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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 3)

            Sentada e posicionada para iniciar uma meditação, Sabal Dyrr aguça seus sentidos e escuta alguns mínimos e discretos sons que denunciam o embate que está ocorrendo fora do túnel onde se encontra. A sua frente, a pequena kobold Mirka dorme tranqüila, com um leve sorriso no rosto, como se não houvesse motivo para nenhuma preocupação. “Como ela consegue?”, se pergunta a clériga olhando abismada para o rosto da kobold. O Underdark é um lugar extremamente hostil e perigoso, é inviável, na mente da clériga, que alguém que viva nos subterrâneos de Faêrun consiga dormir de forma tranqüíla e relaxada como Mirka dorme. Uma ou outra vez ela já testemunhou Gromsh e alguns dos falecidos pequenos também dormindo da mesma forma. Já Stongest, mesmo quando está dormindo não parece estar dormindo. Porém, o que lhe espanta necessariamente no caso de Mirka e de alguns outros pequenos, é que ela é uma kobold.

            “Eles são tão fracos”, ela comenta consigo enquanto recorda que os kobolds costumam viver em bandos coesos, justamente por não possuírem muita força individual. Ao contrário dos drows, os kobolds tiveram séculos de cultura enraizada na importância do grupo. Um kobold sozinho é praticamente ignorável, mas um grupo de kobolds é algo respeitável e em algumas situações temível. “Esses merdinhas não são nenhuma preocupação se não estiverem em um número maior que dez”, Sabal se recorda exatamente das palavras de Mariv, seu antigo professor em combate. “Talvez ela não saiba os riscos que corre no Underdark”, supõe a clériga, enquanto continua a observar a pequena kobold.

            Os traços de Mirka não se diferem muito dos de outros kobolds, mas a pequena maga está quase sempre encapuzada. Essa é uma das poucas vezes que a clériga consegue observar a companheirinha com o capuz deslocado enquanto dorme. O focinho repitiliano termina com um pequeno sorriso e as pontas de vários pequenos e afiados dentes aparecem por quase toda a extensão de sua boca. Sabal realmente não vê nenhuma cicatriz ou marca de combate em Mirka, parece realmente que essa nunca teve que enfrentar um desafio muito grande. “Será que se ela estivesse para ser sacrificada em um altar em homenagem a Lolth, ela conseguiria manter esse sorriso?”, se pergunta a clériga sem tirar os olhos de sua companheira.

            Refletindo a respeito de sua própria pergunta, Sabal acabaria respondendo para si: “Não”, se um momento de surpresa não a impedisse. Próximo da parte descoberta da nuca de Mirka Sabal vê a extremidade de uma pequena cicatriz. Cuidadosamente a clériga começa a retirar o capuz da kobold e percebe que essa cicatriz se extende até o centro da nuca. Pelo capuz ter sido deslocado ainda mais, parte do pescoço de Mirka aparece e Sabal percebe outras extremidades de cicatrizes. Aparentemente a cicatriz da nuca foi causada por algum impacto, talvez uma queda ou um golpe de maça. Mas o pequeno trecho da cicatriz do pescoço lhe mostra que Mirka já sofreu algumas queimaduras e cortes também. Pelo que parece a pequena kobold não é tão pouco vivida quanto parecia.

            “Certo. Então supondo que seu sorriso se mantivesse em um momento extremamente doloroso ou aterrorizante. Por que? Como? Não faz sentido estar tão seguro a ponto de não se preocupar com nada do que ocorre com você”, a mente de Sabal entra em um turbilhão de confusão e assombro. Ela recobre Mirka, que em nenhum momento acordou sobressaltada ou fez menção de se sentir incomodada, e aos poucos se posiciona de maneira confortável para poder meditar. Sabal já havia retirado o peitoral de sua armadura e ficado apenas com sua piwafwi.

            “Quero entender o que está ocorrendo. Pelo máximo que tudo pareça fazer algum sentido, de repente não faz mais”, comenta Sabal, inquieta. Ela fecha os olhos, tentando colocar a preocupação de estar em um ambiente hostil de lado para poder meditar e refletir de maneira profunda. Sim, sempre que um drow vai meditar ele está em um ambiente hostil, afinal que ambiente em toda Toril é mais hostil que uma grande metrópole drow? Porém, mesmo sabendo disso, Sabal sabe que cada drow constrói alguma espécie de santuário onde tem privacidade e proteção – mágica ou física – para poder refletir e resolver seus assuntos sem maiores preocupações. Sabal mesmo tinha seu pequeno santuário protegido por magias divinas em seu quarto no palácio Dyrr, mas no momento Lolth continua em silêncio e nem mesmo um pequeno santuário é possível de ser feito. A clériga está em território inimigo, onde os orcs que eles enfrentaram no início do túnel dominam, ou dão a entender isso.

