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Ossos do Ofício

Não era fácil se tornar um agente do “Project Immortuos”, pois devia-se não só treinar o corpo e as capacidades de investigação, como durante os dez anos de treinamento passava-se também estudando medicina tradicional chinesa, tibetana, indiana e ocidental. Só após os testes de conhecimento a respeito de sintomatologia baseadas nesses estudos é que o policial tornava-se um agente e começava a “caçar”.

No Brasil, isso não é diferente. Leandro Paiva, que recebeu a intimação para participar do “Projeto Immortuos” assim que ingressou nas forças armadas brasileiras e se destacou pelo seu preparo físico, foi dado como morto para a sociedade, recebeu o nome de Evandro Alberto de Oliveira e iniciou seu intenso treinamento diário, no qual acordava às quatro da manhã e dormia à meia-noite. Um agente em treinamento não tinha fim de semana ou feriado, os dez anos eram intensos e reveladores, além de o tornar um predador quase perfeito.

Mesmo isolado e sentindo-se uma criatura a par da humanidade, é graças a esse treino que Evandro sobrevive atualmente.

Ele escuta o som de um carro na frente de sua casa e pragueja pela ignorância do motorista; provavelmente ele está chamando a atenção de vários immortuos na região. O veículo parece parar e ele escuta a campainha tocar.

Com todo seu conhecimento, Evandro sabe o quanto deve-se ter cautela na “nova situação mundial”. Com certeza devem haver centenas de debile e sapiens immortuos espalhados por ai. Seria tolice dele atender a campainha.

O carro logo desliga e Evandro sorri, caminhando até a porta, de onde escuta barulhos de pancadas e estalos na cerca elétrica. Após escutar o segundo baque de alguém pulando o muro, ele a abre e vê um vulto pulando para dentro de sua residência. Sem pestanejar ele saca sua arma e derruba a “criatura” com um tiro no pescoço e outro na cabeça.

As outras duas “criaturas” pulam para trás de seu carro na garagem se escondendo de sua vista e gritando algo como: “Pare, por favor!”. “Se forem immortuos, são dos inteligentes”, constata Evandro resolvendo iniciar uma conversa:

– Quem são vocês?

– Somos vivos! Viemos buscar ajuda! – responde um deles com uma voz ansiosa.

Cautelosamente, Evandro prossegue:

– Vieram realmente buscar ajuda? Ou querem tomar minha casa? Ou, talvez, comer a minha carne?

Há um breve momento de silêncio, um possível sinal de surpresa por ele estar certo, ou espanto de alguns sobreviventes que achariam estranho alguém tentar conversar com os immortuos.

– Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! – responderam eles, surpreendendo o policial – Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!

“Gustavo?”, pensa o policial tentado a acabar com aquela conversa e ajudar o bom mecânico. O tal mecânico e sua família, mesmo não tendo uma relação real de amizade com ele, foram os únicos seres humanos com os quais Evandro se simpatizou após seu treinamento.

– Digam seus nomes. – ordena ele.

– O meu é Lúcia. – responde a mulher da dupla.

– Meu nome é Paulo Vieira Sales. – responde o homem logo em seguida.

– Venham até algum local que eu possa vê-los. – as duas pessoas caminham lentamente com as mãos na cabeça – Agora tirem as roupas.

Ambos se olham estupefatos, ouvindo o policial chamar suas atenções:

– Andem logo!

Afinal, não é porque eles sabem seu nome e o do mecânico que ele não se certificará dos sinais. Foi graças aos orientais que os agentes do “Project Immortuos” conheceram esses sinais, permitindo assim a identificação prévia de pessoas que tornariam-se immortuos após falecerem; porém, não era algo fácil de ser percebido. Evandro lembra de quando teve que matar um dos mecânicos que trabalhavam para Gustavo, ao perceber que tal funcionário possuía pelos menos três dos sinais da “doença”.

Atualmente, os sinais da “doença” são insignificantes, pois todo mundo os tem. Porém, os sinais daqueles que já se transformaram são outros, e são esses sinais que Evandro quer se certificar de que a dupla não possui.

– Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’. – ordena Evandro para o casal pelado a sua frente.

– Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos? – perguntou a mulher, que parecia ser mais corajosa, gerando um pequeno olhar de inveja por parte de seu parceiro. “Ele queria ter feito a pergunta”, comenta a si mesmo o policial, percebendo como aquele homem se sente incomodado pela figura de liderança que aquela mulher representa.

– Não. – sua resposta é seca, o que faz com que os dois o obedeçam sem mais questionamentos.

Ele observa com cuidado e vê alguns dos “sinais menores” mais óbvios que ele aprendeu na medicina oriental: peles um pouco ressecada, veias levemente atrofiadas, olhos com pouco brilho, baixa sudorese. Porém, nada dos sinais “maiores” que os caracterizariam como immortuos.

– Ótimo, seus amigos estão esperando na frente? – pergunta Evandro escutando o carro ligar novamente.

– Sim. Por favor, abra logo o portão, deve ter criaturas se aproximando. – responde Paulo.

Evandro pega o controle de seu bolso e abre o portão.

– Vistam-se. – diz ele para Paulo e Lúcia, enquanto vê o mecânico entrar com a fiorino.

O policial suspeita que a idéia de ter ido procurá-lo, tenha sido de Gustavo. Talvez, finalmente, ele tenha entendido o recado de sua “ameaça” e de que, na verdade, Evandro nunca representou perigo para ele e sua família.

Quando Evandro percebeu os “sinais menores” em Joel – um homem gordo, que se encharcava de suor em pouco tempo, mas estava seco após quatro horas de trabalho – sentiu um pequeno incomodo, pois saberia que aquilo colocaria seu “amigo” Gustavo em risco. Na mesma noite em que percebeu os tais “sinais”, Evandro começou a investigar Joel mais de perto, para certificar de que ele possuía os outros sinais: mucosas esbranquiçadas, diminuição do apetite, calcificação nas unhas, e assim por diante. Para isso, o policial, após analisar algumas fotos que tirou do tal Joel, optou por destruí-lo.

Ele foi até a casa de Joel e esperou dar 20:00hs, o horário que o mecânico deixava sua esposa e seus filhos em casa e ia tomar “uma dose”. Chegando na primeira esquina de sua rua, Joel foi interceptado por Evandro que o estrangulou, sem deixar brecha para perguntas como: “Por que?”, ou súplicas. Aquele homem não tinha culpa, era mais uma vítima do acaso genético ou seja lá o que for, Evandro não saberia o que lhe dizer e, portanto, preferia não conversar com sua presa.

