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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 4)

            “Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”, um insight vem na mente no mago Sol’al Teken’Th’Tlar em meio ao seu Reverie. “Talvez seja isso”, diz a si mesmo enquanto escuta algumas conversas ao seu redor.

            Por não estar mais escutando nem sentindo a vibração do ronco de Brum, ele acredita que esse esteja fazendo parte da conversa. Atento e tentando aguçar sua audição, Sol’al começa a distinguir os sussurros.

            – Claro que não era pra nós. Eles não sabiam da nossa contratação. – diz o imenso ogro ao seu companheiro de conversa, que facilmente Sol’al percebe ser Alak.

            – É disso que estou falando Brum. Acho que a presença do mago é tão indigesta aos dois quanto a nossa. – comenta Alak tranqüilamente enquanto o ogro segura o riso.

            – De boa Alak, o maguinho nem tem como ser mais indigesto que nós. – comenta ele.

            Sol’al controla sua raiva ainda se mantendo na posição que estava quando entrou em Reverie, esperando que os dois mercenários falem algo que realmente os comprometam. Porém nada surge. Ambos ficam apenas conversando assuntos banais como cerveja, mulheres e táticas de guerra.

            Depois de algum tempo o mago Teken’Th’Tlar volta a escutar o ronco fortemente sonoro de Brum. Até que uma voz masculina chama a atenção de Alak:

            – Descobriu algo mercenário?

            A voz está baixa, mas Sol’al consegue reconhecer como sendo do guerreiro Xorlarrin, pois não teria como ser de outra pessoa; a não ser que mais um “suporte” estivesse por perto.

            – Sim. Há uma outra passagem, mas não me pareceu mais segura que essa. – responde o eremita também com voz baixa.

            – Por que? – questiona o guerreiro.

            – Há orcs e um grupo se digladiando. – responde Alak como se aquilo não importasse.

            – Grupo? – pergunta o guerreiro como se estivesse lendo a mente de Sol’al.

            – Sim, um grupo de seres inferiores liderados por uma clériga de Lolth. Aquilo que teoricamente estamos procurando. – responde cinicamente o eremita.

            “O culto a Lolth?”, se questiona surpreso o mago. A ansiedade começa a tomar conta do corpo de Sol’al, mas esse se controla para não perder a oportunidade de descobrir o que está ocorrendo na missão. O silêncio tomaria conta do local se não fosse pelo ronco do ogro, até que o Xorlarrin retoma a conversa:

            – Você não está procurando nada. Até onde entendi, você e seu amigo foram contratados para protegerem a clériga, correto? – diz secamente o guerreiro.

            – Correto, Mestre Q’Xorlarrin. – responde Alak com reverência.

            Sol’al não escuta resposta, mas acredita piamente que o guerreiro a fez com seu habitual sorriso. A mente do mago se entrega a um turbilhão de pensamentos, aos poucos ele começa a se concentrar para poder refletir de maneira mais coesa. “O culto a Lolth pelos escravos não é a real razão de tudo isso. Isso eu entendi”, comenta consigo mesmo, “Mas qual será o real objetivo dos Xorlarrin? Será que Orghz sabia ao pedir a ajuda da minha Casa? Será que esses dois Xorlarrin realmente se sentem incomodados com a minha presença?”. Enquanto várias questões palpitam na mente do mago, ele escuta Alak chamando o guerreiro Xorlarrin:

            – Mestre Q’Xorlarrin? Temos companhia.

            Sol’al com o olho semi-serrado vê ao longe uma luminosidade claramente mágica e alguns sussurros. “Esses sussurros parecem ser em abissal”, comenta mentalmente enquanto tenta entender direito o que está ocorrendo. “Eles estão refazendo as armadilhas destruídas!”, conclui Sol’al abrindo os olhos e vendo que o Xorlarrin, Alak e a ladina muda não mais estão lá.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 8 (parte 2)

            Após cinco explosões mágicas que se alternavam entre cortinas de fogo e tapetes de corrente elétrica, Brum começa a ser ferido pelas armadilhas. Alak Sel’Xarann, após muito dialogar com a clériga Xorlarrin, consegue que eles dêem uma pausa na investida sem planejamento que estavam fazendo. Era claro para ele que a clériga queria que Brum morresse no processo e que ela estava completamente decepcionada com o fato dele ser tão resistente e de sua assassina mirim não ter conseguido ser furtiva o suficiente.

            Depois de ter ultrapassado duas vezes a primeira armadilha, eles decidiram que Brum deveria quebrar o trecho da parede onde as runas estavam desenhadas. Isso provavelmente ativaria a armadilha com força total, mas – fora Alak – ninguém se importava.

            Logo que as primeiras runas foram destruídas, a pequena ladina foi colocada na frente para procurar armadilhas físicas que pudessem estar no local. Assim que essas eram encontradas, ela logo se prontificava em desarmá-las. Observando a relação da clériga e da pequena drow, Alak percebeu que a nobre era “dona” da ladina, pois essa não parecia pertencer a Casa Xorlarrin. Ela teve sua língua amputada, “talvez por falar demais, algo comum entre mercenário ou ladrões pertencentes a alguma guilda”, refletia Alak.

            Como um animalzinho de estimação da clériga Xorlarrin, a pequena drow obedecia todas as ordens e se arriscava o quanto fosse necessário para deixar sua dona feliz. Felizmente para ela, a Xorlarrin não a havia colocado em risco como fez com Brum.

            Cada armadilha mágica que Brum destruía, todos os outros se afastavam para não sofrerem com a explosão. A mediada que iam adentrando mais e mais o túnel as armadilhas ficavam cada vez piores e mais poderosas. O mago Teken’Th’Tlar havia observado de antemão que possivelmente o poder das runas seriam crescente.

            – Acredito que a cada passo que dermos mais adentro da “morada” do demônio, mais poderosas serão as defesas. – disse ele logo após a terceira armadilha.

            Brum resistiu sem nenhum arranhão até a quarta armadilha. Na quinta, não foi possível e Alak decidiu intervir por seu colega mercenário.

            – Sacrificá-lo nessa altura da missão é loucura. Não sabemos o que encontraremos mais à frente. – dizia Alak para o guerreiro Xorlarrin em baixo-drow.

            – Não adianta mercenário, ela não vai mudar de idéia. – respondia ele.

            Não satisfeito com as respostas negativas do guerreiro, Alak foi ter uma conversa com a própria clériga.

            – Você quer mesmo que ele morra agora? – perguntou o eremita à Xorlarrin.

            – Não necessariamente, mas se ocorrer: ótimo. – respondeu ela secamente.

            – E você sabe o que encontraremos por lá? Você conhece o demônio que possivelmente nós encontraremos? – retrucou Alak em tom de desafio.

            – Isso não é da sua conta mercenário. – respondeu a clériga com raiva em sua voz.

            – É da minha conta a partir do momento que fui contratado para protegê-la. Brum é um dos únicos nesse grupo que poderia parar um demônio tempo suficiente para que conseguíssemos sobreviver. – disse Alak como quem diz uma verdade incontestável.

            – Você conhece bem a capacidade de todos no nosso grupo, hein? – respondeu ironicamente a clériga.

            – Não. Não conheço o suficiente, apenas sei que você não tem suas mágias no momento e que a única fonte de magia que possui é uma varinha de cura. Suas armas mágicas serão inúteis em uma luta contra alguém mais hábil que você. – a clériga virou-se em direção a Alak com a fúria fervendo em seu rosto, mas o mercenário prosseguiu – Talvez seu assassino que faz pose de guerreiro pudesse lhe ajudar, mas acredito que o que você sente por ele não é necessariamente confiança. Já sua pequena ladina de estimação não seria capaz nem de causar transtorno a um demônio ou aos servos do mesmo.

            A clériga encarou o mercenário por um tempo, com a respiração ofegante de raiva.

            – Com quem você irá contar, Senhora? – finalizou Alak sem deixar de olhá-la nos olhos.

            Ela gritou em alto-drow – palavras que para o mercenário soaram desconexas -, chamando a atenção de todos do grupo.

            – Senhora, eu não entendo alto-drow. Por favor, fale em baixo-drow. – interpôs Alak.

            Ela respirou fundo e retomou um tom de diálogo, porém sem deixar a raiva de lado:

            – Eu tenho um mago e um ótimo guerreiro ao meu lado. – respondeu a Xorlarrin.

            Alak olhou para o mago que estava próximo a parede analisando as runas e voltou-se para a clériga novamente.

            – Eu acredito que seu assassino seja um ótimo guerreiro, mas o mago é ignorável. – disse ele – Além disso, ele não seria capaz nem de manchar a pele de meu companheiro ogro.

            A Xorlarrin o olhou com um ódio mortal palpitando em todos os seus músculos como se ela fosse um coração.

