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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (Parte 5)

            – Os Xorlarrin não estão atrás do culto herege à Lolth? – pergunta Riklaunim Teken’Th’Tlar, um mago sisudo e firme da pequena Casa de estudiosos ao seu subordinado: Jabor.

            – Isso mesmo, Senhor. Segundo a mensagem enviada por Sol’al, os Xorlarrin encontraram o culto, mas o ignoraram. Eles estão atrás de alguns “fugitivos”. – responde Jabor, seriamente.

            Riklaunim apóia o queixo em sua mão direita, que está com o cotovelo apoiado em sua escrivaninha, como se refletisse a respeito do que está sendo dito. Jabor observa o rosto de seu superior marcado pelas tatuagens características dos aracnomantes, acreditando que os pensamentos que estão passando pela mente dele sejam os mesmos que passaram em sua própria mente: “Os Xorlarrin estão com fortes rixas internas. Orghz provavelmente pediu nosso auxílio para vigiarmos os dois que foram designados para a tal missão”.

            – Você conversou com Orghz a respeito disso? – pergunta o aracnomante veterano.

            – Ainda não, Senhor. Estava esperando para ter essa conversa antes de tomar qualquer atitude. – responde Jabor, olhando para os olhos daquele que já foi seu professor, e que agora o encara com seriedade.

            – Não podemos deixar que essa missão venha trazer seqüelas a nossa Casa. Converse com Orghz e tire dele a maior quantidade de informações possíveis. – ordena ele, levantando-se de seu banco acolchoado.

            – Não se preocupe, Senhor. Farei isso. – responde Jabor com uma leve referência, também se levantando do seu acento.

            – Peça para Sol’al nos informar sobre tudo o que está ocorrendo, sem perder tempo. – conclui Riklaunim, fazendo um sinal para que Jabor se retire.

            O professor de Sol’al apenas inclina-se em aceitação e retira-se do quarto de estudos de seu antigo mestre. “Farei mais do que isso, Senhor. Vigiarei o grupo de Sol’al de ‘perto'”, conclui Jabor enquanto caminha pelos corredores da mansão Teken’Th’Tlar em direção ao quarto de estudos de seu aluno.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 3)

            Sentada e posicionada para iniciar uma meditação, Sabal Dyrr aguça seus sentidos e escuta alguns mínimos e discretos sons que denunciam o embate que está ocorrendo fora do túnel onde se encontra. A sua frente, a pequena kobold Mirka dorme tranqüila, com um leve sorriso no rosto, como se não houvesse motivo para nenhuma preocupação. “Como ela consegue?”, se pergunta a clériga olhando abismada para o rosto da kobold. O Underdark é um lugar extremamente hostil e perigoso, é inviável, na mente da clériga, que alguém que viva nos subterrâneos de Faêrun consiga dormir de forma tranqüíla e relaxada como Mirka dorme. Uma ou outra vez ela já testemunhou Gromsh e alguns dos falecidos pequenos também dormindo da mesma forma. Já Stongest, mesmo quando está dormindo não parece estar dormindo. Porém, o que lhe espanta necessariamente no caso de Mirka e de alguns outros pequenos, é que ela é uma kobold.

            “Eles são tão fracos”, ela comenta consigo enquanto recorda que os kobolds costumam viver em bandos coesos, justamente por não possuírem muita força individual. Ao contrário dos drows, os kobolds tiveram séculos de cultura enraizada na importância do grupo. Um kobold sozinho é praticamente ignorável, mas um grupo de kobolds é algo respeitável e em algumas situações temível. “Esses merdinhas não são nenhuma preocupação se não estiverem em um número maior que dez”, Sabal se recorda exatamente das palavras de Mariv, seu antigo professor em combate. “Talvez ela não saiba os riscos que corre no Underdark”, supõe a clériga, enquanto continua a observar a pequena kobold.

            Os traços de Mirka não se diferem muito dos de outros kobolds, mas a pequena maga está quase sempre encapuzada. Essa é uma das poucas vezes que a clériga consegue observar a companheirinha com o capuz deslocado enquanto dorme. O focinho repitiliano termina com um pequeno sorriso e as pontas de vários pequenos e afiados dentes aparecem por quase toda a extensão de sua boca. Sabal realmente não vê nenhuma cicatriz ou marca de combate em Mirka, parece realmente que essa nunca teve que enfrentar um desafio muito grande. “Será que se ela estivesse para ser sacrificada em um altar em homenagem a Lolth, ela conseguiria manter esse sorriso?”, se pergunta a clériga sem tirar os olhos de sua companheira.

            Refletindo a respeito de sua própria pergunta, Sabal acabaria respondendo para si: “Não”, se um momento de surpresa não a impedisse. Próximo da parte descoberta da nuca de Mirka Sabal vê a extremidade de uma pequena cicatriz. Cuidadosamente a clériga começa a retirar o capuz da kobold e percebe que essa cicatriz se extende até o centro da nuca. Pelo capuz ter sido deslocado ainda mais, parte do pescoço de Mirka aparece e Sabal percebe outras extremidades de cicatrizes. Aparentemente a cicatriz da nuca foi causada por algum impacto, talvez uma queda ou um golpe de maça. Mas o pequeno trecho da cicatriz do pescoço lhe mostra que Mirka já sofreu algumas queimaduras e cortes também. Pelo que parece a pequena kobold não é tão pouco vivida quanto parecia.

            “Certo. Então supondo que seu sorriso se mantivesse em um momento extremamente doloroso ou aterrorizante. Por que? Como? Não faz sentido estar tão seguro a ponto de não se preocupar com nada do que ocorre com você”, a mente de Sabal entra em um turbilhão de confusão e assombro. Ela recobre Mirka, que em nenhum momento acordou sobressaltada ou fez menção de se sentir incomodada, e aos poucos se posiciona de maneira confortável para poder meditar. Sabal já havia retirado o peitoral de sua armadura e ficado apenas com sua piwafwi.

            “Quero entender o que está ocorrendo. Pelo máximo que tudo pareça fazer algum sentido, de repente não faz mais”, comenta Sabal, inquieta. Ela fecha os olhos, tentando colocar a preocupação de estar em um ambiente hostil de lado para poder meditar e refletir de maneira profunda. Sim, sempre que um drow vai meditar ele está em um ambiente hostil, afinal que ambiente em toda Toril é mais hostil que uma grande metrópole drow? Porém, mesmo sabendo disso, Sabal sabe que cada drow constrói alguma espécie de santuário onde tem privacidade e proteção – mágica ou física – para poder refletir e resolver seus assuntos sem maiores preocupações. Sabal mesmo tinha seu pequeno santuário protegido por magias divinas em seu quarto no palácio Dyrr, mas no momento Lolth continua em silêncio e nem mesmo um pequeno santuário é possível de ser feito. A clériga está em território inimigo, onde os orcs que eles enfrentaram no início do túnel dominam, ou dão a entender isso.