Assim que Joel caiu desacordado, Evandro sacou sua pistola com silenciador e atirou na cabeça dele, no mesmo instante que esse abriu seus olhos famintos. Com um certo esforço, o policial levou o corpo de Joel para um terreno baldio próximo e lá esperou a pequena movimentação do bairro diminuir. Quando deu meia noite, foi que Evandro começou a mutilar o corpo para guardá-lo em sua caixa, sem sentir o mínimo de arrependimento, pois sabia que estava cumprindo seu dever.

Evandro passou aquela noite pensando como “contar” para Gustavo sem revelar exatamente o que ele fazia; ele não queria perder o contato com o mecânico. Foi assim que ele optou por não dar fim no corpo e levar seu carro para o mecânico logo de manhã.

Ao ver o mecânico estacionando o carro e o portão terminando de fechar sem nenhum immortuo adentrar, ele se aproxima para cumprimentá-lo. Ele é uma das poucas pessoas que o policial tem real consideração, e proteger a ele e sua família, trará alguma humanidade para sua vida novamente. “Com certeza trará”, conclui Evandro, sem refletir sobre como sua presença afetará a vida do “bom mecânico”.

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Abusos

Há tempos que ninguém do grupo tomava banho de chuveiro. Os banhos, quando eles ainda estavam na casa do sr. Fábio, eram tomados com águas fervidas em panelas e deixadas para esfriar em baldes de plástico.

Inevitável não sentir o cheiro de plástico na água. Inevitável que os banhos fossem tomados com águas em temperaturas não condizentes com a vontade dos banhistas; ou estava muito fria, ou muito quente, mas dificilmente se encontrava da maneira desejada.

Aquilo, porém, era de extrema necessidade, supunham eles, afinal, como garantir que os mortos não haviam contaminado as reservas de água? Como garantir que a caixa-d’água, depois de esvaziada, não fosse enchida com água contaminada? Ou que o filtro de água, embutido na parede da cozinha, possuía real capacidade de eliminar as impurezas trazidas por pedaços de cadáveres em putrefação?

“É melhor prevenir”, dizia Sônia para seus colegas, durante os dias que passaram naquela residência no bairro do Taquaral. Era ela que cuidava “desses assuntos” – higiene e limpeza – para o grupo. Todo dia ela fervia a água que seria usada no banho e que seria tomada durante o dia. Uma vez ela tentou usar galões de água mineral para armazenar água para uns três dias, mas não conseguiu. Afinal, aquelas pessoas eram “mimadas”, dizia ela para si mesmo, tinham “personalidade forte”, dizia aos outros.

Agora no laboratório as coisas são diferentes. Ela não mais precisa ficar cuidando da água; da faxina sim, mas pelo menos uma responsabilidade a menos. Além disso, a cada dois dias cada civil tem direito a tomar banho de chuveiro, de uma água que vem de um reservatório próprio de lá. “Que bom”, pensou ela assim que soube da notícia.

Sentindo a água cair em seu corpo maltratado, de quem trabalhou desde a infância com trabalhos pesados para por alimento na mesa da família, Sônia se considera merecedora daquela regalia. Contenta-se por conseguir relaxar com um bom banho no final do dia de trabalho.

Mesmo sendo uma pessoa simples, com marcas de trabalho em seu corpo: mãos e pés calejados e rachados, algumas rugas aparecendo antes do tempo, pequenas cicatrizes de acidentes domésticos, ainda sim, Sônia era uma mulher bonita e vaidosa, forte, com cabelos bem cuidados, olhar meigo e amigável, e com um belo sorriso de quem se preocupa com sua saúde, assim como com a dos outros.

Como quase tudo na vida de Sônia, sua relação com a própria aparência caminhava em altos e baixos. Apesar de todos os cuidados, aquelas marcas das dificuldades pela qual passou – e ainda está passando – gritam mais aos seus olhos. Para ela, nunca alguém iria desejá-la além de seu marido. Por causa desse pensamento ela agüentou tudo o que passou nas mãos dele.

Mas agora isso é passado. Se há algo bom que os mortos trouxeram em sua perambulação faminta é a chance de renovação na vida das pessoas. Sônia sentia isso em seu íntimo, mas negava. Parecia um pensamento maldoso demais, ver esse “fim do mundo” como algo bom. Entretanto, sempre que pensava em seu passado, em seu marido, Sônia agradecia a Deus pelas coisas terem mudado, mas logo batia três vezes na madeira para afastar esse pensamento satânico. Essa alegria de ter deixado seus problemas para trás, enquanto várias pessoas sofrem com tudo o que está acontecendo.

Claro que Sônia também estava sofrendo com tudo isso. Ela havia, com certeza, perdido uma filha e um filho, seus pais, irmãos e avôs. Mas com a água caindo em sua cabeça e costas, Sônia se sentia aliviada, sem conseguir pensar em seus entes queridos. O toque da água do chuveiro em suas costas lembrava-lhe os dedos de um namorado que teve a muito tempo, pressionando os pontos tensos e fazendo-a relaxar.

Sônia abre os olhos com terror, a semelhança da pressão era grande demais. Ela tenta virar rapidamente, mas o soldado a impede, tirando-a de baixo d’água e arrastando-a para fora do box. Sônia pensa em gritar, mas logo vê que o soldado não está sozinho, que há um de seus companheiros apontando uma arma para ela. Ela engole o grito. Já havia passado por algo semelhante na adolescência; não desejava passar por aquilo de novo, mas gostaria de continuar vivendo.

O soldado que a está agarrando começa se despir em sua frente, enquanto ela se mantém estática, paralisada de medo e repulsa. Com o inferno solto na terra, ela foi tola em acreditar que os homens construiriam algum tipo de paraíso. “Os mortos estão andando e fazendo o que fazem, por causa dos nossos pecados”, disse ela uma vez para Paulo, o psiquiatra “safado” de seu grupo, que debochou da cara dela como um bom ateu.

Sônia se culpa por sua ingenuidade. E pensa em como sair daquilo, mas não consegue ver nenhuma possibilidade de escapatória sem se colocar em risco de morrer. Ela sabe que os militares mandam naquela base, então sua morte seria facilmente ignorada, o que a deixou mais temerosa.

