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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (Parte 5)

            – Os Xorlarrin não estão atrás do culto herege à Lolth? – pergunta Riklaunim Teken’Th’Tlar, um mago sisudo e firme da pequena Casa de estudiosos ao seu subordinado: Jabor.

            – Isso mesmo, Senhor. Segundo a mensagem enviada por Sol’al, os Xorlarrin encontraram o culto, mas o ignoraram. Eles estão atrás de alguns “fugitivos”. – responde Jabor, seriamente.

            Riklaunim apóia o queixo em sua mão direita, que está com o cotovelo apoiado em sua escrivaninha, como se refletisse a respeito do que está sendo dito. Jabor observa o rosto de seu superior marcado pelas tatuagens características dos aracnomantes, acreditando que os pensamentos que estão passando pela mente dele sejam os mesmos que passaram em sua própria mente: “Os Xorlarrin estão com fortes rixas internas. Orghz provavelmente pediu nosso auxílio para vigiarmos os dois que foram designados para a tal missão”.

            – Você conversou com Orghz a respeito disso? – pergunta o aracnomante veterano.

            – Ainda não, Senhor. Estava esperando para ter essa conversa antes de tomar qualquer atitude. – responde Jabor, olhando para os olhos daquele que já foi seu professor, e que agora o encara com seriedade.

            – Não podemos deixar que essa missão venha trazer seqüelas a nossa Casa. Converse com Orghz e tire dele a maior quantidade de informações possíveis. – ordena ele, levantando-se de seu banco acolchoado.

            – Não se preocupe, Senhor. Farei isso. – responde Jabor com uma leve referência, também se levantando do seu acento.

            – Peça para Sol’al nos informar sobre tudo o que está ocorrendo, sem perder tempo. – conclui Riklaunim, fazendo um sinal para que Jabor se retire.

            O professor de Sol’al apenas inclina-se em aceitação e retira-se do quarto de estudos de seu antigo mestre. “Farei mais do que isso, Senhor. Vigiarei o grupo de Sol’al de ‘perto'”, conclui Jabor enquanto caminha pelos corredores da mansão Teken’Th’Tlar em direção ao quarto de estudos de seu aluno.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 5 (Parte 2)

Desde que voltou de sua viagem ao Lowerdark, Sol’al Teken’Th’Tlar está maravilhado com a nova aquisição feita para o zoológico de sua Casa. A drider o fascina e o faz dedicar dias a observá-la e a anotar suas reflexões a respeito do espécime. Suas anotações são feitas em papiros soltos, para só depois serem passadas para o seu “tomo herege”.

Uma das coisas que mais o fascinou na “amaldiçoada”, – mesmo não gostando do termo, Sol’al o usa por força do hábito -, foi a constituição de sua teia. Em toda sua vida, o jovem mago nunca havia visto nenhuma criatura-aranha que produzisse teias tão resistentes e perfeitas quanto as daquela drider. Ela podia não ser tão venenosa quanto os driders costumam ser, algo extremamente fora do comum, porém as armadilhas extremamente poderosas que ela era capaz de criar com sua teia eram inigualáveis. Sol’al não é capaz de esconder de si mesmo que sente uma certa tristeza de ter aquele ser preso em uma gaiola, incapaz de apanhar novas presas para Lolth, mesmo involuntariamente, já que é perceptível que a ex-clériga da Rainha das Aranhas agora pensa que serve a Vaherun.

Contudo os estudos são essenciais para que ele possa servir integralmente a sua amada deusa. “Somos todos alimentos de Lolth”, Sol’al repete a si mesmo como uma oração sempre que acorda. O mago sempre esteve disposto a se sacrificar e fazer sacrifícios à Rainha dos Fossos de Teias Demoníacos. Em seu íntimo ele sabe que o maior de todos os seus serviços em relação a deusa seria através de seus conhecimentos sobre driders, aranhas e criaturas semelhantes, mas ao observar aquela drider e ao lembrar-se do drider que dissecou quando estava no Sorcere, Sol’al sente que os driders são um ponto importante no serviço à deusa. À silenciosa deusa.

Um dos acontecimentos recentes que o intrigou foi o repentino silêncio da Rainha das Aranhas. Ele se encontrava no Lowerdark quando isso ocorreu e as clérigas que os acompanhavam deixaram de receber seus poderes em um momento importante para a captura de outros espécimes. Uma delas morreu nas mãos de uma pseudocriatura-aranha-mind flayer que conseguiu escapar. Essa seria uma das maiores perdas, se eles não tivessem encontrado a drider. Mas a falta de poderes das clérigas o intrigou. No momento, Sol’al e os outros magos acreditaram que aquelas clérigas específicas haviam perdido a fé na deusa, mas mesmo assim continuavam respeitando-as até terem certeza de suas suspeitas. Porém, ao chegarem em Menzoberranzan e descobrirem que sua cidade havia sofrido uma insurreição por parte dos escravos, eles perceberam que aquilo não havia sido um fenômeno isolado.

