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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 2)

– Você se p’eocupa demais Sabal. – diz o meio-goblin-meio-algo a ex-clériga da Segunda Casa Maior de Menzoberranzan – Fiz o se’viço di’eito quando t’ouxe o Qui’i p’a cá.

– Confio em você Stongest, mas temos que planejar logo o que fazer, pois já perdemos tempo demais para ir em busca do filho de Lolth. – responde Sabal Dyrr ao Guardião.

Todos os cultistas da Lolth encarnada se encontram na barraca junto ao guardião e a clériga. Mirka e Gromsh estão posicionados de forma que fique mais fácil para eles participarem do planejamento, enquanto três goblins arrumam os mantimentos em mochilas diferentes e dois kobolds guardam os objetos sagrados de Lolth; um pequeno ídolo, um tufo de cabelo da primeira clériga – Vishnara Do’Urden – e uma pequena aranha de adamantina.

– Sabendo que Quiri conseguiu descobrir uma passagem para fora da cidade, já facilita muito para nós. – diz Sabal.

Logo que Gromsh e Mirka chegaram da busca pelos outros seguidores da deusa encarnada, Stongest contou a Sabal exatamente como Quiri havia sido atacado. O pequeno e mirrado goblin havia encontrado uma das possíveis passagens utilizadas pelos orcs, porém furtividade nunca foi o forte de Quiri. Os orcs que guardavam o local atacaram Quiri, mas Stongest conseguiu salvá-lo a tempo. Para os orcs, Quiri simplesmente sumiu diante de seus olhos.

– O problema é que eles cultuam algum demônio, e isso pode vir a ser um grande empecilho. – complementa a clériga, colocando todos a par da informação que Quiri conseguiu e Stongest havia passado a ela – Precisamos ultrapassar a área controlada por esse culto, sem sermos vistos.

– Acho que isso não será problema, posso preparar apenas magias que auxiliem em nossa furtividade, Senhora. Mas precisaria de um tempo para descansar. – diz a pequena maga kobold Mirka.

– Creio que no momento não temos tempo para isso Mirka. Precisamos sair ainda hoje. – responde a cleriga olhando para os kobolds que estão guardando as relíquias como se refletisse a respeito de tudo o que estava ocorrendo.

– Não acho que temos que te’ tanta p’essa, Sabal. – diz Stongest chamando a atenção da clériga para ele – Ac’edito que a Mi’ka possa te’ um tempo pa’a descansa’ e pa’ti’mos logo que ela estive’ p’epa’ada.

– Sinceramente não concordo Stongest, já disse que estamos perdendo tempo demais. Talvez essas horas de descanso que a Mirka necessita seja o suficiente para as patrulhas descobrirem a passagem que Quiri descobriu. – opina a clériga claramente preocupada.

– Concordo. Afinal, se Quiri acho num deve sê difícil otro achá. – comenta Gromsh.

Stongest olha sério para seu companheiro gnoll:

– Qui’i fez um bom t’abalho, G’omsh. Muito melho’ do que todos espe’ávamos. – retruca o meio-goblin.

– Dexa disso. Foi só um comentário. – se defende Gromsh enquanto Stongest esboça aquilo que parece ser um sorriso.

– Não se p’eocupe. Apenas não acho ce’to esse tipo de comentá’io sob’e alguém que se sac’ificou po’ nossa causa. – diz Stongest tentando ser simpático.

– Por favor, sabemos que Quiri fez um trabalho ótimo, mas precisamos planejar o que iremos fazer com o que ele descobriu. Vamos voltar ao assunto? – diz Sabal tentando fazer com que seus dois companheiros retomem o foco do início da conversa.

– Isso é um tanto problemático mesmo, Senhora. Talvez não seja muito sabio de nossa parte utilizarmos nosso tempo para que eu decore algumas magias no momento. – diz humildemente Mirka à clériga – Ainda consigo fazer algumas poucas magias antes da minha mente ficar exausta. Acho que pode ser o suficiente para adentrarmos a passagem.

– A minha pe’gunta é: como você p’etende se’ fu’tiva com sua a’madu’a, Sabal? – pergunta o meio-goblin, questionando o plano.

Sabal o encara refletindo a respeito do que ele acabou de perguntar.

– Mirka? – a clériga volta à kobold como se estivesse pedindo auxílio.

– No momento não seria capaz de ajudá-la, Senhora. Utilizei todo meu conhecimento desse tipo de magia trazendo nossos companheiros para cá. Minha mente não consegue mais se focar nesse conhecimento no momento, precisaria realmente reler meu grimório e descansar. – responde Mirka tristemente.