“Por que eu não vim tomar banho com as outras faxineiras?”, se culpou mais uma vez Sônia enquanto o homem pelado em sua frente começava a lhe acariciar, deixando ela com mais repulsa e ódio. “Que Deus me perdoe!”, o homem nu cai ao chão curvado, urrando de dor. Ela sentiu os testículos dele esmagarem entre seu joelho e a pélvis do infeliz.

Sônia esperava escutar um som antes de cair morta, mas nada disso aconteceu. Ela nem escutou o som, nem caiu morta. Se afastou do soldado caído e olhou espantada para o outro soldado, que estava desarmado e paralisado olhando para ela com medo e um suor frio descendo em seu rosto.

– Vista-se. – disse Evandro para ela, enquanto mantinha sua arma apontada para lateral da cabeça do soldado. Junto com ele estava Beto e Ricardo. Beto apenas olhava tudo aquilo com curiosidade, já Ricardo havia se aproximado do soldado que estava agonizando no chão e apontava para a cabeça dele a sua arma. – E vamos sair daqui.

Sônia se enxugou rapidamente e se vestiu sem se preocupar com a presença dos outros homens no banheiro. Ela percebeu que eles estavam conversando algo sobre “o que fazer”, mas não conseguiu prestar atenção. Seu coração estava acelerado, mas agora era de alguma espécie de alegria e alívio.

– Vocês ficam e só saiam daqui, após dez minutos. Depois conversarei pessoalmente com vocês e seus superiores em um lugar mais apropriado. – disse Evandro aos dois soldados.

Sônia não entendia porque Evandro era tão temido e respeitado. Nem mesmo gostava dele, principalmente pelo que ele tinha feito com o irmão de Marcela, mas naquele momento ela percebeu que ele tinha um bom coração por baixo de todos aqueles calos. “Talvez ele só tenha sofrido muito nessa vida”, pensou.

– Muito obrigada, sr. Evandro. – agradece ela enquanto eles saiam do banheiro e iam em direção do dormitório dos civis.

– Não é a mim que você deve agradecer. – responde Evandro secamente, como se nem mesmo tivesse sido tocado pelo episódio – Agradeça a esse moleque punheteiro.

Aquelas palavras surpreenderam a todos, principalmente por estarem saindo da boca do policial. Sônia olha para Beto que instantaneamente fica vermelho, quase roxo de vergonha, enquanto a risada de Ricardo a deixa igualmente encabulada.

Ameaças

Ao mesmo tempo em que cumprimenta Evandro, Gustavo agradece a Deus por ter se mantido fiel àquele “assassino”. Ele nunca soube exatamente o que seu cliente fazia, após a ameaça, preferiu nunca perguntar, porém, com os atuais acontecimentos, ele suspeita realmente de que Evandro sabe algo sobre os cadáveres ambulantes que estão por toda parte.

Evandro já freqüentava a oficina mecânica de Gustavo a um ano, quando Joel, seu funcionário, encontrou várias marcas de sangue no porta-malas do policial. A partir desse ocorrido, Gustavo começou a cuidar pessoalmente do carro de Evandro após o expdiente, para que mais nenhum funcionário se envolvesse com aquilo.

O policial sempre foi um cliente sinistro. O mecânico o considerava “muito mafioso”, o que era assustador. Porém o mais grotesco aconteceu após um ano e meio de clientela.

– Joaquim, arruma essa calça! – disse Gustavo para um de seus subordinados – Os clientes não precisam ficar vendo seu cofre.

– Desculpe, senhor Gustavo. – Joaquim respondeu rindo enquanto arrumava sua calça.

– Você não sabe mesmo porque Joel faltou hoje? Ele nunca faltou sem avisar. – perguntou Gustavo sem deixar sua preocupação acabar com seu bom humor.

– Não sei não, senhor Gustavo. Talvez a mãe dele teve que ser internada de novo. – respondeu Joaquim parando o que estava fazendo para olhar para o seu chefe.

– Mmm. Pode ser. Vou ligar para ele e ver se está tudo bem. – comenta Gustavo.

Ele continuou observando o que seus mecânicos estavam fazendo, e depois retornou para o escritório a fim de ligar para Joel e resolver as questões burocráticas de compras de peças para a oficina. Sua oficina havia crescido nos dez anos de funcionamento, “Minhas duas filhas estão crescendo bonitas e saudáveis”, dizia ele se referindo a sua oficina e sua filha Sofia, mas ainda assim, sua prioridade no momento era saber como estava Joel.

Gustavo sempre teve muita consideração por seus funcionários. O bem estar deles era sua prioridade, sem hipocrisia, pois ele não dizia isso, não fazia propagandas de seu “bom coração”, mas as pessoas sabiam; ainda mais aqueles que conviviam diariamente com ele. Sua preocupação era sincera e aumentava a cada tentativa de telefonema frustrada. O telefone tocava e tocava e ninguém atendia.

Ocupado com as ligações e devaneios a respeito do que poderia estar acontecendo com Joel, ele não ouviu Evandro se aproximar da porta.

– Gustavo? – o chamou suavemente.

O mecânico deu um pulo na cadeira. Aquele homem lhe causava arrepios. Ele era a causa de suas más noites de sono e daquela frase sobre as duas filhas ter deixado de fazer sentido.

– Senhor Evandro. – Gustavo foi cumprimentar Evandro tentando não demonstrar o incomodo – Como o senhor está?

– Ótimo. – respondeu secamente – Estou com pressa, portanto tome a chave e cuide bem do meu carro.

Gustavo ficou perplexo, pegou a chave e demorou a dizer algo olhando o para o objeto que estava em sua mão. Quando foi se despedir, Evandro já havia partido. Sem demora Gustavo foi limpar o exterior do veículo e fazer o check-up completo, deixando para limpar o interior depois do expediente.

Quando todos os seus mecânicos foram embora e sua mulher e filha estavam assistindo tv, ele abriu o porta-mala da blazer e iniciou a limpeza interna de trás para frente, a fim de tirar qualquer cheiro “esquisito” que tivesse impregnado o veículo, mas para sua surpresa, ele percebeu que talvez a fonte daquele cheiro não havia sido retirada da pick-up.

No porta-malas havia uma caixa marrom. Por estar sem cadeado, Gustavo pensou que sua suposição estaria errada. Ele limpou as manchas de sangue da caixa e resolveu abri-la para limpar dentro, mas aquela foi a maior idiotice que ele fez em sua vida. Dentro da caixa havia um cadáver mutilado com sua cabeça em cima das outras partes, como se tivesse sido posta para encarar quem ousasse abrir a caixa.

