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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 2)

– A situação está complicada, Mirka. Não temos como sair da cidade pelas maneiras convencionais. – diz Sabal Dyrr, ex-clériga da segunda Casa mais poderosa de Menzoberranzan, a uma kobold.

Mirka olha para sua companheira drow com um rosto pensativo.

– Senhora, Quiri foi fazer uma busca pelo Braeryn um pouco antes de você e o Stongest chegarem. Talvez ele tenha encontrado alguma coisa. – comenta a pequena kobold.

– Até onde eu saiba, todas as passagens conhecidas estão sendo guardadas por patrulhas drows. – diz a clériga apreensiva para sua pequena companheira – E a única que não era conhecida foi descoberta após a insurreição, e agora também tem proteção de guardas da cidade.

No canto da barraca onde o Culto a Lolth Encarnada se encontra escondido, está um gnoll se alimentando com a carne que seus companheiros trouxeram do Bazaar.

– Ouvi falá que tem uns orcs que fugiram pelo Braeryn. – diz o gnoll mastigando um grande pedaço de carne seca.

– Você está se referindo aos que escaparam da Casa Xorlarrin? – pergunta Sabal – Isso foi antes da insurreição, Gromsh. Talvez eles fizessem parte de todo o esquema.

– Não, Senhora. Num tô falando desses não. Tô falando de uns mais recentes. – responde Gromsh engolindo o que estava em sua boca e mordendo outro grande pedaço – Parece que uns orcs e hobgoblins conseguiram fugí da cidade há pouco tempo.

Sabal sorri para o gnoll.

– O que você está dizendo é fato, Gromsh?

– Com certeza, Senhora. Foram contatos confiáveis que me disseram. – responde o gnoll, orgulhoso.
Sabal se levanta da almofada onde estava sentada e caminha até a pequena janela próxima a porta de entrada e saída. Pensativa e concentrada, ela tenta encontrar o guardião meio-goblin lá fora, mas é quase impossível vê-lo quando esse não quer ser visto. Discretamente, a clériga começa a emitir alguns rosnados – por mais estranho que isso tenha soado no início de sua vida com aqueles hereges, atualmente é bem mais natural.

“Stongest. Se estiver tudo calmo ai fora, entre. Precisamos conversar”, diz a clériga na linguagem secreta do culto, logo após virando-se para seus outros dois companheiros.

– Vocês acham que Quiri tem capacidade de encontrar alguma passagem? Isso é, se ela realmente existir. – pergunta Sabal com uma das sobrancelhas erguidas.

– Sinceramente não, minha Senhora. – responde Mirka – Quiri é um goblin muito dedicado, mas não é muito inteligente nem perceptivo.

– Ah! Ele é um goblin. Goblins são estúpidos. – diz Gromsh rindo.

– Eu sou um goblin, G’omsh. Você me acha estúpido? – a voz de Stongest surge como uma invocação, do canto da cabana oposto ao que o gnoll se encontra.

Gromsh coça a cabeça constrangido.

– Cara, não foi bem isso que eu quis dizê. Sabe, você nem é um goblin direito, né? – o gnoll tenta consertar, desviando o olhar dos olhos do pequeno e robusto meio-goblin-meio-algo.

– Eu tenho sangue goblin, po’tanto sou um goblin. – finaliza Stongest, virando-se  para a clériga.

Sabal ri baixo. Gromsh continua coçando a cabeça envergonhado, enquanto Mirka sorri por ver o guardião.

– Já acabaram, crianças? – pergunta a clériga enquanto olha para o goblin que está sério a observando.

– O que você que’ conversa’, Sabal? – pergunta Stongest demonstrando toda sua simpatia.
Sabal ri mais um pouco antes de começar.

– Quiri foi atrás de alguma passagem para fora de Menzoberranzan aqui no Braeryn. O problema é que não confiamos na capacidade dele para encontrá-la, se é que ela existe. – diz a clériga resumindo a conversa.

– Onde estão os out’os fieis? – pergunta Stongest olhando ao redor da barraca.

– Foram conseguí informações com outros das mesmas raças. – responde Gromsh.

– Não acho isso uma boa idéia. Eles são muito inexpe’ientes. – diz o meio-goblin voltando-se para o gnoll.

– Eles foram antes de vocês voltarem, Senhor. Houve alguns poucos boatos a respeito de orcs e robgoblins que conseguiram fugir da cidade através de um túnel que começa aqui no Braeryn. Precisávamos saber de algo. – diz Mirka.

– Ce’to. – comenta Stongest, achando razoável a resposta da kobold.

– Então, Stongest, você poderia ir atrás de Quiri? Mirka irá convocar o resto dos fieis. Creio que todos devem ir conosco em nossa busca pelo filho de Lolth. Concorda? – pergunta Sabal voltando a se sentar em uma almofada, em posição de meditação.

Stongest olha para a clériga, pensativo. Sabal encara a feição séria do meio-goblin e percebe alguns traços bem delicados em seu rosto, apesar de todas as cicatrizes. O olho do meio-goblin tem um formato um pouco ovalado. “Como eu ainda não tinha percebido isso”, pergunta-se a clériga demonstrando surpresa.

– Que foi? – pergunta Stongest – Alguma idéia melho’?

– Nada não, Stongest. Apenas me perdi em pensamentos. – responde Sabal, enquanto sua mente tenta não acreditar naquele detalhe, “Não pode ser, eu devo estar vendo coisas”.

– Eu vou at’ás do Qui’i. – diz o meio-goblin desconcertado com as reações da clériga, sumindo novamente dos olhares de seus companheiros próximo à janela.

– Senhora, quer que eu vá atrás dos outros agora? – pergunta Mirka a clériga.

– Espere um pouco, Mirka. – diz Sabal pensando a respeito – Se você conhecer alguma magia para chamá-los sem precisar sair daqui, acho que seria melhor.

– Não tenho nada semelhante preparado no momento, Senhora. – responde Mirka.

– Então pode ir. Vá com Gromsh, assim vocês podem se separar e procurar mais rapido.

– Sim, Senhora. – responde Mirka indo até a porta – Vamos, Gromsh?

– Vamo sim. – responde o gnoll, limpando os dentes com a unha.

Quando ambos saem pela porta, Sabal se põe a refletir sobre a situação. É interessante ver como sua vida está bem diferente do que ela imaginava quando fugiu de sua Casa. Sempre imaginara que teria que sobreviver sozinha por muito tempo e apenas aos poucos conseguiria lacaios fieis, mas a Do’Urden e Stongest pouparam esforços para ela.

