Posts Tagged ‘ Párias ’

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 4)

            Tudo está ocorrendo perfeitamente. Enquanto estava na superfície, Lolth Do’Urden não se recordava exatamente o quão fácil era criar uma situação de intriga favorável entre membros da sua própria raça: os drows. Ela sorri vendo que a terceira investida contra os grimlocks está sendo da maneira que havia previsto. Os drows estão com grandes vantagens, porém há muitas chances dos grimlocks sobreviverem.

            Um pouco antes de partirem para a terceira investida, os exercitos se prepararam e esperaram seus líderes, que estavam atrasados. Nadal estava com uma baita dor de cabeça, resultado da bebida que havia tomado com Alystin logo após a conversa com as duas facções do exército. O mercenário não sabia o porquê dele ter agüentado tão pouca bebida, mas isso não era algo para se preocupar no momento.

Enquanto a Calimar…

            O mago foi encontrado morto por um de seus discípulos, junto ao corpo de uma drow, possívelmente uma aluna dele que também havia sumido. Quem o matou? Todos se perguntaram, mas logo Erelda tomou a liderança oficial e ordenou que Nadal comandasse o exército. Muitos dos alunos de Calimar perceberam alguma possível trama entre aqueles dois, mas nada que os fizessem ficar sedentos por vingança, afinal, agora que Calimar estava morto, muitos poderiam tentar tomar a cadeira de Mestre em Evocação que ele ocupava. Porém, havia um drow mago que não estava feliz com tudo aquilo: Guldar Khalazza.

            Logo que descobriram os corpos, a falsa Alystin foi se encontrar com o jovem mago. Ela estava em prantos, tentando esconder suas lágrimas atrás de um capuz, para que ninguém mais a visse assim, principalmente Erelda. Guldar sabia que ela era obsecada por seu irmão, e toda aquela trama óbvia havia atingido-a como uma bola de fogo. Na conversa que tiveram antes da investida começar, ela disse:

            – Vingue-nos! Mate o responsável pela morte de seu irmão e pela sedução de Erelda!

            Guldar sabia que era isso mesmo que ele deveria fazer. Nadal causou a ruptura do exército. Colocou o cerco em risco tendo matado seu irmão, o grande estrategísta Calimar. E além disso, conseguiu seduzir de alguma forma Erelda, sua Senhora, com o objetivo de ficar com as glórias da batalha.

            Lolth percebeu tudo o que ocorreu internamente com o jovem mago. Ela sabia que ele daria tudo de si para exterminar Nadal. Em suas mãos faltava apenas Erelda, a qual ela teria de esperar o cerco se iniciar para poder cocluir seu objetivo.

            A pseudo-deusa agradace profundamente os itens mágicos que conseguiu com a falecida Alystin. Ela possuía a capacidade de criar ilusões, graças a três aneis que pertenciam à verdadeira ilusionista. Foram esses itens que ajudaram em muito criação de toda a teia que ela teceu. Calimar estava morto, todos acreditavam no envolvimento de Nadal, até mesmo Erelda. Guldar deixou seu ódio pelo mercenário o guiar, enquanto Erelda percebeu uma situação na qual poderia usufruir da morte do mago líder do cerco para aumentar o prestígio de sua casa e da guilda de mercenários liderada por Nadal. Uma aliança útil, sugestão de Alystin.

            Agora Guldar está prestes a enfrentar Nadal, mas antes que isso ocorra, Lolth deve matar Erelda. Assim todos os possíveis líderes estarão mortos e isso deixará o exército sem cabeça, porém ainda forte. Alguém com certeza acabará tomando a liderança, mas até que isso ocorra, o grupo de grimlocks guiados por Braços de Adamantina já terá partido. É nisso que ela acredita.

É isso que ela espera.

            Não é tão difícil para a sedutora assassina encontrar a clériga. O momento do parto chegou. Erelda está em sua cabana com uma parteira e outra clériga de Lolth, enquanto do lado de fora, duas guardas tomam conta.

            A Rainha das Aranhas continua em silêncio, o que torna o parto ainda mais infrutífero. Se essa estivesse dando seus dons às suas clérigas, todo o sofrimento de Erelda poderia ser oferecido a deusa-demoníaca, e com certaza uma magia de imenso poder poderia ser conjurada.

            Lolth não tem muitas dificuldades para passar pelas guardas, utilizando um dos aneis de ilusão para cirar a imagem de um drow que tenta se aproximar da cabana. Tentando impedi-lo de se aproximar, as duas guardiãs abrem o espaço suficiente para a Do’Urden adentrar. Erelda grita de dor, enquanto a parteira retira a pequena cria de dentro da clériga. Um flash atinge a mente de Lolth, que se recorda do parto de seu filho, mas logo ela recobra sua concentração e age da forma mais rápida possível. A ilusão lá fora não durará muito, portanto ela sabe que deve agir antes que isso ocorra e as guardas descubram que estam sendo enganadas.

Lolth saca seu sabre – a Quelícera – e atinge a clériga, que está orando para Lolth durante o parto, com uma estocada no pescoço. Logo o poder de sua mortal arma entra em ação. Antes mesmo que essa possa gritar, seu pescoço começa a tomar uma coloração arroxeada com veios amarelos. A necrose sufoca a clériga enquanto Lolth elimina a parteira de modo mais simples e mais rápido.

            Quando Erelda entende o que está ocorrendo e tenta pegar seu flagelo de cinco pontas com ganchos de ferro, Lolth decepa o braço da clériga. E cria, com outro dos três aneis de Alystin, uma ilusão sonora para abafar o grito de ódio de Erelda, para logo em seguida decepar a cabeça da clériga com a Quelícera, porém sem utilizar seu poder.

            Lolth sabe que a ilusão lá fora acabou e logo logo, as guardas irão adentrar o aposento. Rapidamente, a pseudo-deusa pega a cabeça da clériga e espalha o sangue no aposento, pega a filha de Erelda e parte rasgando a tenda.

            No campo de batalha o exército liderado por Nadal está com uma imensa vantagem em relação aos grimlocks. Guldar percebe que Nadal já está com alguns ferimentos e com a concentração completamente comprometida graças ao veneno que Alystin colocou em sua bebida. Mesmo assim, o jovem mago duvida que o mercenário irá morrer naturalmente durante a batalha, pois a vantagem de sua tropa é enorme.

            Guldar utiliza algumas de suas magias mais simples, para guardar aquelas que serão úteis para exterminar Nadal. Ele luta e espera o sinal de Alystin. Evoca um raio de gelo em direção a um bárbaro grimlock que está dando muito trabalho aos soldados drows e vê, de canto de olho algumas aranhas rastejando-se no campo de batalha. O cenário muda, Guldar se torna um grimlock e vários outros brotam do chão. O jovem mago sorri, pois reconhece a maestria das ilusões de Alystin, muitas vezes até mesmo duvida que a ilusionista seja uma seguidora de Lolth, pois essa se parece muito com uma devota de Shar.

            Na forma de um grimlock, o mago se aproxima pelas costas de Nadal e, com suas mãos flamejantes, toca a cabeça do mercenário. Nadal sente uma forte dor de queimadura e logo se vira desferindo um golpe que é defletido por um escudo mágico que Guldar criou de antemão. Para Nadal, quem está enfretando ele é um grimlock, mas o mercenário se surpreende por ser um grimlock mago.