Gustavo vomitou pelo menos umas cinco vezes seguidas, tentando não fazer muito barulho para que Carla não resolvesse ver o que estava acontecendo. A impressão que ele teve foi de que o rosto era de alguém conhecido e aquilo o incomodou ainda mais. Assim que conseguiu se recuperar, o mecânico olhou novamente para o rosto do cadáver e fechou rapidamente a caixa, horrorizado.

– Joel… – se lamentou enquanto pegava um cadeado para trancar a caixa. Ele assim o fez, deixando a chave no porta-luvas da blazer.

Suas emoções eram um misto de angústia, raiva e medo. Mesmo sentindo a miscelânea de sensações, Gustavo prosseguiu com seu trabalho com lágrimas nos olhos e foi tentar dormir, mas não conseguiu. Ele rolou de um lado para o outro da cama, fazendo com que Carla o expulsa-se para o sofá, já que ele tentou ao máximo esconder o verdadeiro motivo da insônia para ela.

Assim que ele abriu a oficina na manhã seguinte, Evandro já estava aguardando para pegar seu veículo. Gustavo não falou nada, nem mesmo o cumprimentou, apenas o levou até o escritório para entregar a chave. Ele queria falar para o policial que ele era um monstro e que desistia de tê-lo como cliente, que não queria ser seu cúmplice, mas ao mesmo tempo tinha medo. E se ele tivesse matado Joel justamente por ele ter visto o sangue em seu porta-mala? E se ele falasse algo que fizesse Evandro querer descontar em sua família? Essa confusão o estava corroendo.

Evandro pegou a chave e virou-se.

– Evandro? – Gustavo chamou sua atenção com uma voz carregada – Gostaria de conversar com você.

O policial olhou para ele, mas não demonstrou nenhuma surpresa. Aquilo parecia premeditado. “Será que ele deixou o cadáver para que eu o visse?”, se perguntou Gustavo.

– Seja breve. Tenho que fazer uma entrega de material. – disse Evandro secamente.

– Eu não quero mais participar disso. – respondeu Gustavo, controlando seu desespero – Vi o “material” que você tem para entregar, e ele era meu amigo. Como você pôde… – ele dá uma breve pausa – Não quero mais ser seu cúmplice.

O olhar de Evandro tornou-se ainda mais frio e agressivo.

– Espero que não esteja pensando em fazer besteira. – ameaça Evandro o encarando.

– Não. Não vou falar com ninguém, apenas não quero mais participar. – retrucou Gustavo quase gaguejando.

– Ele não era mais seu empregado, nem mesmo estava entre nós. Eu não mato nada que já não esteja morto. – disse com a voz fria, fazendo Gustavo engolir em seco ao escutar aquelas enigmáticas palavras – E acredite: me ajudar será benéfico para você e para sua família. – aconselhou o policial, fazendo Gustavo tremer ainda mais ao perceber a ameaça escondida naquelas palavras.

Ele não conseguiu dizer mais nada. O policial o cumprimentou e partiu.

Na época Gustavo não havia entendido. Agora, descendo da fiorino na garagem da casa de Evandro, sabendo o que tem lá fora, Gustavo não sente mais aquele medo e arrepio que sentia, na verdade, ele se sente mais seguro em sua presença.

– Cadê sua filha? – pergunta Evandro amigavelmente.

– Morreu. Foi pega por um “deles”. – respondeu Gustavo com pesar.

– Uma pena. – respondeu Evandro.

Gustavo queria lhe perguntar o que havia acontecido com Joel, mas preferiu não fazê-lo. Sua suspeita de que Evandro sabe sobre o que está acontecendo não é uma certeza, e ele prefere manter essa sensação de segurança que não sentia desde que tudo começou. Infelizmente essa segurança não o conforta completamente, pois junto com a sensação, está a tristeza da culpa pelo que ocorreu com Sofia.

Senzala

Numa noite fria de julho, era possível escutar da senzala os gritos dos senhores na casa-grande. O vento soprava forte, uivando enquanto fazia o canavial se mover em uma dança ondulante e fantasmagórica. André, filho “mais moço” do senhor de engenho, chegou ofegante junto aos escravos naquela noite, trazendo medo e inquietações. Ele os libertou e lhes suplicou proteção. Aqueles gritos que eles ouviam tornavam desnecessárias quaisquer perguntas que surgiram na mente dos escravos a respeito da atitude do senhozinho André Malta.

Eles nada perguntaram para o sinhozinho, apenas o escutava murmurar baixo, enquanto olhava em direção à casa-grande:

– Minha irmã está morta. Minha irmã está morta.

Eles sabiam que a irmã de André, Maria de Andrade Malta, havia falecido por envenenamento a três dias e estava sendo velada na casa-grande, como era de costume. Porém, aqueles que conheciam português e entendiam os murmúrios de André, não compreendiam o significado daquelas palavras. Imaginavam, talvez, que sua irmã, que teve uma morte deveras sofrida, vítima de uma dívida de jogo de seu pai, tenha surgido como um espírito sedento para se vingar de sua família. Ninguém sabia ao certo, mas talvez eles estivessem certos.

Talvez.

A inquietação estava se tornando quase um tumulto, quando os gritos dos empregados da mansão cessaram e o silêncio caiu como uma pedra na senzala. Com ele uma grande tensão começou a se formar e tornou o tempo algo lento e rastejante.

Um vulto, veloz e barulhento surgiu na porta da senzala, fazendo todos os escravos se afastarem. Com a fraca luz da lua, eles conseguiam reconhecer a sinhazinha com olhar insano, gritando e correndo na direção de seu irmão, que, petrificado de medo, não havia saído do lugar e estava mais próximo da porta. André, ao vê-la se aproximar, entrou em pânico e tentou se esconder entre os escravos, mas esses não o protegeram, muito pelo contrário, o entregaram aos berros para aquele “espírito” que corria em sua direção. Eles imaginavam que aquilo deixaria o “espírito” satisfeito e ele iria embora, afinal, a vingança era contra a família, pensavam eles.

Mas algo no olhar de Maria, revelava que eles estavam errados.

