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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 3)

Stongest leva mais carne de lagarto para a boca enquanto tenta escutar algo que preste nas conversas que ocorrem ao seu redor. Sabal apenas toma mais um gole de seu vinho de cogumelo enquanto também tenta selecionar da melhor forma possível o que está sendo conversado naquele ambiente. Já tem alguns minutos que os dois estão sentados na mesa da taverna apenas se “alimentando”.

Faz dois dias que eles chegaram ao Bazaar. Nesse pequeno espaço de tempo eles conseguiram saber que algum batedor da Casa Agrach Dyrr descobriu a respeito de um exército de duergars que estava vindo na direção de Menzoberranzan, algo que apenas fortificou o boato que um escravo Dyrr havia lhe passado recentemente. Segundo outros boatos, as Casas Maiores estavam preparando um ataque aos duergars no meio do percurso. O local exato eles não descobriram.

Hoje o dia está totalmente infrutífero. Percebendo que eles não conseguirão nada de útil apenas escutando, Stongest prefere comentar alto algo que está passando por sua cabeça enquanto ele come aquele pedaço de carne suculenta.

– Acho que se’ia inte’essante leva’mos algumas dessas ca’nes pa’a os fieis. Eles vão fica’ f’acos comendo apenas cogumelos. – diz em goblinoide o quase-goblin em meio a mastigadas.

Sabal, ao perceber que Stongest estava falando, retorna como se estivesse em um reverie profundo.

– Como? – pergunta a clériga.

– Eu disse pa’a leva’mos comida pa’a o pessoal. Eles estão p’ecisando. – responde Stongest, olhando sério para ela.

– Ah sim. Com certeza. Temos que levar alguma comida para a viagem também se pretendemos realmente encontrar o filho da Do’Urden. Digo, de Lolth. – diz a clériga também em globinóide, se corrigindo imediatamente quando vê o olhar de desaprovação do meio-goblin-meio-algo.

– Se você não ac’edita, po’ que aceitou consegui’ fieis pa’a ela? – pergunta seriamente Stongest enquanto morde mais um pedaço da carne e toma um gole da cerveja em sua caneca.

Sabal o olha fixamente e sorri.

– Stongest, seja sincero. Você acredita mesmo que ela é Lolth? A Deusa-demônio das Aranhas, encarnada? – pergunta a clériga enquanto o goblin responde positivamente com um aceno de cabeça – Pois eu não. Minha deusa nada me disse a respeito de enviar uma manifestação para o plano material.

– Então po’ que você a se’ve, se não ac’edita? – pergunta Stongest ainda mastigando a carne.

– Eu não a sirvo Stongest. Eu sirvo Lolth. A Do’Urden pode ser muito útil para os propósitos de minha deusa. Afinal, cada seguidor que “ela” consegue, louvará Lolth. Não ela, mas Lolth. – responde Sabal sorrindo.

O meio-goblin engole a carne e sorri como se tivesse acabado de escutar uma tolice.

– Eu já acho que louva’ão Lolth, como a ‘ep’esentação do Caos, da Astúcia, do Pode’ e da Escu’idão.

– E do Mal? – interrompe Sabal introduzindo uma questão – Por que vocês nunca mencionaram o Mal? Se ela é a representação dos aspectos que minha deusa representa, por que vocês negligenciam um de seus aspectos?

Stongest toma mais um grande gole de cerveja e coloca a caneca na mesa antes de responder.

– Po’que esse aspecto diz ‘espeito a sua ‘aça e não a quem ela que’ alcança’ ago’a com um co’po mate’ial. – responde o meio-goblin olhando fixamente os olhos da clériga como se tivesse certeza da resposta.

– Não faz sentido, Stongest. O que faz sentido é que ela não é a deusa e sim uma tentativa falha de uma louca em transformar sua filha, ou seja lá o que, em algo divino. – diz Sabal ignorando o olhar severo de Stongest – Estou com ela, pois ela pode ser a chave para aumentar o poder e a área de influência de minha deusa.

– Você ainda não sabe o que é te’ Fé de ve’dade, Sabal. – diz secamente o meio-goblin à drow, que gargalha.