            Guldar rapidamente toma a dianteira e atinge Nadal com um raio congelante, deixando seus movimentos lentos e seus músculos doloridos pelo frio. O jovem mago gargalha acreditando ter conseguido superar o exímio guerreiro, mas surpresas sempre acontecem entre os drows. Nadal, mesmo com seus movimentos comprometidos, consegue fintar mais um raio de gelo e atingir o abdomen do oponente com uma estocada de seu sabre. Guldar sente o ódio ferver com uma bola de guano na mão e com os outros componentes materiais de uma bola de fogo, ele conjura a mais poderosa evocação que conhece. Tendo Nadal como centro da explosão, as chamas da bola de fogo se espalha, atingindo todos os que estão próximos, até mesmo Guldar.

            Isso não é o suficiente para matar o jovem mago, pois por mais impulsivo que ele seja, não é estúpido. Defesas mágicas foram preparadas antes do confronto. Mesmo ferido, Guldar sorri olhando para o chão sabendo que haveria poucas chances de Nadal ter sobrevivido.

            – Bem que Alystin me avisou que você tentaria algo estúpido. – comenta o mercenário surpreendendo Guldar, que levanta seu olhar estupefato com as mãos tremendo.

            Nadal está todo ferido, segurando em sua mão esquerda um amuleto, enquanto em sua mão direita está seu sabre de adamantina.

            – Você e ela irão morrer, malditos! – grita o mago recitando as palavras mágicas para criar chamas em suas mãos novamente, e partindo em direção ao guerreiro.

            O sentimento de ter sido traido pela ilusionita, somado a todo o resto que está ocorrendo, fez com que Guldar perdesse ainda mais o bom senso. Ele se aproxima do mercenário que lhe crava o sabre em seu abdomem. Mesmo sentindo a lâmina atravessá-lo o mago caminha ainda mais próximo e toca sua mão no peito do mercenário que berra de dor.

            Ambos estão em péssimo estado, mas para eles a batalha se resume àquela situação: um enfrentando o outro. Após o grito, Nadal sorri e Guldar fixa um olhar perturbado em seu oponente, até sentir algo tocando seu pé e o fazendo olhar para baixo.

            – Erelda? – horrorizado ele diz o nome do objeto de sua paixão ao ver a cabeça da clériga aos seus pés.

            O espanto atinge Nadal também, que olha para baixo o tempo suficiente para Lolth estocar ambos com sua Quelícera, varando seus corpos por uma pequena mas suficiente brecha de suas piwafwi e armaduras.

            Ambos já estavam extremamente feridos e não haveria como eles sobreviverem àquele golpe final. Os dois caem ao chão tentando ver a assassina, Nadal não consegue e desfalece. Enquanto Guldar.

            – Sua puta! – é tudo o que ele consegue dizer olhando Lolth segurando a filha de Erelda.

            Em um breve instante parece que tudo faz sentido na mente do mago. Alystin planejou tudo para tomar o controle do cerco. Mas por que? Ele se pergunta até que um pequeno detalhe vem sem sua mente quando os seus olhos se encontram com o da falsa ilusionista. Alystin nunca teve olhos magentas, mas sim carmim.

            Lolth vê Guldar desfalecendo e sente a última emoção do mago em relação a ela. Ilustrado em um profundo olhar de puro ódio.

Anúncios

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 3)

            Calimar Khalazza adentra sua barraca irritado por não ter encontrado sua atual amante. “Provavelmente está com aquele mercenário nojento”, conclui o mago tomado de ciúme. Faz alguns dias que Alystin se tornou um objeto de desejo do mago líder do cerco drow. Antes de tudo ocorrer, ele nem mesmo imaginava se relacionando com a ilusionista. Porém sempre que se põe a pensar nela, não entende como passou tanto tempo longe da bela e sensual drow.

            Sua cabana é uma das duas maiores do acampamento drow, a outra obviamente pertence a Erelda, sua ex-amante e atual alvo de seu desdém. Seus livros e pergaminhos ficam próximos à algumas almofadas utilizadas para meditação. “Não acredito que terei que entrar em Reviere sem poder relaxar nos braços dela”, pragueja consigo o mago que se põe a sentar em uma das almofadas e se preparar para decorar suas magias antes de seu Reviere.

            Ele pega um de seus tomos e o abre, folhando página por página em busca das melhores magias para a próxima investida, que será, como programado, após o descanso das tropas. Assim fora planejado para não haver chances dos grimlocks se recuperarem. “Portanto é melhor eu deixar de me preocupar com prazeres carnais e me concentrar nisso”, comenta mentalmente enquanto prossegue na busca das magias mais apropriadas.

            O mago focaliza toda a atenção em seu estudo, sendo absorvido por suas anotações. Os simbolos e palavras que lhe são importantes fixam em sua mente, enquanto aqueles que não lhe parecem apropriados são deixados de lado. Quando terminar todo o processo de estudo, Calimar sabe que apenas necessitará descansar sua mente para que as magias se fixem.

            Todo o stress dos momentos passados teve de ser deixado de lado. Toda a discução com seus magos e toda a discução seguinte com a enfantaria de Nadal havia deixado-o tenso, mas não tanto quanto o próprio Nadal havia ficado. A discução ferveu o sangue do mercenário drow, pois a todo momento Calimar jogava em sua cara que quem deve apoiar o exército principal é ele, pois ele é o mercenário contratado. Porém, ao fim da discução, quem saiu em companhia da disputada ilusionista foi Nadal.

            – Maldição! – pragueja em voz alta o mago, tendo sua concentração quebrada pelo ciúme.

            – Calimar? – o mago sente sua pressão caindo ao escutar a voz suave de Alystin.

            Ele olha para trás com um sorriso arteiro em seu rosto e observa a jovem dama deitada sobre algumas almofadas, com seus delicados seios a mostra e aos poucos se cobrindo cum uma manta. Aquele pequeno espaço de luxúria não existia antes dele e Alystin começarem a ter momentos de prazer juntos. Agora, para Calimar, parece que sempre existiu.

            – Você parece tenso. Vem que eu lhe farei relaxar. – diz a ilusionista com um sorriso excitante em seus lábios, terminando de cobrir seu corpo com a manta.

            Calimar sente seu coração pulsando velozmente. Seu corpo começa a suar e a excitação palpita em seus órgãos. Ele vai aos poucos em direção a manta que se mexe suavemente, como se Alystin já estivesse começando a brincadeira sozinha.

            Com cuidado ele toca a manta, sorri para si mesmo e retira com ferocidade a coberta. Para seu horror, não é Alystin apenas que ele vê lá dentro – não é Alystin de forma alguma. Milhares de aranhas de espécies diferentes saem de seu espaço de luxúria rastejando-se pelo aposento, deixando para trás o corpo de uma drow rececado, como se estivesse morto há algum tempo e conservado através de poções.

            “Nadal!” pensa o mago indo em direção a uma varinha que fica próximas a seus livros. Ele tenta olhar para todo o aposento a procura do mercenário.

            – Apareça seu mercenário maldito! Sei que você a matou! – desafia o mago com ódio, ainda procurando por seu adversário e sentindo o desespero tomar conta. Ele está sem suas magias e com alguns poucos itens mágicos para se defender, já Nadal é um guerreiro formidável.

            – Não amor, quem a matou fui eu. – ele escuta uma voz feminina, ainda mais sedutora do que de Alystin, soando bem próximo de seus ouvidos enquanto algo perfura suas costas e vara seu coração.

            Tudo ocorre tão rápido, que ele não tem chance nenhuma de defesa. Enquanto aquilo que lhe perfura é arrancado de seu peito, ele apenas vira-se em direção a sua assassina para amaldiçoá-la, mas ao vê-la a estupefação toma-lhe conta.

            – Q-quem? – pergunta com esforço, enquanto sente uma dor intensa em seu peito, como se tivesse levado uma picada de algum animal peçonhento, suas mãos tremem e sua mente fica paralizada pela visão de tanta beleza.