Família

Foram mais de quinze anos sem falar com seu pai. Ele havia trocado sua mãe por “uma qualquer” e isso era imperdoável para ela. Mesmo com seu pai fazendo várias tentativas de se reaproximar, Cássia se recusava a vê-lo quando ele a visitava e não fazia questão de atendê-lo ao telefone. Quando seus irmãos tocavam no assunto “pai”, inicialmente ela se revoltava com a atitude “conivente” deles, posteriormente ela simplesmente passou a ignorar.

As coisas mudaram. Sentindo o tremor nas mãos de seu pai, Cássia sente empatia novamente por aquele que lhe concebeu e criou. Ela sabe o quanto ele está aflito, pois é a mesma aflição que ela sente; ou pelo menos é o que ela imagina. Eles estão aguardando o sinal para saírem do apartamento. O risco é enorme e eles sabem disso. Hoje em dia, tudo é muito arriscado, mas não há alternativa, não no condomínio onde eles se encontram. Ela não quer morrer, principalmente agora que conseguiu perdoar seu pai.

Principalmente agora que ela está criando coragem para dizer isso a ele.

Desde que tudo começou – de que os mortos começaram a levantar-se e devorar os vivos – as coisas mudaram muito, não só no mundo ao seu redor, mas internamente. Cássia ainda estava sem se falar com o senhor Fábio na semana anterior da “epidemia”, quando sua mãe passou mal e foi hospitalizada. Irene havia tido um grave AVC e seria induzida ao coma. Aquilo foi um baque para toda a família, inclusive para o senhor Fábio.

Cássia visitava sua mãe diariamente, buscando notícias que a tranqüilizasse e a permitisse dormir novamente, mas nada veio durante seus cinco dias de espera. Foi no quinto dia, que as coisas começaram a piorar.

O hospital começou a separar alas para suspeitos da “nova doença”, ninguém explicava o que estava acontecendo, os médicos nem mesmo pareciam saber exatamente o que era aquilo com o que estavam lidando, os pacientes estavam temerosos e os familiares, principalmente daqueles que estavam sendo levados para a nova ala, ficaram apreensivos com a falta de informações. Todos os que estavam correndo risco de morrerem, eram colocados na nova ala, pois eram “suspeitos de contaminação”; o que apenas confundia e amedrontava ainda mais os freqüentadores do hospital, já que o único “sintoma” era extremamente abrangente.

Quando os médicos optaram por levar Irene para a ala dos “suspeitos da nova doença”, sr. Fábio estava junto e discutiu com os médicos para não a levarem, pois aquela medida era “incabida”, mas foi inútil.

Entretanto, aquela preocupação de seu pai tocou levemente Cássia, que no momento oportuno, puxou conversa com ele, surpreendendo-o. Ele estava abatido e magro, não só por causa do estado de sua mãe, mas também, como ela ficou sabendo durante a conversa, porque a “puta” havia o deixado. Essa informação gerou apenas raiva e uma sensação de vingança concretizada em Cássia. Ela queria sentir “pena”, “dó”, “compaixão” – ou seja lá como chamam – por seu pai, mas não conseguia, não ainda.

Cássia começou a cutucar seu pai, dizendo que ele estava lá apenas porque se sentia carente, mas antes de ter uma resposta, uma balbúrdia na ala dos “suspeitos” os interrompeu. A preocupação com sua mãe, levou Cássia correndo até a porta da ala, acompanhada pelo sr. Fábio. Ao chegarem, o susto tornou-se pavor. Eles ouviam tiros e gritos selvagens e aterrorizados vindos de lá.

Sr. Fábio, temeroso, ameaçou em abrir a porta, quando ela se escancarou, dando passagem para cinco policiais, que a trancaram novamente.

– Vão embora! – gritou um deles para Cássia e seu pai, sem nem mesmo olhá-los.

Ela tremeu e sentiu se pai estremecer ao mesmo tempo.

– Não posso. Minha mulher está ai! – disse o sr. Fábio, deixando Cássia ainda mais surpresa com a escolha da palavra naquele momento angustiante.

– Se ela está ai, já está morta. Agora vão embora antes que vocês também morram. – disse o policial sem nenhuma sensibilidade pela dor deles.

– Tenho pelo menos o direito de saber o que está acontecendo. – retrucou Fábio, firme, encarando o policial.

– VAI EMBORA, PORRA! A MERDA SAIU DO CONTROLE! AGORA SE VOCÊ QUISER SOBREVIVER JUNTO COM ELA, VAI EMBORA! – a raiva do policial fez sr. Fábio dar um passo vacilante para trás, quase caindo. Cássia o segurou pelo braço e começou a guiá-lo para longe dali. Ele não gerou resistência alguma, estava aterrorizado. Tremia muito, como “vara verde”, ele diria.

No condomínio, ela sente algo semelhante que fez sua memória a transportar para aquele dia. A mão de seu pai está tremendo convulsivamente apertada na sua, que com sua própria tremedeira, apenas amplia a vibração. Ela olha para seu pai e eles sabem que terão que passar por algo semelhante ao que passaram ao fugir do hospital. Correria, empurra-empurra, sufocamento, pânico, histeria.

Ricardo faz algum barulho que eles associam rapidamente ao sinal que estavam aguardando. Cássia e sr. Fábio, junto com os outros, correm para fora do apartamento e descem a escada do segundo andar ao térreo, gritando o sinal para os outros moradores. Os demais inquilinos passam esbarrando uns nos outros, desesperados por sobreviverem, sabendo que em poucos minutos o pátio estaria cheio daquelas criaturas famintas que tentavam a todo custo entrarem no condomínio.

Eles se aproximam da porta do prédio e escutam tiros e gritos selvagens e aterrorizados vindos de fora. Cássia sente um arrepio e, lutando ao máximo contra o pânico querendo paralisá-la, ela abre a porta do prédio e vê a multidão de criaturas mutiladas correndo através do portão escancarado do pátio.

Aquela visão desperta em sua mente imagens semelhantes que ela presenciou no hospital, o que torna o fato ainda mais aterrorizante. Quando ela e seu pai obedeceram à ordem furiosa do policial, eles caminharam poucos passos quando ouviram um estrondo seguido de alguns tiros vindo do fim do corredor. Eles olharam para trás e viram uma multidão ensangüentada e ensandecida atacando os policiais que cuidavam da porta. Cássia teve tempo de ver uma das criaturas morder o pescoço de um dos policiais e arrancar um pedaço com violência, deixando o corpo cair ao chão sem vida, antes de sair correndo junto com seu pai e se misturar na aglomeração de vivos enlouquecidos.