– Você está falando com uma clériga, goblin. Se eu não soubesse o que é ter fé, nunca iria conseguir conjurar as bênçãos de minha deusa. – responde a ex-Dyrr como se falasse algo óbvio.

– Você tem fé em algo que não está em você. Você não sabe o que é te’ Fé ve’dadei’a, clé’iga. – responde Stongest ainda sério e seco.

O rosto de Sabal torna-se raivoso, algo que nunca havia ocorrido em qualquer outra conversa com Stongest.

– Stongest! Não fale sobre o que você não conhece. Você tem fé em uma mortal que foi criada para ser uma falsa-deusa. Você é um infiel. Não terá nem mesmo para onde ir quando morrer. – diz Sabal com um tom bem mais seco e severo do que de costume – Tente entender Stongest, sua fé é que é falsa.

– Eu não tenho fé na pessoa, mas no que ela ‘ep’esenta. Eu tenho Fé naquilo que ela me fez ve’ em mim mesmo. – retruca o meio-goblin após um gole de cerveja que finaliza a bebida de dentro da caneca – Você sabe do que estou falando, sentiu isso quando ela lhe aceitou como sendo uma extensão sua.

– Eu sei que aquilo foi uma experiência estranha, Stongest. Eu não posso negar que fiquei dias, até meses sem saber se acreditava ou não naquilo tudo, mas agora que ela partiu em viagem e está longe, consegui refletir e não faz nenhum sentido. – se justifica Sabal.

– E é p’a faze’? – pergunta Stongest colocando sua caneca e seu prato de lado – O que ela semp’e p’egou é que a ve’dadei’a Fé só é possível quando você enca’na aquilo que ac’edita. Você não conco’da com isso?

– Concordo. Mas me diz: minha sociedade não encarna todos os aspectos de nossa deusa? – responde Sabal como se estivesse dizendo algo óbvio, tomando logo após o último gole de seu vinho de cogumelo.

– Enca’na o que eles vêem em uma entidade exte’io’. Eles não enca’nam o aspecto que eles possuem inte’io’mente. – responde Stongest.

– Qual a diferença? Não vejo nenhuma. – retruca Sabal achando aquilo tudo muito ilógico.

– Há uma g’ande dife’ença Sabal. Da fo’ma que fazem, vocês apenas se’vem algo ou alguém. Vocês estão sujeitos a decepções, a dúvidas e a questionamentos. – começa responder Stongest olhando ao redor – Você ouviu alguns dos comentá’ios a respeito do “sumiço” da sua deusa, não é? Você sabe que muitos de seus fieis i’ão pa’a out’os deuses em busca do mesmo ab’igo que eles tinham em suas teias. Muitas de suas i’mãs clé’igas fa’ão isso. Você sabe que é ve’dade. Que é questão de sob’evivencia. Essa é a falha do seu tipo de fé.

Sabal olha espantada para Stongest como se não acreditasse que aquele goblin extremamente robusto fosse capaz de tamanho raciocínio.

– O nosso tipo de Fé, p’ega que devemos se’ um só com nossa divindade. Um só com aquilo que ela ‘ep’esenta. Lolth não está aqui e pode nunca mais volta’, mas eu continuo sendo um com ela. Mi’ka sob’evive’á mesmo que sozinha, algo ext’emamente difícil pa’a alguém de sua ‘aça, po’que ela é uma só com sua divindade. Ela é astúcia, ela não louva a astúcia, e isso a mante’á apta a sob’evive’. Você sentiu o que é se’ uma com sua divindade. Ac’edito que vá’ias vezes você sentiu isso em suas meditações ou ao senti’ o pode’ de sua deusa at’avessa’ o seu co’po, mas a última vez que você sentiu isso foi quando conheceu Lolth. A Lolth que eu p’otejo.

A clériga não consegue responder, apenas fica olhando para o goblin ainda com cara de espanto, como se não acreditasse que aquilo tudo estava saindo de sua boca.