            Respirando profundamente e deixando o ar sair lentamente de seus pulmões, Sabal coloca a maioria dessas preocupações de lado e aos poucos vai se preparando para meditar. Ela repete esse processo respiratório mais cinco vezes até estar pronta para iniciar sua meditação analítica a respeito do assunto que lhe deixa inquieta no momento: qual a influência da Do’Urden sobre seus fiéis? Da mesma forma que os kobolds são seres extremamente grupais, os drows são seres individualistas que, mesmo possuindo uma sociedade bem estruturada, maquinam uns contra os outros em busca de poder e prestígio. Não há um conceito a respeito de “amizade”, “companheirismo” e coisas do gênero entre eles. Da mesma forma, muitos kobolds agem com uma espécie de mentalidade grupal que parece não separar um dos outros. Mas desde que entrou no culto herege, Sabal passou ainda mais a entender o conceito de companheiro, da importância de um grupo. Antes ela agia amigavelmente por interesses próprios, agora não tem mais tanta certeza. “Será que ocorreu algo assim com Mirka?”, se pergunta horrorizada por pensar que Lolth, ou melhor, a Do’Urden foi capaz de fazer com que Mirka deixasse o extremo grupal e equilibrasse esse lado com o individualismo que propõe a própria filosofia do culto: somos todos um e em um estamos todos.

            Até onde Sabal conhece Mirka, essa foi criada e se relacionou com vários outros kobolds. A pequena companheira era acolita de um humano, discípulo de um dragão. Ela e sua “matilha” viviam com esse humano e seu mestre dracônico. Eles eram responsáveis por preparar armadilhas e cavar túneis bem estruturados para o covil de ambos, e em troca o mago humano e o dragão lhes davam proteção. Mirka se tornou acolita do humano pois demonstrou grandes capacidades intelectuais em relação aos seus outros companheiros. “Isso já é algo digno de respeito em uma kobold”, comenta Sabal, enquanto visualiza o pouco que conhece da história da Mirka.

            Pelas conversas que teve com a kobold a respeito disso, ela descobriu que Mirka estava junto com seu mentor humano e mais vinte kobolds em uma missão nos subterrâneos quando fora capturada. O mestre draconico deles havia lhes ordenado para buscar um artefato que lhe pertencera e fora roubado por trogloditas que viviam nos túneis do Underdark. Pelo menos isso era o que havia sido dito a Mirka, mas quando os drows atacaram a incursão bem antes deles chegarem a seu objetivo, seu mestre antes de morrer lhe pediu desculpas, pois na realidade todos aqueles kobolds estavam sendo levados para serem sacrificados diante de um altar, em homenagem a Rainha dos Dragões em um ritual para criar uma nova espécie de servos de Tiamat. “Mirka nunca me disse o que havia sentido no momento em que descobriu isso”, reconhece Sabal mas supõe, “Acredito que tenha sentido medo. Muito medo. Ela havia sido enganada por aquele em quem mais confiava e seria uma escrava dos drows. O que seria dela?”.

            Lembrando desses fatos, Sabal volta a ficar inquieta. Mirka já havia vivenciado a traição, já havia visto violência e a sentido em sua pele escamada, da mesma forma que Gromsh. Mesmo assim eles não perderam a capacidade de confiar, “Nem a capacidade de não se importar em serem traidos?”, se pergunta a clériga. Com Gromsh as coisas não foram tão diferentes. Ele era um guerreiro de um exército gnoll de tamanho médio. Em sua carreira já haviam pilhado e saqueado algumas vilas humanas e uma ou outra pequena cidade élfica. Em um ato de vingança cometido pelos elfos, a fortaleza dos gnolls foi atacada e esses foram quase massacrados. Um grande contingente conseguiu fugir, e nele se encontrava Gromsh. O guerreiro gnoll e seus companheiros sobreviveram por um tempo ainda na superfície, de modo difícil e estressante. Para todas as direções que iam, encontravam inimigos. Os únicos seres nos quais eles podiam depositar alguma confiança eram aqueles gnolls de seu grupo; ou pelo menos era isso que eles acreditavam, até seu líder ter feito um trato com mercadores drows. Esse escolheu alguns de seus guerreiros e trocou-os por um auxílio na passagem pelo subterrâneo até terras menos hostis para os gnolls poderem se reestruturar. Entre os escolhidos como pagamento estava Gromsh.

            A negociação parece que foi bem sucedida, porém não tanto quanto os gnolls gostariam. O preço foi alto e o território para o qual foram levados não era tão menos hostil quanto o que se encontravam. Ambos, Mirka e Gromsh foram levados para Menzoberranzan em momentos diferentes e ainda com seus companheiros. Foi no subúrbio da grande metrópole drow, cidade natal de Sabal, que eles conheceram Vishnara. “Quem era essa Do’Urden?”, se pergunta a Dyrr. Ela havia escutado algumas histórias dentro do culto sobre a primeira clériga, a “mãe” de Lolth. Porém, em algumas conversas com Stongest ela descobriu que Vishnara não havia dado a luz a Lolth, mas Stongest não deu nenhum outro detalhe. “Então provavelmente a Do’Urden não é uma Do’Urden, ou talvez seja, mas não filha de Vishnara”, pensa Sabal, respirando profundamente e colocando todas essas reflexões em ordem.

            Tudo ainda é muito nebuloso. Uma clériga louca cria uma criança e a batiza como Lolth. A própria Rainha das Aranhas não a pune nem manda um de seus servos matar a criança. Vishnara encontra alguém que ninguém conhecia, o nomeia como “Guardião da Deusa Encarnada” e o ensina sua filosofia alienígena. Após isso, o guardião treina Lolth em alguns aspectos enquanto a clériga louca lhe treina em outros, e mais tarde conseguem dois seguidores que foram escravizados por drows e passam a adorar a deusa demoníaca daqueles que lhes escravizaram e que já haviam sacrificado vários de seus companheiros ou irmãos de raça. “Não faz sentido”, sentencia Sabal, “O que essa pseudo-deusa tem para conseguir seduzir de tal maneira seus fieis?”. Acreditar que a Do’Urden é a encarnação ou um avatar de Lolth é inviável para a Dyrr. “Em toda a filosofia do culto herege nada é tratado sobre o mal e o medo”, argumenta ela, para proteger seu ponto de vista.

            “A Do’Urden alterou a mente de seus fiéis de alguma forma. Como pode alguém que passou pelo que Mirka e Gromsh passaram, agir da maneira que agem?”, a questão retorna a sua mente, “Quando estão em grupo, eles agem da maneira que sempre agiram com seus iguais”, acredita a clériga, “Mas quando estão sozinhos são tão confiantes que parece até que não estão sós. De onde seres de raças tão fracas retiram tanta força?”. Por um breve momento, uma imagem surge em sua mente. O coração de Sabal gela; não necessariamente de medo ou assombro, mas de uma mistura de ambos. Mariv está olhando para ela e caminhando para seu lado. Seus olhos se mantém fechados, mas ela sente a presença dele. Ela era uma drow muito jovem quando ele a iniciou na arte do combate. Sabal tenta espantar a presença de seu falecido professor, balançando a cabeça e não abrindo os olhos, o medo de encontrá-lo fisicamente é grande demais. Porém, mesmo com seu esforço, a presença permanece.

