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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 3)

            Uma leve e quase inaudível batida ritmada é o único som que a clériga Sabal Dyrr está escutando naquele momento. Com todo o silêncio que tomou conta do ambiente, ela até se pergunta se aquela batida é de seu coração.

            Sabal, Mirka e Gromsh – junto aos dois espiões que os seguem – esperam o retorno de Stongest, que adentrou o ninho de um drider, aparentemente abandonado. Já faz algum tempo que Stongest está dentro da pequena caverna, mas sabendo que o meio-goblin-meio-algo é minucioso em seus trabalhos, Sabal não se preocupa em nenhum momento com isso. “Além do mais, provavelmente se houvesse algum drider nesse refúgio, ele já saberia que nós estamos aqui”, pensa a ex-Dyrr. Porém, a clériga se sente apreensiva em saber mais sobre o tal “filho de Lolth”, que nasceu como um drider. A história é bizarra demais para que ela consiga realmente acreditar; mas em nenhum momento ela deixa transparecer sua dúvida.

            – Ele não está mais aqui. – diz Stongest, retornando ao grupo.

            – Então é seguro continuarmos? – pergunta Sabal ao meio-goblin.

            Stongest responde positivamente com um aceno de cabeça. Sabal dá ordens simples com gestos de mão. Gromsh e Stongest vão à frente. Ambos já sabem que há algo ocorrendo no final do túnel adiante, pois as batidas, para eles, são claramente batuques de tambores. Mirka vai logo em seguida, já preparando feitiços de invisibilidade em sua mente, e relembrando uma ou outra magia de proteção contra qualquer possível ataque de seus acompanhantes. Sabal é á última, preferindo ficar mais próxima dos dois espiões.

            Eles caminham pela caverna cheia de teias, e o som dos batuques fica cada vez mais alto e distinguível. Algo está sendo realizado mais a diante. Um ou outro grito é escutado entre os batuques. “Gritos de louvor”, é o que parece a Sabal.

            Quanto mais eles caminham, mais altos ficam os sons. Quanto mais próximos eles chegam da boca do túnel, mais é perceptível que há algum tipo de acampamento ou cidadela na caverna adiante. Gromsh demonstra um grande espanto ao chegar furtivamente na boca do túnel, dizendo alguma frase em seu dialeto natal, não reconhecível por seus companheiros. Stongest logo se aproxima.

            – Encont’amos os o’cs. – diz ele quase sussurrando, fazendo com que Sabal tenha que aguçar seus ouvidos para escutá-lo direito.

            Sabal caminha vagarosamente para perto dos dois guerreiros, mas logo para quando Stongest faz um sinal para ela esperar.

            – Tentem não se ap’oxima’ tanto, há to’es de vigias p’óximas. Temos que toma’ cuidado pa’a não se’mos vistos.

            A ex-Dyrr continua ainda vagarosa, apenas para ter uma vista geral do que está ocorrendo. Ela consegue ver uma caverna gigantesca, na qual caberia, sem grandes problemas, uma pequena cidade drow. Vários acampamentos tomam conta do chão da caverna, e vários escravos – pelo que parece – trabalham na lapidação de algumas pedras preciosas do tamanho de cabeças de humanóides médios e as carregam para ornar um imenso símbolo – aparentemente arcano – que se encontra no centro do local. Próximo ao símbolo, uma grande criatura chama a atenção de Sabal.

            – Um Draegloth. – pensa ela em voz alta, mas sussurrando e vendo a criatura dar ordens a alguns orcs e hobgoblins que se encontram enfileirados. Observando mais atentamente o meio-abissal, percebe a insígnia de uma Casa. Ela respira fundo e tenta focar mais sua visão, para que possa ver sem ter que se aproximar mais da boca do túnel. “Xorlarrin”, suas suspeitas começam a fazer sentido agora. Provavelmente os Xorlarrin perderam o controle do meio-abissal, que acabou liderando a fuga dos orcs. “Para qual propósito?”, se pergunta Sabal.

            Sabal dá três passos para trás, considerando essa uma boa oportunidade para conversar com o tal Alak abertamente.

            – Me parece que suas respostas estão aqui, Alak. – diz Sabal em subterrâneo comum com o tom de voz habitual, não muito alto, mas audível o suficiente para ser bem compreendido.

            Ninguém responde de imediato, mas Sabal prefere esperar um pouco antes de tentar um novo convite. Sem muita demora, uma voz masculina surge há alguns metros atrás da clériga:

            – O que vocês encontraram?

            Não há nenhum constrangimento ou falsidade na voz do mercenário. “Pelo que parece, ele não está ligando para o que seu companheiro está pensando”, pensa Sabal.

            – O acampamento orc. – responde a clériga, sorrindo e olhando na direção de onde o eremita surge.

            Sabal se surpreende ao ver Alak. Ela não esperava que o drow que estava seguindo seu grupo fosse tão alto e não usasse uma piwafwi.

            – Rizzen, pode aparecer. Nós sabemos que você está aqui. – diz o eremita antes de prosseguir com a conversa – Poderia me aproximar, Senhora?

            – Claro. – responde Sabal fazendo um gesto amigável para que Alak vá até Gromsh e Stongest.

            – Se cê só tava esperando um acampamento orc, cuidado para não cair pra trás. – Sabal escuta Gromsh falando com Alak, enquanto ela observa o túnel esperando que o tal Rizzen se mostre, o que não demora muito.

            – O que vocês fazem aqui? – pergunta o guerreiro Xorlarrin a Sabal.

            – Um tanto mal educado você, não? – responde a clériga – Na sua Casa não ensinam os machos a serem mais respeitosos com as clérigas de Lolth?

            Rizzen deixa seu sorriso habitual tomar o rosto e responde cinicamente:

            – Desculpe, minha Senhora. Agora você poderia me dizer o que fazem por esses túneis?

            Sabal ri com a atitude de Rizzen.

            – Claro. Estamos em busca do filho de Lolth e vocês? – o tom de Sabal continua amigável.

            – Vaherun?

            Sabal ri ainda mais.

            – Que tal você responder antes?

            – Estamos atrás dos orcs desse acampamento. Não é óbvio? – Rizzen responde com arrogância, sem receio de punição.

