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Taboos

Manolo Bellucci observa o cadáver que se encontra deitado em cima da mesa de estudos de seu amigo e recém iniciado irmão de seita: Bruno Húngaro, um famoso e bastante respeitado médico da cidade de Mantova, no norte da Itália. Foi graças aos seus conhecimentos de anatomia e medicina que Bruno recebeu o convite para ser membro da “Ordine di Tutti i Santi”.

– Descobriu algo, Bruno?

O médico simplesmente balança a cabeça negativamente em resposta, sem tirar seus olhos analíticos do espécime em sua mesa. Eles estavam a mais de três horas naquela sala, sentindo o odor rançoso de podridão que impregnou tudo que se encontrava naquele ambiente. Logo que Manolo trouxe o espécime, esse já se encontrava imóvel, pois o soldato, durante o embate com o “cadaveri ambulanti”, cravou seu sabre entre os olhos de seu oponente, trespassando seu crânio.

Manolo já era membro da ordem a mais de dez anos e não havia sido o primeiro “cadaveri ambulanti” que ele enfrentou e com certeza que não seria o último, mesmo assim, os raros encontros com aquelas criaturas não deixavam de ser perigosos e nem de causar uma certa repulsa.

– Catso! – praguejou Bruno – Nenhuma diferença! É como se eu estivesse estudando um cadáver qualquer, morto a aproximadamente uma semana.

Bruno larga seus instrumentos e continua observando o cadáver. Ele viu aquela criatura ser derrubada por Manolo. Viu como ele se movimentava e como agia, além de ter testemunhado todo o estrago que causara a pelo menos três famílias em um pequeno povoado vizinho de Mantova. Se não fosse isso, com certeza o médico não acreditaria que aquele espécime fosse de algo diferente de um cadáver humano comum, e não insistiria tanto em estudo.

– Não é possível.  Deve haver a…

– Não só é possível, como é! – Bruno irritado interrompe a fala de seu veterano, olhando para ele frustrado e irritado, levantando vigorosamente a mão enquanto fala.

Manolo apenas o olha piedosamente. Bruno se envolveu com tudo aquilo a muito pouco tempo, menos de dois anos. Enquanto Manolo já investiga, pesquisa e caça os “cadaveri ambulanti” a muito mais tempo. Manolo sabe o quão difícil é se acostumar com a idéia de cadáveres que voltam a vida – ele mesmo ainda não se acostumou – e não culpa de forma alguma Bruno por sua irritação.

O soldato espera mais alguns instantes, para que o médico se acalme, antes de perguntar:

– Você quer parar por hoje?

A raiva abranda no olhar de Bruno, mas não perde sua seriedade e cansaço.

– Manolo, não creio que descobriremos qualquer coisa com um desses “inanimados”. – ele dá uma pausa para um longo suspiro, olhando novamente para o espécime – Me desculpe pela irritação.

– Não se preocupe, Bruno. – responde Manolo, se aproximando do cadáver na mesa de estudos – Mas se esse “inanimado” não serve, o que você propõe?

Bruno observa atentamente o cadáver, refletindo sobre a pergunta do amigo. Manolo fica em silêncio olhando para os detalhes daquela sala rústica, mórbida e fria. Há várias estantes com livros e recipientes contendo órgãos, animais e fetos.

– Penso que devemos adquirir um “animado”. – Bruno finalmente quebra o silêncio, surpreendendo Manolo não só por ter falado, mas pelo conteúdo de sua proposta.

– Mmmm… – Manolo passa a mão em sua barba rala, pensativo e preocupado. Ele sabe que desde que a ordem foi fundada em 2 de novembro de 1247, a 583 anos atrás, eles nunca optaram por aprisionar um dos “cadaveri ambulanti”. Isso sempre pareceu extremamente profano até mesmo para ser pensado, quanto mais sugerido. Além do mais, a incursão de médicos na ordem só ocorreu em 1697, algo muito recente. – Nós nunca fizemos isso. Essa ação comporta grande dificuldade, principalmente burocrática. – responde finalmente Manolo – Mas farei meu melhor.

Bruno sorri e dá um abraço em Manolo.

– Grato! Infelizmente essa é a única maneira de encontrar algo de útil.

Manolo olha para o rosto do cadáver e sente seu estômago embrulhar momentaneamente. Aquela sala já lhe dá náuseas com um desses “inanimados”, imagine com um “animado”. “Que Deus nos proteja”, pensa ele enquanto segura com força o terço que guarda em seu bolso.