A lealdade desses seres é totalmente estranha a ela, que foi criada dentro da segunda maior Casa da Cidade da Rainha Aranha. Ela não é forjada com o medo, pois qualquer um deles seria capaz de sobreviver sozinho e não se importaria em deixar um traidor para trás. Porém, a lealdade deles é forjada pela Fé – não a fé dela, mas a Fé que Stongest explicou no Bazaar -, o que é muito mais forte do que a lealdade que os escravos tem pelos seus senhores drows. Supondo que tentasse controlar Mirka através do medo, a pequena kobold não a repreenderia, simplesmente sumiria e nunca mais seria vista. “É impressionante a lealdade e liberdade que esses hereges possuem”, pensa consigo mesmo.

Particularmente, Sabal se sente até inferiorizada ao ver as atitudes desses cultistas em relação à falsa-deusa. “Falsa-deusa. Por que me sinto tão vazia quando penso isso?”, ela se pergunta, e sua memória a leva ao seu último encontro com aquele que foi seu professor, seu aliado e seu amante: Mariv.

Sua memória não toca apenas os planos das imagens, seu braço ainda sente o impacto criado quando atingiu o rosto daquele que ela tanto respeitava. “Sem arrependimentos”, comenta para si tentando espantar o pensamento que a aflige. “Você realmente está se tornando uma fraca”, sentencia Sabal a si mesma, mas seus pensamentos surgem como a voz de sua mãe.

Sabal abre os olhos, não há ninguém na barraca. Apenas ela, seus pensamentos e um pequeno ídolo de Lolth. Qual Lolth? A Do’Urden não pode ser a deusa encarnada, pois negligencia aspectos importantes da natureza da Rainha das Aranhas. “Por que Lolth não a puniu até agora por sua heresia?”, se pergunta a clériga. Talvez suas respostas estejam certas, a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos pode ter planejado algo para a falsa-deusa e seus seguidores.

A clériga volta a fechar os olhos para começar a meditação. Nesses últimos tempos a verdadeira Lolth está em silêncio. Sabal não consegue contatá-la, ou melhor, contatar seus servos. Nem consegue comungar com sua deusa através das magias divinas que essa costumava canalizar pelo corpo de suas clérigas. Mas a fé ainda está em seu coração, e Sabal não pretende desistir.

Aos poucos sua mente entra em transe, tentando alcançar um plano superior de consciência para se comunicar com sua divindade. Nada. Apenas silêncio e vazio. Respirando fundo e soltando o ar lentamente pela boca, Sabal se concentra novamente. Sua consciência se expande aos poucos, seus sentidos parecem se ampliar. Dessa vez ela não se sente sozinha, o vazio parece ter se dissipado e uma voz feminina é ouvida ao fundo, de forma indefinida. A clériga se concentra ainda mais para tentar entender o que sua deusa está tentando lhe dizer. Aos poucos a voz parece estar se tornando mais e mais compreensível. Como um soco no estômago Sabal abre seus olhos ao escutar a voz de Lolth Do’Urden em seus ouvidos: “Nós não somos diferentes”.

Com a respiração arfando e as mãos tremendo, a ex-Dyrr olha ao seu redor. Para sua surpresa quem está lá não é a Do’Urden, mas Stongest, com um pequeno goblin ensangüentado no colo. Stongest e Quiri possuem alturas semelhantes, mas pela massa muscular de Stongest, Quiri parece bem menor.

– Stongest? Por que o trouxe para cá? – pergunta Sabal ainda assustada.

– Po’que ele é um de nós. Te’ uma mo’te jogado na ‘ua não é uma mo’te digna de um i’mão de Fé. – responde Songest como se estivesse dizendo o óbvio – T’ouxe ele pa’a você sac’ifica-lo e ele se uni’ a deusa.

– Ele ainda não está morto? – pergunta a clériga vendo o estado deplorável em que se encontra o mirrado goblin.
Quiri está desacordado e com a respiração lenta. Um imenso corte abriu algo como se fosse uma boca em seu estômago, que Stongest parece ter costurado para que ele não morresse no local do incidente. Um dos braços do pequeno goblin estava semidecepado, e novamente Stongest conseguiu retardar a morte de seu “irmão de Fé”, fazendo um torniquete acima do grande corte.

– Não. – responde Stongest secamente.

– Você está trazendo risco ao culto. Uma péssima atitude de um guardião. – censura Sabal com um olhar sério – Ele é descartável. Não precisava ter trazido ele pra cá.

– Já disse que não o t’ouxe pa’a cu’á-lo, mas pa’a da’-lhe uma mo’te mais digna.

– E acabar com o segredo do culto? – pergunta Sabal alterada.

– Não esta’emos mais aqui quando alguém consegui’ encont’a’ uma t’ilha. – responde Stongest a encarando – Todos somos desca’táveis, Sabal, mas nem po’ isso vi’amos as costas uns pa’a os out’os. Se você não quise’ matá-lo ‘itualmente, eu mesmo fa’ei.

Sabal encara o meio-goblin-meio-algo sem compreender direito o que está ocorrendo. “Por que se preocupa tanto com a forma pela qual ele vai morrer?”, se pergunta confusa.

– Mesmo sem entender o que leva você a querer isso, Stongest, eu farei o sacrifício. – diz a clériga.

– Cla’o que você ainda não entende. – diz o guardião ajeitando o pequeno goblin perto do ídolo de Lolth, e preparando algumas ervas que o farão retomar a consciência.

– Se você se preocupa tanto com ele, por que não me deixa curá-lo? Você sabe que eu tenho uma varinha de cura. – retruca Sabal.

– Po’que ele se sac’ificou pa’a p’otege a imagem de nossa deusa. Tudo o que ela ‘epesenta. Não pe’miti’ que ele mo’a é ti’a’ dele toda sua satisfação po’ te’ se sac’ificado po’ aquilo que ele ac’edita. – responde Stongest.

– Então por que você não o deixou lá? – pergunta Sabal achando a resposta do meio-goblin completamente ilógica.

Stongest termina de preparar a loção para Quiri recobrar a consciência, e começa a preparar outra loção para que esse não sinta muita dor nos locais feridos.