            – Você não pode espantar algo que está em você, Sabal. – ela escuta a voz daquele que tanto lhe ensinou soar em sua mente.

            A clériga engole em seco e sente seu corpo tremer.

            – Sentir culpa pelo que ocorreu não a ajudará em nada. – diz o guerreiro.

            Sabal o sente em suas costas e sente uma de suas mãos tocando seu ombro. Provavelmente ele se sentou atrás dela, como fazia para auxiliá-la em suas meditações.

            – Ele faz pa’te de você, Sabal. – diz o falecido guerreiro Dyrr. Sabal sente seus músculos tensos, ela percebe que de alguma forma o que ele está dizendo é real, pois os ensinamentos de Mariv fazem parte dela agora – Como nós também fazemos. Não cho’e.

            O espanto faz a clériga abrir os olhos imediatamente e virar-se em direção a voz que está em suas costas. Ela estava quase em transe, mas assim que retoma sua consciência vê que com suas mãos ela segurava uma das mãos de Mirka, e que a mão que está em seu ombro é a de Stongest. “Como?”, se pergunta horrorizada. Ela se levanta rapidamente e se afasta do meio-goblin-meio-algo. Vê que tanto ele quanto Gromsh já haviam voltado. Sentindo seu rosto molhado, ela o seca com as mãos.

            – Isso não está certo. – diz, convicta, Sabal – Tudo isso não faz sentido.

            – Esse está sendo seu e’o, Sabal. O Caos não p’ecisa faze’ sentido. – responde seriamente Stongest.

            Sabal o encara por alguns instantes antes de voltar a olhar para Gromsh e depois para Mirka, que prossegue dormindo. A tristeza ainda está presente, mas ela é uma drow. Seu orgulho se feriu por terem presenciado uma cena de tamanha fraqueza e ela não consegue deixar de demonstrar isso em seu olhar.

            – Não p’ecisa te’ ve’gonha. Nós somos aspectos dife’entes da mesma coisa. – diz Stongest, tentando suavizar a situação da forma mais sincera.

            – Eu não sou vocês! Vocês não são eu! – Sabal sente que seu corpo ainda está tremendo – Vocês são loucos! Vocês são loucos em ter me deixado com Mirka. E se eu a tivesse matado? E se esses anos que passei com vocês foram apenas para espioná-los e destruí-los?

            Sabal encara Stongest por alguns instantes e se irrita ainda mais por esse não se alterar.

            – Me responde, goblin! E se eu tivesse matado Mirka!? – grita Sabal, se esforçando para não chorar novamente.

            – Você te’ia feito o que e’a p’a se’ feito. – responde Stongest sem se alterar em nenhum momento.

            O horror da clériga aumenta e sobrepõe a raiva.

            – Eu não entendo. – as lágrimas começam a descer pelo rosto de Sabal novamente.

            – Não há o que entende’, Sabal. Há apenas o que se vive’. – responde Stongest suavemente.

            Sabal se ajoelha e não consegue mais segurar o choro. Stongest se aproxima e tentam tocá-la. Como instinto primário ela os afasta, mas logo desiste e deixa-o abraçá-la, enquanto Gromsh apenas observa.

            – Pode’ é sabe’ o que faze’ no momento que deve se’ feito. Não existe f’aqueza, Sabal. Esse é o ensinamento da nossa Lolth. Nunca se esqueça dele. – aconselha Stongest de maneira tão suave que parece que a Do’Urden está falando através dele. Até mesmo Gromsh se espanta.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (Parte 5)

            O cheiro de fezes e corpos em putrefação agrada a narina do humano Malazir Penaril, principalmente quando esses apreciados odores se misturam com o cheiro de sangue fresco de um recém sacrifício ao seu senhor demoníaco: Shormongur. Ele olha para seu companheiro e irmão de fé, Folkyr, um orog que seria muito belo, se não fossem os escrementos e sebos que encobrem grande parte de seu corpo.

            – Há muito que espero vocês me chamarem. – uma voz cavernosa ressoa por detrás de seus ombros, fazendo com que ambos se virem dando as costas ao altar de sacrifício – O que causou tanta demora?

            – Meu Senhor. Mestre da Degradação, da Destruição, da Corrupção e do Fogo que a tudo consome, nos perdoe pela demora, porém as preparações para o ritual está ocupando muito de nosso tempo. – responde Folkyr ajoelhado aos pés de seu mestre glabrezu, enquanto Malazir complementa.

            – Isso é verdade Grande Senhor. O Grande Ancião está ausente e, em sua ausência, eu e Folkyr somos os dois conjuradores mais competentes. Somos nós que devemos guiar os procedimentos e os preparatórios para o imenso ritual.

            O glabrezu esboça um sorriso no rosto.

            – Provavelmente a serpente está aumentando sua rede de intrigas e colaboradores. – comenta o demônio com contentamento em sua voz – E o meu filho?

            Malazir e Folkyr se olham antes de responder ao seu mestre. O local do altar, onde estão conversando com Shormongur, é uma caverna próxima a Menzoberranzan. O altar foi criado por Zaknafein – o filho de Shormongur – e seus servos orcs com toda a fé que esse possui em seu pai.

            – Tememos que ele possa estragar tudo, Senhor. Até o momento ele está sendo extremamente útil, entretanto, seu filho, sente a liderança do Grande Ancião como uma afronta ao Senhor. – responde Malazyr.

            O glabrezu gargalha.

            – Meu filho me surpreende com a fé que deposita em mim. Porém não permitam que estrague nosso plano. – ordena Shormongur com rispidez, antes mesmo que o eco de sua gargalhada deixasse o ambiente.

            – Não permitiremos, Senhor. – responde ambos conjuradores em uníssono.

            – Não importa o quanto não confiamos na serpente, não podemos de forma alguma encará-lo apenas como um empecilho. – diz o demônio seriamente aos seus seguidores – Não podemos subestimá-lo como um tolo que não sabe a amplitude do que está fazendo. Ele está a mais de um século criando as passagens necessárias para os principais pontos do grande ritual. Seja quais forem seus objetivos, não podemos perder a oportunidade de participar.

            Ambos os fieis concordam com um asceno de cabeça.

            – Se temos até mesmo companheiros de outros planos participando desse imenso ritual, por que nós, não iríamos concordar com o Grande Ancião? – Shormongur sorri e gargalha – Não importa a intenção da serpente, o Abismo abrirá suas portas e aqueles que estiverem preparados reinarão soberanos em todos os planos. A serpente que aguarde.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 1)

            Já fazia algum tempo que Sabal Dyrr não se envolvia em um confronto físico. Ela se sente um pouco enferrujada, mas nada que a atrapalhe, afinal, em nenhum momento deixou de treinar as técnicas de combate que seu falecido mentor Mariv a ensinou.