Cássia continua correndo, agora em outro lugar, outro momento, mas dessa vez sente um tranco em seu braço, fazendo-a perder o equilíbrio. Ela olha desesperada para trás acreditando que algum dos mortos havia pego seu pai, mas fora pior. Algumas pessoas, fugindo desesperadamente sem rumo, trombaram com seu pai, que caiu com o pé torcido.

– Vai sozinha filha! – grita senhor Fábio aterrorizado.

– Não, pai! Levanta! – retruca Cássia puxando ele para seu ombro, surpreendendo sr. Fábio com a palavra que a tempos não ouvia da boca da filha. Senhor Fábio tenta se levantar, reanimado por como sua filha lhe chamou, porém tarde demais.

O resto da multidão de vivos correndo apavorados tromba nos dois, fazendo o senhor Fábio cair de rosto no chão e ser pisoteado. Cássia, também caída, consegue se levantar o suficiente para não sofrer grandes danos, mas sente uma imensa aflição ao escutar os sons dos ossos de seu pai quebrando embaixo das dezenas de pessoas que o atropelavam.

– NÃO! – grita inutilmente a filha chorando copiosamente.

Assim que a principal massa da multidão passa, ela se estende até o corpo do seu pai e o puxa para perto dela, ignorando a aproximação dos mortos-vivos. Ao aproximar o corpo dele ao dela, Cássia sente sua mão gélida apertar seu braço.

Horrorizada, ela se esforça ao máximo para ignorar aquele olhar insano e aquele corpo semelhante a um saco de ossos quebrados, e imaginar seu pai saudável a sua frente. Ela começa a fala, mas é interrompida por uma dor agonizante em seu ombro, quando ele a morde. Mais uma vez ela se esforça para ignorar aquele fato e imaginar seu pai saudável, tomando coragem para dizer:

– Pai, eu te … – mais uma vez ela é interrompida, mas não por uma única mordida, porém por várias, em muitos lugares de seu corpo. Cássia sente sua consciência ir embora, como se tivesse caindo no sono, anestesiada pela dor.

Delas é o Reino dos Céus

Mesmo fazendo seu trabalho a mais de quatorze anos, Mihai não se acostumou com a idéia de ter de pregar a cabeça de defuntos em seus caixões. Essa não é uma das melhores formas de se ganhar a vida, mas é o que um homem de trinta anos com deformidades faciais consegue fazer sem chamar a atenção de camponeses supersticiosos.

Por trabalhar para a Igreja, Mihai não tem de se preocupar com acusações sérias a respeito de possíveis “relações com demônios” por causa de sua aparência e práticas no cemitério. Como poucos são aqueles que saem de suas casas após o pôr do sol, e menos ainda são aqueles que se aventuram pelo cemitério em companhia das luzes das tochas e dos pálidos brilhos do céu noturno, ele pouco é incomodado por coisas além dos pesadelos e do peso de esconder tantos segredos.

Uma ou outra vez ele já teve experiência que comprovaram a importância de seu trabalho. Mesmo tendo sido experiências raras, foram assustadoras o suficiente para terem impregnado a mente do “gropar”, como os membros da igreja denominam sua função.

Mihai realmente não sabe com o que ele mexe, o que são aqueles mortos inquietos com os quais ele tem que lidar. A Moldavia – tal como grande parte da Europa nessa época – é um reino cheio de superstições e lendas com criaturas sobrenaturais, controlado por uma Igreja ortodoxa que não tem a mínima intenção de que o conhecimento chegue as mãos do povo, ou mesmo de seus servos mais baixos. A Igreja os chamam de “diavol”, “blestemat”, “slujitorii lui Satan”, e um ou outro arcebispo fluente em latim o chamam de “immortuos”. Ele já escutou alguns moradores da vila e viajantes contarem histórias sobre “wampyr”, “strigoi mort” e “moroi”, enquanto os ciganos os chamam de “shilmulo”. Mihai já escutou muitas histórias diferentes a respeito de coisas parecidas, o que corrobora com sua impressão de que se há algum conhecimento sobre essas criaturas, está na mão da igreja, e ainda isso, deixa uma certa dúvida no coração do “gropar”.

Como eles voltam a vida? Por que isso acontece? Como Deus permite que tais criaturas andem pela terra, trazendo sofrimento para homens de bem? Essas são algumas das perguntas que passam por sua cabeça. A Igreja diz que pagões que não se arrependeram de seus pecados, após falecerem tornam-se um deles. Outras razões que a própria Igreja prega sobre os motivos que fazem os mortos voltarem a caminhar sobre o firmamento é: quando o falecido não teve o ritual funerário devido – o ritual funerário cristão – ou aquele que morreu fez algum pacto com satã ou até mesmo mexia com bruxaria. Todas essas e outras respostas apenas alimentam as dúvidas de Mihai, em seu íntimo ele desconfia que ninguém realmente sabe sobre esses monstros que resolvem se levantar de suas tumbas; e se alguém sabe, guarda consigo as respostas. A única coisa que ele tem certeza é que o prego na cabeça realmente funciona.

Algumas crenças populares dizem que o prego deve ser fincado dentro da boca, outras dizem que ele deve ser apenas posto cruzando os lábios do defunto; Mihai sempre ri quando lembra delas, pois não é assim que funciona. Normalmente ele utiliza um prego com um palmo e meio de comprimento o qual ele crava entre os dois olhos do defunto com a ajuda de um martelo. As vezes ele prega através de um dos olhos, quando ele acha que seu imenso prego não será suficiente para fixar a cabeça do defunto no caixão.

Nessa noite, especificamente, Mihai recebeu um prego menor do que o de costume, apenas um palmo de comprimento. Enquanto cava no túmulo indicado, ele não tem dúvidas de que o prego deverá ser posto no olho do defunto.

A terra está macia, pois o cadáver foi enterrado nesse mesmo dia, sem nenhum rito fúnebre. Isso facilita muito seu trabalho, afinal de contas: ele faz tudo sozinho.

Após uma hora de trabalho – que normalmente costuma ser duas e até três dependendo da terra – Mihai começa a retirar os pregos da tampa. É um caixão grande, mas quando ele o abre, se surpreende: o cadáver é de uma criança.

