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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (parte 4)

            – Então vamos ver quem é a mais poderosa? – Sol’al escuta o que parece ser o final da discussão entre as duas clérigas, vindo em baixo drow da boca da Dyrr.

            Desde que a clériga Xorlarrin chamou a atenção de Alak, as duas clérigas estão discutindo firmemente. Sol’al, do início da discussão até o momento, está apenas observando o embate, sem tomar partido. “Vamos ver quem demonstra mais poder”, observa o mago enquanto reflete qual seria o melhor curso de ação a realizar. Com certeza em sua mente não se passa nenhuma idéia de entrar em confronto com qualquer clériga de Lolth, mas, mesmo assim, ele precisa ser capaz de escolher qual seria mais vantajosa de ter como aliada.

            – Nossa deusa está em silêncio, você sabe disso. – responde a clériga Xorlarrin, obviamente tentando contornar a situação.

            Sol’al sente uma ponta de decepção se misturar com o resto de ansiedade – que ele estava sentindo por ter passado pelo ninho abandonado – ao ver uma atitude medíocre de sua Senhora Xorlarrin.

            – E o que isso importa? Nossa deusa prega a busca por poder, não? Nosso objetivo não é cada vez ser mais poderosas? – inquire a clériga Dyrr, com um olhar ameaçador – Tamanha dependência de suas magias mostra apenas sua fraqueza.

            Sol’al se espanta com o imenso pragmatismo vindo da clériga e sente que seu coração concordou com cada palavra dela e, pelo que ele observa, a Xorlarrin também concordou. Vendo a Dyrr segurar sua maça com a mão direita, Sol’al percebe a Xorlarrin tremendo diante de uma oponente mais forte.

            Por mais que a aparência da Xorlarrin seja mais bela e sedutora, a Dyrr é mais ameaçadora e imponente. O semblante de liderança é facilmente perceptível nessa clériga.

            Sol’al observa a situação esperando uma reação da Xorlarrin, que não surge. Ele olha ao redor para tentar ver o que se passa no semblante de cada um que lá se encontra. Rizzen está apreensivo. “Ele sabe que se sua clériga desistir, será vergonhoso para sua Casa”, conclui mentalmente Sol’al. Alak já percebeu a superioridade da outra clériga e demonstra não estar ligando muito para o embate. O mercenário parece saber que não ocorrerá confronto físico, pois se tivesse alguma chance de ocorrer tal confronto, ele teria que estar preparado para proteger a Xorlarrin. “A não ser que ele quebre seu contrato de proteção. Ou que tenha sido a própria Dyrr que o tenha contratado”, reflete o mago.

            Os inferiores ele nem se preocupa em analisar, mas percebe que todos estão de olho no confronto, menos o goblin musculoso que está na boca do túnel, observando a caverna de onde vem o batuque dos tambores. “O que será que tem naquela caverna?”, se pergunta Sol’al quando sua atenção volta ao embate das servas de Lolth graças a uma forte risada da clériga Dyrr.

            – Patética. – comenta ela, balançando negativamente a cabeça.

            “Arrogante demais para uma líder de um culto herege”, se decepciona Sol’al.

            – Façam o que ela pedir. – diz a clériga Dyrr aos seus companheiros em subterrâneo comum.

            – Como? – o gnoll pergunta – Desculpe, Senhora, mas não entendi o porquê.

            Sol’al olha para a Dyrr, também estupefato.

            – Um confronto com eles seria inútil. Deixe que eles sigam essa tola. – responde ela em goblinóide para o gnoll.

            O mago compreende e resolve esperar para ver. Provavelmente a Xorlarrin irá querer algum tipo de punição para esse grupo e a morte da clériga. Ou talvez não, apenas a morte dos inferiores e a humilhação da herege. “Acho que nem mesmo a Casa Agrach Dyrr se importaria com isso”, comenta Sol’al mentalmente com um sorriso no rosto.

            – Mago, chame o ogro. – ordena a clériga a Sol’al, sem tirar o olho da Dyrr e ainda tremendo – Rápido!

            Sem entender, o mago Teken’Th’Tlar sai correndo em direção a abertura do túnel pelo qual entraram. No caminho, a ordem passa a fazer sentido. “Antes de tentar algo contra o grupo herege, ela parece querer se sentir mais segura. Afinal, o ogro também foi contratado para protegê-la”, raciocina Sol’al, se decepcionando ainda mais com a fraqueza da Xorlarrin. “Se Lolth estivesse ativa…”. Várias possibilidades passam pela mente de Sol’al, e nenhuma muito agradável para a clériga mais fraca.

            – Mercenário! Você está sendo convocado. – grita o mago para Brum, que logo começa a escalar.