            – Eu sou Lolth, macho. Você já me serviu como deveria, agora não me é mais útil. – responde com uma voz bela, potente e cheia de autoridade.

            Calimar sente sua vida deixar seu corpo. Sua própria deusa o matou. Ele sorri e cai aos pés de Lolth.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 2)

            Já foram duas investidas que a tribo de Braços de Adamantina suportou nesses últimos dias. Pelo estado físico e mental de seus combatentes, o escultor não acredita que a tribo agüentará um novo ataque.

            Sempre após um ataque, todos os participantes normalmente vão ao encontro das esculturas de Braços, e de seu falecido mentor, para recuperar a inspiração. Eles tocam todos os trabalhos detalhados e maestrais, deixando com que sua mente vislumbre e se regojize com toda aquela beleza sensível. As esculturas deles servem como as músicas dos bardos para o pós batalha. Porém apenas um combatente tocava a escultura de Araushnee, um jovem bárbaro que ouviu falar a respeito da visita de uma deusa a tribo.

            Quando algum combate está se aproximando, os bardos da tribo, aqueles que guardam as lendas e história do povo, inspiram seus companheiros que entram no fronte vindos do campo de batalha.

            Braços ouve os guerreiros exaustos após terem retornado à algum tempo do último combate. Os bardos estão desanimados, os druidas e aqueles poucos clérigos de entidades medusas estão perdendo completamente seu ânimo. Para o escultor o pior de tudo isso é que, aparentemente o desespero está para tomar conta de sua tribo novamente. Ele conhece seu povo e sabe que os grimlocks sempre foram sobreviventes desesperados. Quando mais de um clã consegue se juntar em um pacto de caça e formar uma tribo, esse desespero deve ser colocado de lado para que a sobrevivência mútua seja garantida.

            “Daqui a pouco os clãs se separarão novamente”, reflete o grimlock com tristeza, pois ele sabe que o pacto que une os clãs em uma tribo, não é tão forte quanto o pacto que une cada grimlock dentro de um clã.

            Com o desanimo prestes a tomar conta, Braços de Adamantina segura sua marreta firme e retorna a sua cabana para passar esse desânimo em uma nova escultura, aquela que ao ser vista pelos seus inimigos os farão desistir temporariamente de uma nova investida ao serem tocado por toda a emoção que escultor está vivenciando, ampliado através de sua capacidade artística. Ele pensa em como traduzir aquilo para uma forma sólida. Como passar aquilo para uma pedra e logo compreende onde ele deve fazer. Ele resolve esculpir sua mais nova obra em um ponto visível. “Não poderá ser muito grande, mas deverá ser visível a distância”, comenta consigo sabendo que não terá muito tempo para esculpir uma obra monumental.

            Ele pega suas outras ferramentas e se prepara para sair de sua barraca, mas antes ele toca a escultura de Araushnee quando é surpreendido pelo cheiro da drow com nome de deusa.

            – Achei que encontraria Mãos Calejadas, mas você cresceu basntante não é Braços? – o grimlock escuta a voz suave de uma drow que, por mais tempo que tenha passado, nunca saiu de sua memória.

            Surpreso e ao mesmo tempo sentindo seu ânimo retornar, ele se vira para tocar aquela que tanto o inspirou.

            – Como não escutei você chegar? – sorri o grimlock enquanto toca o rosto de Lolth – Eu sabia que você estava por perto. Senti seu cheiro antes das investidas.

            Ele escuta a respiração de Lolth se alterando como se ela estivesse sorrindo.

            – Não poderei ficar muito tempo, meu filho. Preciso terminar o que iniciei entre os drows que cercam sua tribo. Vim apenas dizer que ajudarei ao máximo, porém vocês devem preparar uma pequena caravana para uma possível fuga. – diz a drow com um leve tom de tristeza em sua voz.

            – Não podemos fugir e deixar companheiros para traz, Araushnee. – comenta Braços deixando a preocupação retornar ao seu íntimo.

            – Sei o quanto vocês louvam seus votos. Não pretendo torná-los desonrados, mas enquanto pelo menos um de vocês viverem, seu povo viverá. Todos os seus companheiros viverão naquele que sair com vida desse confronto. – Lolth demonstra preocupação em sua voz – Aquele primeiro cerco que enfrentamos, não foi tão poderoso quanto esse. A cidade dos duergars que estavam atacando nossa tribo é distante daqui e eles não tinham como se reforçar sem perder um tempo precioso para suas estratégias.

            A inspiração do escultor luta para esvair. Ele coloca suas ferramentas ao chão e toca a drow com suas duas mãos, sentindo toda a curva e beleza dela. Ele sabe que a preocupação de Araushnee ou Lolth, é verdadeira. Ele sabe que quando ela diz “nossa tribo”, é porque realmente ela se sente parte da mesma tribo. A importância do que ela diz ao seus ouvidos é imensa.

            – Eu sei que nossa situação é complicada. Mas como convencerei os outros a se prepararem para partir? – pergunta realmente o grimlock confuso.

            – Você sabe que não será difícil, meu filho, meu irmão. Nosso povo está começando a se desesperar. Você não pode deixar que isso ocorra. – responde a drow.

            – Mas por que eu? Como poderei ajudá-los? – questiona o escultor ainda mais confuso, quase desesperado.

            – Porque você compreende as emoções. Porque você é inspiração. Faça com que um ou vários bardos compreendam isso. Faça com que eles se tornem a inspiração e através de suas canções despertem a natureza de nossos irmãos. Você é o ponto inicial do despertar de sua tribo. – afirma a deusa de forma categórica.

            Braços sente-se contagiar pela esperança que a drow com nome de deusa trouxe a ele. Ele sabe que o que ela disse é verdade.

            – Farei isso Araushnee. Em… – responde ele pensando em complementar com um louvor, mas se interrompendo no exato momento em que o cheiro da drow se enfraqueceu no ar.

            “Mais uma vez você me surpreende deixando o local como se nunca tivesse estado aqui”, sorri Braços pegando suas ferramentas novamente do chão, “As vezes me pergunto se você realmente existe, Araushnee, ou se nada mais é que minha inspiração tomando forma em minha mente”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 9 (parte 1)

            “Agüentem mais essa investida, por favor”, deseja mentalmente Lolth Do’Urden enquanto observa do acampamento drow a segunda investida deles à tribo grimlock em menos de dois dias. Os grimlocks novamente resistem com bravura utilizando suas habilidades em combate e suas magias naturais, o que surpreendeu muitos dos drows de Sshamath que lideram o cerco.

            Mesmo com o silêncio de Lolth, o cerco está intenso, pois Sshamath nunca foi dependente de suas clérigas como muitas outras cidades drows. Estudiosos arcanos sempre tiveram uma maior importância para eles, ainda mais nas atuais circunstâncias.

            Antes de se infiltrar entre a comitiva drow de Sshamath, Lolth os observou por pelo menos duas semanas para descobrir a estrutura de poder e de relacionamento entre eles. Descobriu os principais nomes do cerco, quem era amante ou aliado de quem, quais as richas pessoais de cada um dos principais integrantes do exército. Entre os drows de Sshamath, os magos e feiticeiros possuem uma importância bem mais relevante que as clérigas de Lolth, mesmo esses sendo fieis a deusa. Esse comportamento reflete no exército que está cercando a tribo grimlock.