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Fúria Feminina

– Paulo! Vem nos ajudar, porra! – grita Lúcia, enquanto leva as portas dos armários, junto com Ricardo, para reforçar o portão. Ela não ouve resposta alguma, o que a irrita ainda mais. – Filho da puta.

Ela e Ricardo continuam carregando as portas, enquanto sr. Fábio e José Fernando, pai de Marcela, as pregam no portão de madeira. Alguns mortos vivos começaram a se aproximar da casa por sentir o cheiro deles, agora eles tinham que dificultar ao máximo a entrada deles.

Lúcia está fazendo de tudo para sobreviver e ajudar os outros a sobreviverem, mesmo que suas esperanças a respeito do futuro da raça humana sejam quase nulas. Foi graças a ela que o grupo sobreviveu no caminho da casa da Marcela para a casa do sr. Fábio, mas ela não quer reconhecimento. Na verdade, consideraria bastante hipócrita de sua parte se buscasse elogio, já que ela os está ajudando para aumentar sua própria chance de sobrevivência, ou pelo menos é nisso que ela quer acreditar.

Pensando no que eles passaram até aquele momento, Lúcia se irrita ainda mais com Paulo.

– Paulo, caralho! Vem nos ajudar! – grita ela novamente quando entram na casa para pegar mais duas das seis portas restantes.

Novamente, o silêncio é a resposta.

Quando eles estavam na casa da Marcela, todos do grupo estavam presentes na sala, reunidos para decidir o que fazer. Durante a reunião, Paulo estava focado em escrever, fez uma ou outra anotação no seu laptop e começou a montar o design de um blog. Isso a deixou “p da vida” e, como ela nunca foi de meias palavras, soltou o verbo.

– Para de escrever nessa merda, seu folgado! – disse ela interrompendo Paulo em uma de suas anotações, apotando o dedo na cara do psiquiatra. – Ou você nos ajuda a pensar em algum plano para sairmos daqui, ou eu vou quebrar a sua cara.

Paulo a encarou como se tentasse analisar o que aquela atitude de Lúcia escondia, o que a deixou ainda com mais raiva.

– Vai ajudar ou não? – perguntou ameaçando-o com o olhar.

– Você é uma mulher bonita, Lúcia, porque se estraga usando esse linguajar? – questionou Paulo tentando desviar do assunto.

– Não foge. Agora levanta daí e vem nos ajudar. – ordenou ela.

– Estou ocupado preparando um arquivo de sobrevivência, Lúcia. – Paulo olhou para a tela do seu laptop encerrando o assunto.

– Você seria mais útil, NOS ajudando a sobreviver. – retrucou Lúcia, mas o psiquiatra a ignorou. – VAI SE FODER! – ela virou-se para sair da sala, quando Paulo a interrompeu.

– Você quer participar? Posso dividir meus dotes com você antes de me curtir.

A ironia de Paulo fez com que a fúria de Lúcia inrompesse. Ela correu na direção dele, pronta para chutar-lhe. Com medo, Paulo levantou-se rapidamente e se afastou, enquanto Ricardo, José Fernando e Sônia a seguravam com dificuldade.

– Eu vou arrebentar a sua cara, seu médico de bosta!

Paulo tentava controlar seu medo forjando um sorriso no rosto, mas ele sabia que não a estava enganando. Lúcia, percebendo a situação na qual se encontrava e não querendo machucar ninguém além de Paulo, parou de tentar pegá-lo e saiu da sala. Naquele momento, não compensava se meter naquele tipo de conflito.

Porém, com a reincidência de ocorrências como aquela, Lúcia estava começando a perder a paciência novamente. Ela pega mais uma porta e começa a caminhar, na silenciosa companhia de Ricardo.

– Lúcia, minha querida. Não de atenção para aquele doutor safado. – diz Sônia com uma voz suave e carinhosa, se aproximando de Lúcia. – Não vale a pena.

Sônia chama Paulo de doutor safado pela forma que ele olha para Lúcia e Marcela, sempre tentando seduzi-las de alguma forma. Lúcia age de forma indiferente em relação ao apelido, concordando com sua nova amiga em silêncio.

– Não dá Sônia. Ele é muito folgado e coloca a todos nós em risco. – responde ela.

– Você sabe como ele é inteligente, Lúcia. Tenho medo dele colocar os outros contra você. – confessa Sônia com sinceridade.

Lúcia dá de ombros.

– Ele não faria isso. Eu sou infantaria do grupo.