            – É. Pelo que parece os Xorlarrin não ensinam bons modos a seus machos. – responde Sabal, deixando o sorriso de seu rosto se desfazer e fixando um olhar gelado no guerreiro – Ponha-se em seu lugar.

            A clériga segura firmemente o cabo de sua morningstar e começa a se aproximar do Xorlarrin.

            – Me desculpe, Senhora Dyrr. – diz ele ao ver o emblema da Casa de Sabal em seu escudo – Não irei repetir tal erro.

            Sabal tenta se controlar, mas não consegue segurar o riso.

            – Terminemos a conversa por aqui, pois desse jeito acabarei chamando a atenção de seu parente peludo ao explodir sua cabeça com minha arma. – diz ela ainda rindo e virando suas costas para o guerreiro Xorlarrin, sem ver a expressão de desgosto que toma conta de seu rosto.

            Ela sabe que Rizzen teria uma grande vantagem em atacá-la nesse momento, mas também sabe que ele não o faria por dois motivos: o primeiro porque ele está desconcertado demais para pensar em fazer algo, o segundo porque ele está em uma tremenda desvantagem numérica para agir tão estupidamente.

            Sabal vê na boca do túnel: Gromsh, Stongest e Alak. O mercenário e o guardião parecem estar analisando tudo e todos que estão no acampamento, enquanto o gnoll parece estar apenas de vigília.

            – Gostou da resposta, Alak? – pergunta a clériga sorrindo ao mercenário.

            Sem se virar ele responde:

            – Interessante…

            – Então encontrou seus “amigos”, herege? – Sabal, Alak e Gromsh viram-se simultaneamente ao ouvirem a voz da clériga Xorlarrin. Mirka já estava vigiando a retaguarda e por isso não se surpreendeu com a chegada.

            – Parece que alguém resolveu dar as caras, ao invés de apenas mandar espiões. – Sabal desafia a Xorlarrin não só com palavras, mas com um olhar penetrante.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 4)

            Fora um tanto difícil e demorado para o eremita Alak conseguir encontrar um local razoavelmente seguro para que seu grupo pudesse descansar. A maior parte daquele lugar foi criado artificialmente por algum povo ou criaturas. A maioria de seus túneis parecem ter sido cavados, alterados magicamente e até mesmo derretidos por alguma espécie de ácido poderoso ou outro tipo de componente que fosse capaz de derreter rocha. Até mesmo a cachoeira que cai em um lago é totalmente artificial aos olhos do eremita, “Provavelmente há túneis e lençóis subterrâneos que permitem a água se deslocar sem que transborde o lago”, refletiu por um momento Alak enquanto observava a imensa caverna.

            O eremita observa os membros de seu grupo descansando enquanto olha para a boca do túnel, tentando encontrar a caverna onde podem estar os escravos seguidores de Lolth. Seu tempo de vigília está acabando, logo ele despertará Rizzen de seu Reviere e descansará em seu lugar. Alak sempre sorri pelo fato de ter descoberto o nome do guerreiro Xorlarrin, afinal, o anonimato não é mais uma das vantagens do assassino.

            Mesmo que o túnel no qual eles estejam descansando não seja realmente seguro, Alak não se sente preocupado. Segurança não é um sentimento comum para os drows e, além do mais, os drows, como os outros elfos, não precisam descansar tanto quanto os humanos, gnolls, kobolds, orcs entre outras raças inferiores. Na verdade é necessário ficar em Reviere metade do tempo que essas outras raças passam dormindo para que os drows estejam já prontos para prosseguir suas viagens e seus afazeres.

            Alak dá mais uma olhada para fora do túnel e não vê nada de estranho ou inquietante. A criatura do lago continua hibernando ou talvez tenha ido embora por algum dos túneis ainda mais subterrâneos. E quanto aos orcs, nenhum sinal de mais atiradores ou coisas do gênero. “Talvez estejam preparando uma emboscada”, pensa Alak levantando-se de sua posição para se aproximar de Rizzen.

            Com um toque leve em seu ombro, Alak desperta o guerreiro Xorlarrin, que não demonstra nenhum espanto. “Sono leve”, conclui Alak.

            – Seu turno. – diz o eremita ao Xorlarrin.

            Rizzen levanta-se de sua posição e se aproxima mais da boca do túnel. Alak prefere ficar um pouco distante do grupo e mais próximo do assassino, para evitar qualquer possível tentativa de ataque durante o sono de Brum que, mesmo com seus roncos e seu sono pesado, assim que é acordado não demora nenhum momento para se preparar para qualquer conflito.

            Alak começa a se acomodar em uma posição para entrar em seu estado meditativo enquanto Rizzen faz uma observação geral da caverna fora do túnel.

            – Acha mesmo que eu seria tolo de tentar matar seu “amigo” com algum ataque furtivo ou envenenamento? – pergunta Rizzen sem se virar em direção a Alak, que o encara por um tempo antes de responder.

            – Tendo em conta quem é sua Senhora, acho até provável que tente alguma estupidez sim. – responde o eremita, sem demonstrar nenhuma surpresa pela pergunta do guerreiro.

            O sorriso habitual do Xorlarrin toma conta de seu rosto quando esse se vira para olhar nos olhos de Alak, passando a mesma sensação de ironia e astúcia que sempre passara.

            – Mesmo assim reconheço as capacidades de seu colega e sei ainda mais o quanto ele é resistente, não cometeria tal estupidez, mesmo tendo que ir contra minha Senhora. – comenta Rizzen, sem deixar o sorriso se desfazer.

            Alak continua olhando para o assassino enquanto esse volta a observar o lado de fora do túnel como se refletisse sobre algo.

            – Vocês não sabem mesmo o porquê estão aqui, não é? – pergunta de repente o Xorlarrin voltando a olhar para ele – Digo, vocês não leram a carta.

            O eremita balança a cabeça negativamente como se aquilo realmente não importasse.

            – O contrato de vocês foi mesmo para proteger minha Senhora? – pergunta Rizzen.

            Alak percebe que a cada pergunta o guerreiro está analisando suas atitudes e feições, além de seu tom de voz e respiração. Tendo isso em mente Alak prefere não mentir e sim responder de forma breve e sem detalhes:

            – Sim.

            – Desejo boa sorte a vocês. – diz o Xorlarrin, com ironia em sua voz.

            – Gostaria de saber qual o objetivo real de vocês nessa missão, se possível. – questiona Alak, que escuta apenas uma breve resposta de Rizzen.