            – Virou garoto de recados, maguinho? – pergunta Brum sarcasticamente.

            Ignorando o ogro e sem perder tempo, Sol’al parte de volta para ver se algo está ocorrendo. Ao chegar ele vê a mesma cena, como se nada tivesse mudado. Apenas o goblin musculoso se juntou à roda.

            – Então? O que você vai querer de nós? – pergunta a Dyrr, quebrando o que parecia ser um longo silêncio.

            – Larguem suas armas. – responde a Xorlarrin, ainda com as mãos fraquejando.

            “Até que sua voz está conseguindo esconder o medo e a raiva”, comenta consigo mesmo Sol’al.

            – Façam isso. – ordena a clériga Dyrr aos seus fiéis, com um sorriso no rosto.

            O goblin robusto olha com desconfiança para a clériga de seu culto, mas um olhar confidente por parte dela acaba fazendo com que ele coloque seus machados e sua zarabatana ao chão. A própria clériga Dyrr coloca sua morningstar e seu escudo junto aos machados do goblin e o gnoll deita sua halbert próximo ao monte. Ele espera que a kobold tire algo do seu robe, mas ela nada faz. O mago até pensa em pedir para que a Xorlarrin ordene que a pequena reptiliana jogue fora todos seus componentes mágicos – sim, é perceptível que ela é uma maga ou feiticeira -, mas prefere deixar o culto herege com uma pequena vantagem. Sua lealdade ainda não está tão clara em sua mente, afinal a Dyrr ainda é mais forte que a Xorlarrin, e mais confiante também.

            De trás, o mago escuta os passos ruidosos de Brum. Antes mesmo que esse chegue junto ao grupo a Xorlarrin grita em subterrâneo comum:

            – Ogro, pegue essas armas e cuide delas!

            Sol’al sente a surpresa abrir involuntariamente sua boca. Além de a clériga ter falado diretamente com o inferior, ela ainda utilizou uma língua baixa. “Ela não está com medo, ela está desesperada”, pensa Sol’al. O próprio Brum é pego de surpresa com a ordem e perde alguns segundos raciocinando se o que ele escutou é real.

            Logo que a surpresa passa, Brum vai até o monte de armas e as coloca no grande escudo utilizado pela Dyrr, como em uma bandeja. Porém, ao tentar levantar o escudo, Brum nem mesmo consegue movê-lo, como se tivesse grudado no chão. Sol’al vê a cena e percebe instantaneamente que o escudo é mágico e que a clériga Dyrr já esperava por uma cena semelhante.

            Sem perder tempo, o mago conjura uma magia para detectar objetos mágicos e percebe que não só o escudo o é, mas também os dois machados do goblin e a morningstar da clériga, além da armadura que ela está usando e alguns outros itens que estão em posse dos hereges e dos Xorlarrin. Por curiosidade, Sol’al olha para os mercenários também e reconhece a aura mágica apenas nas espadas de Alak, pois Brum não tem nada mágico com ele.

            “As espadas de Alak… Parecem…”, algo nelas atiça a curiosidade do mago enquanto a conversa ao seu redor prossegue.

            – Deixe o escudo no chão. Pegue as armas. – ordena a Xorlarrin ainda em subterrâneo comum.

            A nova ordem da clériga dispersa a atenção que Sol’al estava colocando sobre a espada de Alak, que ao perceber os olhos do mago em sua direção, escondeu melhor suas duas amigas.

            – Sim, Senhora. – responde Brum, pegando todas as armas no colo e deixando o escudo no chão.

            – Ogro! Qual é seu nome? – pergunta a clériga Dyrr a Brum, fazendo com que Sol’al se espante com a delicadeza da pergunta.

            – Brum. – responde Brum, também espantado.

            – Não fale com ela! – grita a Xorlarrin.

            – Não precisa responder para mim, Brum. Só tenha cuidado com a minha morningstar, pois ela pode te machucar se tocá-la diretamente. – avisa a clériga.

            O olhar da Xorlarrin se enche de ódio pela falta de respeito da Dyrr.

            – Mercenário, cuide deles. – ordena a Xorlarrin a Alak, voltando a conversar em baixo-drow – Diga ao inferior para se afastar da inferior.

            – Sim, Senhora. – responde Alak, enquanto a sua protegida se afasta para a boca do túnel junto com Rizzen. Sol’al os acompanha.

            – Avise-os para não chegar tão próximo da beirada, pois eles podem ser vistos. – Sol’al escuta a Dyrr falar com Alak.

            – Senhora…

            – Não repita o que ela disse. – a Xorlarrin ameaça o mercenário, mas mesmo assim mantém uma certa distância da beirada da boca do túnel.