            Respirando profundamente e deixando o ar sair lentamente de seus pulmões, Sabal coloca a maioria dessas preocupações de lado e aos poucos vai se preparando para meditar. Ela repete esse processo respiratório mais cinco vezes até estar pronta para iniciar sua meditação analítica a respeito do assunto que lhe deixa inquieta no momento: qual a influência da Do’Urden sobre seus fiéis? Da mesma forma que os kobolds são seres extremamente grupais, os drows são seres individualistas que, mesmo possuindo uma sociedade bem estruturada, maquinam uns contra os outros em busca de poder e prestígio. Não há um conceito a respeito de “amizade”, “companheirismo” e coisas do gênero entre eles. Da mesma forma, muitos kobolds agem com uma espécie de mentalidade grupal que parece não separar um dos outros. Mas desde que entrou no culto herege, Sabal passou ainda mais a entender o conceito de companheiro, da importância de um grupo. Antes ela agia amigavelmente por interesses próprios, agora não tem mais tanta certeza. “Será que ocorreu algo assim com Mirka?”, se pergunta horrorizada por pensar que Lolth, ou melhor, a Do’Urden foi capaz de fazer com que Mirka deixasse o extremo grupal e equilibrasse esse lado com o individualismo que propõe a própria filosofia do culto: somos todos um e em um estamos todos.

            Até onde Sabal conhece Mirka, essa foi criada e se relacionou com vários outros kobolds. A pequena companheira era acolita de um humano, discípulo de um dragão. Ela e sua “matilha” viviam com esse humano e seu mestre dracônico. Eles eram responsáveis por preparar armadilhas e cavar túneis bem estruturados para o covil de ambos, e em troca o mago humano e o dragão lhes davam proteção. Mirka se tornou acolita do humano pois demonstrou grandes capacidades intelectuais em relação aos seus outros companheiros. “Isso já é algo digno de respeito em uma kobold”, comenta Sabal, enquanto visualiza o pouco que conhece da história da Mirka.

            Pelas conversas que teve com a kobold a respeito disso, ela descobriu que Mirka estava junto com seu mentor humano e mais vinte kobolds em uma missão nos subterrâneos quando fora capturada. O mestre draconico deles havia lhes ordenado para buscar um artefato que lhe pertencera e fora roubado por trogloditas que viviam nos túneis do Underdark. Pelo menos isso era o que havia sido dito a Mirka, mas quando os drows atacaram a incursão bem antes deles chegarem a seu objetivo, seu mestre antes de morrer lhe pediu desculpas, pois na realidade todos aqueles kobolds estavam sendo levados para serem sacrificados diante de um altar, em homenagem a Rainha dos Dragões em um ritual para criar uma nova espécie de servos de Tiamat. “Mirka nunca me disse o que havia sentido no momento em que descobriu isso”, reconhece Sabal mas supõe, “Acredito que tenha sentido medo. Muito medo. Ela havia sido enganada por aquele em quem mais confiava e seria uma escrava dos drows. O que seria dela?”.

            Lembrando desses fatos, Sabal volta a ficar inquieta. Mirka já havia vivenciado a traição, já havia visto violência e a sentido em sua pele escamada, da mesma forma que Gromsh. Mesmo assim eles não perderam a capacidade de confiar, “Nem a capacidade de não se importar em serem traidos?”, se pergunta a clériga. Com Gromsh as coisas não foram tão diferentes. Ele era um guerreiro de um exército gnoll de tamanho médio. Em sua carreira já haviam pilhado e saqueado algumas vilas humanas e uma ou outra pequena cidade élfica. Em um ato de vingança cometido pelos elfos, a fortaleza dos gnolls foi atacada e esses foram quase massacrados. Um grande contingente conseguiu fugir, e nele se encontrava Gromsh. O guerreiro gnoll e seus companheiros sobreviveram por um tempo ainda na superfície, de modo difícil e estressante. Para todas as direções que iam, encontravam inimigos. Os únicos seres nos quais eles podiam depositar alguma confiança eram aqueles gnolls de seu grupo; ou pelo menos era isso que eles acreditavam, até seu líder ter feito um trato com mercadores drows. Esse escolheu alguns de seus guerreiros e trocou-os por um auxílio na passagem pelo subterrâneo até terras menos hostis para os gnolls poderem se reestruturar. Entre os escolhidos como pagamento estava Gromsh.

            A negociação parece que foi bem sucedida, porém não tanto quanto os gnolls gostariam. O preço foi alto e o território para o qual foram levados não era tão menos hostil quanto o que se encontravam. Ambos, Mirka e Gromsh foram levados para Menzoberranzan em momentos diferentes e ainda com seus companheiros. Foi no subúrbio da grande metrópole drow, cidade natal de Sabal, que eles conheceram Vishnara. “Quem era essa Do’Urden?”, se pergunta a Dyrr. Ela havia escutado algumas histórias dentro do culto sobre a primeira clériga, a “mãe” de Lolth. Porém, em algumas conversas com Stongest ela descobriu que Vishnara não havia dado a luz a Lolth, mas Stongest não deu nenhum outro detalhe. “Então provavelmente a Do’Urden não é uma Do’Urden, ou talvez seja, mas não filha de Vishnara”, pensa Sabal, respirando profundamente e colocando todas essas reflexões em ordem.