Sônia ri baixo, mesmo não entendendo o que Lúcia quis dizer.

– Ainda assim, me preocupo com você. – retruca Sônia.

Lúcia entrega a porta do armário para sr. Fábio.

– Agradeço, amiga. – ela sorri para Sônia – Mas confie em mim.

Lúcia, Sônia e Ricardo voltam para dentro da casa. Ricardo vai pegar mais porta de madeira e Sônia, triste, volta para a cozinha na companhia de Marcela e sua mãe. Lúcia sobe as escadas que levam até o escritório onde Paulo está escrevendo seu arquivo de sobrevivência. Ela pensa em cinco formas de ensiná-lo a ser mais cooperativo, porém as cinco o deixaria inutilizado por no mínimo seis meses e no máximo a vida toda.

– Paulo, desliga essa merda e vem ajudar. – diz rispidamente Lúcia, optando por resolver o conflito através de uma conversa amigável.

Espíritos Malígnos

Com cuidado o velho feiticeiro deposita o poderoso pó em três cabaças diferentes. Infelizmente aquele pó mágico era difícil e demorado para se preparar. Sua tribo inteira, localizada em uma reserva no Congo, estava morta ou haviam partido. Todos os corpos foram queimados e, naquele lugar, só residiam ainda Nzingu e três de suas cinco filhas.

O velho feiticeiro sabia que não adiantaria partir de lá. Que os nkadi-o-mpemba – espíritos do mau – estavam se espalhando pelo mundo. Que ele e suas filhas estavam mais protegidos lá, em seu território.

Nzingu é pai de cinco mulheres, para sua tristeza, não teve nenhum filho homem, nenhum herdeiro de seu conhecimento. Uma delas foi morta pelo nkadi-o-mpemba que rodeia sua tribo e se alimenta dos vivos que nela habita, enquanto a outra partiu com seu marido. As três que ficaram estavam viúvas e preferiram aceitar a poderosa proteção de seu pai.

O feiticeiro olha para as cabaças com o poderoso pó e sente uma breve hesitação, pois sabe que depois de feito o ritual, não terá mais volta. Porém, mesmo que demonstre a mais pura confiança para suas filhas, Nzingu sabe que aquela é uma medida desesperada. Que ele não vê como sobreviver no novo panorama do mundo que se descortinará em breve. As coisas estão mudando, os makulu – espíritos ancestrais – lhe disseram, e não é para melhor.

Ele ascende pilhas de madeira e ervas enquanto suas filhas ficam sentadas esteiras de palhas, uma fumaça grossa começa a erguer das pilhas incandescentes e cobrir todo o ambiente da cabana. Para olhos desacostumados, não se vê nem mesmo um palmo a frente do nariz, mas para o velho feiticeiro, aquilo é apenas semelhante a estar de olhos abertos embaixo d’água límpida do riacho próximo de lá. Essas ervas, diziam seus antepassados, servem para acalmar todos os ianda – espíritos –, com ela purificando o ar, nenhum deles é capaz de causar malefícios a qualquer ser vivo.

O velho feiticeiro inicia seus cânticos e toca seu atabaque com grande energia, elevando seus pensamentos aos nzambi de seu povo. Ao sentir a influência no recinto ele grita: “Tat’é!” parando de tocar e, em transe, deixa-se guiar pelas mãos divinas. Ao perceberem que o toque do atabaque cessou, as filhas deitam-se nas esteiras.

Utilizando-se de pedaços de planta de bananeira, usadas como pás, ele espalha o pó mágico pelo corpo de suas filhas e as cobre com folhas inteiras de bananeira. Elas morrerão em pouco tempo. Nzingu, e o nzambi que o guia, sabem que tradicionalmente o correto seria enterrá-las, para que tivessem que cavar sua saída e assim completarem realmente a transformação, mas eles sabem muito bem, que o principal efeito que eles querem, é causado apenas pelo pó.

Terminando de cobri-las, o velho se senta no centro, saindo do transe. A fumaça ainda cobre todo o espaço da cabana, quando ele escuta algo adentrando pela porta de palha solta. O nkadi-o-mpemba surge urrando. Parado no mesmo lugar, aquele ser, que já foi homem um dia, deseja encontrar algo vivo para se alimentar. Ele bufa e vira sua cabeça e seu corpo de um lado para ou outro procurando algo, mas nada encontra. Seus olhos selvagens se perdem na fumaça das ervas e parecem passar por Nzingu como se ele não estivesse lá.