            Rizzen e ela já estão observando o acampamento quando Sol’al se junta a eles. Ele olha para a grande caverna e vê vários acampamentos. Vários orcs tocando tambores em homenagem a algo. Um draegloth parecendo estar comandando os inferiores. Achando estranho a presença de um draegloth naquele local, o mago se concentra nele e tenta encontrar alguma insígnia ou sinal que denuncie sua Casa. Sol’al não se surpreende quando vê a insígnia dos Xorlarrin segurando a tanga de pele que o meio-abissal usa.

            Com um sorriso de satisfação por ter descoberto parcialmente o que está ocorrendo, Sol’al começa a observar os outros acampamentos. Ele vê orogs, humanos, hobgoblins, goblins, vários de raças inferiores, escravos e livres. O símbolo no centro do acampamento desperta em muito a curiosidade do mago a respeito do que eles estão fazendo naquela caverna, mas quando ele está prestes a se concentrar para decorar os símbolos que estão sendo utilizados, o canto de seu olho prega uma peça.

            “Um drider?”, se pergunta ao ver um vulto passando no acampamento ao lado direito do símbolo. Ele vira-se para ver se é o tal drider aranha espectral que se encontra lá, mas logo ao se virar um estranhamento toma conta de sua mente. Ele vê vários drows tatuados com algo que parecem runas de cor branca, utilizando armaduras que se assemelham a exoesqueletos. Para seu maior assombro, seus olhos se deparam com o drider do qual ele havia visto o vulto. Não é o drider aranha espectral, mas sim um amálgama de drow e escorpião.

            “Por Lolth! O que será isso?”, se pergunta Sol’al, boquiaberto.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 1)

            – Você dorme muito pouco para um goblin. – comenta Sabal Dyrr ao guardião do culto herege do qual faz parte.

            – Não começa. – corta o robusto meio-goblin-meio-algo secamente, enquanto observa a boca do túnel na qual eles chegaram após ultrapassar tantas armadilhas.

            Ninguém do grupo de Sabal se feriu, graças a ação coordenada das habilidades de todos os membros. Graças a Mirka eles descobriram e utilizaram os colares que permitiam a passagem dos orcs pelas armadilhas mágicas sem acioná-las. Enquanto as armadilhas físicas eram desarmadas por Stongest, que se concentrou apenas nisso, Gromsh observava os rastros deixados pelos orcs, o que foi útil nas duas vezes em que os túneis se bifurcaram. Enquanto isso, Sabal decifrava as orações e ajudava Mirka a compreender como a magia “divina”, o que para Mirka soava mais como profana, auxiliava as magias arcanas naquela situação.

            Ao caminhar pelos túneis aos poucos eles foram descobrindo que havia algo bem maior envolvendo os orcs. “Quem é Shormongur?”, se perguntou várias vezes Sabal. Infelizmente Mirka não estudou em Sorcere, portanto seu conhecimento sobre demônios e diabos era precário. Ela é a melhor maga Kobold que Sabal já conheceu, mas seus conhecimentos se limitavam a dragões, draconianos e humanos. Mesmo sem auxílio, Sabal tinha conhecimento sobre algumas poucas coisas, mas o máximo que ela conseguiu descobrir através do símbolo que sintetiza o nome do demônio, foi que Shormongur é um Glabrezu.

            Foi necessário um estudo analítico a respeito do símbolo que custou a eles um tempo razoável. “Mas pelo menos conseguimos uma certa vantagem sobre esse culto. Não estamos enfrentando um inimigo totalmente misterioso”, justificou mentalmente Sabal, quando percebeu que havia demorado muito para descobrir tão pouco.

            – O que você está vendo, Stongest? – Sabal pergunta ao guardião, enquanto esse observa atentamente algo que se encontra fora do túnel, em altura inferior.

            – Um g’upo. T’ês d’ows estão no chão e um está descendo uma co’da, enquanto um og’o mago está espe’ando sua vez pa’a desce’. – responde Stongest quase em sussurros, fazendo com que a clériga tenha que se esforçar para escutar melhor o que o guardião está dizendo, pois o som de uma queda d’água está forte o suficiente para atrapalhar a comunicação.

            – Interessante… Mas o que será que um ogro mago está fazendo com um grupo de drows? – pergunta, intrigada, a ex-clériga Dyrr.

            – Esc’avo. Me’cená’io. Qualque’ uma dessas coisas. Há uma clé’iga de Lolth ent’e eles e um mago. Pelo menos é o que pa’ece. – responde Stongest, sem tirar seu olhar atento do grupo que se encontra ao chão da imensa caverna oval.

