu! – Sabal sente que seu corpo ainda está tremendo – Vocês são loucos! Vocês são loucos em ter me deixado com Mirka. E se eu a tivesse matado? E se esses anos que passei com vocês foram apenas para espioná-los e destruí-los?

            Sabal encara Stongest por alguns instantes e se irrita ainda mais por esse não se alterar.

            – Me responde, goblin! E se eu tivesse matado Mirka!? – grita Sabal, se esforçando para não chorar novamente.

            – Você te’ia feito o que e’a p’a se’ feito. – responde Stongest sem se alterar em nenhum momento.

            O horror da clériga aumenta e sobrepõe a raiva.

            – Eu não entendo. – as lágrimas começam a descer pelo rosto de Sabal novamente.

            – Não há o que entende’, Sabal. Há apenas o que se vive’. – responde Stongest suavemente.

            Sabal se ajoelha e não consegue mais segurar o choro. Stongest se aproxima e tentam tocá-la. Como instinto primário ela os afasta, mas logo desiste e deixa-o abraçá-la, enquanto Gromsh apenas observa.

            – Pode’ é sabe’ o que faze’ no momento que deve se’ feito. Não existe f’aqueza, Sabal. Esse é o ensinamento da nossa Lolth. Nunca se esqueça dele. – aconselha Stongest de maneira tão suave que parece que a Do’Urden está falando através dele. Até mesmo Gromsh se espanta.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 1)

            – Você dorme muito pouco para um goblin. – comenta Sabal Dyrr ao guardião do culto herege do qual faz parte.

            – Não começa. – corta o robusto meio-goblin-meio-algo secamente, enquanto observa a boca do túnel na qual eles chegaram após ultrapassar tantas armadilhas.

            Ninguém do grupo de Sabal se feriu, graças a ação coordenada das habilidades de todos os membros. Graças a Mirka eles descobriram e utilizaram os colares que permitiam a passagem dos orcs pelas armadilhas mágicas sem acioná-las. Enquanto as armadilhas físicas eram desarmadas por Stongest, que se concentrou apenas nisso, Gromsh observava os rastros deixados pelos orcs, o que foi útil nas duas vezes em que os túneis se bifurcaram. Enquanto isso, Sabal decifrava as orações e ajudava Mirka a compreender como a magia “divina”, o que para Mirka soava mais como profana, auxiliava as magias arcanas naquela situação.

            Ao caminhar pelos túneis aos poucos eles foram descobrindo que havia algo bem maior envolvendo os orcs. “Quem é Shormongur?”, se perguntou várias vezes Sabal. Infelizmente Mirka não estudou em Sorcere, portanto seu conhecimento sobre demônios e diabos era precário. Ela é a melhor maga Kobold que Sabal já conheceu, mas seus conhecimentos se limitavam a dragões, draconianos e humanos. Mesmo sem auxílio, Sabal tinha conhecimento sobre algumas poucas coisas, mas o máximo que ela conseguiu descobrir através do símbolo que sintetiza o nome do demônio, foi que Shormongur é um Glabrezu.

            Foi necessário um estudo analítico a respeito do símbolo que custou a eles um tempo razoável. “Mas pelo menos conseguimos uma certa vantagem sobre esse culto. Não estamos enfrentando um inimigo totalmente misterioso”, justificou mentalmente Sabal, quando percebeu que havia demorado muito para descobrir tão pouco.

            – O que você está vendo, Stongest? – Sabal pergunta ao guardião, enquanto esse observa atentamente algo que se encontra fora do túnel, em altura inferior.

            – Um g’upo. T’ês d’ows estão no chão e um está descendo uma co’da, enquanto um og’o mago está espe’ando sua vez pa’a desce’. – responde Stongest quase em sussurros, fazendo com que a clériga tenha que se esforçar para escutar melhor o que o guardião está dizendo, pois o som de uma queda d’água está forte o suficiente para atrapalhar a comunicação.

            – Interessante… Mas o que será que um ogro mago está fazendo com um grupo de drows? – pergunta, intrigada, a ex-clériga Dyrr.

            – Esc’avo. Me’cená’io. Qualque’ uma dessas coisas. Há uma clé’iga de Lolth ent’e eles e um mago. Pelo menos é o que pa’ece. – responde Stongest, sem tirar seu olhar atento do grupo que se encontra ao chão da imensa caverna oval.

            Sabal reflete sobre as informações do guardião enquanto olha para Mirka, que está dormindo, e para Gromsh, que está fixamente atento para o outro lado do túnel.

