Posts Tagged ‘ ogro mago ’

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (parte 4)

            – Então vamos ver quem é a mais poderosa? – Sol’al escuta o que parece ser o final da discussão entre as duas clérigas, vindo em baixo drow da boca da Dyrr.

            Desde que a clériga Xorlarrin chamou a atenção de Alak, as duas clérigas estão discutindo firmemente. Sol’al, do início da discussão até o momento, está apenas observando o embate, sem tomar partido. “Vamos ver quem demonstra mais poder”, observa o mago enquanto reflete qual seria o melhor curso de ação a realizar. Com certeza em sua mente não se passa nenhuma idéia de entrar em confronto com qualquer clériga de Lolth, mas, mesmo assim, ele precisa ser capaz de escolher qual seria mais vantajosa de ter como aliada.

            – Nossa deusa está em silêncio, você sabe disso. – responde a clériga Xorlarrin, obviamente tentando contornar a situação.

            Sol’al sente uma ponta de decepção se misturar com o resto de ansiedade – que ele estava sentindo por ter passado pelo ninho abandonado – ao ver uma atitude medíocre de sua Senhora Xorlarrin.

            – E o que isso importa? Nossa deusa prega a busca por poder, não? Nosso objetivo não é cada vez ser mais poderosas? – inquire a clériga Dyrr, com um olhar ameaçador – Tamanha dependência de suas magias mostra apenas sua fraqueza.

            Sol’al se espanta com o imenso pragmatismo vindo da clériga e sente que seu coração concordou com cada palavra dela e, pelo que ele observa, a Xorlarrin também concordou. Vendo a Dyrr segurar sua maça com a mão direita, Sol’al percebe a Xorlarrin tremendo diante de uma oponente mais forte.

            Por mais que a aparência da Xorlarrin seja mais bela e sedutora, a Dyrr é mais ameaçadora e imponente. O semblante de liderança é facilmente perceptível nessa clériga.

            Sol’al observa a situação esperando uma reação da Xorlarrin, que não surge. Ele olha ao redor para tentar ver o que se passa no semblante de cada um que lá se encontra. Rizzen está apreensivo. “Ele sabe que se sua clériga desistir, será vergonhoso para sua Casa”, conclui mentalmente Sol’al. Alak já percebeu a superioridade da outra clériga e demonstra não estar ligando muito para o embate. O mercenário parece saber que não ocorrerá confronto físico, pois se tivesse alguma chance de ocorrer tal confronto, ele teria que estar preparado para proteger a Xorlarrin. “A não ser que ele quebre seu contrato de proteção. Ou que tenha sido a própria Dyrr que o tenha contratado”, reflete o mago.

            Os inferiores ele nem se preocupa em analisar, mas percebe que todos estão de olho no confronto, menos o goblin musculoso que está na boca do túnel, observando a caverna de onde vem o batuque dos tambores. “O que será que tem naquela caverna?”, se pergunta Sol’al quando sua atenção volta ao embate das servas de Lolth graças a uma forte risada da clériga Dyrr.

            – Patética. – comenta ela, balançando negativamente a cabeça.

            “Arrogante demais para uma líder de um culto herege”, se decepciona Sol’al.

            – Façam o que ela pedir. – diz a clériga Dyrr aos seus companheiros em subterrâneo comum.

            – Como? – o gnoll pergunta – Desculpe, Senhora, mas não entendi o porquê.

            Sol’al olha para a Dyrr, também estupefato.

            – Um confronto com eles seria inútil. Deixe que eles sigam essa tola. – responde ela em goblinóide para o gnoll.

            O mago compreende e resolve esperar para ver. Provavelmente a Xorlarrin irá querer algum tipo de punição para esse grupo e a morte da clériga. Ou talvez não, apenas a morte dos inferiores e a humilhação da herege. “Acho que nem mesmo a Casa Agrach Dyrr se importaria com isso”, comenta Sol’al mentalmente com um sorriso no rosto.

            – Mago, chame o ogro. – ordena a clériga a Sol’al, sem tirar o olho da Dyrr e ainda tremendo – Rápido!

            Sem entender, o mago Teken’Th’Tlar sai correndo em direção a abertura do túnel pelo qual entraram. No caminho, a ordem passa a fazer sentido. “Antes de tentar algo contra o grupo herege, ela parece querer se sentir mais segura. Afinal, o ogro também foi contratado para protegê-la”, raciocina Sol’al, se decepcionando ainda mais com a fraqueza da Xorlarrin. “Se Lolth estivesse ativa…”. Várias possibilidades passam pela mente de Sol’al, e nenhuma muito agradável para a clériga mais fraca.

            – Mercenário! Você está sendo convocado. – grita o mago para Brum, que logo começa a escalar.

            – Virou garoto de recados, maguinho? – pergunta Brum sarcasticamente.

            Ignorando o ogro e sem perder tempo, Sol’al parte de volta para ver se algo está ocorrendo. Ao chegar ele vê a mesma cena, como se nada tivesse mudado. Apenas o goblin musculoso se juntou à roda.

            – Então? O que você vai querer de nós? – pergunta a Dyrr, quebrando o que parecia ser um longo silêncio.

            – Larguem suas armas. – responde a Xorlarrin, ainda com as mãos fraquejando.

            “Até que sua voz está conseguindo esconder o medo e a raiva”, comenta consigo mesmo Sol’al.

            – Façam isso. – ordena a clériga Dyrr aos seus fiéis, com um sorriso no rosto.

            O goblin robusto olha com desconfiança para a clériga de seu culto, mas um olhar confidente por parte dela acaba fazendo com que ele coloque seus machados e sua zarabatana ao chão. A própria clériga Dyrr coloca sua morningstar e seu escudo junto aos machados do goblin e o gnoll deita sua halbert próximo ao monte. Ele espera que a kobold tire algo do seu robe, mas ela nada faz. O mago até pensa em pedir para que a Xorlarrin ordene que a pequena reptiliana jogue fora todos seus componentes mágicos – sim, é perceptível que ela é uma maga ou feiticeira -, mas prefere deixar o culto herege com uma pequena vantagem. Sua lealdade ainda não está tão clara em sua mente, afinal a Dyrr ainda é mais forte que a Xorlarrin, e mais confiante também.

            De trás, o mago escuta os passos ruidosos de Brum. Antes mesmo que esse chegue junto ao grupo a Xorlarrin grita em subterrâneo comum:

            – Ogro, pegue essas armas e cuide delas!

            Sol’al sente a surpresa abrir involuntariamente sua boca. Além de a clériga ter falado diretamente com o inferior, ela ainda utilizou uma língua baixa. “Ela não está com medo, ela está desesperada”, pensa Sol’al. O próprio Brum é pego de surpresa com a ordem e perde alguns segundos raciocinando se o que ele escutou é real.

            Logo que a surpresa passa, Brum vai até o monte de armas e as coloca no grande escudo utilizado pela Dyrr, como em uma bandeja. Porém, ao tentar levantar o escudo, Brum nem mesmo consegue movê-lo, como se tivesse grudado no chão. Sol’al vê a cena e percebe instantaneamente que o escudo é mágico e que a clériga Dyrr já esperava por uma cena semelhante.

            Sem perder tempo, o mago conjura uma magia para detectar objetos mágicos e percebe que não só o escudo o é, mas também os dois machados do goblin e a morningstar da clériga, além da armadura que ela está usando e alguns outros itens que estão em posse dos hereges e dos Xorlarrin. Por curiosidade, Sol’al olha para os mercenários também e reconhece a aura mágica apenas nas espadas de Alak, pois Brum não tem nada mágico com ele.

            “As espadas de Alak… Parecem…”, algo nelas atiça a curiosidade do mago enquanto a conversa ao seu redor prossegue.

            – Deixe o escudo no chão. Pegue as armas. – ordena a Xorlarrin ainda em subterrâneo comum.

            A nova ordem da clériga dispersa a atenção que Sol’al estava colocando sobre a espada de Alak, que ao perceber os olhos do mago em sua direção, escondeu melhor suas duas amigas.

            – Sim, Senhora. – responde Brum, pegando todas as armas no colo e deixando o escudo no chão.

            – Ogro! Qual é seu nome? – pergunta a clériga Dyrr a Brum, fazendo com que Sol’al se espante com a delicadeza da pergunta.

            – Brum. – responde Brum, também espantado.

            – Não fale com ela! – grita a Xorlarrin.

            – Não precisa responder para mim, Brum. Só tenha cuidado com a minha morningstar, pois ela pode te machucar se tocá-la diretamente. – avisa a clériga.

            O olhar da Xorlarrin se enche de ódio pela falta de respeito da Dyrr.

            – Mercenário, cuide deles. – ordena a Xorlarrin a Alak, voltando a conversar em baixo-drow – Diga ao inferior para se afastar da inferior.

            – Sim, Senhora. – responde Alak, enquanto a sua protegida se afasta para a boca do túnel junto com Rizzen. Sol’al os acompanha.

            – Avise-os para não chegar tão próximo da beirada, pois eles podem ser vistos. – Sol’al escuta a Dyrr falar com Alak.

            – Senhora…

            – Não repita o que ela disse. – a Xorlarrin ameaça o mercenário, mas mesmo assim mantém uma certa distância da beirada da boca do túnel.