            Sabal reflete sobre as informações do guardião enquanto olha para Mirka, que está dormindo, e para Gromsh, que está fixamente atento para o outro lado do túnel.

            – Como é a insígnia deles? – pergunta a clériga em um estalo mental.

            – Como? – pergunta Stongest confuso, mas sem tirar os olhos do grupo.

            – Me descreva a insígnia deles. Assim descobriremos a Casa a qual eles pertencem. – explica ela ao experiente goblin.

            – Deixe-me ve’. – responde Stongest, se concentrando no serviço que Sabal lhe pediu. Aos poucos ele vai desenhando uma runa no chão poeirento próximo a ele, enquanto observa sem parar a insígnia no peito da clériga – Está aqui.

            Sabal se levanta e caminha até o local do desenho.

            – Q’Xorlarrin. – comenta ela aproveitando que estava perto da boca do túnel e observando o grupo parado próximo a um grande lago e um imenso ogro mago descendo uma corda fina se comparada a suas proporções.

            Ela dá alguns passos para trás quando Stongest faz sinal para ela se afastar.

            – O’cs. – comenta ele, mostrando com acenos de cabeça os locais onde se encontram alguns orcs armados com grandes bestas.

            Sabal percebe que os orcs estão concentrados no grupo recém chegado e volta-se ao gnoll.

            – Gromsh, prepare-se. Talvez precisaremos entrar em combate. – avisa a clériga ao seu companheiro.

            – Finalmente. – comenta o gnoll rindo.

            – Depois que estiver mais calma a situação, você descansa um pouco, certo? – pergunta a clériga.

            – Não esquenta, Senhora. Ocê nunca vai encotrá gnoll mais resistente que eu. – responde Gromsh com um meio sorriso em seu rosto, que mostra apenas as pontas de seu canino do lado esquerdo de seu rosto.

            Sabal sorri e vira novamente em direção de Stongest enquanto Gromsh lhe faz uma pergunta:

            – Acorda a Mirka, Senhora?

            – Não. Eu cuidarei dela. Você e Stongest são os mais furtivos, eu iria apenas atrapalhar. Não queremos chamar a atenção. – responde Sabal enquanto faz um sinal de mão negativo ao seu companheiro.

            – Certo. – responde o gnoll.

            A clériga se aproxima novamente do goblin.

            – Stongest, você acha que eles nos viram? – pergunta ela, sussurrando próxima ao ouvido de Stongest.

            – Os o’cs ou o g’upo?

            – Os dois.

            – Os o’cs não. Um dos que está no g’upo lá de baixo foi quem nos obse’vou no início do túnel. Ele pa’ece te’ pe’cebido os o’cs e pe’cebido que há algo aqui. – responde o guardião refletindo sobre o assunto.

            – Entendo. Vamos esperar eles iniciarem um ataque contra os orcs para eliminarmos aqueles que podem vir a nos dar trabalho. – comanda Sabal ao guardião.

            – É o que eu p’etendia. – responde Stongest secamente.

            – Certo. – comenta, sentindo-se um tanto deslocada por ainda não ter se acostumado com a idéia de que um macho goblin tenha mais importância em um suposto culto a Lolth do que ela, uma clériga drow – Falarei com Gromsh.

            Stongest faz um aceno positivo com a cabeça e Sabal, ainda incomodada, inicia a conversa com o gnoll:

            – Gromsh, prepare-se. Quando o grupo que está lá embaixo começar um ataque contra os orcs, ou vice-versa, você se guiará pela indicação de Stongest e atacará o orc que poderia nos atrapalhar mais. – o gnoll a escuta atentamente quando ela dá uma pequena pausa antes de continuar – Será necessário uma grande habilidade em escalada. Você possui, não é Gromsh?

            – Sim, minha Senhora. – responde humildemente o gnoll.

            – Ótimo. Então junte-se ao Stongest. – ordena ela, olhando novamente para Mirka enquanto reflete – Stongest?

            – Diga, Sabal. – pergunta o goblin.

            – Você lembra quando os boatos sobre as fugas de orcs no Braeryn começaram, não é? – questiona a clériga ainda olhando para Mirka, que dorme como uma criança não drow, sem preocupação alguma.

            – Sim, me reco’do. – o goblin responde.

            – Você lembra quais ou qual Casa era comentada nesses boatos? Era a Q’Xorlarrin, não era? – pergunta a clériga.

            – Sim, e a Fey-B’anche. – responde brevemente o guardião.

            Sabal olha para o final do túnel onde estão Stongest e Gromsh, e sorri. Tudo começa a ficar mais interessante e curioso na cabeça da ex-Dyrr. Um culto de orcs à um glabrezu. Um grupo formado por uma clériga de uma das Casas nobres de onde fugiram alguns dos orcs escravos que possivelmente estão envolvidos no culto.