            – Você saberá. Logo logo não terá como esconder.

            O guerreiro sorri novamente e prepara-se para se virar em direção a caverna quando é surpreendido, – assim como Alak -, com a lâmina de uma adaga em seu pescoço.

            – O que fazem aqui? – pergunta uma voz grossa e quase sussurrante de trás do Xorlarrin, que fica paralisado pensando em uma forma de sair daquela situação.

            Alak consegue observar levemente o ser que se encontra empunhando a adaga na garganta do assassino: um goblin com a orelha um pouco mais comprida e pontuda, com rosto de traços mais finos, aparentemente o mesmo que estava com a clériga de Lolth. “Um dos hereges”, pensa ele.

            – Pe’gunta’ei de novo: O que fazem aqui? – nesse momento Alak percebe que o goblin não está falando com Rizzen e sim com ele.

            Sabendo que o goblin faz parte do culto a Lolth e que esse mesmo grupo possui também inimigos entre os orcs, Alak resolve ser mais diplomático. Não que a vida de Rizzen importe alguma coisa a ele, afinal seu contrato diz que ele deve proteger a clériga, não os Xorlarrin. Portanto se algo ocorrer com o guerreiro não o afetará em nada, mas ainda assim, talvez ter o grupo de hereges como possíveis futuros aliados seja mais interessante dado as recentes informações passadas pelo assassino durante a conversa.

            – Estamos fazendo uma investigação. – responde o eremita, ignorando o olhar reprovador do Xorlarrin.

            – Vi que nos espionou algum tempo at’ás. Po’ acaso não esta’iam at’ás de nós, não é? – pergunta o goblin, como que por inocência.

            Alak ergue uma de suas sobrancelhas, desconfiando da pseudo-ingenuidade do goblin. “Se ele foi um escravo drow, não há porquê acreditar que um drow responderia suas perguntas com sinceridade”, pensa o eremita, olhando profundamente nos olhos do goblin. Por um momento uma sensação estranha tomou conta de Alak. Havia algo não muito certo nos olhos daquele goblin, mas ele preferiu ignorar a sensação e analisar o olhar. Um olhar sagaz, astuto e inteligente. “Com certeza ele não está esperando uma resposta verídica”, conclui o eremita.

            – A princípio sim, mas coisas mais interessantes chamaram nossa atenção. – responde Alak com sinceridade, afinal não seria interessante para ele demonstrar que blefe não é seu forte.

            Rizzen parece estar mais preocupado em se preparar para sair daquela situação, por isso passa a ignorar a conversa que Alak está tendo com seu “inimigo”.

            – Ótimo. – comenta o goblin, secamente – Qual o seu nome d’ow?

            – Alak, e o seu?

            – Stongest. Nos encontraremos mais tarde. – diz o goblin largando o Xorlarrin e sumindo aos olhos do eremita.

            Rizzen não perde tempo e saca sua espada curta virando-se rápida, porém inutilmente, para atingir seu “captor”.

            – Ele já foi. – diz Alak, percebendo o ódio crescer no Xorlarrin que vira-se para ele.

            – “Amigo” seu? – pergunta Rizzen em voz relativamente alta mirando um olhar inquisidor ao eremita.

            Alak sorri e escuta Brum se mexendo e falando com voz sonolenta:

            – Tá tudo bem, Alak? – Rizzen fica um pouco apreensivo por ver que o ogro mago está acordando.

            – Está sim, Brum. Volte a dormir. – responde Alak, ainda sorrindo, para o guerreiro Xorlarrin.

            – Eu não durmo… eu entro em um estado meditativo… como os elfos. – responde Brum com voz sonolenta e começando a roncar logo em seguida.

            Rizzen guarda sua espada curta e volta a olhar para Alak.

            – Respondendo sua pergunta: isso não é da sua conta. – responde Alak, voltando a se posicionar para entrar em Reviere – Agora deixe-me descansar.

            Rizzen o encara por mais um tempo, mas logo deixa nascer novamente seu sorriso sarcástico no rosto e vira-se para a boca do túnel. Alak fecha os olhos e se prepara para entrar em Reviere. “Stongest”, repete em sua mente, “Talvez seu grupo nos ajude a sobreviver ao que nos aguarda. A emboscada Xorlarrin”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 2)

            – Não podemos atacá-los de qualquer forma. Não sabemos o que está dormindo no fundo do lago e se tal criatura é capaz de perceber o que ocorre aqui na superfície. Se fizermos muito barulho, causarmos muita vibração, temo que a criatura irá acordar. – adverte o mago Sol’al Teken’Th’Tlar aos outros membros do grupo, mantendo a conversa em baixo-drow – E seja lá o que for, acho que não seria muito interessante acordá-lo nesse momento.

            O angulo de visão da boca do túnel de onde chegaram não permitiu que eles vissem o que estava no lago, mas logo que desceram ao chão da imensa caverna oval e se aproximaram, Sol’al e Rizzen comentaram à clériga a respeito de uma imensa sombra de alguma criatura que parecia estar “dormindo” no fundo do lago. Pelo tamanho da sombra e a profundidade aparente, a criatura pareceu aos dois observadores, algo colossal que realmente não seria muito inteligente respeitarem.

            – Sim, mago. Acredito que meu guerreiro não propôs atacarmos de qualquer forma. – comenta a clériga, de forma ácida.

            – Não quis dizer isso, Senhora. Estava me referindo mais a como o ogro iria… – o mago tenta se explicar, mas a clériga o silencia com um aceno de mão.

            – Acho que Rizzen deu boas idéias. São sete orcs, não vejo como não darmos conta disso. – comenta Alak, olhando para a clériga, mas contente por saber que o Xorlarrin contorceu o nariz ao escutar seu nome sendo dito por ele.

            – Não pedi sua opinião, mercenário. Faremos exatamente isso. Eu cuidarei do que está mais ao alto, enquanto você e Rizzen cuidam dos mais próximos. Rizzen invoca suas trevas em algum que não for ser atacado para atrapalhá-lo. O inferior acabará com o do canto direito na altura mediana, enquanto o mago se esconde atrás dele e conjura algo útil para nos ajudar. – ordena a clériga Xorlarrin finalizando sarcasticamente.

