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28º Post

Hoje, aproximadamente duas horas atrás, tivemos a visita de um grupo numeroso de immortuos em um de nossos portões. Estavam todos decompostos quase ao extremo. Alguns deles se arrastavam, outros caminhavam lentamente. Nossos vigias nos avisaram e nos mantivemos longe dos portões, com a intenção de não atiçá-los.

Eles se permaneceram por lá tentando derrubar o Portão 3 até a chegada dos militares, que com lanças longas de metal perfuravam suas cabeças. Cada lança era manuseada por dois militares através do portão, pois esses immortuos apodrecidos eram muito fortes e resistentes. Alguns deles, por reflexo, tiravam a lança de sua direção com tamanha força que as entortavam. Mesmo assim eles foram executados, um por um; infelizmente, não antes de deixar o portão 3 levemente danificado.

Talvez soe estranho eu mencionar que os militares utilizam lanças, mas isso é um fato por aqui. Atualmente, cada militar anda com apenas uma pistola com um único pente e uma tonfa ou cacetete de ferro que são ineficientes quando se entra em contato com um número grande dessas criaturas; as armas mais pesadas ficam para proteger a Necropoli Militar.

Na situação atual é muito difícil produzir armas de fogo, portanto retomamos práticas antigas. Os arcos e bestas de mão, além de flechas e setas estão voltando a serem produzidas de forma artesanal. Além disso, também estão sendo feitas azagaias, fundas, lanças longas, bastões de madeira, boleadeiras e facões. Futuramente, acreditamos, que voltaremos a desenvolver tecnologias bélicas que nos protejam com mais eficiência, porém no momento é isso que temos.

Em comparação, não são apenas os nossos armamentos que retrocederam a um “período” medieval. Nossa forma de subsistência também. Nós, da Necropoli Civil e da Necropoli Militar, utilizamos um vasto terreno comunitário, também protegido por muros e guaritas, onde há plantações de verduras, legumes e frutas, além de criação de galinhas, coelhos e ratos de laboratório; fontes de carne que não ocupam muito espaço.

Porém, até mesmo criar esses animais dá muito trabalho. Eles são monitorados constantemente, para que não haja problemas com mortos em seus viveiros. Além disso, a preparação da carne é sempre muito cuidadosa, para que não criemos infectas acidentalmente.

Esses cuidados também são estendidos para nossos próprios mortos. Adotamos uma prática que nossa sociedade cristã consideraria bárbara: mutilação do cadáver. Como os cadáveres agora são fonte de combustível, todo recém falecido tem seu cérebro destruído imediatamente, depois ele é mutilado e suas partes são levadas aos laboratórios.

Com essa nova prática funerária, as alas hospitalares tiveram que passar por mudanças, além de nós todos estarmos passando por um processo de reeducação: necessidade versus crenças e taboos.

Os doentes graves são amarrados nas camas. Até mesmo no caso de cirurgias, eles amarram o paciente anestesiado, para o caso de, acidentalmente, eles falecerem durante o processo. Afinal de contas, cuidado nunca é demais.

Já tivemos problemas de pessoas que tiveram mortes fulminantes em casa, mas a situação foi rapidamente resolvida, por sorte. Os próprios moradores da república destruíram o immortuos recém erguido.

Retornando ao caso que me levou a escrever esse post. Após a destruição dos immortuos que estavam em um de nossos portões, os militares pegaram os corpos e levaram para seus laboratórios. Agora, o que levou essas criaturas a se aproximarem de nossa Necrópoli em grande número ainda não descobrimos. Talvez nosso cheiro voltou a atraí-los.

Quem sabe?

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27º Post

Atualmente, com todas as minhas responsabilidades, tem sido difícil eu parar para escrever aqui no blog. Estou trabalhando como psicólogo para os moradores de nossa Necropoli. Há muitas histórias difíceis aqui dentro. Muitas pessoas precisando se reestruturar internamente.

Entretanto, vamos ao que interessa realmente para esse arquivo de sobrevivência. No post anterior contextualizei historicamente esse tempo que fiquei sem escrever e expliquei por cima como estamos vivendo nas Necropolis aqui em Campinas. Porém, não disse nada do que vimos lá no Laboratório Médico. Já considerava o que eu havia testemunhado no outro laboratório algo avançado nos estudos sobre esses seres que nos aterrorizam, porém, os arquivos que os militares do Laboratório Médico possuem é de se espantar. Evandro estava certo quando disse que havia arquivos que remetiam a “antigüidade”.

No primeiro mês que estive aqui na Necropoli Militar, eu e Alessandra fizemos amizade com alguns cientistas. Contei a eles sobre meu arquivo de sobrevivência e sobre o que já tinha observado a respeito dos immortuos. Porém, não revelei nada a respeito de minhas experiências no outro laboratório. Com o tempo, demonstrando minha curiosidade e reflexões, além do carisma e conhecimentos biológicos de Alessandra, conseguimos a simpatia deles e eles nos permitiram ler um ou outro arquivo mais superficial sobre o assunto. Foi apenas quando eu citei o “agente Paiva” e seus comentários, e Alessandra contou sobre seu trabalho no outro laboratório, que eles nos viram como “iguais”; porém, sem o direito de entrar nos laboratórios, eles apenas nos permitiram ver os arquivos.

Sei que foi arriscado abrir o jogo de tal forma, mas era o que nós podíamos fazer; e valeu a pena. Li registros que soariam para mim, antes disso tudo acontecer, como folclore ou coisas do gênero. Histórias sobre mortos que se levantavam do túmulo por ter um funeral “pagão”, ou pessoas que faziam pactos com espíritos malignos e se tornavam canibais longevos, mas extremamente malignos e inumanos. Entre outras coisas.