            Tudo ainda é muito nebuloso. Uma clériga louca cria uma criança e a batiza como Lolth. A própria Rainha das Aranhas não a pune nem manda um de seus servos matar a criança. Vishnara encontra alguém que ninguém conhecia, o nomeia como “Guardião da Deusa Encarnada” e o ensina sua filosofia alienígena. Após isso, o guardião treina Lolth em alguns aspectos enquanto a clériga louca lhe treina em outros, e mais tarde conseguem dois seguidores que foram escravizados por drows e passam a adorar a deusa demoníaca daqueles que lhes escravizaram e que já haviam sacrificado vários de seus companheiros ou irmãos de raça. “Não faz sentido”, sentencia Sabal, “O que essa pseudo-deusa tem para conseguir seduzir de tal maneira seus fieis?”. Acreditar que a Do’Urden é a encarnação ou um avatar de Lolth é inviável para a Dyrr. “Em toda a filosofia do culto herege nada é tratado sobre o mal e o medo”, argumenta ela, para proteger seu ponto de vista.

            “A Do’Urden alterou a mente de seus fiéis de alguma forma. Como pode alguém que passou pelo que Mirka e Gromsh passaram, agir da maneira que agem?”, a questão retorna a sua mente, “Quando estão em grupo, eles agem da maneira que sempre agiram com seus iguais”, acredita a clériga, “Mas quando estão sozinhos são tão confiantes que parece até que não estão sós. De onde seres de raças tão fracas retiram tanta força?”. Por um breve momento, uma imagem surge em sua mente. O coração de Sabal gela; não necessariamente de medo ou assombro, mas de uma mistura de ambos. Mariv está olhando para ela e caminhando para seu lado. Seus olhos se mantém fechados, mas ela sente a presença dele. Ela era uma drow muito jovem quando ele a iniciou na arte do combate. Sabal tenta espantar a presença de seu falecido professor, balançando a cabeça e não abrindo os olhos, o medo de encontrá-lo fisicamente é grande demais. Porém, mesmo com seu esforço, a presença permanece.

            – Você não pode espantar algo que está em você, Sabal. – ela escuta a voz daquele que tanto lhe ensinou soar em sua mente.

            A clériga engole em seco e sente seu corpo tremer.

            – Sentir culpa pelo que ocorreu não a ajudará em nada. – diz o guerreiro.

            Sabal o sente em suas costas e sente uma de suas mãos tocando seu ombro. Provavelmente ele se sentou atrás dela, como fazia para auxiliá-la em suas meditações.

            – Ele faz pa’te de você, Sabal. – diz o falecido guerreiro Dyrr. Sabal sente seus músculos tensos, ela percebe que de alguma forma o que ele está dizendo é real, pois os ensinamentos de Mariv fazem parte dela agora – Como nós também fazemos. Não cho’e.

            O espanto faz a clériga abrir os olhos imediatamente e virar-se em direção a voz que está em suas costas. Ela estava quase em transe, mas assim que retoma sua consciência vê que com suas mãos ela segurava uma das mãos de Mirka, e que a mão que está em seu ombro é a de Stongest. “Como?”, se pergunta horrorizada. Ela se levanta rapidamente e se afasta do meio-goblin-meio-algo. Vê que tanto ele quanto Gromsh já haviam voltado. Sentindo seu rosto molhado, ela o seca com as mãos.

            – Isso não está certo. – diz, convicta, Sabal – Tudo isso não faz sentido.

            – Esse está sendo seu e’o, Sabal. O Caos não p’ecisa faze’ sentido. – responde seriamente Stongest.

            Sabal o encara por alguns instantes antes de voltar a olhar para Gromsh e depois para Mirka, que prossegue dormindo. A tristeza ainda está presente, mas ela é uma drow. Seu orgulho se feriu por terem presenciado uma cena de tamanha fraqueza e ela não consegue deixar de demonstrar isso em seu olhar.

            – Não p’ecisa te’ ve’gonha. Nós somos aspectos dife’entes da mesma coisa. – diz Stongest, tentando suavizar a situação da forma mais sincera.

            – Eu não sou vocês! Vocês não são eu! – Sabal sente que seu corpo ainda está tremendo – Vocês são loucos! Vocês são loucos em ter me deixado com Mirka. E se eu a tivesse matado? E se esses anos que passei com vocês foram apenas para espioná-los e destruí-los?

            Sabal encara Stongest por alguns instantes e se irrita ainda mais por esse não se alterar.

            – Me responde, goblin! E se eu tivesse matado Mirka!? – grita Sabal, se esforçando para não chorar novamente.

            – Você te’ia feito o que e’a p’a se’ feito. – responde Stongest sem se alterar em nenhum momento.

            O horror da clériga aumenta e sobrepõe a raiva.

            – Eu não entendo. – as lágrimas começam a descer pelo rosto de Sabal novamente.

            – Não há o que entende’, Sabal. Há apenas o que se vive’. – responde Stongest suavemente.

            Sabal se ajoelha e não consegue mais segurar o choro. Stongest se aproxima e tentam tocá-la. Como instinto primário ela os afasta, mas logo desiste e deixa-o abraçá-la, enquanto Gromsh apenas observa.

            – Pode’ é sabe’ o que faze’ no momento que deve se’ feito. Não existe f’aqueza, Sabal. Esse é o ensinamento da nossa Lolth. Nunca se esqueça dele. – aconselha Stongest de maneira tão suave que parece que a Do’Urden está falando através dele. Até mesmo Gromsh se espanta.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 2)

– A situação está complicada, Mirka. Não temos como sair da cidade pelas maneiras convencionais. – diz Sabal Dyrr, ex-clériga da segunda Casa mais poderosa de Menzoberranzan, a uma kobold.