            Como Lolth veio descobrir o líder oficial do cerco é um mago de nome Calimar Khalazza da Escola de Evocação. Em termos simbólicos, havia também a liderança de uma drow clériga de Lolth chamada Erelda Dhuunyl, gráviada aparentemente de Calimar ou do mercenário Nadal Zaphresz, há anos, os dois principais amantes da clériga. Sua barriga já está imensa, provavelmente logo logo o novo ou a nova drow nascerá. Entre esse triângulo amoroso há também Guldar Khalazza, um mago mais jovem, ofuscado pela sombra de seu irmão mais velho, e que também é apaixonado por Erelda, e Alystin Elpragh, uma ilusionista obsecivamente apaixonada por Calimar e que estava aos poucos colocando o irmão e o mercenário contra o líder mago do cerco, até Lolth a escolher. “Nada mais perfeito”, disse consigo mesmo Lolth quando descobriu todas essas pequenas intrigas a respeito dos principais personagens do acampamento drow.

            O exército possui um pequeno contigente de guerreiros, por isso Nadal foi contratado com sua tropa, formada de drows e raças inferiores escravizadas, para auxiliar os magos de Sshamath. Nadal é o líder da infantaria, enquanto Calimar é o estrategista e líder do cerco. Mesmo Erelda possuindo um valor simbólico na liderança, ainda é respeitada por grande parte do exército. O jovem Guldar não possui grandes importâncias políticas, mas estrategicamente para a pseudo-deusa ele é uma chave mestra. Enquanto a Alystin Elpragh…

            Todas essas informações Lolth conseguiu através de sua maestria em esconder-se e espionar, além de sua maestria em se infiltrar em locais como um membro nativo. Após as duas semanas de espionagens intensas, alguém precisava ser substituida: Alystin Elpragh. Não foi difícil para Lolth, principalmente com a posse da Quelícera, matar Alystin. Ela escondeu seu corpo e pegou todos os pertences e as vestes da ilusionista.

            Para a sorte de Lolth, essa possuía alguns itens mágicos que seriam úteis para simular as ilusões da recém falecida drow. Com alguns equipamentos e as condições certas Lolth conseguiria se passar por Alystin, desde que não permanecesse muito tempo na presença de seus companheiros. A Elpragh não era uma peça tão importante na missão do cerco, e isso ajudava muito para que os diálogos fossem curtos na maioria das vezes.

            Apenas após uma semana de infiltração, durante a espionagem, que a pseudo-deusa disfarçada resolveu enviar uma mensagem olfativa a qualquer grimlock da tribo que se recordasse dela. Tomando um banho em um lago próximo com os sais minerais certos, ela apenas aguardou que uma corrente de ar levasse seu cheiro. Do fundo de seu coração Lolth esperou que tivessem entendido que ela estava infiltrada no acampamento drow, e que estará auxiliando na sobrevivencia da tribo.

            Dentro desse tempo de infiltração, muito progresso foi feito. Lolth como Alystin iniciou o processo de sedução de Calimar e Nadal. Guldar já estava a meio caminho andado, já que a própria Alystin havia feito grande parte do serviço. Erelda passou a se sentir rejeitada depois de algum tempo e começou a questionar as intenções da ilusionista. Lolth apenas se esquivou da conversa e iniciou uma contra-argumentação, colocando os machos envolvidos como os sedutores da história. Erelda de início não acreditou muito na falsa Alystin, porém aos poucos percebeu como os machos estavam mais oferecidos em relação a ilusionista e aquilo tudo que essa havia dito passou a fazer sentido.

            A pseudo-deusa continua observando a batalha. Muito tempo já se passou desde o início da investida. O contentamento toma conta de seu peito, “Terei tempo para terminar meu serviço”, pensa sorrindo.

            Há muito pouco tempo que Lolth conseguiu a arma que precisava para atingir o vespeiro. Nadal estava viciado nas habilidade da falsa ilusionista em dar prazer, enquanto Guldar cada vez mais se apaixonava por Erelda graças algumas conversas com a ilusionista. Calimar caía de paixão por Alystin enquanto Erelda a via como uma puta fraca que era facilmente seduzida pelos seus ex-amantes traidores. “Tive sorte mais uma vez”, a Do’Urden complementa seu próprio pensamento ainda sorrindo. Ela sabe que se a trama já não estivesse, de certa forma, desenvolvida, uma semana nunca seria o suficiente para que tudo isso desse certo, mesmo com suas habilidades, carisma e beleza.

            Agora ela tem tempo. O exército drow está retornando ao acampamento com mais um fracasso. “Isso esquentará ainda mais as coisas”, comenta Lolth vendo mais uma oportunidade se formando com a derrota. O orgulho drow está ferido novamente, Calimar e Nadal estarão se atritando ainda mais com os nervos à flor da pele. Logo quando a primeira investida terminou, eles começaram a demonstrar que havia inveja e cíume mútuo. Além disso, cada um gosta de se aliviar da culpa e da vergonha do fracasso, jogando a responsabilidade por qualquer falha cometida nas mãos do outro.

            Logo todos estão reunidos novamente no acampamento. Nadal e seu exército conversam a respeito da batalha e tentam encontrar quais foram as falhas. Enquanto isso, Calimar conversa com seus magos para descobrir o que deu errado na estratégia utilizada. Em ambos os grupos os envolvidos dizem que faltou cooperação do outro contigente, enquanto os grimlocks pareciam um bloco impenetrável de pedra graças a sua “unidade militar”, se assim poderia ser chamado.

            Durante a conversa entre os contigentes e seus respectivos líderes, Lolth prefere conversar com Guldar Khalazza e já colocar parte de seu plano em ação.

            – Guldar, meu caro. Vi que trabalhou arduamente na batalha de hoje. – comenta como se nada quizesse a peseudo-deusa.

            – Mas foi inútil. Meu irmão e aquele imbecil do Nadal estão deixando suas rixas atrapalharem os planos de Sshamath. Iremos perder esse sítio de adamantina se os dois se digladiarem antes do serviço ter terminado. – comenta Guldar com raiva na voz enquanto Alystin toca seu ombro.

            – Há coisas piores acontecendo, Guldar. – comenta a falsa ilusionista deixando claro a tristeza em sua voz.

            – Como assim, Alystin? O que você sabe? – pergunta preocupado o jovem mago olhando nos olhos magentas de Lolth.

            Ela responde o olhar com uma feição de tristeza, sem medo de demonstrar fraqueza ao mago.

            – Pode me dizer, você sabe que somos confidentes. – diz o mago com o intuito de tranqüilizá-la.

            Durante essa última semana, Alystin tornou-se a conselheira de Guldar. Por ter sido por décadas apenas uma sombra de seu irmão, Guldar sempre sentiu o peso de ser considerado fraco. Para todos seus companheiros drows, ele tinha que manter ao máximo uma pose imponente a fim de não desonrar sua Casa nem sua Escola de magia. Porém esse esforço era exaustivo para o jovem Khalazza. Quando Alystin se tornou sua “amiga”, ele teve com quem se desabafar e isso cada vez mais o tornava dependente dela. Ter em quem confiar, isso é ótimo ao jovem mago, mesmo que pareça uma doce mentira dentro da sociedade drow.

            – Nadal pretende levar as honras da vitória e entregar o sítio à responsabilidade dos Dhuunyl. Sua Casa não ficará com as honras se o plano dele der certo. – diz ela exitante.

            – Mas ainda sim o sítio será de nossa grande cidade. – retruca ele tentando não acreditar naquilo.

            – Sim, teoricamente será. Na prática o sítio servirá aos propósitos dos Dhuunyl e do grupo de mercenários de Nadal. – responde Alystin dando uma pequena pausa para um suspiro antes de prosseguir – Acredito até mesmo que o grupo será o mais beneficiado, já que Nadal está cada vez mais, conseguindo tirar seu irmão do jogo de sedução entre ele e Erelda.