            – Como é a insígnia deles? – pergunta a clériga em um estalo mental.

            – Como? – pergunta Stongest confuso, mas sem tirar os olhos do grupo.

            – Me descreva a insígnia deles. Assim descobriremos a Casa a qual eles pertencem. – explica ela ao experiente goblin.

            – Deixe-me ve’. – responde Stongest, se concentrando no serviço que Sabal lhe pediu. Aos poucos ele vai desenhando uma runa no chão poeirento próximo a ele, enquanto observa sem parar a insígnia no peito da clériga – Está aqui.

            Sabal se levanta e caminha até o local do desenho.

            – Q’Xorlarrin. – comenta ela aproveitando que estava perto da boca do túnel e observando o grupo parado próximo a um grande lago e um imenso ogro mago descendo uma corda fina se comparada a suas proporções.

            Ela dá alguns passos para trás quando Stongest faz sinal para ela se afastar.

            – O’cs. – comenta ele, mostrando com acenos de cabeça os locais onde se encontram alguns orcs armados com grandes bestas.

            Sabal percebe que os orcs estão concentrados no grupo recém chegado e volta-se ao gnoll.

            – Gromsh, prepare-se. Talvez precisaremos entrar em combate. – avisa a clériga ao seu companheiro.

            – Finalmente. – comenta o gnoll rindo.

            – Depois que estiver mais calma a situação, você descansa um pouco, certo? – pergunta a clériga.

            – Não esquenta, Senhora. Ocê nunca vai encotrá gnoll mais resistente que eu. – responde Gromsh com um meio sorriso em seu rosto, que mostra apenas as pontas de seu canino do lado esquerdo de seu rosto.

            Sabal sorri e vira novamente em direção de Stongest enquanto Gromsh lhe faz uma pergunta:

            – Acorda a Mirka, Senhora?

            – Não. Eu cuidarei dela. Você e Stongest são os mais furtivos, eu iria apenas atrapalhar. Não queremos chamar a atenção. – responde Sabal enquanto faz um sinal de mão negativo ao seu companheiro.

            – Certo. – responde o gnoll.

            A clériga se aproxima novamente do goblin.

            – Stongest, você acha que eles nos viram? – pergunta ela, sussurrando próxima ao ouvido de Stongest.

            – Os o’cs ou o g’upo?

            – Os dois.

            – Os o’cs não. Um dos que está no g’upo lá de baixo foi quem nos obse’vou no início do túnel. Ele pa’ece te’ pe’cebido os o’cs e pe’cebido que há algo aqui. – responde o guardião refletindo sobre o assunto.

            – Entendo. Vamos esperar eles iniciarem um ataque contra os orcs para eliminarmos aqueles que podem vir a nos dar trabalho. – comanda Sabal ao guardião.

            – É o que eu p’etendia. – responde Stongest secamente.

            – Certo. – comenta, sentindo-se um tanto deslocada por ainda não ter se acostumado com a idéia de que um macho goblin tenha mais importância em um suposto culto a Lolth do que ela, uma clériga drow – Falarei com Gromsh.

            Stongest faz um aceno positivo com a cabeça e Sabal, ainda incomodada, inicia a conversa com o gnoll:

            – Gromsh, prepare-se. Quando o grupo que está lá embaixo começar um ataque contra os orcs, ou vice-versa, você se guiará pela indicação de Stongest e atacará o orc que poderia nos atrapalhar mais. – o gnoll a escuta atentamente quando ela dá uma pequena pausa antes de continuar – Será necessário uma grande habilidade em escalada. Você possui, não é Gromsh?

            – Sim, minha Senhora. – responde humildemente o gnoll.

            – Ótimo. Então junte-se ao Stongest. – ordena ela, olhando novamente para Mirka enquanto reflete – Stongest?

            – Diga, Sabal. – pergunta o goblin.

            – Você lembra quando os boatos sobre as fugas de orcs no Braeryn começaram, não é? – questiona a clériga ainda olhando para Mirka, que dorme como uma criança não drow, sem preocupação alguma.

            – Sim, me reco’do. – o goblin responde.

            – Você lembra quais ou qual Casa era comentada nesses boatos? Era a Q’Xorlarrin, não era? – pergunta a clériga.

            – Sim, e a Fey-B’anche. – responde brevemente o guardião.

            Sabal olha para o final do túnel onde estão Stongest e Gromsh, e sorri. Tudo começa a ficar mais interessante e curioso na cabeça da ex-Dyrr. Um culto de orcs à um glabrezu. Um grupo formado por uma clériga de uma das Casas nobres de onde fugiram alguns dos orcs escravos que possivelmente estão envolvidos no culto.