            Rizzen e ela já estão observando o acampamento quando Sol’al se junta a eles. Ele olha para a grande caverna e vê vários acampamentos. Vários orcs tocando tambores em homenagem a algo. Um draegloth parecendo estar comandando os inferiores. Achando estranho a presença de um draegloth naquele local, o mago se concentra nele e tenta encontrar alguma insígnia ou sinal que denuncie sua Casa. Sol’al não se surpreende quando vê a insígnia dos Xorlarrin segurando a tanga de pele que o meio-abissal usa.

            Com um sorriso de satisfação por ter descoberto parcialmente o que está ocorrendo, Sol’al começa a observar os outros acampamentos. Ele vê orogs, humanos, hobgoblins, goblins, vários de raças inferiores, escravos e livres. O símbolo no centro do acampamento desperta em muito a curiosidade do mago a respeito do que eles estão fazendo naquela caverna, mas quando ele está prestes a se concentrar para decorar os símbolos que estão sendo utilizados, o canto de seu olho prega uma peça.

            “Um drider?”, se pergunta ao ver um vulto passando no acampamento ao lado direito do símbolo. Ele vira-se para ver se é o tal drider aranha espectral que se encontra lá, mas logo ao se virar um estranhamento toma conta de sua mente. Ele vê vários drows tatuados com algo que parecem runas de cor branca, utilizando armaduras que se assemelham a exoesqueletos. Para seu maior assombro, seus olhos se deparam com o drider do qual ele havia visto o vulto. Não é o drider aranha espectral, mas sim um amálgama de drow e escorpião.

            “Por Lolth! O que será isso?”, se pergunta Sol’al, boquiaberto.

Anúncios

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 4)

            Fora um tanto difícil e demorado para o eremita Alak conseguir encontrar um local razoavelmente seguro para que seu grupo pudesse descansar. A maior parte daquele lugar foi criado artificialmente por algum povo ou criaturas. A maioria de seus túneis parecem ter sido cavados, alterados magicamente e até mesmo derretidos por alguma espécie de ácido poderoso ou outro tipo de componente que fosse capaz de derreter rocha. Até mesmo a cachoeira que cai em um lago é totalmente artificial aos olhos do eremita, “Provavelmente há túneis e lençóis subterrâneos que permitem a água se deslocar sem que transborde o lago”, refletiu por um momento Alak enquanto observava a imensa caverna.

            O eremita observa os membros de seu grupo descansando enquanto olha para a boca do túnel, tentando encontrar a caverna onde podem estar os escravos seguidores de Lolth. Seu tempo de vigília está acabando, logo ele despertará Rizzen de seu Reviere e descansará em seu lugar. Alak sempre sorri pelo fato de ter descoberto o nome do guerreiro Xorlarrin, afinal, o anonimato não é mais uma das vantagens do assassino.

            Mesmo que o túnel no qual eles estejam descansando não seja realmente seguro, Alak não se sente preocupado. Segurança não é um sentimento comum para os drows e, além do mais, os drows, como os outros elfos, não precisam descansar tanto quanto os humanos, gnolls, kobolds, orcs entre outras raças inferiores. Na verdade é necessário ficar em Reviere metade do tempo que essas outras raças passam dormindo para que os drows estejam já prontos para prosseguir suas viagens e seus afazeres.

            Alak dá mais uma olhada para fora do túnel e não vê nada de estranho ou inquietante. A criatura do lago continua hibernando ou talvez tenha ido embora por algum dos túneis ainda mais subterrâneos. E quanto aos orcs, nenhum sinal de mais atiradores ou coisas do gênero. “Talvez estejam preparando uma emboscada”, pensa Alak levantando-se de sua posição para se aproximar de Rizzen.

            Com um toque leve em seu ombro, Alak desperta o guerreiro Xorlarrin, que não demonstra nenhum espanto. “Sono leve”, conclui Alak.

            – Seu turno. – diz o eremita ao Xorlarrin.

            Rizzen levanta-se de sua posição e se aproxima mais da boca do túnel. Alak prefere ficar um pouco distante do grupo e mais próximo do assassino, para evitar qualquer possível tentativa de ataque durante o sono de Brum que, mesmo com seus roncos e seu sono pesado, assim que é acordado não demora nenhum momento para se preparar para qualquer conflito.

            Alak começa a se acomodar em uma posição para entrar em seu estado meditativo enquanto Rizzen faz uma observação geral da caverna fora do túnel.

            – Acha mesmo que eu seria tolo de tentar matar seu “amigo” com algum ataque furtivo ou envenenamento? – pergunta Rizzen sem se virar em direção a Alak, que o encara por um tempo antes de responder.

            – Tendo em conta quem é sua Senhora, acho até provável que tente alguma estupidez sim. – responde o eremita, sem demonstrar nenhuma surpresa pela pergunta do guerreiro.

            O sorriso habitual do Xorlarrin toma conta de seu rosto quando esse se vira para olhar nos olhos de Alak, passando a mesma sensação de ironia e astúcia que sempre passara.

            – Mesmo assim reconheço as capacidades de seu colega e sei ainda mais o quanto ele é resistente, não cometeria tal estupidez, mesmo tendo que ir contra minha Senhora. – comenta Rizzen, sem deixar o sorriso se desfazer.

            Alak continua olhando para o assassino enquanto esse volta a observar o lado de fora do túnel como se refletisse sobre algo.

            – Vocês não sabem mesmo o porquê estão aqui, não é? – pergunta de repente o Xorlarrin voltando a olhar para ele – Digo, vocês não leram a carta.

            O eremita balança a cabeça negativamente como se aquilo realmente não importasse.

            – O contrato de vocês foi mesmo para proteger minha Senhora? – pergunta Rizzen.

            Alak percebe que a cada pergunta o guerreiro está analisando suas atitudes e feições, além de seu tom de voz e respiração. Tendo isso em mente Alak prefere não mentir e sim responder de forma breve e sem detalhes:

            – Sim.

            – Desejo boa sorte a vocês. – diz o Xorlarrin, com ironia em sua voz.

            – Gostaria de saber qual o objetivo real de vocês nessa missão, se possível. – questiona Alak, que escuta apenas uma breve resposta de Rizzen.

            – Você saberá. Logo logo não terá como esconder.

            O guerreiro sorri novamente e prepara-se para se virar em direção a caverna quando é surpreendido, – assim como Alak -, com a lâmina de uma adaga em seu pescoço.

            – O que fazem aqui? – pergunta uma voz grossa e quase sussurrante de trás do Xorlarrin, que fica paralisado pensando em uma forma de sair daquela situação.

            Alak consegue observar levemente o ser que se encontra empunhando a adaga na garganta do assassino: um goblin com a orelha um pouco mais comprida e pontuda, com rosto de traços mais finos, aparentemente o mesmo que estava com a clériga de Lolth. “Um dos hereges”, pensa ele.

            – Pe’gunta’ei de novo: O que fazem aqui? – nesse momento Alak percebe que o goblin não está falando com Rizzen e sim com ele.

            Sabendo que o goblin faz parte do culto a Lolth e que esse mesmo grupo possui também inimigos entre os orcs, Alak resolve ser mais diplomático. Não que a vida de Rizzen importe alguma coisa a ele, afinal seu contrato diz que ele deve proteger a clériga, não os Xorlarrin. Portanto se algo ocorrer com o guerreiro não o afetará em nada, mas ainda assim, talvez ter o grupo de hereges como possíveis futuros aliados seja mais interessante dado as recentes informações passadas pelo assassino durante a conversa.

            – Estamos fazendo uma investigação. – responde o eremita, ignorando o olhar reprovador do Xorlarrin.

            – Vi que nos espionou algum tempo at’ás. Po’ acaso não esta’iam at’ás de nós, não é? – pergunta o goblin, como que por inocência.

            Alak ergue uma de suas sobrancelhas, desconfiando da pseudo-ingenuidade do goblin. “Se ele foi um escravo drow, não há porquê acreditar que um drow responderia suas perguntas com sinceridade”, pensa o eremita, olhando profundamente nos olhos do goblin. Por um momento uma sensação estranha tomou conta de Alak. Havia algo não muito certo nos olhos daquele goblin, mas ele preferiu ignorar a sensação e analisar o olhar. Um olhar sagaz, astuto e inteligente. “Com certeza ele não está esperando uma resposta verídica”, conclui o eremita.

            – A princípio sim, mas coisas mais interessantes chamaram nossa atenção. – responde Alak com sinceridade, afinal não seria interessante para ele demonstrar que blefe não é seu forte.

            Rizzen parece estar mais preocupado em se preparar para sair daquela situação, por isso passa a ignorar a conversa que Alak está tendo com seu “inimigo”.

            – Ótimo. – comenta o goblin, secamente – Qual o seu nome d’ow?

            – Alak, e o seu?

            – Stongest. Nos encontraremos mais tarde. – diz o goblin largando o Xorlarrin e sumindo aos olhos do eremita.

            Rizzen não perde tempo e saca sua espada curta virando-se rápida, porém inutilmente, para atingir seu “captor”.

            – Ele já foi. – diz Alak, percebendo o ódio crescer no Xorlarrin que vira-se para ele.

            – “Amigo” seu? – pergunta Rizzen em voz relativamente alta mirando um olhar inquisidor ao eremita.