– Po’que ele ainda não comp’eendeu. Como você. Pa’a ele Lolth é algo fo’a dele, esse é o momento de fazê-lo senti’ o que Lolth ‘ealmente é. – responde Stongest, de forma séria, mas tranqüila, à sua colega.

Sabal o observa um tanto irritada, pois sabe que o guardião ainda não confia tanto nela quanto ela gostaria. Sempre que esse assunto entra em pauta, a clériga se sente inferiorizada pelo meio-goblin, o que fere seu orgulho drow.

– Você é capaz de faze’ isso? – Stongest desafia Sabal.

Sabal o encara com raiva.

– Com certeza mais capaz do que você. – responde a clériga.

– Ótimo. – diz Stongest sorrindo e finalizando a segunda poção, que ele passa nas feridas do mirrado goblin.

Sabal observa a cena. Ao ver o meio-goblin-meio-algo passar a loção em seu “irmão”, a imagem de Mariv volta em sua mente. “Se a Do’Urden estivesse em meu lugar, ela o teria convencido a vir junto. Ele não precisaria estar morto”, comenta a si mesma. Um sentimento de repúdio a esse pensamento surge em seu peito, “Como você pode estar se tornando tão fraca?!”, repreende-se a clériga.

– Qui’i? Você está me ouvindo? – pergunta Stongest.

O pequeno goblin sorri ao ver o guardião e balança afirmativamente a cabeça. A dor que ele está sentindo é mínima, ignorável.

– Você está p’epa’ado pa’a se junta’ a deusa? – pergunta novamente Stongest, recebendo outra resposta afirmativa com a cabeça.

O meio-goblin se vira em direção a Sabal e solta um curto e baixo rosnado: “Você sabe o que fazer”.

A clériga se aproxima lentamente do pequeno goblin e sente um nervosismo tomar conta de seu corpo. Ela olha para Stongest, que a está encarando. Seu orgulho retorna: “Eu sei o que fazer”, comenta consigo.

– Quiri, você agiu corretamente ao defender nossa deusa, mas perceba que não foi Lolth que você defendeu, e sim a todos nós. Lolth é você, meu irmão. – diz Sabal sem saber julgar se ela estava mentindo ou dizendo a verdade.
Quiri sorri para ela. A clériga crava o punhal de sacrifício no peito miúdo do goblin, que vira seu rosto em direção ao pequeno ídolo de Lolth, e mais uma vez seu sorriso se abre e seus olhos se fecham tranqüilamente enquanto a clériga retira o pequeno coração e o corta em dois, banhando o ídolo com o sangue do goblin.

Sabal fica perplexa com a reação do goblin e encara o corpo inerte.

– Ago’a você ‘ealmente está em nós, i’mão. – diz Stongest curvando-se em direção ao corpo.

A clériga vira-se em direção ao meio-goblin com uma feição curiosa.

– O que você passou nele para não sentir dor?

– Anestesiei apenas os fe’imentos. Ele sentiu tudo o que você fez a ele. – responde Stongest olhando para a porta – Mi’ka e G’omsh chega’am.

Olhando estática para o robusto goblin, ela escuta a porta se abrir e alguns passos de seres entrando. “Você é louco, guardião”, pensa a ex-Dyrr sentindo o vazio retornar ao seu peito, “Espero que um dia eu consiga fazer parte dessa loucura”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 5)

Em uma imensa caverna com vários túneis de acesso, um orog magro, de ossos grandes e com muitas cicatrizes, se encontra meditando próximo a um imenso lago. Folkyr sabe o quão artificial é aquele local e sabe o que foi capaz de criá-lo, mas isso não o intimida. Afinal de contas, o feiticeiro orog já tratou com centenas de demônios e diabos, e atualmente serve de clérigo para um dos que mais o impressionou: Shormongur.

Com os olhos amarelados fixos na água, Folkyr reflete sobre os planos de seu senhor, sabendo que dentro daquele lago artificial o Grande Ancião está refletindo sobre seus próprios planos. Não há como não ter respeito pelo Grande Ancião, afinal foi ele quem abriu os olhos de todos os que participarão do imenso ritual. Foi ele quem conseguiu a aliança com Shormongur e seus seguidores.

Folkyr encerra sua meditação com uma oração ao poderoso demônio. Ele sente que um de seus irmãos de fé está chegando à imensa caverna e, ao fim de sua oração, o orog se levanta e vira para a direção de onde surge um humano sujo e de feições duras.

– Malazir, como estão as preparações? – pergunta o orog a seu irmão de fé.

– Estão caminhando bem, Folkyr. – responde o humano, analisando como sempre seu companheiro orog que divide muitas características em comum consigo: o cabelo comprido e sujo e extremamente embaraçado, pele oleosa com sebos e fungos aparecendo nas linhas de dobras de seu pescoço e de seus braços – Tenho grandes expectativas a respeito de nosso sucesso, porém temos que ser pacientes.

– Sim, compreendo isso. Zaknafein deveria compreender melhor a importância da paciência em nosso trabalho atual. – diz o orog, virando-se em direção ao lago. – Ele virá hoje?

– Creio que não. Ele não dispõe de todo o tempo para dedicar-se a nossa causa diretamente. Seu papel de agente duplo dentro da Casa Xorlarrin requer cautela e dedicação em tempo integral. – responde o mago humano, se aproximando do lago ao lado de seu irmão.

– Imagino. Se ele não fosse filho do próprio Shormongur, eu não confiaria muito naquele híbrido.

– Idem.

Ambos ficam um tempo em silêncio enquanto observam as águas escuras e paradas do grande lago artificial. Folkyr não se espanta por Malazir conseguir enxergar na total escuridão, pois conhece muito bem as capacidades arcanas de seu irmão.

No fundo do lago é perceptível uma imensa sombra do que parece ser uma serpente começando a se mover.

– Ele está vindo. – diz Malazir.

– Sim. E o drider também está chegando. – complementa Folkyr, olhando na direção de onde ele sabe que a abominação aparecerá.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 4)

Como uma casa menor, os Teken’Th’Tlar sempre buscaram o maior número de alianças possíveis e sempre conseguiram mostrar sua utilidade. Por ser uma casa de eruditos, suas artimanhas sempre foram extremamente sutis. Com as aranhas, aracnídeos e derivados sendo suas principais fontes de estudo, os Teken’Th’Tlar se identificam em muito com esses seres. Suas “armadilhas” são meticulosamente preparadas e as tramas de suas teias são extremamente bem trabalhadas. Quando atingem um inimigo, eles são rápidos, certeiros e mortais. Como moscas, os companheiros daqueles que caíram em suas tramas e armadilhas não percebem o que atingiu seu antigo companheiro, e acabam caindo também nas teias dessa pequena Casa.