            – Certo. Pensem em algo, mas saiba que quando terminarmos essa missão irei fazer de tudo para que você morra como um herege, macho. – sentenciou a clériga ao mercenário.

            – Sim, minha Senhora. – respondeu Alak voltando-se rapidamente ao seu companheiro em subterrâneo comum e puxando conversa com a ladina e com o mago.

            Os quatro conversaram a respeito do que fazer em seguida. Alak sabia que atrás deles a clériga e o guerreiro planejavam sua morte, mas ele mantinha sua mente tranqüila, pois enquanto Brum estivesse vivo, ninguém tentaria contra sua vida.

            Em relação às armadilhas, muitas idéias surgiram, mas todas tinham alguma falha. Por fim, eles optaram por aceitar um plano bizarro do mago.

            – Talvez não seja necessário destruir a runa para “desativá-la”, talvez apenas um risco bem feito possa inutilizá-la. – diz ele.

            A pequena ladina comenta, de forma discreta, algo ao Teken’Th’Tlar na linguagem de sinais drow, que Alak não entende.

            – O que você propõe então mago? – pergunta Brum.

            – Vi que você arremessa bem suas facas Alak. – responde Sol’al como se o eremita que tivesse perguntado – Você conseguiria acertar aquela runa lá atrás?

            Alak observa a runa que Sol’al havia apontado a vinte metros de distância e responde:

            – Com certeza.

            O mago explica a todos que aquilo pode dar uma reação em cadeia e todos, menos os dois mercenários, se afastam até próximo da entrada. No momento combinado Alak arremessa dois de seus punhais, um em cada mão, e atinge de forma perfeita as duas runas que formam a armadilha a vinte metros. Logo após ter disparado, Brum o cobre como uma barraca. Fogo e eletricidade os atingiram com força total, Alak acreditou que Brum não sobreviveria. Cada armadilha que ultrapassada pela cortina destrutiva de magia se acionava e somava-se à primeira.

            Após tudo aquilo parar e as magias se desfazerem, Brum se levanta e diz a Alak:

            – Tivemos sorte dessa vez, hein? Se esses loucos continuarem agindo dessa forma morreremos antes deles.

            – Eu sei Brum. – responde Alak com uma certa tristeza na voz.

            O eremita sabe que aquilo é verdade e não gosta da idéia de morrer de forma tão estúpida. Por isso ele tem que pensar rápido e logo algo que parecia uma estratégia palpável veio em sua mente.

            Aproximando-se do grupo ele se dirige a clériga:

            – Senhora, acredito que eu poderia procurar alguma outra passagem enquanto o mago estuda formas de desarmar essas armadilhas sem por em risco o grupo. – diz Alak.

            – E você acha que haverá outra passagem? – pergunta a clériga descrente.

            – Não sei, mas sei que fui treinado nas áreas selvagens do Underdark e se houver outra passagem, sou aquele que pode achá-la. – responde Alak com convicção.

            O guerreiro sorri aprovando a atitude orgulhosa do mercenário, enquanto a clériga apenas o encara:

            – Mago, consiga uma maneira de anular essas armadilhas. Mercenário pode ir atrás da outra passagem, mas antes diga ao seu amigo que fique longe do grupo, para que possamos descansar sem a presença de um inferior contaminando nosso ar. – ordena a clériga.

            Alak faz uma breve reverência e vai conversar com Brumm, que o recebe com as frases já conhecidas: “Ela disse a palavra, não é?” e “Sim, senhor meu mestre”.

            O eremita parte em busca de uma outra passagem no Braeryn ou próxima a ele. De início a busca é nos arredores, pois ele acredita que os orcs não são estúpidos de prepararem duas passagens uma próxima a outra. Porém, para sua surpresa, a outra passagem se encontra à mais ou menos vinte e cinco metros da passagem na qual eles entraram, mas, pelo menos, não é tão óbvia.

            A passagem é pequena e estreita, principalmente para ele, um drow de um metro e noventa de altura. Cuidadosamente o eremita adentra a passagem e não encontra guardas onde acreditava que haveria. Entretanto escuta uma batalha ocorrendo mais a frente do túnel. Era um túnel bem semelhante ao que eles estavam: artificial e com muitas protuberâncias rochosas. A pequena familiaridade facilita para que ele se esconda e assista a luta que ocorre no local. A clériga que ele havia visto conversando com aquilo que parecia um goblin no Bazaar, está lutando habilmente contra dois orcs, ao lado de um gnoll e alguns kobolds e goblins.

            A batalha é ferrenha. Os orcs urram seus gritos de guerra, enquanto os companheiros da clériga gritam: “Por Lolth!”. Alak sorri por ter encontrado o culto, mas o fato deles estarem combatendo os orcs, deixa tudo ainda mais estranho.

            O eremita fica algum tempo observando e refletindo sobre o que via, quando percebe que dois orcs caem sem sinal de ter sido atingidos pelo gnoll, mas com cortes profundos no corpo. Ao prestar atenção ele vê o meio-goblin-meio-algo furtivo e camuflado como um camaleão, andando livremente no campo de batalha e escolhendo a dedo sua vítima e a hora certa de atingi-la.

            Alak sente uma preocupação surgir em sua mente quando o pequeno goblin-coisa olha de canto de olho em sua direção. “Ele sabe que estou aqui”, conclui o eremita partindo o mais rápido possível.

            Não demora muito para que ele chegue ao seu grupo novamente. Pelo que parece, Brum está dormindo mais a frente enquanto o mago estuda seu grimório, enquanto a clériga e o assassino estão em Reverie. A ladina apenas observa a todos; é ela quem está de vigia.

            Alak se senta perto de uma parede, esperando o momento oportuno para se dirigir a clériga ou ao guerreiro. O tempo se passa e o mago também entra em Reverie. Alak diz para a ladina dormir que ele fica na vigília. Ela recusa e ele apenas sorri dizendo:

            – Me chame quando for a minha vez. – se posiciona comodamente e entra em Reverie.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (Parte 5)

            “Oh poderoso Shormongur! Mestre da destruição, corrupção e degradação. Que esse lugar se torne uma extensão de seu lar e que seus inimigos não sejam capazes de adentrá-lo. Que seu poder os destrua!”.

            É a terceira vez que Sol’al Teken’Th’Tlar lê aquela oração que está escrita na parede do imenso túnel onde seu grupo adentrou, logo após encontrar uma passagem no chão da barraca que Brum derrubou a porta. A oração está escrita em abissal e não em goblinóide, ou linguagem orc, o que lhe faz ter cada vez mais certeza que deve ter algum encantamento naquilo. Ele aproxima sua mão da escrita e a segue pela extensão horizontal do muro até chegar próximo a uma runa órquica, ou algo parecido. “Ah! Maldição!”, pragueja mentalmente o mago não conseguindo encontrar nenhum significado palpável para aquilo.

            O mago poderia muito bem utilizar uma magia para detectar as propriedades mágicas daquele local, mas ele não se deteve por muito tempo no estudo delas para essa missão. Achou que apenas precisaria verificar se aqueles que iriam acompanhá-lo e os escravos cultistas de Lolth carregavam algum equipamento mágico. Logo na viagem ao Braeryn ele conseguiu ver a aura mágica de alguns equipamentos de seus aliados – com exceção de Brum – e a intensidade deles, porém o cansaço mental já está exaurindo essa magia de sua mente. Ele sabe que só conseguirá utilizá-la mais uma vez. “Será que esse é o momento?”, se pergunta Sol’al, “Essa missão está obscura demais”.

            – Então mago? Descobriu alguma coisa? – pergunta a Xorlarrin.

            – Isso é uma oração a um tal de Shormongur, minha Senhora. Aparentemente um demônio. – responde o mago incerto.

            – Isso eu sei, imbecil. Você descobriu algo útil? – intima a clériga com um olhar severo ao mago.

            – Há… Há u-uma runa no final da oração, minha Senhora. É uma runa órquica, t-talvez seja algum símbolo de proteção mágico. – responde o mago gaguejando.

            – Talvez!? Você está ai já a bastante tempo olhando para esse muro, mago estúpido! Quero saber o que isso exatamente é, me entendeu!? – ordena a clériga Xorlarrin com fúria em sua voz.

            – Sim, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            “Sol’al, acho que você está começando a exagerar na encenação. Isso pode acabar denegrindo a imagem da sua Casa”, se censura mentalmente enquanto volta a observar os escritos. Olhando com mais atenção, Sol’al percebe um pequeno símbolo embaixo do nome Shormongur, “Parece o símbolo sintético do nome do demônio”, comenta consigo, “É o mesmo símbolo do amuleto da humana que matamos fora da barraca”.