            – Como!? – pergunta cheio de ódio o jovem mago, deixando o ciúme controlá-lo.

            – Nadal está me usando, confessou isso a mim. Ele me seduziu para causar ciúmes a Erelda. Usou o que eu sinto por seu irmão para que eu o conquistasse e fizesse com que Erelda acreditasse que Calimar estava me seduzindo. – responde Alystin com a voz tremida enquanto uma lágrima escorre em seu rosto.

            Guldar apenas encara a ilusionista com uma mistúra de cíume e ódio no olhar.

            – Como você se deixou ser usada dessa forma? – pergunta o jovem mago deixando a raiva sair com sua voz.

            – Eu fui fraca. Fui fraca por não conseguir seu irmão de verdade. Quando Nadal me seduziu eu ainda não sabia o que fazer para ter seu irmão. – ela pausa para controlar o choro – Agora eu tenho seu irmão e falta pouco para Nadal ter Erelda de vez. Você tem que fazer algo.

            Guldar toca o ombro de Alystin.

            – Não se preocupe. Farei algo. – diz em tom amigável com receio de perder a confidente por ter sido tão rude – Mas não sei o que fazer no momento. Minha vontade é simplesmente matar Nadal.

            – Podemos fazer isso sem comprometer a campanha. – responde Alystin com um olhar traiçoeiro, característico da ilusionista original.

            – O que você sugere? – pergunta o mago intrigado.

            – Já tirei seu irmão de Erelda, agora a briga é entre você e Nadal. Se ele morrer durante a batalha, quando essa já estiver próxima a ser ganha, não haverá grandes problemas e você não será visto como traidor de Sshamath. – diz ela tentando esboçar um sorriso em seu rosto umido.

            Guldar olha fixo para sua confidente. Ele parece notar algo de estranho na face de Alystin, mas logo ignora qualquer suspeita, pois o que há de estranho é o próprio fato dela ter chorado; ele nunca havia testemunhado.

            – E como faremos isso? Nadal é um guerreiro ímpar. Não conseguiria enfrentá-lo. – pergunta o mago.

            Lolth sorri:

            – Eu o enfraquecerei o suficiente. Deixarei-o cansado para a próxima investida. Durante a batalha, você o atingirá com suas maiores magias, enquanto cubro seus atos através das minhas ilusões. – Guldar sorri ao escutar sua companheira – Faça da maneira correta e todos acharão que os grimlocks o mataram.

            Guldar sente seu ódio se tornando prazer por ver que sua vingança e seu desejo serão satisfeitos em breve. Por um momento Alystin parece mais bela do que o normal e mais inspiradora. O mago ri para si mesmo, ele sabe que isso é uma ilusão causada por sua ansiedade. Por um momento a ilusionista parecia uma deusa.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 3)

            – Por Lolth. – Mirka escuta Sabal Dyrr comentar enquanto vê Stongest desativando mais uma armadilha física virtualmente invisível com extrema perícia.

            A pequena kobold apenas olha sorrindo em direção a clériga, enquanto essa observa pasma refletindo sobre todas as habilidades que o pequeno e robusto meio-goblin demonstrou.

            – Ele é o Guardião, afinal de contas. – diz Mirka ainda sorrindo chamando a atenção da espantada clériga.

            – É. – concorda a clériga sem saber mais o que dizer.

            Tanto Sabal quanto Mirka sabem que se Stongest não estivesse na batalha contra os orcs, havia grande probabilidade do grupo estar morto. Stongest é extremamente habilidoso com seus machados, em se esconder e se camuflar no ambiente, em desarmar e provavelmente armar armadilhas, em escalar e se esquivar.

            – Como alguém tão habilidoso passou despercebido tanto tempo no Braeryn? – pergunta a drow à sua pequena companheira.

            – O Guardião não busca a fama. Ele existe para proteger a deusa e a Fé que temos em seus ensinamentos. – responde Mirka com extrema certeza na veracidade de sua resposta.

            Sabal apenas sorri e dá uma olhada ao seu redor, para ver como andam as coisas. Ela vê Gromsh de vigília atrás do grupo, enquanto Mirka fica ao seu lado e Stongest a frente desarma e encontra armadilhas. A clériga volta a olhar para a kobold enquanto se poem a pensar a respeito do que a pequena havia acabado de dizer e um estalo surge em seus pensamentos:

            – Stongest existe desde que Lolth era uma criança, correto? – pergunta a clériga curiosa.

            – Não, Senhora. – responde a kobold sorrindo enquanto Sabal alivia sua suspeita – Na verdade desde antes dela encarnar.

            Os olhos de Sabal se arregalam. “Não tinha parado para pensar nisso”, constata mentalmente Sabal. Stongest é mais velho que a pseudo-deusa, sendo que, aparentemente, a Lolth herege é um pouco mais velha que ela.

            – O que foi, Senhora? – pergunta Mirka arrumando seu manto.

            – Nada. Apenas não havia parado para pensar em como o guardião é velho. Não me recordo de nenhum goblin viver por tanto tempo. – comenta Sabal enquanto Mirka se dispara a rir o mais discretamente que ela consegue.

            – Que foi Mirka? – pergunta a clériga.

            – Me desculpe, Senhora. Acho engraçado você ver o Guardião em padrões mortais. Ele não é um goblin. – responde Mirka com a cabeça baixa em sinal de respeito.

            – É. Havia me esquecido. – responde Sabal impressionada com a fé, não Fé, que a pequena kobold possui por Stongest.

            – O que vocês estão falando? – Stongest se inclui na conversa.

            – Não há mais armadilhas? – pergunta Sabal olhando analiticamente para o rosto de Stongest.

            – Não nessa á’ea. Vamos passa’ po’ out’as ‘unas. – responde Stongest se sentindo incomodado com o olhar da clériga.

            – Vamos. – concorda a clériga – Mas antes gostaria de ter uma conversa com você Stongest.

            O meio-goblin levanta uma de suas sobracelhas.

            – Mirka, você poderia nos deixar à sós por um tempo? – pergunta a clériga à kobold.

            – Sim, Senhora. – responde Mirka sorrindo e se afastando para junto de Gromsh.

            Quando a pequena kobold está em uma distancia considerável dentro do limite em que eles podem se locomover, Sabal volta a se dirigir a Stongest em baixo-drow e quase sussurrando:

            – Você é muito hábil Stongest. Muito mais hábil do que a maioria dos drows que eu conheci. Me diga a verdade: como você conseguiu não ser conhecido dentro do Braeryn?

            Stongest olha nos olhos da clériga.

            – Sabal, esse assunto é inútil. – responde secamente o guardião.

            A clériga sente sua face rubresser, mas não desiste:

            – Quero saber quem te treinou? Onde você nasceu? Quem são seus pais? Um goblin não vive tanto tempo quanto você está vivo. Seu pai ou sua mãe, algum deles, possuía algum tipo de longevidade.

            – P’a que você que’ sabe’ disso, Sabal? – pergunta o guardião desconfiado.

            – Preciso saber a respeito das capacidades de meus companheiros. Afinal sei que Gromsh fazia parte de um exército gnoll antes de ser capturado como escravo. Sei que Mirka era uma kobold acolita de um mago humano discípulo de um dragão. – diz a clériga olhando firmemente nos olhos do meio-goblin – Mas sobre você não sei nada. Não sei como lhe encaixar nas minhas estratégias. É complicado liderar aqueles que nem mesmo eu conheço as habilidades.