            – A Senhora viu que há algumas teias no túnel onde aquele orc se encontra? – pergunta Gromsh, apontando para um dos túneis no alto à esquerda do deles.

            – Bom sinal. – comenta ela, ainda sorrindo.

            “Espero que os Xorlarrin não demorem a iniciar o espetáculo”, comenta consigo Sabal.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (Parte 6)

            O cheiro levemente salgado, como a água de alguns rios que passam nos túneis do Underdark toca profundamente o íntimo de Braços de Adamantina. Se o escultor não estivesse tão concentrado na drow que está ao seu lado, ele nunca iria perceber a quase imperceptível alteração na sua respiração.

            – Eu… não consigo, Braços. – diz sussurrando a drow que tem o nome que Braços adora repetir mentalmente: Araushnee.

            – Então não é para ser feito, Araushnee. – responde ele tocando o ombro da irmã que segura firmemente seu punhal em forma de aranha e delicadamente o bebê da falecida clériga Erelda.

            Mais uma lágrima escorre no rosto da drow, Braços sente o cheiro salgado se acumulando e escuta bem de leve uma das lágrimas cair e tocar na testa do bebê.

            – Não consigo vê-la, sem enchergar meu filho. – comenta a drow como se não houvesse ninguém mais com ela.

            Braços não sabe o que responder, apenas toca a mão que empunha o punhal cerimonial. Sua irmã sede, e deixa com que Braços tire a arma de sua mão e guarde para ela.

            – Esse tipo de fraqueza não deve ser tolerada… – começa a dizer a assassina quando é interrompida por seu grande companheiro.

            – Isso não é fraqueza, Araushnee. O Caos também cria, não apenas destrói. – ele escuta uma pequena alteração na respiração, que ele interpreta como um sorriso – Pense o Caos como um escultor, minha irmã. Para que ele crie sua obra de arte, ele deve quebrar e talhar as pedras. Algo está sendo destruído, para que algo se forme.

            Um breve silêncio toma conta do local. Todos os outros grimlocks que fazem parte da caravana de sobreviventes, estão dormindo ou de vigílhia. Braços e Lolth estão a uma certa distância de todos, eles precisavam colocar a conversa em dia, além de decidir o que seria feito com a criança.

            Desde o início, Lolth pensou que o correto seria sacrificar a pequena drow, mas não foi capaz de fazê-lo. Aquela criança crescerá sem mãe, como seu próprio filho. Abandonar mais uma criança para que seus inimigos a criem não era algo viável na lógica da pseudo-deusa.

            – Se quiser eu a crio. – diz Braços à Lolth.

            – Fico feliz por se dedicar tanto a mim como seu mestre o fez, mas não sei se deveria. – responde a drow com uma certa preocupação em sua voz.

            – O que lhe preocupa irmã? – pergunta o escultor um tanto apreensivo.

            – Eu voltei a pouco da superfície, Braços. Lá convivi com uma tribo humana nomade por um tempo. Foi um excelente aprendizado, mas eu ainda não estou pronta para me tornar… – ela mesmo se interrompe para tentar não chorar.

            – Não se preocupe deusa. Eu sei que você ainda é Lolth. Sei que ainda tem muito o que fazer como Lolth, mas lembro do que meu mestre me disse. – comenta Braços de Adamantina tentando confortar a drow que continua em silêncio.

            Ele prossegue:

            – Lembro das palavras: “Ela carrega o nome da cruel deusa dos drows, mas sei que sua escuridão é algo além de corrupção e crueldade. Ela carrega as aranhas em seu corpo, mas sei que mais que assassinas, essas pequenas criaturas são tecelãs e criam belas obras de arte. Seu nome verdadeiro não é Lolth, mas sim aquele que sussuravam em seu ouvido quando era apenas uma criança drow em Reviere: Araushnee”.

            Ele escuta a drow se levantando e delicadamente entregando a bebê drow no colo de Braços.

            – Sim, era o que Vishnara sussurrava em meus ouvidos. Mas para me tornar aquilo que devo ser, preciso antes conhecer minha natureza atual. – comenta com grande certeza a drow – Cuide dessa menina.

            Braços toma a criança em seu colo e responde:

            – Cuidarei minha irmã. Cuidarei da primeira filha de Araushnee.