            Qualquer mago, principalmente aqueles treinados no Sorcere, sabem que ter o simbolo do nome de um demônio é importante para conseguir tratar com seu dono. Nome é poder, o símbolo não só representa o nome, mas o posto hierárquico, função e influências do demônio em questão. “Já é um grande passo”, diz a si Sol’al mesmo enquanto prossegue com suas reflexões, “Analisarei o símbolo mais tarde”.

            Ele se aproxima da runa orquica e tenta reconhecer os padrões arcanos envolvidos naquilo. Não lhe parece um símbolo divino ou de magia natural, porém a cultura orc nunca foi o forte de Sol’al. Ele observa atentamente e recorda a oração mentalmente enquanto observa de forma fixa a runa. “Palavras de poder”, um insight vem em sua mente fazendo com que ele olhe para o muro do outro lado. Para sua surpresa, sua intuição o guiou corretamente, pois, na outra parede há uma runa idêntica àquela que ele está estudando. “Mesma altura, mesma largura, mesmo desenho. Forma uma espécie de linha horizontal no ar”, pensa enquanto analisa as estruturas da runa que está mais próxima. “Não. Ela parece ocupar mais o espaço. Não uma simples linha horizontal mas…”, tudo parece fazer sentido em sua mente. As runas são desenhadas rudicamente mas suas extremidades se tornam delicadas semelhantes a raízes de árvores que Sol’al já havia visto no subterrâneo próximo a superfície: grossas e rudes quanto mais próximas do tronco e finas e delicadas quanto mais distante dele.

            – Senhora, acho que descobri algo. – diz o mago humildemente, mas sem conseguir esconder seu contentamento.

            – Acha? – pergunta a clériga secamente.

            – Não Senhora, tenho certeza. – responde Sol’al olhando para o pé da Xorlarrin – Essas runas orquicas são armadilhas mágicas. Acredito que elas formem uma espécie de barreira invisível que se passarmos acionará algum efeito, provavelmente destrutível.

            A clériga o encara demonstrando uma certa incredulidade.

            – Ainda não sei o que seria a oração. Acho que pode ser palavras de poder para aumentar o efeito das magias rúnicas. – complementa Sol’al.

            – Sim, são palavras de poder. – comenta a clériga – Você consegue desativar essas runas?

            Sol’al coloca a mão no queixo pensativo, ele sabe que sem conhecer qual magia é conjurada através daquela runa seu trabalho seria bem mais difícil. Além do mais, seria complicado exaurir suas magias para cancelar armadilhas.

            – Acho que não, Senhora. – responde o mago com a cabeça baixa.

            – Inútil! – diz a clériga virando suas costas para ele e se dirigindo ao mercenário Alak – Mercenário, diga para seu companheiro que precisaremos que ele faça um pequeno serviço.

            Alak que se encontra próximo da entrada do túnel, junto a Brum e ao guerreiro Xorlarrin olha em direção a clériga. Sol’al sente uma pontada de ciúme, ao perceber que o mercenário insolente está se tornando mais útil para sua senhora.

            – Sim Senhora. O que você quer que ele faça? – pergunta Alak mantendo a conversa em baixo-drow.

            – Quero que ele ultrapasse aquele limite. – responde a clériga apontando em direção ao local onde as runas estão alinhadas.

            – Senhora, eu escutei a conversa entre você e o mago. Não acho válido sacrificar meu companheiro nesse ponto da missão e… – tenta argumentar o mercenário, mas logo é interrompido pela drow.

            – Eu dei uma ordem! Não pedi sua opinião!

            – Sim, Senhora. – responde Alak com a cabeça baixa voltando-se a Brum.

            Sol’al sorri ao ver a cena.

            – Senhora, há um pequeno símbolo embaixo do nome do demônio, provavelmente o símbolo de poder dele. – o mago puxa uma nova conversa tentando melhorar sua imagem.

            A Xorlarrin olha para Sol’al com uma sobrancelha erguida.

            – É o mesmo símbolo do amuleto da humana que encontramos lá em cima, fora da cabana. – complementa ele.

            – Àquela gorda da qual você ficou coletando sebo? – pergunta de forma extremamente irônica a clériga com um sorriso no rosto.

            Sol’al, simplesmente abaixa a cabeça e se afasta um pouco – ele sabe o quão vergonhoso pode ser alguns momentos de coleta de componentes materiais para suas magias -, enquanto o mercenário ogro se aproxima do local indicado.

            – Se afastem. – diz o mago em baixo-drow aos seus aliados.

            Todos se juntam próximos à entrada. Quando Brum para lá perto observado os dois lados do muro, Sol’al vê de canto de olho Alak sacar um de seus punhais e arremessar rapidamente em direção a clériga. O mago não consegue ser rápido o suficiente para parar o eremita, mas assim que escuta a clériga resmungando, percebe que o alvo do mercenário era outro.

            – Quem é ela? – pergunta Alak a clériga enquanto de trás dela uma pequena drow sai com seu braço machucado pela adaga.

            A clériga simplesmente olha a drow com desdém e dá um leve tapa na própria testa em sinal de decepção. O guerreiro Xorlarrin sorri e responde a Alak:

            – Suporte.

            Alak olha desconfiado para ele, mas ignora o fato e volta sua atenção a Brum. Sol’al acha tudo aquilo estranhamente ridículo. “Suporte?”, se pergunta Sol’al vendo que Alak faz um sinal para Brum, como se esfaqueasse o próprio peito, enquanto esse olha para trás esperando a ordem para ultrapassar a linha. Brum sorri.

            Sol’al compreende levemente a suspeita dos mercenários e olhando para a expressão da clériga e da pequena drow percebe que eles podem estar certos. “Uma pequena assassina. O ogro será sacrificado no instante que passar pela armadilha, faltaria apenas o outro mercenário. Ou não…”, esse pensamento preocupa o mago, que pensa em utilizar uma das magias de comunicação para falar com os superiores de sua Casa. “Está deixando o medo tomar conta?”, se pergunta Sol’al como uma forma de espantar o pensamento covarde.

            Nesse instante a clériga ordena para que Alak dê o sinal ao seu companheiro. Brum, com uma distância considerável do grupo, dá um passo à frente e ultrapassa a linha. Em um piscar de olhos uma grande explosão de fogo ocorre, mas essa não afeta de forma alguma a estrutura do túnel. Simplesmente espalha uma cortina de chamas em uma área de cinco metros tendo Brum como centro. Todos os drows fecham seus olhos graças a grande claridade gerada. Sol’al sorri, pois estava certa a sua teoria, além do insolente ter provavelmente morrido ou ficado altamente ferido no processo, já que ele é um ogro mago, e esses são sensíveis ao fogo.

            Aos poucos a visão volta ao normal e eles percebem que a claridade se desfez. Nada se incendiou. “Maldição”, pragueja o mago enquanto olha para a direção da armadilha. Para sua surpresa Brum está inteiro e sem nem uma única queimadura leve. Sol’al engole a seco e volta sua atenção para o resto do grupo. A clériga e o guerreiro estão com uma mistura de raiva e decepção em seus rostos, a nova drow está surpresa, enquanto Alak apenas sorri.

            – Por isso ele não usa equipamentos mágicos? – pergunta Sol’al ao eremita.

            – Sim. – responde Alak rindo – Brum nunca foi o forte da magia. Ou seria o contrário?

            Sol’al engole a seco e tenta ignorar o deboche de Alak.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 3)

As vielas dos orcs no Braeryn não é um dos lugares mais agradáveis para se estar ultimamente. Aparentemente um dos poucos focos da insurreição dos escravos se estabeleceu por lá. Algo sinistro parece estar ocorrendo, mas nada evidente. Pelo que Alak Sel’Xarann percebeu, as patrulhas drows evitam aquele lugar, não por medo, mas porque eles têm muito mais o que ganhar agindo dessa maneira, afinal, honestidade nunca foi o forte dos drows e quando surge alguma oportunidade para conseguirem ganhos, não há porque perder a oportunidade.

Desde que chegaram naquele local, o grupo da Xorlarrin está caminhando atento e cuidadosamente. Nenhum orc foi visto até o momento e pelo que o mercenário drow já percebeu e indicou através de sinais toscos – que nada se assemelham a linguagem de sinais de sua raça – ao seu companheiro ogro mago, eles estão sendo vigiados. Ambos caminham na frente, como que para chamar atenção, algo não muito difícil para um imenso ogro e um drow bem maior que a estatura normal da sua raça.

– Alak, estou ouvindo várias pegadas e ruidos subindo as barracas e não são orcs. – sussurra Brum sem desviar seu olhar do caminho que está a sua frente.

– Provavelmente alguns mercenários ou escravos dos orcs. Devem estar subindo nos telhados para nos cercarem com dardos e bestas. – sussurra em resposta o mercenário eremita, também sem fazer menção de que está preocupado com o que ocorre ao seu redor.