            – A Senhora viu que há algumas teias no túnel onde aquele orc se encontra? – pergunta Gromsh, apontando para um dos túneis no alto à esquerda do deles.

            – Bom sinal. – comenta ela, ainda sorrindo.

            “Espero que os Xorlarrin não demorem a iniciar o espetáculo”, comenta consigo Sabal.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 3)

Stongest leva mais carne de lagarto para a boca enquanto tenta escutar algo que preste nas conversas que ocorrem ao seu redor. Sabal apenas toma mais um gole de seu vinho de cogumelo enquanto também tenta selecionar da melhor forma possível o que está sendo conversado naquele ambiente. Já tem alguns minutos que os dois estão sentados na mesa da taverna apenas se “alimentando”.

Faz dois dias que eles chegaram ao Bazaar. Nesse pequeno espaço de tempo eles conseguiram saber que algum batedor da Casa Agrach Dyrr descobriu a respeito de um exército de duergars que estava vindo na direção de Menzoberranzan, algo que apenas fortificou o boato que um escravo Dyrr havia lhe passado recentemente. Segundo outros boatos, as Casas Maiores estavam preparando um ataque aos duergars no meio do percurso. O local exato eles não descobriram.

Hoje o dia está totalmente infrutífero. Percebendo que eles não conseguirão nada de útil apenas escutando, Stongest prefere comentar alto algo que está passando por sua cabeça enquanto ele come aquele pedaço de carne suculenta.

– Acho que se’ia inte’essante leva’mos algumas dessas ca’nes pa’a os fieis. Eles vão fica’ f’acos comendo apenas cogumelos. – diz em goblinoide o quase-goblin em meio a mastigadas.

Sabal, ao perceber que Stongest estava falando, retorna como se estivesse em um reverie profundo.

– Como? – pergunta a clériga.

– Eu disse pa’a leva’mos comida pa’a o pessoal. Eles estão p’ecisando. – responde Stongest, olhando sério para ela.

– Ah sim. Com certeza. Temos que levar alguma comida para a viagem também se pretendemos realmente encontrar o filho da Do’Urden. Digo, de Lolth. – diz a clériga também em globinóide, se corrigindo imediatamente quando vê o olhar de desaprovação do meio-goblin-meio-algo.

– Se você não ac’edita, po’ que aceitou consegui’ fieis pa’a ela? – pergunta seriamente Stongest enquanto morde mais um pedaço da carne e toma um gole da cerveja em sua caneca.

Sabal o olha fixamente e sorri.

– Stongest, seja sincero. Você acredita mesmo que ela é Lolth? A Deusa-demônio das Aranhas, encarnada? – pergunta a clériga enquanto o goblin responde positivamente com um aceno de cabeça – Pois eu não. Minha deusa nada me disse a respeito de enviar uma manifestação para o plano material.

– Então po’ que você a se’ve, se não ac’edita? – pergunta Stongest ainda mastigando a carne.

– Eu não a sirvo Stongest. Eu sirvo Lolth. A Do’Urden pode ser muito útil para os propósitos de minha deusa. Afinal, cada seguidor que “ela” consegue, louvará Lolth. Não ela, mas Lolth. – responde Sabal sorrindo.

O meio-goblin engole a carne e sorri como se tivesse acabado de escutar uma tolice.

– Eu já acho que louva’ão Lolth, como a ‘ep’esentação do Caos, da Astúcia, do Pode’ e da Escu’idão.

– E do Mal? – interrompe Sabal introduzindo uma questão – Por que vocês nunca mencionaram o Mal? Se ela é a representação dos aspectos que minha deusa representa, por que vocês negligenciam um de seus aspectos?

Stongest toma mais um grande gole de cerveja e coloca a caneca na mesa antes de responder.

– Po’que esse aspecto diz ‘espeito a sua ‘aça e não a quem ela que’ alcança’ ago’a com um co’po mate’ial. – responde o meio-goblin olhando fixamente os olhos da clériga como se tivesse certeza da resposta.

– Não faz sentido, Stongest. O que faz sentido é que ela não é a deusa e sim uma tentativa falha de uma louca em transformar sua filha, ou seja lá o que, em algo divino. – diz Sabal ignorando o olhar severo de Stongest – Estou com ela, pois ela pode ser a chave para aumentar o poder e a área de influência de minha deusa.

– Você ainda não sabe o que é te’ Fé de ve’dade, Sabal. – diz secamente o meio-goblin à drow, que gargalha.