Com todas essas características, alguns membros dela se perguntam o porquê eles não são uma das Casas Maiores de Menzoberranzan. Os grandes líderes Teken’Th’Tlar sabem a respostas: eles são aranhas pequenas. Por mais astutas, inteligentes e meticulosas que sejam, sua casa ainda é como uma pequena caranguejeira perto de Aranhas-Gigante, Aranhas-Espada, Aranhas-de-Fase. Todas suas artimanhas até o momento foram apenas contra presas menores, nunca contra outros predadores tão bem dotados. Segundo a percepção da Matrona Maya Teken’Th’Tlar, “as coisas continuarão assim até conseguirmos acumular conhecimento e oportunidades suficientes para virar a mesa. Não importa o quanto isso demore”. Porém nem todos concordam com essa visão.

Riklaunim Teken’Th’Tlar, o maior mago da Casa uniu outros que discordavam dess perspectiva e formaram uma sociedade secreta dentro da própria Casa. Até o momento, eles não planejam usurpar o poder da Matrona Maya, ou transformar a Casa de maneira drástica, apenas pretendem “acelerar um pouco as coisas”. Essa pequena sociedade secreta não é sexista, porém, entre as fêmeas, nenhuma é puramente clériga. A feiticeira Akordia Teken’Th’Tlar é a segunda no comando dentro da sociedade auto denominada Teias Arcanas. Logo após Akordia estão Jabor e Eclavdra, como principais planejadores. Os outros apenas dão suas opiniões e colocam em ação o que foi decidido pelo conselho principal.

Essa hierarquia não é rígida. Uma fêmea ainda é uma fêmea. Mesmo que Riklaunim esteja no topo da organização, ele não tem nenhum poder sobre Akordia, porém essa reconhece a capacidade intelectual e conhecimentos arcanos do principal mago da Casa e o respeita por isso.

Muitas ações da Casa sofreram influência da Teias Arcanas, mas até o momento, por ser uma sociedade ainda nova, nenhum ato foi decisivo ou criou alguma grande oportunidade para os Teken’Th’Tlar crescerem. Entretanto, há pouco tempo algo inesperado ocorreu para esses conjuradores: um Teken’Th’Tlar caiu nas graças de uma Casa Maior. Sol’al chamou a atenção de um dos professores de Sorcere da Casa Xorlarrin, que já possuía uma pequena relação com a casa menor.

Orghz Q’Xorlarrin manteve contato com Jabor Teken’Th’Tlar durante e depois da estadia de Sol’al em Sorcere. Em suas cartas, o Mestre Q’Xorlarrin era enfático:

            “Caro Jabor,

            Mantenha sempre esse jovem mago em movimento. Faça-o crescer em conhecimento e poder. Mantê-lo apenas focado em seus livros não desenvolverá todo o seu potencial, que ao meu ver é imenso.

            Teste suas capacidades. Quando ele se tornar o mago que vejo nele, nossas Casas terão muito a ganhar.

            Atenciosamente,

            Mestre Orghz Q’Xorlarrin do Sorcere

            Evocador e Conjurador da Casa Maior Xorlarrin”

Jabor viu uma grande oportunidade de estreitar a relação entre os Teken’Th’Tlar e os Xorlarrin, e após alguns meses do retorno de Sol’al a sua Casa, ele o tomou como discípulo pessoal. Nem todos da Teias Arcanas concordavam com a atenção que um de seus maiores estrategistas estava dedicando a um mago “fraco e covarde”, porém Jabor mantinha seus motivos escondidos e prosseguia com um treinamento distante, mas intenso.

Em dois anos, Sol’al, a mando de seu superior, ajudou na escolta de Casas Mercantes até a superfície. Nos períodos que passou fora do Underdark, seu estudo a respeito de aranhas se estendeu. Mesmo com todo o desconforto causado pelo Sol, ele se sentiu excitado com a possibilidade de aumentar ainda mais seus conhecimentos a respeito de aracnídeos, em específico: aranhas. Sol’al conhecia muito da fauna do Underdark, mas pouco das aranhas que vivem na superfície. Além disso, com esse contato com as Casas Mercantes, Sol’al desenvolveu ainda mais seu repertório de magias e, ao constatar a grande ligação destrutiva entre fogo e teia, passou a desenvolver um certo prazer em utilizar evocações ígneas.

Aos poucos, Sol’al conseguiu mascarar mais equilibradamente suas forças e fraquezas. Ainda achava mais gratificante a subestimação da maioria, porém agora ele era cada vez mais uma figura pública e, para ganhar certo respeito, precisava demonstrar o mínimo de suas capacidades. Alguns mercantes, com seus hábitos de apelidar indivíduos tendo em vista suas capacidades, apelidaram Sol’al de “Teias Flamejantes”, mas esse não era um título que o jovem Teken’Th’Tlar resolveu levar para sua Casa.

Entre viagens a superfície e retornos a Menzoberranzan, houve também viagens internas no Underdark. Durante essas viagens, eles tiveram de passar próximo a Yathchol, a grande vila de chitines ao sudeste de Menzoberranzan e ao norte de Ched Nasad. Lá, com muito esforço e alterando um tanto os planos dos mercadores drows, Sol’al conseguiu capturar uma choldrith, uma das clérigas dos chitines. Pelo que conseguiu perceber, a clériga não era poderosa e sim uma iniciante, mas já era válido para iniciar seus estudos. Em sua Casa não havia Choldriths capturadas, ele estaria levando a primeira. “Não. Eu não estou levando. É um presente dos mercadores” se autocorrigiu Sol’al.

Foram dois anos intensos de viagens, descobertas, treinos e desenvolvimentos práticos de suas magias. Teve contato com diversas das raças inferiores, mas nenhum drider. Mesmo assim, várias coisas o impressionaram, entre elas contatos relâmpagos que ele teve com alguns vermim keepers e as capacidades deles de conjurar e controlar insetos, aracnídeos e outros invertebrados.

– Como foram esses dois anos longe de sua Casa, Sol’al? – pergunta Jabor dois dias depois do retorno do jovem mago.