Me questionei: Como tudo isso chegou no estado que chegou? Como permitiram que esse fenômeno, muito antes conhecido, saísse do controle? Foi apenas quando reli meus posts que retomei algo que Evandro tinha dito sobre as proporções. Aqueles que detinham o conhecimento sobre esse fenômeno o viam, inicialmente, como algo extremamente raro e o tratavam assim. Foi em questão de uma semana que tudo mudou: que uma proporção de um para um milhão, caiu para um por um. Acredito que, quando eles perceberam que as coisas estavam mudando, já era tarde demais.

Fora essa proporção quantitativa, houve uma mudança na questão temporal da transformação. Li arquivos que estabeleciam o tempo de transformação de um cadáver em um immortuos como sendo de 1 a 3 dias – o que talvez explique a prática de longos funerais, com o intuito de garantir que o cadáver não voltaria, suponho – e em questão do mesmo período de ampliação dos immortuos, o tempo baixou, segundo os poucos arquivos que trataram disso, para de 6 a 12 horas, posteriormente caindo para o que conhecemos atualmente de 2 a 60 segundos. Algo extremamente rápido.

Outro fator importante é que: há muito tempo que os pesquisadores descartaram a idéia de que era uma doença virótica ou bacteriológica. Muitos acreditam que seja algo genético; mas isso não passa de uma crença, não há comprovações. Ela não é contagiosa como mostram nos “filmes de zumbis”. Não é a mordida que passa a “doença”, como eu já disse anteriormente. Esse foi um outro ponto que pegou os conhecedores do assunto de surpresa. Por não ser “contagioso”, eles não tinham como imaginar que o número desses seres aumentaria de uma hora para outra.

Pelo que parece, esse fenômeno era conhecido por muitos países do mundo e todos tinham estabelecido monitorias em seus devidos territórios. Eles sabiam que as pessoas teriam dificuldade de lidar com tal fenômeno, principalmente porque ele colocava em cheque várias explicações científicas além de que esses seres são mortíferos, altamente perigosos. Por essas razões, dizem, eles mantiveram as informações escondidas. Esses países mantinham contatos periódicos a fim de trocar informações, descobertas e formas de alertar o público sem alardear; talvez daí tenham surgido alguns “filmes de zumbis”.

Por esse motivo também, os arquivos continham nomenclaturas iguais as que vi no outro laboratório: Infectas, Immortuos, Bestia Infecta, Bestia Immortuos. Porém, aqui há sub-divisões, ou sub-classes desses seres. Os infectas e Bestia infecta, “infelizmente”, mantinham-se sem subdivisões, pois todos possuíam os mesmos traços comportamentais. Já os Immortuos e Bestia Immortuos possuíam diferenças comportamentais em seus próprios grupos.

Immortuos: Insanus Immortuos, Debile Immortuos, Sapien Immortuos. Respectivamente: aqueles immortuos insanos, sem nenhuma capacidade intelectual; os immortuos com capacidade intelectual mediana, porém o suficiente para utilizarem até mesmo armas de fogo, mesmo que com pouca precisão; e os com capacidade intelectual idêntica a que tinham quando eram vivos. Ou seja, finalmente eu vi algo que confirmou minhas suspeitas sobre o caso “Marcos”.

No caso dos animais há apenas duas subdivisões: Insanus Bestia Immortuos e os Bestia Immortuos. Sobre os primeiros não há necessidade de explicação. Os segundos são animais desmortos que mantém seus hábitos táticos. Às vezes é muito difícil de diferenciar um do outro, mas segundo os experimentos realizados no Laboratório Médico, eles perceberam que havia diferenças comportamentais bem sutis entre os bestia immortuos.

Creio que sejam importantes essas definições e delineamentos dos comportamentos desses seres, para entendermos a variedade de situações que podemos ter de lidar. É importante saber que são raras, segundo as pesquisas, a existência dos debile immortuos e muito raras as dos sapiens immortuos. No Laboratório eles nunca tiveram nenhum espécime da sub-classe mais inteligente. Tudo que eles possuem são relatos de campo.

Tudo isso na verdade, me deixa ainda mais apreensivo a respeito do que está acontecendo. Onde estão esses immortuos? Como sumiram tantos?

26º Post

Muito tempo se passou. Muitas coisas mudaram. Conseguimos sobreviver, creio que 60% foi por sorte, 30% por boa vontade de outros e 10% por habilidades nossas.

Não podemos negar que uma das nossas vantagens – dos seres humanos em geral – em relação aos immortuos, é que eles não se procriam. Para que um deles passe a existir, deve haver quem morra. Com o aumento no número de immortuos, houve uma diminuição no número de vivos. Não sei exatamente se eles começaram a apodrecer em algum recanto enquanto buscavam animais longe dos centros urbanos, ou se simplesmente já não sabiam o que fazer sem ter de quem se alimentar e começaram a apodrecer em lugares exclusos das cidades. Realmente não sei. Sei apenas que o número deles decaiu muito. A maioria dos que estão por ai, estão em estados diferenciados de putrefação e o que os deixam lentos; até mesmo os animais immortuos são raros de serem vistos. Isso me deixa realmente preocupado, principalmente que nenhum daqueles que tive contato nesses últimos meses apresentavam algum sinal de inteligência. Onde estão eles? A imagem da emboscada que sofremos em minha memória ainda me faz refletir bastante sobre esse assunto.

De qualquer modo, após sermos encontrados pelos militares, aproximadamente um mês depois dos últimos ocorridos que postei, eu, Gustavo, Marcela e Alessandra fomos levados para o Laboratório Médico da UC, atualmente uma Necropoli Militar. Também estranhei esse termo de início, tal como a maioria das pessoas ao redor do mundo deve ter estranhado quando essa palavra: “Necropoli”, começou a designar não mais cemitérios e lugares onde os mortos “moram”, mas onde os sobreviventes, os seres vivos que restam, vivem.