            Lolth sorri e se silencia. Braços caminha com a criança até o acampamento provisório que fizeram para descansar, antes de retornar a perambulação pelas cavernas do Underdark. Ele sabe que durante boa parte do trajeto Lolth estará com eles, porém não sabe até quando e se voltará a conversar com ela antes de tomarem um rumo certo para os sobreviventes.

            Assim que Braços entra no acampamneto com o bebê, um dos guardas o questiona:

            – Escultor, para onde iremos agora?

            Braços para e pensa.

            – Para onde a corrente nos levar. – ele escuta o guarda soltando um grunhido de dúvida, mas logo percebe que a dúvida foi saciada pelo cheiro de água e minerais característicos de Araushnee – Depois, ainda não sei.

            – Entendo. – responde o guarda bárbaro compreendendo a sinceridade do escultor – Pelo menos nossa tribo sobreviveu.

            Braços apenas sorri e olha para a pequena drow recém-nascida em seu braço.

            – Não só ela. – comenta o escultor.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 4)

            Tudo está ocorrendo perfeitamente. Enquanto estava na superfície, Lolth Do’Urden não se recordava exatamente o quão fácil era criar uma situação de intriga favorável entre membros da sua própria raça: os drows. Ela sorri vendo que a terceira investida contra os grimlocks está sendo da maneira que havia previsto. Os drows estão com grandes vantagens, porém há muitas chances dos grimlocks sobreviverem.

            Um pouco antes de partirem para a terceira investida, os exercitos se prepararam e esperaram seus líderes, que estavam atrasados. Nadal estava com uma baita dor de cabeça, resultado da bebida que havia tomado com Alystin logo após a conversa com as duas facções do exército. O mercenário não sabia o porquê dele ter agüentado tão pouca bebida, mas isso não era algo para se preocupar no momento.

Enquanto a Calimar…

            O mago foi encontrado morto por um de seus discípulos, junto ao corpo de uma drow, possívelmente uma aluna dele que também havia sumido. Quem o matou? Todos se perguntaram, mas logo Erelda tomou a liderança oficial e ordenou que Nadal comandasse o exército. Muitos dos alunos de Calimar perceberam alguma possível trama entre aqueles dois, mas nada que os fizessem ficar sedentos por vingança, afinal, agora que Calimar estava morto, muitos poderiam tentar tomar a cadeira de Mestre em Evocação que ele ocupava. Porém, havia um drow mago que não estava feliz com tudo aquilo: Guldar Khalazza.

            Logo que descobriram os corpos, a falsa Alystin foi se encontrar com o jovem mago. Ela estava em prantos, tentando esconder suas lágrimas atrás de um capuz, para que ninguém mais a visse assim, principalmente Erelda. Guldar sabia que ela era obsecada por seu irmão, e toda aquela trama óbvia havia atingido-a como uma bola de fogo. Na conversa que tiveram antes da investida começar, ela disse:

            – Vingue-nos! Mate o responsável pela morte de seu irmão e pela sedução de Erelda!

            Guldar sabia que era isso mesmo que ele deveria fazer. Nadal causou a ruptura do exército. Colocou o cerco em risco tendo matado seu irmão, o grande estrategísta Calimar. E além disso, conseguiu seduzir de alguma forma Erelda, sua Senhora, com o objetivo de ficar com as glórias da batalha.

            Lolth percebeu tudo o que ocorreu internamente com o jovem mago. Ela sabia que ele daria tudo de si para exterminar Nadal. Em suas mãos faltava apenas Erelda, a qual ela teria de esperar o cerco se iniciar para poder cocluir seu objetivo.

            A pseudo-deusa agradace profundamente os itens mágicos que conseguiu com a falecida Alystin. Ela possuía a capacidade de criar ilusões, graças a três aneis que pertenciam à verdadeira ilusionista. Foram esses itens que ajudaram em muito criação de toda a teia que ela teceu. Calimar estava morto, todos acreditavam no envolvimento de Nadal, até mesmo Erelda. Guldar deixou seu ódio pelo mercenário o guiar, enquanto Erelda percebeu uma situação na qual poderia usufruir da morte do mago líder do cerco para aumentar o prestígio de sua casa e da guilda de mercenários liderada por Nadal. Uma aliança útil, sugestão de Alystin.

            Agora Guldar está prestes a enfrentar Nadal, mas antes que isso ocorra, Lolth deve matar Erelda. Assim todos os possíveis líderes estarão mortos e isso deixará o exército sem cabeça, porém ainda forte. Alguém com certeza acabará tomando a liderança, mas até que isso ocorra, o grupo de grimlocks guiados por Braços de Adamantina já terá partido. É nisso que ela acredita.