– Gratificantes, Mestre. – responde o jovem se curvando apenas o necessário para mostrar respeito.

Sorrindo, Jabor pega alguns pergaminhos em uma das gavetas de sua escrivaninha e os entrega a Sol’al, que os aceita sem esconder sua confusão.

– Isso é para sua próxima viagem. – Jabor abre outra gaveta de sua escrivaninha e retira um pequeno tomo – Os relatórios dos mercadores a seu respeito foram muito prazerosos de serem lidos. Elogiaram bastante suas capacidades e demonstraram muito respeito à sua pessoa.

– Mas eu nem demonstrei toda minha capacidade, Mestre. – interrompe Sol’al.

– Imaginei. O que me agrada ainda mais. Por isso tomei a liberdade de anotar algumas magias que poderão lhe auxiliar futuramente nesse tomo. Pegue-o, copie e estude o que há nele.

O Mestre Teken’Th’Tlar empurra o tomo para a borda da escrivaninha onde Sol’al está próximo. O jovem mago mantém sua feição confusa e depois de alguns instantes olhando para o tomo, o pega.

– Para onde será a próxima viagem, Mestre?

– Você acompanhará um grupo de reconhecimento às regiões profundas do Underdark, por motivos de estudos e coleta de dados para planejamentos futuros de uma possível campanha contra a cidade de Ch’Chitl. É tudo o que você precisa saber no momento. – diz Jabor sorrindo – Prepare-se, pois a viagem é extremamente perigosa e a missão não é das mais tranqüilas.

Um pequeno arrepio trespassa o corpo de Sol’al. Ele conhece histórias aterrorizantes a respeito das “regiões profundas do Underdark”, mas sua curiosidade é bem maior que qualquer temor que possa lhe atingir. Sol’al começa a sentir a excitação aumentar:

– O grupo será formado por membros de qual Casa Mestre?

– Apenas Casas Menores e mercenários, mas estamos a mando das Casas Mizzrym e Xorlarrin.

Sol’al sorri, um tanto nervoso.

– Da nossa Casa apenas eu estarei no grupo? – pergunta preocupado.

– Não. Eu também irei. Assim poderei lhe introduzir nas artes da Aracnomancia. – Jabor levanta de sua cadeira antes de encerrar a conversa – Você terá uma semana para se preparar.

Sol’al sorri e, com grande ansiedade, cumprimenta seu superior.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 2)

Enquanto Alak prepara os óleos que ajudarão a manter suas novas espadas resistentes às ações do tempo, Azirel limpa as duas patas dianteiras de seu falecido companheiro Aranha-Espada, Vazmaghor, purificando-as com o poder da terra. Foi difícil para os dois encontrarem o pequeno Nodo de Terra, mas em momento algum eles desistiram de seu objetivo. Vazmaghor morreu durante uma enorme e difícil batalha entre drows e trogloditas próximos a uma estação mercante importante para Ched Nasad e, conseqüentemente, importante para Menzoberranzan. Alak não se recorda do nome da estação, mas isso pouco importa para ele no momento.

A batalha foi brutal, Vazmaghor demonstrou ser um adversário terrível aos trogloditas, mas o número deles era bem maior que o exército drow. A grande Aranha-Espada acabou cercada e mutilada pelos seus adversários. Enquanto isso ocorria, Alak estava totalmente tomado pela excitação do momento. Era sua primeira grande missão como mercenário e a adrenalina fez sua cabeça e seu coração pulsarem em uníssono. Muitas vezes ele quase perdeu a classe e a técnica que tanto custaram para aprender. Mesmo assim o “discípulo do Eremita”, – como os Bregan D’Aerthe passaram a chamá-lo -, surpreendeu muitos descrentes com suas técnicas de combate e de rastreamento.

Em um certo momento os trogloditas perceberam que estavam em desvantagem, não numérica, mas tática, e bateram em retirada levando algumas mercadorias e itens mágicos roubados. Foi Alak, supervisionado por Azirel, que os caçou e recuperou os objetos sem entrar em confronto novamente com os reptilianos. Quando esses perceberam a “perda” dos itens inflaram em fúria, porém sabiam que não tinham condições de recuperar o território que lhes era de direito. Assim tiveram que conter toda sua ira até o momento oportuno.

Os trogloditas gastaram um bom tempo se preparando para uma nova investida. Foram-se dias para que eles tentassem novamente, mas agora a situação havia piorado. Em seu tempo de planejamento e reestruturação – ou o mais próximo que eles podiam chegar disso – os mercenários prepararam emboscadas e o reforço drow chegou de Ched Nasad à estação mercante.

A caminho de seu novo ataque, eles perceberam que não poderiam ir pela rota que utilizaram para fugir, pois essa se encontrava cheia de armadilhas extremamente bem preparadas. Tiveram que morrer cerca de dez batedores para que eles percebessem a inutilidade de tentar prosseguir por aquela trilha. Assim, tomaram uma outra rota, um pouco mais demorada, mas aparentemente menos preocupante. Toda aquela calmaria começou a preocupar os líderes xamãs dos reptilianos, mas quando a preocupação realmente os atingiu já era tarde demais.

Sua retaguarda estava cercada por mercenários drows e alguns de outras raças. Durante a batalha os trogloditas foram obrigados a seguir em seu caminho e acabaram se deparando com o exército de drows e escravos que estava protegendo a estação. O massacre foi imenso. Alak e os mercenários sabiam que precisavam apenas finalizar o serviço e retornar para o Bazaar de Menzoberranzan para receber a soma que lhes havia sido prometida. O problema era que o serviço para o qual foram ocntratados não era tão fácil dentro de uma batalha tão grande e caótica.

Alak trocou olhares breves com Azirel, pois não sabia como no meio daquela carnificina, aprisionar os trogloditas mais saudáveis e levá-los escravizados para Menzoberranzan antes que a batalha terminasse e os escravos fossem levados para Ched Nasad. Os Bregan D’Aerthe faziam sua parte com extrema perícia, porém Alak precisava demonstrar seu valor. Era isso que Azirel queria quando ofereceu sua ajuda e a ajuda do seu discípulo à guilda de mercenários.

A troca de olhares fora infrutífera. Azirel não deu nenhuma dica e simplesmente sumiu dentro de um foco caótico de combate. Alak continuou lutando até que, ao observar Brum – um ogro mago mercenário, também a serviço dos Bregan D’Aerthe, com o qual Alak tinha uma grande afinidade – teve uma idéia simplista, mas era tudo naquele momento.