            O olhar de Stongest ganha um ar de surpresa, ele ainda não havia visto uma drow se desabafar de forma tão sincera a respeito de alguma fraqueza. Sabal continua analisando o rosto do meio-goblin, principalmente os traços ovalados de seus olhos, quando esse responde incomodado novamente com o olhar da clériga:

            – Você não p’ecisa sabe’ o que eu posso faze’. Quando eu p’ecisa’ faze’, eu faço.

            O meio-goblin vira as costas para a clériga e caminha em direção à próxima armadilha. Sabendo que não conseguirá tirar nada a respeito da história do guardião, Sabal tenta suavizar o final da conversa:

            – Então apenas me diga, como você consegue viver por tanto tempo? Não é normal de sua raça.

            – Eu tenho sangue elfico. – responde o guardião com desdém.

            Sabal ri.

            – Mirka. Gromsh. Vamos continuar. – comanda a clériga.

            O grupo caminha em direção a próxima runa. Sabal continua sorrindo pela resposta dada por Stongest, mas logo seu sorriso se desfaz. “Olhos ovalados”, constata ela com seus olhos vermelhos arregalados.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 2)

            Após cinco explosões mágicas que se alternavam entre cortinas de fogo e tapetes de corrente elétrica, Brum começa a ser ferido pelas armadilhas. Alak Sel’Xarann, após muito dialogar com a clériga Xorlarrin, consegue que eles dêem uma pausa na investida sem planejamento que estavam fazendo. Era claro para ele que a clériga queria que Brum morresse no processo e que ela estava completamente decepcionada com o fato dele ser tão resistente e de sua assassina mirim não ter conseguido ser furtiva o suficiente.

            Depois de ter ultrapassado duas vezes a primeira armadilha, eles decidiram que Brum deveria quebrar o trecho da parede onde as runas estavam desenhadas. Isso provavelmente ativaria a armadilha com força total, mas – fora Alak – ninguém se importava.

            Logo que as primeiras runas foram destruídas, a pequena ladina foi colocada na frente para procurar armadilhas físicas que pudessem estar no local. Assim que essas eram encontradas, ela logo se prontificava em desarmá-las. Observando a relação da clériga e da pequena drow, Alak percebeu que a nobre era “dona” da ladina, pois essa não parecia pertencer a Casa Xorlarrin. Ela teve sua língua amputada, “talvez por falar demais, algo comum entre mercenário ou ladrões pertencentes a alguma guilda”, refletia Alak.

            Como um animalzinho de estimação da clériga Xorlarrin, a pequena drow obedecia todas as ordens e se arriscava o quanto fosse necessário para deixar sua dona feliz. Felizmente para ela, a Xorlarrin não a havia colocado em risco como fez com Brum.

            Cada armadilha mágica que Brum destruía, todos os outros se afastavam para não sofrerem com a explosão. A mediada que iam adentrando mais e mais o túnel as armadilhas ficavam cada vez piores e mais poderosas. O mago Teken’Th’Tlar havia observado de antemão que possivelmente o poder das runas seriam crescente.

            – Acredito que a cada passo que dermos mais adentro da “morada” do demônio, mais poderosas serão as defesas. – disse ele logo após a terceira armadilha.

            Brum resistiu sem nenhum arranhão até a quarta armadilha. Na quinta, não foi possível e Alak decidiu intervir por seu colega mercenário.

            – Sacrificá-lo nessa altura da missão é loucura. Não sabemos o que encontraremos mais à frente. – dizia Alak para o guerreiro Xorlarrin em baixo-drow.

            – Não adianta mercenário, ela não vai mudar de idéia. – respondia ele.

            Não satisfeito com as respostas negativas do guerreiro, Alak foi ter uma conversa com a própria clériga.

            – Você quer mesmo que ele morra agora? – perguntou o eremita à Xorlarrin.

            – Não necessariamente, mas se ocorrer: ótimo. – respondeu ela secamente.

            – E você sabe o que encontraremos por lá? Você conhece o demônio que possivelmente nós encontraremos? – retrucou Alak em tom de desafio.

            – Isso não é da sua conta mercenário. – respondeu a clériga com raiva em sua voz.

            – É da minha conta a partir do momento que fui contratado para protegê-la. Brum é um dos únicos nesse grupo que poderia parar um demônio tempo suficiente para que conseguíssemos sobreviver. – disse Alak como quem diz uma verdade incontestável.

            – Você conhece bem a capacidade de todos no nosso grupo, hein? – respondeu ironicamente a clériga.

            – Não. Não conheço o suficiente, apenas sei que você não tem suas mágias no momento e que a única fonte de magia que possui é uma varinha de cura. Suas armas mágicas serão inúteis em uma luta contra alguém mais hábil que você. – a clériga virou-se em direção a Alak com a fúria fervendo em seu rosto, mas o mercenário prosseguiu – Talvez seu assassino que faz pose de guerreiro pudesse lhe ajudar, mas acredito que o que você sente por ele não é necessariamente confiança. Já sua pequena ladina de estimação não seria capaz nem de causar transtorno a um demônio ou aos servos do mesmo.

            A clériga encarou o mercenário por um tempo, com a respiração ofegante de raiva.

            – Com quem você irá contar, Senhora? – finalizou Alak sem deixar de olhá-la nos olhos.

            Ela gritou em alto-drow – palavras que para o mercenário soaram desconexas -, chamando a atenção de todos do grupo.

            – Senhora, eu não entendo alto-drow. Por favor, fale em baixo-drow. – interpôs Alak.

            Ela respirou fundo e retomou um tom de diálogo, porém sem deixar a raiva de lado:

            – Eu tenho um mago e um ótimo guerreiro ao meu lado. – respondeu a Xorlarrin.

            Alak olhou para o mago que estava próximo a parede analisando as runas e voltou-se para a clériga novamente.

            – Eu acredito que seu assassino seja um ótimo guerreiro, mas o mago é ignorável. – disse ele – Além disso, ele não seria capaz nem de manchar a pele de meu companheiro ogro.

            A Xorlarrin o olhou com um ódio mortal palpitando em todos os seus músculos como se ela fosse um coração.

            – Certo. Pensem em algo, mas saiba que quando terminarmos essa missão irei fazer de tudo para que você morra como um herege, macho. – sentenciou a clériga ao mercenário.

            – Sim, minha Senhora. – respondeu Alak voltando-se rapidamente ao seu companheiro em subterrâneo comum e puxando conversa com a ladina e com o mago.

            Os quatro conversaram a respeito do que fazer em seguida. Alak sabia que atrás deles a clériga e o guerreiro planejavam sua morte, mas ele mantinha sua mente tranqüila, pois enquanto Brum estivesse vivo, ninguém tentaria contra sua vida.

            Em relação às armadilhas, muitas idéias surgiram, mas todas tinham alguma falha. Por fim, eles optaram por aceitar um plano bizarro do mago.

            – Talvez não seja necessário destruir a runa para “desativá-la”, talvez apenas um risco bem feito possa inutilizá-la. – diz ele.

            A pequena ladina comenta, de forma discreta, algo ao Teken’Th’Tlar na linguagem de sinais drow, que Alak não entende.

            – O que você propõe então mago? – pergunta Brum.

            – Vi que você arremessa bem suas facas Alak. – responde Sol’al como se o eremita que tivesse perguntado – Você conseguiria acertar aquela runa lá atrás?

            Alak observa a runa que Sol’al havia apontado a vinte metros de distância e responde:

            – Com certeza.

            O mago explica a todos que aquilo pode dar uma reação em cadeia e todos, menos os dois mercenários, se afastam até próximo da entrada. No momento combinado Alak arremessa dois de seus punhais, um em cada mão, e atinge de forma perfeita as duas runas que formam a armadilha a vinte metros. Logo após ter disparado, Brum o cobre como uma barraca. Fogo e eletricidade os atingiram com força total, Alak acreditou que Brum não sobreviveria. Cada armadilha que ultrapassada pela cortina destrutiva de magia se acionava e somava-se à primeira.