Passei todo esse tempo sem postar por vários motivos. Desde adaptação à Necropoli Militar que estávamos – afinal, precisava conhecer as pessoas com quem eu estava lidando – até problemas tecnológicos que passaram a existir. Na época que parei de escrever, a bateria do meu laptop havia esgotado completamente, fui descobrir isso quando tentei recarregá-la no Laboratório Médico, mas ela não só não recarregou como meu laptop sofreu algum curto. Consegui resgatar o que tinha no HD assim que adquiri um novo computador, o que demorou muito para acontecer.

Parece que as Necropolis de Campinas não foram as únicas a se erguerem. Em todo o mundo tiveram novas sociedades surgindo, soubemos de algumas graças às tecnologias de comunicação que ressurgiram após o período de escuridão pelo qual passamos.

Certo. Estou jogando um monte de informação, talvez porque esteja um pouco ansioso após esse longo período sem escrever. Tentarei esclarecer melhor como vivenciamos tudo isso em Campinas.

O período de escuridão durou aproximadamente dois meses, onde não tínhamos mais fontes de energia. Não sei exatamente o que levou a esse apagão, sei apenas que ele não durou muito, pois os cientistas e os militares já estavam contando com esse tipo de evento. Assim eles começaram um processo de desenvolvimento de baterias solares, transformação do gás metano dos cadáveres em combustível e dínamos movimentados por energia cinética; física não é meu forte, portanto não entrarei em detalhes sobre isso.

Durante esses dois meses, nossas luzes eram basicamente: tochas e lamparinas, além de lanternas com o mesmo mecanismo de dínamos cinéticos que mencionei no parágrafo anterior. Ao fim dessa fase, ou seja, recentemente, já com energia, os meios de comunicação foram sendo restaurados. Graças a isso estou escrevendo aqui novamente.

Na Necropoli Militar do Laboratório Médico, tinham por volta de três mil sobreviventes; bastante para a área reduzida onde ela foi formada. A relação militares e civis era bem melhor que no antigo laboratório, mas há razões para isso, a principal era que: dos três mil habitantes, um pouco mais de dois terços eram civis (contando com alguns cientistas). Maus tratos lá, com certeza gerariam tumultos entre outras situações bastante tensas; o que acabou ocorrendo uma hora ou outra.

Recentemente, após uma grande reunião e votação democrática na Necropoli Militar, decidimos por criar, em outro espaço, mas bem próximo, a primeira Necropoli Civil. Aproveitamos a diminuição no número de immortuos para fazê-lo, claro que com a ajuda dos militares.

A nossa Necropoli Civil da Cidade Universitária foi erguida com bastante suor. Fechamos uma área de aproximadamente duzentas residências com cercas e barricadas, que mantivemos até que terminássemos de construir muros altos o suficiente para que os immortuos tivessem dificuldade de pulá-los. Essa construção demorou razoavelmente, pois tivemos que fazer excursões para outros lugares em busca de materiais, porém, todos os civis estavam envolvidos em alguma atividade, o que acelerou bastante o levantamento do muro propriamente dito. Até mesmo a “esterilização” auxiliada pelos militares foi feita na maior parte por civis.

Caçamos e destruímos cada immortuos que se encontrava em nossa área. Limpamos todas as casas, desinfetamos com produtos químicos fortíssimos e as dividimos em repúblicas; infelizmente ainda não há como dividir por famílias, pois precisaríamos de uma área bem maior, o que é proporcionalmente arriscado. Para as necessidades atuais, duzentas residências já estão de bom tamanho. Não posso negar que a divisão das repúblicas foi um processo complicado, já que nem todo mundo se sentia agradado com as decisões, mesmo que essas tenham sido feitas democraticamente.

Cada república, ou “mausoléu” como alguns dizem, contam com pelo menos duas bicicletas – sim, no momento é inviável manter automóveis, mas os cientistas, engenheiros mecânicos (incluindo Gustavo), entre outros, estão pesquisando novas formas de “combustível” para carros, motos, etc – além de possuírem um comunicador direto com a base militar.

Na extensão dos muros temos vinte guaritas altas, na qual ficam dois vigias por turno. Esses vigias não possuem armas de longo alcance e têm em mãos um sistema bem simples de comunicação, o papel deles é simplesmente deixar as pessoas avisadas da proximidade de immortuos e em casos de risco, eles também possuem comunicação direta com os militares. Até o momento tivemos poucos problemas para resolver.

Nas escolas tivemos que priorizar além das ciências exatas – que nos ajudará a reformular a tecnologia futuramente – a pratica de esportes. Todos sabem da importância de ter um bom preparo físico para sobreviver esse tipo de calamidade, portanto: atletismo, le parkour, artes marciais (principalmente as que mexem com armas brancas), etc, passaram a ser parte do currículo não só como “educação física”, mas como disciplinas a parte; o estudante escolhe pelo menos dois esportes que quer treinar.

As decisões da Necropoli são feitas em “praça pública”, onde todos têm o direito de opinar e votar, porém é opcional, vai quem quer. Preferimos assim, pois nos dá uma sensação de retorno a democracia e a vida, não a “sobrevida”.

Com o tempo vou falando de como estamos vivendo em nossa Necropoli e os planos de ampliação futuras. Quem sabe um dia, poderemos povoar o mundo novamente e tornar isso tudo mais seguro, ao contrário do que acreditava Lúcia.

Untoten

Há anos que Renner Sven estuda aquele judeu que morreu e “ressuscitou”, porém suas pesquisas foram infrutíferas para entender tal fenômeno. Nos campos de concentrações ocorreram pelo menos dez casos de judeus e ciganos que morreram e “ressuscitaram” com hábitos canibais; a maioria acabou sendo destruída, ou pelos guardas alemães ou pelos próprios companheiros, apenas dois foram aprisionados e levados para os laboratórios da Renânia e para o laboratório onde Renner trabalha, em Anschluss.