– Brum! – gritou o drow para chamar a atenção do gigante.

Quando esse olhou, Alak fez um sinal com a mão como se pedisse para o ogro fazer um corte em algo finalizando em uma “explosão”. Brum entendeu de imediato o que o drow queria dizer. O gigante agarrou firmemente as correntes das quais pendiam suas clavas de pedra e desferiu um golpe com suas duas armas, que formou uma circunferência quase completa de nove metros de diâmetro. Aquele ataque varreu todos os trogloditas da proximidade e alguns drows que não conseguiram escapar a tempo. Aquela explosão de força acabou chamando a atenção da batalha para aquele local. Enquanto os trogloditas atingidos tentavam se levantar, outros começaram a atacar o ogro, enquanto os drows não sabiam se atacavam os inimigos distraídos ou deixavam eles darem cabo no ogro – que afinal era outra ameaça aparente – para depois cuidarem do que restasse. Para Alak, o importante daquilo tudo era que Brum havia chamado atenção o suficiente para ele agir.

Sem muita demora, e percebendo que a maioria dos mercenários já haviam ido embora, Alak observou rapidamente o campo de batalha para encontrar alguns trogloditas que demonstrassem saúde e resistência para servirem como bons escravos. Encontrou dois. O primeiro ele não teve dificuldade para derrubar, porém o segundo lhe feriu bastante antes que ele conseguisse atordoá-lo e amarrá-lo em uma corda de teia que sempre carregava consigo. Agora vinha o segundo problema: Alak, mesmo sendo grande, sempre foi ágil e preciso, mas nunca foi forte. Carregar dois trogloditas seria complicadíssimo.

Percebendo que Brum havia fugido em uma espécie de fúria pela sobrevivência, Alak ficou ainda mais perdido. Não havia Brum nem Vazmaghor para carregar aqueles dois. Observando novamente o ambiente, ele viu um lagarto de montaria que estava perdido de seu patrulheiro. Correu até o lagarto e pulou sem sua cela. Com um pouco de dificuldade para guiá-lo, pois esse estava bastante estressado pelo ambiente de combate, Alak conseguiu aproximá-lo de seus dois prisioneiros. Saltando ao chão, Alak não conseguiu impedir a tempo que o lagarto de montaria devorasse um braço do troglodita desmaiado, que logo acordou aos berros. “Merda!”, praguejou Alak a si mesmo, mas não perdeu tempo choramingando. Colocou seu prisioneiro amarrado nas costas do lagarto de montaria e subiu na cela partido o mais rápido possível antes que os berros do outro troglodita chamassem atenção suficiente.

Ao fim de sua primeira grande missão, Alak não havia ficado feliz. Muitos erros foram cometidos e seu Mestre estava pesaroso com a perda de Vazmaghor. Porém, os Bregan D’Aerthe ficaram satisfeito com o desempenho do “discípulo do Eremita”, e isso foi o suficiente para Azirel ter algum contentamento; o suficiente para querer presentear Alak.

Azirel termina a purificação e inicia alguns cânticos invocando a magia natural que irá tornar as patas de Vazmaghor ainda mais letais do que eram quando esse ainda estava vivo. Durante a invocação, Alak despeja cuidadosamente os óleos sobre as patas e com sua própria mão os espalha por toda extensão de suas novas espadas.

Uma forte energia vinda da terra começa a ser sentida pelo esguio mercenário enquanto esse ainda esfrega os óleos. Os cânticos de Azirel começam a aumentar a potência e sua voz torna-se mais grave. A pata começa a esquentar. Alak afasta sua mão quando sente as primeiras queimaduras se formarem. Azirel se aproxima e toca as patas incandescentes, que começam a esfriar visivelmente e tomar uma aparência mais metálica. Por alguns instantes Alak pensa que seu Mestre transformou as patas de Vazmaghor em espadas de metal, mas logo esse pensamento foge de sua mente quando as patas começam a voltar a sua aparência normal. Azirel emite alguns cânticos sussurrados finalizando o processo.

– Pronto. Agora falta apenas forjar um cabo equilibrado para suas novas espadas. – diz o velho eremita a seu discípulo.

Alak ainda impressionado o observa antes de por em voz alta a única questão que está em sua mente:

– Quando você vai me ensinar isso?

– Nunca. – responde rápida e secamente o velho eremita – Esse segredo morrerá comigo. Ensinarei-lhe coisas que lhe serão mais úteis do que transformar as patas do seu companheiro em armas.

Contrariado, Alak fica em silêncio e ajuda seu Mestre a terminar o trabalho. “O que mais meu Mestre conhece?”, se pergunta curiosamente o discípulo.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 1)

Zaknafein Q’Xorlarrin caminha de um canto para o outro em uma crípta nas cavernas próximas a Menzoberranzan. Sua grande juba branca balança acompanhando o movimento inquieto de seu corpo enquanto balbucia algumas palavras de raiva e descontentamento. As suas duas mãos menores se esfregam enquanto as grandes garras das patas maiores tocam no chão como se ele fosse um quadrúpede. É perceptível a fúria controlada em seus olhos.

– Desculpe a demora Zaknafein, surgiu um imprevisto no caminho. – diz um humano de manto vinho e preto, com feições duras, cabelos desgrenhados e sujos.

O draegloth bafeja em sua direção, com seus afiados dentes a mostra. O humano respira o ar fétido sem nem mesmo distorcer seu rosto.

– Sua demora pouco me importa! O que não agüento mais são aquelas chupadoras de aranhas! Quando eu poderei virar as costas para a Puta dos Fossos Demoníacos?!

– Calma! Tudo tem seu tempo. Tenha paciência, não podemos acelerar nada. O que estamos fazendo é um assunto delicado, qualquer atitude imprudente levaria tudo ao chão. – diz severamente o mago sem alterar sua feição, apenas seu olhar.

Com uma respiração forte, como se estivesse tentando se acalmar realmente, Zaknafein encara o mago por alguns instantes, até virar as costas que carregam marcas do flagelo das clérigas da Casa Xorlarrin.

– Sabe o quanto eu tenho que me segurar para não matá-las a cada vez que elas fazem isso?

– Agüente mais alguns anos, Zaknafein, e…

– ALGUNS ANOS??? – o draegloth interrompe o mago humano com um surto de raiva, atingindo um golpe na parede da cripta que deixa uma marca profunda.