Ambos continuam caminhando sem saber o que está ocorrendo com o grupo atrás deles. “Eles continuam nos seguindo”, pensa Alak escutando o tilintar da armadura da clériga, “Espero apenas que não durmam no ponto”. O eremita mantém três adagas de arremesso preparadas em cada mão, enquanto Brum carrega suas clavas de pedra, preparado para entrar em combate a qualquer momento.

– O problema é que não sabemos nem para onde ir. – comenta o ogro sussurrando.

– Apenas temos que encontrar algum orc. – responde Alak também em sussurros quando um assovio corta o ar.

Uma pequena flecha de besta atinge o ombro de Brum, mas nem mesmo consegue penetrar sua pele grossa.

– Acho que os diabinhos resolveram mostrar suas caras. – diz Brum olhando para a direção de onde veio a flecha e encontrando um pequeno goblin preparando a besta novamente.

Alak vira rapidamente para o lado oposto de Brum, a fim de analisar a situação na qual eles se encontram. Seu grupo realmente está logo atrás. O mago está com uma adaga de arremesso preparada em sua mão direita, enquanto o guerreiro Xorlarrin está caminhando em posição defensiva ao seu lado, empunhando uma espada curta, já a clériga está posicionada na frente deles com sua maça e seu escudo médio, caminhando entre as duas divisões. Porém, nenhum deles pareceu ter percebido o ataque contra Brum. Após a rápida olhada em seu grupo o mercenário drow enxerga alguns outros goblins posicionados em telhados, preparando suas zarabatanas e bestas.

Sem perder tempo, o eremita arremessa suas adagas da mão esquerda em direção a dois goblins que estão no mesmo telhado, ao mesmo tempo em que escuta o mago Teken’Th’Tlar dar um aviso ao grupo de trás a respeito dos atiradores. Duas das adagas do mercenário atingem em cheio o pescoço de um dos goblins que cai do telhado aparentemente morto, enquanto a última adaga erra por pouco o segundo alvo.

– Brum! – grita o mercenário chamando a atenção do ogro quando vê que mais goblins estão surgindo em cima das barracas próximas.

O ogro vira seu rosto em direção de Alak que apenas faz o sinal de um círculo e finaliza com um “estouro” de dedos. Brum entendendo logo de imediato segura as compridas correntes de suas grandes clavas de pedra e prepara o corpo para impulsionar um giro.

– Todos abaixem!! – grita Alak pulando ao chão.

A clériga Xorlarrin olha para o mercenário com uma expressão de assombro e raiva, mas não perde tempo em mergulhar. Alak vê atrás da clériga o mago e o guerreiro fazendo o mesmo.

– Mercenário estúpido! – grita a clériga no dialeto drow em meio aos estouros das clavas de Brum atingindo as barracas, feitas de barro e pedra, e as demolindo.

Alak ri consigo mesmo e se vira para ver o estrago causado por seu companheiro ogro. Brum está terminando o segundo giro e parando. Ele balança a cabeça como se quisesse espantar a tontura e olha ao redor para tentar encontrar os goblins atiradores. No meio da fumaça de pó de argila, Alak vê alguns pequenos vultos se levantando e batendo e retirada.

– Boa, Brum. – comenta o eremita levantando-se já com uma de suas espadas em mãos.

– Não há como não ser. – responde Brum com um sorriso no rosto.

– Mercenário! Precisamos de um desses goblins para interrogatório! – grita o mago que está se levantando e limpando suas vestes.

– Faça isso! – grita a clériga em baixo-drow, concordando com o Teken’Th’Tlar.

Alak corre até um goblin perceptivelmente ferido que não conseguiu bater em retirada. O pega pelo cangote e leva até o grupo. O goblin treme desesperado na mão do drow, deixando um rastro de urina pelo caminho.

– Interrogue esse inferior imediatamente e descubra onde estão os orcs! – ordena a clériga em baixo-drow.

Alak a olha rapidamente com uma de suas sobrancelhas levantadas.

– Sim, Senhora. – Alak volta-se em direção ao pequeno goblin que continua tremendo convulsivamente de medo – Onde estão os orcs?

O goblin tenta falar, mas nada sai de sua garganta.

– Ela disse a palavra, não é? – interompe Brum.

– Agora não Brum. – corta Alak, voltando sua atenção novamente ao goblin seca e pausadamente – Responda… onde… estão… os… orcs?

A respiração do pequeno goblin acelera cada vez mais. Esse tenta responder novamente, mas as palavras não saem de sua boca de forma inteligível. Quando algum som semelhante a um “nã” está para sair da boca do goblin, a cabeça desse estoura espalhando pedaços e sangue aos pés dos mercenários que estavam próximos.

– Esse merdinha não ia ajudar em nada. Vamos embora. – diz a clériga Xorlarrin em baixo-drow, limpando sua maça suja com o sangue da criatura.

– Ela falou a palavra de novo, não foi? – pergunta Brum a Alak encarando a clériga.

– Não Brum. Pare com isso. – responde Alak ao seu companheiro.

A Xorlarrin encara o ogro de volta.

– Seu amigo está com algum problema? – a clériga pergunta para Alak ainda em baixo-drow.

– Não Senhora. – responde o eremita na mesma linguagem, logo voltando-se para o ogro em subterrâneo comum – Brum vamos andando.

Brum dá um passo a frente em direção a clériga que se afasta, mas logo se vira de costas e começa a procurar por orcs rindo da reação assustada da clériga.

– Quer que eu ensine alguma lição a ele, Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Não. Ele vai ser útil mais para frente. – responde secamente a clériga.

Alak apenas escuta a breve conversa dos dois e caminha para junto de seu companheiro quando ouve o guerreiro Xorlarrin mais à frente chamando a atenção do grupo.

“Encontrei alguns rastros”, diz ao grupo na linguagem de sinal drow, próximo a algumas barracas não atingidas pelas clavas de Brum.

Alak conhece pouco a linguagem de sinal, mas prefere fingir não conhecê-la e faz de desentendido. Quando a clériga e o mago ultrapassam ele e seu parceiro indo ao encontro do Xorlarrin, eles resolvem seguí-los. O guerreiro está observando algumas marcas no chão, que o eremita reconhece claramente como pegadas de orcs que adentraram aquela barraca.

– Ótimo, já sabemos por onde começar. – diz a clériga em baixo-drow com um sorriso no rosto – Mercenário, abra a porta.

Alak olha para a clériga, inclina levemente a cabeça e responde também em baixo drow:

– Sim, Senhora.

Armadilhas nunca foram o forte do eremita, muito menos em um contexto urbano. Mesmo assim ele prefere gastar um tempo observando a porta em busca de alguma possível ameaça. “Isso não está me cheirando bem”, comenta consigo quando a alguns metros um cântico profano é escutado. Alak para de analisar a porta e se vira para a direção da voz feminina que entoa aquelas silabas distorcidas.

Percebendo que todos do grupo foram pegos de surpresa, o eremita prepara suas duas espadas e tenta focar sua visão em uma figura larga e tremeluzente à pelo menos quinze metros de distância. Analisando o efeuito tremeluzente, Alak percebe que aquilo é causado por uma espécie de aura de calor e que aquele ser nada mais é que uma humana gorda e nua. Ao seu lado ele escuta o mago Teken’Th’Tlar recitando algumas palavras arcanas e vê o guerreiro Xorlarrin correndo em direção a humana.

– Brum, abra a porta enquanto eu os ajudo a enfrentar essa mulher. – diz Alak correndo também em direção da humana.

– Você demorou tudo isso só para abrir uma porta? – Brum ri e dá um forte murro, abrindo a passagem para dentro da barraca.

Alak ignora as risadas do seu companheiro e vê com uma certa distância, do seu lado esquerdo, uma esfera flamejante rolando pelo chão, deixando uma trilha de chamas, indo em direção da mulher que prossegue com seus cânticos. “Parece que o mago está mostrando porquê veio”, comenta mentalmente enquanto prepara para saltar em direção da mulher e arremessar uma de suas espadas.

Quando o momento se aproxima a bola ultrapassa o eremita e o guerreiro Xorlarrin e atinge seu alvo. Uma pequena explosão ocorre, tanto Alak quanto o Xorlarrin conseguem se esquivar de qualquer resíduo, mas assim que olham na direção da humana vêem que nada ocorreu a ela e que o cântico nem mesmo parou.

– Ela possui proteção mágica. – diz o Xorlarrin a Alak no dialeto drow – Atraia a atenção dela que a atacarei por trás.

– Fácil. – responde Alak pegando impulso para saltar e rolar pelo chão na frente da humana.