Esses casos ajudaram os cientistas nazistas a entenderem as informações passadas pelos italianos e japoneses, cada um de sua maneira, a respeito de mortos famintos que se levantam do túmulo. Aquelas criaturas só eram abatidas quando suas cabeças fossem destruídas.

A partir dos dois espécimes capturados nos campos de concentração e outros capturados nos campos de guerra na China e Polônia, os cientistas do Eixo puderam pesquisar aquele fenômeno estranhamente natural. Porém, muito pouco descobriram.

Mesmo assim, graças ao contato com tais criaturas, a criatividade mórbida de alguns cientistas borbulharam. Eles pensaram em várias possibilidades de utilização daquele tipo de criatura em batalha. Desde o desenvolvimento de algum “vírus” altamente contagioso para ser espalhado em alguma cidade, até a criação de algum pelotão formado por untoten treinados.

Foi com essas idéias que a equipe de Renner passou a trabalhar, porém, para o cientista, restou por obrigação estudar o fenômeno natural. Como ele e sua equipe dividem o mesmo recanto do laboratório, ele vê como os experimentos de seus colegas dão certos frutos, enquanto o seu não.

Renner acabou nutrindo uma grande inveja para com seus colegas; não que esses tenham conseguido resultados realmente satisfatórios, mas só o fato de terem conseguido criar um untoten, já o deixa irritado. De seu canto do laboratório, ele observa os cientistas quebrando a cabeça em como fazer com que seu espécime obtivesse reações agressivas e instintivas de “sobrevivência” como foram vistas naqueles transformados naturalmente. Mas não. O espécime possui retardos mentais e reflexivos, além de ser altamente “autista”.

Todos da equipe sabem que os untoten, podem ser a chave para o nazismo não ser derrotado. Desde que a URSS e os EUA entraram na guerra, o Eixo tem perdido territórios e, cada vez mais, a pessimista previsão da derrota torna-se mais próxima de se realizar. Este fato é o que faz as experiências com aquelas criaturas serem cada vez mais tratadas com grande intensidade em todos os laboratórios do Eixo que trabalham com o projeto.

Renner observa novamente seu espécime, já um pouco putrefato por causa da falta da alimentação de produtos vivos. Ele encara nos olhos sem brilho da criatura e depois olha seus dentes, sempre a mostra com rosnados e urros o acompanhando.

– Você deve sentir bastante dor, não é mesmo? – pergunta o cientista para seu “afilhado”, porém, a única resposta que ele obtém é um berro gutural e uma ameaça de mordida.

Um clique vem na mente de Renner que o faz rapidamente puxar as tiras de couro que estavam afrouxadas no pescoço da criatura, prendendo-a na cama e começando a erguer o encosto para deixá-la inclinada. Ele pega uma serra e abre a cabeça de sua cobaia deixando seu cérebro intacto a mostra; algo que ele sempre quis fazer, mas tinha medo de perder o espécime por causa de algum possível acidente, o que não o perturba mais dentro das novas condições.

Sabendo que a criatura não sente dor no corpo, o cientista sempre estranhou que eles tivessem aquelas reações aparentemente tão sofredoras. Colocando dois fios condutores no lóbulo pariental do cadáver, ele disparou descargas elétricas para ver a reação do espécime.

A criatura torna-se ainda mais feroz, chegando até mesmo a quebrar um de seus próprios braços ao tentar arrebentar a espessa correia de couro que o prendia. O cientista desliga a bateria e percebe que o espécime diminuí em sua fúria, mesmo continuando com a insanidade natural daqueles seres.

Ele vai até uma gaiola e pega um gato vivo. Ligando novamente a bateria, ele, com uma certa dificuldade, coloca o gato na boca no untoten, que o morde. No momento em que a mordida é dada, Renner retira o gato de perto e,  enquanto o animal ainda está vivo, a criatura se “acalma”, ignorando até mesmo o estímulo cerebral. Entretanto, isso dura pouco. Assim que o gato morre, a criatura volta para seu estado furioso.

– Hey, vocês! – o cientista chama a atenção de seus colegas sorrindo, sentindo-se bem novamente – Sei como tornar seu espécime agressivo como o meu.

Mesmo com o deboche de seus colegas ele não se intimida e caminha até o untoten criado no laboratório. Os outros cientistas tentam pará-lo, mas ele, com toda sua postura confiante e gesticulando para ninguém lhe tocar, chega até o espécime, pega uma serra e abre uma cavidade na cabeça do untoten.

De deboche e raiva, o olhar de seus colegas passam a demonstrar curiosidade. Pegando um fio condutor, Renner insere na cavidade e liga a bateria. De imediato o untoten torna-se insanamente furioso, atacando outro cientista e arrancando um pedaço de sua jugular antes que Renner desligue a bateria.

Ao desligar e puxar o fio, a criatura volta para seu estado semi-catatônico anterior. Os outros cientistas correm para ajudar a vítima caída. Renner, não está preocupado com ele, e sim se sente orgulhoso com sua vitória. Aquela descoberta é essencial para o nazismo como um todo.

Sentindo-se um herói de guerra, Renner pega um bloco de anotações para registrar suas descobertas, quando ouve um berro vindo de um de seus colegas; aquele que havia sido mordido estava agarrado e mordendo um deles. Renner levanta-se por reflexo, assustado, quando escuta um estrondo vindo de sua retaguarda. Logo ao se virar, sente sangue escorrendo em seu peito, a fraqueza tomando seu corpo e cai de joelhos.

Antes de perder a consciência, ele apenas consegue ver soldados entrando no laboratório, com a estrela comunista em seus capacetes, e lamenta a perda que a ciência teria com sua morte.