– A pedido de seu pai. – complementa o mago mantendo a dura expressão em seu rosto.

Enquanto o draegloth controla sua respiração para se acalmar, o mago prossegue.

– Como anda a formação do exército?

Zaknafein o encara novamente, já com o olhar mais calmo, porém ainda cheio de ódio.

– Estou conseguindo unir vários orcs. Eles serão extremamente úteis em nossos objetivos. Estão dispostos a servir meu pai e se rebelarem contra as chupadoras de aranha. Só não sei se conseguirei segurá-los por “anos”. – responde o draegloth olhando severamente o mago humano.

– Mas assim deve ser. Deixe que alguns desses orcs escapem para formar comunidades fora de Menzoberranzan e esperem o momento em que você os liderará para a glória que é servir ao seu pai. – nesse momento o humano esboça um sorriso gratificante em seu rosto duro.

– Não creio que será muito difícil de fazer isso. Muitos desses orcs são veteranos e me disseram a respeito de um antigo plano de fugir de Menzoberranzan para formarem uma tribo e sobreviverem sozinhos. Na época eles serviam um campeão de Gruumsh, mas esse foi assassinado e o plano não foi em frente. – Zaknafein dá uma pausa e sorri mostrando seus caninos pontudos – Se eu auxiliá-los, eles saberão o que fazer.

O mago se vira e caminha para a entrada da cripta de onde veio.

– Ótimo. Apenas seja cauteloso.

– Sou um clérigo espião dentro de uma das grandes Casas de chupadores de aranhas de Menzoberranzan. Eu sou cauteloso. – responde secamente o draegloth.

Confirmando com um aceno de cabeça, o mago começa a caminhar para fora da cripta.

– E quando falaremos com o tal Drider? – pergunta Zaknafein.

– Em breve. Mais rápido do que imaginei. – responde o mago.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 2 (Parte 5)

Um grande gnoll caminha até outros de sua raça que o encaram como algo extremamente indesejável.

– O que faz aqui traidô! – um dos mais exaltados pergunta apontando um machado de mão para o visitante.

– Infelizmente ceis sabem dimais. Vim dá a última chance do ceis se juntar a minha deusa.

Alguns gnolls gargalham enquanto outros urram feitos animais selvagens. O grande gnoll apenas os observa com seu halbert preparado.

– Nunca! O que você pretende fazer em relação a isso, chupador de aranhas? – responde o gnoll exaltado, indo em sua direção com a machadinha levantada.

O grande gnoll o encara e caminha em sua direção, quando o seu oponente desfere o golpe com a machadinha ele bloqueia com o cabo do halbert, gira seu corpo desarmando o gnoll atacante e finaliza o giro cravando a ponta do halbert no peito de seu adversário.

Sangue jorra pela boca o gnoll ferido que sente quando Gromsh retira o halbert de seu peito. Os outros gnolls que observam se enchem de fúria e atacam Gromsh. O grande gnoll dá alguns passos para trás, pois sabe que não seria capaz de vencê-los sozinho.

Mas ele não está sozinho.

Atrás da pequena turba ouve-se um grito e dois gnolls caem ao chão. Para surpresa dos atacantes eles vêem um goblin robusto de orelhas compridas e feições finas que, com dois machados em punhos, derrubou os gnolls que se encontravam na retaguarda do grupo.

Alguns partem para atacar o goblin, outros se viram novamente para Gromsh, que não perde tempo e os ataca. O massacre é inevitável. Gromsh sofre alguns ferimentos, mas não para em nenhum instante de atacar seus adversários. Stongest, por ser o veterano do grupo, não sofre nenhum ferimento e mata seis gnolls sem muitos esforços.

Percebendo a desvantagem na qual se encontram, alguns que restam do grupo de gnolls tentam fugir. Dois conseguem chegar até a porta, mas são paralisados por um globo de luz azul. Stongest se aproxima do gnoll.

– Tente entendê’. Não é nada pessoal, mas você não pode vivê’ sabendo o que você sabe. – diz o goblin bem próximo do gnoll, o atingindo com seu machado em um ponto vital.

O gnoll tenta urrar, mas não consegue. Percebendo que não foi suficiente seu golpe, Stongest apenas fala ao ar:

– Mirka, finaliza esse.

De um dos becos do Braeryn surgem dois mísseis mágicos que atingem o gnoll na cabeça, que é torrada pela energia mágica. O gnoll cai morto no chão.

– P’onto. Tá feito. Tome mais cuidado da p’óxima vez G’omsh. Isso tudo pode chamá’ atenção pa’a nós. – diz o goblin em tom severo ao grande gnoll que está estancando alguns ferimentos com pedaços de trapos retirados das vestimentas dos adversários mortos.

– Não se preocupe. Não deixarei escapar novamente. – responde Gromsh abaixando a cabeça em sinal de vergonha.

– Então vamos embo’a. Mi’ka, pode volta’ a se’ visível. – do beco de onde saíram os mísseis mágicos aparece uma pequena kobold que caminha em direção aos seus companheiros e apenas diz:

– Por Lolth.

– É Mirka. Por Lolth. – concorda Gromsh.

O grupo caminha até próximo ao templo, onde se dispersam deixando Stongest sozinho. Cada um deles ainda vive com suas determinadas raças no Braeryn, pois assim chamam menos atenção ao seu culto secreto. Stongest sempre foi sozinho, então não surpreende ninguém que ele proteja a velha drow Vishnara. E quanto a Lolth, ninguém sabe que ela vive por ali, a não ser seus seguidores e alguns dos que morreram por suas mãos.

– Stongest. Aconteceu. Precisamos nos livrar do corpo. – diz uma voz feminina extremamente familiar para o meio-goblin-meio-algo.

– Não se p’eocupe Lolth. Não se’á difícil sumi’mos com o co’po de sua mãe. – algo próximo a um sorriso esboça-se em seu rosto – Ótimo que ela tenha mo’ído po’ suas mãos.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 2 (Parte 4)

“Não compreendo como os Driders podem ser considerados amaldiçoados se Lolth lhes dá tanto poder. Não seria sua existência uma forma de servir nossa deusa?”, reflete Sol’al enquanto observa um chitine que se encontra aprisionado em uma cela no pequeno palácio da Casa Teken’th’tlar. “Esses seres são tão patéticos e ainda assim são abençoados pela Rainha das Aranhas” seu olhar demonstra total desprezo pela criatura dentro da cela “Qual será o segredo que os Driders guardam? Não me parece que ao falharem no Chwidridera, Lolth os tenha virado as costas”.