Sabal sorri para Stongest:

– Acho que você tem razão guardião. – se rende Sabal.

– Mas por que não podemos ir de peito aberto, Senhora? Temos que nos escondê mesmo? – pergunta Gromsh.

– Chamaria muita atenção Gromsh. – responde Sabal.

– Mas e as patrulhas? E se descobrirem a passagem? – Gromsh emenda outra pergunta logo após a resposta da clériga.

– Ai teremos que passar por eles. – responde a clériga ao gnoll.

– Ou talvez possamos atrasar esse acontecimento. – diz Mirka olhando para a clériga.

Sabal sorri para a kobold compreendendo o que ela quis dizer e volta o seu olhar para Gromsh e Stongest.

– Gromsh, me responda uma coisa: como anda sua capacidade de arranjar encrenca sem se envolver diretamente? – pergunta a ex-Dyrr ao seu companheiro gnoll.

– Cada veiz melhor, Senhora. – responde o gnoll sorrindo com seus caninos amarelos e afiados aparecendo no canto de sua boca.

– Stongest? Você o acompanharia? – pergunta a clériga ao guardião.

Stongest olha para ela e para Mirka, como se refletisse a respeito do que elas estão sugerindo.

– Você que’em uma confusão? – pergunta o meio-goblin.

Mirka sorri em resposta, Sabal apenas inclina a cabeça afirmativamente.

– Vocês te’ão. – complementa Stongest.

– Mas precisamos que vocês não estejam diretamente envolvidos, não queremos chamar atenção, lembra? – comenta Sabal.

– Eu sei cle’iga. Já disse, não se p’eocupe.

Stongest se levanta e se prepara enquanto Mirka abre seu grimório e se põe a estudar.

– Faz tempo que não me divirto. – comenta Gromsh rindo – Finalmente vou colocá a capacidade do anel a prova, Mirka.

Mirka olha para seu companheiro gnoll e sorri. Sabal se levanta da almofada e caminha até Stongest, sussurrando em seu ouvido:

– Cuide de Gromsh. Não deixe que ele cometa nenhuma falha.

– Sou o gua’dião, Sabal. Eu entendi o po’quê você quis me manda’ junto. – responde Stongest com sua maneira confiante habitual.

– Sua dedicação me tranqüiliza Stongest. – comenta Sabal sorrindo para o meio-goblin, que devolve o sorriso da forma mais simpática que consegue.

Stongest chama Gromsh com um breve rosnado. O gnoll caminha para a porta junto ao meio-goblin e ambos saem para as vielas do Braeryn. Sabal realmente se sente mais tranqüila ao ver que Stongest está acompanhando o gnoll. “Gromsh é um ótimo e fiel guerreiro, mas infelizmente nunca foi um gênio”, comenta mentalmente a clériga caminhando para uma almofada a fim de iniciar uma meditação.

– Senhora, não consigo mexer seu escudo. – diz um dos kobolds que após arrumarem as relíquias agora estão arrumando os pertences de seus companheiros.

Sabal sorri:

– Não se preocupe Rashna, eu o pegarei quando formos partir.

Mesmo confusa, a kobold concorda e caminha a uma das almofadas para descansar após os serviços terem sido finalizados.

“Se Lolth não tivesse em silêncio, tudo seria mais fácil”, pensa Sabal, “Ou se pelo menos a Do’Urden realmente fosse uma deusa”. Sabal se sente ultrajada por pensar assim e balança sua cabeça negativamente, “Mariv se sentiria envergonhado de me ver pensado nisso”, novamente o pensamento lhe faz balançar a cabeça negativamente, “Que importa o que ele pensaria?”. A cleriga respira fundo, “Não posso criar dependências a forças e coisas externas”, Sabal sorri, “Chega a ser irônico encontrar outros que realmente pensam assim em um grupo de hereges”. A clériga se põe a meditar com a leve sensação de conforto que a identificação com o grupo trouxe a sua mente.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 2)

– A situação está complicada, Mirka. Não temos como sair da cidade pelas maneiras convencionais. – diz Sabal Dyrr, ex-clériga da segunda Casa mais poderosa de Menzoberranzan, a uma kobold.

Mirka olha para sua companheira drow com um rosto pensativo.

– Senhora, Quiri foi fazer uma busca pelo Braeryn um pouco antes de você e o Stongest chegarem. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa. – comenta a pequena kobold.

– Até onde eu saiba, todas as passagens conhecidas estão sendo guardadas por patrulhas drows. – diz a clériga apreensiva para sua pequena companheira – E a única que não era conhecida foi descoberta após a insurreição, e agora também tem proteção de guardas da cidade.