Ossos do Ofício

Não era fácil se tornar um agente do “Project Immortuos”, pois devia-se não só treinar o corpo e as capacidades de investigação, como durante os dez anos de treinamento passava-se também estudando medicina tradicional chinesa, tibetana, indiana e ocidental. Só após os testes de conhecimento a respeito de sintomatologia baseadas nesses estudos é que o policial tornava-se um agente e começava a “caçar”.

No Brasil, isso não é diferente. Leandro Paiva, que recebeu a intimação para participar do “Projeto Immortuos” assim que ingressou nas forças armadas brasileiras e se destacou pelo seu preparo físico, foi dado como morto para a sociedade, recebeu o nome de Evandro Alberto de Oliveira e iniciou seu intenso treinamento diário, no qual acordava às quatro da manhã e dormia à meia-noite. Um agente em treinamento não tinha fim de semana ou feriado, os dez anos eram intensos e reveladores, além de o tornar um predador quase perfeito.

Mesmo isolado e sentindo-se uma criatura a par da humanidade, é graças a esse treino que Evandro sobrevive atualmente.

Ele escuta o som de um carro na frente de sua casa e pragueja pela ignorância do motorista; provavelmente ele está chamando a atenção de vários immortuos na região. O veículo parece parar e ele escuta a campainha tocar.

Com todo seu conhecimento, Evandro sabe o quanto deve-se ter cautela na “nova situação mundial”. Com certeza devem haver centenas de debile e sapiens immortuos espalhados por ai. Seria tolice dele atender a campainha.

O carro logo desliga e Evandro sorri, caminhando até a porta, de onde escuta barulhos de pancadas e estalos na cerca elétrica. Após escutar o segundo baque de alguém pulando o muro, ele a abre e vê um vulto pulando para dentro de sua residência. Sem pestanejar ele saca sua arma e derruba a “criatura” com um tiro no pescoço e outro na cabeça.

As outras duas “criaturas” pulam para trás de seu carro na garagem se escondendo de sua vista e gritando algo como: “Pare, por favor!”. “Se forem immortuos, são dos inteligentes”, constata Evandro resolvendo iniciar uma conversa:

– Quem são vocês?

– Somos vivos! Viemos buscar ajuda! – responde um deles com uma voz ansiosa.

Cautelosamente, Evandro prossegue:

– Vieram realmente buscar ajuda? Ou querem tomar minha casa? Ou, talvez, comer a minha carne?

Há um breve momento de silêncio, um possível sinal de surpresa por ele estar certo, ou espanto de alguns sobreviventes que achariam estranho alguém tentar conversar com os immortuos.

– Viemos pedir ajuda para Evandro Alberto de Oliveira! – responderam eles, surpreendendo o policial – Temos companheiros vivos do lado de fora da casa, entre eles o mecânico Gustavo que cuidava da blazer cinza dele!

“Gustavo?”, pensa o policial tentado a acabar com aquela conversa e ajudar o bom mecânico. O tal mecânico e sua família, mesmo não tendo uma relação real de amizade com ele, foram os únicos seres humanos com os quais Evandro se simpatizou após seu treinamento.

– Digam seus nomes. – ordena ele.

– O meu é Lúcia. – responde a mulher da dupla.

– Meu nome é Paulo Vieira Sales. – responde o homem logo em seguida.

– Venham até algum local que eu possa vê-los. – as duas pessoas caminham lentamente com as mãos na cabeça – Agora tirem as roupas.

Ambos se olham estupefatos, ouvindo o policial chamar suas atenções:

– Andem logo!

Afinal, não é porque eles sabem seu nome e o do mecânico que ele não se certificará dos sinais. Foi graças aos orientais que os agentes do “Project Immortuos” conheceram esses sinais, permitindo assim a identificação prévia de pessoas que tornariam-se immortuos após falecerem; porém, não era algo fácil de ser percebido. Evandro lembra de quando teve que matar um dos mecânicos que trabalhavam para Gustavo, ao perceber que tal funcionário possuía pelos menos três dos sinais da “doença”.

Atualmente, os sinais da “doença” são insignificantes, pois todo mundo os tem. Porém, os sinais daqueles que já se transformaram são outros, e são esses sinais que Evandro quer se certificar de que a dupla não possui.

– Virem-se, deixe-me ver se vocês não são como ‘eles’. – ordena Evandro para o casal pelado a sua frente.

– Só o fato de estarmos falando não seria prova suficiente de que não somos mortos vivos? – perguntou a mulher, que parecia ser mais corajosa, gerando um pequeno olhar de inveja por parte de seu parceiro. “Ele queria ter feito a pergunta”, comenta a si mesmo o policial, percebendo como aquele homem se sente incomodado pela figura de liderança que aquela mulher representa.

– Não. – sua resposta é seca, o que faz com que os dois o obedeçam sem mais questionamentos.

Ele observa com cuidado e vê alguns dos “sinais menores” mais óbvios que ele aprendeu na medicina oriental: peles um pouco ressecada, veias levemente atrofiadas, olhos com pouco brilho, baixa sudorese. Porém, nada dos sinais “maiores” que os caracterizariam como immortuos.

– Ótimo, seus amigos estão esperando na frente? – pergunta Evandro escutando o carro ligar novamente.

– Sim. Por favor, abra logo o portão, deve ter criaturas se aproximando. – responde Paulo.

Evandro pega o controle de seu bolso e abre o portão.

– Vistam-se. – diz ele para Paulo e Lúcia, enquanto vê o mecânico entrar com a fiorino.

O policial suspeita que a idéia de ter ido procurá-lo, tenha sido de Gustavo. Talvez, finalmente, ele tenha entendido o recado de sua “ameaça” e de que, na verdade, Evandro nunca representou perigo para ele e sua família.