– Você está falando com uma clériga, goblin. Se eu não soubesse o que é ter fé, nunca iria conseguir conjurar as bênçãos de minha deusa. – responde a ex-Dyrr como se falasse algo óbvio.

– Você tem fé em algo que não está em você. Você não sabe o que é te’ Fé ve’dadei’a, clé’iga. – responde Stongest ainda sério e seco.

O rosto de Sabal torna-se raivoso, algo que nunca havia ocorrido em qualquer outra conversa com Stongest.

– Stongest! Não fale sobre o que você não conhece. Você tem fé em uma mortal que foi criada para ser uma falsa-deusa. Você é um infiel. Não terá nem mesmo para onde ir quando morrer. – diz Sabal com um tom bem mais seco e severo do que de costume – Tente entender Stongest, sua fé é que é falsa.

– Eu não tenho fé na pessoa, mas no que ela ‘ep’esenta. Eu tenho Fé naquilo que ela me fez ve’ em mim mesmo. – retruca o meio-goblin após um gole de cerveja que finaliza a bebida de dentro da caneca – Você sabe do que estou falando, sentiu isso quando ela lhe aceitou como sendo uma extensão sua.

– Eu sei que aquilo foi uma experiência estranha, Stongest. Eu não posso negar que fiquei dias, até meses sem saber se acreditava ou não naquilo tudo, mas agora que ela partiu em viagem e está longe, consegui refletir e não faz nenhum sentido. – se justifica Sabal.

– E é p’a faze’? – pergunta Stongest colocando sua caneca e seu prato de lado – O que ela semp’e p’egou é que a ve’dadei’a Fé só é possível quando você enca’na aquilo que ac’edita. Você não conco’da com isso?

– Concordo. Mas me diz: minha sociedade não encarna todos os aspectos de nossa deusa? – responde Sabal como se estivesse dizendo algo óbvio, tomando logo após o último gole de seu vinho de cogumelo.

– Enca’na o que eles vêem em uma entidade exte’io’. Eles não enca’nam o aspecto que eles possuem inte’io’mente. – responde Stongest.

– Qual a diferença? Não vejo nenhuma. – retruca Sabal achando aquilo tudo muito ilógico.

– Há uma g’ande dife’ença Sabal. Da fo’ma que fazem, vocês apenas se’vem algo ou alguém. Vocês estão sujeitos a decepções, a dúvidas e a questionamentos. – começa responder Stongest olhando ao redor – Você ouviu alguns dos comentá’ios a respeito do “sumiço” da sua deusa, não é? Você sabe que muitos de seus fieis i’ão pa’a out’os deuses em busca do mesmo ab’igo que eles tinham em suas teias. Muitas de suas i’mãs clé’igas fa’ão isso. Você sabe que é ve’dade. Que é questão de sob’evivencia. Essa é a falha do seu tipo de fé.

Sabal olha espantada para Stongest como se não acreditasse que aquele goblin extremamente robusto fosse capaz de tamanho raciocínio.

– O nosso tipo de Fé, p’ega que devemos se’ um só com nossa divindade. Um só com aquilo que ela ‘ep’esenta. Lolth não está aqui e pode nunca mais volta’, mas eu continuo sendo um com ela. Mi’ka sob’evive’á mesmo que sozinha, algo ext’emamente difícil pa’a alguém de sua ‘aça, po’que ela é uma só com sua divindade. Ela é astúcia, ela não louva a astúcia, e isso a mante’á apta a sob’evive’. Você sentiu o que é se’ uma com sua divindade. Ac’edito que vá’ias vezes você sentiu isso em suas meditações ou ao senti’ o pode’ de sua deusa at’avessa’ o seu co’po, mas a última vez que você sentiu isso foi quando conheceu Lolth. A Lolth que eu p’otejo.

A clériga não consegue responder, apenas fica olhando para o goblin ainda com cara de espanto, como se não acreditasse que aquilo tudo estava saindo de sua boca.

– Você ainda não tem Fé de ve’dade Sabal, mas com o tempo e vivência i’á entende’ o que eu digo. – Stongest finaliza o assunto.

– Veremos. – diz Sabal ainda pasma.

Stongest dá mais uma olhada ao redor. A taverna está cheia, com vários comerciantes e mercenários bebendo e comendo. Ele tenta escutar alguma coisa ao seu redor, mas não ouve nada de útil até Sabal o interromper.

– Me conte mais a respeito do filho de Lolth. Como ele nasceu já sendo um drider? – pergunta a clériga que até o momento não tirou os olhos de seu pequeno e forte companheiro.

– Não sei. Sei que eu estava junto e uma espécie de casulo saiu dela no lugar de uma c’iança. Um pouco depois o casulo começou a se ‘ompe’ e apa’ece’am as patas de uma a’anha, e só depois os b’aços de um d’ow. – diz Stongest olhando Sabal nos olhos.

