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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 3)

            Uma leve e quase inaudível batida ritmada é o único som que a clériga Sabal Dyrr está escutando naquele momento. Com todo o silêncio que tomou conta do ambiente, ela até se pergunta se aquela batida é de seu coração.

            Sabal, Mirka e Gromsh – junto aos dois espiões que os seguem – esperam o retorno de Stongest, que adentrou o ninho de um drider, aparentemente abandonado. Já faz algum tempo que Stongest está dentro da pequena caverna, mas sabendo que o meio-goblin-meio-algo é minucioso em seus trabalhos, Sabal não se preocupa em nenhum momento com isso. “Além do mais, provavelmente se houvesse algum drider nesse refúgio, ele já saberia que nós estamos aqui”, pensa a ex-Dyrr. Porém, a clériga se sente apreensiva em saber mais sobre o tal “filho de Lolth”, que nasceu como um drider. A história é bizarra demais para que ela consiga realmente acreditar; mas em nenhum momento ela deixa transparecer sua dúvida.

            – Ele não está mais aqui. – diz Stongest, retornando ao grupo.

            – Então é seguro continuarmos? – pergunta Sabal ao meio-goblin.

            Stongest responde positivamente com um aceno de cabeça. Sabal dá ordens simples com gestos de mão. Gromsh e Stongest vão à frente. Ambos já sabem que há algo ocorrendo no final do túnel adiante, pois as batidas, para eles, são claramente batuques de tambores. Mirka vai logo em seguida, já preparando feitiços de invisibilidade em sua mente, e relembrando uma ou outra magia de proteção contra qualquer possível ataque de seus acompanhantes. Sabal é á última, preferindo ficar mais próxima dos dois espiões.

            Eles caminham pela caverna cheia de teias, e o som dos batuques fica cada vez mais alto e distinguível. Algo está sendo realizado mais a diante. Um ou outro grito é escutado entre os batuques. “Gritos de louvor”, é o que parece a Sabal.

            Quanto mais eles caminham, mais altos ficam os sons. Quanto mais próximos eles chegam da boca do túnel, mais é perceptível que há algum tipo de acampamento ou cidadela na caverna adiante. Gromsh demonstra um grande espanto ao chegar furtivamente na boca do túnel, dizendo alguma frase em seu dialeto natal, não reconhecível por seus companheiros. Stongest logo se aproxima.

            – Encont’amos os o’cs. – diz ele quase sussurrando, fazendo com que Sabal tenha que aguçar seus ouvidos para escutá-lo direito.

            Sabal caminha vagarosamente para perto dos dois guerreiros, mas logo para quando Stongest faz um sinal para ela esperar.

            – Tentem não se ap’oxima’ tanto, há to’es de vigias p’óximas. Temos que toma’ cuidado pa’a não se’mos vistos.

            A ex-Dyrr continua ainda vagarosa, apenas para ter uma vista geral do que está ocorrendo. Ela consegue ver uma caverna gigantesca, na qual caberia, sem grandes problemas, uma pequena cidade drow. Vários acampamentos tomam conta do chão da caverna, e vários escravos – pelo que parece – trabalham na lapidação de algumas pedras preciosas do tamanho de cabeças de humanóides médios e as carregam para ornar um imenso símbolo – aparentemente arcano – que se encontra no centro do local. Próximo ao símbolo, uma grande criatura chama a atenção de Sabal.

            – Um Draegloth. – pensa ela em voz alta, mas sussurrando e vendo a criatura dar ordens a alguns orcs e hobgoblins que se encontram enfileirados. Observando mais atentamente o meio-abissal, percebe a insígnia de uma Casa. Ela respira fundo e tenta focar mais sua visão, para que possa ver sem ter que se aproximar mais da boca do túnel. “Xorlarrin”, suas suspeitas começam a fazer sentido agora. Provavelmente os Xorlarrin perderam o controle do meio-abissal, que acabou liderando a fuga dos orcs. “Para qual propósito?”, se pergunta Sabal.

            Sabal dá três passos para trás, considerando essa uma boa oportunidade para conversar com o tal Alak abertamente.

            – Me parece que suas respostas estão aqui, Alak. – diz Sabal em subterrâneo comum com o tom de voz habitual, não muito alto, mas audível o suficiente para ser bem compreendido.

            Ninguém responde de imediato, mas Sabal prefere esperar um pouco antes de tentar um novo convite. Sem muita demora, uma voz masculina surge há alguns metros atrás da clériga:

            – O que vocês encontraram?

            Não há nenhum constrangimento ou falsidade na voz do mercenário. “Pelo que parece, ele não está ligando para o que seu companheiro está pensando”, pensa Sabal.

            – O acampamento orc. – responde a clériga, sorrindo e olhando na direção de onde o eremita surge.

            Sabal se surpreende ao ver Alak. Ela não esperava que o drow que estava seguindo seu grupo fosse tão alto e não usasse uma piwafwi.

            – Rizzen, pode aparecer. Nós sabemos que você está aqui. – diz o eremita antes de prosseguir com a conversa – Poderia me aproximar, Senhora?

            – Claro. – responde Sabal fazendo um gesto amigável para que Alak vá até Gromsh e Stongest.

            – Se cê só tava esperando um acampamento orc, cuidado para não cair pra trás. – Sabal escuta Gromsh falando com Alak, enquanto ela observa o túnel esperando que o tal Rizzen se mostre, o que não demora muito.

            – O que vocês fazem aqui? – pergunta o guerreiro Xorlarrin a Sabal.

            – Um tanto mal educado você, não? – responde a clériga – Na sua Casa não ensinam os machos a serem mais respeitosos com as clérigas de Lolth?

            Rizzen deixa seu sorriso habitual tomar o rosto e responde cinicamente:

            – Desculpe, minha Senhora. Agora você poderia me dizer o que fazem por esses túneis?

            Sabal ri com a atitude de Rizzen.

            – Claro. Estamos em busca do filho de Lolth e vocês? – o tom de Sabal continua amigável.

            – Vaherun?

            Sabal ri ainda mais.

            – Que tal você responder antes?

            – Estamos atrás dos orcs desse acampamento. Não é óbvio? – Rizzen responde com arrogância, sem receio de punição.

            – É. Pelo que parece os Xorlarrin não ensinam bons modos a seus machos. – responde Sabal, deixando o sorriso de seu rosto se desfazer e fixando um olhar gelado no guerreiro – Ponha-se em seu lugar.

            A clériga segura firmemente o cabo de sua morningstar e começa a se aproximar do Xorlarrin.

            – Me desculpe, Senhora Dyrr. – diz ele ao ver o emblema da Casa de Sabal em seu escudo – Não irei repetir tal erro.

            Sabal tenta se controlar, mas não consegue segurar o riso.

            – Terminemos a conversa por aqui, pois desse jeito acabarei chamando a atenção de seu parente peludo ao explodir sua cabeça com minha arma. – diz ela ainda rindo e virando suas costas para o guerreiro Xorlarrin, sem ver a expressão de desgosto que toma conta de seu rosto.

            Ela sabe que Rizzen teria uma grande vantagem em atacá-la nesse momento, mas também sabe que ele não o faria por dois motivos: o primeiro porque ele está desconcertado demais para pensar em fazer algo, o segundo porque ele está em uma tremenda desvantagem numérica para agir tão estupidamente.

            Sabal vê na boca do túnel: Gromsh, Stongest e Alak. O mercenário e o guardião parecem estar analisando tudo e todos que estão no acampamento, enquanto o gnoll parece estar apenas de vigília.

            – Gostou da resposta, Alak? – pergunta a clériga sorrindo ao mercenário.

            Sem se virar ele responde:

            – Interessante…

            – Então encontrou seus “amigos”, herege? – Sabal, Alak e Gromsh viram-se simultaneamente ao ouvirem a voz da clériga Xorlarrin. Mirka já estava vigiando a retaguarda e por isso não se surpreendeu com a chegada.

            – Parece que alguém resolveu dar as caras, ao invés de apenas mandar espiões. – Sabal desafia a Xorlarrin não só com palavras, mas com um olhar penetrante.

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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 1)

            A boca do túnel possui alguns poucos vestígios de teias proporcionais às feitas por grandes aranhas. Olhando rapidamente, Sabal não reconhece de pronto qual tipo de aranha teceu aquelas teias, mas sabe que já faz um tempo considerável pela quantidade de poeira e danos. “Aparentemente não é nenhuma armadilha”, pensa a clériga ainda analisando o local.

            Foi bastante trabalhoso para o grupo de Sabal alcançar o túnel no qual se encontram. Stongest teve que auxiliá-la e a Mirka, pois a distância era considerável, além de o trajeto ser perigoso. Esse foi um dos túneis em que não havia orcs, mas logo ao lado desse – a uns cinco metros de distância – são visíveis os corpos de dois orcs queimados. A distância de onde se encontram e do túnel ao qual se encontravam é de aproximadamente vinte metros, supoz Sabal no momento em que partiram para a escalada. Além do fator distância, havia também o fator altura, que dificultou muito. Os túneis da imensa caverna não eram simétricos, suas alturas eram variadas e para alcançar esse túnel eles tiveram que descer ao mesmo tempo em que se deslocavam de lado pela parede. Por mais difícil que tenha sido, todos eles – Mirka, Gromsh, Stongest e a própria Sabal com sua armadura completa – alcançaram o local desejado.

            “Se forem teias do filho da Do’Urden, seria interessante que descobríssemos qual tipo de aranha forma seu corpo”, reflete Sabal, enquanto observa o interior da caverna. As teias diminuem em quantidade, mas um ou outro vestígio é encontrado. Stongest está um pouco mais a frente, tentando encontrar marcas de alguma criatura que possa estar vivendo ou tenha passado por aquele túnel. Mirka está próxima a Sabal, apenas observando as paredes em busca de runas ou palavras de poder. Já Gromsh, está mais próximo da boca do túnel vigiando qualquer movimentação na imensa caverna.

            – Pelo que pa’ece os o’cs passam po’ aqui com uma ce’ta f’eqüência. – diz Stongest, quebrando o silêncio – Não sou um expe’t em p’ocu’a’ ‘ast’os, mesmo assim consegui encont’a’ alguns.

            Stongest aponta para algumas marcas que estão no chão próximo a eles. Sabal para de observar as teias e se aproxima do meio’goblin.

            – Talvez po’ isso, não há nenhuma a’madilha física po’ aqui. – comenta o pequeno robusto.

            – Então creio que precisamos acelerar nossos passos, ficarmos mais atentos e preparados para nos escondermos a qualquer momento. – diz Sabal, observando atentamente as marcas que, como seu próprio companheiro lhe disse, estão bem óbvias – Talvez estejamos próximos de algum acampamento dos orcs fugitivos de Menzoberranzan.

            – Além disso, há o out’o g’upo. Eles sabem que estamos p’oximos. Como te disse, conve’sei com eles um pouco antes de pa’timos de nosso túnel. – diz Stongest, chamando Gromsh e Mirka com um breve grunhido.

            Um pouco antes de Mirka acordar e após a breve conversa que Stongest teve com Sabal, a clériga sabia que o meio-goblin-meio-algo havia feito uma breve visita ao outro grupo e conversado com um tal de Alak; o mesmo que já os tinha bisbilhotado. Segundo pareceu, os Xorlarrin a princípio estavam atrás do “culto herege de Lolth”, mas haviam “alterado seus planos”. Stongest disse que o tal Alak não pareceu ser de uma Casa nobre e sim tinha um quê de mercenário, o que já era um ponto positivo para Sabal. Além disso, entre eles havia um ogro mago, que como eles já supunham antes, poderia ser um escravo ou um mercenário. Em qualquer uma das opções, era uma vantagem que Sabal poderia aproveitar. Portanto, Sabal não está tão preocupada com o outro grupo como Stongest aparenta estar, pois para ela os orcs são uma preocupação mais imediata.

            – De qualquer forma temos que partir. Mirka, o túnel está seguro magicamente? – pergunta Sabal para a pequena kobold, que já está ao seu lado.

            – Não encontrei nenhuma runa ou inscrição, Senhora. Creio que o local esteja seguro. – responde a kobold confiante, porém Sabal percebe um leve ar de preocupação em seu olhar.

            – Algum problema, Mirka? – pergunta a clériga brandamente, enquanto Stongest e Gromsh começam a caminhar pelo túnel.

            Mirka fica em silêncio por um tempo olhando para o rosto da clériga, que faz sinal para que as duas comecem a caminhar.

            – Suspeitas, minha Senhora. – responde timidamente a kobold, enquanto caminha voltando seu olhar para o chão.

            – Que tipo de suspeitas?

            – Estou com uma sensação estranha. Preocupada com que tipo de criatura possa ter feito esses túneis. – responde Mirka, demonstrando receio em sua voz.

            – Alguma opinião a respeito, Mirka? – Sabal não esconde em nenhum momento sua curiosidade, pois sabe que Mirka deve ser levada a sério.

            – Pode ter sido aquilo que está no lago. Aquela sombra que vimos quando estávamos escalando para esse túnel. – responde Mirka, ponderando sobre suas palavras – Você percebeu como aquela caverna se assemelha a um ovo colossal?

            Sabal levanta uma de suas sobrancelhas e encara Mirka, que está com feições preocupadas. A kobold troca olhares com sua clériga enquanto caminham.

            Caminhando em silêncio, ambas refletem sobre aquilo. “Um ovo”, pensa Sabal. Gromsh prossegue na frente e Stongest diminui seus passos para ficar um pouco mais próximo das duas mulheres do grupo.

            “Conversem nessa linguagem, acho que estamos sendo espionados novamente”, diz o guardião na língua de grunhidos própria do culto.

            Nem Sabal nem Mirka fazem menção dele ter falado com elas e nem mesmo demonstram curiosidade em ver quem está seguindo-os. Mirka olha novamente para Sabal por uns instantes e volta a encarar a frente do caminho.

            “Um ovo colossal. Com uma gema e um imenso ‘filhote de dragão’ descansando em seu centro”, descreve Mirka toda sua impressão sobre o local. Sabal visualiza a caverna e realmente enxerga o mesmo ovo que Mirka descreveu e depois grunhe confirmando a suspeita da kobold. Sabal sente o desejo de prosseguir com a conversa, mas um novo aviso de Stongest sobre um espião a faz adiar a concretização de sua vontade.

            “Alak está aqui”, o rosnado do guardião é extremamente discreto, como um leve ronronar. Se eles não estivessem tão distantes da boca do túnel como estão, talvez a clériga não tivesse ouvido.

            Sabal discretamente respira fundo e pergunta levemente:

            – Então veio se juntar a nós?

            Nenhuma resposta é dada. Sabal sorri e, com o auxílio de um breve ronronar de Stontgest, dizendo onde o drow se encontra, ela mira um breve olhar no local e volta a dirigir sua atenção à sua frente.

            – Não seja tímido, Alak. Como Stongest já lhe disse: nós íamos nos encontrar novamente. – comenta Sabal, tranqüilamente.

            Uma voz sussurrante é escutada vindo de pelo menos quatro metros atrás deles.

            – Você sabe que não vim me juntar a vocês. – responde Alak, tentando não demonstrar frustração em sua voz por ter sido encontrado.

            – Sei, mas espero também que não tenha vindo tentar nos matar. – diz Sabal, mantendo tranqüilidade na voz.

            – Não, mesmo que me mandassem para isso.

            Um pequeno silêncio toma conta do local até Sabal retomar a conversa:

            – Por que está nos seguindo, então?

            – Porque foi isso que minha contratante me pediu. Tudo isso está muito confuso. Minha única curiosidade é saber o que está acontecendo nesse local. – responde Alak, surpreso consigo mesmo por estar tão falante na presença da clériga.

            Em nenhum momento o grupo para de se locomover. Sabal apenas sorri e olha discretamente mais uma vez na direção do mercenário.

            – Algo que os Xorlarrin temem. – blefa Sabal, tendo em mente apenas o que sabe a respeito das fugas dos orcs.

            – Mas o que seria? – pergunta Alak, mantendo o mesmo tom de voz desde o início da conversa.

            Sabal faz menção de iniciar a resposta, mas logo Stongest a interrompe com breves grunhidos avisando que mais um está seguindo o grupo. Outro drow. Sabal volta sua atenção para frente novamente apenas dizendo suavemente:

            – Acho que não confiam tanto em você. Parece que você tem companhia.

            Alak não responde, apenas olha para trás tentando encontrar alguém, mas não encontra nada. Suspeitando que seja o Xorlarrin, prefere ficar em silêncio, fingindo ainda não ter sido descoberto.

            A ex-clériga Dyrr continua tranqüila em seu caminho, pois sabe que o guardião dificilmente é pego de surpresa. Gromsh para mais a frente e, sabendo que estão sendo seguidos – por ter escutado os avisos de Stongest e parte da conversa de Sabal -, fala como se nada estivesse acontecendo, para não levantar suspeita sobre o conhecimento do grupo a respeito dos espiões.

            – Chegamo num ponto delicado, Senhora. – diz o gnoll, olhando na direção da clériga, que aperta um pouco o passo para ver sobre o que seu companheiro está falando.

            Chegando perto do gnoll, a clériga se depara com a boca de um túnel que acaba em uma pequena caverna, após um degrau causado por uma leve depressão. No chão dessa pequena caverna há um tapete de teia, enquanto no teto há alguns casúlos pendurados e nas paredes duas bocas de túneis: uma adiante e uma ao lado direito da caverna.

            – É. Acho que encontramos o ninho do filho de Lolth. – comenta a clériga.

            Stongest e Mirka se aproximam. Ambos começam a analisar o local, enquanto Sabal apenas observa e reflete. Gromsh aguça seus ouvidos, como se tivesse escutado algum som estranho.

            E quanto a Alak… Esse apenas se espanta e se pergunta: “Filho de Lolth?”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 1)

Menzoberranzan está prestes a ser atacada. A Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos está em silêncio. O Bregan D’Aerthe que traria o novo contrato está atrasado. E “a cerveja tá acabando”, segundo seu amigo ogro. Entretanto, nada disso importa para Alak Sel’Xarann no momento. Há mais ou menos um dia e meio ele matara seu próprio mestre e pai de criação.

Sua mente ainda não se adaptou a idéia de que ele não mais é o “discípulo do eremita”, mas que havia tomado o lugar do próprio eremita. Porém, o que realmente não desce por sua garganta é que seu mestre tivesse que morrer por suas próprias mãos. Seria muito mais honrado e belo para a imagem daquele que o criou, se sua morte tivesse ocorrido enquanto lutando contra os duergars, protegendo sua cidade e sua deusa.

Sua deusa.

Aquela que “lhe disse” para morrer “pelas mãos de seu sucessor”. Alak deixa o pensamento se desfazer com desdém. “Não importa mais”, diz para si mesmo. “Da mesma forma que Vazmaghor continua sendo um excelente companheiro através de minhas espadas, Azirel, meu pai, continuará sendo um excelente mestre através de minhas ações”.

– Você não acha que está pensando demais não? – pergunta Brum, dando um cutucão no ombro de Alak.

– Bobagem, Brum. – responde o novo eremita, fazendo um gesto desdenhoso com a mão.

– Sim, bobagem, mas se Nym fosse um assassino contratado para te matar, nesse momento você estaria morto. – comenta o ogro gargalhando.

Alak olha para trás e vê Nym parado com um punhal preparado perto de um ponto vital próximo a sua garganta. “Concentre-se, estúpido”, repreende-se enquanto escuta seus companheiros de serviço gargalharem.

– Com certeza eu estaria morto, mas Nym falaria fino pelo resto de sua vida. – retruca Alak com um sorriso no rosto.

Nym para de gargalhar e olha surpreso para suas regiões baixas, percebendo que a ponta de uma das espadas de Alak está próxima a sua “área sensível”. Brum gargalha ainda mais, dando alguns socos contra a mesa que treme. Nym, ainda surpreso, começa a rir devagar enquanto o eremita continua apenas sorrindo, vitorioso.

– Muito bem, Alak, eu o subestimei. – comenta Nym, guardando seu punhal e cumprimentando-o – Desculpem-me pelo atraso.

– Não se preocupe. – responde Alak ainda sorrindo. Seu blefe foi excelente, seus companheiros nem mesmo desconfiaram que ele apenas aproveitou o momento das risadas para posicionar sua espada e ficar com a imagem menos suja. “Concentre-se, idiota”, reprime-se novamente.

– Não se preocupar?! Claro que você tem que preocupar! A cerveja tá acabando e nenhuma caravana de mercadores poderá sair ou entrar em Menzoberranzan até essa merda toda acabar! – diz Brum, exaltado como se o mundo ao seu redor estivesse em chamas – Sabe o que isso significa? Que não haverá mais cerveja daqui algumas horas e ficaremos sem até essa guerra ter fim!

Nym e Alak olham para o ogro com as sobrancelhas erguidas.

– Tudo bem, Brum. – responde Alak encerrando a cena do companheiro – Vamos aos negócios.

– Só esperem um pouco, vou pegar mais uma caneca. – diz Brum levantando-se e indo para o bar.

O Bregan D’Aerthe sorri para Alak, que continua sério.

– Alak, não sei o que aconteceu, mas tente relaxar. Você conhece o Brum faz tempo, não vai ser difícil trabalhar com ele de novo. – diz Nym.

– Não se preocupe com isso, apenas me responda: de onde ele tira tanto dinheiro? – pergunta Alak sorrindo.

– Ele venceu o desafio de um mago anteontem. – responde Nym com uma semi-verdade.

– Certo, faz sentido vindo dele.

O ogro retorna e senta-se à mesa junto com os outros dois. Toma um gole de sua cerveja e oferece para ambos, que negam com acenos de mão.

– Vamos aos negócios agora? – pergunta Alak.

– Por mim, tudo bem. – concorda Brum sorrindo como uma criança com um brinquedo novo.

Nym tira do bolso o pergaminho dado pela figura misteriosa e o entrega para Brum antes de começar a conversa:

– O trabalho é simples, Alak. Como já disse a Brum em outra oportunidade antes de você chegar a Menzoberranzan, vocês servirão de guarda costas para uma clériga de Lolth de uma das Casas Maiores. – sintetiza o mercenário Bregan D’Aerthe.

– Guarda costas? A cidade entrará em guerra e uma clériga quer guarda costas? – pergunta o eremita como se ainda não tivesse entendido exatamente o que o contratante quis dizer.

– Vocês não participarão da guerra. A clériga foi encarregada para uma missão investigativa no Braerym, e vocês deverão acompanhá-la para garantir que ela retorne com vida dessa missão. – responde Nym.

– Compreendo. Então essa clériga não possui guerreiros em sua Casa para acompanhá-la? – pergunta Alak levantando uma sobrancelha.

– Na realidade possui. E um deles irá também, porém vocês não estão sendo contratados por ela. – responde o Bregan D’Aerthe enquanto Alak o olha, esperando a continuação, enquanto Brum toma mais um gole de sua cerveja – Vocês foram contratados por alguém que não quer ser identificado e que pertence a uma das Oito Casas Maiores de Menzoberranzan.

– E ele apenas quer que protejamos a clériga? Você não está escondendo nada? – pergunta o lutador eremita desconfiado.

Nym sorri:

– Não estou, Alak. Não se preocupe. Ele realmente quer apenas que vocês protejam a clériga para que essa possa completar sua missão e voltar para sua Casa com as informações necessárias.

Alak dá de ombros e toma um gole de seu vinho.

– Lembre-se, Alak: estamos em tempos perigosos. As Casas Maiores estão ocupadas com o possível ataque que se aproxima. Lolth está em um silêncio misterioso. Os Xorlarrin não iam se dispor de uma alto-clériga para uma missão investigativa em um território hostil. – comenta Nym encarando Alak seriamente.

– Então seremos babás de uma clériga iniciante? – pergunta Alak rindo.

– Quase. – responde Nym sorrindo – Ela possui experiência, mas não é uma das mais poderosas de sua Casa.

O eremita balança a cabeça indicando ter entendido o que o Bregan D’Aerthe acabou de lhe dizer. Brum dá mais um gole de sua cerveja e arrota.

– Foi mal. Não quis atrapalhar. – diz Brum quando os dois olham em sua direção.

Nym ri, enquanto Alak apenas sorri e retoma o asunto:

– Quanto iremos receber? – pergunta Alak.

Colocando a mão em um de seus bolsos o mercenário contratante tira duas pequenas sacolas com algumas gemas:

– Essa é a primeira parte do pagamento. – diz Nym – A segunda virá quando vocês voltarem com a clériga viva e salva.

Alak abre uma das bolsas, a que ele supôs ser sua, e vê uma dúzia de ametistas. Com os olhos arregalados de espanto, ele apenas responde:

– Estou nessa.

– Não irá se arrepender, discípulo do eremita. – diz Nym se curvando e sorrindo para Alak.

– Imagino que não. – responde o eremita cumprimentando e selando o acordo com o Bregan D’Aerthe.

Nym se levanta e prepara-se para sair:

– Ah sim! E você deve cuidar para que Brum não chateie ninguém com sua personalidade. Você sabe como são as clérigas, não é? – comenta em baixo-drow o contratante, virando as costas e partindo.

– Não se preocupe. – responde Alak também em baixo-drow.

– É. Me tirem da conversa mesmo. Sou ignorável, apenas um pequeno, ignorante e mirrado ogro apreciador de cerveja. – diz Brum, com seus três metros de altura tomando mais um gole de sua bebida favorita.

Alak ri e finaliza seu vinho.

– O que era aquele pergaminho que Nym lhe deu? – pergunta o eremita, um tanto curioso.

– É nossa “carta de recomendação”, pelo que entendi. – responde Brum, mostrando para ele – Parece que apenas os Xorlarrin tem permissão de abrir.

– Interessante. – comenta Alak olhando para o item – Você ficará por aqui também?

Alak olha para o rosto de Brum enquanto esse guarda o pergaminho.

– Eu estou instalado aqui no Bazaar já faz alguns dias. Até deixo minhas armas no quarto. – responde Brum despreocupado.

Alak não se surpreende com a resposta do companheiro. A única coisa valiosa que o ogro realmente possui são as pedras preciosas que recebe como pagamento e a cerveja e comida em seu estômago. Suas armas são apenas dois grandes pedaços de pedra moldados na forma de clavas, amarrados com correntes. Enquanto sua armadura, – se é que aquilo que ele usa pode ser considerado uma armadura -, não é nada além de trapos de couro.

– Ficarei por aqui também. Vamos dividir o quarto, sairá mais barato. – diz Alak.

– Se não fosse a parte do ficar mais barato, eu ia desconfiar das suas opções sexuais. – comenta Brum olhando severamente o companheiro.

Alak ri e se levanta.

– Vamos descansar, Brum. Creio que o Bregan D’Aerthe tenha lhe passado a data e o local onde encontraremos a clériga, não é?

– Sim. Será amanhã, na taverna ao lado. – responde o ogro também se levantando. Brum é o único que Alak conhece que o faz sentir-se baixinho, pois ele sempre foi bem maior que a grande maioria dos drows – Na verdade, será em um dos dormitórios da taverna ao lado.

– Ótimo. – diz Alak começando a caminhar.

Ambos vão em direção às escadas que levam ao dormitório, mas no meio do caminho uma cena chama a atenção do eremita. Uma clériga de Lolth conversando de igual para igual com um goblin, ou “seja lá o que for aquilo”, em uma língua que não é drow.

– Brum, você entende o que eles estão dizendo? – pergunta Alak enquanto passam por perto dos dois.

– Nada de mais. Tão falando algo sobre encontrar o filho de Lolth. Besteira. – diz o ogro dando de ombros.

Ainda estranhando a cena, Alak sobe as escadas com seu companheiro ogro. “Sem sua deusa para lhe dar poder, ela deve estar pensando em servir a Vaherun”, responde a si mesmo o lutador eremita enquanto prossegue em seu caminho.

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