O velho feiticeiro sabe, que ao fim do ritual, suas filhas serão vistas como iguais por tal ser, mesmo sendo diferentes. Elas retornarão como suas servas nzumbi e não mais serão alvos de tal criatura.

O nkadi-o-mpemba procura e procura, mas nada consegue perceber com aquela fumaça. Há algo nela que perturba seus sentidos, que o faz ficar confuso. Atordoado, ele parte.

O velho feiticeiro ri consigo mesmo, afinal, o que mais esperar de ervas que servem para acalmar os ianda?

Sobrevivência

Os gritos abafam os sons das sirenes, enquanto uma chuva forte começa a cair deixando as calçadas escorregadias. Cada passo é instável e inseguro, mas o medo faz com que os corredores se esforcem ao máximo para manter a velocidade e o equilíbrio. A queda deles significaria a aproximação dos mortos vivos e possivelmente uma dolorosa morte para os fugitivos.

Sem olhar para trás, Sônia e Beto se mantêm com dificuldade em seus ritmos de corrida em direção a rotatória conhecida como Balão do Bela Vista, pois é lá que Ricardo disse que esperaria eles com seu carro. Mesmo ambos estando na mesma situação árdua, fugindo do bando de cadáveres famintos, a idade e agilidade de Beto lhe dão grandes vantagens, o que lhe faz tomar a dianteira.

Sônia vê Beto se distanciar enormemente e entra em pânico. Por reflexo ela olha para trás e percebe o quão próximos dois de seus perseguidores estão. Sônia sente um desconforto descendo para a altura de seu abdome, suas pernas começam a fraquejar e uma pressão na garganta a incomoda enormemente, fazendo-a chorar enquanto cai no chão, sentindo sua esperança despedaçar e o mundo escurecer ao fechar os olhos em atitude submissa aos seus algozes que se aproximam. Ela nem mesmo escuta os gritos de Beto chamando-a, incentivando-a a correr e lutar por sua sobrevivência. Acreditando que está tudo acabado, Sônia começa a rezar quando escuta dois baques secos seguidos, e um líquido viscoso atingir seu rosto junto com as fortes gotas da chuva.

– Levanta! – ela escutou enquanto sentia uma mão forte lhe colocando de pé. Sônia abre os olhos e se surpreende ao ver uma mulher loira e vigorosa, mas ainda assim uma mulher, a sua frente. Com aquela força e firmeza que havia sentido ela pensou que, com certeza, estava sendo salva por um homem.

– Obri…

– Corre logo! – Lúcia grita, empurrando-a. Sônia quase perde o equilíbrio, mas consegue se firmar e correr. Mesmo com a fraqueza e o cansaço ainda lhe atrapalhando, ter sido salva lhe deu um novo ânimo.

Lúcia a acompanha, quase lado a lado, mas um pouco mais atrás. Diferente de Beto, ela não tenta tomar a dianteira, pois sabe que aquela mulher que acabara de salvar, não sobreviveria nem mais alguns segundos.

Sônia, ainda temerosa, tenta olhar para trás:

– Olha para frente! – repreende Lúcia com firmeza – Ignore-os!

A frente esta o Balão do Bela Vista, por onde cruza a Avenida Norte e Sul. Nela há vários carros parados, que já davam para ser visto. Pessoas correm de um lado para o outro, fugindo de alguns poucos cadáveres, sem saber o que fazer ou para onde ir. Lúcia não se surpreende ao ver aquilo, afinal, ela deixou seu carro mais a frente na avenida e se esgueirou pelas ruas para longe da multidão que se encontra mais adiante.

– Estou indo para a casa de uma amiga aqui perto. – diz Lúcia, sem nem mesmo perder o fôlego, o que surpreendeu ainda mais a exausta Sônia. – Para onde vocês estão indo?

– Pra… Encon.. trar… com… o… Ricardo…. aqui no… Balão… – se esforça para responder Sônia enquanto se aproximam de Beto, que está as está esperando na esquina.

– Corram mais rápido! – grita Beto, assustado com a aproximação daquelas outras criaturas.

Ao chegarem na rotatória, elas vêem que ainda há bastante pessoas vivas, o que de certa forma, trás uma inocente sensação de contentamento à Sônia. Aquele pensamento lhe dá mais vontade de sobreviver o que a ajuda a retomar muito de seu fôlego. Elas aceleram a corrida, e passam por Beto chamando-o a juntar a elas.

Ao perceberem que o bando de mortos havia se dissipado ao chegarem na rotatória, por causa da maior opção no cardápio, o trio dá uma pausa para respirar.

– Então, para onde vocês vão? – pergunta novamente Lúcia, percebendo a aproximação de um morto vivo. Antes de seus novos companheiros responderem, ela corre em direção ao cadáver ambulante e quebra-lhe a cabeça com uma porrada de seu taco de bets. Logo em seguida retornando próxima aos dois. – Então?

– Estamos esperando um playboy. – responde Beto estupefato com a atitude de Lúcia.

– Ele disse que nos encontraria aqui com seu carro. – complementou Sônia após tomar um ar.

– Ele foi pegar um carro e deixaram vocês para fugirem daquele bando a pé? – Lúcia balança a cabeça negativamente, como se quisesse apagar aquele pensamento – Não importa. O que importa é que não tem para onde ir de carro por aqui. Lá para frente está pior. Vocês dois venham comigo.

– Tudo bem. – responde Sônia, guiando-se pela confiança que está sentindo pela mulher forte que lhe salvou.

Antes de Lúcia pedir para eles acompanhá-la, Beto a interrompe:

– Olha o “zé porvinho”! – ele aponta em direção oposta da qual eles estavam indo.

Mesmo sem entender ao certo quem seria o “zé povinho”, ambas mulheres viraram para olhar. Sônia reconheceu Ricardo, mas Lúcia continuou sem entender.

– Vamos! Precisamos sair daqui. – disse Lúcia dando de ombros.

– É o Ricardo. – comenta Sônia – Vamos esperá-lo. Não é certo deixá-lo sozinho.

Lúcia faz sinal de que ia retrucar rudemente aquele comentário, mas opta por se silenciar.

Ricardo as vê e corre na direção do trio. Alguns mortos vivos se aproximam daqueles que o esperam e Lúcia consegue derrubar dois rachando seus crânios, enquanto Ricardo, após três tiros com sua pistola, derruba o outro.

– Cadê o carro? – Sônia pergunta quase chorando, agarrando Ricardo pelos braços.

– Estamos sem carro. – responde Ricardo desconcertado, se desvencilhando dela – Precisamos pensar para onde ir.

– Nós vamos com ela! – retruca Sônia apontando para Lúcia, sentindo raiva do advogado que lhes prometera levar para um lugar seguro.

– Quem é…

– Chega de conversa. – Lúcia interrompe Ricardo, apontando para os vários mortos-vivos que estão na direção de onde eles vieram – Vamos embora! Me acompanhem.

– Para onde vamos? – pergunta Ricardo quando eles começam a correr em direção ao pontilhão que leva ao Parque Taquaral.

– Para a casa de uma… – Lúcia se assusta com o estrondo de uma batida que os fazem parar. Lúcia olha para trás e vê Ricardo voltando para ajudar as pessoas que saíram de uma blazer cinza vítima do acidente.

– O que você está fazendo? – pergunta para Ricardo, enquanto Sônia se aproxima dela buscando proteção.

– Vou ajudá-los. – responde o advogado continuando seu caminho ainda com a arma na mão.

– Por que? É perigoso! – questiona Sônia preocupada com toda aquela situação.

– Talvez eles possam nos ajudar. – sem parar para responder, Ricardo corre até uma distância segura para atirar em um morto vivo que se aproxima de um dos sobreviventes da blazer. Após quatro tiros, o deixando quase sem munição no pente, ele o derruba.

O sobrevivente o olha espantado, ao mesmo tempo que olha em direção a família que saiu da mesma blazer que ele.

– Vocês tem para onde ir? – pergunta Ricardo.

– Não. – responde o homem.

– Então venham conosco. – retruca agilmente Ricardo, percebendo que os companheiros daquele homem se afastavam dele.

Ricardo o ouve gritar para seus amigos, mas não se atenta muito as palavras, pois está perdido em pensamentos ao olhar novamente a blazer: “Afinal, não deve existir muitas blazers cinzas em Campinas”, pensa ele sentindo um calafrio, “Muito menos blindada”, Ricardo volta sua atenção ao que está acontecendo e procura mortos vivos próximos, mas por sorte muitos estão se afastando para os locais de maior aglomeração de carros.

Aliviado, antes de voltar sua atenção àquele que ele salvou, Ricardo bate o olho no vidro da blazer, onde tem colado um adesivo da polícia federal. “Será que eles o conhecem?”, pensa o advogado ouvindo gritos de uma mãe desesperada que o impede de se distrair novamente.

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