– E com quem ela o deixou?

– Com uma Vae’uniana que ju’ou c’iá-lo pa’a odiá-la o máximo possível. – responde como se fosse algo sem importância.

– Você está falando sério, Stongest? – pergunta Sabal duvidosamente.

– Sim. – responde rapidamente o goblin que passa a olhar de canto de olho para um Ogro e um drow que passam perto de sua mesa.

– Para que iremos atrás do filho de Lolth se ele é um inimigo em potencial? – pergunta Sabal incrédula.

– Pois nada é imutável, e um d’ide’ se’ia um g’ande aliado pa’a nossa ig’eja. – responde o meio-goblin sem perder os dois de vista.

Sabal percebe que o drow que acompanha o ogro a está olhando curiosamente e sabe o porquê. Não é a primeira vez que ela é observada daquela maneira em sua vida. Dando de ombros, ela apenas sorri para Stongest e continua falando em goblinoide.

– Espero que você esteja certo. Então vamos parar de perder tempo e nos preparar para encontrar o filho de Lolth.

– Sim. – concorda Stongest se levantando e indo comprar comida para a viagem e para os outros fieis, enquanto Sabal observa a dupla bizarra subindo as escadas para o dormitório da taverna.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 3)

– SACRILÉGIO!!! – Sabal Dyrr sente a fúria tomar seu corpo completamente – COMO OUSA USAR O NOME DA DEUSA COMO SE FOSSE ELA?!

Lolth a observa, com um sorriso no rosto, pacientemente enquanto Stongest encara de baixo para cima a clériga que já pertenceu a Segunda Casa Maior de Menzoberranzan. Faz dois anos que Sabal se mudou para o Braeryn, mas apenas algumas semanas que ela descobriu um culto a Lolth feito por escravos. Esse fato não a havia afetado até o momento em que ela descobriu que a suposta Lolth que os inferiores estavam cultuando nada mais era que uma drow.

– COMO OUSA SE PASSAR PELA RAINHA DAS ARANHAS?! – grita novamente a clériga enquanto a pseudo-deusa a encara tranqüilamente, ainda com um sorriso no rosto.

– ‘Espeito ao se di’igi’ a Lolth. – Stongest interrompe o monólogo rosnando entre os dentes com um de seus machados na mão.

– E por acaso quem é você? Selvetarm? – responde Sabal, complementando com um sorriso sarcástico no rosto.

A clériga encara aquele goblin estranho. Por mais que ela perceba o sangue goblin nele, há algo fora do comum no ser baixinho e troncudo. “Que tipo de ‘coisas’ são essas?” se pergunta a ex-Dyrr, antes de voltar o seu olhar a Lolth. Seguindo o contorno do corpo da pseudo-deusa, Sabal se atordoa momentaneamente com a beleza daquela drow, mas logo sacode a cabeça e retorna a atenção à heresia que está ocorrendo no Braeryn. Nesse momento ela percebe em Lolth uma insígnia que se assemelha a uma aranha com armas nas oito patas.

– Você é uma Do’Urden? – pergunta Sabal sem conseguir esconder sua surpresa.

– Não. Minha mãe era. – responde suavemente Lolth, sorrindo para Sabal – Está mais calma? Podemos conversar agora?

– Não tenho o que conversar com uma herege! Em honra a minha deusa devo apenas eliminá-la! – a surpresa torna-se raiva novamente.

Sabal tenta dar um passo a frente empunhando sua morningstar, mas é barrada por Stongest que saca seu outro machado. Subestimando aquela coisa-goblin Sabal tenta colocá-lo de lado com seu grande escudo, mas se surpreende quando esse age mais rápido e rola para trás de seu corpo desferindo um golpe em um ponto falho de sua armadura entre uma camada de placa e outra.

– Stongest! Pare! – Sabal sente a lâmina do machado do goblin tocando seu corpo através de sua piwafwi. “Maldita! Deixe-o terminar o serviço”, pragueja a clériga a si mesma, sem saber o que fazer – Ela já entendeu o recado.

Sabal encara Lolth, que não está mais sorrindo, e sim com um olhar severo. A clériga sente um calafrio lhe percorrer o corpo. A imagem daquela drow a atordoa, não só por sua beleza, mas pela forma que age. Em nenhum momento ela sentiu medo de Sabal. Em nenhum momento a tal Do’Urden desviou o olhar da clériga, e isso nunca foi algo comum.

– O que você quer Do’Urden? – pergunta a ex-Dyrr com uma mistura de raiva e espanto.