            Alak sorri e escuta Brum se mexendo e falando com voz sonolenta:

            – Tá tudo bem, Alak? – Rizzen fica um pouco apreensivo por ver que o ogro mago está acordando.

            – Está sim, Brum. Volte a dormir. – responde Alak, ainda sorrindo, para o guerreiro Xorlarrin.

            – Eu não durmo… eu entro em um estado meditativo… como os elfos. – responde Brum com voz sonolenta e começando a roncar logo em seguida.

            Rizzen guarda sua espada curta e volta a olhar para Alak.

            – Respondendo sua pergunta: isso não é da sua conta. – responde Alak, voltando a se posicionar para entrar em Reviere – Agora deixe-me descansar.

            Rizzen o encara por mais um tempo, mas logo deixa nascer novamente seu sorriso sarcástico no rosto e vira-se para a boca do túnel. Alak fecha os olhos e se prepara para entrar em Reviere. “Stongest”, repete em sua mente, “Talvez seu grupo nos ajude a sobreviver ao que nos aguarda. A emboscada Xorlarrin”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 2)

            – Não podemos atacá-los de qualquer forma. Não sabemos o que está dormindo no fundo do lago e se tal criatura é capaz de perceber o que ocorre aqui na superfície. Se fizermos muito barulho, causarmos muita vibração, temo que a criatura irá acordar. – adverte o mago Sol’al Teken’Th’Tlar aos outros membros do grupo, mantendo a conversa em baixo-drow – E seja lá o que for, acho que não seria muito interessante acordá-lo nesse momento.

            O angulo de visão da boca do túnel de onde chegaram não permitiu que eles vissem o que estava no lago, mas logo que desceram ao chão da imensa caverna oval e se aproximaram, Sol’al e Rizzen comentaram à clériga a respeito de uma imensa sombra de alguma criatura que parecia estar “dormindo” no fundo do lago. Pelo tamanho da sombra e a profundidade aparente, a criatura pareceu aos dois observadores, algo colossal que realmente não seria muito inteligente respeitarem.

            – Sim, mago. Acredito que meu guerreiro não propôs atacarmos de qualquer forma. – comenta a clériga, de forma ácida.

            – Não quis dizer isso, Senhora. Estava me referindo mais a como o ogro iria… – o mago tenta se explicar, mas a clériga o silencia com um aceno de mão.

            – Acho que Rizzen deu boas idéias. São sete orcs, não vejo como não darmos conta disso. – comenta Alak, olhando para a clériga, mas contente por saber que o Xorlarrin contorceu o nariz ao escutar seu nome sendo dito por ele.

            – Não pedi sua opinião, mercenário. Faremos exatamente isso. Eu cuidarei do que está mais ao alto, enquanto você e Rizzen cuidam dos mais próximos. Rizzen invoca suas trevas em algum que não for ser atacado para atrapalhá-lo. O inferior acabará com o do canto direito na altura mediana, enquanto o mago se esconde atrás dele e conjura algo útil para nos ajudar. – ordena a clériga Xorlarrin finalizando sarcasticamente.

            Sol’al a olha contrariado por um breve momento. “Chega”, setencia mentalmente o mago, “Já está na hora de mostrar do que sou capaz”. Enquanto busca em sua mente as magias que serão úteis e trarão mais respeito a sua pessoa, o mago escuta Alak passar as instruções dadas pela Xorlarrin em Subterrâneo Comum. “Não acredito que estou sendo mais destratado que esses dois ignorantes”, pragueja mentalmente o mago, já sabendo como agirá quando a ordem for dada.

            O mago Teken’Th’Tlar observa com o canto dos olhos a boca do túnel que irá atacar. Ele sabe que há grande chance da clériga se irritar por ele não cumprir as ordens como foram ditas, mas ela verá que ele não é um simples estudioso. Os orcs estão preparados com bestas e algum tipo de balestra pequena. Nenhum do grupo de Sol’al está demonstrando que eles os viram, todos estão fingindo estar procurando pistas e observando o que há no fundo do lago. Um dos orcs aproveita a suposta distração e dispara uma flecha no maior e mais volumoso do grupo: Brum.

            A flecha da besta corta o ar e atinge o peito de Brum, porém a potência não foi suficiente para ultrapassar a grossa couraça que é a pele do ogro mago. Quando a flecha cai ao chão, a Xorlarrin escuta e dá a ordem que todos estavam esperando. Rizzen invoca uma cortina de trevas onde era esperado que ele o fizesse. Alak atira seu punhal na direção de seu alvo e o atinge em cheio na testa, mas logo vê que há outro orc dentro do mesmo túnel para substituir o falecido e atirar com a besta. Sol’al conjura sua primeira magia que irá cobrir um dos túneis com uma área de silêncio. No mesmo momento, Brum, vira-se em direção ao seu alvo e arremessa uma de suas clavas sem segurar a corrente. A maciça clava atinge em cheio o orc com a mini-balestra, que é nocauteado e tem sua arma despedaçada.

            Sol’al sorri quando percebe que sua magia funcionou. Enquanto Alak se aproxima um pouco mais do túnel que está atacando – para que a visibilidade de seu alvo se torne maior -, o mago se prepara para conjurar sua principal magia. Ele retira uma bola de guano de sua piwafwi que é utilizada como manto, ao mesmo tempo em que a clériga termina de armar a sua própria besta e atirar em direção ao alvo de Rizzen, para que esse consiga se aproximar mais da boca do túnel. Conjurando as palavras arcanas necessárias, Sol’al apenas mira um dedo em direção ao túnel largando ao ar o guano e o salitre. Esses se fundem e formam uma pequena esfera incandescente, semelhante a uma pequena pedra, que prossegue na trajetória visando o túnel mirado pelo conjurador. Ao atingir seu alvo a esfera explode sem emitir nenhum som, mas espalhando fogo por toda boca do túnel. Não apenas o orc atirador morreu com certeza, como qualquer acompanhante também estará morto; ao menos, assim acredita Sol’al.

            Orgulhoso de seu feito, Sol’al procura um novo alvo para mais uma magia e vê Alak atacando o orc que restou no túnel que lhe foi designado. O mago se vira para ver como estão os orcs pelos quais Rizzen está responsável e logo percebe que a clériga e o assassino deram conta de seus adversários. Brum já está próximo da boca do túnel onde sua clava se encontra. O que acabou restando foi o túnel coberto por trevas.

            Sol’al vira-se em direção ao alto túnel, enquanto Alak percebe que há mais atiradores em uma outra boca de caverna. Enquanto o mago prepara mais uma magia ofensiva para disparar em direção ao túnel encoberto pela densa escuridão, o eremita prepara-se para tentar algum ataque aos orcs “recém-chegados”, mas logo para e disfarça sua intenção ao perceber que dois dos cultistas que ele viu lutando contra os orcs na caverna de entrada, estavam lá para dar conta dos orcs.

            O mago Teken’Th’Tlar pronuncia algumas palavras arcanas e dispara um feixe de eletricidade de três de seus dedos que estão apontados em direção a boca do túnel. Dois gritos são ouvidos abafados pelo som da cachoeira, provavelmente os orcs foram nocauteados. “Pelo que parece, esses atiradores não são tão resistentes”, comenta consigo o mago. Em sua mente uma conspiração surge, “De certa forma eles sabem que estamos aqui, provavelmente não estão dificultando as coisas de propósito”. Ele continua observando o túnel no qual conjurou o raio elétrico e percebe que nenhum som ou disparo surge deles. “Ou eles são muito fracos”.

            – Havia mais, Senhora. Pelo que parece, fomos “auxiliados” pelos cultistas. – Sol’al escuta Alak comentar com a clériga Xorlarrin.

            – Onde eles estão? – pergunta a clériga, procurando-os nas bocas dos túneis.

            – Acho melhor não demonstrarmos que estamos atrás deles, Senhora. Eles não precisam saber que temos conhecimento de suas presenças. – diz o eremita.

            – Eles não têm como saber que estou procurando por eles. – retruca a clériga.

            – Não há mais orcs. É perceptível que já sabemos disso, Senhora. – diz Rizzen entrando na conversa – Acho melhor realmente escolhermos algum dos túneis para investigar e procurar por onde ir.

            A Xorlarrin torce o nariz por seu guerreiro ter apoiado o mercenário, mas nada responde, apenas acena positivamente com a cabeça. Aproveitando a deixa, Sol’al sussurra algumas palavras arcanas para ampliar seu sentido mágico.

            – Vou procurar rastros no túnel que ataquei. – diz Alak, já se virando e partindo na direção onde jazem seus punhais.

            Rizzen simplesmente parte em direção a um dos túneis mais próximos, onde Brum atacou. Brum passa por ele carregando as duas clavas e se aproxima do resto do grupo. Sol’al, após conjurar sua magia, volta-se em direção do túnel onde ele soltou a bola de fogo silenciosa. “A energia mágica está muito forte naquela direção”, constata o mago, “Pela intensidade e vibração, deve haver algum Nodo de Terra para aqueles lados”.

            – Senhora? – o mago se aproxima da clériga, que continua com a cara amarrada.

            – Fala, macho. – responde a Xorlarrin, aborrecida.

            – Sinto uma forte energia mágica naquela direção. – diz o mago, apontando genericamente para a direção da vibração que ele está sentindo.