Sol’al caminha até a porta para se retirar daquele recinto. Faz dois anos que ele deixou o Sorcere para retornar a sua Casa. Assim que chegou, não perdeu um segundo sequer e retomou seus estudos específicos a respeito de aranhas e seus “derivados”. O enigma dos Driders ainda atiçava sua curiosidade. “O que guia as ações de um Drider?”, “Até que ponto o ódio que eles sentem é superável?”, “Lolth ainda se comunica com eles?”, eram pensamentos constantes na mente do recém mago adulto da casa Teken’th’tlar. Pelo máximo que o tenham criado para odiar os Driders, vê-los como fracos e falhos, ou até mesmo como uma grande piada feita pela Rainha dos Fossos Demoníacos, Sol’al não conseguia ter nada além de fascinação por aqueles seres.

Desde seu encontro pessoal com um Drider, onde ele viu o olhar vidrado daquele ser, o fascínio apenas cresceu em sua mente. Saindo do recinto, Sol’al caminha até seu quarto onde se dirige imediatamente a sua escrivaninha para poder escrever todas suas reflexões em um de seus tomos. Aquele tomo no qual apenas anotações a respeito dos Driders são feitas. O tomo que se for encontrado poderá custar-lhe a vida por heresia.

O mago põe-se a escrever por horas a fio. Faz anotações a respeito de suas dúvidas, reflexões, estudos e veneração pelos amaldiçoados. Em sua mente seu fascínio conflita com sua educação drow e até mesmo isso é anotado. Para ele há algo errado, não que saiba exatamente o quê, mas há!

Ao terminar, Sol’al esconde seu precioso tomo e caminha para a biblioteca a fim de fazer mais estudos.

– O que temos aqui? O jovem erudito está caminhando pelos corredores ao invés de ficar trancafiado em seu quarto? – diz uma mulher drow que se veste com um manto que denuncia sua posição de feiticeira dentro da Casa e que está acompanhada por um mago macho bem conhecido por Sol’al como sendo um dos principais magos de sua Casa: Jabor.

– Estou apenas indo para a biblioteca, senhora. – responde Sol’al de cabeça baixa com tamanha humildade que faz o mago acompanhante da feiticeira virar o rosto de vergonha.

– Obrigado pela útil informação, criança. – diz a feiticeira com um claro tom de deboche – Apenas não se perca no meio do caminho. – conclui prosseguindo junto ao mago e disparando em gargalhadas.

– Obrigado, senhora. – Sol’al se curva mais uma vez em sua falsa, porém convincente, demonstração de humildade e respeito; afinal, ela não é uma Clériga de Lolth, mesmo sendo uma fêmea.

Após esse incidente, o jovem mago prossegue em direção a biblioteca. “É óbvio que há algo errado”, pensa ele com grande ódio pelo ocorrido, “Continue a lembrar do que lhe disse o Mestre Q’Xorlarrin, Sol’al. ‘Não demonstre demais suas capacidades, jovem. Isso acaba tornando suas fraquezas evidentes'”. Com isso surgem pensamentos a respeito de como demonstrar fraqueza pode ser uma defesa imensa a respeito de sua verdadeira força. Esses pensamentos fluem como um turbilhão até que o raciocínio o faz retomar o assunto de sempre: Driders.

“Talvez Lolth reconheça isso. Reconheça que o poder pode ser demonstrado de várias formas, ou pode ser mascarado para que ele surja no momento oportuno”, Sol’al chega à biblioteca e caminha em direção as prateleiras sobre criaturas-aranhas. “Os Driders podem ser uma grande arma nos esquemas da deusa”, pensa ele pegando livros a respeito de experiências com ettercaps, chitines e aranhas extraplanares. Ele precisa conhecer todos os possíveis derivados dos aracnídeos para compreender a natureza de um Drider, “E como um dia poderei me tornar um sem ter que decepcionar Lolth”, mas logo após esse pensamento ele balança a cabeça como se ainda considerasse aquilo uma heresia.

Sol’al abre o livro e inicia seus estudos. Reconhece várias semelhanças básicas entre a sociedade drow e a chitine, fruto do culto a mesma deusa e a terem usado a estrutura social drow como alicerce para a construção de sua própria sociedade. O jovem mago sabe que os chitines foram criados em experimentos mágicos e isso lhe agrada, porém, em sua opinião, foram experimentos que criaram uma raça fraca, débil e sem muito potencial. Ele precisa estudar uma mágica mais potente para criar os Driders como uma raça que se procriasse e desenvolvesse sociedades. Ou talvez apenas modificar os existentes, com permissão de Lolth, é claro.

– Sol’al, gostaria de falar com você. – o mago Jabor interrompe os estudos e as reflexões de Sol’al que o olha um tanto atordoado, como se estivesse voltando de outra realidade.

– Claro, Mestre. No que posso ser útil? – responde o jovem mago se curvando e falando com voz extremamente baixa, como se estivesse em um templo de Lolth falando com uma clériga.

– É exatamente sobre isso que quero falar. Não exagere no seu papel de humilde ignorante. – Sol’al levanta a cabeça para olhar diretamente no rosto de seu superior com uma feição perdida – Você sabe do que estou falando. Cuidado para não mostrar fraqueza além do necessário, isso pode colocá-lo em grandes problemas.

Sol’al continua olhando para Jabor sem nada responder, refletindo a respeito do que foi dito. Novamente ele se perde em pensamentos quando seu superior o trás de volta ao presente.

– O Mestre Xorlarrin me falou muito bem de seu desempenho no Sorcere e isso é excelente. Já tínhamos uma pequena relação com a Casa Xorlarrin, agora que ele demonstrou um certo interesse em relação a você, isso pode estreitar ainda mais as relações entre nossas Casas.

Jabor dá uma pausa enquanto Sol’al o observa.

– Demonstre apenas a humildade e fraquezas necessárias, pois você pode acabar tornando sua força muito evidente. Estarei de olho em você.

O mago se vira enquanto Sol’al apenas responde em seu tom de voz normal:

– Sim, Mestre.

A porta da biblioteca se fecha e Sol’al retoma seus estudos, refletindo ao mesmo tempo sobre tudo o que seu superior acabara de lhe falar.

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