“Das crianças é o Reino do Céu”, comenta ele mentalmente horrorizado por ter de fazer seu trabalho em uma criança. Nesses quatorze anos de serviço, nunca haviam lhe ordenado a fazer algo semelhante. “O que deu nesses padres?”, se perguntou o “gropar”. Não fazia sentido uma criatura tão pura estar condenada a uma existência amaldiçoada.

Ele passa um bom tempo contemplando o rosto inocente daquele cadáver, – um rosto que ele nunca teve – o que faz sua tristeza aumentar. Ele sempre foi uma criatura condenada, mesmo quando era uma inocente criança. Com a ajuda dos padres ele recebeu uma oportunidade de se redimir, de aceitar sua sina enquanto faz um trabalho nobre em nome de Deus; é isso, segundo eles, que garantirá seu descanso quando ele falecer. Esse pensamento, que supostamente lhe daria forças, que lhe daria uma razão para executar seu trabalho sem questionar, na verdade o entristece mais.

Mihai vira-se de costas para aquele corpo, coloca as mãos em seu rosto e começa a chorar. Mergulhado em sua autopiedade, ele não percebe quanto tempo se passa até sua tristeza começar a se transformar em conformismo. Ele enxuga as últimas lágrimas e sente algo tocar em seu braço esquerdo. Antes de conseguir se virar, a dor de uma forte mordida – bem mais forte do que o esperado – o faz gritar e se debater, enquanto vê a criança arrancar um pedaço de seu tríceps. Rapidamente o “gropar” pega seu martelo com o braço bom e atinge precisamente a cabeça da criança que, com o impacto, se afasta alguns poucos centímetros dele, com a boca cheia de sangue, mastigando os pedaços de carne do braço ferido.

Sem perder tempo Mihai a atinge com mais duas fortes marteladas na cabeça e ela cai tremendo convulsivamente em seu caixão com seu crânio esmagado. Ele segura a cabeça disforme da criança para poder pregá-la, ignorando a dor da mordida que levara.

Foram necessárias três marteladas para realizar o serviço. Com muito esforço, Mihai cobre a cova novamente com terra. Suas mãos tremem, não só pela dor da mordida, nem apenas pelo susto, mas pelo frio que ele começa a sentir. Provavelmente ele terá febre nessa noite, talvez terão que amputar seu braço, mas seu maior medo vem na forma de uma pergunta: “Será que me tornarei um deles?”.

Covardia

Ricardo sente o suor frio escorrer em seu rosto enquanto olha para a casa, na qual Paulo, Lúcia e Reinaldo pularam o muro. Enxugando a gota, ele torce para ninguém ter visto, e até certo ponto, torce também para que a casa esteja vazia. A apreensão que ele sente, consegue até mesmo acabar com sua preocupação a respeito dos mortos-vivos que podem surgir a qualquer momento.

A aproximadamente cinco anos atrás, quando estava praticando tiro ao alvo no clube da polícia civil, um homem branco, alto, de cabelo castanho e encaracolado, com feição mal humorada, começou a praticar na cabine ao lado da sua. Ricardo se espantou com a precisão dos tiros daquele homem: todos atingiam na cabeça, freqüentemente entre os “olhos” do alvo.

Após a seção de tiros, o advogado foi conversar com o tal policial, seu nome era Evandro Alberto de Oliveira e já era policial a vinte anos. Ricardo não conseguiu tirar outras informações daquele homem no primeiro dia de conversa, nem no segundo, nem mesmo um mês depois de conversarem quase que todos os dias.

As conversas eram sempre puxadas por Ricardo, pois Evandro era um homem silencioso, com olhar frio e, até certo ponto, bastante antipático. Porém algo chamou a atenção de Ricardo. Como advogado, ele tinha uma grande sensibilidade para possíveis casos com os quais ele poderia ganhar dinheiro. Aquele homem fazia o tipo “policial psicopata” e provavelmente precisaria, uma hora ou outra, de um bom advogado para defendê-lo.

Sua “sensibilidade” não falhou. No terceiro mês, Evandro o chamou para tomar uma cerveja e conversar. Buscou Ricardo no fórum com sua blazer cinza e o levou até o bar. O advogado estranhou o local, era um boteco no Parque Brasília, na entrada da favela. Ele não se esqueceu do nervosismo que passou enquanto eles tomavam cerveja e eram encarados por alguns possíveis “maus elementos”.

– Vou precisar de uma ajuda sua. – disse Evandro encarando Ricardo como se ignorasse todas as outras pessoas no bar – Não tenho como ficar escondendo minhas “atividades” o tempo todo, alguns policiais da minha divisão, suspeitam de mim.

O policial ficou em silêncio, aguardando uma resposta de Ricardo que o olhou sem entender, se esforçando ao máximo para esconder seu medo. Ao perceber que era sua vez de falar, o advogado se arrumou na cadeira.

– É… eu… bem, como posso te ajudar? – Ricardo respirou fundo para retomar a postura, pois não queria perder a confiança daquele homem. – Se precisar defendê-lo de alguma acusação, posso fazê-lo.

Evandro sorri com meia boca, fazendo Ricardo sentir um calafrio.

– Vocês advogados são bem espertos. – retrucou Evandro fazendo um pequeno silêncio em seguida, tirando Ricardo levemente de sua postura confiante – Na verdade tenho contatos que me impedem de ser pego, porém sempre a pessoas suficientemente chatas para quererem me atrapalhar. Preciso ser julgado por um crime e quero que você me defenda.

“O que eu estou fazendo aqui?”, se perguntou Ricardo sentindo o enorme incomodo que aquele lugar e aquele homem lhe causava. Não sabia exatamente o que falar. Aquela conversa estava estranha demais, mas ele sentia que seria muito perigoso dizer não para ele.

– Aceito ajudá-lo sim, mas terei que cobrar. – disse o advogado com receio.

– Isso é óbvio. É o seu trabalho. – respondeu Evandro, o que fez Ricardo respirar mais tranqüilo – Não importa quanto, darei um jeito de te pagar. – a preocupação retornou imediatamente, fazendo Ricardo esbarrar em seu copo de cerveja, o qual esparramoui seu conteúdo pela mesa, respingando em sua calça.

– Droga! – praguejou enquanto se afastava da mesa.

– Senhor Evandro! – chamou um jovem rapaz, com pinta de pequeno traficante, na porta do bar. – Eles chegaram.

Evandro sorriu e se levantou, enquanto Ricardo tentava prestar atenção nele, ao mesmo tempo em que enxugava sua calça e arrumava o copo.

– Aonde você vai? – perguntou Ricardo.