            A Xorlarrin levanta uma sobrancelha e volta seu olhar para o rosto do mago; como se refletisse a respeito do que ele acabara de falar. Após alguns segundos observando-o, ela vira seu rosto em direção ao local apontado e analisa as entradas dos túneis. Percebendo que Rizzen está olhando em sua direção, a clériga comunica-se rapidamente em sinal drow com seu guerreiro. O diálogo foi tão rápido e discreto que Sol’al conseguiu entender apenas algumas palavras: “invocar”, “pai”, e também percebeu que havia algo na maneira como os gestos foram feitos que lhe lembrou uma pergunta. “Eles estão supondo o que estão para encontrar. Provavelmente…”.

            – Vamos procurar uma caverna segura para descansarmos. – diz a clériga ao guerreiro Xorlarrin, sem comentar sobre a descoberta do mago.

            – Sim, minha Senhora. – responde o guerreiro, se curvando brevemente e voltando-se para Alak e Brum – Procurem um local seguro para descansarmos. Rápido.

            Ambos os mercenários nada dizem, apenas partem em busca de algum túnel que se encaixe nas expectativas. Sol’al observa a clériga por um tempo, e não sabe se retoma o assunto ou se deixa para conversar com ela após o descanso.

            – Vi o que você fez. Interessante saber que está escondendo bastante suas capacidades. – ela interrompe a indecisão com uma frase que o mago, particularmente, não sabe se toma como uma censura ou como um elogio.

            – Todos temos nossos segredos, não é, Senhora? – responde ele, tentando manter um ar misterioso repetindo a frase que já falara em outra ocasião, tentando não desagradar a clériga.

            – Sim, concordo. – responde ela, sem pestanejar – Talvez você seja mais útil do que imaginei.

            Sol’al sorri por ter conseguido o que queria, mas uma coceira em sua nuca lhe deixa confuso sobre a situação e se aquilo foi realmente algo para se contentar.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 3)

            Alak foi o primeiro a passar pelas armadilhas. Para sua sorte, apenas uma armadilha física – dardos disparados da parede – fora ativado e mesmo assim ele conseguiu se esquivar de grande parte dos projéteis. O mercenário já está um pouco ferido pela péssima luta contra os orcs, se tivesse bobeado ainda mais, poderia estar em um estado um tanto deplorável fisicamente.

            Enquanto espera os outros ele apenas se esconde e observa o túnel mais a diante. Foram pelo menos mais oito armadilhas que passou para chegar até lá. Cada armadilha lhe pareceu estar a uma distância de quinze metros uma da outra e dentro desses quinze metros haviam armadilhas físicas que, infelizmente não havia como desativá-las; não com as habilidades que restaram no grupo. “Provavelmente a ladina mirim teria sido útil”, comenta consigo mesmo Alak, tocando um dos ferimentos causados pelos dardos. “Preciso limpá-lo e fechá-lo”, pensa o eremita sacando sua caixa de primeiros socorros novamente.

            Toda e qualquer dor causada durante a auto-costura é ignorada. Nem um som é emitido por sua garganta. Ao terminar ele guarda sua pequena caixa e observa o imenso túnel que ainda existe em sua frente. Porém, em todas as paredes ao seu redor, não há mais nada escrito, nenhum símbolo rúnico, nem nada parecido. “Pelo que parece os orcs e os humanos não esperavam que ninguém chegasse até aqui”, comenta Alak enquanto observa bem de perto as paredes e o chão.

            Em sua busca por qualquer possível tipo de armadilha, Alak abre um grande sorriso: “Rastros”, conclui o eremita agradecendo silenciosamente seu mentor Azirel por ter lhe ensinado tudo que lhe ensinou. Vendo que os rastros eram do pequeno contigente que viera para consertar as armadilhas, Alak conclui que não será tão difícil encontrar o acampamento deles. Ao que parece, esse é o objetivo dos Xorlarrin.

            Contente por não ter encontrado nada que pudesse atrapalhar, Alak se mantém a vinte metros distante da última armadilha, para o caso de algum dos seus companheiros fazerem alguma burrada. Ele escuta alguns disparos de armadilhas, grito e aos poucos o barulho da armadura da clériga. Ele espera mais um tempo considerável até que escuta, surpreso, o barulho metálico da clériga mais próximo e olha para o lado do túnel de onde veio. “O próximo não era para ser o mago?”, se pergunta Alak.

            A Xorlarrin chega toda elegante, sem nenhuma marca de ferimento e com um sorriso deboachado para o mercenário. Alak sorri para a clériga também enquanto essa se apoia na parede e espera o próximo a chegar. Sem demora alguma o mago Sol’al surge com uma feição tola em seu rosto e se aproximando da clériga.

            – Que fique bem claro que minha varinha de cura não durará para sempre. – diz a clériga sorrindo – Tente ser mais cuidadoso da próxima vez, mago.

            – Sim, minha Senhora. – responde humildemente o Teken’Th’Tlar tentando evitar olhar para Alak.

            O eremita sorri, imaginando o que ocorreu. O silêncio toma conta do lugar por um tempo. Sol’al começa a observar o novo trecho do túnel em busca de mais armadilhas, enquanto isso, Alak fixa seu olhar para o lado do túnel de onde vieram os orcs. A clériga, como sempre, fica parada olhando para o que os dois estão fazendo.

            – Não perca seu tempo, mago. Já procurei por marcas, armadilhas e tudo mais. – comenta Alak sem deviar seu olhar do túnel.

            – E você por acaso conhece símbolos arcanos e linguagem abissal, mercenário? – pergunta o mago com desdém.

            – Não, mas sei quando tem algo escrito em uma parede. – responde Alak com sorriso no rosto enquanto continua observando o túnel.

            Sol’al fica em silêncio e prossegue por mais um tempo em sua busca por runas, sinais e palavras escritas nas paredes. Quando o guerreiro Xorlarrin chega, o mago interrompe sua busca e Alak volta-se em direção ao recém-chegado. Apenas um pequeno ferimento no braço do guerreiro demonstra que mais uma armadilha física fora acionada.

            – Agora só falta o ogro. – comenta o Xorlarrin.

            – Acho que seria mais saudável para nós nos afastarmos ainda mais da última armadilha. – comenta Sol’al.

            A clériga concorda com um aceno de cabeça e caminha para mais longe de onde vieram, enquanto todos os outros fazem o mesmo.

            Aos poucos os sons das explosões tomam conta do túnel. Se os orcs acreditavam que ninguém passaria com vida pelas armadilhas, agora teriam certeza. O som era tão forte e ecoante que todos tiveram que tampar seus ouvidos para que não tivessem seus tímpanos feridos. Por fim uma onda de calor chega até eles, “Parece que Brum conseguiu chegar até a última armadilha”, comenta mentalmente Alak aliviado, porém apreensivo para ver seu companheiro.

            – Acho que… Preciso dormir… mais um pouco. – todos escutam a voz de Brum chegando próximo ao trecho do túnel onde eles se encontram. O ogro mago está com grandes ferimentos. Queimaduras fortes, e vários cortes causados por armadilhas físicas que foram acionadas e conseguiram ferir a pele grossa do grande mercenário.

            – Brum? – Alak vai de encontro ao seu companheiro.

            – Esquenta não, Alak. Você sabe como é. – diz ele sorrindo – Eu vou sobreviver e me curar rapidinho, só preciso descansar um pouco.

            – Mercenário! – grita a clériga em baixo-drow para chamar a atenção de Alak – Deixe o inferior ai, depois ele nos alcança.

            – Não no momento, Senhora. Vou estancar os ferimentos dele antes. – reponde o eremita também em baixo-drow.

            – Ela disse a palavra, não é Alak? – pergunta Brum falando baixo pelo cansaço.

            Alak tira sua caixa de primeiro socorros antes de responder a pergunta do ogro. Ele pondera qual será a melhor resposta a ser dada.

            – Disse sim, Brum. Mas vamos esperar terminar essa missão, ok? – responde Alak com um sorriso enquanto começa a costurar com dificuldade algumas das feridas mais abertas de Brum.

            O ogro dá uma risada contida enquanto Alak trata de seus ferimentos. Aquilo não está preocupando nem Brum nem Alak realmente. Eles sabem que é da natureza da raça de Brum regenerar-se com facilidade, além de que o treino que Brum recebeu para se tornar um Renunciante, permite que esse consiga se curar com uma facilidade ainda maior.

            – Mercenário! – grita a Xorlarrin chamando-o novamente.

            – Estou indo, Senhora. – responde Alak terminando o último ponto na perna do companheiro – Espero por você mais a frente, Brum.

            – Pode deixar, Alak. Estarei lá bem antes do que essa vaca espera. – responde Brum sorrindo e balançando a mão quando percebe a expressão de interrogação no rosto de Alak, quando ele disse: “vaca” – Esquece… E valeu por gastar comigo essas linhas exóticas que você usa.

            – Não esquenta. – responde Alak dando um tapa no ombro de Brum e saindo para encontrar-se com o resto do grupo, deixando apenas o imenso ogro para trás.

            – Você se preocupa demais com aquele inferior, mercenário. – comenta a clériga com desaprovação em sua voz.

            – Ele ainda é o mais útil desse grupo, Senhora. – responde ríspidamente enquanto a clériga o encara com dúvida se ele a incluiu ou não.