Quando Evandro percebeu os “sinais menores” em Joel – um homem gordo, que se encharcava de suor em pouco tempo, mas estava seco após quatro horas de trabalho – sentiu um pequeno incomodo, pois saberia que aquilo colocaria seu “amigo” Gustavo em risco. Na mesma noite em que percebeu os tais “sinais”, Evandro começou a investigar Joel mais de perto, para certificar de que ele possuía os outros sinais: mucosas esbranquiçadas, diminuição do apetite, calcificação nas unhas, e assim por diante. Para isso, o policial, após analisar algumas fotos que tirou do tal Joel, optou por destruí-lo.

Ele foi até a casa de Joel e esperou dar 20:00hs, o horário que o mecânico deixava sua esposa e seus filhos em casa e ia tomar “uma dose”. Chegando na primeira esquina de sua rua, Joel foi interceptado por Evandro que o estrangulou, sem deixar brecha para perguntas como: “Por que?”, ou súplicas. Aquele homem não tinha culpa, era mais uma vítima do acaso genético ou seja lá o que for, Evandro não saberia o que lhe dizer e, portanto, preferia não conversar com sua presa.

Assim que Joel caiu desacordado, Evandro sacou sua pistola com silenciador e atirou na cabeça dele, no mesmo instante que esse abriu seus olhos famintos. Com um certo esforço, o policial levou o corpo de Joel para um terreno baldio próximo e lá esperou a pequena movimentação do bairro diminuir. Quando deu meia noite, foi que Evandro começou a mutilar o corpo para guardá-lo em sua caixa, sem sentir o mínimo de arrependimento, pois sabia que estava cumprindo seu dever.

Evandro passou aquela noite pensando como “contar” para Gustavo sem revelar exatamente o que ele fazia; ele não queria perder o contato com o mecânico. Foi assim que ele optou por não dar fim no corpo e levar seu carro para o mecânico logo de manhã.

Ao ver o mecânico estacionando o carro e o portão terminando de fechar sem nenhum immortuo adentrar, ele se aproxima para cumprimentá-lo. Ele é uma das poucas pessoas que o policial tem real consideração, e proteger a ele e sua família, trará alguma humanidade para sua vida novamente. “Com certeza trará”, conclui Evandro, sem refletir sobre como sua presença afetará a vida do “bom mecânico”.

Abusos

Há tempos que ninguém do grupo tomava banho de chuveiro. Os banhos, quando eles ainda estavam na casa do sr. Fábio, eram tomados com águas fervidas em panelas e deixadas para esfriar em baldes de plástico.

Inevitável não sentir o cheiro de plástico na água. Inevitável que os banhos fossem tomados com águas em temperaturas não condizentes com a vontade dos banhistas; ou estava muito fria, ou muito quente, mas dificilmente se encontrava da maneira desejada.

Aquilo, porém, era de extrema necessidade, supunham eles, afinal, como garantir que os mortos não haviam contaminado as reservas de água? Como garantir que a caixa-d’água, depois de esvaziada, não fosse enchida com água contaminada? Ou que o filtro de água, embutido na parede da cozinha, possuía real capacidade de eliminar as impurezas trazidas por pedaços de cadáveres em putrefação?

“É melhor prevenir”, dizia Sônia para seus colegas, durante os dias que passaram naquela residência no bairro do Taquaral. Era ela que cuidava “desses assuntos” – higiene e limpeza – para o grupo. Todo dia ela fervia a água que seria usada no banho e que seria tomada durante o dia. Uma vez ela tentou usar galões de água mineral para armazenar água para uns três dias, mas não conseguiu. Afinal, aquelas pessoas eram “mimadas”, dizia ela para si mesmo, tinham “personalidade forte”, dizia aos outros.

Agora no laboratório as coisas são diferentes. Ela não mais precisa ficar cuidando da água; da faxina sim, mas pelo menos uma responsabilidade a menos. Além disso, a cada dois dias cada civil tem direito a tomar banho de chuveiro, de uma água que vem de um reservatório próprio de lá. “Que bom”, pensou ela assim que soube da notícia.

Sentindo a água cair em seu corpo maltratado, de quem trabalhou desde a infância com trabalhos pesados para por alimento na mesa da família, Sônia se considera merecedora daquela regalia. Contenta-se por conseguir relaxar com um bom banho no final do dia de trabalho.

Mesmo sendo uma pessoa simples, com marcas de trabalho em seu corpo: mãos e pés calejados e rachados, algumas rugas aparecendo antes do tempo, pequenas cicatrizes de acidentes domésticos, ainda sim, Sônia era uma mulher bonita e vaidosa, forte, com cabelos bem cuidados, olhar meigo e amigável, e com um belo sorriso de quem se preocupa com sua saúde, assim como com a dos outros.

Como quase tudo na vida de Sônia, sua relação com a própria aparência caminhava em altos e baixos. Apesar de todos os cuidados, aquelas marcas das dificuldades pela qual passou – e ainda está passando – gritam mais aos seus olhos. Para ela, nunca alguém iria desejá-la além de seu marido. Por causa desse pensamento ela agüentou tudo o que passou nas mãos dele.

Mas agora isso é passado. Se há algo bom que os mortos trouxeram em sua perambulação faminta é a chance de renovação na vida das pessoas. Sônia sentia isso em seu íntimo, mas negava. Parecia um pensamento maldoso demais, ver esse “fim do mundo” como algo bom. Entretanto, sempre que pensava em seu passado, em seu marido, Sônia agradecia a Deus pelas coisas terem mudado, mas logo batia três vezes na madeira para afastar esse pensamento satânico. Essa alegria de ter deixado seus problemas para trás, enquanto várias pessoas sofrem com tudo o que está acontecendo.

Claro que Sônia também estava sofrendo com tudo isso. Ela havia, com certeza, perdido uma filha e um filho, seus pais, irmãos e avôs. Mas com a água caindo em sua cabeça e costas, Sônia se sentia aliviada, sem conseguir pensar em seus entes queridos. O toque da água do chuveiro em suas costas lembrava-lhe os dedos de um namorado que teve a muito tempo, pressionando os pontos tensos e fazendo-a relaxar.