Mirka olha para sua companheira drow com um rosto pensativo.

– Senhora, Quiri foi fazer uma busca pelo Braeryn um pouco antes de você e o Stongest chegarem. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa. – comenta a pequena kobold.

– Até onde eu saiba, todas as passagens conhecidas estão sendo guardadas por patrulhas drows. – diz a clériga apreensiva para sua pequena companheira – E a única que não era conhecida foi descoberta após a insurreição, e agora também tem proteção de guardas da cidade.

No canto da barraca onde o Culto a Lolth Encarnada se encontra escondido, está um gnoll se alimentando com a carne que seus companheiros trouxeram do Bazaar.

– Ouvi falá que tem uns orcs que fugiram pelo Braeryn. – diz o gnoll mastigando um grande pedaço de carne seca.

– Você está se referindo aos que escaparam da Casa Xorlarrin? – pergunta Sabal – Isso foi antes da insurreição, Gromsh. Talvez eles fizessem parte de todo o esquema.

– Não, Senhora. Num tô falando desses não. Tô falando de uns mais recentes. – responde Gromsh engolindo o que estava em sua boca e mordendo outro grande pedaço – Parece que uns orcs e hobgoblins conseguiram fugí da cidade há pouco tempo.

Sabal sorri para o gnoll.

– O que você está dizendo é fato, Gromsh?

– Com certeza, Senhora. Foram contatos confiáveis que me disseram. – responde o gnoll, orgulhoso.
Sabal se levanta da almofada onde estava sentada e caminha até a pequena janela próxima a porta de entrada e saída. Pensativa e concentrada, ela tenta encontrar o guardião meio-goblin lá fora, mas é quase impossível vê-lo quando esse não quer ser visto. Discretamente, a clériga começa a emitir alguns rosnados – por mais estranho que isso tenha soado no início de sua vida com aqueles hereges, atualmente é bem mais natural.

“Stongest. Se estiver tudo calmo ai fora, entre. Precisamos conversar”, diz a clériga na linguagem secreta do culto, logo após virando-se para seus outros dois companheiros.

– Vocês acham que Quiri tem capacidade de encontrar alguma passagem? Isso é, se ela realmente existir. – pergunta Sabal com uma das sobrancelhas erguidas.

– Sinceramente não, minha Senhora. – responde Mirka – Quiri é um goblin muito dedicado, mas não é muito inteligente nem perceptivo.

– Ah! Ele é um goblin. Goblins são estúpidos. – diz Gromsh rindo.

– Eu sou um goblin, G’omsh. Você me acha estúpido? – a voz de Stongest surge como uma invocação, do canto da cabana oposto ao que o gnoll se encontra.

Gromsh coça a cabeça constrangido.

– Cara, não foi bem isso que eu quis dizê. Sabe, você nem é um goblin direito, né? – o gnoll tenta consertar, desviando o olhar dos olhos do pequeno e robusto meio-goblin-meio-algo.

– Eu tenho sangue goblin, po’tanto sou um goblin. – finaliza Stongest, virando-se  para a clériga.

Sabal ri baixo. Gromsh continua coçando a cabeça envergonhado, enquanto Mirka sorri por ver o guardião.

– Já acabaram, crianças? – pergunta a clériga enquanto olha para o goblin que está sério a observando.

– O que você que’ conversa’, Sabal? – pergunta Stongest demonstrando toda sua simpatia.
Sabal ri mais um pouco antes de começar.

– Quiri foi atrás de alguma passagem para fora de Menzoberranzan aqui no Braeryn. O problema é que não confiamos na capacidade dele para encontrá-la, se é que ela existe. – diz a clériga resumindo a conversa.

– Onde estão os out’os fieis? – pergunta Stongest olhando ao redor da barraca.

– Foram conseguí informações com outros das mesmas raças. – responde Gromsh.

– Não acho isso uma boa idéia. Eles são muito inexpe’ientes. – diz o meio-goblin voltando-se para o gnoll.

– Eles foram antes de vocês voltarem, Senhor. Houve alguns poucos boatos a respeito de orcs e robgoblins que conseguiram fugir da cidade através de um túnel que começa aqui no Braeryn. Precisávamos saber de algo. – diz Mirka.

– Ce’to. – comenta Stongest, achando razoável a resposta da kobold.

– Então, Stongest, você poderia ir atrás de Quiri? Mirka irá convocar o resto dos fieis. Creio que todos devem ir conosco em nossa busca pelo filho de Lolth. Concorda? – pergunta Sabal voltando a se sentar em uma almofada, em posição de meditação.

Stongest olha para a clériga, pensativo. Sabal encara a feição séria do meio-goblin e percebe alguns traços bem delicados em seu rosto, apesar de todas as cicatrizes. O olho do meio-goblin tem um formato um pouco ovalado. “Como eu ainda não tinha percebido isso”, pergunta-se a clériga demonstrando surpresa.

– Que foi? – pergunta Stongest – Alguma idéia melho’?