No canto da barraca onde o Culto a Lolth Encarnada se encontra escondido, está um gnoll se alimentando com a carne que seus companheiros trouxeram do Bazaar.

– Ouvi falá que tem uns orcs que fugiram pelo Braeryn. – diz o gnoll mastigando um grande pedaço de carne seca.

– Você está se referindo aos que escaparam da Casa Xorlarrin? – pergunta Sabal – Isso foi antes da insurreição, Gromsh. Talvez eles fizessem parte de todo o esquema.

– Não, Senhora. Num tô falando desses não. Tô falando de uns mais recentes. – responde Gromsh engolindo o que estava em sua boca e mordendo outro grande pedaço – Parece que uns orcs e hobgoblins conseguiram fugí da cidade há pouco tempo.

Sabal sorri para o gnoll.

– O que você está dizendo é fato, Gromsh?

– Com certeza, Senhora. Foram contatos confiáveis que me disseram. – responde o gnoll, orgulhoso.
Sabal se levanta da almofada onde estava sentada e caminha até a pequena janela próxima a porta de entrada e saída. Pensativa e concentrada, ela tenta encontrar o guardião meio-goblin lá fora, mas é quase impossível vê-lo quando esse não quer ser visto. Discretamente, a clériga começa a emitir alguns rosnados – por mais estranho que isso tenha soado no início de sua vida com aqueles hereges, atualmente é bem mais natural.

“Stongest. Se estiver tudo calmo ai fora, entre. Precisamos conversar”, diz a clériga na linguagem secreta do culto, logo após virando-se para seus outros dois companheiros.

– Vocês acham que Quiri tem capacidade de encontrar alguma passagem? Isso é, se ela realmente existir. – pergunta Sabal com uma das sobrancelhas erguidas.

– Sinceramente não, minha Senhora. – responde Mirka – Quiri é um goblin muito dedicado, mas não é muito inteligente nem perceptivo.

– Ah! Ele é um goblin. Goblins são estúpidos. – diz Gromsh rindo.

– Eu sou um goblin, G’omsh. Você me acha estúpido? – a voz de Stongest surge como uma invocação, do canto da cabana oposto ao que o gnoll se encontra.

Gromsh coça a cabeça constrangido.

– Cara, não foi bem isso que eu quis dizê. Sabe, você nem é um goblin direito, né? – o gnoll tenta consertar, desviando o olhar dos olhos do pequeno e robusto meio-goblin-meio-algo.

– Eu tenho sangue goblin, po’tanto sou um goblin. – finaliza Stongest, virando-se  para a clériga.

Sabal ri baixo. Gromsh continua coçando a cabeça envergonhado, enquanto Mirka sorri por ver o guardião.

– Já acabaram, crianças? – pergunta a clériga enquanto olha para o goblin que está sério a observando.

– O que você que’ conversa’, Sabal? – pergunta Stongest demonstrando toda sua simpatia.
Sabal ri mais um pouco antes de começar.

– Quiri foi atrás de alguma passagem para fora de Menzoberranzan aqui no Braeryn. O problema é que não confiamos na capacidade dele para encontrá-la, se é que ela existe. – diz a clériga resumindo a conversa.

– Onde estão os out’os fieis? – pergunta Stongest olhando ao redor da barraca.

– Foram conseguí informações com outros das mesmas raças. – responde Gromsh.

– Não acho isso uma boa idéia. Eles são muito inexpe’ientes. – diz o meio-goblin voltando-se para o gnoll.

– Eles foram antes de vocês voltarem, Senhor. Houve alguns poucos boatos a respeito de orcs e robgoblins que conseguiram fugir da cidade através de um túnel que começa aqui no Braeryn. Precisávamos saber de algo. – diz Mirka.

– Ce’to. – comenta Stongest, achando razoável a resposta da kobold.

– Então, Stongest, você poderia ir atrás de Quiri? Mirka irá convocar o resto dos fieis. Creio que todos devem ir conosco em nossa busca pelo filho de Lolth. Concorda? – pergunta Sabal voltando a se sentar em uma almofada, em posição de meditação.

Stongest olha para a clériga, pensativo. Sabal encara a feição séria do meio-goblin e percebe alguns traços bem delicados em seu rosto, apesar de todas as cicatrizes. O olho do meio-goblin tem um formato um pouco ovalado. “Como eu ainda não tinha percebido isso”, pergunta-se a clériga demonstrando surpresa.

– Que foi? – pergunta Stongest – Alguma idéia melho’?

– Nada não, Stongest. Apenas me perdi em pensamentos. – responde Sabal, enquanto sua mente tenta não acreditar naquele detalhe, “Não pode ser, eu devo estar vendo coisas”.