Sônia abre os olhos com terror, a semelhança da pressão era grande demais. Ela tenta virar rapidamente, mas o soldado a impede, tirando-a de baixo d’água e arrastando-a para fora do box. Sônia pensa em gritar, mas logo vê que o soldado não está sozinho, que há um de seus companheiros apontando uma arma para ela. Ela engole o grito. Já havia passado por algo semelhante na adolescência; não desejava passar por aquilo de novo, mas gostaria de continuar vivendo.

O soldado que a está agarrando começa se despir em sua frente, enquanto ela se mantém estática, paralisada de medo e repulsa. Com o inferno solto na terra, ela foi tola em acreditar que os homens construiriam algum tipo de paraíso. “Os mortos estão andando e fazendo o que fazem, por causa dos nossos pecados”, disse ela uma vez para Paulo, o psiquiatra “safado” de seu grupo, que debochou da cara dela como um bom ateu.

Sônia se culpa por sua ingenuidade. E pensa em como sair daquilo, mas não consegue ver nenhuma possibilidade de escapatória sem se colocar em risco de morrer. Ela sabe que os militares mandam naquela base, então sua morte seria facilmente ignorada, o que a deixou mais temerosa.

“Por que eu não vim tomar banho com as outras faxineiras?”, se culpou mais uma vez Sônia enquanto o homem pelado em sua frente começava a lhe acariciar, deixando ela com mais repulsa e ódio. “Que Deus me perdoe!”, o homem nu cai ao chão curvado, urrando de dor. Ela sentiu os testículos dele esmagarem entre seu joelho e a pélvis do infeliz.

Sônia esperava escutar um som antes de cair morta, mas nada disso aconteceu. Ela nem escutou o som, nem caiu morta. Se afastou do soldado caído e olhou espantada para o outro soldado, que estava desarmado e paralisado olhando para ela com medo e um suor frio descendo em seu rosto.

– Vista-se. – disse Evandro para ela, enquanto mantinha sua arma apontada para lateral da cabeça do soldado. Junto com ele estava Beto e Ricardo. Beto apenas olhava tudo aquilo com curiosidade, já Ricardo havia se aproximado do soldado que estava agonizando no chão e apontava para a cabeça dele a sua arma. – E vamos sair daqui.

Sônia se enxugou rapidamente e se vestiu sem se preocupar com a presença dos outros homens no banheiro. Ela percebeu que eles estavam conversando algo sobre “o que fazer”, mas não conseguiu prestar atenção. Seu coração estava acelerado, mas agora era de alguma espécie de alegria e alívio.

– Vocês ficam e só saiam daqui, após dez minutos. Depois conversarei pessoalmente com vocês e seus superiores em um lugar mais apropriado. – disse Evandro aos dois soldados.

Sônia não entendia porque Evandro era tão temido e respeitado. Nem mesmo gostava dele, principalmente pelo que ele tinha feito com o irmão de Marcela, mas naquele momento ela percebeu que ele tinha um bom coração por baixo de todos aqueles calos. “Talvez ele só tenha sofrido muito nessa vida”, pensou.

– Muito obrigada, sr. Evandro. – agradece ela enquanto eles saiam do banheiro e iam em direção do dormitório dos civis.

– Não é a mim que você deve agradecer. – responde Evandro secamente, como se nem mesmo tivesse sido tocado pelo episódio – Agradeça a esse moleque punheteiro.

Aquelas palavras surpreenderam a todos, principalmente por estarem saindo da boca do policial. Sônia olha para Beto que instantaneamente fica vermelho, quase roxo de vergonha, enquanto a risada de Ricardo a deixa igualmente encabulada.

Ameaças

Ao mesmo tempo em que cumprimenta Evandro, Gustavo agradece a Deus por ter se mantido fiel àquele “assassino”. Ele nunca soube exatamente o que seu cliente fazia, após a ameaça, preferiu nunca perguntar, porém, com os atuais acontecimentos, ele suspeita realmente de que Evandro sabe algo sobre os cadáveres ambulantes que estão por toda parte.

Evandro já freqüentava a oficina mecânica de Gustavo a um ano, quando Joel, seu funcionário, encontrou várias marcas de sangue no porta-malas do policial. A partir desse ocorrido, Gustavo começou a cuidar pessoalmente do carro de Evandro após o expdiente, para que mais nenhum funcionário se envolvesse com aquilo.

O policial sempre foi um cliente sinistro. O mecânico o considerava “muito mafioso”, o que era assustador. Porém o mais grotesco aconteceu após um ano e meio de clientela.

– Joaquim, arruma essa calça! – disse Gustavo para um de seus subordinados – Os clientes não precisam ficar vendo seu cofre.

– Desculpe, senhor Gustavo. – Joaquim respondeu rindo enquanto arrumava sua calça.

– Você não sabe mesmo porque Joel faltou hoje? Ele nunca faltou sem avisar. – perguntou Gustavo sem deixar sua preocupação acabar com seu bom humor.

– Não sei não, senhor Gustavo. Talvez a mãe dele teve que ser internada de novo. – respondeu Joaquim parando o que estava fazendo para olhar para o seu chefe.

– Mmm. Pode ser. Vou ligar para ele e ver se está tudo bem. – comenta Gustavo.

Ele continuou observando o que seus mecânicos estavam fazendo, e depois retornou para o escritório a fim de ligar para Joel e resolver as questões burocráticas de compras de peças para a oficina. Sua oficina havia crescido nos dez anos de funcionamento, “Minhas duas filhas estão crescendo bonitas e saudáveis”, dizia ele se referindo a sua oficina e sua filha Sofia, mas ainda assim, sua prioridade no momento era saber como estava Joel.