– Quero que você seja a líder espiritual dos escravos que me seguem. – responde Lolth retomando o sorriso em seu rosto.

Um momento de confusão atinge a mente de Sabal. Ela não sente mais a lâmina do machado de Stongest, mas mesmo assim continua paralisada sem saber como agir. Ela observa a pseudodeusa com um olhar confuso. “Será que isso tudo faz parte de algum plano da deusa?”, pergunta-se a clériga sem desviar o olhar confuso da herege. “Não. Não pode ser” responde a si mesma.

– Você quer que eu participe dessa heresia? Você é louca?

– Não há heresia alguma aqui. Os escravos que fazem parte do culto louvam a Lolth. Sou a manifestação dos aspectos que Lolth representa. Assim eles me vêem. – responde Lolth mantendo toda serenidade do início da conversa, mesmo quando Sabal dispara a gargalhar.

– Você realmente é louca, Do’Urden! Como você quer que eu acredite nisso? Você acha mesmo que servirei a uma falsa deusa? A uma mera drow que tenta se passar pela Rainha dos Fossos de Teias Demoníacas? – a clériga ri com desdém antes de prosseguir – Me surpreende que nenhum Yochlol tenha vindo eliminá-la.

– Talvez você esteja aqui para isso. Para me eliminar. – responde Lolth enquanto caminha para perto de Sabal – Ou talvez você tenha me encontrado por que eu quis assim.

Sabal desfaz o sorriso sarcástico e encara Lolth seriamente.

– Não quero que você me sirva, quero que você me compreenda. Eu não sou a sua deusa, pois não procuro sua veneração. Sou o Caos, a astúcia, o assassinato, a tecelã, a escuridão, o poder. Sou Lolth.

A feição de Lolth se torna séria e imponente. A ex-Dyrr hesita. Sente o calafrio aumentar. “Quem é ela?” se pergunta estupefata.

– Compreenda, Sabal: você nunca me servirá enquanto me vir como uma drow ou uma deusa. Você apenas servirá Lolth de forma completa quando você compreender que somos uma.

Quebrando seu próprio transe, Sabal volta a falar com a voz falha:

– V-você é louca.

Lolth gargalha. Uma risada bela e gostosa, ao mesmo tempo com um leve tom que faz Stongest lembrar de Vishnara.

– Sou? Você ainda não compreendeu, Sabal? Eu sou o Caos.

“Você já está começando a me convencer disso” pensa a clériga ironicamente emendando uma pergunta:

– O que você propõe?

– Eu vi a forma com a qual você lida com os seres de outras raças. Vi a forma com a qual se adapta às situações em que você se encontrou. Você já encarnou a astúcia, e possui uma grande característica do caos: a adaptabilidade. Quero que você me ajude a guiar os escravos no caminho da verdadeira Fé. A Fé que você está desenvolvendo em seu íntimo.

Sabal não consegue segurar o pequeno riso de espanto que lhe escapa pela boca.

– Você quer que eu seja sua clériga?

Lolth sorri e se aproxima mais da clériga. Stongest caminha até a porta do templo, se afastando das duas.

– Quero que não haja diferença entre eu e você Sabal Dyrr. Da mesma forma que não há diferença entre eu e Stongest. Nem entre eu e Mirka ou eu e Gromsh.

– Isso me soa como estagnação, não como Caos. – responde Sabal.

– Ser igual a mim não é agir como eu ajo ou dizer o que eu digo. Ser igual a mim é ser o Caos, a Escuridão e todos os outros aspectos que represento. – complementa Lolth quase tocando a ex-Dyrr.

– É ser louca? – pergunta Sabal sentindo o calafrio aumentar cada vez mais, mas por algum motivo sem conseguir se afastar.

– Se é assim que me vê, é assim que deve ser. – Lolth sorri e toca sua delicada mão no rosto de Sabal, aproximando seus rostos.

Sabal sente seu corpo tremer, mas não consegue agir, como se estivesse encantada. Os lábios tocam, a mão de Lolth desliza pelo rosto de Sabal descendo além do pescoço. A clériga nada consegue fazer a não ser participar daquilo. A excitação toma conta. O calafrio dá lugar a um calor que sobe do abdômen ao peito. Enquanto uma das mãos de Lolth desliza pelo braço de Sabal, a outra segura sua mão. O calor do corpo da ex-Dyrr parece se misturar com o calor do corpo de Lolth, como se a sua armadura e a roupa da Do’Urden não existissem. As mãos se encontram suavemente e os lábios se desencontram vagarosamente.

– Nós não somos diferentes. – Sabal escuta a voz suave da encantadora drow em sua mente, como se tivesse passado despercebida por seus ouvidos.

Tremendo, Sabal se ajoelha.

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