– Não se preocupe, você irá junto. – novamente o policial deixou seus lábios esboçarem o sinistro sorriso.

Na fiorino, Ricardo vê o portão abrir e Gustavo manobrar o carro para dentro. O coração de Ricardo acelera. “Você é um idiota! Porque não deixou essa gente morrer?”, se perguntou lembrando que só estava naquela casa, indo para a toca do lobo, porque Paulo, Gustavo e Carla estavam vivos, graças a ele.

Gustavo para o carro e desliga. Ele escuta a voz de Evandro vindo cumprimentar o mecânico e pedindo para que todos saíssem rápido do carro. Todos assim o fazem. Ricardo vê um por um sair da fiorino e sente a ansiedade aumentar. Ele respira fundo para não tremer ou demonstrar qualquer outro tipo de sinal de nervosismo, não há vantagem alguma de seus “colegas” descobrirem que ele conhece aquele policial.

Ricardo sai da fiorino cuidadosamente, enquanto escuta os pais de Marcela e ela chorarem por verem Reinaldo morto no chão. Evandro lhes chama a atenção rispidamente e pede para que todos entrem na casa. Ricardo caminha junto com Lúcia, evitando ser visto pelo policial. Eles adentram a casa e esperam na sala todos os outros entrarem.

– Fiquem a vontade. – diz Evandro secamente. – Vocês parecem famintos. Irei preparar algo para comerem.

Ricardo percebe os olhos do policial passarem por ele como se ele não estivesse presente, o que o alivia. Porém, logo ele sente seu estomago embrulhar novamente com a memória borbulhando em sua cabeça.

Ele lembra exatamente o que Evandro quis mostrar-lhe, mas não descobriu até hoje o porquê daquele “sadismo”. Após o “pequeno traficante” chamar Evandro, eles caminharam duas quadras dentro da favela, indo em direção a uma biqueira onde alguns policiais militares estavam recebendo seu “abono”.

– Você mata policial corrupto? – perguntou baixo Ricardo.

– Silêncio. – respondeu quase sussurrando Evandro, enquanto virou em uma viela, saindo da rota que os levariam até os policiais e traficantes.

Ambos passaram por três casas de alvenaria, até encontrarem uma que misturava as duas formas de arquitetura presente na favela: a maior parte era construída em alvenaria, porém o restante eram madeiras pregadas umas as outras, formando um “meio barraco”.

Evandro se aproximou da casa silenciosamente, evitando fazer qualquer tipo de barulho. Eles entraram por uma porta que os levava até o quintal e Evandro sacou sua arma com silenciador. Ricardo começou a ficar extremamente preocupado com o que aquilo significava, mas preferiu manter-se em silêncio.

Eles caminharam até um quartinho no fundo da casa. Estava trancado. Não apenas com chave, mas com quatro cadiados.

– O que tem ai? – Ricardo não resistiu em fazer a pergunta.

– Quem eu quero. – Evandro respondeu com um sussurro seco.

O policial se escondeu e fez com que o advogado também o fizesse. E eles esperaram. Ricardo não sabia exatamente o que eles estavam esperando, mas esperaram por quase uma hora, até que um senhor de aproximadamente sessenta anos e um garoto de doze, se aproximaram da porta com um cachorro vira-lata no colo.

O cachorro começou a chorar, como se pressentisse que algo ruim ia acontecer com ele e o garoto segurou seu focinho com força. O senhor destrancou os cadeados e quando estava preste a destrancar a porta, Evandro colocou sua arma da cabeça dele.

– Termine de abrir. – disse ameaçadoramente.

O senhor tremia de nervosismo e o garoto também. Mesmo assim, enquanto destrancava lentamente a porta, o senhor preocupado com o que havia lá dentro implorou.

– Não façam nada com ele. – lágrimas rolavam em seu rosto. – Ele é meu filho, ele só precisa de tratamento.

– Não há outro tratamento para o que ele tem, acredite. – respondeu Evandro friamente enquanto a porta se abria.

Aquele quartinho cheirava carniça e haviam várias carcaças de cachorros apodrecendo no chão. No canto do quarto, com uma coleira amarrada em uma corrente, havia um jovem com olhar alucinado, que ao ver eles entrando, correu na direção até o máximo que a pequena corrente permitia.

Evandro não pensou duas vezes e atirou no centro da testa do jovem, que caiu “morto”. Ricardo ficou chocado, enquanto o pai daquele menino e seu irmão choravam agachados perto do corpo.

– Por que você me trouxe aqui? – perguntou Ricardo.

– Porque eu sou seu cliente. E é bom que você saiba o que eu faço, assim posso confiar mais em você. – respondeu Evandro em um tom que Ricardo não sabia definir se era irônico, cínico, ameaçador, ou cruelmente pragmático.

Evandro coloca a comida na mesa e chama a todos para se alimentarem. Ricardo retoma sua atenção no momento e caminha até a mesa junto com os outros, porém agora opta por não se esconder. Ele olha para o rosto do policial, que simplesmente o ignora. “Será que ele não me reconheceu?”, se pergunta Ricardo.

Evandro foi levado a julgamento por corrupção no ano em que “contratou” Ricardo, mas esse não o defendeu. Nem mesmo foi ao seu julgamento. Temia se envolver com aquele homem que matava outros seres humanos friamente e protegido pela autoridade de ser um policial. Ele ouviu dizer que Evandro foi suspenso da polícia por um ano, que no julgamento eles conseguiram um advogado qualquer de última hora que o defendeu razoavelmente bem, mas parece que o juiz optou por abrandar bastante a pena.

Eles jantam e sem muita demora se preparam para saírem daquela casa. Evandro entrega algumas armas para os colegas de Ricardo e eles saem por uma espécie de porão que os leva uma casa vizinha, onde há outra pickup estacionada.

– Vão, podem entrar, ela está aberta. – diz Evandro apontando para o veículo. Ricardo se encaminha para uma das portas de trás, quando sente uma mão no seu ombro. – Você sabe atirar?

Ricardo acena afirmativamente, petrificado pelo toque.

– Que bom. Você poderá ajudá-los bastante a sobreviverem. – diz Evandro tirando a mão do ombro de Ricardo e se virando para abrir a porta e entrar no carro.

Ricardo se mantém por alguns instantes no mesmo lugar, quando a própria voz de Evandro o tira do pseudo-transe no qual ele se encontrava.

– Só não deixe eles na mão.

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