– Nada não, Stongest. Apenas me perdi em pensamentos. – responde Sabal, enquanto sua mente tenta não acreditar naquele detalhe, “Não pode ser, eu devo estar vendo coisas”.

– Eu vou at’ás do Qui’i. – diz o meio-goblin desconcertado com as reações da clériga, sumindo novamente dos olhares de seus companheiros próximo à janela.

– Senhora, quer que eu vá atrás dos outros agora? – pergunta Mirka a clériga.

– Espere um pouco, Mirka. – diz Sabal pensando a respeito – Se você conhecer alguma magia para chamá-los sem precisar sair daqui, acho que seria melhor.

– Não tenho nada semelhante preparado no momento, Senhora. – responde Mirka.

– Então pode ir. Vá com Gromsh, assim vocês podem se separar e procurar mais rapido.

– Sim, Senhora. – responde Mirka indo até a porta – Vamos, Gromsh?

– Vamo sim. – responde o gnoll, limpando os dentes com a unha.

Quando ambos saem pela porta, Sabal se põe a refletir sobre a situação. É interessante ver como sua vida está bem diferente do que ela imaginava quando fugiu de sua Casa. Sempre imaginara que teria que sobreviver sozinha por muito tempo e apenas aos poucos conseguiria lacaios fieis, mas a Do’Urden e Stongest pouparam esforços para ela.

A lealdade desses seres é totalmente estranha a ela, que foi criada dentro da segunda maior Casa da Cidade da Rainha Aranha. Ela não é forjada com o medo, pois qualquer um deles seria capaz de sobreviver sozinho e não se importaria em deixar um traidor para trás. Porém, a lealdade deles é forjada pela Fé – não a fé dela, mas a Fé que Stongest explicou no Bazaar -, o que é muito mais forte do que a lealdade que os escravos tem pelos seus senhores drows. Supondo que tentasse controlar Mirka através do medo, a pequena kobold não a repreenderia, simplesmente sumiria e nunca mais seria vista. “É impressionante a lealdade e liberdade que esses hereges possuem”, pensa consigo mesmo.

Particularmente, Sabal se sente até inferiorizada ao ver as atitudes desses cultistas em relação à falsa-deusa. “Falsa-deusa. Por que me sinto tão vazia quando penso isso?”, ela se pergunta, e sua memória a leva ao seu último encontro com aquele que foi seu professor, seu aliado e seu amante: Mariv.

Sua memória não toca apenas os planos das imagens, seu braço ainda sente o impacto criado quando atingiu o rosto daquele que ela tanto respeitava. “Sem arrependimentos”, comenta para si tentando espantar o pensamento que a aflige. “Você realmente está se tornando uma fraca”, sentencia Sabal a si mesma, mas seus pensamentos surgem como a voz de sua mãe.

Sabal abre os olhos, não há ninguém na barraca. Apenas ela, seus pensamentos e um pequeno ídolo de Lolth. Qual Lolth? A Do’Urden não pode ser a deusa encarnada, pois negligencia aspectos importantes da natureza da Rainha das Aranhas. “Por que Lolth não a puniu até agora por sua heresia?”, se pergunta a clériga. Talvez suas respostas estejam certas, a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos pode ter planejado algo para a falsa-deusa e seus seguidores.

A clériga volta a fechar os olhos para começar a meditação. Nesses últimos tempos a verdadeira Lolth está em silêncio. Sabal não consegue contatá-la, ou melhor, contatar seus servos. Nem consegue comungar com sua deusa através das magias divinas que essa costumava canalizar pelo corpo de suas clérigas. Mas a fé ainda está em seu coração, e Sabal não pretende desistir.

Aos poucos sua mente entra em transe, tentando alcançar um plano superior de consciência para se comunicar com sua divindade. Nada. Apenas silêncio e vazio. Respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca, Sabal se concentra novamente. Sua consciência se expande aos poucos, seus sentidos parecem se ampliar. Dessa vez ela não se sente sozinha, o vazio parece ter se dissipado e uma voz feminina é ouvida ao fundo, de forma indefinida. A clériga se concentra ainda mais para tentar entender o que sua deusa está tentando lhe dizer. Aos poucos a voz parece estar se tornando mais e mais compreensível. Como um soco no estômago Sabal abre seus olhos ao escutar a voz de Lolth Do’Urden em seus ouvidos: “Nós não somos diferentes”.

Com a respiração arfando e as mãos tremendo, a ex-Dyrr olha ao seu redor. Para sua surpresa quem está lá não é a Do’Urden, mas Stongest, com um pequeno goblin ensangüentado no colo. Stongest e Quiri possuem alturas semelhantes, mas pela massa muscular de Stongest, Quiri parece bem menor.

– Stongest? Por que o trouxe para cá? – pergunta Sabal ainda assustada.

– Po’que ele é um de nós. Te’ uma mo’te jogado na ‘ua não é uma mo’te digna de um i’mão de Fé. – responde Songest como se estivesse dizendo o óbvio – T’ouxe ele pa’a você sac’ifica-lo e ele se uni’ a deusa.