É isso que ela espera.

            Não é tão difícil para a sedutora assassina encontrar a clériga. O momento do parto chegou. Erelda está em sua cabana com uma parteira e outra clériga de Lolth, enquanto do lado de fora, duas guardas tomam conta.

            A Rainha das Aranhas continua em silêncio, o que torna o parto ainda mais infrutífero. Se essa estivesse dando seus dons às suas clérigas, todo o sofrimento de Erelda poderia ser oferecido a deusa-demoníaca, e com certaza uma magia de imenso poder poderia ser conjurada.

            Lolth não tem muitas dificuldades para passar pelas guardas, utilizando um dos aneis de ilusão para cirar a imagem de um drow que tenta se aproximar da cabana. Tentando impedi-lo de se aproximar, as duas guardiãs abrem o espaço suficiente para a Do’Urden adentrar. Erelda grita de dor, enquanto a parteira retira a pequena cria de dentro da clériga. Um flash atinge a mente de Lolth, que se recorda do parto de seu filho, mas logo ela recobra sua concentração e age da forma mais rápida possível. A ilusão lá fora não durará muito, portanto ela sabe que deve agir antes que isso ocorra e as guardas descubram que estam sendo enganadas.

Lolth saca seu sabre – a Quelícera – e atinge a clériga, que está orando para Lolth durante o parto, com uma estocada no pescoço. Logo o poder de sua mortal arma entra em ação. Antes mesmo que essa possa gritar, seu pescoço começa a tomar uma coloração arroxeada com veios amarelos. A necrose sufoca a clériga enquanto Lolth elimina a parteira de modo mais simples e mais rápido.

            Quando Erelda entende o que está ocorrendo e tenta pegar seu flagelo de cinco pontas com ganchos de ferro, Lolth decepa o braço da clériga. E cria, com outro dos três aneis de Alystin, uma ilusão sonora para abafar o grito de ódio de Erelda, para logo em seguida decepar a cabeça da clériga com a Quelícera, porém sem utilizar seu poder.

            Lolth sabe que a ilusão lá fora acabou e logo logo, as guardas irão adentrar o aposento. Rapidamente, a pseudo-deusa pega a cabeça da clériga e espalha o sangue no aposento, pega a filha de Erelda e parte rasgando a tenda.

            No campo de batalha o exército liderado por Nadal está com uma imensa vantagem em relação aos grimlocks. Guldar percebe que Nadal já está com alguns ferimentos e com a concentração completamente comprometida graças ao veneno que Alystin colocou em sua bebida. Mesmo assim, o jovem mago duvida que o mercenário irá morrer naturalmente durante a batalha, pois a vantagem de sua tropa é enorme.

            Guldar utiliza algumas de suas magias mais simples, para guardar aquelas que serão úteis para exterminar Nadal. Ele luta e espera o sinal de Alystin. Evoca um raio de gelo em direção a um bárbaro grimlock que está dando muito trabalho aos soldados drows e vê, de canto de olho algumas aranhas rastejando-se no campo de batalha. O cenário muda, Guldar se torna um grimlock e vários outros brotam do chão. O jovem mago sorri, pois reconhece a maestria das ilusões de Alystin, muitas vezes até mesmo duvida que a ilusionista seja uma seguidora de Lolth, pois essa se parece muito com uma devota de Shar.

            Na forma de um grimlock, o mago se aproxima pelas costas de Nadal e, com suas mãos flamejantes, toca a cabeça do mercenário. Nadal sente uma forte dor de queimadura e logo se vira desferindo um golpe que é defletido por um escudo mágico que Guldar criou de antemão. Para Nadal, quem está enfretando ele é um grimlock, mas o mercenário se surpreende por ser um grimlock mago.

            Guldar rapidamente toma a dianteira e atinge Nadal com um raio congelante, deixando seus movimentos lentos e seus músculos doloridos pelo frio. O jovem mago gargalha acreditando ter conseguido superar o exímio guerreiro, mas surpresas sempre acontecem entre os drows. Nadal, mesmo com seus movimentos comprometidos, consegue fintar mais um raio de gelo e atingir o abdomen do oponente com uma estocada de seu sabre. Guldar sente o ódio ferver com uma bola de guano na mão e com os outros componentes materiais de uma bola de fogo, ele conjura a mais poderosa evocação que conhece. Tendo Nadal como centro da explosão, as chamas da bola de fogo se espalha, atingindo todos os que estão próximos, até mesmo Guldar.