            Sol’al a olha contrariado por um breve momento. “Chega”, setencia mentalmente o mago, “Já está na hora de mostrar do que sou capaz”. Enquanto busca em sua mente as magias que serão úteis e trarão mais respeito a sua pessoa, o mago escuta Alak passar as instruções dadas pela Xorlarrin em Subterrâneo Comum. “Não acredito que estou sendo mais destratado que esses dois ignorantes”, pragueja mentalmente o mago, já sabendo como agirá quando a ordem for dada.

            O mago Teken’Th’Tlar observa com o canto dos olhos a boca do túnel que irá atacar. Ele sabe que há grande chance da clériga se irritar por ele não cumprir as ordens como foram ditas, mas ela verá que ele não é um simples estudioso. Os orcs estão preparados com bestas e algum tipo de balestra pequena. Nenhum do grupo de Sol’al está demonstrando que eles os viram, todos estão fingindo estar procurando pistas e observando o que há no fundo do lago. Um dos orcs aproveita a suposta distração e dispara uma flecha no maior e mais volumoso do grupo: Brum.

            A flecha da besta corta o ar e atinge o peito de Brum, porém a potência não foi suficiente para ultrapassar a grossa couraça que é a pele do ogro mago. Quando a flecha cai ao chão, a Xorlarrin escuta e dá a ordem que todos estavam esperando. Rizzen invoca uma cortina de trevas onde era esperado que ele o fizesse. Alak atira seu punhal na direção de seu alvo e o atinge em cheio na testa, mas logo vê que há outro orc dentro do mesmo túnel para substituir o falecido e atirar com a besta. Sol’al conjura sua primeira magia que irá cobrir um dos túneis com uma área de silêncio. No mesmo momento, Brum, vira-se em direção ao seu alvo e arremessa uma de suas clavas sem segurar a corrente. A maciça clava atinge em cheio o orc com a mini-balestra, que é nocauteado e tem sua arma despedaçada.

            Sol’al sorri quando percebe que sua magia funcionou. Enquanto Alak se aproxima um pouco mais do túnel que está atacando – para que a visibilidade de seu alvo se torne maior -, o mago se prepara para conjurar sua principal magia. Ele retira uma bola de guano de sua piwafwi que é utilizada como manto, ao mesmo tempo em que a clériga termina de armar a sua própria besta e atirar em direção ao alvo de Rizzen, para que esse consiga se aproximar mais da boca do túnel. Conjurando as palavras arcanas necessárias, Sol’al apenas mira um dedo em direção ao túnel largando ao ar o guano e o salitre. Esses se fundem e formam uma pequena esfera incandescente, semelhante a uma pequena pedra, que prossegue na trajetória visando o túnel mirado pelo conjurador. Ao atingir seu alvo a esfera explode sem emitir nenhum som, mas espalhando fogo por toda boca do túnel. Não apenas o orc atirador morreu com certeza, como qualquer acompanhante também estará morto; ao menos, assim acredita Sol’al.

            Orgulhoso de seu feito, Sol’al procura um novo alvo para mais uma magia e vê Alak atacando o orc que restou no túnel que lhe foi designado. O mago se vira para ver como estão os orcs pelos quais Rizzen está responsável e logo percebe que a clériga e o assassino deram conta de seus adversários. Brum já está próximo da boca do túnel onde sua clava se encontra. O que acabou restando foi o túnel coberto por trevas.

            Sol’al vira-se em direção ao alto túnel, enquanto Alak percebe que há mais atiradores em uma outra boca de caverna. Enquanto o mago prepara mais uma magia ofensiva para disparar em direção ao túnel encoberto pela densa escuridão, o eremita prepara-se para tentar algum ataque aos orcs “recém-chegados”, mas logo para e disfarça sua intenção ao perceber que dois dos cultistas que ele viu lutando contra os orcs na caverna de entrada, estavam lá para dar conta dos orcs.

            O mago Teken’Th’Tlar pronuncia algumas palavras arcanas e dispara um feixe de eletricidade de três de seus dedos que estão apontados em direção a boca do túnel. Dois gritos são ouvidos abafados pelo som da cachoeira, provavelmente os orcs foram nocauteados. “Pelo que parece, esses atiradores não são tão resistentes”, comenta consigo o mago. Em sua mente uma conspiração surge, “De certa forma eles sabem que estamos aqui, provavelmente não estão dificultando as coisas de propósito”. Ele continua observando o túnel no qual conjurou o raio elétrico e percebe que nenhum som ou disparo surge deles. “Ou eles são muito fracos”.

            – Havia mais, Senhora. Pelo que parece, fomos “auxiliados” pelos cultistas. – Sol’al escuta Alak comentar com a clériga Xorlarrin.

            – Onde eles estão? – pergunta a clériga, procurando-os nas bocas dos túneis.

            – Acho melhor não demonstrarmos que estamos atrás deles, Senhora. Eles não precisam saber que temos conhecimento de suas presenças. – diz o eremita.

            – Eles não têm como saber que estou procurando por eles. – retruca a clériga.

            – Não há mais orcs. É perceptível que já sabemos disso, Senhora. – diz Rizzen entrando na conversa – Acho melhor realmente escolhermos algum dos túneis para investigar e procurar por onde ir.

            A Xorlarrin torce o nariz por seu guerreiro ter apoiado o mercenário, mas nada responde, apenas acena positivamente com a cabeça. Aproveitando a deixa, Sol’al sussurra algumas palavras arcanas para ampliar seu sentido mágico.

            – Vou procurar rastros no túnel que ataquei. – diz Alak, já se virando e partindo na direção onde jazem seus punhais.

            Rizzen simplesmente parte em direção a um dos túneis mais próximos, onde Brum atacou. Brum passa por ele carregando as duas clavas e se aproxima do resto do grupo. Sol’al, após conjurar sua magia, volta-se em direção do túnel onde ele soltou a bola de fogo silenciosa. “A energia mágica está muito forte naquela direção”, constata o mago, “Pela intensidade e vibração, deve haver algum Nodo de Terra para aqueles lados”.

            – Senhora? – o mago se aproxima da clériga, que continua com a cara amarrada.

            – Fala, macho. – responde a Xorlarrin, aborrecida.

            – Sinto uma forte energia mágica naquela direção. – diz o mago, apontando genericamente para a direção da vibração que ele está sentindo.