– Ele ainda não está morto? – pergunta a clériga vendo o estado deplorável em que se encontra o mirrado goblin.
Quiri está desacordado e com a respiração lenta. Um imenso corte abriu algo como se fosse uma boca em seu estômago, que Stongest parece ter costurado para que ele não morresse no local do incidente. Um dos braços do pequeno goblin estava semidecepado, e novamente Stongest conseguiu retardar a morte de seu “irmão de Fé”, fazendo um torniquete acima do grande corte.

– Não. – responde Stongest secamente.

– Você está trazendo risco ao culto. Uma péssima atitude de um guardião. – censura Sabal com um olhar sério – Ele é descartável. Não precisava ter trazido ele pra cá.

– Já disse que não o t’ouxe pa’a cu’á-lo, mas pa’a da’-lhe uma mo’te mais digna.

– E acabar com o segredo do culto? – pergunta Sabal alterada.

– Não esta’emos mais aqui quando alguém consegui’ encont’a’ uma t’ilha. – responde Stongest a encarando – Todos somos desca’táveis, Sabal, mas nem po’ isso vi’amos as costas uns pa’a os out’os. Se você não quise’ matá-lo ‘itualmente, eu mesmo fa’ei.

Sabal encara o meio-goblin-meio-algo sem compreender direito o que está ocorrendo. “Por que se preocupa tanto com a forma pela qual ele vai morrer?”, se pergunta confusa.

– Mesmo sem entender o que leva você a querer isso, Stongest, eu farei o sacrifício. – diz a clériga.

– Cla’o que você ainda não entende. – diz o guardião ajeitando o pequeno goblin perto do ídolo de Lolth, e preparando algumas ervas que o farão retomar a consciência.

– Se você se preocupa tanto com ele, por que não me deixa curá-lo? Você sabe que eu tenho uma varinha de cura. – retruca Sabal.

– Po’que ele se sac’ificou pa’a p’otege a imagem de nossa deusa. Tudo o que ela ‘epesenta. Não pe’miti’ que ele mo’a é ti’a’ dele toda sua satisfação po’ te’ se sac’ificado po’ aquilo que ele ac’edita. – responde Stongest.

– Então por que você não o deixou lá? – pergunta Sabal achando a resposta do meio-goblin completamente ilógica.

Stongest termina de preparar a loção para Quiri recobrar a consciência, e começa a preparar outra loção para que esse não sinta muita dor nos locais feridos.

– Po’que ele ainda não comp’eendeu. Como você. Pa’a ele Lolth é algo fo’a dele, esse é o momento de fazê-lo senti’ o que Lolth ‘ealmente é. – responde Stongest, de forma séria, mas tranqüila, à sua colega.

Sabal o observa um tanto irritada, pois sabe que o guardião ainda não confia tanto nela quanto ela gostaria. Sempre que esse assunto entra em pauta, a clériga se sente inferiorizada pelo meio-goblin, o que fere seu orgulho drow.

– Você é capaz de faze’ isso? – Stongest desafia Sabal.

Sabal o encara com raiva.

– Com certeza mais capaz do que você. – responde a clériga.

– Ótimo. – diz Stongest sorrindo e finalizando a segunda poção, que ele passa nas feridas do mirrado goblin.

Sabal observa a cena. Ao ver o meio-goblin-meio-algo passar a loção em seu “irmão”, a imagem de Mariv volta em sua mente. “Se a Do’Urden estivesse em meu lugar, ela o teria convencido a vir junto. Ele não precisaria estar morto”, comenta a si mesma. Um sentimento de repúdio a esse pensamento surge em seu peito, “Como você pode estar se tornando tão fraca?!”, repreende-se a clériga.

– Qui’i? Você está me ouvindo? – pergunta Stongest.

O pequeno goblin sorri ao ver o guardião e balança afirmativamente a cabeça. A dor que ele está sentindo é mínima, ignorável.

– Você está p’epa’ado pa’a se junta’ a deusa? – pergunta novamente Stongest, recebendo outra resposta afirmativa com a cabeça.

O meio-goblin se vira em direção a Sabal e solta um curto e baixo rosnado: “Você sabe o que fazer”.

A clériga se aproxima lentamente do pequeno goblin e sente um nervosismo tomar conta de seu corpo. Ela olha para Stongest, que a está encarando. Seu orgulho retorna: “Eu sei o que fazer”, comenta consigo.

– Quiri, você agiu corretamente ao defender nossa deusa, mas perceba que não foi Lolth que você defendeu, e sim a todos nós. Lolth é você, meu irmão. – diz Sabal sem saber julgar se ela estava mentindo ou dizendo a verdade.
Quiri sorri para ela. A clériga crava o punhal de sacrifício no peito miúdo do goblin, que vira seu rosto em direção ao pequeno ídolo de Lolth, e mais uma vez seu sorriso se abre e seus olhos se fecham tranqüilamente enquanto a clériga retira o pequeno coração e o corta em dois, banhando o ídolo com o sangue do goblin.

Sabal fica perplexa com a reação do goblin e encara o corpo inerte.

– Ago’a você ‘ealmente está em nós, i’mão. – diz Stongest curvando-se em direção ao corpo.

A clériga vira-se em direção ao meio-goblin com uma feição curiosa.

– O que você passou nele para não sentir dor?

– Anestesiei apenas os fe’imentos. Ele sentiu tudo o que você fez a ele. – responde Stongest olhando para a porta – Mi’ka e G’omsh chega’am.