            Isso não é o suficiente para matar o jovem mago, pois por mais impulsivo que ele seja, não é estúpido. Defesas mágicas foram preparadas antes do confronto. Mesmo ferido, Guldar sorri olhando para o chão sabendo que haveria poucas chances de Nadal ter sobrevivido.

            – Bem que Alystin me avisou que você tentaria algo estúpido. – comenta o mercenário surpreendendo Guldar, que levanta seu olhar estupefato com as mãos tremendo.

            Nadal está todo ferido, segurando em sua mão esquerda um amuleto, enquanto em sua mão direita está seu sabre de adamantina.

            – Você e ela irão morrer, malditos! – grita o mago recitando as palavras mágicas para criar chamas em suas mãos novamente, e partindo em direção ao guerreiro.

            O sentimento de ter sido traido pela ilusionita, somado a todo o resto que está ocorrendo, fez com que Guldar perdesse ainda mais o bom senso. Ele se aproxima do mercenário que lhe crava o sabre em seu abdomem. Mesmo sentindo a lâmina atravessá-lo o mago caminha ainda mais próximo e toca sua mão no peito do mercenário que berra de dor.

            Ambos estão em péssimo estado, mas para eles a batalha se resume àquela situação: um enfrentando o outro. Após o grito, Nadal sorri e Guldar fixa um olhar perturbado em seu oponente, até sentir algo tocando seu pé e o fazendo olhar para baixo.

            – Erelda? – horrorizado ele diz o nome do objeto de sua paixão ao ver a cabeça da clériga aos seus pés.

            O espanto atinge Nadal também, que olha para baixo o tempo suficiente para Lolth estocar ambos com sua Quelícera, varando seus corpos por uma pequena mas suficiente brecha de suas piwafwi e armaduras.

            Ambos já estavam extremamente feridos e não haveria como eles sobreviverem àquele golpe final. Os dois caem ao chão tentando ver a assassina, Nadal não consegue e desfalece. Enquanto Guldar.

            – Sua puta! – é tudo o que ele consegue dizer olhando Lolth segurando a filha de Erelda.

            Em um breve instante parece que tudo faz sentido na mente do mago. Alystin planejou tudo para tomar o controle do cerco. Mas por que? Ele se pergunta até que um pequeno detalhe vem sem sua mente quando os seus olhos se encontram com o da falsa ilusionista. Alystin nunca teve olhos magentas, mas sim carmim.

            Lolth vê Guldar desfalecendo e sente a última emoção do mago em relação a ela. Ilustrado em um profundo olhar de puro ódio.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 3)

            Calimar Khalazza adentra sua barraca irritado por não ter encontrado sua atual amante. “Provavelmente está com aquele mercenário nojento”, conclui o mago tomado de ciúme. Faz alguns dias que Alystin se tornou um objeto de desejo do mago líder do cerco drow. Antes de tudo ocorrer, ele nem mesmo imaginava se relacionando com a ilusionista. Porém sempre que se põe a pensar nela, não entende como passou tanto tempo longe da bela e sensual drow.

            Sua cabana é uma das duas maiores do acampamento drow, a outra obviamente pertence a Erelda, sua ex-amante e atual alvo de seu desdém. Seus livros e pergaminhos ficam próximos à algumas almofadas utilizadas para meditação. “Não acredito que terei que entrar em Reviere sem poder relaxar nos braços dela”, pragueja consigo o mago que se põe a sentar em uma das almofadas e se preparar para decorar suas magias antes de seu Reviere.

            Ele pega um de seus tomos e o abre, folhando página por página em busca das melhores magias para a próxima investida, que será, como programado, após o descanso das tropas. Assim fora planejado para não haver chances dos grimlocks se recuperarem. “Portanto é melhor eu deixar de me preocupar com prazeres carnais e me concentrar nisso”, comenta mentalmente enquanto prossegue na busca das magias mais apropriadas.

            O mago focaliza toda a atenção em seu estudo, sendo absorvido por suas anotações. Os simbolos e palavras que lhe são importantes fixam em sua mente, enquanto aqueles que não lhe parecem apropriados são deixados de lado. Quando terminar todo o processo de estudo, Calimar sabe que apenas necessitará descansar sua mente para que as magias se fixem.