– Você ainda não tem Fé de ve’dade Sabal, mas com o tempo e vivência i’á entende’ o que eu digo. – Stongest finaliza o assunto.

– Veremos. – diz Sabal ainda pasma.

Stongest dá mais uma olhada ao redor. A taverna está cheia, com vários comerciantes e mercenários bebendo e comendo. Ele tenta escutar alguma coisa ao seu redor, mas não ouve nada de útil até Sabal o interromper.

– Me conte mais a respeito do filho de Lolth. Como ele nasceu já sendo um drider? – pergunta a clériga que até o momento não tirou os olhos de seu pequeno e forte companheiro.

– Não sei. Sei que eu estava junto e uma espécie de casulo saiu dela no lugar de uma c’iança. Um pouco depois o casulo começou a se ‘ompe’ e apa’ece’am as patas de uma a’anha, e só depois os b’aços de um d’ow. – diz Stongest olhando Sabal nos olhos.

– E com quem ela o deixou?

– Com uma Vae’uniana que ju’ou c’iá-lo pa’a odiá-la o máximo possível. – responde como se fosse algo sem importância.

– Você está falando sério, Stongest? – pergunta Sabal duvidosamente.

– Sim. – responde rapidamente o goblin que passa a olhar de canto de olho para um Ogro e um drow que passam perto de sua mesa.

– Para que iremos atrás do filho de Lolth se ele é um inimigo em potencial? – pergunta Sabal incrédula.

– Pois nada é imutável, e um d’ide’ se’ia um g’ande aliado pa’a nossa ig’eja. – responde o meio-goblin sem perder os dois de vista.

Sabal percebe que o drow que acompanha o ogro a está olhando curiosamente e sabe o porquê. Não é a primeira vez que ela é observada daquela maneira em sua vida. Dando de ombros, ela apenas sorri para Stongest e continua falando em goblinoide.

– Espero que você esteja certo. Então vamos parar de perder tempo e nos preparar para encontrar o filho de Lolth.

– Sim. – concorda Stongest se levantando e indo comprar comida para a viagem e para os outros fieis, enquanto Sabal observa a dupla bizarra subindo as escadas para o dormitório da taverna.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 2)

Desde que voltou de sua viagem ao Lowerdark, Sol’al Teken’Th’Tlar está maravilhado com a nova aquisição feita para o zoológico de sua Casa. A drider o fascina e o faz dedicar dias a observá-la e a anotar suas reflexões a respeito do espécime. Suas anotações são feitas em papiros soltos, para só depois serem passadas para o seu “tomo herege”.

Uma das coisas que mais o fascinou na “amaldiçoada”, – mesmo não gostando do termo, Sol’al o usa por força do hábito -, foi a constituição de sua teia. Em toda sua vida, o jovem mago nunca havia visto nenhuma criatura-aranha que produzisse teias tão resistentes e perfeitas quanto as daquela drider. Ela podia não ser tão venenosa quanto os driders costumam ser, algo extremamente fora do comum, porém as armadilhas extremamente poderosas que ela era capaz de criar com sua teia eram inigualáveis. Sol’al não é capaz de esconder de si mesmo que sente uma certa tristeza de ter aquele ser preso em uma gaiola, incapaz de apanhar novas presas para Lolth, mesmo involuntariamente, já que é perceptível que a ex-clériga da Rainha das Aranhas agora pensa que serve a Vaherun.

Contudo os estudos são essenciais para que ele possa servir integralmente a sua amada deusa. “Somos todos alimentos de Lolth”, Sol’al repete a si mesmo como uma oração sempre que acorda. O mago sempre esteve disposto a se sacrificar e fazer sacrifícios à Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos. Em seu íntimo ele sabe que o maior de todos os seus serviços em relação a deusa seria através de seus conhecimentos sobre driders, aranhas e criaturas semelhantes, mas ao observar aquela drider e ao lembrar-se do drider que dissecou quando estava no Sorcere, Sol’al sente que os driders são um ponto importante no serviço à deusa. À silenciosa deusa.

Um dos acontecimentos recentes que o intrigou foi o repentino silêncio da Rainha das Aranhas. Ele se encontrava no Lowerdark quando isso ocorreu e as clérigas que os acompanhavam deixaram de receber seus poderes em um momento importante para a captura de outros espécimes. Uma delas morreu nas mãos de uma pseudocriatura-aranha-mind flayer que conseguiu escapar. Essa seria uma das maiores perdas, se eles não tivessem encontrado a drider. Mas a falta de poderes das clérigas o intrigou. No momento, Sol’al e os outros magos acreditaram que aquelas clérigas específicas haviam perdido a fé na deusa, mas mesmo assim continuavam respeitando-as até terem certeza de suas suspeitas. Porém, ao chegarem em Menzoberranzan e descobrirem que sua cidade havia sofrido uma insurreição por parte dos escravos, eles perceberam que aquilo não havia sido um fenômeno isolado.

A deusa estava em silêncio por algum motivo que apenas ela mesma sabia. Sol’al havia escutado alguns hereges dizerem que a Rainha das Aranhas estava morta, mas em seu íntimo ele sabia que não era verdade. Lolth estava testando seus fieis, pois provavelmente esses teriam demonstrado fraqueza e falta de fé. Era nesse momento que seu louvor pelos driders crescia. Os “amaldiçoados” eram poderosos e continuavam a servir a deusa mesmo em seu silêncio, pois carregavam em si uma porção da própria em sua maldição.

No momento, Sol’al encontra-se em seu quarto refletindo sobre tudo isso, copiando suas anotações feitas diante da drider e escrevendo novas em seu tomo secreto. Algo que ocorreu quando ele estava observando o espécime há mais ou menos dois dias atrás, veio a tona em sua mente. O jovem mago recebeu a visita de Jabor e Eclavdra. Isso não o chamou muita atenção, pois lhe pareceu que Jabor queria apenas gabar-se para a feiticeira a respeito da nova aquisição. Porém, ele recebeu a visita da fêmea duas vezes mais em outras oportunidades e isso o incomodou.

– O que você acha que conseguirá com seus estudos e anotações, mago? – perguntou ela em uma das oportunidades.

Humildemente, Sol’al apenas respondeu:

– Servir melhor a Rainha das Aranhas, Senhora.

A feiticeira sorriu com desdém e em silêncio se retirou do local, deixando Sol’al apenas a sensação de que algo estava errado. Por mais ingênuo que se faça parecer, ele conhece muito bem como funciona a sociedade na qual foi criado. Portanto, após o segundo encontro ele começou a se preparar para qualquer eventualidade.

– Me parece que você idolatra mais aqueles que nossa deusa amaldiçoa do que ela própria. Que tipo de relação você gostaria de ter com um drider? – perguntou secamente Eclavdra ao jovem mago.

– Pretendo apenas conhecer todos os filhos de nossa deusa, para que assim possamos aumentar o poder de nossa Casa, de nossa cidade e de nossa fé. Afinal, conhecimento é poder, não é Senhora? – respondeu humildemente Sol’al

Com um olhar fulminante da feiticeira, o mago até sentiu como se estivesse sendo queimado vivo.

– O conhecimento prático traz mais poder do que suas anotações incondicionais. Você deveria praticar mais, ao invés de ficar criando calos em sua mão com anotações que provavelmente outros estudiosos já fizeram. – disse rispidamente a feiticeira.

Com a cabeça baixa, Sol’al respondeu:

– Nossas formas de magia são diferente, Senhora. Meu poder baseia-se em conhecimento, portanto para mim o conhecimento teórico deve caminhar junto a experiência prática.

– Espero que seu caminho ao conhecimento não venha desonrar nossa Casa. – disse a feiticeira em tom de ameaça, virando-se e saindo do local novamente.

Enquanto faz as anotações em seu tomo, todos esses ocorridos passam por sua mente. Para se manter preparado, Sol’al recorda algumas magias de proteção que poderiam lhe ajudar caso necessário. Eclavdra não faz a mínima questão de que ele continue fazendo parte da Casa Teken’Th’Tlar e isso cada vez é mais óbvio. Portanto, cada vez mais Sol’al precisa tomar cuidado ao esconder seu “tomo herege” pois, se ela o encontrar, será a prova incontestável de que suas suspeitas estão certas. “Eu quero me tornar um drider”, conclui consigo mesmo o jovem mago enquanto fecha seu tomo e o guarda.

Após lançar algumas magias de proteção para dificultar a acessibilidade ao livro, Sol’al sente uma voz invadindo sua mente:

“Sol’al, encontre-me no hall de estudos. Urgente”, a voz, que o jovem mago reconhece imediatamente, pertence a Jabor.

“Estou indo imediatamente, Mestre”, responde mentalmente o discípulo daquele que acabara de falar.

Caminhando pelos corredores da Casa, que se assemelham a túneis de teias esculpidas em pedras, Sol’al não perde a atenção em seu ambiente enquanto reflete a respeito de como se tornar um drider sem falhar frente a sua amada deusa. Nenhuma resposta surge. O silencio da deusa parece, aos seus olhos, ser um teste a toda sua raça e aos seus seguidores, porém isso dá apenas uma sensação maior de urgência em encontrar uma resposta para suas questões.

Quando chega à porta que dá entrada ao hall de estudos, Sol’al dá dois toques e a abre.

– Com licença, Mestre. – diz ele, entrando com a cabeça levemente inclinada cumprimentando Jabor.

Ao perceber que Jabor não esta sozinho, mas se encontra com o maior mago da Casa: Riklaunim, com a mais poderosa maga Teken’Th’Tlar Akordia e com a própria Matrona Maya Teken’Th’Tlar, ele se inclina ainda mais e cumprimenta a todos:

– Com licença, Senhoras e Mestres. Não esperava vê-los todos juntos. Perdoem meu desleixo.

Riklaunim sorri para a cena que lhe soa no mínimo patética. Akordia apenas observa o recém-chegado, enquanto a Matrona o fulmina com um olhar, voltando-se logo em seguida a Jabor, que está apenas sorrindo.

– Eclavdra tinha razão ao dizer que seu discípulo é no mínimo vergonhoso, Mestre Jabor. – diz Maya secamente.

– Por favor, minha Senhora, não o julgue tão depressa. Lembre-se que o próprio Orghz Q’Xorlarrin o requeriu. – comenta calmamente Jabor.

– Preocupo-me com a imagem de nossa Casa. Lutamos bastante para que ganhassemos o mínimo de reconhecimento que possuimos, não quero que tudo isso se perca a pedidos de um membro de uma Casa Maior. – diz a matrona com um toque de raiva em sua voz – Ele apenas conheceu esse jovem quando era um estudante do Sorcere. Se soubesse que não houve nenhum desenvolvimento de suas capacidades desde então, acredito que não iria requerer seus serviços. A não ser que fosse para acabar com a leve imagem que construímos até o momento.

Enquanto a Matrona da Casa fala, todos os outros ficam em silêncio. Sol’al se mantém com a cabeça baixa, sem se manifestar de forma alguma, como se realmente não estivesse lá.

– Minha Senhora, as capacidades do jovem Sol’al melhoraram muito. Treinei-o pessoalmente. Possuo até mesmo recomendações e elogios por parte das famílias mercantes que tiveram seu auxílio. – diz Jabor alguns instantes depois da matrona ter finalizado seu discurso.

– Você arriscaria sua vida pela confiança que dá às capacidades de seu discípulo, Mestre Jabor? – pergunta Maya enfatizando o começo da pergunta.

Jabor e Sol’al compreendem plenamente o que ela está querendo dizer, mas antes que o mestre de Sol’al possa responder, Akordia entra na conversa:

– Senhora Matrona, muitos dos novos espécimes que adquirimos tiveram participação mesmo que indireta desse jovem. Seus estudos ajudaram muitos de nossos caçadores a conseguir novas aquisições.

– Caçar monstros não demonstra suas capacidades como mago, senhora Akordia. – responde secamente a matrona.

– Muito pelo contrário, Senhora Matrona. – intercepta Riklaunim – Ter como base as anotações desse jovem, demonstra que ele possui uma grande perspicácia e capacidade intelectual. O que é importantíssimo para nós magos.

Maya olha o mago nos olhos e se mantém em silêncio esperando que esse continue.

– Sei que a Senhora possui capacidades de feitiçaria, além de ser uma excelente clériga, portanto creio que compreenda que da mesma forma que os feiticeiros aprenderam a manipular a trama mágica de modo intuitivo e dinâmico, nós magos a manipulamos através do conhecimento que adquirimos. – prossegue Riklaunim.

– Então você está me dizendo que esse jovem tem um grande potencial e habilidades excepcionais graças a sua inteligência e conhecimento? – pergunta incrédula a Matrona.

Riklaunim afirma com a cabeça e Akordia retoma o rumo da conversa:

– Exatamente, Senhora. Esse jovem demonstra grandes conhecimentos e uma imensa capacidade de aprendizado.

Maya Teken’Th’Tlar olha para Sol’al, que se mantém no mesmo local com a cabeça baixa, como se refletisse a respeito de tudo que fora dito a ela.

– Então envie-o para auxiliar os Xorlarrin na investigação ao culto de Lolth pelos escravos. Quaisquer erros e possíveis correções dos mesmos ficam sob sua responsabilidade. – finaliza a Matrona se levantando e saindo do hall.

Após algum tempo da saída da Matrona, Riklaunim e Akordia olham para Jabor.

– Espero que você esteja certo sobre ele, Mestre Jabor. – diz a maga com tom de ameaça.

Sol’al sente a ansiedade e a curiosidade crescerem ao saber que foi escolhido para acompanhar a Casa Xorlarrin na investigação de um possível culto a deusa feito pelos escravos, que tanto a odeiam. “Algo no mínimo curioso”, pensa o jovem mago.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 1)

Menzoberranzan está prestes a ser atacada. A Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos está em silêncio. O Bregan D’Aerthe que traria o novo contrato está atrasado. E “a cerveja tá acabando”, segundo seu amigo ogro. Entretanto, nada disso importa para Alak Sel’Xarann no momento. Há mais ou menos um dia e meio ele matara seu próprio mestre e pai de criação.

Sua mente ainda não se adaptou a idéia de que ele não mais é o “discípulo do eremita”, mas que havia tomado o lugar do próprio eremita. Porém, o que realmente não desce por sua garganta é que seu mestre tivesse que morrer por suas próprias mãos. Seria muito mais honrado e belo para a imagem daquele que o criou, se sua morte tivesse ocorrido enquanto lutando contra os duergars, protegendo sua cidade e sua deusa.

Sua deusa.

Aquela que “lhe disse” para morrer “pelas mãos de seu sucessor”. Alak deixa o pensamento se desfazer com desdém. “Não importa mais”, diz para si mesmo. “Da mesma forma que Vazmaghor continua sendo um excelente companheiro através de minhas espadas, Azirel, meu pai, continuará sendo um excelente mestre através de minhas ações”.

– Você não acha que está pensando demais não? – pergunta Brum, dando um cutucão no ombro de Alak.

– Bobagem, Brum. – responde o novo eremita, fazendo um gesto desdenhoso com a mão.

– Sim, bobagem, mas se Nym fosse um assassino contratado para te matar, nesse momento você estaria morto. – comenta o ogro gargalhando.

Alak olha para trás e vê Nym parado com um punhal preparado perto de um ponto vital próximo a sua garganta. “Concentre-se, estúpido”, repreende-se enquanto escuta seus companheiros de serviço gargalharem.

– Com certeza eu estaria morto, mas Nym falaria fino pelo resto de sua vida. – retruca Alak com um sorriso no rosto.

Nym para de gargalhar e olha surpreso para suas regiões baixas, percebendo que a ponta de uma das espadas de Alak está próxima a sua “área sensível”. Brum gargalha ainda mais, dando alguns socos contra a mesa que treme. Nym, ainda surpreso, começa a rir devagar enquanto o eremita continua apenas sorrindo, vitorioso.

– Muito bem, Alak, eu o subestimei. – comenta Nym, guardando seu punhal e cumprimentando-o – Desculpem-me pelo atraso.

– Não se preocupe. – responde Alak ainda sorrindo. Seu blefe foi excelente, seus companheiros nem mesmo desconfiaram que ele apenas aproveitou o momento das risadas para posicionar sua espada e ficar com a imagem menos suja. “Concentre-se, idiota”, reprime-se novamente.

– Não se preocupar?! Claro que você tem que preocupar! A cerveja tá acabando e nenhuma caravana de mercadores poderá sair ou entrar em Menzoberranzan até essa merda toda acabar! – diz Brum, exaltado como se o mundo ao seu redor estivesse em chamas – Sabe o que isso significa? Que não haverá mais cerveja daqui algumas horas e ficaremos sem até essa guerra ter fim!

Nym e Alak olham para o ogro com as sobrancelhas erguidas.

– Tudo bem, Brum. – responde Alak encerrando a cena do companheiro – Vamos aos negócios.

– Só esperem um pouco, vou pegar mais uma caneca. – diz Brum levantando-se e indo para o bar.

O Bregan D’Aerthe sorri para Alak, que continua sério.

– Alak, não sei o que aconteceu, mas tente relaxar. Você conhece o Brum faz tempo, não vai ser difícil trabalhar com ele de novo. – diz Nym.

– Não se preocupe com isso, apenas me responda: de onde ele tira tanto dinheiro? – pergunta Alak sorrindo.

– Ele venceu o desafio de um mago anteontem. – responde Nym com uma semi-verdade.

– Certo, faz sentido vindo dele.

O ogro retorna e senta-se à mesa junto com os outros dois. Toma um gole de sua cerveja e oferece para ambos, que negam com acenos de mão.

– Vamos aos negócios agora? – pergunta Alak.

– Por mim, tudo bem. – concorda Brum sorrindo como uma criança com um brinquedo novo.

Nym tira do bolso o pergaminho dado pela figura misteriosa e o entrega para Brum antes de começar a conversa:

– O trabalho é simples, Alak. Como já disse a Brum em outra oportunidade antes de você chegar a Menzoberranzan, vocês servirão de guarda costas para uma clériga de Lolth de uma das Casas Maiores. – sintetiza o mercenário Bregan D’Aerthe.

– Guarda costas? A cidade entrará em guerra e uma clériga quer guarda costas? – pergunta o eremita como se ainda não tivesse entendido exatamente o que o contratante quis dizer.

– Vocês não participarão da guerra. A clériga foi encarregada para uma missão investigativa no Braerym, e vocês deverão acompanhá-la para garantir que ela retorne com vida dessa missão. – responde Nym.

– Compreendo. Então essa clériga não possui guerreiros em sua Casa para acompanhá-la? – pergunta Alak levantando uma sobrancelha.

– Na realidade possui. E um deles irá também, porém vocês não estão sendo contratados por ela. – responde o Bregan D’Aerthe enquanto Alak o olha, esperando a continuação, enquanto Brum toma mais um gole de sua cerveja – Vocês foram contratados por alguém que não quer ser identificado e que pertence a uma das Oito Casas Maiores de Menzoberranzan.

– E ele apenas quer que protejamos a clériga? Você não está escondendo nada? – pergunta o lutador eremita desconfiado.

Nym sorri:

– Não estou, Alak. Não se preocupe. Ele realmente quer apenas que vocês protejam a clériga para que essa possa completar sua missão e voltar para sua Casa com as informações necessárias.

Alak dá de ombros e toma um gole de seu vinho.

– Lembre-se, Alak: estamos em tempos perigosos. As Casas Maiores estão ocupadas com o possível ataque que se aproxima. Lolth está em um silêncio misterioso. Os Xorlarrin não iam se dispor de uma alto-clériga para uma missão investigativa em um território hostil. – comenta Nym encarando Alak seriamente.

– Então seremos babás de uma clériga iniciante? – pergunta Alak rindo.

– Quase. – responde Nym sorrindo – Ela possui experiência, mas não é uma das mais poderosas de sua Casa.

O eremita balança a cabeça indicando ter entendido o que o Bregan D’Aerthe acabou de lhe dizer. Brum dá mais um gole de sua cerveja e arrota.

– Foi mal. Não quis atrapalhar. – diz Brum quando os dois olham em sua direção.

Nym ri, enquanto Alak apenas sorri e retoma o asunto:

– Quanto iremos receber? – pergunta Alak.

Colocando a mão em um de seus bolsos o mercenário contratante tira duas pequenas sacolas com algumas gemas:

– Essa é a primeira parte do pagamento. – diz Nym – A segunda virá quando vocês voltarem com a clériga viva e salva.

Alak abre uma das bolsas, a que ele supôs ser sua, e vê uma dúzia de ametistas. Com os olhos arregalados de espanto, ele apenas responde:

– Estou nessa.

– Não irá se arrepender, discípulo do eremita. – diz Nym se curvando e sorrindo para Alak.

– Imagino que não. – responde o eremita cumprimentando e selando o acordo com o Bregan D’Aerthe.

Nym se levanta e prepara-se para sair:

– Ah sim! E você deve cuidar para que Brum não chateie ninguém com sua personalidade. Você sabe como são as clérigas, não é? – comenta em baixo-drow o contratante, virando as costas e partindo.

– Não se preocupe. – responde Alak também em baixo-drow.

– É. Me tirem da conversa mesmo. Sou ignorável, apenas um pequeno, ignorante e mirrado ogro apreciador de cerveja. – diz Brum, com seus três metros de altura tomando mais um gole de sua bebida favorita.

Alak ri e finaliza seu vinho.

– O que era aquele pergaminho que Nym lhe deu? – pergunta o eremita, um tanto curioso.

– É nossa “carta de recomendação”, pelo que entendi. – responde Brum, mostrando para ele – Parece que apenas os Xorlarrin tem permissão de abrir.

– Interessante. – comenta Alak olhando para o item – Você ficará por aqui também?

Alak olha para o rosto de Brum enquanto esse guarda o pergaminho.

– Eu estou instalado aqui no Bazaar já faz alguns dias. Até deixo minhas armas no quarto. – responde Brum despreocupado.

Alak não se surpreende com a resposta do companheiro. A única coisa valiosa que o ogro realmente possui são as pedras preciosas que recebe como pagamento e a cerveja e comida em seu estômago. Suas armas são apenas dois grandes pedaços de pedra moldados na forma de clavas, amarrados com correntes. Enquanto sua armadura, – se é que aquilo que ele usa pode ser considerado uma armadura -, não é nada além de trapos de couro.

– Ficarei por aqui também. Vamos dividir o quarto, sairá mais barato. – diz Alak.

– Se não fosse a parte do ficar mais barato, eu ia desconfiar das suas opções sexuais. – comenta Brum olhando severamente o companheiro.

Alak ri e se levanta.

– Vamos descansar, Brum. Creio que o Bregan D’Aerthe tenha lhe passado a data e o local onde encontraremos a clériga, não é?

– Sim. Será amanhã, na taverna ao lado. – responde o ogro também se levantando. Brum é o único que Alak conhece que o faz sentir-se baixinho, pois ele sempre foi bem maior que a grande maioria dos drows – Na verdade, será em um dos dormitórios da taverna ao lado.

– Ótimo. – diz Alak começando a caminhar.

Ambos vão em direção às escadas que levam ao dormitório, mas no meio do caminho uma cena chama a atenção do eremita. Uma clériga de Lolth conversando de igual para igual com um goblin, ou “seja lá o que for aquilo”, em uma língua que não é drow.

– Brum, você entende o que eles estão dizendo? – pergunta Alak enquanto passam por perto dos dois.

– Nada de mais. Tão falando algo sobre encontrar o filho de Lolth. Besteira. – diz o ogro dando de ombros.

Ainda estranhando a cena, Alak sobe as escadas com seu companheiro ogro. “Sem sua deusa para lhe dar poder, ela deve estar pensando em servir a Vaherun”, responde a si mesmo o lutador eremita enquanto prossegue em seu caminho.

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