            Sua morningstar atinge a cabeça de mais um orc, que cai com a fratura em seu crânio exposta e com seu corpo tremendo devido à eletricidade que o percorre. Esse é o segundo dos dois oponentes com os quais lutava. Ela dá mais uma olhada ao redor para ver como estão seus companheiros. Todos estão lutando o máximo que conseguem, mas para alguns isso não é suficiente. Dois dos três goblins já estão mortos enquanto Reshna e Mirka são as únicas kobolds vivas. Gromsh está lutando habilmente com seu halbert, já Stongest só é visto no momento exato em que um orc cai morto com um grande ferimento aberto pelo machado do meio-goblin.

            Faz pouquíssimo tempo que eles chegaram na passagem descoberta por Quiri. Após Mirka ter relido seu grimório e descansado o suficiente, eles partiram da barraca do culto e adentraram a viela dos orcs. Lá encontram várias barracas destruídas e algumas patrulhas drows montadas em seus lagartos. Não houve grandes dificuldades de passarem por eles e tomarem o rumo para a entrada da caverna que os orcs aparentemente estavam utilizando para fugirem. Mirka utilizou algumas de suas magias para distrair e atrapalhar a percepção dos patrulheiros, enquanto eles, o mais furtivamente possível, continuavam seu caminho.

            Ao chegarem próximos às barracas que continuavam inteiras eles viram o corpo decapitado de uma humana gorda e extremamente suja. Olhando de relance, eles não souberam dizer se os orcs haviam feito aquilo, mas quando Stongest olhou mais detalhadamente ele percebeu que o corte era preciso e que a perfuração no peito da humana havia atingido magistralmente o coração.

            Com certeza não foram orcs, constataram eles. Havia algo acontecendo naquele local e isso poderia atrapalhar tudo. Sem perder tempo eles ultrapassaram algumas barracas e adentraram em um grande lixão de um aparente beco. Com um pouco de trabalho eles abriram passagem entre os lixos e encontraram um buraco pequeno pelo qual poderiam entrar.

            – É essa a passagem. – disse Stongest sussurrando – Ela é pequena pa’a que d’ows, due’ga’s, gnolls, até mesmo o’cs tenham que abaixa’ pa’a ent’a’. Assim os gua’das podem decapita’ o int’uso antes de qualque’ reação.

            Mesmo que esse fosse o intento do tamanho da passagem, havia uma vantagem para o grupo de Sabal: apenas ela e Gromsh eram grandes os suficientes para terem que abaixar. Sem perder tempo Stongest simplesmente sumiu da vista de todos e adentrou o local. Logo que isso ocorreu, Mirka utilizou magias de invisibilidade para tornar o resto do grupo invisível. Gromsh preferiu que ela não utilizasse nele, pois iria usar o anel para se camuflar e sua furtividade para se tornar virtualmente invisível. Mirka trocou olhares com Sabal e essa permitiu que assim fosse.

            Estava tudo perfeito. Eles adentraram o local e passaram os dois guardas; realmente, a estratégia que Stognest havia dito que era usada era verdadeira. A caverna em si era um túnel largo e alto. Sabal por não conhecer muito de formações rochosas, não sabia dizer se aquilo era natural, mas Stongest com certeza saberia. Após caminharem por um pequeno tempo no túnel eles viram uma reunião de orcs. Haviam pelo menos oito supostos guerreiros e três supostos magos.

            A situação se tornou ainda mais delicada. Se algo desse errado, eles teriam grandes problemas. Quando o grupo dos pequenos – os que tinham mais chances de estragarem segundo Sabal – passou pelos orcs, Sabal sorriu vitoriosa, quando de repente, para total decepção da clériga, Gromsh acabou tropeçando e chamando a atenção dos magos.

            A reação foi óbvia: um dos magos conjurou uma magia para revelar seres invisíveis. Percebendo que a entrada furtiva já havia falhado, Sabal atacou um dos guerreiros próximos, tendo em mente que Stongest e Mirka dariam cabo dos magos. Ela não se decepcionou dessa vez, Stongest atacou rápida e mortalmente um mago que estava preparando uma magia, enquanto Mirka atingiu seus mísseis mágicos naquele que havia feito a magia para revelar o invisível. Inspirados no guardião e na kobold maga, os outros pequenos atacaram todos ao mesmo tempo o mago que faltava, não dando chances de reação.

            A luta começou. Enquanto Sabal enfrentava dois guerreiros, Stongest eliminava facilmente o mago que Mirka havia atingido com seus misseis mágicos. Enquanto isso dois guerreiros enfrentavam os cinco pequenos e Mirka. Sabal não conseguia ver a situação de Gromsh, mas pela rápida reação de Stongest indo em direção de onde o gnoll se encontrava, algo nada bom estava ocorrendo.

            O foco de sua atenção passou a ser os dois guerreiros que ela estava enfrentando e apenas depois de matar o segundo que a clériga conseguiu olhar a batalha ao seu redor.

            – Mirka! Reshna! Fiquem perto de mim! – grita Sabal às duas kobolds.

            Reshna atinge mais uma flecha de sua besta no peito do único orc que sobreviveu aos seis pequenos e pede para Mirka ir para junto da clériga antes dela. Mirka fica indecisa, mas entende que Reshna seria mais hábil em atrapalhar a atenção do orc do que ela; talvez suas magias fossem mais úteis mais a frente.

            Sabal caminha para ficar um pouco mais perto das duas, mas logo se vira para enfrentar mais um orc. Pelo que havia reparado o orc que a está atacando é um dos guardas que veio em auxílio do grupo. O primeiro golpe é feito pelo orc, mas Sabal consegue defender habilmente com seu escudo. Logo o orc desfere um segundo golpe em sua direção, mais um bloqueio bem sucedido é feito, porém dessa vez ela encosta o escudo em seu corpo e utiliza a posição para dar um encontrão no orc, que perde o equilíbrio e cai no chão. Em suas costas Sabal escuta Mirka recitando algumas palavras arcanas enquanto Reshna grita. A clériga sente um estranho aperto em seu coração ao escutar o grito da kobold, mas ignora e prossegue em sua luta.

            Quando o orc está para se levantar Sabal o atinge com sua morningstar no seu ombro. O orc se contorce de dor ao sentir seu ombro se dilacerando e a eletricidade fluindo por seus músculos. Sem perder tempo a clériga esfacela o rosto do orc com um golpe extremamente brutal e logo se vira para ver o orc que havia matado Reshna.

            A clériga sente Mirka tocar em sua perna. Ela havia matado o orc que matou sua irmã de raça com alguma magia, mas outro orc já estava vindo na direção das duas. Sabal se posicionou para proteger a kobold, mas foi desnecessário, pois Stongest surgiu pelas costas do adversário e o atingiu mortalmente com seus dois machados na região dos rins.

            “Estávamos sendo vigiados”, rosna Stongest para Sabal enquanto essa observa para ver se mais algum orc estava vivo.

            “Estávamos? Já foi embora?”, pergunta a clériga na mesma linguagem, fazendo sinal a Gromsh para que esse se aproximasse dela.

            “Sim”, responde com um rosnado breve o meio-goblin enquanto a clériga saca sua varinha de cura para utilizar no gnoll que está com um grande ferimento causado por um dos machados dos orcs.