O salto sai perfeito. Com o próprio deslocamento de seu corpo, Alak rola pelo chão parando agachado em frente a sua adversária e arremessando uma de suas espadas, que acaba sendo desviada por algum vento quente que a circunda. Mesmo assim, a lâmina da espada passa de raspão pelo ombro da humana e abre um profundo corte, mas isso não é o suficiente para tirar-lhe a concentração. “Merda!”, pragueja mentalmente o eremita enquanto um círculo de fogo se levanta ao redor da clériga.

– Brum! Arremessa uma clava! – grita Alak vendo a adaga que parece ser do mago atingindo também de raspão a mulher gorda.

Atrás do círculo o eremita vê o guerreiro caminhando em uma posição estratégica que lhe permitiria atingi-la com um golpe fatal, porém sem conseguir se aproximar. A humana realmente não conseguiu perceber sua aproximação, mas o que ocorre ao seu redor não parece preocupá-la. Ela já havia iniciado outro cântico. Sua voz alcança uma potência preocupante e um brilho flamejante é disparado de sua mão ao mesmo tempo em que uma tora de pedra atinge em cheio a mulher que é arremessada para fora de seu próprio círculo.

Alak consegue se esquivar por pouco do raio flamejante disparado contra ele. Parte de sua armadura de couro batido é queimada no processo, mas sem perder tempo ele se desfaz dela e salta em direção à conjuradora, cravando sua espada em seu peito assim que pousa no chão. Ela ainda tenta segurar o pescoço do eremita, mas logo a espada curta do guerreiro Xorlarrin rasga-lhe a garganta.

O eremita percebe que ela, além de estar nua, é extremamente imunda, cheia de sebo, terra, excrementos. Sentindo nojo ele arranca a espada de seu peito e se afasta. O Xorlarrin também sente nojo e dá um passo para trás.

– Vou pegar minhas armas. – diz Alak como se já tivesse feito seu serviço e se afastando para recuperar sua outra espada e seus punhais arremessáveis.

Enquanto se afasta da humana o mago e a clériga se aproximam, e passam a observar o corpo.

– Ela é uma clériga. – comenta o mago.

– Sim, eu já sabia. – responde a Xolarrin secamente – Mas quem ela venera é que me intriga.

“Se sabia por que não avisou antes, sua puta”, comenta mentalmente Alak sentindo sua raiva ferver.

– Tem uma corrente passando pelo pescoço dela, Senhora. – comenta o mago.

Alak se vira em direção à conversa enquanto pega sua outra espada e vê o guerreiro Xorlarrin arrancando uma corrente com um pequeno pingente e entregando para sua senhora. O rosto da clériga se distorce em fúria, mas ela nada diz, apenas o guarda e faz alguns sinais quase imperceptíveis para seu guerreiro.

– O que seria isso, minha Senhora? – pergunta o mago à clériga.

– Silêncio, macho. Quando eu quiser falar com você assim o farei. – responde rudemente a clériga Xorlarrin partindo junto ao guerreiro para a cabana que Brum havia derrubado a porta.

“Guarde seus segredos enquanto pode clériga”, comenta consigo Alak vendo o rosto contrariado do mago Teken’Th’Tlar por ter acabado de perceber que sua subida na hierarquia de confiança da Xorlarrin havia sido ilusória. Alak apenas sorri e volta a procurar suas adagas.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 7 (parte 1)

Desde que sairam do Bazaar, Sol’al Teken’Th’Tlar desenvolveu uma grande antipatia pelos mercenários, em principal pelo ogro mago chamado Brum. Somada ao último encontro com os dois longe da presença da clériga, essa antipatia cresceu. Entretanto, a situação como um todo não está das melhores.

A clériga é igual à maioria que ele já conheceu, o que não o surpreende. Arrogante, impulsiva e orgulhosa, tudo que se espera de uma serva da Rainha das Aranhas. O que realmente lhe deixa inseguro é, que na hierarquia de confiança da clériga, está claro que ele só está acima dos mercenários, o que não lhe parece tão difícil dada a situação em que os dois se apresentaram. Já Sol’al, foi enviado a pedido de um mago da própria Casa da clériga, não lhe é confortável ser o segundo nessa “hierarquia”.

O guerreiro ou assassino e porta voz da clériga, o qual ele também não sabe o nome, age como se não tivesse nada a esconder. Parece ser um servo fiel e honrado, o que cria um paradoxo na mente do mago. Além de ser um drow, o que já deixa a situação suspeita demais, ele é claramente um assassino aos olhos de Sol’al, e assassinos são tão ou mais traiçoeiros que serpentes. Mesmo assim a clériga possui uma confiança inestimável ao tal guerreiro. Sol’al percebeu o motivo no caminho para o Braeryn, ao se deparar com os olhares desejosos e cheios de luxúria que a clériga mirava no macho Xorlarrin.

“Isso complica muito a minha situação”, reflete Sol’al enquanto escuta o fim da breve discussão que se desenrolava entre o mercenário drow Alak e a clériga Xorlarrin, obviamente através de seu fiel guerreiro.

– Não iremos mais deixar vocês a sós, Senhora. Não insista. Fomos contratados para protegê-la e não conseguiremos fazer isso se continuar nos enviando para longe. – diz o mercenário ao guerreiro logo se voltando a clériga – E, pelo menos, tente parar de se dirigir a mim através de seu macho. É constrangedor.

A clériga fulmina Alak com um olhar cheio de raiva e o guerreiro Xorlarrin posiciona a mão em sua espada curta como se estivesse preparado para alguma ordem de sua senhora. Sol’al os observa. A discussão estava para pegar fogo desde o começo, mas sem a participação do ogro insolente, que ficou quieto o tempo todo, ela se estendeu sem balburdias maiores, até agora. Para o mago sua ação será óbvia se houver algum embate, ele atacará o imenso ogro com uma de suas magias mais destrutivas, para que esse não auxilie o seu companheiro.

– Preste atenção como se dirige a mim macho! Sou uma clériga de Lolth! Ponha-se em seu lugar! – grita a Xorlarrin se aproximando de Alak para desferir-lhe um tapa, quando Brum, como quem não quer nada, apenas dá um passo à frente.

– Desculpe Senhora. – responde Alak se curvando levemente à clériga que olha para o imenso ogro e abaixa a mão, mas sem perder a pose finaliza a discussão:

– Então, estamos entendidos?

– Sim, Senhora. – responde Alak com um leve sorriso no rosto.

Sol’al fica pasmo com a cena. “Ela ficou com medo do ogro?”, se pergunta horrorizado, “Ela é uma clériga de Lolth, não pode ser tão fraca”. O mago fica olhando para ela que caminha até seu guerreiro e o faz guardar sua espada com apenas um gesto. “Não, ela deve estar esperando o momento certo para colocar seu assassino em ação. Assim será uma atitude mais nobre”, justifica a si mesmo Sol’al.

– Com sua permissão para lhe dirigir uma pergunta. Por onde iremos agora, minha Senhora? – pergunta o mago Teken’Th’Tlar de sua forma extremamente humilde à Xorlarrin mudando o assunto em sua mente.

– Pelo que parece nada foi descoberto por vocês até o momento. – começa a responder secamente a clériga – Porém nós conseguimos uma pista a respeito de alguns escravos que fugiram do Braeryn. Possivelmente eles estão envolvidos no culto a Lolth.

Sol’al não consegue acompanhar qual raciocínio a levou a concluir aquilo, mas não a contraria, apenas inclina a cabeça em sinal de entendimento.

– Como a maioria dos escravos que fugiram foram orcs, iremos para a região do Braeryn onde os orcs costumam se reunir. – se intromete o guerreiro Xorlarrin.

– Onde fica isso Mestre Q’Xorlarrin? – pergunta o mago.

– Ao leste, próximo ao extremo do bairro, próximo ao caminho que leva ao dornigaten. – responde o guerreiro após uma rápida olhada ao redor.

Por incrível que pareça o local onde eles se encontram não tem nenhum ser inferior por perto, com exceção de Brum. Sol’al, logo após observar a atitude do guerreiro, olha ao redor para ver se não encontra ninguém escondido antes de responder.

– Não se preocupe, não há ninguém além de nós e do patrulheiro que se aproxima por lá. – diz Alak se incluindo na conversa e apontando para uma viela a sua direita de onde um patrulheiro sai com seu lagarto de montaria.

Sol’al olha para o mercenário com desdém, enquanto o guerreiro Xorlarrin apenas sorri, uma atitude bem estranha aos olhos do mago.

– O que estão fazendo por essa região, senhores? – pergunta o patrulheiro.

– O que lhe interessa macho? – interrompe a clériga segurando sua maça firmemente na mão.

– Desculpe Senhora, não havia visto que uma clériga de Lolth os acompanhava. – se justifica rapidamente o patrulheiro antes que a situação fique pior – Estou fazendo apenas o meu trabalho para poder reportar à Matrona Baenre o que está se passando aqui no Braeryn.