            Todo o stress dos momentos passados teve de ser deixado de lado. Toda a discução com seus magos e toda a discução seguinte com a enfantaria de Nadal havia deixado-o tenso, mas não tanto quanto o próprio Nadal havia ficado. A discução ferveu o sangue do mercenário drow, pois a todo momento Calimar jogava em sua cara que quem deve apoiar o exército principal é ele, pois ele é o mercenário contratado. Porém, ao fim da discução, quem saiu em companhia da disputada ilusionista foi Nadal.

            – Maldição! – pragueja em voz alta o mago, tendo sua concentração quebrada pelo ciúme.

            – Calimar? – o mago sente sua pressão caindo ao escutar a voz suave de Alystin.

            Ele olha para trás com um sorriso arteiro em seu rosto e observa a jovem dama deitada sobre algumas almofadas, com seus delicados seios a mostra e aos poucos se cobrindo cum uma manta. Aquele pequeno espaço de luxúria não existia antes dele e Alystin começarem a ter momentos de prazer juntos. Agora, para Calimar, parece que sempre existiu.

            – Você parece tenso. Vem que eu lhe farei relaxar. – diz a ilusionista com um sorriso excitante em seus lábios, terminando de cobrir seu corpo com a manta.

            Calimar sente seu coração pulsando velozmente. Seu corpo começa a suar e a excitação palpita em seus órgãos. Ele vai aos poucos em direção a manta que se mexe suavemente, como se Alystin já estivesse começando a brincadeira sozinha.

            Com cuidado ele toca a manta, sorri para si mesmo e retira com ferocidade a coberta. Para seu horror, não é Alystin apenas que ele vê lá dentro – não é Alystin de forma alguma. Milhares de aranhas de espécies diferentes saem de seu espaço de luxúria rastejando-se pelo aposento, deixando para trás o corpo de uma drow rececado, como se estivesse morto há algum tempo e conservado através de poções.

            “Nadal!” pensa o mago indo em direção a uma varinha que fica próximas a seus livros. Ele tenta olhar para todo o aposento a procura do mercenário.

            – Apareça seu mercenário maldito! Sei que você a matou! – desafia o mago com ódio, ainda procurando por seu adversário e sentindo o desespero tomar conta. Ele está sem suas magias e com alguns poucos itens mágicos para se defender, já Nadal é um guerreiro formidável.

            – Não amor, quem a matou fui eu. – ele escuta uma voz feminina, ainda mais sedutora do que de Alystin, soando bem próximo de seus ouvidos enquanto algo perfura suas costas e vara seu coração.

            Tudo ocorre tão rápido, que ele não tem chance nenhuma de defesa. Enquanto aquilo que lhe perfura é arrancado de seu peito, ele apenas vira-se em direção a sua assassina para amaldiçoá-la, mas ao vê-la a estupefação toma-lhe conta.

            – Q-quem? – pergunta com esforço, enquanto sente uma dor intensa em seu peito, como se tivesse levado uma picada de algum animal peçonhento, suas mãos tremem e sua mente fica paralizada pela visão de tanta beleza.

            – Eu sou Lolth, macho. Você já me serviu como deveria, agora não me é mais útil. – responde com uma voz bela, potente e cheia de autoridade.

            Calimar sente sua vida deixar seu corpo. Sua própria deusa o matou. Ele sorri e cai aos pés de Lolth.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 2)

            Já foram duas investidas que a tribo de Braços de Adamantina suportou nesses últimos dias. Pelo estado físico e mental de seus combatentes, o escultor não acredita que a tribo agüentará um novo ataque.

            Sempre após um ataque, todos os participantes normalmente vão ao encontro das esculturas de Braços, e de seu falecido mentor, para recuperar a inspiração. Eles tocam todos os trabalhos detalhados e maestrais, deixando com que sua mente vislumbre e se regojize com toda aquela beleza sensível. As esculturas deles servem como as músicas dos bardos para o pós batalha. Porém apenas um combatente tocava a escultura de Araushnee, um jovem bárbaro que ouviu falar a respeito da visita de uma deusa a tribo.

            Quando algum combate está se aproximando, os bardos da tribo, aqueles que guardam as lendas e história do povo, inspiram seus companheiros que entram no fronte vindos do campo de batalha.

            Braços ouve os guerreiros exaustos após terem retornado à algum tempo do último combate. Os bardos estão desanimados, os druidas e aqueles poucos clérigos de entidades medusas estão perdendo completamente seu ânimo. Para o escultor o pior de tudo isso é que, aparentemente o desespero está para tomar conta de sua tribo novamente. Ele conhece seu povo e sabe que os grimlocks sempre foram sobreviventes desesperados. Quando mais de um clã consegue se juntar em um pacto de caça e formar uma tribo, esse desespero deve ser colocado de lado para que a sobrevivência mútua seja garantida.