            “Então não podemos perder mais tempo. Precisamos ir”, rosna a clériga logo após ter dito as palavras de ativação da varinha e tocado o gnoll.

            – Brigado, Senhora. – agradece Gromsh.

            “Não sem antes fazer um pequeno ritual de homenagem aos nossos irmãos mortos”, retruca Stongest em rosnados, pegando os corpos dos cultistas de Lolth mortos e enfileirando-os.

            Sabal pensa em retrucar sobre a inutilidade daquele ato, mas percebe que não seria muito inteligente de sua parte, já que Gromsh e Mirka estão próximos.

            – Não se preocupe Stongest, eu farei um ritual em homenagem a eles. Enquanto isso você poderia acompanhar Gromsh mais a frente, para ver o que nos espera. – diz em tom baixo a clériga, enquanto retira seu punhal de aranha da sua piwafwi.

            Stongest e Gromsh partem, enquanto Mirka e Sabal fazem as orações e o ritual de arrancar o coração de seus irmãos e despejar o sangue no ídolo de Lolth, que está na bagagem da clériga.

            Após o termino do ritual Stongest e Gromsh retornam:

            – Sabal e Mi’ka, venham com nós. Encont’amos algo. – diz o guardião.

            – Antes vamos dar uma olhada no que esses orcs possuem e vamos dividir os alimentos que nossos irmãos carregavam. – responde Sabal enquanto Stongest faz um aceno positivo com a cabeça.

            Os alimentos são divididos enquanto Gromsh fiscaliza os orcs mortos.

            – Encontrei uns amuletos aqui. – diz Gromsh rindo – Será que são mágicos Mirka?

            Mirka recita algumas poucas palavras mágicas enquanto gesticula com suas pequenas mãos. Ela olha para os amuletos que o gnoll está segurando e depois de uma tempo diz:

            – São sim. Guarde eles, Gromsh.

            Após a divisão de alimentos e a coleta de amuletos, eles caminham mais a diante no túnel, onde uma oração em abissal está escrita na parede.

            – Palavras de poder. – diz a clériga.

            Mirka utiliza mais uma vez sua magia para detectar aura mágica e diz logo em seguida:

            – Runas mágicas. Parece que é uma armadilha.

            – Que pode estar tendo seu poder ampliado pelas oração a um demônio chamado Shormongur. – complementa a clériga.

            Stongest apenas observa o túnel mais adiante enquanto as duas conversam.

            – Você conseguiria desativá-las Mirka? – pergunta a clériga.

            – Consigo, mas não sei se é a melhor opção, Senhora. Afinal eu posso acabar ficando sem magias quando for realmente necessário. – responde a kobold humildemente.

            – Tem alguma outra idéia? – pergunta Sabal.

            – Quero analisar os amuletos antes, se a Senhora permitir. – responde a pequena kobold recebendo um aceno positivo com a cabeça por parte da clériga.

            – Deixem que eu cuido das a’madilhas físicas. – diz Stongest pegando as duas de surpresa.

            – Como? – pergunta Sabal sem entender direito.

            – Há a’madilhas físicas também além das mágicas. Deixem que eu desa’mo elas. – responde o meio-goblin como se dissesse o óbvio.

            – Que merda. Tô me sentindo tão inútil. – comenta Gromsh sentando no chão e encostando-se ao muro cabisbaixo.

            Mirka ri, enquanto Sabal apenas sorri e Stongest continua observando a passagem em busca de mais armadilhas.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (Parte 5)

            “Oh poderoso Shormongur! Mestre da destruição, corrupção e degradação. Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”.

            É a terceira vez que Sol’al Teken’Th’Tlar lê aquela oração que está escrita na parede do imenso túnel onde seu grupo adentrou, logo após encontrar uma passagem no chão da barraca que Brum derrubou a porta. A oração está escrita em abissal e não em goblinóide, ou linguagem orc, o que lhe faz ter cada vez mais certeza que deve ter algum encantamento naquilo. Ele aproxima sua mão da escrita e a segue pela extensão horizontal do muro até chegar próximo a uma runa órquica, ou algo parecido. “Ah! Maldição!”, pragueja mentalmente o mago não conseguindo encontrar nenhum significado palpável para aquilo.

            O mago poderia muito bem utilizar uma magia para detectar as propriedades mágicas daquele local, mas ele não se deteve por muito tempo no estudo delas para essa missão. Achou que apenas precisaria verificar se aqueles que iriam acompanhá-lo e os escravos cultistas de Lolth carregavam algum equipamento mágico. Logo na viagem ao Braeryn ele conseguiu ver a aura mágica de alguns equipamentos de seus aliados – com exceção de Brum – e a intensidade deles, porém o cansaço mental já está exaurindo essa magia de sua mente. Ele sabe que só conseguirá utilizá-la mais uma vez. “Será que esse é o momento?”, se pergunta Sol’al, “Essa missão está obscura demais”.

            – Então mago? Descobriu alguma coisa? – pergunta a Xorlarrin.

            – Isso é uma oração a um tal de Shormongur, minha Senhora. Aparentemente um demônio. – responde o mago incerto.

            – Isso eu sei, imbecil. Você descobriu algo útil? – intima a clériga com um olhar severo ao mago.

            – Há… Há u-uma runa no final da oração, minha Senhora. É uma runa órquica, t-talvez seja algum símbolo de proteção mágico. – responde o mago gaguejando.

            – Talvez!? Você está ai já a bastante tempo olhando para esse muro, mago estúpido! Quero saber o que isso exatamente é, me entendeu!? – ordena a clériga Xorlarrin com fúria em sua voz.

            – Sim, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            “Sol’al, acho que você está começando a exagerar na encenação. Isso pode acabar denegrindo a imagem da sua Casa”, se censura mentalmente enquanto volta a observar os escritos. Olhando com mais atenção, Sol’al percebe um pequeno símbolo embaixo do nome Shormongur, “Parece o símbolo sintético do nome do demônio”, comenta consigo, “É o mesmo símbolo do amuleto da humana que matamos fora da barraca”.

            Qualquer mago, principalmente aqueles treinados no Sorcere, sabem que ter o simbolo do nome de um demônio é importante para conseguir tratar com seu dono. Nome é poder, o símbolo não só representa o nome, mas o posto hierárquico, função e influências do demônio em questão. “Já é um grande passo”, diz a si Sol’al mesmo enquanto prossegue com suas reflexões, “Analisarei o símbolo mais tarde”.

            Ele se aproxima da runa orquica e tenta reconhecer os padrões arcanos envolvidos naquilo. Não lhe parece um símbolo divino ou de magia natural, porém a cultura orc nunca foi o forte de Sol’al. Ele observa atentamente e recorda a oração mentalmente enquanto observa de forma fixa a runa. “Palavras de poder”, um insight vem em sua mente fazendo com que ele olhe para o muro do outro lado. Para sua surpresa, sua intuição o guiou corretamente, pois, na outra parede há uma runa idêntica àquela que ele está estudando. “Mesma altura, mesma largura, mesmo desenho. Forma uma espécie de linha horizontal no ar”, pensa enquanto analisa as estruturas da runa que está mais próxima. “Não. Ela parece ocupar mais o espaço. Não uma simples linha horizontal mas…”, tudo parece fazer sentido em sua mente. As runas são desenhadas rudicamente mas suas extremidades se tornam delicadas semelhantes a raízes de árvores que Sol’al já havia visto no subterrâneo próximo a superfície: grossas e rudes quanto mais próximas do tronco e finas e delicadas quanto mais distante dele.