– Estou em missão para descobrir sobre os cultos hereges que ocorrem nesse local. – responde a clériga – Isso é tudo que você precisa saber.

– S-sim, Senhora. – diz o patrulheiro olhando para todos ao seu redor.

Sol’al, satisfeito com as atitudes intimidantes da clériga, pondera: “Ela não vai perguntar se o patrulheiro não ouviu nada a respeito?”.

– Antes que você vá. Você sabe de algo sobre alguns orcs escravos que fugiram de Menzoberranzan? – pergunta o Xorlarrin.

O mago Teken’Th’Tlar estranha a pergunta, mas fica esperando a resposta do patrulheiro que logo vem.

– Ouvi boatos, Senhor, mas nada concreto. – responde de maneira esquiva o patrulheiro.

– O que você ouviu? – o guerreiro prossegue a conversa com um olhar fixo e penetrante em direção ao patrulheiro.

Sol’al apenas se mantém atento:

– Os orcs tiveram grandes perdas durante a insurreição, por isso seu número está tão menor e eles estão tão irritados. Alguns dizem coisas diferentes, mas não sei se é verdade. Dizem que os orcs encontraram alguma passagem, guiados por uma humana, mas nós patrulheiros não descobrimos nada, Senhor. – responde abertamente o patrulheiro para o estranhamento geral do grupo, menos da clériga.

“Interessante”, pensa Sol’al.

– O suficiente. Continue sua patrulha. – comanda o Xorlarrin voltando-se à clériga em alto-drow – Acredito que seja por lá mesmo minha Senhora.

Enquanto o patrulheiro parte e Alak e Brum não compreendem nada do que o guerreiro disse na linguagem nobre, Sol’al apenas escuta.

– Então não vamos perder tempo. – responde a clériga também em alto-drow – Mago, quero você de olho nesses dois mercenários, entendeu?

– Sim minha Senhora. – Sol’al responde mantendo a conversa na mesma linguagem para que os dois mercenários continuem sem compreender.

Enquanto eles iniciam a nova caminhada nas vielas fétidas do Braeryn, o mago Teke’Th’Tlar apenas reflete: “O que eles estão procurando? Com certeza não é o tal culto a Lolth”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (parte 3)

  – Então quer dizer que ela acha que fomos contratados para espioná-la? – pergunta Brum ao seu companheiro drow Alak Sel’Xarann, enquanto caminham por uma viela cheirando urina e carniça no Braeryn, onde chegaram a pouco tempo.

– Isso mesmo, Brum. – responde o eremita mercenário observando seu ambiente, vendo mais a frente um grupo de gnolls conversando. Ele se prepara mentalmente para qualquer eventualidade.

– Até que ela não é tão burra quanto parece. – comenta o imenso ogro.

Alak olha para Brum como se não tivesse escutado direito o que seu companheiro falou.

– O que você disse Brum?

– Sei que você não tem muito a ver com isso, mas como já trabalhamos juntos outras vezes, não vou esconder de você. – responde o ogro incerto de como dizer que os contratos foram diferentes.

– Esconder o que? – Alak pergunta, voltando a olhar para o grupo de gnolls mais a frente que começa a se mexer inquieto com a aproximação dos dois mercenários.

– Eu não fui contratado apenas para protegê-la. – responde Brum como se tivesse falado o suficiente.

O eremita percebe a resposta implícita na frase de seu companheiro e prefere não entrar em detalhes naquele momento, pois os gnolls estão com as armas nas mãos, preparando-se para os interceptar. Eles continuam caminhando na direção do grupo como se nada estivesse ocorrendo, afinal aquele grupo pode ter alguma informação a respeito do culto a Lolth.

– Ainda acho que não é uma boa deixar a clériga e aqueles dois sozinhos. – comenta Alak ao seu companheiro.

– Fazer o que? Foram ordens dela. – responde Brum sorrindo.

– Ainda acho que deveríamos voltar para fazermos nosso papel de guarda-costas.

– Cês diviam memo voltá. Pra num pisarem onde não são bem vindos, drow. – ameaça um dos gnolls do bando.

Alak o analisa antes de encará-lo nos olhos. O gnoll está segurando uma clava e um escudo pequeno. Sua armadura é um trapo de couro batido e seus braceletes são de metais com pequenas lâminas protuberantes.

– Coloque-se no seu lugar, animal. – diz secamente Alak ao gnoll – Ou eu o colocarei.

– Certo! Agora você está agindo como um drow de verdade. – diz seu companheiro ironicamente.

– Brum, poupe-me de seus comentários. – responde o eremita, olhando para o ogro com cara de indignado.

– Mmmm, que coisa. Pensei que a clériga tinha ficado lá pra trás. Acho que me enganei. – comenta Brum rindo e ignorando completamente a presença dos gnolls.

– Prefiro ficar quieto a discutir com um…

– Cês são louco?! Cês invadem nosso território pra ficar discutindo o relacionamento? – o gnoll interrompe Alak.

Ambos os mercenários viram em direção ao gnoll e o encaram. Reflexivamente, o bárbaro dá um passo para trás, tentando não demonstrar ainda mais o pensamento que brota em sua mente “Putz, falei merda”.

– Cê cuida dele, Alak? – pergunta Brum.

O eremita não responde, apenas se vira em direção ao gnoll bárbaro e se aproxima.

– Vamos ver se você entende com quem está falando antes de morrer. – ameaça Alak.

O gnoll parte para cima do drow, enquanto seus companheiros ficam acuados pela presença do imenso ogro. O bárbaro tenta atingir a cabeça do mercenário, mas esse se esquiva com uma agilidade surpreendente e um deslocamento de ar passa próximo ao focinho do gnoll. Os olhos do bárbaro se arregalam ao ver seu braço com a clava cair ao chão, acompanhando o movimento do ataque. Olhando desesperado para seu oponente, o gnoll vê na mão do drow uma espada estranha cheia de sangue.

– Compreendeu? – pergunta o eremita desferindo um golpe certeiro no pescoço do gnoll, que cai ao chão tremendo próximo ao seu próprio braço.

Os outros gnolls seguram suas armas com mãos trêmulas.

– Acho que agora eles estão com mais vontade de cooperar, não acha, Alak? – pergunta Brum se aproximando do grupo de cinco gnolls que tentam manter uma aparência sólida.

– O que vocês sabem a respeito de um culto a Lolth aqui no Braeryn? – Alak vai direto ao assunto enquanto limpa sua espada.

– N-não sa-sabemos de nenhum culto. – responde um dos gnolls.

– Certo. Vou ter que tirar essa informação à força? Já aviso que força é o que não me falta. – ameaça Brum, sorrindo e segurando uma de suas imensas clavas de pedra acorrentadas com uma única mão.

Ao ver aquilo o gnoll treme ainda mais, e outro entra na conversa:

– É verdade, senhor. Nois nunca ouviu falá em nenhum culto a Lolth aqui nesse lugar.

Alak observa o olhar do gnoll e entende que o medo que eles estão sentindo não permitiria que eles mentissem. Com certeza, por pior que seja, eles realmente não sabem de nada.

– Que senhor o que, ô! Eu pareço um drow? – pergunta Brum cinicamente.

– Brum, não é hora de piadas. – diz Alak enquanto Brum ri – Vocês não viram nenhum…

– Pode falar “ser inferior”, eu deixo. – o ogro interrompe o eremita, que o olha severamente.

– Brum!

– Certo. Certo. Parei. – comenta Brum levantando as mãos como se estivesse sendo parado pela guarda da cidade.

– Prosseguindo. – diz Alak, voltando sua atenção para o gnoll – Vocês viram alguém usando alguma insígnia que lembrasse uma aranha?

– Não, senhor. – responde o gnoll balançando a cabeça, com um olhar de medo e espantado com a maneira pela qual os dois mercenários se tratam – é estranho para eles ver um ogro e um drow se tratarem abertamente daquela forma.

– Vamos embora, Brum. Não vamos conseguir nada aqui. – diz Alak se virando para a direção de onde veio.

– Infelizmente. – responde Brum com uma voz decepcionada.

Os gnolls ficam parados enquanto os dois mercenários se afastam. Ambos caminhando lentamente, o drow um tanto mais rápido que o ogro, para poder ficar lado a lado com ele.

– Então você foi contratado para espionar a clériga? – Alak reinicia o assunto.

– Espionar não. Pelo que entendi eu fui contratado para sobreviver e retornar com informações para nosso misterioso contratante. – responde Brum.

– Sobreviver? Essa missão não me parece tão perigosa. – comenta Alak.

– Acho que tem mais coisa por trás disso tudo, Alak. – diz Brum quando o eremita levanta a mão em sinal de silêncio.

Um barulho chamou a atenção do eremita, que rapidamente observa a direção de onde esse veio. Sem muito esforço ele encontra o mago que estava acompanhando a clériga e o guerreiro.

– Você não deveria estar acompanhando a clériga? – pergunta Alak para Sol’al.

– E vocês não deveriam estar conversando menos? – retruca Sol’al secamente – Você é um drow bastante paciente para tolerar esse ogro insolente.

Brum começa a rir, Alak abre um sorriso.

– Certo, maguinho. Você não acha que deveríamos deixar a clériga menos desprotegida? – pergunta Brum rindo.
Sol’al o olha com irritação e desdém.

– Concordo com Brum. A Clériga está sozinha com o guerreiro, em território extremamente hostil. Por que você veio nos seguir ao invés de protegê-la? – acrescenta Alak deixando o sorriso se desfazer em seu rosto.

– Não é de sua conta, mercenário. – Sol’al encara o eremita, mas logo vem em sua mente: “Pare de demonstrar tanta auto-confiança, Sol’al” – Mas vocês estão certos. Não me agrada ter deixado os dois a sós.

Alak levanta uma de suas sobrancelhas.

– Então vamos parar de discutir inutilidades e encontrá-los? – pergunta o eremita.

– Melhor assim. – responde o mago se virando e começando a caminhar na frente dos dois.

Brum e Alak trocam olhares curiosos enquanto caminham seguindo o mago. Brum levanta a ponta do seu nariz achatado com a ponta do indicador. Alak sorri e balança a cabeça, compreendendo o que seu companheiro quis dizer com aquele gesto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 6 (Parte 1)

Temeroso Sol’al Teken’Th’Tlar bate na porta do quarto onde disseram que os Xorlarrin estavam esperando. Parte de seu nervosismo deve-se ao bom tempo que havia se passado desde a sua ultima visita ao Bazaar e, a outra parte, deve-se a extrema ansiedade que está sentindo por começar sua nova missão.

Após a reunião no hall de estudos da Casa Teken’Th’Tlar, Riklaunim e Akordia o deixaram a sós com Jabor para que esse explicasse o que ele deveria fazer. Naquele momento sua ansiedade já era grande, devido ao pouco conhecimento a respeito de sua missão. Depois que Jabor lhe contou mais sobre o possível culto a Lolth por seres de raças inferiores, na Cidade da Rainha Aranha, descoberto pelas Casas Xorlarrin, Del’Armgo e Dyrr, sua curiosidade fervilhou como as águas termais de um lago próximo a áreas vulcânicas. Não foi possível nem mesmo esconder de seu Mestre a excitação que sentiu.

– Sol’al, contenha-se. – disse Jabor severamente ao jovem quando esse começou a esfregar as mãos uma na outra e a ficar inquieto em sua cadeira – Não é útil você demonstrar tamanha excitação por essa missão. Se deixar sua ansiedade tomar conta poderá cometer erros imperdoáveis. Estamos entendidos?

O jovem mago compreendia aquilo, e aos poucos começou a por em prática as técnicas de concentração ensinadas em Sorcere, para que o mago não perca seu foco. Aos poucos, Sol’al retomou o seu ritmo normal e escutou o resto do que seu Mestre tinha a dizer.

Aparentemente o culto é feito pelos escravos no Braeryn. Isso não é um problema em si, afinal os chitines, que são uma raça inferior, também louvam a Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos. No entanto, pode-se tecer várias hipóteses a respeito do porquê algum drow ou Casa começaria um culto à deusa com os escravos. Um dos principais é: aumentar o número de seu contingente, já que a maior parte do exército drow é formado por escravos. Escravos que sirvam a deusa dariam suas vidas por ela. “Somos todos alimento para Lolth”. Com certeza isso estaria sendo pregado, e escravos fanáticos e controlados com uma pseudo-liberdade poderiam ser guerreiros ferozes. Mesmo que isso seja feito em homenagem à Rainha das Aranhas, soa como uma tremenda heresia aos da Casa Teken’Th’Tlar e provavelmente aos drows de todas as outras Casas de Menzoberranzan.

– Acreditamos que os Xorlarrin também vejam isso como uma imensa heresia. Estamos os auxiliando para que possamos eliminar esses hereges, ou consigamos reverter o jogo da misteriosa Casa que está planejando qualquer nova insurreição. – disse Jabor a Sol’al, que o escutou concentrado, sem deixar sua ansiedade tomá-lo novamente.

– Mas Mestre, uma insurreição acabou de ocorrer. Os escravos estão enfraquecidos, não fariam grandes estragos. – comentou o jovem mago.

– Não farão grandes estragos se não tiverem uma liderança forte como a de uma das Casas Nobres, por exemplo. – foi a resposta de Jabor ao comentário de seu discípulo – Dê o melhor de si por nossa cidade e nossa deusa.

– Por Menzoberranzan e por Lolth. – respondeu Sol’al no final da conversa.

Ele teve pouco tempo para se aprontar e ir para o Bazaar, mas o tempo foi suficiente para preparar seus componentes mágicos, suas adagas e suas roupas. Apenas ao chegar à taverna Sol’al lembrou dos alimentos, e comprou algumas provisões por lá mesmo, pois não sabia ao certo quanto tempo eles ficariam no Braeryn.

Após a primeira batida na porta, ninguém atendeu. Sol’al respirou profundamente e se focou, deixando seus receios de lado, bateu na porta novamente.

– Quem está ai? – pergunta uma voz masculina de dentro do quarto.

– Sou o enviado da Casa Teken’Th’Tlar para auxiliá-los. – responde Sol’al sem deixar transparecer o nervosismo que voltou a inundá-lo ao escutar a voz do possível Xorlarrin.

A porta se abre aos poucos, e um homem atlético, de cabelo comprido e trançado o observa rapidamente com um olhar analítico. Sol’al estranha o fato de o possível guerreiro estar com sua mão esquerda posicionada na região inferior de suas costas, como um velho com problemas no nervo ciático.

– Entre, mago. – diz o guerreiro ao recém-chegado logo após a rápida análise.

– Com licença. – diz Sol’al, entrando devagar no quarto.

Seria um quarto de taverna simples, se não fosse uma porta que leva a outro aposento. Essa porta se encontra fechada, e Sol’al supõe que lá se encontre a clériga. Ao ver o guerreiro caminhando até sua cama, ele percebe que esse guarda uma espécie de sabre mais curto e curvo de ponta cabeça em suas costas. Em cima da cama há uma espada curta que o Xolarrin guarda em uma bainha e coloca em sua cintura na parte direita. “Ele é canhoto”, comenta para si mesmo Sol’al.

– Chegou há muito tempo no Bazaar, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro, se voltando ao mago enquanto arruma sua piwafwi composta com trechos de couro de lagarto batido; “Essa armadura é leve para um guerreiro, não?”, observa Sol’al.

– Não faz muito tempo não, Senhor Xorlarrin. – responde o jovem mago olhando para o emblema da Casa do guerreiro.

– Estávamos esperando o senhor já faz um tempo. Minha Senhora está se aprontando e logo se juntará a nós. – diz o guerreiro vestindo suas botas sem perder a atenção voltada ao jovem mago.

As botas do guerreiro são acolchoadas. “Ele não é um guerreiro, talvez um assassino”, conclui o mago abrindo as portas para uma nova dúvida, “Será que ele é mesmo um Xorlarrin?”. A dúvida de Sol’al cria uma suspeita que o deixa apreensivo. Concentrando-se, ele começa a observar todos os movimentos do tal “guerreiro Xorlarrin”, que o observa de volta.

Em silêncio, ambos trocam olhares. Sol’al sério, enquanto o Xorlarrin sorrindo ao perceber que sua presença deixa o mago inquieto.

– Não fique apreensivo. Minha Senhora logo se juntará a nós. – diz o guerreiro levantando-se da cama.

Sol’al coloca sua mão esquerda discretamente em um dos bolsos de sua piwafwi e pega um componente de magia para o caso de necessidade.

– Não estou apreensivo, não se preocupe. – diz Sol’al.

– Poderia saber seu nome, Teken’Th’Tlar? – pergunta o guerreiro.

– Meu nome é Sol’al, Senhor. – responde o jovem mago, curvando-se levemente – E o seu? Qual seria?

– Meu nome é… – o guerreiro é interrompido em meio a sua resposta, quando a porta do outro aposento se abre.

De dentro da sala uma jovem e bela drow sai caminhando devagar, com sua piwafwi negra caindo levemente por cima de sua cota de malha, como um vestido justo até sua cintura, após a qual abre-se mostrando sua coxa direita que está protegida por uma placa de metal.

– Qual o nome dele? – pergunta a clériga para o guerreiro de sua Casa em alto-drow.

– Sol’al Teken’Th’Tlar, Senhora. – responde o guerreiro.

– Ele é o tal mago? – pergunta novamente a clériga ao guerreiro, ignorando completamente o recém-chegado.