Olhando estática para o robusto goblin, ela escuta a porta se abrir e alguns passos de seres entrando. “Você é louco, guardião”, pensa a ex-Dyrr sentindo o vazio retornar ao seu peito, “Espero que um dia eu consiga fazer parte dessa loucura”.

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 2 (Parte 1)

Os anos em Arach-Tinilith passaram-se rápidos. Para surpresa de muitos, Sabal não sofreu tanto quanto acreditavam – ou desejavam – que sofreria. Sua força em muitos momentos fora testada enquanto se preparava para tornar-se uma clériga de Lolth. Em todas as ocasiões ela surpreendeu aqueles que a testaram.

Pelo máximo que suas atitudes parecessem fracas – sem o aparente senso de superioridade com o qual todos os drows, especialmente as mulheres, eram educados a ter – continham uma surpreendente força que deram vantagens a Sabal. Ninguém sabia o que esperar dela. Ninguém conseguia conceber o quanto aquelas características que a faziam parecer crédula, gentil e humilde, eram suas reais armas até que fosse tarde demais.

A nova clériga da Casa Agrach Dyrr, retornou ao seio de sua família considerada madura em termos de idade, já com seus vinte anos. Porém, suas irmãs e mãe continuavam subestimando-a. Acreditavam que fora pura sorte ela ter voltado de Arach-Tinilith sem nenhuma seqüela. Além de ter sido uma grande surpresa perceberem que Sabal mantinha seus hábitos em relação aos machos e aos escravos mesmo após tantos anos de treinamento como clériga de Lolth. “Uma vergonha para nossa Casa”, era o que pensava Nasshna Dyrr, mãe de Sabal.

Após ter retornado a sua Casa ela foi testada por suas irmãs e as derrotou na mais pura e simples intimidação. Os conflitos entre elas não chegavam ao confronto físico, pois Sabal sabia como fazer com que sua força fluísse através de seu olhar. Na maioria das vezes, as irmãs desistiam de qualquer investida, saindo pela tangente com desculpas diferentes em cada momento. A nova clériga conquistou aos poucos seu lugar de respeito, porém, sempre que possível, seus familiares a ignoravam. “Assim é melhor”, Sabal acreditava piamente nisso.

Em seis anos após seu retorno a Casa Agrach Dyrr, Sabal acabou descobrindo por parte dos machos que confiavam nela, como realmente funcionava a hierarquia Dyrr; o que lhe causou uma grande decepção. Em primeiro momento ela passou a ver a Matrona Ysraena Dyrr como uma fraca que deveria perder seu lugar, mesmo que fosse ela quem tivesse de usurpar o trono da Matrona. Com o tempo esse pensamento passou a mudar em sua mente. Ela sabia o quanto o Velho Dyrr era poderoso e o quanto a Casa devia a ele sua posição na hierarquia de Menzoberranzan. Mesmo assim era inviável para ela que esse quadro não mudasse. Após vários meses de planejamento Sabal foi tocada pelo desânimo e pela vergonha e resolveu que chegara a hora de deixar sua Casa no momento em que viu uma aranha negra descer pelo seu broche. Esse era o sacrifício que Lolth esperava dela, “tudo faz sentido agora”.

O que ela não sabia é que talvez sua dedução não estava completamente correta. Quando essa conclusão chegou em sua mente, as maquinações de suas irmãs e de sua mãe contra sua vida já estavam para ser postas em prática. Sabal estava em seu quarto arrumando suas coisas, vestindo sua armadura e pegando suas armas, – a mornigstar e seu grande escudo -, quando seu espaço foi invadido por um demônio menor, provavelmente invocado para acabar com sua vida ou enfraquecê-la o suficiente para que outro finalizasse o serviço. Esse adversário lhe deu trabalho, mas não o suficiente. Logo ela reconheceu que aquilo não havia sido invocado por uma clériga, mas por algum mago da família. Com o seu prestígio junto aos machos da Casa, não foi difícil que ela encontrasse o dono da artimanha e retirasse dele as informações que a levariam a sua mãe e suas irmãs.

Como se previsse a atitude da filha, Nasshna Dyrr e suas outras duas filhas se prepararam junto com alguns escravos em um dos cômodos do palácio. Sabal foi de encontro a elas para tirar satisfações e não estava se importando com o que teria de fazer, pois estava para deixar a Segunda Grande Casa de Menzoberranzan.

Ao chegar no local onde sua mãe se encontrava, Sabal percebeu estar em uma situação desvantajosa. O local estava com pelo menos dez goblins armados com bestas e dois minotauros carregando machados, além de suas irmãs e mãe com suas respectivas maças.

– Creio que chegou o fim para a vergonha que você me causa. – disse Nasshna brevemente – Sua morte virá pelas mãos daqueles que você considera seus iguais.