            O grupo fica em silêncio enquanto eles caminham pelo túnel sem grandes problemas, afinal não há outro caminho para seguirem. Muito tempo se passa apenas com caminhadas, Sol’al começa a se sentir fatigado, mas logo conjura uma pequena magia para acabar com a fadiga física e prosseguir sem empecilhos. O guerreiro Xorlarrin toma um pouco de água do seu cantil e a clériga se esforça ao máximo para não demonstrar cansaço. Alak, por estar mais acostumado com esse tipo de trilha, não tem grandes problemas no caminho.

            Aos poucos eles começam a escutar o som de uma queda d’água mais a frente.

            – Há outros túneis por perto. – setencia o eremita ao começar a escutar o som.

            – Como você sabe? – questiona a clériga.

            – Pois não vejo nenhum rio por aqui. E se tem uma queda d’água, conseqüentemente deve haver alguma fonte. – responde Alak como se dissesse algo óbvio.

            A clériga fica em silêncio, é perceptível que ficar conversando enquanto caminham, a deixa ainda mais cansada.

            – Senhora, gostaria que lhe recobrasse as forças através de alguma magia? – se oferece Sol’al.

            Ela o encara como se estivesse dizendo algo sem nexo.

            – Não estou cansada. – responde ela convicta com o som da queda d’água cada vez mais forte.

            – Não estou dizendo isso, minha Senhora. – responde Sol’al não querendo bater de frente com o orgulho de uma clériga de Lolth.

            – Acho que chegamos ao fim. – comenta o guerreiro Xorlarrin, enquanto Alak apenas observa aquela que parece ter sido a entrada pela qual os orcs e humanos passaram.

            Sol’al e a Xorlarrin observam com um certo espando a imensa entrada, ou saida. O som da queda d’água está extremamente forte. Alak analisa todos os pontos daquela enorme caverna aonde a passagem dá de encontro. Olhando para baixo, a uns trinta metros da boca onde se encontra, há o chão que serve como uma grande margem para o bizarro lago o qual a queda d’água tem como destino. Alak resolve terminar sua observação antes de tentar compreender como o lago não transborda ou para onde a água prossegue em seu curso. “Talvez haja alguma passagem em seu fundo”, pensa consigo mesmo tentando deixar a idéia de lado.

            Ele observa todas as paredes da caverna, é como se fosse uma imensa cúpula oval, cheia de entradas para outros possíveis túneis. Essas entradas estão dispostas de forma caótica em níveis de alturas diferentes. Segundo uma contagem rápida feita pelo eremita, deve haver aproximadamente vinte entradas. “Que bosta. Isso apenas vai me dar mais trabalho”, pensa Alak enquanto termina de observar a imensa área daquele “ovo” subterrâneo.

            – Terminou de analisar como deceremos, mercenário? – pergunta a clériga.

            – Precisaremos escalar. – responde o eremita.

            – Talvez vocês, pois eu e o meu guerreiro somos de uma das Casas Nobres de Menzoberranzan. – comenta a clériga rindo com satisfação como se tivesse acabado de humilhar um goblin qualquer.

            Alak ignora e começa a tirar sua corda feita com teia de aranha gigante de sua sacola, enquanto escuta os passos de Brum se aproximando. Sem olhar para o que Alak estava tirando de sua trouxa, a clériga comenta:

            – Espero que sua corda aguente seu amigo. – ela ri mais uma vez e ordena – Rizzen, pegue o mago.

            “Rizzen? Rizzen Xorlarrin? Pronto, já sabemos o nome de um deles”, comenta consigo mesmo Alak enquanto observa a feição de desgosto no rosto do guerreiro e a feição de surpresa no rosto do mago, que deve ter pensado a mesma coisa.

            A clériga ativa a insígnia de sua Casa e desce suavemente até o solo, enquanto Rizzen a segue do mesmo modo, mas com o mago em seus braços. Alak ri com a cena do guerreiro segurando o mago e vira-se na direção de onde Brum vem.

            – Brum? Teremos que descer pela corda. – comenta Alak antes do ogro ver para onde eles teriam que descer.

            – Putz! Corda? – reclama contrariado – Eu poderia simplesmente pular para ver se caio em cima da clériga?

            Alak gargalha enquanto Brum o olha atravessado.

            – Hey, eu não estou brincando. – diz o ogro em tom contrariado.

            O eremita ignora o companheiro e prapara a corda para a grande descida. Brum apenas observa os três que chegaram ao chão.

            – Descerei primeiro, Brum. Você só começa a descer quando eu já estiver lá embaixo, ok? – instrui Alak – Qualquer atitude estranha por parte de nossos “amigos”, ataque-os.

            – Será um prazer. – responde Brum com um grande sorriso no rosto enquanto Alak inicia sua descida, contente por ver que o ogro já havia melhorado bastante de seus ferimentos.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 2)

            Enquanto o guerreiro Xorlarrin termina de interrogar inutilmente o orc e a clériga, novamente, perde a paciência e esmaga mais uma cabeça com sua maça, Sol’al Teken’Th’Tlar utiliza um pequeno anel que fica em seu dedo mindinho. Em sua incursão para o lower dark, as camadas mais profundas do Underdark, ele recebeu o anel de Jabor, seu tutor oficial dentro de sua própria Casa. O anel possui apenas um pequeno poder, mas é algo que é extremamente importante para ele: comunicação direta com seu mestre.

            Como nas magias de comunicação a distância, o feitiço desse anel possui um limite de palavras que podem ser usadas e só pode ser ativado duas vezes durante o período de um dia na superfície. Em outras palavras, deve ser utilizado brevemente e de maneira extremamente consciente. Sol’al acredita que o momento para entrar em contato com os superiores de sua Casa chegou. Durante todo o interrogatório, o guerreiro Xorlarrin não fez nenhuma pergunta referente ao culto a Lolth pelos escravos. As perguntas eram voltadas a um único assunto: os orcs fugitivos.

            Sol’al se concentra e profere quase que silenciosamente as palavras mágicas que ativam o anel. Ele sente o poder mágico fluindo do objeto e prepara a frase mentalmente. No momento certo ele apenas envia seus pensamentos ao seu superior. “Os Xorlarrin não buscam o culto, apenas fugitivos. Lolthianos encontrados e ignorados”, o mago acredita que para o momento aquilo é tudo o que deve ser dito. Qualquer futuro problema ele poderia utilizar o feitiço que resta no anel por hoje, ou uma de suas magias para se comunicar, mas isso é um disperdício para o momento.

            – Mago, descobriu alguma coisa? – pergunta a clériga com sua habitual arrogancia.

            Sol’al retoma sua concentração no momento e reflete rapidamente o que dizer sem oferecer todo o conhecimento que adquiriu sobre a situação das armadilhas.

            – Descobri, minha Senhora. – responde indo em direção ao orc – Segundo as palavras de poder e pelo que percebi, as armadilhas afetam apenas inimigos do demônio e não seus servos ou aliados.

            A Xorlarrin o encara por um tempo pensando que esse prosseguiria, mas como isso não ocorre ela pergunta secamente:

            – O que você sugere?

            Sol’al dá um sorriso fingindo uma pequena timidez e responde:

            – Acredito que as runas não são ativadas por orcs necessariamente. Orcs e pelo que percebemos, humanos também. – mente Sol’al.

            – Não são ativadas por orcs e humanos? – repete incrédulo Alak em subterrâneo comum para que Brum entendesse a suposição do mago que conversa com a clériga em baixo-drow.

            – Besteria. – Brum ri e vira as costas para o grupo, levantando o orc prisioneiro, que se encontra amarrado, em seu ombro.

            Sol’al encara as costas do ogro com raiva, mas logo ela passa quando a clériga comenta.

            – É uma suposição interessante, mago. Vamos fazer o teste. – Alak olha para ela ainda mais incrédulo e Brum apenas ri enquanto a clériga ordena em baixo-drow – Mercenário, peça para o inferior arremessar o orc pela armadilha.

            – Senhora, não acho que dará certo. – comenta o eremita.

            – Cale a boca, o Mestre Teken’Th’Tlar é o mago de nossa expedição. – responde ela fazendo com que o sorriso no rosto do mago se alargasse ainda mais.

            – Sim, Senhora. – diz Alak voltando-se a Brum e fazendo o pedido sem sentido que a clériga ordenou.

            Sol’al observa Brum se aproximando da armadilha e jogando levemente o orc através dela. Escutando com o máximo de atenção, o mago consegue captar algumas palavras em abissal que o orc sussurou enquanto estava para ser arremessado e durante o arremesso. Nada ocorreu. A armadilha não disparou e o mago simplesmente bateu com um baque no chão.

            Brum utilizando a corrente de uma de suas clavas laçou o orc e o puxou de volta. Alak encara surpreso o mago que o ignora e se encaminha para a clériga sorrindo.

            – Parece que você estava certo mago. – comenta surpresa.

            – Descobri mais que isso, minha senhora. – diz Sol’al enigmaticamente.

            – Como? – pergunta a Xorlarrin curiosa.

            – Mercenário, tire o colar que o orc mago está usando. – ordena ele a Brum, que olha para Alak com dúvidas se aquilo era ordens da clériga ou do próprio mago.