– É o que parece, Senhora.

Sol’al, sentindo-se fora da conversa, tenta cumprimentar a clériga com sua forma habitual.

– Sou Sol’al Teken’Th’Tlar, a seu serviço, minha Senhora. – diz ele ajoelhando e curvando-se plenamente em frente a clériga como se essa fosse a própria imagem da Rainha Aranha.

A clériga o olha com profundo desdém:

– Sei quem você é. Quando quiser que você se dirija a mim, eu direi. – dá de ombros a clériga, voltando-se novamente ao guerreiro.

Sol’al sente a ofensa de forma indiferente, afinal em sua própria Casa o tratamento que ele recebe é este. “Faz parte do jogo, não é?”, relembra sempre que qualquer ofensa lhe faz ferver o sangue. Além do mais, Sol’al não seria capaz de agir contra ou ofender uma clériga de sua deusa. Mesmo assim, ele se sente perdido sobre o que fazer.

– Está tudo pronto para a viagem? – pergunta ela para seu companheiro.

– Sim, minha Senhora. – Sol’al escuta o guerreiro confirmando a pergunta da clériga.

– Senhora, com todo o respeito, mas gostaria de saber o nome de vocês. – diz Sol’al se curvando, tentando entrar novamente na conversa.

O olhar da clériga parece soltar faíscas quando Sol’al finaliza sua pergunta.

– Para você meu nome é Senhora, seu macho insolente. – diz ela, aproximando-se do mago e erguendo sua mão para desferir-lhe um tapa quando da porta ouve-se uma forte batida.

A clériga vira-se espantada para o guerreiro, que a devolve um olhar semelhante ao dela.

– Quem está ai? – pergunta o guerreiro em linguagem subterrânea comum, fazendo sinal de silencio ao mago.

A clériga prepara sua maça enquanto Sol’al mantém os componentes mágicos em sua mão. O guerreiro posiciona sua mão esquerda na espada que se encontra em suas costas e se aproxima da porta.

Sol’al ouve alguns sussurros vindo do outro lado: duas vozes discutindo algo em linguagem subterrânea comum. Ele não consegue compreender muito da conversa, apenas alguns avisos como: “Eu falo”, “Não tente se intrometer”, “Brum! Eles são drows, não vão te escutar”.

– Responda! Quem está ai? – intima o guerreiro Xorlarrin.

– Somos mercenários a mando dos Bregan D’Aerthe para auxiliar os membros da Casa Xorlarrin no Braeryn. – responde uma voz masculina.

O guerreiro Xorlarrin olha para sua clériga ainda mais espantado. “Abra a porta com cuidado”, diz ela na linguagem de sinais drow ao guerreiro, logo após se dirigindo a Sol’al na mesma linguagem: “Mago, prepare alguma coisa útil”.

Sol’al segura os componentes necessários para a magia de cegueira em uma das mãos e confere se suas adagas de arremesso estão bem posicionadas. Enquanto isso, aos poucos a porta vai se abrindo e o Xorlarrin vê um drow alto e magro, de cabelo curto e armadura leve e acolchoada que cobre apenas pontos realmente vitais como o pescoço. Logo atrás do drow, está um ogro mago parado, quase sem roupas, apenas com trapos de couro batido que cobrem as áreas íntimas.

– Identifiquem-se. – diz o guerreiro Xorlarrin aos estranhos mercenários enquanto Sol’al e a clériga se posicionam em locais não visíveis, preparando-se para atacar quando necessário.

– Sou Alak Sel’Xarann. Estou aqui a mando dos Bregan D’Aerthe para proteger a clériga Xorlarrin que está pronta para uma missão investigativa no Braeryn. – responde o mercenário drow em baixo-drow ao Xorlarrin – Creio que você e a clériga que está ai dentro sejam os Xorlarrin, não?

O guerreiro fixa seu olhar desconfiado no eremita.

– Não me recordo de terem contratado mercenários para proteger minha Senhora. – diz o drow secamente – O que os Bregan D’Aerthe estão pensando?

– Leia isso. – diz Alak, pegando o pergaminho da mão de Brum e entregando ao Xorlarrin – Não sabemos quem nos contratou através dos Bregan D’Aerthe, mas ele nos entregou esse pergaminho. Espero que esclareça.

Olhando desconfiadamente, o guerreiro abre o pergaminho com cuidado. Seu olhar demonstra total dúvida em relação àquele pergaminho. Enquanto ele lê, seu olhar duvidoso vai se alterando para um olhar cheio de raiva e espanto. Dando um passo para trás o guerreiro entrega o pergaminho a sua senhora que o lê e engole em seco, enquanto Alak e Brum esperam do lado de fora.

Sol’al apenas observa a clériga e o guerreiro com suspeita. Ele devolve os componentes da magia de cegueira e coloca a mão em outro bolso de sua piwafwi, preparando o componente para uma magia de proteção. Afinal, sabe-se lá o que tem naquele pergaminho. Curioso, ele tenta bisbilhotar o que está escrito no pergaminho, mas infelizmente não consegue ler nada além de um nome, Zaknafein, e uma assinatura rúnica que ele não consegue identificar de pronto.

– Deixe-o entrar. – a clériga ordena ao guerreiro em alto-drow, claramente contrariada.

O guerreiro abre a porta. Percebendo que Alak não entendeu o que a clériga havia falado, diz em subterrâneo comum:

– Podem entrar.

Logo que a porta se abre, a Xorlarrin se depara com o imenso ogro mago que está junto ao drow.

– Menos o inferior. – ordena a clériga ainda em alto-drow ao seu guerreiro.

– Menos o ogro. – diz o Xorlarrin em baixo-drow.

Parando, Alak se vira para Brum.

– Brum, fique aqui fora. – diz ele em subterrâneo comum.

– Ela me chamou daquilo? – pergunta o ogro, com uma feição revoltada.

– Não sei, Brum. – responde Alak – Apenas fique aqui.

Brum se afasta da porta resmungando em goblinóide. Sol’al escuta os resmungos do ogro mago e sabe exatamente o que ele está dizendo: “Vou mostrar pra ela quem é inferior. Tenho certeza que ela falou essa palavra. Drows patéticos”. Mesmo sabendo disso, o mago prefere guardar para si a informação. Enquanto ele não ganha a confiança da clériga, não é bom se passar por puxa-saco dedo duro.

Alak entra no quarto e o guerreiro fecha a porta com o ogro de fora. Sol’al o analisa completamente da cabeça aos pés e percebe onde o recém-chegado guarda suas armas: seis facas arremessáveis nos dois lados da cintura e duas espadas semelhantes a patas dianteiras de aranhas-espadas nas costas. O mago observa mais atentamente as espadas, para ter certeza que seus olhos não lhe pregaram nenhum truque, mas não consegue ter certeza do que viu, pois o eremita se vira e o analisa rapidamente.

– Pergunte ao mercenário se ele e seu amigo já estão prontos para ir, pois não tolerarei atrasos. – diz a clériga ao Xorlarrin em alto-drow.

– Você e o ogro já estão prontos para partir, senhor Alak? – pergunta o guerreiro ao eremita.

– Sim. Já estamos preparados. – responde Alak prontamente voltando sua atenção ao guerreiro.

Sol’al observa os dois. As diferenças superficiais são óbvias: enquanto o Xorlarrin aparenta ter grande perícia com uma única espada, o mercenário aparenta ser capaz de usar duas armas ao mesmo tempo. Porém, no que realmente é focado o treinamento de ambos é o que intriga o jovem mago. Ele se concentra observando ambos enquanto eles conversam coisas supérfluas a respeito de bagagens e comidas, até que a Xorlarrin chama sua atenção.

– Mago, nos espere lá embaixo e leve o inferior junto. – ordena a clériga a Sol’al em alto-drow – Já o encontraremos lá.

– Sim, minha Senhora. – responde Sol’al se curvando.

O mago sai do quarto e fecha a porta com cuidado. Quando está a sós com o ogro ele diz em globinóide:

– A clériga ordenou que a esperássemos lá embaixo.

Brum olha para o mago com um certo desdém e sorri.

– Muito espertinhos vocês drows, não? – comenta Brum caminhando lentamente na frente do mago, que o olha sério, como se estivesse advertindo o imenso ogro pelo seu comentário.

Percebendo que Brum o ignorou e começou a descer as escadas, Sol’al prefere dizer em voz alta, mas ainda em globinóide:

– Cuidado com seus comentários, ogro. Pode ser prejudicial a sua vida.

– Sim, senhor. – responde com mais desdém ainda o imenso ogro.

Com a cara amarrada e pensando sobre como castigar aquele ser inferior, Sol’al espera no salão de entrada da taverna. Enquanto isso seus pensamentos se transformam: “O que será que eles estão conversando?”.

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