Gustavo sempre teve muita consideração por seus funcionários. O bem estar deles era sua prioridade, sem hipocrisia, pois ele não dizia isso, não fazia propagandas de seu “bom coração”, mas as pessoas sabiam; ainda mais aqueles que conviviam diariamente com ele. Sua preocupação era sincera e aumentava a cada tentativa de telefonema frustrada. O telefone tocava e tocava e ninguém atendia.

Ocupado com as ligações e devaneios a respeito do que poderia estar acontecendo com Joel, ele não ouviu Evandro se aproximar da porta.

– Gustavo? – o chamou suavemente.

O mecânico deu um pulo na cadeira. Aquele homem lhe causava arrepios. Ele era a causa de suas más noites de sono e daquela frase sobre as duas filhas ter deixado de fazer sentido.

– Senhor Evandro. – Gustavo foi cumprimentar Evandro tentando não demonstrar o incomodo – Como o senhor está?

– Ótimo. – respondeu secamente – Estou com pressa, portanto tome a chave e cuide bem do meu carro.

Gustavo ficou perplexo, pegou a chave e demorou a dizer algo olhando o para o objeto que estava em sua mão. Quando foi se despedir, Evandro já havia partido. Sem demora Gustavo foi limpar o exterior do veículo e fazer o check-up completo, deixando para limpar o interior depois do expediente.

Quando todos os seus mecânicos foram embora e sua mulher e filha estavam assistindo tv, ele abriu o porta-mala da blazer e iniciou a limpeza interna de trás para frente, a fim de tirar qualquer cheiro “esquisito” que tivesse impregnado o veículo, mas para sua surpresa, ele percebeu que talvez a fonte daquele cheiro não havia sido retirada da pick-up.

No porta-malas havia uma caixa marrom. Por estar sem cadeado, Gustavo pensou que sua suposição estaria errada. Ele limpou as manchas de sangue da caixa e resolveu abri-la para limpar dentro, mas aquela foi a maior idiotice que ele fez em sua vida. Dentro da caixa havia um cadáver mutilado com sua cabeça em cima das outras partes, como se tivesse sido posta para encarar quem ousasse abrir a caixa.

Gustavo vomitou pelo menos umas cinco vezes seguidas, tentando não fazer muito barulho para que Carla não resolvesse ver o que estava acontecendo. A impressão que ele teve foi de que o rosto era de alguém conhecido e aquilo o incomodou ainda mais. Assim que conseguiu se recuperar, o mecânico olhou novamente para o rosto do cadáver e fechou rapidamente a caixa, horrorizado.

– Joel… – se lamentou enquanto pegava um cadeado para trancar a caixa. Ele assim o fez, deixando a chave no porta-luvas da blazer.

Suas emoções eram um misto de angústia, raiva e medo. Mesmo sentindo a miscelânea de sensações, Gustavo prosseguiu com seu trabalho com lágrimas nos olhos e foi tentar dormir, mas não conseguiu. Ele rolou de um lado para o outro da cama, fazendo com que Carla o expulsa-se para o sofá, já que ele tentou ao máximo esconder o verdadeiro motivo da insônia para ela.

Assim que ele abriu a oficina na manhã seguinte, Evandro já estava aguardando para pegar seu veículo. Gustavo não falou nada, nem mesmo o cumprimentou, apenas o levou até o escritório para entregar a chave. Ele queria falar para o policial que ele era um monstro e que desistia de tê-lo como cliente, que não queria ser seu cúmplice, mas ao mesmo tempo tinha medo. E se ele tivesse matado Joel justamente por ele ter visto o sangue em seu porta-mala? E se ele falasse algo que fizesse Evandro querer descontar em sua família? Essa confusão o estava corroendo.

Evandro pegou a chave e virou-se.

– Evandro? – Gustavo chamou sua atenção com uma voz carregada – Gostaria de conversar com você.

O policial olhou para ele, mas não demonstrou nenhuma surpresa. Aquilo parecia premeditado. “Será que ele deixou o cadáver para que eu o visse?”, se perguntou Gustavo.

– Seja breve. Tenho que fazer uma entrega de material. – disse Evandro secamente.

– Eu não quero mais participar disso. – respondeu Gustavo, controlando seu desespero – Vi o “material” que você tem para entregar, e ele era meu amigo. Como você pôde… – ele dá uma breve pausa – Não quero mais ser seu cúmplice.

O olhar de Evandro tornou-se ainda mais frio e agressivo.

– Espero que não esteja pensando em fazer besteira. – ameaça Evandro o encarando.

– Não. Não vou falar com ninguém, apenas não quero mais participar. – retrucou Gustavo quase gaguejando.

– Ele não era mais seu empregado, nem mesmo estava entre nós. Eu não mato nada que já não esteja morto. – disse com a voz fria, fazendo Gustavo engolir em seco ao escutar aquelas enigmáticas palavras – E acredite: me ajudar será benéfico para você e para sua família. – aconselhou o policial, fazendo Gustavo tremer ainda mais ao perceber a ameaça escondida naquelas palavras.

Ele não conseguiu dizer mais nada. O policial o cumprimentou e partiu.

Na época Gustavo não havia entendido. Agora, descendo da fiorino na garagem da casa de Evandro, sabendo o que tem lá fora, Gustavo não sente mais aquele medo e arrepio que sentia, na verdade, ele se sente mais seguro em sua presença.

– Cadê sua filha? – pergunta Evandro amigavelmente.

– Morreu. Foi pega por um “deles”. – respondeu Gustavo com pesar.

– Uma pena. – respondeu Evandro.

Gustavo queria lhe perguntar o que havia acontecido com Joel, mas preferiu não fazê-lo. Sua suspeita de que Evandro sabe sobre o que está acontecendo não é uma certeza, e ele prefere manter essa sensação de segurança que não sentia desde que tudo começou. Infelizmente essa segurança não o conforta completamente, pois junto com a sensação, está a tristeza da culpa pelo que ocorreu com Sofia.

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