– Eu vou at’ás do Qui’i. – diz o meio-goblin desconcertado com as reações da clériga, sumindo novamente dos olhares de seus companheiros próximo à janela.

– Senhora, quer que eu vá atrás dos outros agora? – pergunta Mirka a clériga.

– Espere um pouco, Mirka. – diz Sabal pensando a respeito – Se você conhecer alguma magia para chamá-los sem precisar sair daqui, acho que seria melhor.

– Não tenho nada semelhante preparado no momento, Senhora. – responde Mirka.

– Então pode ir. Vá com Gromsh, assim vocês podem se separar e procurar mais rapido.

– Sim, Senhora. – responde Mirka indo até a porta – Vamos, Gromsh?

– Vamo sim. – responde o gnoll, limpando os dentes com a unha.

Quando ambos saem pela porta, Sabal se põe a refletir sobre a situação. É interessante ver como sua vida está bem diferente do que ela imaginava quando fugiu de sua Casa. Sempre imaginara que teria que sobreviver sozinha por muito tempo e apenas aos poucos conseguiria lacaios fieis, mas a Do’Urden e Stongest pouparam esforços para ela.

A lealdade desses seres é totalmente estranha a ela, que foi criada dentro da segunda maior Casa da Cidade da Rainha Aranha. Ela não é forjada com o medo, pois qualquer um deles seria capaz de sobreviver sozinho e não se importaria em deixar um traidor para trás. Porém, a lealdade deles é forjada pela Fé – não a fé dela, mas a Fé que Stongest explicou no Bazaar -, o que é muito mais forte do que a lealdade que os escravos tem pelos seus senhores drows. Supondo que tentasse controlar Mirka através do medo, a pequena kobold não a repreenderia, simplesmente sumiria e nunca mais seria vista. “É impressionante a lealdade e liberdade que esses hereges possuem”, pensa consigo mesmo.

Particularmente, Sabal se sente até inferiorizada ao ver as atitudes desses cultistas em relação à falsa-deusa. “Falsa-deusa. Por que me sinto tão vazia quando penso isso?”, ela se pergunta, e sua memória a leva ao seu último encontro com aquele que foi seu professor, seu aliado e seu amante: Mariv.

Sua memória não toca apenas os planos das imagens, seu braço ainda sente o impacto criado quando atingiu o rosto daquele que ela tanto respeitava. “Sem arrependimentos”, comenta para si tentando espantar o pensamento que a aflige. “Você realmente está se tornando uma fraca”, sentencia Sabal a si mesma, mas seus pensamentos surgem como a voz de sua mãe.

Sabal abre os olhos, não há ninguém na barraca. Apenas ela, seus pensamentos e um pequeno ídolo de Lolth. Qual Lolth? A Do’Urden não pode ser a deusa encarnada, pois negligencia aspectos importantes da natureza da Rainha das Aranhas. “Por que Lolth não a puniu até agora por sua heresia?”, se pergunta a clériga. Talvez suas respostas estejam certas, a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos pode ter planejado algo para a falsa-deusa e seus seguidores.

A clériga volta a fechar os olhos para começar a meditação. Nesses últimos tempos a verdadeira Lolth está em silêncio. Sabal não consegue contatá-la, ou melhor, contatar seus servos. Nem consegue comungar com sua deusa através das magias divinas que essa costumava canalizar pelo corpo de suas clérigas. Mas a fé ainda está em seu coração, e Sabal não pretende desistir.

Aos poucos sua mente entra em transe, tentando alcançar um plano superior de consciência para se comunicar com sua divindade. Nada. Apenas silêncio e vazio. Respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca, Sabal se concentra novamente. Sua consciência se expande aos poucos, seus sentidos parecem se ampliar. Dessa vez ela não se sente sozinha, o vazio parece ter se dissipado e uma voz feminina é ouvida ao fundo, de forma indefinida. A clériga se concentra ainda mais para tentar entender o que sua deusa está tentando lhe dizer. Aos poucos a voz parece estar se tornando mais e mais compreensível. Como um soco no estômago Sabal abre seus olhos ao escutar a voz de Lolth Do’Urden em seus ouvidos: “Nós não somos diferentes”.

Com a respiração arfando e as mãos tremendo, a ex-Dyrr olha ao seu redor. Para sua surpresa quem está lá não é a Do’Urden, mas Stongest, com um pequeno goblin ensangüentado no colo. Stongest e Quiri possuem alturas semelhantes, mas pela massa muscular de Stongest, Quiri parece bem menor.

– Stongest? Por que o trouxe para cá? – pergunta Sabal ainda assustada.