            Após tudo aquilo parar e as magias se desfazerem, Brum se levanta e diz a Alak:

            – Tivemos sorte dessa vez, hein? Se esses loucos continuarem agindo dessa forma morreremos antes deles.

            – Eu sei Brum. – responde Alak com uma certa tristeza na voz.

            O eremita sabe que aquilo é verdade e não gosta da idéia de morrer de forma tão estúpida. Por isso ele tem que pensar rápido e logo algo que parecia uma estratégia palpável veio em sua mente.

            Aproximando-se do grupo ele se dirige a clériga:

            – Senhora, acredito que eu poderia procurar alguma outra passagem enquanto o mago estuda formas de desarmar essas armadilhas sem por em risco o grupo. – diz Alak.

            – E você acha que haverá outra passagem? – pergunta a clériga descrente.

            – Não sei, mas sei que fui treinado nas áreas selvagens do Underdark e se houver outra passagem, sou aquele que pode achá-la. – responde Alak com convicção.

            O guerreiro sorri aprovando a atitude orgulhosa do mercenário, enquanto a clériga apenas o encara:

            – Mago, consiga uma maneira de anular essas armadilhas. Mercenário pode ir atrás da outra passagem, mas antes diga ao seu amigo que fique longe do grupo, para que possamos descansar sem a presença de um inferior contaminando nosso ar. – ordena a clériga.

            Alak faz uma breve reverência e vai conversar com Brumm, que o recebe com as frases já conhecidas: “Ela disse a palavra, não é?” e “Sim, senhor meu mestre”.

            O eremita parte em busca de uma outra passagem no Braeryn ou próxima a ele. De início a busca é nos arredores, pois ele acredita que os orcs não são estúpidos de prepararem duas passagens uma próxima a outra. Porém, para sua surpresa, a outra passagem se encontra à mais ou menos vinte e cinco metros da passagem na qual eles entraram, mas, pelo menos, não é tão óbvia.

            A passagem é pequena e estreita, principalmente para ele, um drow de um metro e noventa de altura. Cuidadosamente o eremita adentra a passagem e não encontra guardas onde acreditava que haveria. Entretanto escuta uma batalha ocorrendo mais a frente do túnel. Era um túnel bem semelhante ao que eles estavam: artificial e com muitas protuberâncias rochosas. A pequena familiaridade facilita para que ele se esconda e assista a luta que ocorre no local. A clériga que ele havia visto conversando com aquilo que parecia um goblin no Bazaar, está lutando habilmente contra dois orcs, ao lado de um gnoll e alguns kobolds e goblins.

            A batalha é ferrenha. Os orcs urram seus gritos de guerra, enquanto os companheiros da clériga gritam: “Por Lolth!”. Alak sorri por ter encontrado o culto, mas o fato deles estarem combatendo os orcs, deixa tudo ainda mais estranho.

            O eremita fica algum tempo observando e refletindo sobre o que via, quando percebe que dois orcs caem sem sinal de ter sido atingidos pelo gnoll, mas com cortes profundos no corpo. Ao prestar atenção ele vê o meio-goblin-meio-algo furtivo e camuflado como um camaleão, andando livremente no campo de batalha e escolhendo a dedo sua vítima e a hora certa de atingi-la.

            Alak sente uma preocupação surgir em sua mente quando o pequeno goblin-coisa olha de canto de olho em sua direção. “Ele sabe que estou aqui”, conclui o eremita partindo o mais rápido possível.

            Não demora muito para que ele chegue ao seu grupo novamente. Pelo que parece, Brum está dormindo mais a frente enquanto o mago estuda seu grimório, enquanto a clériga e o assassino estão em Reverie. A ladina apenas observa a todos; é ela quem está de vigia.

            Alak se senta perto de uma parede, esperando o momento oportuno para se dirigir a clériga ou ao guerreiro. O tempo se passa e o mago também entra em Reverie. Alak diz para a ladina dormir que ele fica na vigília. Ela recusa e ele apenas sorri dizendo:

            – Me chame quando for a minha vez. – se posiciona comodamente e entra em Reverie.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 1)

            Já fazia algum tempo que Sabal Dyrr não se envolvia em um confronto físico. Ela se sente um pouco enferrujada, mas nada que a atrapalhe, afinal, em nenhum momento deixou de treinar as técnicas de combate que seu falecido mentor Mariv a ensinou.

            Sua morningstar atinge a cabeça de mais um orc, que cai com a fratura em seu crânio exposta e com seu corpo tremendo devido à eletricidade que o percorre. Esse é o segundo dos dois oponentes com os quais lutava. Ela dá mais uma olhada ao redor para ver como estão seus companheiros. Todos estão lutando o máximo que conseguem, mas para alguns isso não é suficiente. Dois dos três goblins já estão mortos enquanto Reshna e Mirka são as únicas kobolds vivas. Gromsh está lutando habilmente com seu halbert, já Stongest só é visto no momento exato em que um orc cai morto com um grande ferimento aberto pelo machado do meio-goblin.

            Faz pouquíssimo tempo que eles chegaram na passagem descoberta por Quiri. Após Mirka ter relido seu grimório e descansado o suficiente, eles partiram da barraca do culto e adentraram a viela dos orcs. Lá encontram várias barracas destruídas e algumas patrulhas drows montadas em seus lagartos. Não houve grandes dificuldades de passarem por eles e tomarem o rumo para a entrada da caverna que os orcs aparentemente estavam utilizando para fugirem. Mirka utilizou algumas de suas magias para distrair e atrapalhar a percepção dos patrulheiros, enquanto eles, o mais furtivamente possível, continuavam seu caminho.

            Ao chegarem próximos às barracas que continuavam inteiras eles viram o corpo decapitado de uma humana gorda e extremamente suja. Olhando de relance, eles não souberam dizer se os orcs haviam feito aquilo, mas quando Stongest olhou mais detalhadamente ele percebeu que o corte era preciso e que a perfuração no peito da humana havia atingido magistralmente o coração.

            Com certeza não foram orcs, constataram eles. Havia algo acontecendo naquele local e isso poderia atrapalhar tudo. Sem perder tempo eles ultrapassaram algumas barracas e adentraram em um grande lixão de um aparente beco. Com um pouco de trabalho eles abriram passagem entre os lixos e encontraram um buraco pequeno pelo qual poderiam entrar.

            – É essa a passagem. – disse Stongest sussurrando – Ela é pequena pa’a que d’ows, due’ga’s, gnolls, até mesmo o’cs tenham que abaixa’ pa’a ent’a’. Assim os gua’das podem decapita’ o int’uso antes de qualque’ reação.

            Mesmo que esse fosse o intento do tamanho da passagem, havia uma vantagem para o grupo de Sabal: apenas ela e Gromsh eram grandes os suficientes para terem que abaixar. Sem perder tempo Stongest simplesmente sumiu da vista de todos e adentrou o local. Logo que isso ocorreu, Mirka utilizou magias de invisibilidade para tornar o resto do grupo invisível. Gromsh preferiu que ela não utilizasse nele, pois iria usar o anel para se camuflar e sua furtividade para se tornar virtualmente invisível. Mirka trocou olhares com Sabal e essa permitiu que assim fosse.