            – Peça para ele obedecer, mercenário. – diz a clériga à Alak que apenas faz um gesto positivo para saciar a dúvida de Brum.

            Brum, com toda sua delicadeza, retira o amuleto do pescoço do mago orc e o joga para Sol’al.

            – O que seria isso? – pergunta a Xorlarrin.

            – É semelhante ao da humana que encontramos lá fora e semelhante aos que encontrei em todos os mortos. Alguns usavam esse amuleto no braço, outros no pescoço. Acredito que para funcionar isso deva estar em contato com a pele. – responde Sol’al, todo orgulhoso de suas descobertas.

            – Esse é o símbolo sintético do nome do demônio, correto? – pergunta a clériga olhando para o amuleto do mago e o da humana gorda que está em sua posse.

            – Sim, minha Senhora. Quando o ogro arremessou o orc eu o escutei dizendo as palavras de ativação do amuleto. É uma espécie de oração em abissal. – comenta o mago retirando de sua piwafwi outros amuletos iguais àqueles que estão na mão da clériga.

            A Xorlarrin sorri e se aproxima de Sol’al dizendo em alto-drow.

            – Vejo que alguém estava escondendo o jogo.

            Sol’al sorri.

            – E quem não está? – responde o mago logo em seguida ensinando palavra por palavra a “oração” necessária para ativar o amuleto. Brum não aceitou o amuleto, porém ninguém insistiu, nem mesmo Alak, pois conhece Brum o suficiente para saber que o ogro é totalmente averso ao uso de magias; até mesmo para enfrentar outras formas de magias.

            Sol’al olha para os mercenários e os desafia sorrindo. Brum sorri de volta acenando com a mão, enquanto Alak o ignora. “Me subestimem rapazes. Vamos ver até onde durarão”, comenta consigo o mago Teken’Th’Tlar com um sorriso satisfeito em seu rosto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (Parte 5)

            “Oh poderoso Shormongur! Mestre da destruição, corrupção e degradação. Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”.

            É a terceira vez que Sol’al Teken’Th’Tlar lê aquela oração que está escrita na parede do imenso túnel onde seu grupo adentrou, logo após encontrar uma passagem no chão da barraca que Brum derrubou a porta. A oração está escrita em abissal e não em goblinóide, ou linguagem orc, o que lhe faz ter cada vez mais certeza que deve ter algum encantamento naquilo. Ele aproxima sua mão da escrita e a segue pela extensão horizontal do muro até chegar próximo a uma runa órquica, ou algo parecido. “Ah! Maldição!”, pragueja mentalmente o mago não conseguindo encontrar nenhum significado palpável para aquilo.

            O mago poderia muito bem utilizar uma magia para detectar as propriedades mágicas daquele local, mas ele não se deteve por muito tempo no estudo delas para essa missão. Achou que apenas precisaria verificar se aqueles que iriam acompanhá-lo e os escravos cultistas de Lolth carregavam algum equipamento mágico. Logo na viagem ao Braeryn ele conseguiu ver a aura mágica de alguns equipamentos de seus aliados – com exceção de Brum – e a intensidade deles, porém o cansaço mental já está exaurindo essa magia de sua mente. Ele sabe que só conseguirá utilizá-la mais uma vez. “Será que esse é o momento?”, se pergunta Sol’al, “Essa missão está obscura demais”.

            – Então mago? Descobriu alguma coisa? – pergunta a Xorlarrin.

            – Isso é uma oração a um tal de Shormongur, minha Senhora. Aparentemente um demônio. – responde o mago incerto.

            – Isso eu sei, imbecil. Você descobriu algo útil? – intima a clériga com um olhar severo ao mago.

            – Há… Há u-uma runa no final da oração, minha Senhora. É uma runa órquica, t-talvez seja algum símbolo de proteção mágico. – responde o mago gaguejando.

            – Talvez!? Você está ai já a bastante tempo olhando para esse muro, mago estúpido! Quero saber o que isso exatamente é, me entendeu!? – ordena a clériga Xorlarrin com fúria em sua voz.

            – Sim, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            “Sol’al, acho que você está começando a exagerar na encenação. Isso pode acabar denegrindo a imagem da sua Casa”, se censura mentalmente enquanto volta a observar os escritos. Olhando com mais atenção, Sol’al percebe um pequeno símbolo embaixo do nome Shormongur, “Parece o símbolo sintético do nome do demônio”, comenta consigo, “É o mesmo símbolo do amuleto da humana que matamos fora da barraca”.

            Qualquer mago, principalmente aqueles treinados no Sorcere, sabem que ter o simbolo do nome de um demônio é importante para conseguir tratar com seu dono. Nome é poder, o símbolo não só representa o nome, mas o posto hierárquico, função e influências do demônio em questão. “Já é um grande passo”, diz a si Sol’al mesmo enquanto prossegue com suas reflexões, “Analisarei o símbolo mais tarde”.

            Ele se aproxima da runa orquica e tenta reconhecer os padrões arcanos envolvidos naquilo. Não lhe parece um símbolo divino ou de magia natural, porém a cultura orc nunca foi o forte de Sol’al. Ele observa atentamente e recorda a oração mentalmente enquanto observa de forma fixa a runa. “Palavras de poder”, um insight vem em sua mente fazendo com que ele olhe para o muro do outro lado. Para sua surpresa, sua intuição o guiou corretamente, pois, na outra parede há uma runa idêntica àquela que ele está estudando. “Mesma altura, mesma largura, mesmo desenho. Forma uma espécie de linha horizontal no ar”, pensa enquanto analisa as estruturas da runa que está mais próxima. “Não. Ela parece ocupar mais o espaço. Não uma simples linha horizontal mas…”, tudo parece fazer sentido em sua mente. As runas são desenhadas rudicamente mas suas extremidades se tornam delicadas semelhantes a raízes de árvores que Sol’al já havia visto no subterrâneo próximo a superfície: grossas e rudes quanto mais próximas do tronco e finas e delicadas quanto mais distante dele.

            – Senhora, acho que descobri algo. – diz o mago humildemente, mas sem conseguir esconder seu contentamento.

            – Acha? – pergunta a clériga secamente.

            – Não Senhora, tenho certeza. – responde Sol’al olhando para o pé da Xorlarrin – Essas runas orquicas são armadilhas mágicas. Acredito que elas formem uma espécie de barreira invisível que se passarmos acionará algum efeito, provavelmente destrutível.

            A clériga o encara demonstrando uma certa incredulidade.

            – Ainda não sei o que seria a oração. Acho que pode ser palavras de poder para aumentar o efeito das magias rúnicas. – complementa Sol’al.

            – Sim, são palavras de poder. – comenta a clériga – Você consegue desativar essas runas?

            Sol’al coloca a mão no queixo pensativo, ele sabe que sem conhecer qual magia é conjurada através daquela runa seu trabalho seria bem mais difícil. Além do mais, seria complicado exaurir suas magias para cancelar armadilhas.

            – Acho que não, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            – Inútil! – diz a clériga virando suas costas para ele e se dirigindo ao mercenário Alak – Mercenário, diga para seu companheiro que precisaremos que ele faça um pequeno serviço.

            Alak que se encontra próximo da entrada do túnel, junto a Brum e ao guerreiro Xorlarrin olha em direção a clériga. Sol’al sente uma pontada de ciúme, ao perceber que o mercenário insolente está se tornando mais útil para sua senhora.

            – Sim Senhora. O que você quer que ele faça? – pergunta Alak mantendo a conversa em baixo-drow.

            – Quero que ele ultrapasse aquele limite. – responde a clériga apontando em direção ao local onde as runas estão alinhadas.

            – Senhora, eu escutei a conversa entre você e o mago. Não acho válido sacrificar meu companheiro nesse ponto da missão e… – tenta argumentar o mercenário, mas logo é interrompido pela drow.

            – Eu dei uma ordem! Não pedi sua opinião!

            – Sim, Senhora. – responde Alak com a cabeça baixa voltando-se a Brum.

            Sol’al sorri ao ver a cena.

            – Senhora, há um pequeno símbolo embaixo do nome do demônio, provavelmente o símbolo de poder dele. – o mago puxa uma nova conversa tentando melhorar sua imagem.

            A Xorlarrin olha para Sol’al com uma sobrancelha erguida.

            – É o mesmo símbolo do amuleto da humana que encontramos lá em cima, fora da cabana. – complementa ele.

            – Àquela gorda da qual você ficou coletando sebo? – pergunta de forma extremamente irônica a clériga com um sorriso no rosto.

            Sol’al, simplesmente abaixa a cabeça e se afasta um pouco – ele sabe o quão vergonhoso pode ser alguns momentos de coleta de componentes materiais para suas magias -, enquanto o mercenário ogro se aproxima do local indicado.

            – Se afastem. – diz o mago em baixo-drow aos seus aliados.

            Todos se juntam próximos à entrada. Quando Brum para lá perto observado os dois lados do muro, Sol’al vê de canto de olho Alak sacar um de seus punhais e arremessar rapidamente em direção a clériga. O mago não consegue ser rápido o suficiente para parar o eremita, mas assim que escuta a clériga resmungando, percebe que o alvo do mercenário era outro.

            – Quem é ela? – pergunta Alak a clériga enquanto de trás dela uma pequena drow sai com seu braço machucado pela adaga.

            A clériga simplesmente olha a drow com desdém e dá um leve tapa na própria testa em sinal de decepção. O guerreiro Xorlarrin sorri e responde a Alak:

            – Suporte.

            Alak olha desconfiado para ele, mas ignora o fato e volta sua atenção a Brum. Sol’al acha tudo aquilo estranhamente ridículo. “Suporte?”, se pergunta Sol’al vendo que Alak faz um sinal para Brum, como se esfaqueasse o próprio peito, enquanto esse olha para trás esperando a ordem para ultrapassar a linha. Brum sorri.

            Sol’al compreende levemente a suspeita dos mercenários e olhando para a expressão da clériga e da pequena drow percebe que eles podem estar certos. “Uma pequena assassina. O ogro será sacrificado no instante que passar pela armadilha, faltaria apenas o outro mercenário. Ou não…”, esse pensamento preocupa o mago, que pensa em utilizar uma das magias de comunicação para falar com os superiores de sua Casa. “Está deixando o medo tomar conta?”, se pergunta Sol’al como uma forma de espantar o pensamento covarde.

            Nesse instante a clériga ordena para que Alak dê o sinal ao seu companheiro. Brum, com uma distância considerável do grupo, dá um passo à frente e ultrapassa a linha. Em um piscar de olhos uma grande explosão de fogo ocorre, mas essa não afeta de forma alguma a estrutura do túnel. Simplesmente espalha uma cortina de chamas em uma área de cinco metros tendo Brum como centro. Todos os drows fecham seus olhos graças a grande claridade gerada. Sol’al sorri, pois estava certa a sua teoria, além do insolente ter provavelmente morrido ou ficado altamente ferido no processo, já que ele é um ogro mago, e esses são sensíveis ao fogo.

            Aos poucos a visão volta ao normal e eles percebem que a claridade se desfez. Nada se incendiou. “Maldição”, pragueja o mago enquanto olha para a direção da armadilha. Para sua surpresa Brum está inteiro e sem nem uma única queimadura leve. Sol’al engole a seco e volta sua atenção para o resto do grupo. A clériga e o guerreiro estão com uma mistura de raiva e decepção em seus rostos, a nova drow está surpresa, enquanto Alak apenas sorri.

            – Por isso ele não usa equipamentos mágicos? – pergunta Sol’al ao eremita.

            – Sim. – responde Alak rindo – Brum nunca foi o forte da magia. Ou seria o contrário?

            Sol’al engole a seco e tenta ignorar o deboche de Alak.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (Parte 1)

Temeroso Sol’al Teken’Th’Tlar bate na porta do quarto onde disseram que os Xorlarrin estavam esperando. Parte de seu nervosismo deve-se ao bom tempo que havia se passado desde a sua ultima visita ao Bazaar e, a outra parte, deve-se a extrema ansiedade que está sentindo por começar sua nova missão.

Após a reunião no hall de estudos da Casa Teken’Th’Tlar, Riklaunim e Akordia o deixaram a sós com Jabor para que esse explicasse o que ele deveria fazer. Naquele momento sua ansiedade já era grande, devido ao pouco conhecimento a respeito de sua missão. Depois que Jabor lhe contou mais sobre o possível culto a Lolth por seres de raças inferiores, na Cidade da Rainha Aranha, descoberto pelas Casas Xorlarrin, Del’Armgo e Dyrr, sua curiosidade fervilhou como as águas termais de um lago próximo a áreas vulcânicas. Não foi possível nem mesmo esconder de seu Mestre a excitação que sentiu.

– Sol’al, contenha-se. – disse Jabor severamente ao jovem quando esse começou a esfregar as mãos uma na outra e a ficar inquieto em sua cadeira – Não é útil você demonstrar tamanha excitação por essa missão. Se deixar sua ansiedade tomar conta poderá cometer erros imperdoáveis. Estamos entendidos?

O jovem mago compreendia aquilo, e aos poucos começou a por em prática as técnicas de concentração ensinadas em Sorcere, para que o mago não perca seu foco. Aos poucos, Sol’al retomou o seu ritmo normal e escutou o resto do que seu Mestre tinha a dizer.

Aparentemente o culto é feito pelos escravos no Braeryn. Isso não é um problema em si, afinal os chitines, que são uma raça inferior, também louvam a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos. No entanto, pode-se tecer várias hipóteses a respeito do porquê algum drow ou Casa começaria um culto à deusa com os escravos. Um dos principais é: aumentar o número de seu contingente, já que a maior parte do exército drow é formado por escravos. Escravos que sirvam a deusa dariam suas vidas por ela. “Somos todos alimento para Lolth”. Com certeza isso estaria sendo pregado, e escravos fanáticos e controlados com uma pseudo-liberdade poderiam ser guerreiros ferozes. Mesmo que isso seja feito em homenagem à Rainha das Aranhas, soa como uma tremenda heresia aos da Casa Teken’Th’Tlar e provavelmente aos drows de todas as outras Casas de Menzoberranzan.

– Acreditamos que os Xorlarrin também vejam isso como uma imensa heresia. Estamos os auxiliando para que possamos eliminar esses hereges, ou consigamos reverter o jogo da misteriosa Casa que está planejando qualquer nova insurreição. – disse Jabor a Sol’al, que o escutou concentrado, sem deixar sua ansiedade tomá-lo novamente.

– Mas Mestre, uma insurreição acabou de ocorrer. Os escravos estão enfraquecidos, não fariam grandes estragos. – comentou o jovem mago.

– Não farão grandes estragos se não tiverem uma liderança forte como a de uma das Casas Nobres, por exemplo. – foi a resposta de Jabor ao comentário de seu discípulo – Dê o melhor de si por nossa cidade e nossa deusa.

– Por Menzoberranzan e por Lolth. – respondeu Sol’al no final da conversa.

Ele teve pouco tempo para se aprontar e ir para o Bazaar, mas o tempo foi suficiente para preparar seus componentes mágicos, suas adagas e suas roupas. Apenas ao chegar à taverna Sol’al lembrou dos alimentos, e comprou algumas provisões por lá mesmo, pois não sabia ao certo quanto tempo eles ficariam no Braeryn.

Após a primeira batida na porta, ninguém atendeu. Sol’al respirou profundamente e se focou, deixando seus receios de lado, bateu na porta novamente.

– Quem está ai? – pergunta uma voz masculina de dentro do quarto.

– Sou o enviado da Casa Teken’Th’Tlar para auxiliá-los. – responde Sol’al sem deixar transparecer o nervosismo que voltou a inundá-lo ao escutar a voz do possível Xorlarrin.

A porta se abre aos poucos, e um homem atlético, de cabelo comprido e trançado o observa rapidamente com um olhar analítico. Sol’al estranha o fato de o possível guerreiro estar com sua mão esquerda posicionada na região inferior de suas costas, como um velho com problemas no nervo ciático.

– Entre, mago. – diz o guerreiro ao recém-chegado logo após a rápida análise.

– Com licença. – diz Sol’al, entrando devagar no quarto.

Seria um quarto de taverna simples, se não fosse uma porta que leva a outro aposento. Essa porta se encontra fechada, e Sol’al supõe que lá se encontre a clériga. Ao ver o guerreiro caminhando até sua cama, ele percebe que esse guarda uma espécie de sabre mais curto e curvo de ponta cabeça em suas costas. Em cima da cama há uma espada curta que o Xolarrin guarda em uma bainha e coloca em sua cintura na parte direita. “Ele é canhoto”, comenta para si mesmo Sol’al.

– Chegou há muito tempo no Bazaar, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro, se voltando ao mago enquanto arruma sua piwafwi composta com trechos de couro de lagarto batido; “Essa armadura é leve para um guerreiro, não?”, observa Sol’al.

– Não faz muito tempo não, Senhor Xorlarrin. – responde o jovem mago olhando para o emblema da Casa do guerreiro.

– Estávamos esperando o senhor já faz um tempo. Minha Senhora está se aprontando e logo se juntará a nós. – diz o guerreiro vestindo suas botas sem perder a atenção voltada ao jovem mago.

As botas do guerreiro são acolchoadas. “Ele não é um guerreiro, talvez um assassino”, conclui o mago abrindo as portas para uma nova dúvida, “Será que ele é mesmo um Xorlarrin?”. A dúvida de Sol’al cria uma suspeita que o deixa apreensivo. Concentrando-se, ele começa a observar todos os movimentos do tal “guerreiro Xorlarrin”, que o observa de volta.

Em silêncio, ambos trocam olhares. Sol’al sério, enquanto o Xorlarrin sorrindo ao perceber que sua presença deixa o mago inquieto.

– Não fique apreensivo. Minha Senhora logo se juntará a nós. – diz o guerreiro levantando-se da cama.

Sol’al coloca sua mão esquerda discretamente em um dos bolsos de sua piwafwi e pega um componente de magia para o caso de necessidade.

– Não estou apreensivo, não se preocupe. – diz Sol’al.

– Poderia saber seu nome, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro.

– Meu nome é Sol’al, Senhor. – responde o jovem mago, curvando-se levemente – E o seu? Qual seria?

– Meu nome é… – o guerreiro é interrompido em meio a sua resposta, quando a porta do outro aposento se abre.