– Po’que ele é um de nós. Te’ uma mo’te jogado na ‘ua não é uma mo’te digna de um i’mão de Fé. – responde Songest como se estivesse dizendo o óbvio – T’ouxe ele pa’a você sac’ifica-lo e ele se uni’ a deusa.

– Ele ainda não está morto? – pergunta a clériga vendo o estado deplorável em que se encontra o mirrado goblin.
Quiri está desacordado e com a respiração lenta. Um imenso corte abriu algo como se fosse uma boca em seu estômago, que Stongest parece ter costurado para que ele não morresse no local do incidente. Um dos braços do pequeno goblin estava semidecepado, e novamente Stongest conseguiu retardar a morte de seu “irmão de Fé”, fazendo um torniquete acima do grande corte.

– Não. – responde Stongest secamente.

– Você está trazendo risco ao culto. Uma péssima atitude de um guardião. – censura Sabal com um olhar sério – Ele é descartável. Não precisava ter trazido ele pra cá.

– Já disse que não o t’ouxe pa’a cu’á-lo, mas pa’a da’-lhe uma mo’te mais digna.

– E acabar com o segredo do culto? – pergunta Sabal alterada.

– Não esta’emos mais aqui quando alguém consegui’ encont’a’ uma t’ilha. – responde Stongest a encarando – Todos somos desca’táveis, Sabal, mas nem po’ isso vi’amos as costas uns pa’a os out’os. Se você não quise’ matá-lo ‘itualmente, eu mesmo fa’ei.

Sabal encara o meio-goblin-meio-algo sem compreender direito o que está ocorrendo. “Por que se preocupa tanto com a forma pela qual ele vai morrer?”, se pergunta confusa.

– Mesmo sem entender o que leva você a querer isso, Stongest, eu farei o sacrifício. – diz a clériga.

– Cla’o que você ainda não entende. – diz o guardião ajeitando o pequeno goblin perto do ídolo de Lolth, e preparando algumas ervas que o farão retomar a consciência.

– Se você se preocupa tanto com ele, por que não me deixa curá-lo? Você sabe que eu tenho uma varinha de cura. – retruca Sabal.

– Po’que ele se sac’ificou pa’a p’otege a imagem de nossa deusa. Tudo o que ela ‘epesenta. Não pe’miti’ que ele mo’a é ti’a’ dele toda sua satisfação po’ te’ se sac’ificado po’ aquilo que ele ac’edita. – responde Stongest.

– Então por que você não o deixou lá? – pergunta Sabal achando a resposta do meio-goblin completamente ilógica.

Stongest termina de preparar a loção para Quiri recobrar a consciência, e começa a preparar outra loção para que esse não sinta muita dor nos locais feridos.

– Po’que ele ainda não comp’eendeu. Como você. Pa’a ele Lolth é algo fo’a dele, esse é o momento de fazê-lo senti’ o que Lolth ‘ealmente é. – responde Stongest, de forma séria, mas tranqüila, à sua colega.

Sabal o observa um tanto irritada, pois sabe que o guardião ainda não confia tanto nela quanto ela gostaria. Sempre que esse assunto entra em pauta, a clériga se sente inferiorizada pelo meio-goblin, o que fere seu orgulho drow.

– Você é capaz de faze’ isso? – Stongest desafia Sabal.

Sabal o encara com raiva.

– Com certeza mais capaz do que você. – responde a clériga.

– Ótimo. – diz Stongest sorrindo e finalizando a segunda poção, que ele passa nas feridas do mirrado goblin.

Sabal observa a cena. Ao ver o meio-goblin-meio-algo passar a loção em seu “irmão”, a imagem de Mariv volta em sua mente. “Se a Do’Urden estivesse em meu lugar, ela o teria convencido a vir junto. Ele não precisaria estar morto”, comenta a si mesma. Um sentimento de repúdio a esse pensamento surge em seu peito, “Como você pode estar se tornando tão fraca?!”, repreende-se a clériga.

– Qui’i? Você está me ouvindo? – pergunta Stongest.

O pequeno goblin sorri ao ver o guardião e balança afirmativamente a cabeça. A dor que ele está sentindo é mínima, ignorável.

– Você está p’epa’ado pa’a se junta’ a deusa? – pergunta novamente Stongest, recebendo outra resposta afirmativa com a cabeça.

O meio-goblin se vira em direção a Sabal e solta um curto e baixo rosnado: “Você sabe o que fazer”.

A clériga se aproxima lentamente do pequeno goblin e sente um nervosismo tomar conta de seu corpo. Ela olha para Stongest, que a está encarando. Seu orgulho retorna: “Eu sei o que fazer”, comenta consigo.

– Quiri, você agiu corretamente ao defender nossa deusa, mas perceba que não foi Lolth que você defendeu, e sim a todos nós. Lolth é você, meu irmão. – diz Sabal sem saber julgar se ela estava mentindo ou dizendo a verdade.
Quiri sorri para ela. A clériga crava o punhal de sacrifício no peito miúdo do goblin, que vira seu rosto em direção ao pequeno ídolo de Lolth, e mais uma vez seu sorriso se abre e seus olhos se fecham tranqüilamente enquanto a clériga retira o pequeno coração e o corta em dois, banhando o ídolo com o sangue do goblin.

Sabal fica perplexa com a reação do goblin e encara o corpo inerte.

– Ago’a você ‘ealmente está em nós, i’mão. – diz Stongest curvando-se em direção ao corpo.

A clériga vira-se em direção ao meio-goblin com uma feição curiosa.

– O que você passou nele para não sentir dor?

– Anestesiei apenas os fe’imentos. Ele sentiu tudo o que você fez a ele. – responde Stongest olhando para a porta – Mi’ka e G’omsh chega’am.

Olhando estática para o robusto goblin, ela escuta a porta se abrir e alguns passos de seres entrando. “Você é louco, guardião”, pensa a ex-Dyrr sentindo o vazio retornar ao seu peito, “Espero que um dia eu consiga fazer parte dessa loucura”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 1)

Menzoberranzan nunca foi um lugar seguro, ainda mais para aqueles que vivem no Braeryn. Esse é o local onde vivem escravos, ladrões, os párias da sociedade drow, entre outros “miseráveis”. De tempos em tempos alguns drows das Casas Maiores visitam o Braeryn a fim de praticarem um esporte tradicional na cultura dos elfos negros: a caçada a seres inferiores.

Mirka, como vários outros habitantes do subúrbio de Menzoberranzan, teve que aprender a se esconder e a sobreviver. Por ser uma kobold, sempre teve a noção de que um grupo é imensamente mais apto a sobreviver do que seres solitários. A importância de ter com quem contar é algo quase intrínseco em sua natureza, mesmo que ultimamente a importância de saber se virar sem depender de outros, tenha sido somado a essa “natureza”. Há muito tempo seu grupo mudou. Mesmo após ter sido iniciada no templo de Lolth, ela continuou vivendo entre os outros kobolds, para não chamar a atenção.

No início do culto a deusa encarnada, não havia mais de três seguidores e uma clériga. A clériga, Vishnara Do’Urden, foi quem trouxe Mirka e o gnoll Gromsh para o culto. O guardião de Lolth, Stongest, sempre existiu; ou assim parece na mente de Mirka. Ele é quase um semi-deus aos olhos da pequena kobold. É graças ao guardião e a deusa que o culto se mantém secreto.

Sim, Gromsh e Mirka tiveram participações importantíssimas, mas em seus pensamentos, se não fossem Stongest e Lolth, o culto teria sido descoberto e os drows, cheios de inveja, teriam acabado com a “igreja da Lolth encarnada” e Mirka nunca teria descoberto o que é ter realmente Fé.

Entre alguns lixos, a kobold se esconde esperando uma patrulha montada dos drows passar. Atualmente a situação piorou ainda mais. Desde que Lolth foi viajar novamente para superfície, coisas estranhas passaram a acontecer. Após mais ou menos seis meses depois de Lolth ter partido, segundo suas contagens, Mirka percebeu que Sabal não mais estava conseguindo conjurar suas magias e ouviu dizer que as outras drows clérigas de Lolth também não estavam.

“Elas têm pouca Fé”, pensa consigo mesma enquanto observa o drow montado em seu grande lagarto passar. Sabal passou a ser a clériga do culto mais ou menos dois anos após a morte de Vishnara. Por ser uma pessoa carismática, conseguiu facilmente conquistar Mirka e Gromsh. “Ótima drow, mas não muito boa clériga”, aos poucos a kobold sai do lixo onde se encontra, “Seria uma excelente clériga se ao menos tivesse mais Fé”.

Porém uma coisa que Mirka não pode negar foi que o carisma de Sabal atraiu mais alguns fieis para o culto e isso ajudou bastante para eles sobreviverem à insurreição dos escravos, mas atrapalhou bastante para manter sigilo, principalmente após alguns goblins seguidores de Lolth atacarem seus companheiros rebeldes gritando “Por Lolth!!” na frente de alguns drows.

Mirka caminha até o novo esconderijo no qual está vivendo junto com Gromsh, Stongest, Sabal, entre outros fieis. O templo foi desfeito durante a insurreição a mando de Sabal e Stongest. Seria ainda mais complicado, dada a situação, se eles o tivessem mantido, pois haveria provas incontestáveis da existência da deusa encarnada e do culto a ela.