            Estava tudo perfeito. Eles adentraram o local e passaram os dois guardas; realmente, a estratégia que Stognest havia dito que era usada era verdadeira. A caverna em si era um túnel largo e alto. Sabal por não conhecer muito de formações rochosas, não sabia dizer se aquilo era natural, mas Stongest com certeza saberia. Após caminharem por um pequeno tempo no túnel eles viram uma reunião de orcs. Haviam pelo menos oito supostos guerreiros e três supostos magos.

            A situação se tornou ainda mais delicada. Se algo desse errado, eles teriam grandes problemas. Quando o grupo dos pequenos – os que tinham mais chances de estragarem segundo Sabal – passou pelos orcs, Sabal sorriu vitoriosa, quando de repente, para total decepção da clériga, Gromsh acabou tropeçando e chamando a atenção dos magos.

            A reação foi óbvia: um dos magos conjurou uma magia para revelar seres invisíveis. Percebendo que a entrada furtiva já havia falhado, Sabal atacou um dos guerreiros próximos, tendo em mente que Stongest e Mirka dariam cabo dos magos. Ela não se decepcionou dessa vez, Stongest atacou rápida e mortalmente um mago que estava preparando uma magia, enquanto Mirka atingiu seus mísseis mágicos naquele que havia feito a magia para revelar o invisível. Inspirados no guardião e na kobold maga, os outros pequenos atacaram todos ao mesmo tempo o mago que faltava, não dando chances de reação.

            A luta começou. Enquanto Sabal enfrentava dois guerreiros, Stongest eliminava facilmente o mago que Mirka havia atingido com seus misseis mágicos. Enquanto isso dois guerreiros enfrentavam os cinco pequenos e Mirka. Sabal não conseguia ver a situação de Gromsh, mas pela rápida reação de Stongest indo em direção de onde o gnoll se encontrava, algo nada bom estava ocorrendo.

            O foco de sua atenção passou a ser os dois guerreiros que ela estava enfrentando e apenas depois de matar o segundo que a clériga conseguiu olhar a batalha ao seu redor.

            – Mirka! Reshna! Fiquem perto de mim! – grita Sabal às duas kobolds.

            Reshna atinge mais uma flecha de sua besta no peito do único orc que sobreviveu aos seis pequenos e pede para Mirka ir para junto da clériga antes dela. Mirka fica indecisa, mas entende que Reshna seria mais hábil em atrapalhar a atenção do orc do que ela; talvez suas magias fossem mais úteis mais a frente.

            Sabal caminha para ficar um pouco mais perto das duas, mas logo se vira para enfrentar mais um orc. Pelo que havia reparado o orc que a está atacando é um dos guardas que veio em auxílio do grupo. O primeiro golpe é feito pelo orc, mas Sabal consegue defender habilmente com seu escudo. Logo o orc desfere um segundo golpe em sua direção, mais um bloqueio bem sucedido é feito, porém dessa vez ela encosta o escudo em seu corpo e utiliza a posição para dar um encontrão no orc, que perde o equilíbrio e cai no chão. Em suas costas Sabal escuta Mirka recitando algumas palavras arcanas enquanto Reshna grita. A clériga sente um estranho aperto em seu coração ao escutar o grito da kobold, mas ignora e prossegue em sua luta.

            Quando o orc está para se levantar Sabal o atinge com sua morningstar no seu ombro. O orc se contorce de dor ao sentir seu ombro se dilacerando e a eletricidade fluindo por seus músculos. Sem perder tempo a clériga esfacela o rosto do orc com um golpe extremamente brutal e logo se vira para ver o orc que havia matado Reshna.

            A clériga sente Mirka tocar em sua perna. Ela havia matado o orc que matou sua irmã de raça com alguma magia, mas outro orc já estava vindo na direção das duas. Sabal se posicionou para proteger a kobold, mas foi desnecessário, pois Stongest surgiu pelas costas do adversário e o atingiu mortalmente com seus dois machados na região dos rins.

            “Estávamos sendo vigiados”, rosna Stongest para Sabal enquanto essa observa para ver se mais algum orc estava vivo.

            “Estávamos? Já foi embora?”, pergunta a clériga na mesma linguagem, fazendo sinal a Gromsh para que esse se aproximasse dela.

            “Sim”, responde com um rosnado breve o meio-goblin enquanto a clériga saca sua varinha de cura para utilizar no gnoll que está com um grande ferimento causado por um dos machados dos orcs.

            “Então não podemos perder mais tempo. Precisamos ir”, rosna a clériga logo após ter dito as palavras de ativação da varinha e tocado o gnoll.

            – Brigado, Senhora. – agradece Gromsh.

            “Não sem antes fazer um pequeno ritual de homenagem aos nossos irmãos mortos”, retruca Stongest em rosnados, pegando os corpos dos cultistas de Lolth mortos e enfileirando-os.

            Sabal pensa em retrucar sobre a inutilidade daquele ato, mas percebe que não seria muito inteligente de sua parte, já que Gromsh e Mirka estão próximos.

            – Não se preocupe Stongest, eu farei um ritual em homenagem a eles. Enquanto isso você poderia acompanhar Gromsh mais a frente, para ver o que nos espera. – diz em tom baixo a clériga, enquanto retira seu punhal de aranha da sua piwafwi.

            Stongest e Gromsh partem, enquanto Mirka e Sabal fazem as orações e o ritual de arrancar o coração de seus irmãos e despejar o sangue no ídolo de Lolth, que está na bagagem da clériga.

            Após o termino do ritual Stongest e Gromsh retornam:

            – Sabal e Mi’ka, venham com nós. Encont’amos algo. – diz o guardião.

            – Antes vamos dar uma olhada no que esses orcs possuem e vamos dividir os alimentos que nossos irmãos carregavam. – responde Sabal enquanto Stongest faz um aceno positivo com a cabeça.

            Os alimentos são divididos enquanto Gromsh fiscaliza os orcs mortos.

            – Encontrei uns amuletos aqui. – diz Gromsh rindo – Será que são mágicos Mirka?

            Mirka recita algumas poucas palavras mágicas enquanto gesticula com suas pequenas mãos. Ela olha para os amuletos que o gnoll está segurando e depois de uma tempo diz:

            – São sim. Guarde eles, Gromsh.

            Após a divisão de alimentos e a coleta de amuletos, eles caminham mais a diante no túnel, onde uma oração em abissal está escrita na parede.

            – Palavras de poder. – diz a clériga.

            Mirka utiliza mais uma vez sua magia para detectar aura mágica e diz logo em seguida:

            – Runas mágicas. Parece que é uma armadilha.

            – Que pode estar tendo seu poder ampliado pelas oração a um demônio chamado Shormongur. – complementa a clériga.

            Stongest apenas observa o túnel mais adiante enquanto as duas conversam.

            – Você conseguiria desativá-las Mirka? – pergunta a clériga.

            – Consigo, mas não sei se é a melhor opção, Senhora. Afinal eu posso acabar ficando sem magias quando for realmente necessário. – responde a kobold humildemente.

            – Tem alguma outra idéia? – pergunta Sabal.

            – Quero analisar os amuletos antes, se a Senhora permitir. – responde a pequena kobold recebendo um aceno positivo com a cabeça por parte da clériga.

            – Deixem que eu cuido das a’madilhas físicas. – diz Stongest pegando as duas de surpresa.

            – Como? – pergunta Sabal sem entender direito.

            – Há a’madilhas físicas também além das mágicas. Deixem que eu desa’mo elas. – responde o meio-goblin como se dissesse o óbvio.

            – Que merda. Tô me sentindo tão inútil. – comenta Gromsh sentando no chão e encostando-se ao muro cabisbaixo.

            Mirka ri, enquanto Sabal apenas sorri e Stongest continua observando a passagem em busca de mais armadilhas.

Anúncios
%d blogueiros gostam disto: