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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 1)

“Maldição!”, pragueja mentalmente Alak Sel’Xarann após ser atingido novamente por uma espadada de um dos dois orcs com os quais está lutando. “Foco Alak!”, ordena a si mesmo recordando-se de lições importantes que seu mestre havia lhe passado sobre combates com múltiplos oponentes.

            O esguio mercenário drow esquiva-se de outro golpe desferido por um de seus adversários e atinge precisamente a garganta do outro. O orc ferido se ajoelha e cai ao chão morto com sangue escorrendo pelo seu pescoço. Alak sorri por não ter sido atingido por nenhum respingo, se esquiva novamente de outro ataque desferido pelo outro orc, que continua de pé. O mercenário dá um passo para trás esperando uma nova investida que logo vem. Jogando levemente seu corpo para o lado, Alak utiliza a parte plana de uma de suas espadas para forçar o braço do orc para baixo, enquanto crava a outra espada em suas costas, próximo ao trapézio.

            “Obrigado Vazmaghor”, o mercenário cumprimenta suas espadas enquanto o orc não resiste o ferimento e cai ao chão. Sem perder mais tempo, Alak observa o campo de batalha para ter uma noção de tudo o que está ocorrendo. Um dos magos, um humano, está morto com uma de suas adagas cravadas em seu peito. Dois orcs acabam de morrer por suas afiadas espadas. Mais a frente o Xorlarrin está lutando contra dois guerreiros orcs e um aparente mago ou xamã da mesma raça. A aproximadamente quatro metros a direita do guerreiro, Alak vê a ladina chegando furtivamente para atingir um outro mago humano.

            Alak se prepara para ir a auxílio do guerreiro Xorlarrin, mas percebe de canto de olho que um orc viu a pequena drow se aproximando do mago. Sabendo que não chegaria a tempo para auxiliá-la, o mercenário resolve arremessar suas duas espadas em direção ao orc.

            – Merda! – pragueja em voz alta Alak quando, no momento em que está arremessando sua espada, tropeça em um dos orcs mortos aos seus pés.

            A espada rodopia no ar com grande força, porém, ao invés de atingir o alvo planejado, atinge o peito da pequena ladina, que não resiste o ataque e morre. O mago humano percebe o ataque frustrado do drow e sorri, enquanto o orc que se aproximava da ladina começa a gargalhar.

            Alak sem perder mais tempo saca uma de suas adagas e arremessa no mago, que é atingido de raspão. “Burro!”, pragueja novamente Alak percebendo que aquele não era seu dia. O orc corre em sua direção e o mercenário aparentemente faz o mesmo, mas apenas para pular ao lado do orc e recuperar sua outra espada que está fincada no corpo da pequena ladina. Ele deseja em seu íntimo que o Xorlarrin não tenha visto o incidente.

            O orc para e se vira para enfrentar Alak, que se levanta rapidamente e corta um dos braços de seu oponente antes que esse reagisse. Rapidamente o drow chuta o rosto de seu adversári que cai ao chão, e finaliza cravando uma de suas espadas em seu olho.

Em suas costas Alak sente um calor aumentando e, mesmo tentando sair a tempo do caminho, acaba tendo uma pequena parte do seu corpo queimada pela magia do mago. Normalmente magias não possuem grandes efeitos em Alak, não que ele seja tão resistente quanto Brum, mas sua natureza drow e sua capacidade meditativa conquistada durante os treinamentos com seu mestre eremita, Azirel, o tornaram bem resistentes a investidas arcanas.

            “Esse mago com certeza é experiente, ou eu que não estou conseguindo manter minha mente tranqüila”, comenta e se contra argumenta Alak virando-se para o mago e desferindo uma ombrada em seu oponente, ao mesmo tempo que guarda uma de suas espadas. O mago cai ao chão devido ao impacto e Alak aproveita para atingir o rosto do mago com um potente golpe de mão. O mago fica atordoado, mas não perde a consciência, Alak se irrita e crava a espada no peito do humano.

            Olhando para o lado, o mercenário vê o guerreiro Xorlarrin ainda enfrentando um dos orcs guerreiros e o orc mago. “Todo esse tempo e ele só conseguiu matar um?”, pensa Alak com desdém, mas logo retoma o foco mental para a batalha. Dessa vez ele não deve, ou melhor, não pode cometer erros, seria deveras humilhante para seu nome e para o nome de seu mestre.

            Alak salta tendo em mira o mago, mas esse percebe a aproximação do drow e reage rapidamente recitando palavras de conjuração para disparar um pequeno dardo de ácido. O dardo atinge Alak, mas nada ocorre com ele. Ignorando o fato, Alak desfere um preciso golpe com as pontas de seus dedos – médio e indicador – em um dos braços do orc, que amolece instantaneamente. Aproveitando a pequena distração, ele guarda a outra espada que ainda estava empunhando e antes que o mago consiga reagir antecipadamente, Alak desfere três golpes extremamente rápidos que, para qualquer expectador menos experiente, parece ter sido um golpe e uma pequena ameaça. Porém dessa vez tudo dá certo para o mercenário. O orc sente seu corpo mole e tomba ao chão.

            Sorrindo com o sucesso, Alak vira o rosto para ver se o Xorlarrin deu conta do último orc. O guerreiro está terminando de atingir seu oponente com uma estocada de sua espada curta. Como de costume, ele não utilizou a espada que guarda em suas costas.

            – Não há mais nenhum. – diz o mercenário, quando o Xorlarrin, após eliminar seu adversário, olha ao redor em busca de mais algum – Imobilizei esse orc para vocês poderem interrogá-lo.

            O Xorlarrin sorri.

            – Bom trabalho mercenário. – ele olha em direção a ladina e simplesmente ignora o que vê.

            Alak acha suspeita da atitude do guerreiro, mas simplesmente finge que nada ocorreu. Vai de encontro ao corpo da pequena drow e, vendo que as adagas do mago humano é de um tamanho semelhante ao da lâmina de sua espada, não perde tempo e finca uma no buraco feito pelo péssimo ataque. Ele pega o corpo da drow e carrega enquanto o guerreiro Xorlarrin espera Brum, que caminha para carregar o orc imobilizado.

            A clériga Xorlarrin observa o campo de abatalha de longe, com o mago Sol’al ao seu lado. “Ela quem deve ter enviado Brum para pegar o corpo”, conclui Alak mentalmente enquanto vai em direção a eles.

            – Mago, reviste os corpos dos nossos inimigos. Vê se encontra algo útil para nós. – ordena a clériga. Dessa vez, Alak percebe que o mago não se sentiu contrariado nem ultrajado com a ordem da clériga para fazer trabalhos que seriam normalmente delegados a Brum.

            Alak chega perto da clériga e deixa a ladina mirim aos seus pés.

            – Não foi possível salvá-la. – diz o mercenário à clériga Xorlarrin, que apenas olha com desdém para o corpo da drow antes de perguntar.

            – Foram os orcs?

            – Um dos magos humanos. – responde Alak sem dúvida alguma.

            A Xorlarrin olha para seu guerreiro que confirma positivamente a resposta do mercenário.

            – Deixe-a ai. Interroguem o orc. – comanda a clériga.

            O eremita olha para o Xorlarrin que apenas responde com seu sorriso habitual. “Filho de uma gnoll sarnenta. Está esperando o momento certo para falar o que viu, não é?”, pergunta mentalmente, mas deixa apenas um sorriso de desafio transparecer no seu rosto.

            Ambos se aproximam do corpo do mago orc. O Xorlarrin empunha uma pequena faca de tortura escontida em sua armadura. Alak apenas observa.

            – Orc, onde vocês estão se escondendo? – pergunta o guerreiro, tendo apenas um silêncio como resposta.

            O Xorlarrin sorri e se aproxima do pé de seu prisioneiro. Todo o orc está coberto de sujeira, mas nem chega aos pés da humana gorda que eles encontraram fora da passagem, no Braeryn. Com sua faca, o Xorlarrin inicia uma precisa cirurgia nos pés do orc, em pontos altamente sensíveis, porém não vitais.

            – Por que no pé? Ele precisará andar depois. – questiona Alak considerando a atitude do guerreiro idiota.

            – Há pontos suficientemente sensíveis aqui, além do mais, para que temos o ogro senão para carregar? – responde o Xorlarrin em baixo-drow.

            Alak apenas sorri, não pelo comentário do guerreiro, mas pela covardia dele de não ter dito aquilo em uma linguagem a qual Brum entenderia. O eremita pega uma caixinha que ele guarda em sua humilde vestimenta, retira uma pequena agulha e um fio semelhante a seda, as quais usa para fechar seus ferimentos, pausando de vez enquando para observar o interrogatório.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 2)

Enquanto Alak prepara os óleos que ajudarão a manter suas novas espadas resistentes às ações do tempo, Azirel limpa as duas patas dianteiras de seu falecido companheiro Aranha-Espada, Vazmaghor, purificando-as com o poder da terra. Foi difícil para os dois encontrarem o pequeno Nodo de Terra, mas em momento algum eles desistiram de seu objetivo. Vazmaghor morreu durante uma enorme e difícil batalha entre drows e trogloditas próximos a uma estação mercante importante para Ched Nasad e, conseqüentemente, importante para Menzoberranzan. Alak não se recorda do nome da estação, mas isso pouco importa para ele no momento.

A batalha foi brutal, Vazmaghor demonstrou ser um adversário terrível aos trogloditas, mas o número deles era bem maior que o exército drow. A grande Aranha-Espada acabou cercada e mutilada pelos seus adversários. Enquanto isso ocorria, Alak estava totalmente tomado pela excitação do momento. Era sua primeira grande missão como mercenário e a adrenalina fez sua cabeça e seu coração pulsarem em uníssono. Muitas vezes ele quase perdeu a classe e a técnica que tanto custaram para aprender. Mesmo assim o “discípulo do Eremita”, – como os Bregan D’Aerthe passaram a chamá-lo -, surpreendeu muitos descrentes com suas técnicas de combate e de rastreamento.

Em um certo momento os trogloditas perceberam que estavam em desvantagem, não numérica, mas tática, e bateram em retirada levando algumas mercadorias e itens mágicos roubados. Foi Alak, supervisionado por Azirel, que os caçou e recuperou os objetos sem entrar em confronto novamente com os reptilianos. Quando esses perceberam a “perda” dos itens inflaram em fúria, porém sabiam que não tinham condições de recuperar o território que lhes era de direito. Assim tiveram que conter toda sua ira até o momento oportuno.

Os trogloditas gastaram um bom tempo se preparando para uma nova investida. Foram-se dias para que eles tentassem novamente, mas agora a situação havia piorado. Em seu tempo de planejamento e reestruturação – ou o mais próximo que eles podiam chegar disso – os mercenários prepararam emboscadas e o reforço drow chegou de Ched Nasad à estação mercante.

A caminho de seu novo ataque, eles perceberam que não poderiam ir pela rota que utilizaram para fugir, pois essa se encontrava cheia de armadilhas extremamente bem preparadas. Tiveram que morrer cerca de dez batedores para que eles percebessem a inutilidade de tentar prosseguir por aquela trilha. Assim, tomaram uma outra rota, um pouco mais demorada, mas aparentemente menos preocupante. Toda aquela calmaria começou a preocupar os líderes xamãs dos reptilianos, mas quando a preocupação realmente os atingiu já era tarde demais.

Sua retaguarda estava cercada por mercenários drows e alguns de outras raças. Durante a batalha os trogloditas foram obrigados a seguir em seu caminho e acabaram se deparando com o exército de drows e escravos que estava protegendo a estação. O massacre foi imenso. Alak e os mercenários sabiam que precisavam apenas finalizar o serviço e retornar para o Bazaar de Menzoberranzan para receber a soma que lhes havia sido prometida. O problema era que o serviço para o qual foram ocntratados não era tão fácil dentro de uma batalha tão grande e caótica.

Alak trocou olhares breves com Azirel, pois não sabia como no meio daquela carnificina, aprisionar os trogloditas mais saudáveis e levá-los escravizados para Menzoberranzan antes que a batalha terminasse e os escravos fossem levados para Ched Nasad. Os Bregan D’Aerthe faziam sua parte com extrema perícia, porém Alak precisava demonstrar seu valor. Era isso que Azirel queria quando ofereceu sua ajuda e a ajuda do seu discípulo à guilda de mercenários.

A troca de olhares fora infrutífera. Azirel não deu nenhuma dica e simplesmente sumiu dentro de um foco caótico de combate. Alak continuou lutando até que, ao observar Brum – um ogro mago mercenário, também a serviço dos Bregan D’Aerthe, com o qual Alak tinha uma grande afinidade – teve uma idéia simplista, mas era tudo naquele momento.

– Brum! – gritou o drow para chamar a atenção do gigante.

Quando esse olhou, Alak fez um sinal com a mão como se pedisse para o ogro fazer um corte em algo finalizando em uma “explosão”. Brum entendeu de imediato o que o drow queria dizer. O gigante agarrou firmemente as correntes das quais pendiam suas clavas de pedra e desferiu um golpe com suas duas armas, que formou uma circunferência quase completa de nove metros de diâmetro. Aquele ataque varreu todos os trogloditas da proximidade e alguns drows que não conseguiram escapar a tempo. Aquela explosão de força acabou chamando a atenção da batalha para aquele local. Enquanto os trogloditas atingidos tentavam se levantar, outros começaram a atacar o ogro, enquanto os drows não sabiam se atacavam os inimigos distraídos ou deixavam eles darem cabo no ogro – que afinal era outra ameaça aparente – para depois cuidarem do que restasse. Para Alak, o importante daquilo tudo era que Brum havia chamado atenção o suficiente para ele agir.

Sem muita demora, e percebendo que a maioria dos mercenários já haviam ido embora, Alak observou rapidamente o campo de batalha para encontrar alguns trogloditas que demonstrassem saúde e resistência para servirem como bons escravos. Encontrou dois. O primeiro ele não teve dificuldade para derrubar, porém o segundo lhe feriu bastante antes que ele conseguisse atordoá-lo e amarrá-lo em uma corda de teia que sempre carregava consigo. Agora vinha o segundo problema: Alak, mesmo sendo grande, sempre foi ágil e preciso, mas nunca foi forte. Carregar dois trogloditas seria complicadíssimo.

Percebendo que Brum havia fugido em uma espécie de fúria pela sobrevivência, Alak ficou ainda mais perdido. Não havia Brum nem Vazmaghor para carregar aqueles dois. Observando novamente o ambiente, ele viu um lagarto de montaria que estava perdido de seu patrulheiro. Correu até o lagarto e pulou sem sua cela. Com um pouco de dificuldade para guiá-lo, pois esse estava bastante estressado pelo ambiente de combate, Alak conseguiu aproximá-lo de seus dois prisioneiros. Saltando ao chão, Alak não conseguiu impedir a tempo que o lagarto de montaria devorasse um braço do troglodita desmaiado, que logo acordou aos berros. “Merda!”, praguejou Alak a si mesmo, mas não perdeu tempo choramingando. Colocou seu prisioneiro amarrado nas costas do lagarto de montaria e subiu na cela partido o mais rápido possível antes que os berros do outro troglodita chamassem atenção suficiente.

Ao fim de sua primeira grande missão, Alak não havia ficado feliz. Muitos erros foram cometidos e seu Mestre estava pesaroso com a perda de Vazmaghor. Porém, os Bregan D’Aerthe ficaram satisfeito com o desempenho do “discípulo do Eremita”, e isso foi o suficiente para Azirel ter algum contentamento; o suficiente para querer presentear Alak.

Azirel termina a purificação e inicia alguns cânticos invocando a magia natural que irá tornar as patas de Vazmaghor ainda mais letais do que eram quando esse ainda estava vivo. Durante a invocação, Alak despeja cuidadosamente os óleos sobre as patas e com sua própria mão os espalha por toda extensão de suas novas espadas.

Uma forte energia vinda da terra começa a ser sentida pelo esguio mercenário enquanto esse ainda esfrega os óleos. Os cânticos de Azirel começam a aumentar a potência e sua voz torna-se mais grave. A pata começa a esquentar. Alak afasta sua mão quando sente as primeiras queimaduras se formarem. Azirel se aproxima e toca as patas incandescentes, que começam a esfriar visivelmente e tomar uma aparência mais metálica. Por alguns instantes Alak pensa que seu Mestre transformou as patas de Vazmaghor em espadas de metal, mas logo esse pensamento foge de sua mente quando as patas começam a voltar a sua aparência normal. Azirel emite alguns cânticos sussurrados finalizando o processo.

– Pronto. Agora falta apenas forjar um cabo equilibrado para suas novas espadas. – diz o velho eremita a seu discípulo.

Alak ainda impressionado o observa antes de por em voz alta a única questão que está em sua mente:

– Quando você vai me ensinar isso?

– Nunca. – responde rápida e secamente o velho eremita – Esse segredo morrerá comigo. Ensinarei-lhe coisas que lhe serão mais úteis do que transformar as patas do seu companheiro em armas.

Contrariado, Alak fica em silêncio e ajuda seu Mestre a terminar o trabalho. “O que mais meu Mestre conhece?”, se pergunta curiosamente o discípulo.

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 2 (Parte 2)

“Até que para dezoito anos de treinamento, ele absorveu bem o que eu tinha para passar”, pensa Azirel Sel’Xarann, enquanto observa o seu dicípulo atingir precisamente um ponto de pressão no abdômen de seu oponente hobglobin que perde a chance de um contra-ataque, vomitando no chão. Rapidamente o esguio drow saca uma de suas facas e com um giro da lamina entre os dedos, corta a jugular do adversário que cai agonizando no chão enquanto seu sangue esvai.

– Muito bom. Só gostaria que causasse menos sujeira da próxima vez. Isso dá um pouco mais de classe ao combate. – diz Azirel caminhando na direção de seu discípulo que se posiciona prontamente de forma respeitosa diante de seu mestre.

– Falta um professor para isso. – responde Alak com um sorriso sarcástico no rosto.

Azirel gargalha e toca o ombro de seu discípulo.

– Sua arrogância ainda me diverte, só não ache que será por muito tempo.

O discípulo mantém o sorriso no rosto enquanto Azirel caminha até o hobglobin e examina o corpo.

– Acredito que daqui a pouco poderei apresentá-lo aos Bregan D’aerthe. Falta mais prática ainda.

– Ã!?! O que você disse? – pergunta Alak parecendo um tanto ofendido com a observação.

– Como eu disse, sua arrogância por enquanto ainda me diverte, porque ela te deixa estúpido.

Por algum tempo o mestre encara o discípulo que devolve o olhar demonstrando uma pequena preocupação que ilustra o pensamento que passa naquele momento em sua mente: “Ele percebeu”.

– Você o atingiu para sufocá-lo, não para fazê-lo vomitar. Errou o ponto por alguns milímetros. Vá refletir sobre suas atitudes.

Alak cumprimenta seu mestre e vira as costas, contrariado, indo para sua cabana. Azirel passa as duas mãos na cabeça ajeitando sua vasta cabeleira branca. Por um tempo ele se perde observando a entrada da cabana de seu discípulo: “Estou ficando velho e distraído, isso é perigoso”, comenta consigo mesmo, “Por pouco ele não me enganou”.

O velho eremita se aproxima de sua companheira aranha-espada e acaricia uma de suas patas.

– Vazmaghor, o tempo em que passei fora das cidades drows tem me deixado lento. – comenta Azirel ao seu companheiro animal que responde a ele com um fino e estridente guincho.

Ainda com as carícias de Azirel em uma de suas patas os pêlos de Vazmaghor eriçam. Azirel percebe que ela pressentiu alguma aproximação hostil e se prepara em uma posição discreta de luta desarmada. Por precaução ele olha para a cabana de seu discípulo, que continua como estava antes.

Observando ao seu redor ele nada encontra, mas continua a perceber a inquietação de Vazmaghor. Sentindo um deslocamento de ar vindo na direção de sua cabeça, ele consegue se virar a tempo para interceptar o projétil, – que cai ao chão -, e logo percebe que mais três projéteis estão a caminho. Com extrema habilidade o eremita se esquiva de dois e bloqueia o terceiro de forma majestosa, fazendo com que o projétil retorne a sua origem atingindo o arremessador que grita.

Percebendo que não viriam mais projéteis ele consegue ver pelo canto dos olhos que aqueles são os punhais de Alak e sorri.

– Alak, acredito que já possa parar de bancar o assassino covarde.

– Ultimamente você tem se demonstrado muito fraco, mestre. Precisava testá-lo. – responde Alak enquanto sai de seu esconderijo de pedras.

Azirel gargalha. Ele sabe que está ficando velho. Sua idade avançada está chegando e isso não coopera em nada.

– Ter você como discípulo foi uma excelente escolha. Obrigado Vazmaghor. – virando-se para sua aranha o eremita agradece.

– Mestre quero que você me ensine seus segredos antes que possa ser tarde demais. Você sabe que não tem o mesmo preparo que antes, não é?

Com um sorriso de canto de boca Azirel responde:

– Não se preocupe, não morrerei antes de lhe ensinar.

– Como você pode ter tanta certeza? – pergunta Alak demonstrando descrédito.

– Pois Lolth quer assim. Quer que eu lhe ensine todos os meus segredos. Quer que você seja uma arma dela. – Azirel setencia como se fosse a única certeza que ele possui ou já possuiu em toda sua vida.

– Não me importo com o que Lolth quer. – Alak responde com desdém e rapidamente é arremessado ao chão por uma imensa força. Atordoado o jovem drow olha para seu mestre que está apontando seu dedo indicador e o dedo do meio unidos em seu pescoço. Alak não sabe ao certo o que seu mestre está ameaçando fazer, mas sabe o quanto é perigoso.

– Tenha respeito! Somos guerreiros eremitas, mas nunca deixamos de ter fé em nossa deusa, escutou!? Nem nela nem em seu guardião, Selvetarm. – diz firmemente Azirel. O velho eremita sabe o quanto ele abnegou educação religiosa a seu discípulo e sabe o quanto isso pode custar caro a ele.

– Desculpe, Mestre. – responde Alak secamente, mas com um medo claro em seus olhos.

O mestre se distancia do discípulo aos poucos e o observa enquanto esse se levanta. Quando Alak já está de pé, Azirel o encara por alguns instantes esperando que ele o cumprimente respeitosamente. Alak o faz juntando as mãos e se curvando um pouco.

– Somos eremitas, mas somos mercenários. Não somos religiosos e nem quero que você seja. A natureza possui suas dádivas, que usamos com sabedoria, porém ainda sim a serviço de Menzoberranzan e, acima de tudo, de Lolth. Tenha isso em mente. E aprenda a respeitar, mesmo que sua forma de respeito seja ficar calado quando esse assunto entra em pauta. Entendeu?

Alak se curva novamente diante do mestre que o olha severo:

– Sim, Mestre.

– Ótimo. A partir de amanhã você inicia seu treinamento final e sua preparação para me suceder.

Azirel vira as costas para o seu discípulo e sai com Vazmaghor atrás de água e alimento.

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