Quando os escravos começaram a se encontrar para planejar a rebelião, os lolthianos se mantiveram a distância, com exceção dela e de Stongest. Sabal não poderia participar mesmo, ela estava sem suas magias e é uma drow. O ódio dos escravos por drows é imenso. Gromsh e os novatos ficaram com ela para proteger o sigilo do templo com muita dificuldade, pois por motivos obscuros, os impulsos agressivos desses aumentavam de uma hora para outra sem motivos aparentes. Mirka e Stongest observaram uma das “reuniões” para entender o que estava ocorrendo.

– Há algo muito fo’te po’ t’ás disso. Não devemos nos int’ometê’. – disse Stongest a Mirka naquela ocasião, que aceitou as palavras do guardião como lei.

A pequena kobold foi ponto chave para que os fieis não se misturassem aos rebeldes. Foi ela e Sabal que perceberam as ondas psíquicas que estavam influenciando e enfurecendo ainda mais os escravos, e graças às magias de proteção da pequena kobold que os fieis não tomaram parte da insurreição. A situação não foi fácil e todo o ocorrido foi extremamente desgastante. Mirka ficou fraca por muito tempo e teve que descansar bastante para se recuperar.

Já passaram muitos dias, na verdade semanas, e Mirka está com todas suas forças recobradas. Ela entra no esconderijo furtivamente. É uma espécie de barraca feita em rocha, próxima a dezenas de barracas semelhantes.

“Mirka, é ocê?”, pergunta um rosnado em tons baixos e guturais. Mesmo que a linguagem secreta deles não tenha sotaque, Mirka sabe de quem vem e não consegue evitar em traduzí-la mentalmente com as falhas que Gromsh costuma ter ao conversar.

“Sim Gromsh. Consegui encontrar o colar”, responde com um rosnadinho mais fino, porém ainda assim rouco e baixinho, enquanto sai de trás da porta que acabara de abrir. Ela se aproxima do gnoll e tira um colar de um de seus bolsos colocando na mão de seu companheiro.

Mesmo enxergando na escuridão que há dentro da barraca, Gromsh tateia cuidadosamente o colar e se empolga.

– Ele funciona Mirka? – pergunta o gnoll em meio a risos animalescos contidos.

– Funciona sim, Gromsh. Testei antes de chegar aqui. Não é tão difícil ativá-lo. – responde ela sorrindo para o gnoll.

– Brigado Mirka. Com ele vo consegui me camuflá nas rochas como o guardião? – pergunta o gnoll enquanto tenta colocar em seu pescoço. Percebendo que não fecha, ele resolve amarrar o colar em seu punho – He-he não cabe no pescoço. É só tá em contato, né?

– Sim. Não se preocupe. – responde Mirka sorrindo e emendando a outra resposta – E vai sim conseguir se camuflar, mas ainda acho que você devia praticar mais se esconder sem depender de itens. Ele não tem energia para muitas ativações, apenas para três vezes, depois você deve esperar um bom tempo até ele recarregar suas energias.

O gnoll torce o focinho.

– Já é alguma coisa. Agora o Stongest não é o único que consegue se infiltrá em lugares cheios de gente. – diz o gnoll olhando para o colar amarrado em seu pulso.

– Stongest não precisa disso para se infiltrar em lugar algum. Você devia treinar mais se pretende substituir ele como guardião da deusa. – responde Mirka rindo.

– Vo pensá no caso. – responde o gnoll contrariado.

Ela observa todo o refúgio e vê o rosto de uma dúzia de fieis, entre eles goblins, kobolds e um outro gnoll, mas nada de Sabal e Stongest.

– Onde estão o guardião e a clériga? – pergunta a pequena kobold.

– Foram ao Bazaar. Falaram que vão demorá e enquanto eles tiverem fora, eu e ocê somos responsáveis pelo culto.

Mirka concorda com um aceno de cabeça. “O que eles foram fazer lá?”, pergunta a kobold com seu rosnadinho fino, que mais se assemelha a um ronronar de algum pequeno felino.

“Descobri sobre o boato que a clériga ouviu a respeito de um possível ataque contra Menzoberrazan pelos anões cinzentos, e comprá equipamentos. Acho também que Stongest foi tê alguma conversa sobre a Fé da clériga”, responde o gnoll também em rosnado, porém um rosnado mais grave que de sua companheira.

“Imaginei”, responde Mirka ainda na linguagem do culto, enquanto deita sobre algumas almofadas e emenda:

– Estou com fome Gromsh. O que tem para comer?