            – Senhora, acho que descobri algo. – diz o mago humildemente, mas sem conseguir esconder seu contentamento.

            – Acha? – pergunta a clériga secamente.

            – Não Senhora, tenho certeza. – responde Sol’al olhando para o pé da Xorlarrin – Essas runas orquicas são armadilhas mágicas. Acredito que elas formem uma espécie de barreira invisível que se passarmos acionará algum efeito, provavelmente destrutível.

            A clériga o encara demonstrando uma certa incredulidade.

            – Ainda não sei o que seria a oração. Acho que pode ser palavras de poder para aumentar o efeito das magias rúnicas. – complementa Sol’al.

            – Sim, são palavras de poder. – comenta a clériga – Você consegue desativar essas runas?

            Sol’al coloca a mão no queixo pensativo, ele sabe que sem conhecer qual magia é conjurada através daquela runa seu trabalho seria bem mais difícil. Além do mais, seria complicado exaurir suas magias para cancelar armadilhas.

            – Acho que não, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            – Inútil! – diz a clériga virando suas costas para ele e se dirigindo ao mercenário Alak – Mercenário, diga para seu companheiro que precisaremos que ele faça um pequeno serviço.

            Alak que se encontra próximo da entrada do túnel, junto a Brum e ao guerreiro Xorlarrin olha em direção a clériga. Sol’al sente uma pontada de ciúme, ao perceber que o mercenário insolente está se tornando mais útil para sua senhora.

            – Sim Senhora. O que você quer que ele faça? – pergunta Alak mantendo a conversa em baixo-drow.

            – Quero que ele ultrapasse aquele limite. – responde a clériga apontando em direção ao local onde as runas estão alinhadas.

            – Senhora, eu escutei a conversa entre você e o mago. Não acho válido sacrificar meu companheiro nesse ponto da missão e… – tenta argumentar o mercenário, mas logo é interrompido pela drow.

            – Eu dei uma ordem! Não pedi sua opinião!

            – Sim, Senhora. – responde Alak com a cabeça baixa voltando-se a Brum.

            Sol’al sorri ao ver a cena.

            – Senhora, há um pequeno símbolo embaixo do nome do demônio, provavelmente o símbolo de poder dele. – o mago puxa uma nova conversa tentando melhorar sua imagem.

            A Xorlarrin olha para Sol’al com uma sobrancelha erguida.

            – É o mesmo símbolo do amuleto da humana que encontramos lá em cima, fora da cabana. – complementa ele.

            – Àquela gorda da qual você ficou coletando sebo? – pergunta de forma extremamente irônica a clériga com um sorriso no rosto.

            Sol’al, simplesmente abaixa a cabeça e se afasta um pouco – ele sabe o quão vergonhoso pode ser alguns momentos de coleta de componentes materiais para suas magias -, enquanto o mercenário ogro se aproxima do local indicado.

            – Se afastem. – diz o mago em baixo-drow aos seus aliados.

            Todos se juntam próximos à entrada. Quando Brum para lá perto observado os dois lados do muro, Sol’al vê de canto de olho Alak sacar um de seus punhais e arremessar rapidamente em direção a clériga. O mago não consegue ser rápido o suficiente para parar o eremita, mas assim que escuta a clériga resmungando, percebe que o alvo do mercenário era outro.

            – Quem é ela? – pergunta Alak a clériga enquanto de trás dela uma pequena drow sai com seu braço machucado pela adaga.

            A clériga simplesmente olha a drow com desdém e dá um leve tapa na própria testa em sinal de decepção. O guerreiro Xorlarrin sorri e responde a Alak:

            – Suporte.

            Alak olha desconfiado para ele, mas ignora o fato e volta sua atenção a Brum. Sol’al acha tudo aquilo estranhamente ridículo. “Suporte?”, se pergunta Sol’al vendo que Alak faz um sinal para Brum, como se esfaqueasse o próprio peito, enquanto esse olha para trás esperando a ordem para ultrapassar a linha. Brum sorri.

            Sol’al compreende levemente a suspeita dos mercenários e olhando para a expressão da clériga e da pequena drow percebe que eles podem estar certos. “Uma pequena assassina. O ogro será sacrificado no instante que passar pela armadilha, faltaria apenas o outro mercenário. Ou não…”, esse pensamento preocupa o mago, que pensa em utilizar uma das magias de comunicação para falar com os superiores de sua Casa. “Está deixando o medo tomar conta?”, se pergunta Sol’al como uma forma de espantar o pensamento covarde.

            Nesse instante a clériga ordena para que Alak dê o sinal ao seu companheiro. Brum, com uma distância considerável do grupo, dá um passo à frente e ultrapassa a linha. Em um piscar de olhos uma grande explosão de fogo ocorre, mas essa não afeta de forma alguma a estrutura do túnel. Simplesmente espalha uma cortina de chamas em uma área de cinco metros tendo Brum como centro. Todos os drows fecham seus olhos graças a grande claridade gerada. Sol’al sorri, pois estava certa a sua teoria, além do insolente ter provavelmente morrido ou ficado altamente ferido no processo, já que ele é um ogro mago, e esses são sensíveis ao fogo.

            Aos poucos a visão volta ao normal e eles percebem que a claridade se desfez. Nada se incendiou. “Maldição”, pragueja o mago enquanto olha para a direção da armadilha. Para sua surpresa Brum está inteiro e sem nem uma única queimadura leve. Sol’al engole a seco e volta sua atenção para o resto do grupo. A clériga e o guerreiro estão com uma mistura de raiva e decepção em seus rostos, a nova drow está surpresa, enquanto Alak apenas sorri.

            – Por isso ele não usa equipamentos mágicos? – pergunta Sol’al ao eremita.

            – Sim. – responde Alak rindo – Brum nunca foi o forte da magia. Ou seria o contrário?

            Sol’al engole a seco e tenta ignorar o deboche de Alak.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (Parte 4)

Aquilo parece um formigueiro. Gnolls, hobgoblins, goblins, kobolds, um ou dois trolls que se destacam na multidão, todos se digladiando mutuamente enquanto Stongest e Gromsh assistem à distância.

Não demora muito para as patrulhas drows que se encontram no Braeryn chegarem até lá e perceberem que aquilo não era nada além de uma “briga de bar”. Não foi difícil para Gromsh causar uma confusão no Braeryn. Os nervos dos moradores do bairro ainda estão a flor da pele. Além do mais, nada como esbarrar, xingar e empurrar as pessoas certas. Confrontos entre raças diferentes sempre resultam em uma explosão frenética de fúria, principalmente quando essas raças são pré-dispostas a participar de uma luta.