            A Xorlarrin levanta uma sobrancelha e volta seu olhar para o rosto do mago; como se refletisse a respeito do que ele acabara de falar. Após alguns segundos observando-o, ela vira seu rosto em direção ao local apontado e analisa as entradas dos túneis. Percebendo que Rizzen está olhando em sua direção, a clériga comunica-se rapidamente em sinal drow com seu guerreiro. O diálogo foi tão rápido e discreto que Sol’al conseguiu entender apenas algumas palavras: “invocar”, “pai”, e também percebeu que havia algo na maneira como os gestos foram feitos que lhe lembrou uma pergunta. “Eles estão supondo o que estão para encontrar. Provavelmente…”.

            – Vamos procurar uma caverna segura para descansarmos. – diz a clériga ao guerreiro Xorlarrin, sem comentar sobre a descoberta do mago.

            – Sim, minha Senhora. – responde o guerreiro, se curvando brevemente e voltando-se para Alak e Brum – Procurem um local seguro para descansarmos. Rápido.

            Ambos os mercenários nada dizem, apenas partem em busca de algum túnel que se encaixe nas expectativas. Sol’al observa a clériga por um tempo, e não sabe se retoma o assunto ou se deixa para conversar com ela após o descanso.

            – Vi o que você fez. Interessante saber que está escondendo bastante suas capacidades. – ela interrompe a indecisão com uma frase que o mago, particularmente, não sabe se toma como uma censura ou como um elogio.

            – Todos temos nossos segredos, não é, Senhora? – responde ele, tentando manter um ar misterioso repetindo a frase que já falara em outra ocasião, tentando não desagradar a clériga.

            – Sim, concordo. – responde ela, sem pestanejar – Talvez você seja mais útil do que imaginei.

            Sol’al sorri por ter conseguido o que queria, mas uma coceira em sua nuca lhe deixa confuso sobre a situação e se aquilo foi realmente algo para se contentar.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (parte 4)

         – Os robgoblins tão tendo mais importância que nóis, nesse exército. – comenta um orc ao seu comandante.

            – Isso porque não há tantos pretensos traidores entre eles. – responde secamente Lurk Vento Cortante ao seu insubordinado.

            Shakar respira fundo para conter a raiva antes de falar novamente.

            – Senhor, muitos tão discontentes em seguir o meio-demônio. Ele quer nos afastar dos nossos cotumes para nóis seguir o demônio! – a irritação está evidentemente presente na voz do guerreiro.

            – Ele nos libertou da escravidão, agora quer nos libertar de nossas antigas correntes. – responde Lurk encarando o seu subordinado, deixando claro em seu linguajar sua superioridade – Vocês estão apenas demonstrando ingratidão a Zaknafein.

            – Num quero essa liberdade. Quero louvar os deuses de nosso panteão e não um demônio que a maioria de nóis nem mesmo conhecem! – Shakar aumenta a voz para seu superior, quase como um desafio jogado ao ar.

            Lurk se aproxima do guerreiro o encarando de cima para baixo; Vento Cortante é pelo menos dez centímetros mais alto que Shakar.

            – Você age como se Moror estivesse vivo. Não seja tolo! Vamos lutar por Shormongur, pois esse é o caminho para o poder que tornará nosso povo temído e respeitado por todos aqui no Underdark e na superfície de Faerun! – responde duramente o líder orc.

            – Tolo é ocê, de seguir aquele lobo do inferno! – responde Shakar – Se tô traindo ele, você tá traindo toda sua raça.

            – Se é nisso que você acredita, terá o mesmo fim que Moror. – setencia Lurk com um olhar gélido em seu rosto cada vez mais sujo.

            – Que cê vai fazê? Me intregar ao seu dono? – debocha Shakar virando as costas ao seu superior com um sorriso no rosto.

            Com um reflexo extremamente rápido, Lurk saca sua espada e Shakar sente apenas um vento antes de perder a consciência e ter sua cabeça decepada do pescoço.

            – Não. Você não merece morrer pelas mãos do filho do grande Shormongur. – diz Lurk enquanto limpa a lâmina de sua espada, pensando em alguma forma de trazer a compreensão na mente de seus irmãos – E que os robgoblins se preparem – conclui ele lembrando do comentário de seu falecido soldado.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 2)

            Enquanto o guerreiro Xorlarrin termina de interrogar inutilmente o orc e a clériga, novamente, perde a paciência e esmaga mais uma cabeça com sua maça, Sol’al Teken’Th’Tlar utiliza um pequeno anel que fica em seu dedo mindinho. Em sua incursão para o lower dark, as camadas mais profundas do Underdark, ele recebeu o anel de Jabor, seu tutor oficial dentro de sua própria Casa. O anel possui apenas um pequeno poder, mas é algo que é extremamente importante para ele: comunicação direta com seu mestre.

            Como nas magias de comunicação a distância, o feitiço desse anel possui um limite de palavras que podem ser usadas e só pode ser ativado duas vezes durante o período de um dia na superfície. Em outras palavras, deve ser utilizado brevemente e de maneira extremamente consciente. Sol’al acredita que o momento para entrar em contato com os superiores de sua Casa chegou. Durante todo o interrogatório, o guerreiro Xorlarrin não fez nenhuma pergunta referente ao culto a Lolth pelos escravos. As perguntas eram voltadas a um único assunto: os orcs fugitivos.

            Sol’al se concentra e profere quase que silenciosamente as palavras mágicas que ativam o anel. Ele sente o poder mágico fluindo do objeto e prepara a frase mentalmente. No momento certo ele apenas envia seus pensamentos ao seu superior. “Os Xorlarrin não buscam o culto, apenas fugitivos. Lolthianos encontrados e ignorados”, o mago acredita que para o momento aquilo é tudo o que deve ser dito. Qualquer futuro problema ele poderia utilizar o feitiço que resta no anel por hoje, ou uma de suas magias para se comunicar, mas isso é um disperdício para o momento.

            – Mago, descobriu alguma coisa? – pergunta a clériga com sua habitual arrogancia.

            Sol’al retoma sua concentração no momento e reflete rapidamente o que dizer sem oferecer todo o conhecimento que adquiriu sobre a situação das armadilhas.

            – Descobri, minha Senhora. – responde indo em direção ao orc – Segundo as palavras de poder e pelo que percebi, as armadilhas afetam apenas inimigos do demônio e não seus servos ou aliados.

            A Xorlarrin o encara por um tempo pensando que esse prosseguiria, mas como isso não ocorre ela pergunta secamente:

            – O que você sugere?

            Sol’al dá um sorriso fingindo uma pequena timidez e responde:

            – Acredito que as runas não são ativadas por orcs necessariamente. Orcs e pelo que percebemos, humanos também. – mente Sol’al.

            – Não são ativadas por orcs e humanos? – repete incrédulo Alak em subterrâneo comum para que Brum entendesse a suposição do mago que conversa com a clériga em baixo-drow.

            – Besteria. – Brum ri e vira as costas para o grupo, levantando o orc prisioneiro, que se encontra amarrado, em seu ombro.

            Sol’al encara as costas do ogro com raiva, mas logo ela passa quando a clériga comenta.

            – É uma suposição interessante, mago. Vamos fazer o teste. – Alak olha para ela ainda mais incrédulo e Brum apenas ri enquanto a clériga ordena em baixo-drow – Mercenário, peça para o inferior arremessar o orc pela armadilha.

            – Senhora, não acho que dará certo. – comenta o eremita.

            – Cale a boca, o Mestre Teken’Th’Tlar é o mago de nossa expedição. – responde ela fazendo com que o sorriso no rosto do mago se alargasse ainda mais.

            – Sim, Senhora. – diz Alak voltando-se a Brum e fazendo o pedido sem sentido que a clériga ordenou.

            Sol’al observa Brum se aproximando da armadilha e jogando levemente o orc através dela. Escutando com o máximo de atenção, o mago consegue captar algumas palavras em abissal que o orc sussurou enquanto estava para ser arremessado e durante o arremesso. Nada ocorreu. A armadilha não disparou e o mago simplesmente bateu com um baque no chão.

            Brum utilizando a corrente de uma de suas clavas laçou o orc e o puxou de volta. Alak encara surpreso o mago que o ignora e se encaminha para a clériga sorrindo.

            – Parece que você estava certo mago. – comenta surpresa.

            – Descobri mais que isso, minha senhora. – diz Sol’al enigmaticamente.

            – Como? – pergunta a Xorlarrin curiosa.

            – Mercenário, tire o colar que o orc mago está usando. – ordena ele a Brum, que olha para Alak com dúvidas se aquilo era ordens da clériga ou do próprio mago.

            – Peça para ele obedecer, mercenário. – diz a clériga à Alak que apenas faz um gesto positivo para saciar a dúvida de Brum.

            Brum, com toda sua delicadeza, retira o amuleto do pescoço do mago orc e o joga para Sol’al.

            – O que seria isso? – pergunta a Xorlarrin.

            – É semelhante ao da humana que encontramos lá fora e semelhante aos que encontrei em todos os mortos. Alguns usavam esse amuleto no braço, outros no pescoço. Acredito que para funcionar isso deva estar em contato com a pele. – responde Sol’al, todo orgulhoso de suas descobertas.

            – Esse é o símbolo sintético do nome do demônio, correto? – pergunta a clériga olhando para o amuleto do mago e o da humana gorda que está em sua posse.

            – Sim, minha Senhora. Quando o ogro arremessou o orc eu o escutei dizendo as palavras de ativação do amuleto. É uma espécie de oração em abissal. – comenta o mago retirando de sua piwafwi outros amuletos iguais àqueles que estão na mão da clériga.

            A Xorlarrin sorri e se aproxima de Sol’al dizendo em alto-drow.

            – Vejo que alguém estava escondendo o jogo.

            Sol’al sorri.

            – E quem não está? – responde o mago logo em seguida ensinando palavra por palavra a “oração” necessária para ativar o amuleto. Brum não aceitou o amuleto, porém ninguém insistiu, nem mesmo Alak, pois conhece Brum o suficiente para saber que o ogro é totalmente averso ao uso de magias; até mesmo para enfrentar outras formas de magias.

            Sol’al olha para os mercenários e os desafia sorrindo. Brum sorri de volta acenando com a mão, enquanto Alak o ignora. “Me subestimem rapazes. Vamos ver até onde durarão”, comenta consigo o mago Teken’Th’Tlar com um sorriso satisfeito em seu rosto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 4)

            “Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”, um insight vem na mente no mago Sol’al Teken’Th’Tlar em meio ao seu Reverie. “Talvez seja isso”, diz a si mesmo enquanto escuta algumas conversas ao seu redor.

            Por não estar mais escutando nem sentindo a vibração do ronco de Brum, ele acredita que esse esteja fazendo parte da conversa. Atento e tentando aguçar sua audição, Sol’al começa a distinguir os sussurros.

            – Claro que não era pra nós. Eles não sabiam da nossa contratação. – diz o imenso ogro ao seu companheiro de conversa, que facilmente Sol’al percebe ser Alak.

            – É disso que estou falando Brum. Acho que a presença do mago é tão indigesta aos dois quanto a nossa. – comenta Alak tranqüilamente enquanto o ogro segura o riso.

            – De boa Alak, o maguinho nem tem como ser mais indigesto que nós. – comenta ele.

            Sol’al controla sua raiva ainda se mantendo na posição que estava quando entrou em Reverie, esperando que os dois mercenários falem algo que realmente os comprometam. Porém nada surge. Ambos ficam apenas conversando assuntos banais como cerveja, mulheres e táticas de guerra.

            Depois de algum tempo o mago Teken’Th’Tlar volta a escutar o ronco fortemente sonoro de Brum. Até que uma voz masculina chama a atenção de Alak:

            – Descobriu algo mercenário?

            A voz está baixa, mas Sol’al consegue reconhecer como sendo do guerreiro Xorlarrin, pois não teria como ser de outra pessoa; a não ser que mais um “suporte” estivesse por perto.

            – Sim. Há uma outra passagem, mas não me pareceu mais segura que essa. – responde o eremita também com voz baixa.

            – Por que? – questiona o guerreiro.

            – Há orcs e um grupo se digladiando. – responde Alak como se aquilo não importasse.

            – Grupo? – pergunta o guerreiro como se estivesse lendo a mente de Sol’al.

            – Sim, um grupo de seres inferiores liderados por uma clériga de Lolth. Aquilo que teoricamente estamos procurando. – responde cinicamente o eremita.

            “O culto a Lolth?”, se questiona surpreso o mago. A ansiedade começa a tomar conta do corpo de Sol’al, mas esse se controla para não perder a oportunidade de descobrir o que está ocorrendo na missão. O silêncio tomaria conta do local se não fosse pelo ronco do ogro, até que o Xorlarrin retoma a conversa:

            – Você não está procurando nada. Até onde entendi, você e seu amigo foram contratados para protegerem a clériga, correto? – diz secamente o guerreiro.

            – Correto, Mestre Q’Xorlarrin. – responde Alak com reverência.

            Sol’al não escuta resposta, mas acredita piamente que o guerreiro a fez com seu habitual sorriso. A mente do mago se entrega a um turbilhão de pensamentos, aos poucos ele começa a se concentrar para poder refletir de maneira mais coesa. “O culto a Lolth pelos escravos não é a real razão de tudo isso. Isso eu entendi”, comenta consigo mesmo, “Mas qual será o real objetivo dos Xorlarrin? Será que Orghz sabia ao pedir a ajuda da minha Casa? Será que esses dois Xorlarrin realmente se sentem incomodados com a minha presença?”. Enquanto várias questões palpitam na mente do mago, ele escuta Alak chamando o guerreiro Xorlarrin:

            – Mestre Q’Xorlarrin? Temos companhia.

            Sol’al com o olho semi-serrado vê ao longe uma luminosidade claramente mágica e alguns sussurros. “Esses sussurros parecem ser em abissal”, comenta mentalmente enquanto tenta entender direito o que está ocorrendo. “Eles estão refazendo as armadilhas destruídas!”, conclui Sol’al abrindo os olhos e vendo que o Xorlarrin, Alak e a ladina muda não mais estão lá.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 2)

            Após cinco explosões mágicas que se alternavam entre cortinas de fogo e tapetes de corrente elétrica, Brum começa a ser ferido pelas armadilhas. Alak Sel’Xarann, após muito dialogar com a clériga Xorlarrin, consegue que eles dêem uma pausa na investida sem planejamento que estavam fazendo. Era claro para ele que a clériga queria que Brum morresse no processo e que ela estava completamente decepcionada com o fato dele ser tão resistente e de sua assassina mirim não ter conseguido ser furtiva o suficiente.

            Depois de ter ultrapassado duas vezes a primeira armadilha, eles decidiram que Brum deveria quebrar o trecho da parede onde as runas estavam desenhadas. Isso provavelmente ativaria a armadilha com força total, mas – fora Alak – ninguém se importava.

            Logo que as primeiras runas foram destruídas, a pequena ladina foi colocada na frente para procurar armadilhas físicas que pudessem estar no local. Assim que essas eram encontradas, ela logo se prontificava em desarmá-las. Observando a relação da clériga e da pequena drow, Alak percebeu que a nobre era “dona” da ladina, pois essa não parecia pertencer a Casa Xorlarrin. Ela teve sua língua amputada, “talvez por falar demais, algo comum entre mercenário ou ladrões pertencentes a alguma guilda”, refletia Alak.

            Como um animalzinho de estimação da clériga Xorlarrin, a pequena drow obedecia todas as ordens e se arriscava o quanto fosse necessário para deixar sua dona feliz. Felizmente para ela, a Xorlarrin não a havia colocado em risco como fez com Brum.

            Cada armadilha mágica que Brum destruía, todos os outros se afastavam para não sofrerem com a explosão. A mediada que iam adentrando mais e mais o túnel as armadilhas ficavam cada vez piores e mais poderosas. O mago Teken’Th’Tlar havia observado de antemão que possivelmente o poder das runas seriam crescente.

            – Acredito que a cada passo que dermos mais adentro da “morada” do demônio, mais poderosas serão as defesas. – disse ele logo após a terceira armadilha.

            Brum resistiu sem nenhum arranhão até a quarta armadilha. Na quinta, não foi possível e Alak decidiu intervir por seu colega mercenário.

            – Sacrificá-lo nessa altura da missão é loucura. Não sabemos o que encontraremos mais à frente. – dizia Alak para o guerreiro Xorlarrin em baixo-drow.

            – Não adianta mercenário, ela não vai mudar de idéia. – respondia ele.

            Não satisfeito com as respostas negativas do guerreiro, Alak foi ter uma conversa com a própria clériga.

            – Você quer mesmo que ele morra agora? – perguntou o eremita à Xorlarrin.

            – Não necessariamente, mas se ocorrer: ótimo. – respondeu ela secamente.

            – E você sabe o que encontraremos por lá? Você conhece o demônio que possivelmente nós encontraremos? – retrucou Alak em tom de desafio.

            – Isso não é da sua conta mercenário. – respondeu a clériga com raiva em sua voz.

            – É da minha conta a partir do momento que fui contratado para protegê-la. Brum é um dos únicos nesse grupo que poderia parar um demônio tempo suficiente para que conseguíssemos sobreviver. – disse Alak como quem diz uma verdade incontestável.

            – Você conhece bem a capacidade de todos no nosso grupo, hein? – respondeu ironicamente a clériga.

            – Não. Não conheço o suficiente, apenas sei que você não tem suas mágias no momento e que a única fonte de magia que possui é uma varinha de cura. Suas armas mágicas serão inúteis em uma luta contra alguém mais hábil que você. – a clériga virou-se em direção a Alak com a fúria fervendo em seu rosto, mas o mercenário prosseguiu – Talvez seu assassino que faz pose de guerreiro pudesse lhe ajudar, mas acredito que o que você sente por ele não é necessariamente confiança. Já sua pequena ladina de estimação não seria capaz nem de causar transtorno a um demônio ou aos servos do mesmo.

            A clériga encarou o mercenário por um tempo, com a respiração ofegante de raiva.

            – Com quem você irá contar, Senhora? – finalizou Alak sem deixar de olhá-la nos olhos.

            Ela gritou em alto-drow – palavras que para o mercenário soaram desconexas -, chamando a atenção de todos do grupo.

            – Senhora, eu não entendo alto-drow. Por favor, fale em baixo-drow. – interpôs Alak.

            Ela respirou fundo e retomou um tom de diálogo, porém sem deixar a raiva de lado:

            – Eu tenho um mago e um ótimo guerreiro ao meu lado. – respondeu a Xorlarrin.

            Alak olhou para o mago que estava próximo a parede analisando as runas e voltou-se para a clériga novamente.

            – Eu acredito que seu assassino seja um ótimo guerreiro, mas o mago é ignorável. – disse ele – Além disso, ele não seria capaz nem de manchar a pele de meu companheiro ogro.

            A Xorlarrin o olhou com um ódio mortal palpitando em todos os seus músculos como se ela fosse um coração.

            – Certo. Pensem em algo, mas saiba que quando terminarmos essa missão irei fazer de tudo para que você morra como um herege, macho. – sentenciou a clériga ao mercenário.

            – Sim, minha Senhora. – respondeu Alak voltando-se rapidamente ao seu companheiro em subterrâneo comum e puxando conversa com a ladina e com o mago.

            Os quatro conversaram a respeito do que fazer em seguida. Alak sabia que atrás deles a clériga e o guerreiro planejavam sua morte, mas ele mantinha sua mente tranqüila, pois enquanto Brum estivesse vivo, ninguém tentaria contra sua vida.

            Em relação às armadilhas, muitas idéias surgiram, mas todas tinham alguma falha. Por fim, eles optaram por aceitar um plano bizarro do mago.

            – Talvez não seja necessário destruir a runa para “desativá-la”, talvez apenas um risco bem feito possa inutilizá-la. – diz ele.

            A pequena ladina comenta, de forma discreta, algo ao Teken’Th’Tlar na linguagem de sinais drow, que Alak não entende.

            – O que você propõe então mago? – pergunta Brum.

            – Vi que você arremessa bem suas facas Alak. – responde Sol’al como se o eremita que tivesse perguntado – Você conseguiria acertar aquela runa lá atrás?

            Alak observa a runa que Sol’al havia apontado a vinte metros de distância e responde:

            – Com certeza.

            O mago explica a todos que aquilo pode dar uma reação em cadeia e todos, menos os dois mercenários, se afastam até próximo da entrada. No momento combinado Alak arremessa dois de seus punhais, um em cada mão, e atinge de forma perfeita as duas runas que formam a armadilha a vinte metros. Logo após ter disparado, Brum o cobre como uma barraca. Fogo e eletricidade os atingiram com força total, Alak acreditou que Brum não sobreviveria. Cada armadilha que ultrapassada pela cortina destrutiva de magia se acionava e somava-se à primeira.

            Após tudo aquilo parar e as magias se desfazerem, Brum se levanta e diz a Alak:

            – Tivemos sorte dessa vez, hein? Se esses loucos continuarem agindo dessa forma morreremos antes deles.

            – Eu sei Brum. – responde Alak com uma certa tristeza na voz.

            O eremita sabe que aquilo é verdade e não gosta da idéia de morrer de forma tão estúpida. Por isso ele tem que pensar rápido e logo algo que parecia uma estratégia palpável veio em sua mente.

            Aproximando-se do grupo ele se dirige a clériga:

            – Senhora, acredito que eu poderia procurar alguma outra passagem enquanto o mago estuda formas de desarmar essas armadilhas sem por em risco o grupo. – diz Alak.

            – E você acha que haverá outra passagem? – pergunta a clériga descrente.

            – Não sei, mas sei que fui treinado nas áreas selvagens do Underdark e se houver outra passagem, sou aquele que pode achá-la. – responde Alak com convicção.

            O guerreiro sorri aprovando a atitude orgulhosa do mercenário, enquanto a clériga apenas o encara:

            – Mago, consiga uma maneira de anular essas armadilhas. Mercenário pode ir atrás da outra passagem, mas antes diga ao seu amigo que fique longe do grupo, para que possamos descansar sem a presença de um inferior contaminando nosso ar. – ordena a clériga.

            Alak faz uma breve reverência e vai conversar com Brumm, que o recebe com as frases já conhecidas: “Ela disse a palavra, não é?” e “Sim, senhor meu mestre”.

            O eremita parte em busca de uma outra passagem no Braeryn ou próxima a ele. De início a busca é nos arredores, pois ele acredita que os orcs não são estúpidos de prepararem duas passagens uma próxima a outra. Porém, para sua surpresa, a outra passagem se encontra à mais ou menos vinte e cinco metros da passagem na qual eles entraram, mas, pelo menos, não é tão óbvia.

            A passagem é pequena e estreita, principalmente para ele, um drow de um metro e noventa de altura. Cuidadosamente o eremita adentra a passagem e não encontra guardas onde acreditava que haveria. Entretanto escuta uma batalha ocorrendo mais a frente do túnel. Era um túnel bem semelhante ao que eles estavam: artificial e com muitas protuberâncias rochosas. A pequena familiaridade facilita para que ele se esconda e assista a luta que ocorre no local. A clériga que ele havia visto conversando com aquilo que parecia um goblin no Bazaar, está lutando habilmente contra dois orcs, ao lado de um gnoll e alguns kobolds e goblins.

            A batalha é ferrenha. Os orcs urram seus gritos de guerra, enquanto os companheiros da clériga gritam: “Por Lolth!”. Alak sorri por ter encontrado o culto, mas o fato deles estarem combatendo os orcs, deixa tudo ainda mais estranho.

            O eremita fica algum tempo observando e refletindo sobre o que via, quando percebe que dois orcs caem sem sinal de ter sido atingidos pelo gnoll, mas com cortes profundos no corpo. Ao prestar atenção ele vê o meio-goblin-meio-algo furtivo e camuflado como um camaleão, andando livremente no campo de batalha e escolhendo a dedo sua vítima e a hora certa de atingi-la.

            Alak sente uma preocupação surgir em sua mente quando o pequeno goblin-coisa olha de canto de olho em sua direção. “Ele sabe que estou aqui”, conclui o eremita partindo o mais rápido possível.

            Não demora muito para que ele chegue ao seu grupo novamente. Pelo que parece, Brum está dormindo mais a frente enquanto o mago estuda seu grimório, enquanto a clériga e o assassino estão em Reverie. A ladina apenas observa a todos; é ela quem está de vigia.

            Alak se senta perto de uma parede, esperando o momento oportuno para se dirigir a clériga ou ao guerreiro. O tempo se passa e o mago também entra em Reverie. Alak diz para a ladina dormir que ele fica na vigília. Ela recusa e ele apenas sorri dizendo:

            – Me chame quando for a minha vez. – se posiciona comodamente e entra em Reverie.

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