– Só cogumelos. Faz tempo que nóis não come carne suculenta, né Mirka? As coisas andam perigosas lá fora. – responde o gnoll com tristeza em sua voz.

– Qué que eu vá buscá? Quiri é corajoso! – diz um pequeno e mirrado goblin com o sorriso aberto, olhando para Mirka.

– Não Quiri. Não podemos chamar atenção. – responde Mirka levantando-se e indo se servir com cogumelos.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 2 (Parte 5)

Um grande gnoll caminha até outros de sua raça que o encaram como algo extremamente indesejável.

– O que faz aqui traidô! – um dos mais exaltados pergunta apontando um machado de mão para o visitante.

– Infelizmente ceis sabem dimais. Vim dá a última chance do ceis se juntar a minha deusa.

Alguns gnolls gargalham enquanto outros urram feitos animais selvagens. O grande gnoll apenas os observa com seu halbert preparado.

– Nunca! O que você pretende fazer em relação a isso, chupador de aranhas? – responde o gnoll exaltado, indo em sua direção com a machadinha levantada.

O grande gnoll o encara e caminha em sua direção, quando o seu oponente desfere o golpe com a machadinha ele bloqueia com o cabo do halbert, gira seu corpo desarmando o gnoll atacante e finaliza o giro cravando a ponta do halbert no peito de seu adversário.

Sangue jorra pela boca o gnoll ferido que sente quando Gromsh retira o halbert de seu peito. Os outros gnolls que observam se enchem de fúria e atacam Gromsh. O grande gnoll dá alguns passos para trás, pois sabe que não seria capaz de vencê-los sozinho.

Mas ele não está sozinho.

Atrás da pequena turba ouve-se um grito e dois gnolls caem ao chão. Para surpresa dos atacantes eles vêem um goblin robusto de orelhas compridas e feições finas que, com dois machados em punhos, derrubou os gnolls que se encontravam na retaguarda do grupo.

Alguns partem para atacar o goblin, outros se viram novamente para Gromsh, que não perde tempo e os ataca. O massacre é inevitável. Gromsh sofre alguns ferimentos, mas não para em nenhum instante de atacar seus adversários. Stongest, por ser o veterano do grupo, não sofre nenhum ferimento e mata seis gnolls sem muitos esforços.

Percebendo a desvantagem na qual se encontram, alguns que restam do grupo de gnolls tentam fugir. Dois conseguem chegar até a porta, mas são paralisados por um globo de luz azul. Stongest se aproxima do gnoll.

– Tente entendê’. Não é nada pessoal, mas você não pode vivê’ sabendo o que você sabe. – diz o goblin bem próximo do gnoll, o atingindo com seu machado em um ponto vital.

O gnoll tenta urrar, mas não consegue. Percebendo que não foi suficiente seu golpe, Stongest apenas fala ao ar:

– Mirka, finaliza esse.

De um dos becos do Braeryn surgem dois mísseis mágicos que atingem o gnoll na cabeça, que é torrada pela energia mágica. O gnoll cai morto no chão.

– P’onto. Tá feito. Tome mais cuidado da p’óxima vez G’omsh. Isso tudo pode chamá’ atenção pa’a nós. – diz o goblin em tom severo ao grande gnoll que está estancando alguns ferimentos com pedaços de trapos retirados das vestimentas dos adversários mortos.

– Não se preocupe. Não deixarei escapar novamente. – responde Gromsh abaixando a cabeça em sinal de vergonha.

– Então vamos embo’a. Mi’ka, pode volta’ a se’ visível. – do beco de onde saíram os mísseis mágicos aparece uma pequena kobold que caminha em direção aos seus companheiros e apenas diz:

– Por Lolth.

– É Mirka. Por Lolth. – concorda Gromsh.

O grupo caminha até próximo ao templo, onde se dispersam deixando Stongest sozinho. Cada um deles ainda vive com suas determinadas raças no Braeryn, pois assim chamam menos atenção ao seu culto secreto. Stongest sempre foi sozinho, então não surpreende ninguém que ele proteja a velha drow Vishnara. E quanto a Lolth, ninguém sabe que ela vive por ali, a não ser seus seguidores e alguns dos que morreram por suas mãos.

– Stongest. Aconteceu. Precisamos nos livrar do corpo. – diz uma voz feminina extremamente familiar para o meio-goblin-meio-algo.

– Não se p’eocupe Lolth. Não se’á difícil sumi’mos com o co’po de sua mãe. – algo próximo a um sorriso esboça-se em seu rosto – Ótimo que ela tenha mo’ído po’ suas mãos.

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