Ao leste Stongest escuta o som de pedras sendo destruídas e fica contente ao ver que as patrulhas não perceberam, ou não deram importância, àquele som. Após a insurreição a população de escravos em Menzoberranzan diminuiu um tanto e como o cerco dos duergars parece estar apertando, não é hora de deixá-los se matarem em brigas de ruas estúpidas.

– Vamos embo’a G’omsh. Acho que eles já esta’ão ocupados po’ um bom tempo. – diz Stongest ao seu irmão de culto.

– Tá certo. Vambora discançá que vai demorá umas horas pra eles se preocuparem com o bairro dos orcs, né? – comenta Gromsh recebendo apenas um aceno de cabeça positivo do meio-goblin.

Deixando a balburdia para trás, ambos partem para se encontrarem com os companheiros de culto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 3)

As vielas dos orcs no Braeryn não é um dos lugares mais agradáveis para se estar ultimamente. Aparentemente um dos poucos focos da insurreição dos escravos se estabeleceu por lá. Algo sinistro parece estar ocorrendo, mas nada evidente. Pelo que Alak Sel’Xarann percebeu, as patrulhas drows evitam aquele lugar, não por medo, mas porque eles têm muito mais o que ganhar agindo dessa maneira, afinal, honestidade nunca foi o forte dos drows e quando surge alguma oportunidade para conseguirem ganhos, não há porque perder a oportunidade.

Desde que chegaram naquele local, o grupo da Xorlarrin está caminhando atento e cuidadosamente. Nenhum orc foi visto até o momento e pelo que o mercenário drow já percebeu e indicou através de sinais toscos – que nada se assemelham a linguagem de sinais de sua raça – ao seu companheiro ogro mago, eles estão sendo vigiados. Ambos caminham na frente, como que para chamar atenção, algo não muito difícil para um imenso ogro e um drow bem maior que a estatura normal da sua raça.

– Alak, estou ouvindo várias pegadas e ruidos subindo as barracas e não são orcs. – sussurra Brum sem desviar seu olhar do caminho que está a sua frente.

– Provavelmente alguns mercenários ou escravos dos orcs. Devem estar subindo nos telhados para nos cercarem com dardos e bestas. – sussurra em resposta o mercenário eremita, também sem fazer menção de que está preocupado com o que ocorre ao seu redor.

Ambos continuam caminhando sem saber o que está ocorrendo com o grupo atrás deles. “Eles continuam nos seguindo”, pensa Alak escutando o tilintar da armadura da clériga, “Espero apenas que não durmam no ponto”. O eremita mantém três adagas de arremesso preparadas em cada mão, enquanto Brum carrega suas clavas de pedra, preparado para entrar em combate a qualquer momento.

– O problema é que não sabemos nem para onde ir. – comenta o ogro sussurrando.

– Apenas temos que encontrar algum orc. – responde Alak também em sussurros quando um assovio corta o ar.

Uma pequena flecha de besta atinge o ombro de Brum, mas nem mesmo consegue penetrar sua pele grossa.

– Acho que os diabinhos resolveram mostrar suas caras. – diz Brum olhando para a direção de onde veio a flecha e encontrando um pequeno goblin preparando a besta novamente.

Alak vira rapidamente para o lado oposto de Brum, a fim de analisar a situação na qual eles se encontram. Seu grupo realmente está logo atrás. O mago está com uma adaga de arremesso preparada em sua mão direita, enquanto o guerreiro Xorlarrin está caminhando em posição defensiva ao seu lado, empunhando uma espada curta, já a clériga está posicionada na frente deles com sua maça e seu escudo médio, caminhando entre as duas divisões. Porém, nenhum deles pareceu ter percebido o ataque contra Brum. Após a rápida olhada em seu grupo o mercenário drow enxerga alguns outros goblins posicionados em telhados, preparando suas zarabatanas e bestas.

Sem perder tempo, o eremita arremessa suas adagas da mão esquerda em direção a dois goblins que estão no mesmo telhado, ao mesmo tempo em que escuta o mago Teken’Th’Tlar dar um aviso ao grupo de trás a respeito dos atiradores. Duas das adagas do mercenário atingem em cheio o pescoço de um dos goblins que cai do telhado aparentemente morto, enquanto a última adaga erra por pouco o segundo alvo.

– Brum! – grita o mercenário chamando a atenção do ogro quando vê que mais goblins estão surgindo em cima das barracas próximas.

O ogro vira seu rosto em direção de Alak que apenas faz o sinal de um círculo e finaliza com um “estouro” de dedos. Brum entendendo logo de imediato segura as compridas correntes de suas grandes clavas de pedra e prepara o corpo para impulsionar um giro.

– Todos abaixem!! – grita Alak pulando ao chão.

A clériga Xorlarrin olha para o mercenário com uma expressão de assombro e raiva, mas não perde tempo em mergulhar. Alak vê atrás da clériga o mago e o guerreiro fazendo o mesmo.

– Mercenário estúpido! – grita a clériga no dialeto drow em meio aos estouros das clavas de Brum atingindo as barracas, feitas de barro e pedra, e as demolindo.

Alak ri consigo mesmo e se vira para ver o estrago causado por seu companheiro ogro. Brum está terminando o segundo giro e parando. Ele balança a cabeça como se quisesse espantar a tontura e olha ao redor para tentar encontrar os goblins atiradores. No meio da fumaça de pó de argila, Alak vê alguns pequenos vultos se levantando e batendo e retirada.

– Boa, Brum. – comenta o eremita levantando-se já com uma de suas espadas em mãos.

– Não há como não ser. – responde Brum com um sorriso no rosto.

– Mercenário! Precisamos de um desses goblins para interrogatório! – grita o mago que está se levantando e limpando suas vestes.

– Faça isso! – grita a clériga em baixo-drow, concordando com o Teken’Th’Tlar.

Alak corre até um goblin perceptivelmente ferido que não conseguiu bater em retirada. O pega pelo cangote e leva até o grupo. O goblin treme desesperado na mão do drow, deixando um rastro de urina pelo caminho.

– Interrogue esse inferior imediatamente e descubra onde estão os orcs! – ordena a clériga em baixo-drow.

Alak a olha rapidamente com uma de suas sobrancelhas levantadas.

– Sim, Senhora. – Alak volta-se em direção ao pequeno goblin que continua tremendo convulsivamente de medo – Onde estão os orcs?

O goblin tenta falar, mas nada sai de sua garganta.

– Ela disse a palavra, não é? – interompe Brum.

– Agora não Brum. – corta Alak, voltando sua atenção novamente ao goblin seca e pausadamente – Responda… onde… estão… os… orcs?

A respiração do pequeno goblin acelera cada vez mais. Esse tenta responder novamente, mas as palavras não saem de sua boca de forma inteligível. Quando algum som semelhante a um “nã” está para sair da boca do goblin, a cabeça desse estoura espalhando pedaços e sangue aos pés dos mercenários que estavam próximos.

– Esse merdinha não ia ajudar em nada. Vamos embora. – diz a clériga Xorlarrin em baixo-drow, limpando sua maça suja com o sangue da criatura.