De dentro da sala uma jovem e bela drow sai caminhando devagar, com sua piwafwi negra caindo levemente por cima de sua cota de malha, como um vestido justo até sua cintura, após a qual abre-se mostrando sua coxa direita que está protegida por uma placa de metal.

– Qual o nome dele? – pergunta a clériga para o guerreiro de sua Casa em alto-drow.

– Sol’al Teken’Th’Tlar, Senhora. – responde o guerreiro.

– Ele é o tal mago? – pergunta novamente a clériga ao guerreiro, ignorando completamente o recém-chegado.

– É o que parece, Senhora.

Sol’al, sentindo-se fora da conversa, tenta cumprimentar a clériga com sua forma habitual.

– Sou Sol’al Teken’Th’Tlar, a seu serviço, minha Senhora. – diz ele ajoelhando e curvando-se plenamente em frente a clériga como se essa fosse a própria imagem da Rainha Aranha.

A clériga o olha com profundo desdém:

– Sei quem você é. Quando quiser que você se dirija a mim, eu direi. – dá de ombros a clériga, voltando-se novamente ao guerreiro.

Sol’al sente a ofensa de forma indiferente, afinal em sua própria Casa o tratamento que ele recebe é este. “Faz parte do jogo, não é?”, relembra sempre que qualquer ofensa lhe faz ferver o sangue. Além do mais, Sol’al não seria capaz de agir contra ou ofender uma clériga de sua deusa. Mesmo assim, ele se sente perdido sobre o que fazer.

– Está tudo pronto para a viagem? – pergunta ela para seu companheiro.

– Sim, minha Senhora. – Sol’al escuta o guerreiro confirmando a pergunta da clériga.

– Senhora, com todo o respeito, mas gostaria de saber o nome de vocês. – diz Sol’al se curvando, tentando entrar novamente na conversa.

O olhar da clériga parece soltar faíscas quando Sol’al finaliza sua pergunta.

– Para você meu nome é Senhora, seu macho insolente. – diz ela, aproximando-se do mago e erguendo sua mão para desferir-lhe um tapa quando da porta ouve-se uma forte batida.

A clériga vira-se espantada para o guerreiro, que a devolve um olhar semelhante ao dela.

– Quem está ai? – pergunta o guerreiro em linguagem subterrânea comum, fazendo sinal de silencio ao mago.

A clériga prepara sua maça enquanto Sol’al mantém os componentes mágicos em sua mão. O guerreiro posiciona sua mão esquerda na espada que se encontra em suas costas e se aproxima da porta.

Sol’al ouve alguns sussurros vindo do outro lado: duas vozes discutindo algo em linguagem subterrânea comum. Ele não consegue compreender muito da conversa, apenas alguns avisos como: “Eu falo”, “Não tente se intrometer”, “Brum! Eles são drows, não vão te escutar”.

– Responda! Quem está ai? – intima o guerreiro Xorlarrin.

– Somos mercenários a mando dos Bregan D’Aerthe para auxiliar os membros da Casa Xorlarrin no Braeryn. – responde uma voz masculina.

O guerreiro Xorlarrin olha para sua clériga ainda mais espantado. “Abra a porta com cuidado”, diz ela na linguagem de sinais drow ao guerreiro, logo após se dirigindo a Sol’al na mesma linguagem: “Mago, prepare alguma coisa útil”.

Sol’al segura os componentes necessários para a magia de cegueira em uma das mãos e confere se suas adagas de arremesso estão bem posicionadas. Enquanto isso, aos poucos a porta vai se abrindo e o Xorlarrin vê um drow alto e magro, de cabelo curto e armadura leve e acolchoada que cobre apenas pontos realmente vitais como o pescoço. Logo atrás do drow, está um ogro mago parado, quase sem roupas, apenas com trapos de couro batido que cobrem as áreas íntimas.

– Identifiquem-se. – diz o guerreiro Xorlarrin aos estranhos mercenários enquanto Sol’al e a clériga se posicionam em locais não visíveis, preparando-se para atacar quando necessário.

– Sou Alak Sel’Xarann. Estou aqui a mando dos Bregan D’Aerthe para proteger a clériga Xorlarrin que está pronta para uma missão investigativa no Braeryn. – responde o mercenário drow em baixo-drow ao Xorlarrin – Creio que você e a clériga que está ai dentro sejam os Xorlarrin, não?

O guerreiro fixa seu olhar desconfiado no eremita.

– Não me recordo de terem contratado mercenários para proteger minha Senhora. – diz o drow secamente – O que os Bregan D’Aerthe estão pensando?

– Leia isso. – diz Alak, pegando o pergaminho da mão de Brum e entregando ao Xorlarrin – Não sabemos quem nos contratou através dos Bregan D’Aerthe, mas ele nos entregou esse pergaminho. Espero que esclareça.

Olhando desconfiadamente, o guerreiro abre o pergaminho com cuidado. Seu olhar demonstra total dúvida em relação àquele pergaminho. Enquanto ele lê, seu olhar duvidoso vai se alterando para um olhar cheio de raiva e espanto. Dando um passo para trás o guerreiro entrega o pergaminho a sua senhora que o lê e engole em seco, enquanto Alak e Brum esperam do lado de fora.

Sol’al apenas observa a clériga e o guerreiro com suspeita. Ele devolve os componentes da magia de cegueira e coloca a mão em outro bolso de sua piwafwi, preparando o componente para uma magia de proteção. Afinal, sabe-se lá o que tem naquele pergaminho. Curioso, ele tenta bisbilhotar o que está escrito no pergaminho, mas infelizmente não consegue ler nada além de um nome, Zaknafein, e uma assinatura rúnica que ele não consegue identificar de pronto.

– Deixe-o entrar. – a clériga ordena ao guerreiro em alto-drow, claramente contrariada.

O guerreiro abre a porta. Percebendo que Alak não entendeu o que a clériga havia falado, diz em subterrâneo comum:

– Podem entrar.

Logo que a porta se abre, a Xorlarrin se depara com o imenso ogro mago que está junto ao drow.

– Menos o inferior. – ordena a clériga ainda em alto-drow ao seu guerreiro.

– Menos o ogro. – diz o Xorlarrin em baixo-drow.

Parando, Alak se vira para Brum.

– Brum, fique aqui fora. – diz ele em subterrâneo comum.

– Ela me chamou daquilo? – pergunta o ogro, com uma feição revoltada.

– Não sei, Brum. – responde Alak – Apenas fique aqui.

Brum se afasta da porta resmungando em goblinóide. Sol’al escuta os resmungos do ogro mago e sabe exatamente o que ele está dizendo: “Vou mostrar pra ela quem é inferior. Tenho certeza que ela falou essa palavra. Drows patéticos”. Mesmo sabendo disso, o mago prefere guardar para si a informação. Enquanto ele não ganha a confiança da clériga, não é bom se passar por puxa-saco dedo duro.

Alak entra no quarto e o guerreiro fecha a porta com o ogro de fora. Sol’al o analisa completamente da cabeça aos pés e percebe onde o recém-chegado guarda suas armas: seis facas arremessáveis nos dois lados da cintura e duas espadas semelhantes a patas dianteiras de aranhas-espadas nas costas. O mago observa mais atentamente as espadas, para ter certeza que seus olhos não lhe pregaram nenhum truque, mas não consegue ter certeza do que viu, pois o eremita se vira e o analisa rapidamente.

– Pergunte ao mercenário se ele e seu amigo já estão prontos para ir, pois não tolerarei atrasos. – diz a clériga ao Xorlarrin em alto-drow.

– Você e o ogro já estão prontos para partir, senhor Alak? – pergunta o guerreiro ao eremita.

– Sim. Já estamos preparados. – responde Alak prontamente voltando sua atenção ao guerreiro.

Sol’al observa os dois. As diferenças superficiais são óbvias: enquanto o Xorlarrin aparenta ter grande perícia com uma única espada, o mercenário aparenta ser capaz de usar duas armas ao mesmo tempo. Porém, no que realmente é focado o treinamento de ambos é o que intriga o jovem mago. Ele se concentra observando ambos enquanto eles conversam coisas supérfluas a respeito de bagagens e comidas, até que a Xorlarrin chama sua atenção.

– Mago, nos espere lá embaixo e leve o inferior junto. – ordena a clériga a Sol’al em alto-drow – Já o encontraremos lá.

– Sim, minha Senhora. – responde Sol’al se curvando.

O mago sai do quarto e fecha a porta com cuidado. Quando está a sós com o ogro ele diz em globinóide:

– A clériga ordenou que a esperássemos lá embaixo.

Brum olha para o mago com um certo desdém e sorri.

– Muito espertinhos vocês drows, não? – comenta Brum caminhando lentamente na frente do mago, que o olha sério, como se estivesse advertindo o imenso ogro pelo seu comentário.

Percebendo que Brum o ignorou e começou a descer as escadas, Sol’al prefere dizer em voz alta, mas ainda em globinóide:

– Cuidado com seus comentários, ogro. Pode ser prejudicial a sua vida.

– Sim, senhor. – responde com mais desdém ainda o imenso ogro.

Com a cara amarrada e pensando sobre como castigar aquele ser inferior, Sol’al espera no salão de entrada da taverna. Enquanto isso seus pensamentos se transformam: “O que será que eles estão conversando?”.

%d blogueiros gostam disto: