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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 4)

            Fora um tanto difícil e demorado para o eremita Alak conseguir encontrar um local razoavelmente seguro para que seu grupo pudesse descansar. A maior parte daquele lugar foi criado artificialmente por algum povo ou criaturas. A maioria de seus túneis parecem ter sido cavados, alterados magicamente e até mesmo derretidos por alguma espécie de ácido poderoso ou outro tipo de componente que fosse capaz de derreter rocha. Até mesmo a cachoeira que cai em um lago é totalmente artificial aos olhos do eremita, “Provavelmente há túneis e lençóis subterrâneos que permitem a água se deslocar sem que transborde o lago”, refletiu por um momento Alak enquanto observava a imensa caverna.

            O eremita observa os membros de seu grupo descansando enquanto olha para a boca do túnel, tentando encontrar a caverna onde podem estar os escravos seguidores de Lolth. Seu tempo de vigília está acabando, logo ele despertará Rizzen de seu Reviere e descansará em seu lugar. Alak sempre sorri pelo fato de ter descoberto o nome do guerreiro Xorlarrin, afinal, o anonimato não é mais uma das vantagens do assassino.

            Mesmo que o túnel no qual eles estejam descansando não seja realmente seguro, Alak não se sente preocupado. Segurança não é um sentimento comum para os drows e, além do mais, os drows, como os outros elfos, não precisam descansar tanto quanto os humanos, gnolls, kobolds, orcs entre outras raças inferiores. Na verdade é necessário ficar em Reviere metade do tempo que essas outras raças passam dormindo para que os drows estejam já prontos para prosseguir suas viagens e seus afazeres.

            Alak dá mais uma olhada para fora do túnel e não vê nada de estranho ou inquietante. A criatura do lago continua hibernando ou talvez tenha ido embora por algum dos túneis ainda mais subterrâneos. E quanto aos orcs, nenhum sinal de mais atiradores ou coisas do gênero. “Talvez estejam preparando uma emboscada”, pensa Alak levantando-se de sua posição para se aproximar de Rizzen.

            Com um toque leve em seu ombro, Alak desperta o guerreiro Xorlarrin, que não demonstra nenhum espanto. “Sono leve”, conclui Alak.

            – Seu turno. – diz o eremita ao Xorlarrin.

            Rizzen levanta-se de sua posição e se aproxima mais da boca do túnel. Alak prefere ficar um pouco distante do grupo e mais próximo do assassino, para evitar qualquer possível tentativa de ataque durante o sono de Brum que, mesmo com seus roncos e seu sono pesado, assim que é acordado não demora nenhum momento para se preparar para qualquer conflito.

            Alak começa a se acomodar em uma posição para entrar em seu estado meditativo enquanto Rizzen faz uma observação geral da caverna fora do túnel.

            – Acha mesmo que eu seria tolo de tentar matar seu “amigo” com algum ataque furtivo ou envenenamento? – pergunta Rizzen sem se virar em direção a Alak, que o encara por um tempo antes de responder.

            – Tendo em conta quem é sua Senhora, acho até provável que tente alguma estupidez sim. – responde o eremita, sem demonstrar nenhuma surpresa pela pergunta do guerreiro.

            O sorriso habitual do Xorlarrin toma conta de seu rosto quando esse se vira para olhar nos olhos de Alak, passando a mesma sensação de ironia e astúcia que sempre passara.

            – Mesmo assim reconheço as capacidades de seu colega e sei ainda mais o quanto ele é resistente, não cometeria tal estupidez, mesmo tendo que ir contra minha Senhora. – comenta Rizzen, sem deixar o sorriso se desfazer.

            Alak continua olhando para o assassino enquanto esse volta a observar o lado de fora do túnel como se refletisse sobre algo.

            – Vocês não sabem mesmo o porquê estão aqui, não é? – pergunta de repente o Xorlarrin voltando a olhar para ele – Digo, vocês não leram a carta.

            O eremita balança a cabeça negativamente como se aquilo realmente não importasse.

            – O contrato de vocês foi mesmo para proteger minha Senhora? – pergunta Rizzen.

            Alak percebe que a cada pergunta o guerreiro está analisando suas atitudes e feições, além de seu tom de voz e respiração. Tendo isso em mente Alak prefere não mentir e sim responder de forma breve e sem detalhes:

            – Sim.

            – Desejo boa sorte a vocês. – diz o Xorlarrin, com ironia em sua voz.

            – Gostaria de saber qual o objetivo real de vocês nessa missão, se possível. – questiona Alak, que escuta apenas uma breve resposta de Rizzen.

            – Você saberá. Logo logo não terá como esconder.

            O guerreiro sorri novamente e prepara-se para se virar em direção a caverna quando é surpreendido, – assim como Alak -, com a lâmina de uma adaga em seu pescoço.

            – O que fazem aqui? – pergunta uma voz grossa e quase sussurrante de trás do Xorlarrin, que fica paralisado pensando em uma forma de sair daquela situação.

            Alak consegue observar levemente o ser que se encontra empunhando a adaga na garganta do assassino: um goblin com a orelha um pouco mais comprida e pontuda, com rosto de traços mais finos, aparentemente o mesmo que estava com a clériga de Lolth. “Um dos hereges”, pensa ele.

            – Pe’gunta’ei de novo: O que fazem aqui? – nesse momento Alak percebe que o goblin não está falando com Rizzen e sim com ele.

            Sabendo que o goblin faz parte do culto a Lolth e que esse mesmo grupo possui também inimigos entre os orcs, Alak resolve ser mais diplomático. Não que a vida de Rizzen importe alguma coisa a ele, afinal seu contrato diz que ele deve proteger a clériga, não os Xorlarrin. Portanto se algo ocorrer com o guerreiro não o afetará em nada, mas ainda assim, talvez ter o grupo de hereges como possíveis futuros aliados seja mais interessante dado as recentes informações passadas pelo assassino durante a conversa.

            – Estamos fazendo uma investigação. – responde o eremita, ignorando o olhar reprovador do Xorlarrin.

            – Vi que nos espionou algum tempo at’ás. Po’ acaso não esta’iam at’ás de nós, não é? – pergunta o goblin, como que por inocência.

            Alak ergue uma de suas sobrancelhas, desconfiando da pseudo-ingenuidade do goblin. “Se ele foi um escravo drow, não há porquê acreditar que um drow responderia suas perguntas com sinceridade”, pensa o eremita, olhando profundamente nos olhos do goblin. Por um momento uma sensação estranha tomou conta de Alak. Havia algo não muito certo nos olhos daquele goblin, mas ele preferiu ignorar a sensação e analisar o olhar. Um olhar sagaz, astuto e inteligente. “Com certeza ele não está esperando uma resposta verídica”, conclui o eremita.

            – A princípio sim, mas coisas mais interessantes chamaram nossa atenção. – responde Alak com sinceridade, afinal não seria interessante para ele demonstrar que blefe não é seu forte.

            Rizzen parece estar mais preocupado em se preparar para sair daquela situação, por isso passa a ignorar a conversa que Alak está tendo com seu “inimigo”.

            – Ótimo. – comenta o goblin, secamente – Qual o seu nome d’ow?

            – Alak, e o seu?

            – Stongest. Nos encontraremos mais tarde. – diz o goblin largando o Xorlarrin e sumindo aos olhos do eremita.

            Rizzen não perde tempo e saca sua espada curta virando-se rápida, porém inutilmente, para atingir seu “captor”.

            – Ele já foi. – diz Alak, percebendo o ódio crescer no Xorlarrin que vira-se para ele.

            – “Amigo” seu? – pergunta Rizzen em voz relativamente alta mirando um olhar inquisidor ao eremita.

            Alak sorri e escuta Brum se mexendo e falando com voz sonolenta:

            – Tá tudo bem, Alak? – Rizzen fica um pouco apreensivo por ver que o ogro mago está acordando.

            – Está sim, Brum. Volte a dormir. – responde Alak, ainda sorrindo, para o guerreiro Xorlarrin.

            – Eu não durmo… eu entro em um estado meditativo… como os elfos. – responde Brum com voz sonolenta e começando a roncar logo em seguida.

            Rizzen guarda sua espada curta e volta a olhar para Alak.

            – Respondendo sua pergunta: isso não é da sua conta. – responde Alak, voltando a se posicionar para entrar em Reviere – Agora deixe-me descansar.

            Rizzen o encara por mais um tempo, mas logo deixa nascer novamente seu sorriso sarcástico no rosto e vira-se para a boca do túnel. Alak fecha os olhos e se prepara para entrar em Reviere. “Stongest”, repete em sua mente, “Talvez seu grupo nos ajude a sobreviver ao que nos aguarda. A emboscada Xorlarrin”.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 2)

            – Não podemos atacá-los de qualquer forma. Não sabemos o que está dormindo no fundo do lago e se tal criatura é capaz de perceber o que ocorre aqui na superfície. Se fizermos muito barulho, causarmos muita vibração, temo que a criatura irá acordar. – adverte o mago Sol’al Teken’Th’Tlar aos outros membros do grupo, mantendo a conversa em baixo-drow – E seja lá o que for, acho que não seria muito interessante acordá-lo nesse momento.

            O angulo de visão da boca do túnel de onde chegaram não permitiu que eles vissem o que estava no lago, mas logo que desceram ao chão da imensa caverna oval e se aproximaram, Sol’al e Rizzen comentaram à clériga a respeito de uma imensa sombra de alguma criatura que parecia estar “dormindo” no fundo do lago. Pelo tamanho da sombra e a profundidade aparente, a criatura pareceu aos dois observadores, algo colossal que realmente não seria muito inteligente respeitarem.

            – Sim, mago. Acredito que meu guerreiro não propôs atacarmos de qualquer forma. – comenta a clériga, de forma ácida.

            – Não quis dizer isso, Senhora. Estava me referindo mais a como o ogro iria… – o mago tenta se explicar, mas a clériga o silencia com um aceno de mão.

            – Acho que Rizzen deu boas idéias. São sete orcs, não vejo como não darmos conta disso. – comenta Alak, olhando para a clériga, mas contente por saber que o Xorlarrin contorceu o nariz ao escutar seu nome sendo dito por ele.

            – Não pedi sua opinião, mercenário. Faremos exatamente isso. Eu cuidarei do que está mais ao alto, enquanto você e Rizzen cuidam dos mais próximos. Rizzen invoca suas trevas em algum que não for ser atacado para atrapalhá-lo. O inferior acabará com o do canto direito na altura mediana, enquanto o mago se esconde atrás dele e conjura algo útil para nos ajudar. – ordena a clériga Xorlarrin finalizando sarcasticamente.

            Sol’al a olha contrariado por um breve momento. “Chega”, setencia mentalmente o mago, “Já está na hora de mostrar do que sou capaz”. Enquanto busca em sua mente as magias que serão úteis e trarão mais respeito a sua pessoa, o mago escuta Alak passar as instruções dadas pela Xorlarrin em Subterrâneo Comum. “Não acredito que estou sendo mais destratado que esses dois ignorantes”, pragueja mentalmente o mago, já sabendo como agirá quando a ordem for dada.

            O mago Teken’Th’Tlar observa com o canto dos olhos a boca do túnel que irá atacar. Ele sabe que há grande chance da clériga se irritar por ele não cumprir as ordens como foram ditas, mas ela verá que ele não é um simples estudioso. Os orcs estão preparados com bestas e algum tipo de balestra pequena. Nenhum do grupo de Sol’al está demonstrando que eles os viram, todos estão fingindo estar procurando pistas e observando o que há no fundo do lago. Um dos orcs aproveita a suposta distração e dispara uma flecha no maior e mais volumoso do grupo: Brum.

            A flecha da besta corta o ar e atinge o peito de Brum, porém a potência não foi suficiente para ultrapassar a grossa couraça que é a pele do ogro mago. Quando a flecha cai ao chão, a Xorlarrin escuta e dá a ordem que todos estavam esperando. Rizzen invoca uma cortina de trevas onde era esperado que ele o fizesse. Alak atira seu punhal na direção de seu alvo e o atinge em cheio na testa, mas logo vê que há outro orc dentro do mesmo túnel para substituir o falecido e atirar com a besta. Sol’al conjura sua primeira magia que irá cobrir um dos túneis com uma área de silêncio. No mesmo momento, Brum, vira-se em direção ao seu alvo e arremessa uma de suas clavas sem segurar a corrente. A maciça clava atinge em cheio o orc com a mini-balestra, que é nocauteado e tem sua arma despedaçada.

            Sol’al sorri quando percebe que sua magia funcionou. Enquanto Alak se aproxima um pouco mais do túnel que está atacando – para que a visibilidade de seu alvo se torne maior -, o mago se prepara para conjurar sua principal magia. Ele retira uma bola de guano de sua piwafwi que é utilizada como manto, ao mesmo tempo em que a clériga termina de armar a sua própria besta e atirar em direção ao alvo de Rizzen, para que esse consiga se aproximar mais da boca do túnel. Conjurando as palavras arcanas necessárias, Sol’al apenas mira um dedo em direção ao túnel largando ao ar o guano e o salitre. Esses se fundem e formam uma pequena esfera incandescente, semelhante a uma pequena pedra, que prossegue na trajetória visando o túnel mirado pelo conjurador. Ao atingir seu alvo a esfera explode sem emitir nenhum som, mas espalhando fogo por toda boca do túnel. Não apenas o orc atirador morreu com certeza, como qualquer acompanhante também estará morto; ao menos, assim acredita Sol’al.

            Orgulhoso de seu feito, Sol’al procura um novo alvo para mais uma magia e vê Alak atacando o orc que restou no túnel que lhe foi designado. O mago se vira para ver como estão os orcs pelos quais Rizzen está responsável e logo percebe que a clériga e o assassino deram conta de seus adversários. Brum já está próximo da boca do túnel onde sua clava se encontra. O que acabou restando foi o túnel coberto por trevas.

            Sol’al vira-se em direção ao alto túnel, enquanto Alak percebe que há mais atiradores em uma outra boca de caverna. Enquanto o mago prepara mais uma magia ofensiva para disparar em direção ao túnel encoberto pela densa escuridão, o eremita prepara-se para tentar algum ataque aos orcs “recém-chegados”, mas logo para e disfarça sua intenção ao perceber que dois dos cultistas que ele viu lutando contra os orcs na caverna de entrada, estavam lá para dar conta dos orcs.

            O mago Teken’Th’Tlar pronuncia algumas palavras arcanas e dispara um feixe de eletricidade de três de seus dedos que estão apontados em direção a boca do túnel. Dois gritos são ouvidos abafados pelo som da cachoeira, provavelmente os orcs foram nocauteados. “Pelo que parece, esses atiradores não são tão resistentes”, comenta consigo o mago. Em sua mente uma conspiração surge, “De certa forma eles sabem que estamos aqui, provavelmente não estão dificultando as coisas de propósito”. Ele continua observando o túnel no qual conjurou o raio elétrico e percebe que nenhum som ou disparo surge deles. “Ou eles são muito fracos”.

            – Havia mais, Senhora. Pelo que parece, fomos “auxiliados” pelos cultistas. – Sol’al escuta Alak comentar com a clériga Xorlarrin.

            – Onde eles estão? – pergunta a clériga, procurando-os nas bocas dos túneis.

            – Acho melhor não demonstrarmos que estamos atrás deles, Senhora. Eles não precisam saber que temos conhecimento de suas presenças. – diz o eremita.

            – Eles não têm como saber que estou procurando por eles. – retruca a clériga.

            – Não há mais orcs. É perceptível que já sabemos disso, Senhora. – diz Rizzen entrando na conversa – Acho melhor realmente escolhermos algum dos túneis para investigar e procurar por onde ir.

            A Xorlarrin torce o nariz por seu guerreiro ter apoiado o mercenário, mas nada responde, apenas acena positivamente com a cabeça. Aproveitando a deixa, Sol’al sussurra algumas palavras arcanas para ampliar seu sentido mágico.

            – Vou procurar rastros no túnel que ataquei. – diz Alak, já se virando e partindo na direção onde jazem seus punhais.

            Rizzen simplesmente parte em direção a um dos túneis mais próximos, onde Brum atacou. Brum passa por ele carregando as duas clavas e se aproxima do resto do grupo. Sol’al, após conjurar sua magia, volta-se em direção do túnel onde ele soltou a bola de fogo silenciosa. “A energia mágica está muito forte naquela direção”, constata o mago, “Pela intensidade e vibração, deve haver algum Nodo de Terra para aqueles lados”.

            – Senhora? – o mago se aproxima da clériga, que continua com a cara amarrada.

            – Fala, macho. – responde a Xorlarrin, aborrecida.

            – Sinto uma forte energia mágica naquela direção. – diz o mago, apontando genericamente para a direção da vibração que ele está sentindo.

            A Xorlarrin levanta uma sobrancelha e volta seu olhar para o rosto do mago; como se refletisse a respeito do que ele acabara de falar. Após alguns segundos observando-o, ela vira seu rosto em direção ao local apontado e analisa as entradas dos túneis. Percebendo que Rizzen está olhando em sua direção, a clériga comunica-se rapidamente em sinal drow com seu guerreiro. O diálogo foi tão rápido e discreto que Sol’al conseguiu entender apenas algumas palavras: “invocar”, “pai”, e também percebeu que havia algo na maneira como os gestos foram feitos que lhe lembrou uma pergunta. “Eles estão supondo o que estão para encontrar. Provavelmente…”.

            – Vamos procurar uma caverna segura para descansarmos. – diz a clériga ao guerreiro Xorlarrin, sem comentar sobre a descoberta do mago.

            – Sim, minha Senhora. – responde o guerreiro, se curvando brevemente e voltando-se para Alak e Brum – Procurem um local seguro para descansarmos. Rápido.

            Ambos os mercenários nada dizem, apenas partem em busca de algum túnel que se encaixe nas expectativas. Sol’al observa a clériga por um tempo, e não sabe se retoma o assunto ou se deixa para conversar com ela após o descanso.

            – Vi o que você fez. Interessante saber que está escondendo bastante suas capacidades. – ela interrompe a indecisão com uma frase que o mago, particularmente, não sabe se toma como uma censura ou como um elogio.

            – Todos temos nossos segredos, não é, Senhora? – responde ele, tentando manter um ar misterioso repetindo a frase que já falara em outra ocasião, tentando não desagradar a clériga.

            – Sim, concordo. – responde ela, sem pestanejar – Talvez você seja mais útil do que imaginei.

            Sol’al sorri por ter conseguido o que queria, mas uma coceira em sua nuca lhe deixa confuso sobre a situação e se aquilo foi realmente algo para se contentar.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 3)

            Alak foi o primeiro a passar pelas armadilhas. Para sua sorte, apenas uma armadilha física – dardos disparados da parede – fora ativado e mesmo assim ele conseguiu se esquivar de grande parte dos projéteis. O mercenário já está um pouco ferido pela péssima luta contra os orcs, se tivesse bobeado ainda mais, poderia estar em um estado um tanto deplorável fisicamente.

            Enquanto espera os outros ele apenas se esconde e observa o túnel mais a diante. Foram pelo menos mais oito armadilhas que passou para chegar até lá. Cada armadilha lhe pareceu estar a uma distância de quinze metros uma da outra e dentro desses quinze metros haviam armadilhas físicas que, infelizmente não havia como desativá-las; não com as habilidades que restaram no grupo. “Provavelmente a ladina mirim teria sido útil”, comenta consigo mesmo Alak, tocando um dos ferimentos causados pelos dardos. “Preciso limpá-lo e fechá-lo”, pensa o eremita sacando sua caixa de primeiros socorros novamente.

            Toda e qualquer dor causada durante a auto-costura é ignorada. Nem um som é emitido por sua garganta. Ao terminar ele guarda sua pequena caixa e observa o imenso túnel que ainda existe em sua frente. Porém, em todas as paredes ao seu redor, não há mais nada escrito, nenhum símbolo rúnico, nem nada parecido. “Pelo que parece os orcs e os humanos não esperavam que ninguém chegasse até aqui”, comenta Alak enquanto observa bem de perto as paredes e o chão.

            Em sua busca por qualquer possível tipo de armadilha, Alak abre um grande sorriso: “Rastros”, conclui o eremita agradecendo silenciosamente seu mentor Azirel por ter lhe ensinado tudo que lhe ensinou. Vendo que os rastros eram do pequeno contigente que viera para consertar as armadilhas, Alak conclui que não será tão difícil encontrar o acampamento deles. Ao que parece, esse é o objetivo dos Xorlarrin.

            Contente por não ter encontrado nada que pudesse atrapalhar, Alak se mantém a vinte metros distante da última armadilha, para o caso de algum dos seus companheiros fazerem alguma burrada. Ele escuta alguns disparos de armadilhas, grito e aos poucos o barulho da armadura da clériga. Ele espera mais um tempo considerável até que escuta, surpreso, o barulho metálico da clériga mais próximo e olha para o lado do túnel de onde veio. “O próximo não era para ser o mago?”, se pergunta Alak.

            A Xorlarrin chega toda elegante, sem nenhuma marca de ferimento e com um sorriso deboachado para o mercenário. Alak sorri para a clériga também enquanto essa se apoia na parede e espera o próximo a chegar. Sem demora alguma o mago Sol’al surge com uma feição tola em seu rosto e se aproximando da clériga.

            – Que fique bem claro que minha varinha de cura não durará para sempre. – diz a clériga sorrindo – Tente ser mais cuidadoso da próxima vez, mago.

            – Sim, minha Senhora. – responde humildemente o Teken’Th’Tlar tentando evitar olhar para Alak.

            O eremita sorri, imaginando o que ocorreu. O silêncio toma conta do lugar por um tempo. Sol’al começa a observar o novo trecho do túnel em busca de mais armadilhas, enquanto isso, Alak fixa seu olhar para o lado do túnel de onde vieram os orcs. A clériga, como sempre, fica parada olhando para o que os dois estão fazendo.

            – Não perca seu tempo, mago. Já procurei por marcas, armadilhas e tudo mais. – comenta Alak sem deviar seu olhar do túnel.

            – E você por acaso conhece símbolos arcanos e linguagem abissal, mercenário? – pergunta o mago com desdém.

            – Não, mas sei quando tem algo escrito em uma parede. – responde Alak com sorriso no rosto enquanto continua observando o túnel.

            Sol’al fica em silêncio e prossegue por mais um tempo em sua busca por runas, sinais e palavras escritas nas paredes. Quando o guerreiro Xorlarrin chega, o mago interrompe sua busca e Alak volta-se em direção ao recém-chegado. Apenas um pequeno ferimento no braço do guerreiro demonstra que mais uma armadilha física fora acionada.

            – Agora só falta o ogro. – comenta o Xorlarrin.

            – Acho que seria mais saudável para nós nos afastarmos ainda mais da última armadilha. – comenta Sol’al.

            A clériga concorda com um aceno de cabeça e caminha para mais longe de onde vieram, enquanto todos os outros fazem o mesmo.

            Aos poucos os sons das explosões tomam conta do túnel. Se os orcs acreditavam que ninguém passaria com vida pelas armadilhas, agora teriam certeza. O som era tão forte e ecoante que todos tiveram que tampar seus ouvidos para que não tivessem seus tímpanos feridos. Por fim uma onda de calor chega até eles, “Parece que Brum conseguiu chegar até a última armadilha”, comenta mentalmente Alak aliviado, porém apreensivo para ver seu companheiro.

            – Acho que… Preciso dormir… mais um pouco. – todos escutam a voz de Brum chegando próximo ao trecho do túnel onde eles se encontram. O ogro mago está com grandes ferimentos. Queimaduras fortes, e vários cortes causados por armadilhas físicas que foram acionadas e conseguiram ferir a pele grossa do grande mercenário.

            – Brum? – Alak vai de encontro ao seu companheiro.

            – Esquenta não, Alak. Você sabe como é. – diz ele sorrindo – Eu vou sobreviver e me curar rapidinho, só preciso descansar um pouco.

            – Mercenário! – grita a clériga em baixo-drow para chamar a atenção de Alak – Deixe o inferior ai, depois ele nos alcança.

            – Não no momento, Senhora. Vou estancar os ferimentos dele antes. – reponde o eremita também em baixo-drow.

            – Ela disse a palavra, não é Alak? – pergunta Brum falando baixo pelo cansaço.

            Alak tira sua caixa de primeiro socorros antes de responder a pergunta do ogro. Ele pondera qual será a melhor resposta a ser dada.

            – Disse sim, Brum. Mas vamos esperar terminar essa missão, ok? – responde Alak com um sorriso enquanto começa a costurar com dificuldade algumas das feridas mais abertas de Brum.

            O ogro dá uma risada contida enquanto Alak trata de seus ferimentos. Aquilo não está preocupando nem Brum nem Alak realmente. Eles sabem que é da natureza da raça de Brum regenerar-se com facilidade, além de que o treino que Brum recebeu para se tornar um Renunciante, permite que esse consiga se curar com uma facilidade ainda maior.

            – Mercenário! – grita a Xorlarrin chamando-o novamente.

            – Estou indo, Senhora. – responde Alak terminando o último ponto na perna do companheiro – Espero por você mais a frente, Brum.

            – Pode deixar, Alak. Estarei lá bem antes do que essa vaca espera. – responde Brum sorrindo e balançando a mão quando percebe a expressão de interrogação no rosto de Alak, quando ele disse: “vaca” – Esquece… E valeu por gastar comigo essas linhas exóticas que você usa.

            – Não esquenta. – responde Alak dando um tapa no ombro de Brum e saindo para encontrar-se com o resto do grupo, deixando apenas o imenso ogro para trás.

            – Você se preocupa demais com aquele inferior, mercenário. – comenta a clériga com desaprovação em sua voz.

            – Ele ainda é o mais útil desse grupo, Senhora. – responde ríspidamente enquanto a clériga o encara com dúvida se ele a incluiu ou não.

            O grupo fica em silêncio enquanto eles caminham pelo túnel sem grandes problemas, afinal não há outro caminho para seguirem. Muito tempo se passa apenas com caminhadas, Sol’al começa a se sentir fatigado, mas logo conjura uma pequena magia para acabar com a fadiga física e prosseguir sem empecilhos. O guerreiro Xorlarrin toma um pouco de água do seu cantil e a clériga se esforça ao máximo para não demonstrar cansaço. Alak, por estar mais acostumado com esse tipo de trilha, não tem grandes problemas no caminho.

            Aos poucos eles começam a escutar o som de uma queda d’água mais a frente.

            – Há outros túneis por perto. – setencia o eremita ao começar a escutar o som.

            – Como você sabe? – questiona a clériga.

            – Pois não vejo nenhum rio por aqui. E se tem uma queda d’água, conseqüentemente deve haver alguma fonte. – responde Alak como se dissesse algo óbvio.

            A clériga fica em silêncio, é perceptível que ficar conversando enquanto caminham, a deixa ainda mais cansada.

            – Senhora, gostaria que lhe recobrasse as forças através de alguma magia? – se oferece Sol’al.

            Ela o encara como se estivesse dizendo algo sem nexo.

            – Não estou cansada. – responde ela convicta com o som da queda d’água cada vez mais forte.

            – Não estou dizendo isso, minha Senhora. – responde Sol’al não querendo bater de frente com o orgulho de uma clériga de Lolth.

            – Acho que chegamos ao fim. – comenta o guerreiro Xorlarrin, enquanto Alak apenas observa aquela que parece ter sido a entrada pela qual os orcs e humanos passaram.

            Sol’al e a Xorlarrin observam com um certo espando a imensa entrada, ou saida. O som da queda d’água está extremamente forte. Alak analisa todos os pontos daquela enorme caverna aonde a passagem dá de encontro. Olhando para baixo, a uns trinta metros da boca onde se encontra, há o chão que serve como uma grande margem para o bizarro lago o qual a queda d’água tem como destino. Alak resolve terminar sua observação antes de tentar compreender como o lago não transborda ou para onde a água prossegue em seu curso. “Talvez haja alguma passagem em seu fundo”, pensa consigo mesmo tentando deixar a idéia de lado.

            Ele observa todas as paredes da caverna, é como se fosse uma imensa cúpula oval, cheia de entradas para outros possíveis túneis. Essas entradas estão dispostas de forma caótica em níveis de alturas diferentes. Segundo uma contagem rápida feita pelo eremita, deve haver aproximadamente vinte entradas. “Que bosta. Isso apenas vai me dar mais trabalho”, pensa Alak enquanto termina de observar a imensa área daquele “ovo” subterrâneo.

            – Terminou de analisar como deceremos, mercenário? – pergunta a clériga.

            – Precisaremos escalar. – responde o eremita.

            – Talvez vocês, pois eu e o meu guerreiro somos de uma das Casas Nobres de Menzoberranzan. – comenta a clériga rindo com satisfação como se tivesse acabado de humilhar um goblin qualquer.

            Alak ignora e começa a tirar sua corda feita com teia de aranha gigante de sua sacola, enquanto escuta os passos de Brum se aproximando. Sem olhar para o que Alak estava tirando de sua trouxa, a clériga comenta:

            – Espero que sua corda aguente seu amigo. – ela ri mais uma vez e ordena – Rizzen, pegue o mago.

            “Rizzen? Rizzen Xorlarrin? Pronto, já sabemos o nome de um deles”, comenta consigo mesmo Alak enquanto observa a feição de desgosto no rosto do guerreiro e a feição de surpresa no rosto do mago, que deve ter pensado a mesma coisa.

            A clériga ativa a insígnia de sua Casa e desce suavemente até o solo, enquanto Rizzen a segue do mesmo modo, mas com o mago em seus braços. Alak ri com a cena do guerreiro segurando o mago e vira-se na direção de onde Brum vem.

            – Brum? Teremos que descer pela corda. – comenta Alak antes do ogro ver para onde eles teriam que descer.

            – Putz! Corda? – reclama contrariado – Eu poderia simplesmente pular para ver se caio em cima da clériga?

            Alak gargalha enquanto Brum o olha atravessado.

            – Hey, eu não estou brincando. – diz o ogro em tom contrariado.

            O eremita ignora o companheiro e prapara a corda para a grande descida. Brum apenas observa os três que chegaram ao chão.

            – Descerei primeiro, Brum. Você só começa a descer quando eu já estiver lá embaixo, ok? – instrui Alak – Qualquer atitude estranha por parte de nossos “amigos”, ataque-os.

            – Será um prazer. – responde Brum com um grande sorriso no rosto enquanto Alak inicia sua descida, contente por ver que o ogro já havia melhorado bastante de seus ferimentos.

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