            “Daqui a pouco os clãs se separarão novamente”, reflete o grimlock com tristeza, pois ele sabe que o pacto que une os clãs em uma tribo, não é tão forte quanto o pacto que une cada grimlock dentro de um clã.

            Com o desanimo prestes a tomar conta, Braços de Adamantina segura sua marreta firme e retorna a sua cabana para passar esse desânimo em uma nova escultura, aquela que ao ser vista pelos seus inimigos os farão desistir temporariamente de uma nova investida ao serem tocado por toda a emoção que escultor está vivenciando, ampliado através de sua capacidade artística. Ele pensa em como traduzir aquilo para uma forma sólida. Como passar aquilo para uma pedra e logo compreende onde ele deve fazer. Ele resolve esculpir sua mais nova obra em um ponto visível. “Não poderá ser muito grande, mas deverá ser visível a distância”, comenta consigo sabendo que não terá muito tempo para esculpir uma obra monumental.

            Ele pega suas outras ferramentas e se prepara para sair de sua barraca, mas antes ele toca a escultura de Araushnee quando é surpreendido pelo cheiro da drow com nome de deusa.

            – Achei que encontraria Mãos Calejadas, mas você cresceu basntante não é Braços? – o grimlock escuta a voz suave de uma drow que, por mais tempo que tenha passado, nunca saiu de sua memória.

            Surpreso e ao mesmo tempo sentindo seu ânimo retornar, ele se vira para tocar aquela que tanto o inspirou.

            – Como não escutei você chegar? – sorri o grimlock enquanto toca o rosto de Lolth – Eu sabia que você estava por perto. Senti seu cheiro antes das investidas.

            Ele escuta a respiração de Lolth se alterando como se ela estivesse sorrindo.

            – Não poderei ficar muito tempo, meu filho. Preciso terminar o que iniciei entre os drows que cercam sua tribo. Vim apenas dizer que ajudarei ao máximo, porém vocês devem preparar uma pequena caravana para uma possível fuga. – diz a drow com um leve tom de tristeza em sua voz.

            – Não podemos fugir e deixar companheiros para traz, Araushnee. – comenta Braços deixando a preocupação retornar ao seu íntimo.

            – Sei o quanto vocês louvam seus votos. Não pretendo torná-los desonrados, mas enquanto pelo menos um de vocês viverem, seu povo viverá. Todos os seus companheiros viverão naquele que sair com vida desse confronto. – Lolth demonstra preocupação em sua voz – Aquele primeiro cerco que enfrentamos, não foi tão poderoso quanto esse. A cidade dos duergars que estavam atacando nossa tribo é distante daqui e eles não tinham como se reforçar sem perder um tempo precioso para suas estratégias.

            A inspiração do escultor luta para esvair. Ele coloca suas ferramentas ao chão e toca a drow com suas duas mãos, sentindo toda a curva e beleza dela. Ele sabe que a preocupação de Araushnee ou Lolth, é verdadeira. Ele sabe que quando ela diz “nossa tribo”, é porque realmente ela se sente parte da mesma tribo. A importância do que ela diz ao seus ouvidos é imensa.

            – Eu sei que nossa situação é complicada. Mas como convencerei os outros a se prepararem para partir? – pergunta realmente o grimlock confuso.

            – Você sabe que não será difícil, meu filho, meu irmão. Nosso povo está começando a se desesperar. Você não pode deixar que isso ocorra. – responde a drow.

            – Mas por que eu? Como poderei ajudá-los? – questiona o escultor ainda mais confuso, quase desesperado.

            – Porque você compreende as emoções. Porque você é inspiração. Faça com que um ou vários bardos compreendam isso. Faça com que eles se tornem a inspiração e através de suas canções despertem a natureza de nossos irmãos. Você é o ponto inicial do despertar de sua tribo. – afirma a deusa de forma categórica.

            Braços sente-se contagiar pela esperança que a drow com nome de deusa trouxe a ele. Ele sabe que o que ela disse é verdade.

            – Farei isso Araushnee. Em… – responde ele pensando em complementar com um louvor, mas se interrompendo no exato momento em que o cheiro da drow se enfraqueceu no ar.

            “Mais uma vez você me surpreende deixando o local como se nunca tivesse estado aqui”, sorri Braços pegando suas ferramentas novamente do chão, “As vezes me pergunto se você realmente existe, Araushnee, ou se nada mais é que minha inspiração tomando forma em minha mente”.

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