Com uma risada zombeteira, Nasshna ordenou um ataque a sua filha, que não ocorreu. Surpresa ela olhou para os escravos que demonstraram medo, porém algo os colocou em dúvida. Sabal reconheceu pelo menos quatro daqueles goblins e um daqueles minotauros e sabia que eles possuíam uma dívida para com ela. Nesses seis anos ela havia praticado todos os deveres de uma clériga de Lolth. Havia feito sacrifícios à deusa, porém sempre que possível ela conversava com os escravos e futuros sacrifícios a respeito. Fazia com que eles vissem a glória daquele ato, a glória de serem sacrificados para a grande deusa dos drows. Aqueles que ela percebia não terem compreendido, viviam por mais alguns dias, até compreenderem minimamente que seu destino era inevitável e se entregassem a Lolth em seus últimos momentos. Muitos dos escravos viam uma nobreza por parte da clériga que não viam em outras, e a respeitavam por isso.

– O que você faz é um sacrilégio! O medo é nossa maior arma, suavizá-lo vai contra os ensinamentos de Lolth – diziam suas irmãs clérigas, apenas para escutar a resposta seca de Sabal.

– É Lolth quem deve me julgar.

Percebendo que os escravos não atacariam, as irmãs de Sabal resolveram atacá-la, mas rapidamente foram executadas pelos goblins que as atingiram com uma grande quantidade de flechas. Nasshna tentou não demonstrar seu medo ao ver que a tática de sua filha havia sido mais eficaz que a sua de incitar medo nos escravos e iniciou orações para invocar os poderes da deusa. Porém, antes de conseguir completar as magias, os minotauros a atacaram e a mutilaram sem muitos esforços.

Sabendo que sua situação estava complicada, Sabal convenceu os escravos de que precisaria da ajuda deles para poder fugir com vida. Esses prontamente aceitaram fazer o que fosse preciso para ajudá-la. Como se estivessem preparados para que algo não corresse como planejado, os guerreiros que seguiam ordens diretas de Nasshna tentaram interceptar a fuga de Sabal, mas foram contidos pelos escravos que a acompanhavam em uma luta feroz. Todos os escravos morreram, porém não sem dar baixas no grupo de guerreiros. O tempo dessa luta foi suficiente para que ela alcançasse uma das saídas do palácio. As notícias se espalharam e um grupo de busca foi feito para caçar a desertora. A Matrona Ysraena não deu tanta importancia para o acontecimento, pois era uma menina estúpida que deixava a Casa Agrach Dyrr, o que resultou em poucos participantes na busca. O principal era Mariv que, conhecendo bem Sabal, sabia por onde ela iria e como evitar os escravos.

No momento em que Sabal está para deixar o palácio, Mariv a intercepta:

– Sabal, desista. Não há porquê você continuar com isso. Se você sobreviver a essa fuga estará arruinada socialmente. Pare e pense, vale a pena se rebelar contra sua própria Casa? – apontando seu sabre para a clériga de Lolth da Segunda Grande Casa de Menzoberranzan o guerreiro demonstra seu respeito apenas não a olhando diretamente nos olhos.

– Mariv abaixe essa espada. Posso não mais ter uma Casa, mas continuo sendo uma clériga de Lolth. – o guerreiro abaixa o sabre – Ótimo. Agora podemos conversar.

Abaixando a cabeça em sinal de vergonha o guerreiro espera algum castigo vindo da clériga, mas nada acontece. Então com uma voz baixa e respeitosa ele diz:

– Senhora, não faça isso. Morra nas mãos de seus familiares, é menos vergonhoso do que se tornar uma sem-Casa.

Sabal Dyrr toca o ombro daquele que lhe ensinou a manejar a morningstar e sente uma leve tremida, algo natural vindo de um macho. Falando suavemente ela tenta confortá-lo.

– Me escute Mariv, nossa Casa se corrompeu. Você não vê que quem a comanda é o velho Dyrr? Não há glória nenhuma em eu morrer como uma Dyrr e muito menos em viver como uma. Deixe-me ir. É o que Lolth quer.

O guerreiro levanta a cabeça vagarosamente. Espantado com a atitude da clériga, mas logo ele lembra o porquê Sabal era tão desdenhada por suas irmãs e o espanto passa. A afeição que ele sente por ela é muito grande, o que o incomoda. Ela não é muito bonita para os padrões dos drows. Sem a armadura ela se confundiria facilmente em uma multidão em Mezobenranzan. Mas ela sempre foi o que os povos da superfície chamam de “simpática”. Sempre tratou os outros de uma forma que a tornava fraca diante dos olhos das irmãs, mas nenhuma nunca conseguiu provar sua fraqueza. Na verdade muitas clérigas já provaram sua força e muitos guerreiros já caíram diante sua morningstar.

– Não posso deixá-la ir. Seu argumento é forte, mas não posso deixar de lado o que nossa Matrona me ordenou. Sinto muito. – por um momento Mariv fraqueja e abaixa a cabeça em sinal de vergonha novamente, o que é suficiente para que sua cabeça seja atingida pelo peso da arma de Sabal.

Mariv sente seu corpo se contorcer involutariamente devido à eletricidade conduzida pela arma e cai atordoado tateando o chão para encontrar seu sabre. Quando sua mão toca o cabo do sabre ele escuta a voz amigável da clériga.

– Eu também sinto muito, Mariv. – e um forte golpe dilacera a face do guerreiro que cai morto no chão com seu corpo tremendo.

Sabal Dyrr observa o cadáver do guerreiro e pensa no único lugar que pode lhe abrigar nesse momento: o Braeryn

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