– Ela falou a palavra de novo, não foi? – pergunta Brum a Alak encarando a clériga.

– Não Brum. Pare com isso. – responde Alak ao seu companheiro.

A Xorlarrin encara o ogro de volta.

– Seu amigo está com algum problema? – a clériga pergunta para Alak ainda em baixo-drow.

– Não Senhora. – responde o eremita na mesma linguagem, logo voltando-se para o ogro em subterrâneo comum – Brum vamos andando.

Brum dá um passo a frente em direção a clériga que se afasta, mas logo se vira de costas e começa a procurar por orcs rindo da reação assustada da clériga.

– Quer que eu ensine alguma lição a ele, Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Não. Ele vai ser útil mais para frente. – responde secamente a clériga.

Alak apenas escuta a breve conversa dos dois e caminha para junto de seu companheiro quando ouve o guerreiro Xorlarrin mais à frente chamando a atenção do grupo.

“Encontrei alguns rastros”, diz ao grupo na linguagem de sinal drow, próximo a algumas barracas não atingidas pelas clavas de Brum.

Alak conhece pouco a linguagem de sinal, mas prefere fingir não conhecê-la e faz de desentendido. Quando a clériga e o mago ultrapassam ele e seu parceiro indo ao encontro do Xorlarrin, eles resolvem seguí-los. O guerreiro está observando algumas marcas no chão, que o eremita reconhece claramente como pegadas de orcs que adentraram aquela barraca.

– Ótimo, já sabemos por onde começar. – diz a clériga em baixo-drow com um sorriso no rosto – Mercenário, abra a porta.

Alak olha para a clériga, inclina levemente a cabeça e responde também em baixo drow:

– Sim, Senhora.

Armadilhas nunca foram o forte do eremita, muito menos em um contexto urbano. Mesmo assim ele prefere gastar um tempo observando a porta em busca de alguma possível ameaça. “Isso não está me cheirando bem”, comenta consigo quando a alguns metros um cântico profano é escutado. Alak para de analisar a porta e se vira para a direção da voz feminina que entoa aquelas silabas distorcidas.

Percebendo que todos do grupo foram pegos de surpresa, o eremita prepara suas duas espadas e tenta focar sua visão em uma figura larga e tremeluzente à pelo menos quinze metros de distância. Analisando o efeuito tremeluzente, Alak percebe que aquilo é causado por uma espécie de aura de calor e que aquele ser nada mais é que uma humana gorda e nua. Ao seu lado ele escuta o mago Teken’Th’Tlar recitando algumas palavras arcanas e vê o guerreiro Xorlarrin correndo em direção a humana.

– Brum, abra a porta enquanto eu os ajudo a enfrentar essa mulher. – diz Alak correndo também em direção da humana.

– Você demorou tudo isso só para abrir uma porta? – Brum ri e dá um forte murro, abrindo a passagem para dentro da barraca.

Alak ignora as risadas do seu companheiro e vê com uma certa distância, do seu lado esquerdo, uma esfera flamejante rolando pelo chão, deixando uma trilha de chamas, indo em direção da mulher que prossegue com seus cânticos. “Parece que o mago está mostrando porquê veio”, comenta mentalmente enquanto prepara para saltar em direção da mulher e arremessar uma de suas espadas.

Quando o momento se aproxima a bola ultrapassa o eremita e o guerreiro Xorlarrin e atinge seu alvo. Uma pequena explosão ocorre, tanto Alak quanto o Xorlarrin conseguem se esquivar de qualquer resíduo, mas assim que olham na direção da humana vêem que nada ocorreu a ela e que o cântico nem mesmo parou.

– Ela possui proteção mágica. – diz o Xorlarrin a Alak no dialeto drow – Atraia a atenção dela que a atacarei por trás.

– Fácil. – responde Alak pegando impulso para saltar e rolar pelo chão na frente da humana.

O salto sai perfeito. Com o próprio deslocamento de seu corpo, Alak rola pelo chão parando agachado em frente a sua adversária e arremessando uma de suas espadas, que acaba sendo desviada por algum vento quente que a circunda. Mesmo assim, a lâmina da espada passa de raspão pelo ombro da humana e abre um profundo corte, mas isso não é o suficiente para tirar-lhe a concentração. “Merda!”, pragueja mentalmente o eremita enquanto um círculo de fogo se levanta ao redor da clériga.

– Brum! Arremessa uma clava! – grita Alak vendo a adaga que parece ser do mago atingindo também de raspão a mulher gorda.

Atrás do círculo o eremita vê o guerreiro caminhando em uma posição estratégica que lhe permitiria atingi-la com um golpe fatal, porém sem conseguir se aproximar. A humana realmente não conseguiu perceber sua aproximação, mas o que ocorre ao seu redor não parece preocupá-la. Ela já havia iniciado outro cântico. Sua voz alcança uma potência preocupante e um brilho flamejante é disparado de sua mão ao mesmo tempo em que uma tora de pedra atinge em cheio a mulher que é arremessada para fora de seu próprio círculo.

Alak consegue se esquivar por pouco do raio flamejante disparado contra ele. Parte de sua armadura de couro batido é queimada no processo, mas sem perder tempo ele se desfaz dela e salta em direção à conjuradora, cravando sua espada em seu peito assim que pousa no chão. Ela ainda tenta segurar o pescoço do eremita, mas logo a espada curta do guerreiro Xorlarrin rasga-lhe a garganta.

O eremita percebe que ela, além de estar nua, é extremamente imunda, cheia de sebo, terra, excrementos. Sentindo nojo ele arranca a espada de seu peito e se afasta. O Xorlarrin também sente nojo e dá um passo para trás.

– Vou pegar minhas armas. – diz Alak como se já tivesse feito seu serviço e se afastando para recuperar sua outra espada e seus punhais arremessáveis.

Enquanto se afasta da humana o mago e a clériga se aproximam, e passam a observar o corpo.

– Ela é uma clériga. – comenta o mago.

– Sim, eu já sabia. – responde a Xolarrin secamente – Mas quem ela venera é que me intriga.

“Se sabia por que não avisou antes, sua puta”, comenta mentalmente Alak sentindo sua raiva ferver.

– Tem uma corrente passando pelo pescoço dela, Senhora. – comenta o mago.

Alak se vira em direção à conversa enquanto pega sua outra espada e vê o guerreiro Xorlarrin arrancando uma corrente com um pequeno pingente e entregando para sua senhora. O rosto da clériga se distorce em fúria, mas ela nada diz, apenas o guarda e faz alguns sinais quase imperceptíveis para seu guerreiro.

– O que seria isso, minha Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Silêncio, macho. Quando eu quiser falar com você assim o farei. – responde rudemente a clériga Xorlarrin partindo junto ao guerreiro para a cabana que Brum havia derrubado a porta.

“Guarde seus segredos enquanto pode clériga”, comenta consigo Alak vendo o rosto contrariado do mago Teken’Th’Tlar por ter acabado de perceber que sua subida na hierarquia de confiança da Xorlarrin havia sido ilusória. Alak apenas sorri e volta a procurar suas adagas.

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