A deusa estava em silêncio por algum motivo que apenas ela mesma sabia. Sol’al havia escutado alguns hereges dizerem que a Rainha das Aranhas estava morta, mas em seu íntimo ele sabia que não era verdade. Lolth estava testando seus fieis, pois provavelmente esses teriam demonstrado fraqueza e falta de fé. Era nesse momento que seu louvor pelos driders crescia. Os “amaldiçoados” eram poderosos e continuavam a servir a deusa mesmo em seu silêncio, pois carregavam em si uma porção da própria em sua maldição.

No momento, Sol’al encontra-se em seu quarto refletindo sobre tudo isso, copiando suas anotações feitas diante da drider e escrevendo novas em seu tomo secreto. Algo que ocorreu quando ele estava observando o espécime há mais ou menos dois dias atrás, veio a tona em sua mente. O jovem mago recebeu a visita de Jabor e Eclavdra. Isso não o chamou muita atenção, pois lhe pareceu que Jabor queria apenas gabar-se para a feiticeira a respeito da nova aquisição. Porém, ele recebeu a visita da fêmea duas vezes mais em outras oportunidades e isso o incomodou.

– O que você acha que conseguirá com seus estudos e anotações, mago? – perguntou ela em uma das oportunidades.

Humildemente, Sol’al apenas respondeu:

– Servir melhor a Rainha das Aranhas, Senhora.

A feiticeira sorriu com desdém e em silêncio se retirou do local, deixando Sol’al apenas a sensação de que algo estava errado. Por mais ingênuo que se faça parecer, ele conhece muito bem como funciona a sociedade na qual foi criado. Portanto, após o segundo encontro ele começou a se preparar para qualquer eventualidade.

– Me parece que você idolatra mais aqueles que nossa deusa amaldiçoa do que ela própria. Que tipo de relação você gostaria de ter com um drider? – perguntou secamente Eclavdra ao jovem mago.

– Pretendo apenas conhecer todos os filhos de nossa deusa, para que assim possamos aumentar o poder de nossa Casa, de nossa cidade e de nossa fé. Afinal, conhecimento é poder, não é Senhora? – respondeu humildemente Sol’al

Com um olhar fulminante da feiticeira, o mago até sentiu como se estivesse sendo queimado vivo.

– O conhecimento prático traz mais poder do que suas anotações incondicionais. Você deveria praticar mais, ao invés de ficar criando calos em sua mão com anotações que provavelmente outros estudiosos já fizeram. – disse rispidamente a feiticeira.

Com a cabeça baixa, Sol’al respondeu:

– Nossas formas de magia são diferente, Senhora. Meu poder baseia-se em conhecimento, portanto para mim o conhecimento teórico deve caminhar junto a experiência prática.

– Espero que seu caminho ao conhecimento não venha desonrar nossa Casa. – disse a feiticeira em tom de ameaça, virando-se e saindo do local novamente.

Enquanto faz as anotações em seu tomo, todos esses ocorridos passam por sua mente. Para se manter preparado, Sol’al recorda algumas magias de proteção que poderiam lhe ajudar caso necessário. Eclavdra não faz a mínima questão de que ele continue fazendo parte da Casa Teken’Th’Tlar e isso cada vez é mais óbvio. Portanto, cada vez mais Sol’al precisa tomar cuidado ao esconder seu “tomo herege” pois, se ela o encontrar, será a prova incontestável de que suas suspeitas estão certas. “Eu quero me tornar um drider”, conclui consigo mesmo o jovem mago enquanto fecha seu tomo e o guarda.

Após lançar algumas magias de proteção para dificultar a acessibilidade ao livro, Sol’al sente uma voz invadindo sua mente:

“Sol’al, encontre-me no hall de estudos. Urgente”, a voz, que o jovem mago reconhece imediatamente, pertence a Jabor.

“Estou indo imediatamente, Mestre”, responde mentalmente o discípulo daquele que acabara de falar.

Caminhando pelos corredores da Casa, que se assemelham a túneis de teias esculpidas em pedras, Sol’al não perde a atenção em seu ambiente enquanto reflete a respeito de como se tornar um drider sem falhar frente a sua amada deusa. Nenhuma resposta surge. O silencio da deusa parece, aos seus olhos, ser um teste a toda sua raça e aos seus seguidores, porém isso dá apenas uma sensação maior de urgência em encontrar uma resposta para suas questões.

Quando chega à porta que dá entrada ao hall de estudos, Sol’al dá dois toques e a abre.

– Com licença, Mestre. – diz ele, entrando com a cabeça levemente inclinada cumprimentando Jabor.

Ao perceber que Jabor não esta sozinho, mas se encontra com o maior mago da Casa: Riklaunim, com a mais poderosa maga Teken’Th’Tlar Akordia e com a própria Matrona Maya Teken’Th’Tlar, ele se inclina ainda mais e cumprimenta a todos:

– Com licença, Senhoras e Mestres. Não esperava vê-los todos juntos. Perdoem meu desleixo.

Riklaunim sorri para a cena que lhe soa no mínimo patética. Akordia apenas observa o recém-chegado, enquanto a Matrona o fulmina com um olhar, voltando-se logo em seguida a Jabor, que está apenas sorrindo.

– Eclavdra tinha razão ao dizer que seu discípulo é no mínimo vergonhoso, Mestre Jabor. – diz Maya secamente.

– Por favor, minha Senhora, não o julgue tão depressa. Lembre-se que o próprio Orghz Q’Xorlarrin o requeriu. – comenta calmamente Jabor.

– Preocupo-me com a imagem de nossa Casa. Lutamos bastante para que ganhassemos o mínimo de reconhecimento que possuimos, não quero que tudo isso se perca a pedidos de um membro de uma Casa Maior. – diz a matrona com um toque de raiva em sua voz – Ele apenas conheceu esse jovem quando era um estudante do Sorcere. Se soubesse que não houve nenhum desenvolvimento de suas capacidades desde então, acredito que não iria requerer seus serviços. A não ser que fosse para acabar com a leve imagem que construímos até o momento.

Enquanto a Matrona da Casa fala, todos os outros ficam em silêncio. Sol’al se mantém com a cabeça baixa, sem se manifestar de forma alguma, como se realmente não estivesse lá.

– Minha Senhora, as capacidades do jovem Sol’al melhoraram muito. Treinei-o pessoalmente. Possuo até mesmo recomendações e elogios por parte das famílias mercantes que tiveram seu auxílio. – diz Jabor alguns instantes depois da matrona ter finalizado seu discurso.

– Você arriscaria sua vida pela confiança que dá às capacidades de seu discípulo, Mestre Jabor? – pergunta Maya enfatizando o começo da pergunta.

Jabor e Sol’al compreendem plenamente o que ela está querendo dizer, mas antes que o mestre de Sol’al possa responder, Akordia entra na conversa:

– Senhora Matrona, muitos dos novos espécimes que adquirimos tiveram participação mesmo que indireta desse jovem. Seus estudos ajudaram muitos de nossos caçadores a conseguir novas aquisições.

– Caçar monstros não demonstra suas capacidades como mago, senhora Akordia. – responde secamente a matrona.

– Muito pelo contrário, Senhora Matrona. – intercepta Riklaunim – Ter como base as anotações desse jovem, demonstra que ele possui uma grande perspicácia e capacidade intelectual. O que é importantíssimo para nós magos.

Maya olha o mago nos olhos e se mantém em silêncio esperando que esse continue.

– Sei que a Senhora possui capacidades de feitiçaria, além de ser uma excelente clériga, portanto creio que compreenda que da mesma forma que os feiticeiros aprenderam a manipular a trama mágica de modo intuitivo e dinâmico, nós magos a manipulamos através do conhecimento que adquirimos. – prossegue Riklaunim.

– Então você está me dizendo que esse jovem tem um grande potencial e habilidades excepcionais graças a sua inteligência e conhecimento? – pergunta incrédula a Matrona.

Riklaunim afirma com a cabeça e Akordia retoma o rumo da conversa:

– Exatamente, Senhora. Esse jovem demonstra grandes conhecimentos e uma imensa capacidade de aprendizado.

Maya Teken’Th’Tlar olha para Sol’al, que se mantém no mesmo local com a cabeça baixa, como se refletisse a respeito de tudo que fora dito a ela.

– Então envie-o para auxiliar os Xorlarrin na investigação ao culto de Lolth pelos escravos. Quaisquer erros e possíveis correções dos mesmos ficam sob sua responsabilidade. – finaliza a Matrona se levantando e saindo do hall.

Após algum tempo da saída da Matrona, Riklaunim e Akordia olham para Jabor.

– Espero que você esteja certo sobre ele, Mestre Jabor. – diz a maga com tom de ameaça.

Sol’al sente a ansiedade e a curiosidade crescerem ao saber que foi escolhido para acompanhar a Casa Xorlarrin na investigação de um possível culto a deusa feito pelos escravos, que tanto a odeiam. “Algo no mínimo curioso”, pensa o jovem mago.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 4 (Parte 2)

Três figuras vestidas com longos mantos – demonstrando claramente suas posições de conjuradores arcanos – conversam sentados em cadeiras almofadadas que cercam uma mesa de estudos. A sala possui vários livros e componentes para magias organizados de formas diferentes em cada setor do cômodo, assemelhando-se a composição das teias de uma viúva-negra, caótica mais bela.

– A Casa Xorlarrin irá fazer uma investigação no Braeryn a respeito de boatos sobre um culto a Lolth por raças inferiores. Acredito que seja uma boa chance para nos oferecermos e estreitarmos nossa relação com eles. – diz um imponente mago drow, de cabelo gomado e manto púrpura com detalhes de teias douradas.

– Mas Mestre Jabor, você não acha que a imagem de nossa Casa possa se danificar no processo? Afinal, não queremos parecer um bando de animais adestrados. – comenta outro mago, esse aparentemente mais jovem e com cabelo chanel. Sua vestimenta é violeta com listas pretas e detalhes de teias e aranhas dourados.

– Senhor Divolg, não estaremos parecendo animais adestrados. Nossa Casa é uma casa de estudiosos. O maior auxilio que podemos oferecer à nossa cidade e a nossa deusa é através de nossos conhecimentos. – Jabor Teken’Th’Tlar troca olhares severos com seu subalterno enquanto prossegue – Além do mais foi Mestre Orghz Q’Xorlarrin do Sorcere que nos informou. Pelo que parece ele tem grande apreciação por Sol’al.

– Não entendo o porquê. – se intromete a terceira pessoa – Parece que ele voltou mais estúpido do Sorcere. Sua dedicação a deusa é excelente, porém estúpida. E suas atitudes demonstram total falta de raciocínio. Ele é um peão para nossa Casa. – finaliza a feiticeira que está junto aos outros dois magos.

Jabor sorri e responde:

– Ainda mais conveniente. Não concorda senhora Eclavdra?

Um tempo de silencio segue a pergunta como se todos refletissem a respeito. Até que Eclavdra interrompe os pensamentos:

– Ou mais perigoso, já que ele tem grandes chances de atrapalhar a Casa Xorlarrin.

– Não me preocupo tanto com esse fato, afinal quem o indicaria seria o próprio Mestre Orghz Q’Xorlarrin. Caso ele cometer algum deslize nós estaremos preparados para substituí-lo e corrigir esse erro. – responde Jabor. “Mal você conhece o potencial daquele jovem”, pensa o mago sorrindo.

– Espero que o senhor esteja certo, Mestre. – comenta Divolg.

– Idem. Mas antes de tomarmos qualquer decisão pela Teia Arcana, precisamos da opinião de Riklaunim e Akordia. – emenda Eclavdra.

– Não se preocupe, conversaremos com eles assim que retornarem. Com certeza compreenderão a situação vantajosa que nossa Casa se encontra no momento.

Jabor sorri para seus dois companheiros, que ainda demonstram olhares incertos, e se levanta. Enquanto Divolg pega seu tomo para ler suas últimas anotações, Eclavdra acompanha Jabor para fora do aposento, caminhando lentamente pelo corredor que os levam até as jaulas de criaturas que eles coletam para estudos.

– O que você está escondendo Jabor? – pergunta sem delongas a feiticeira com um tom raivoso na voz.

– Pena que nosso zoológico não chega nem perto daqueles em Ched Nasad, não é? – responde de forma evasiva o experiente mago olhando para o final do corredor onde uma porta imensa se destaca.

– Não mude de assunto. Não falte com respeito a mim. Posso não ser uma clériga, mas ainda sim sou uma fêmea. – intima raivosamente a feiticeira.

– De forma alguma deixarei de lhe respeitar, minha senhora. Nunca isso passou pela minha cabeça, mas você sabe tanto quanto eu que algumas coisas devem ser mantidas em segredo até que se manifeste de forma imprevisível e espantosa. – diz Jabor se inclinando levemente em direção a Eclavdra.

A drow o encara por um tempo enquanto o mago prossegue olhando em direção da porta para a qual caminham.

– Você tem se dedicado demais aquele estúpido, não é Jabor? Por acaso, você o está ajudando a esconder suas capacidades ou alguma outra coisa? – questiona a feiticeira virando seu olhar em direção a porta que está mais próxima.

Jabor olha para Eclavdra e sorri. Mantendo o caminhar lento, o mago responde se inclinando novamente em direção a drow.

– Ele é uma peça em nosso jogo, senhora Eclavdra. Uma peça importante. Você não está errada, ele é um imbecil. Mas um imbecil com potenciais que apenas a dedicação dele para com Lolth e com os estudos são capazes de despertar. – o mago dá uma pausa enquanto ambos param em frente da porta do zoológico, mas antes de abri-la Jabor finaliza seu discurso – Minha senhora, compreenda que esse jovem é a chave que temos para abrir a porta que nos levará para o Conselho. Estou apenas tornando-o mais apto a isso.

A feiticeira demonstra descrença em seu olhar, mas assim que ela se prepara para contestar a teoria do mago, esse fala as palavras arcanas que destrancam a grande porta e a abre. Eclavdra não consegue evitar virar o rosto em direção ao zoológico e fica pasma quando vê o que está lá dentro.

– Veja nossa mais nova aquisição. – diz Jabor sorrindo.

Eclavdra não consegue evitar a expressão de espanto que surge em seu rosto. Ela tenta comentar o que vê, mas sem achar as palavras, sua boca apenas fica entreaberta.

– Nós o conseguimos no lowerdark, a caminho para Ch’Chitil, nesses anos que ficamos fora. Agradeça Sol’al, pois seu conhecimento a respeito de driders foi essencial para a aquisição desse espécime. – comenta o mago sorrindo ainda mais.

Eclavdra observa a grande gaiola magicamente protegida no qual se encontra uma drider e logo à frente, em uma distância segura, o jovem mago Teken’Th’Tlar, está absorto em suas anotações.

A drider é algo impressionante. Não parece ser inexperiente, nem tão pouco fraca. Obervando atentamente, Eclavdra percebe traços de uma ex-clériga de Lolth. Agora a drider tem cabelos cobreados, tingidos, o que lhe faz entender que ela virou as costas para sua antiga deusa e foi se refugiar com seus ex-inimigos. Uma tentativa tola de não servir mais a Rainha das Aranhas. Todos os Teken’Th’Tlar sabem, ou possuem a grande convicção, de que quando um drow é amaldiçoado por Lolth, ele se torna um servo incontestável e involuntário da deusa. Mesmo quando esses viram suas costas e buscam outros deuses, eles continuam a fazer a função para qual a deusa os amaldiçoou: testar seus ex-irmãos raciais.

A feiticeira observa as partes inferiores da drider, que não se assemelha a uma viúva-negra, nem a uma aranha-marrom, mas sim a uma aranha-tecelã. Isso é algo inusitado. Aranhas-tecelãs, não possuem um veneno poderoso, porém a teia de uma pequena aranha dessa espécie, que mede por volta de oito centímetros, é capaz de suportar um quilo sem estourar. Imagine o que essa seria capaz de fazer.

– Está certo então Jabor. – diz a feiticeira finalmente conseguindo desviar os olhos do espécime e encarando o mago – Vamos dar uma chance ao seu jovem pupilo. Essa noite falaremos com Riklaunim e Akordia.

O mago se inclina levemente a ela e sorri.

– Não irá se arrepender, minha senhora.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 3 (Parte 4)

Como uma casa menor, os Teken’Th’Tlar sempre buscaram o maior número de alianças possíveis e sempre conseguiram mostrar sua utilidade. Por ser uma casa de eruditos, suas artimanhas sempre foram extremamente sutis. Com as aranhas, aracnídeos e derivados sendo suas principais fontes de estudo, os Teken’Th’Tlar se identificam em muito com esses seres. Suas “armadilhas” são meticulosamente preparadas e as tramas de suas teias são extremamente bem trabalhadas. Quando atingem um inimigo, eles são rápidos, certeiros e mortais. Como moscas, os companheiros daqueles que caíram em suas tramas e armadilhas não percebem o que atingiu seu antigo companheiro, e acabam caindo também nas teias dessa pequena Casa.

Com todas essas características, alguns membros dela se perguntam o porquê eles não são uma das Casas Maiores de Menzoberranzan. Os grandes líderes Teken’Th’Tlar sabem a respostas: eles são aranhas pequenas. Por mais astutas, inteligentes e meticulosas que sejam, sua casa ainda é como uma pequena caranguejeira perto de Aranhas-Gigante, Aranhas-Espada, Aranhas-de-Fase. Todas suas artimanhas até o momento foram apenas contra presas menores, nunca contra outros predadores tão bem dotados. Segundo a percepção da Matrona Maya Teken’Th’Tlar, “as coisas continuarão assim até conseguirmos acumular conhecimento e oportunidades suficientes para virar a mesa. Não importa o quanto isso demore”. Porém nem todos concordam com essa visão.

Riklaunim Teken’Th’Tlar, o maior mago da Casa uniu outros que discordavam dess perspectiva e formaram uma sociedade secreta dentro da própria Casa. Até o momento, eles não planejam usurpar o poder da Matrona Maya, ou transformar a Casa de maneira drástica, apenas pretendem “acelerar um pouco as coisas”. Essa pequena sociedade secreta não é sexista, porém, entre as fêmeas, nenhuma é puramente clériga. A feiticeira Akordia Teken’Th’Tlar é a segunda no comando dentro da sociedade auto denominada Teias Arcanas. Logo após Akordia estão Jabor e Eclavdra, como principais planejadores. Os outros apenas dão suas opiniões e colocam em ação o que foi decidido pelo conselho principal.

Essa hierarquia não é rígida. Uma fêmea ainda é uma fêmea. Mesmo que Riklaunim esteja no topo da organização, ele não tem nenhum poder sobre Akordia, porém essa reconhece a capacidade intelectual e conhecimentos arcanos do principal mago da Casa e o respeita por isso.

Muitas ações da Casa sofreram influência da Teias Arcanas, mas até o momento, por ser uma sociedade ainda nova, nenhum ato foi decisivo ou criou alguma grande oportunidade para os Teken’Th’Tlar crescerem. Entretanto, há pouco tempo algo inesperado ocorreu para esses conjuradores: um Teken’Th’Tlar caiu nas graças de uma Casa Maior. Sol’al chamou a atenção de um dos professores de Sorcere da Casa Xorlarrin, que já possuía uma pequena relação com a casa menor.

Orghz Q’Xorlarrin manteve contato com Jabor Teken’Th’Tlar durante e depois da estadia de Sol’al em Sorcere. Em suas cartas, o Mestre Q’Xorlarrin era enfático:

            “Caro Jabor,

            Mantenha sempre esse jovem mago em movimento. Faça-o crescer em conhecimento e poder. Mantê-lo apenas focado em seus livros não desenvolverá todo o seu potencial, que ao meu ver é imenso.

            Teste suas capacidades. Quando ele se tornar o mago que vejo nele, nossas Casas terão muito a ganhar.

            Atenciosamente,

            Mestre Orghz Q’Xorlarrin do Sorcere

            Evocador e Conjurador da Casa Maior Xorlarrin”

Jabor viu uma grande oportunidade de estreitar a relação entre os Teken’Th’Tlar e os Xorlarrin, e após alguns meses do retorno de Sol’al a sua Casa, ele o tomou como discípulo pessoal. Nem todos da Teias Arcanas concordavam com a atenção que um de seus maiores estrategistas estava dedicando a um mago “fraco e covarde”, porém Jabor mantinha seus motivos escondidos e prosseguia com um treinamento distante, mas intenso.

Em dois anos, Sol’al, a mando de seu superior, ajudou na escolta de Casas Mercantes até a superfície. Nos períodos que passou fora do Underdark, seu estudo a respeito de aranhas se estendeu. Mesmo com todo o desconforto causado pelo Sol, ele se sentiu excitado com a possibilidade de aumentar ainda mais seus conhecimentos a respeito de aracnídeos, em específico: aranhas. Sol’al conhecia muito da fauna do Underdark, mas pouco das aranhas que vivem na superfície. Além disso, com esse contato com as Casas Mercantes, Sol’al desenvolveu ainda mais seu repertório de magias e, ao constatar a grande ligação destrutiva entre fogo e teia, passou a desenvolver um certo prazer em utilizar evocações ígneas.

Aos poucos, Sol’al conseguiu mascarar mais equilibradamente suas forças e fraquezas. Ainda achava mais gratificante a subestimação da maioria, porém agora ele era cada vez mais uma figura pública e, para ganhar certo respeito, precisava demonstrar o mínimo de suas capacidades. Alguns mercantes, com seus hábitos de apelidar indivíduos tendo em vista suas capacidades, apelidaram Sol’al de “Teias Flamejantes”, mas esse não era um título que o jovem Teken’Th’Tlar resolveu levar para sua Casa.

Entre viagens a superfície e retornos a Menzoberranzan, houve também viagens internas no Underdark. Durante essas viagens, eles tiveram de passar próximo a Yathchol, a grande vila de chitines ao sudeste de Menzoberranzan e ao norte de Ched Nasad. Lá, com muito esforço e alterando um tanto os planos dos mercadores drows, Sol’al conseguiu capturar uma choldrith, uma das clérigas dos chitines. Pelo que conseguiu perceber, a clériga não era poderosa e sim uma iniciante, mas já era válido para iniciar seus estudos. Em sua Casa não havia Choldriths capturadas, ele estaria levando a primeira. “Não. Eu não estou levando. É um presente dos mercadores” se autocorrigiu Sol’al.

Foram dois anos intensos de viagens, descobertas, treinos e desenvolvimentos práticos de suas magias. Teve contato com diversas das raças inferiores, mas nenhum drider. Mesmo assim, várias coisas o impressionaram, entre elas contatos relâmpagos que ele teve com alguns vermim keepers e as capacidades deles de conjurar e controlar insetos, aracnídeos e outros invertebrados.

– Como foram esses dois anos longe de sua Casa, Sol’al? – pergunta Jabor dois dias depois do retorno do jovem mago.

– Gratificantes, Mestre. – responde o jovem se curvando apenas o necessário para mostrar respeito.

Sorrindo, Jabor pega alguns pergaminhos em uma das gavetas de sua escrivaninha e os entrega a Sol’al, que os aceita sem esconder sua confusão.

– Isso é para sua próxima viagem. – Jabor abre outra gaveta de sua escrivaninha e retira um pequeno tomo – Os relatórios dos mercadores a seu respeito foram muito prazerosos de serem lidos. Elogiaram bastante suas capacidades e demonstraram muito respeito à sua pessoa.

– Mas eu nem demonstrei toda minha capacidade, Mestre. – interrompe Sol’al.

– Imaginei. O que me agrada ainda mais. Por isso tomei a liberdade de anotar algumas magias que poderão lhe auxiliar futuramente nesse tomo. Pegue-o, copie e estude o que há nele.

O Mestre Teken’Th’Tlar empurra o tomo para a borda da escrivaninha onde Sol’al está próximo. O jovem mago mantém sua feição confusa e depois de alguns instantes olhando para o tomo, o pega.

– Para onde será a próxima viagem, Mestre?

– Você acompanhará um grupo de reconhecimento às regiões profundas do Underdark, por motivos de estudos e coleta de dados para planejamentos futuros de uma possível campanha contra a cidade de Ch’Chitl. É tudo o que você precisa saber no momento. – diz Jabor sorrindo – Prepare-se, pois a viagem é extremamente perigosa e a missão não é das mais tranqüilas.

Um pequeno arrepio trespassa o corpo de Sol’al. Ele conhece histórias aterrorizantes a respeito das “regiões profundas do Underdark”, mas sua curiosidade é bem maior que qualquer temor que possa lhe atingir. Sol’al começa a sentir a excitação aumentar:

– O grupo será formado por membros de qual Casa Mestre?

– Apenas Casas Menores e mercenários, mas estamos a mando das Casas Mizzrym e Xorlarrin.

Sol’al sorri, um tanto nervoso.

– Da nossa Casa apenas eu estarei no grupo? – pergunta preocupado.

– Não. Eu também irei. Assim poderei lhe introduzir nas artes da Aracnomancia. – Jabor levanta de sua cadeira antes de encerrar a conversa – Você terá uma semana para se preparar.

Sol’al sorri e, com grande ansiedade, cumprimenta seu superior.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 2 (Parte 4)

“Não compreendo como os Driders podem ser considerados amaldiçoados se Lolth lhes dá tanto poder. Não seria sua existência uma forma de servir nossa deusa?”, reflete Sol’al enquanto observa um chitine que se encontra aprisionado em uma cela no pequeno palácio da Casa Teken’th’tlar. “Esses seres são tão patéticos e ainda assim são abençoados pela Rainha das Aranhas” seu olhar demonstra total desprezo pela criatura dentro da cela “Qual será o segredo que os Driders guardam? Não me parece que ao falharem no Chwidridera, Lolth os tenha virado as costas”.

Sol’al caminha até a porta para se retirar daquele recinto. Faz dois anos que ele deixou o Sorcere para retornar a sua Casa. Assim que chegou, não perdeu um segundo sequer e retomou seus estudos específicos a respeito de aranhas e seus “derivados”. O enigma dos Driders ainda atiçava sua curiosidade. “O que guia as ações de um Drider?”, “Até que ponto o ódio que eles sentem é superável?”, “Lolth ainda se comunica com eles?”, eram pensamentos constantes na mente do recém mago adulto da casa Teken’th’tlar. Pelo máximo que o tenham criado para odiar os Driders, vê-los como fracos e falhos, ou até mesmo como uma grande piada feita pela Rainha dos Fossos Demoníacos, Sol’al não conseguia ter nada além de fascinação por aqueles seres.

Desde seu encontro pessoal com um Drider, onde ele viu o olhar vidrado daquele ser, o fascínio apenas cresceu em sua mente. Saindo do recinto, Sol’al caminha até seu quarto onde se dirige imediatamente a sua escrivaninha para poder escrever todas suas reflexões em um de seus tomos. Aquele tomo no qual apenas anotações a respeito dos Driders são feitas. O tomo que se for encontrado poderá custar-lhe a vida por heresia.

O mago põe-se a escrever por horas a fio. Faz anotações a respeito de suas dúvidas, reflexões, estudos e veneração pelos amaldiçoados. Em sua mente seu fascínio conflita com sua educação drow e até mesmo isso é anotado. Para ele há algo errado, não que saiba exatamente o quê, mas há!

Ao terminar, Sol’al esconde seu precioso tomo e caminha para a biblioteca a fim de fazer mais estudos.

– O que temos aqui? O jovem erudito está caminhando pelos corredores ao invés de ficar trancafiado em seu quarto? – diz uma mulher drow que se veste com um manto que denuncia sua posição de feiticeira dentro da Casa e que está acompanhada por um mago macho bem conhecido por Sol’al como sendo um dos principais magos de sua Casa: Jabor.

– Estou apenas indo para a biblioteca, senhora. – responde Sol’al de cabeça baixa com tamanha humildade que faz o mago acompanhante da feiticeira virar o rosto de vergonha.

– Obrigado pela útil informação, criança. – diz a feiticeira com um claro tom de deboche – Apenas não se perca no meio do caminho. – conclui prosseguindo junto ao mago e disparando em gargalhadas.

– Obrigado, senhora. – Sol’al se curva mais uma vez em sua falsa, porém convincente, demonstração de humildade e respeito; afinal, ela não é uma Clériga de Lolth, mesmo sendo uma fêmea.

Após esse incidente, o jovem mago prossegue em direção a biblioteca. “É óbvio que há algo errado”, pensa ele com grande ódio pelo ocorrido, “Continue a lembrar do que lhe disse o Mestre Q’Xorlarrin, Sol’al. ‘Não demonstre demais suas capacidades, jovem. Isso acaba tornando suas fraquezas evidentes'”. Com isso surgem pensamentos a respeito de como demonstrar fraqueza pode ser uma defesa imensa a respeito de sua verdadeira força. Esses pensamentos fluem como um turbilhão até que o raciocínio o faz retomar o assunto de sempre: Driders.

“Talvez Lolth reconheça isso. Reconheça que o poder pode ser demonstrado de várias formas, ou pode ser mascarado para que ele surja no momento oportuno”, Sol’al chega à biblioteca e caminha em direção as prateleiras sobre criaturas-aranhas. “Os Driders podem ser uma grande arma nos esquemas da deusa”, pensa ele pegando livros a respeito de experiências com ettercaps, chitines e aranhas extraplanares. Ele precisa conhecer todos os possíveis derivados dos aracnídeos para compreender a natureza de um Drider, “E como um dia poderei me tornar um sem ter que decepcionar Lolth”, mas logo após esse pensamento ele balança a cabeça como se ainda considerasse aquilo uma heresia.

Sol’al abre o livro e inicia seus estudos. Reconhece várias semelhanças básicas entre a sociedade drow e a chitine, fruto do culto a mesma deusa e a terem usado a estrutura social drow como alicerce para a construção de sua própria sociedade. O jovem mago sabe que os chitines foram criados em experimentos mágicos e isso lhe agrada, porém, em sua opinião, foram experimentos que criaram uma raça fraca, débil e sem muito potencial. Ele precisa estudar uma mágica mais potente para criar os Driders como uma raça que se procriasse e desenvolvesse sociedades. Ou talvez apenas modificar os existentes, com permissão de Lolth, é claro.

– Sol’al, gostaria de falar com você. – o mago Jabor interrompe os estudos e as reflexões de Sol’al que o olha um tanto atordoado, como se estivesse voltando de outra realidade.

– Claro, Mestre. No que posso ser útil? – responde o jovem mago se curvando e falando com voz extremamente baixa, como se estivesse em um templo de Lolth falando com uma clériga.

– É exatamente sobre isso que quero falar. Não exagere no seu papel de humilde ignorante. – Sol’al levanta a cabeça para olhar diretamente no rosto de seu superior com uma feição perdida – Você sabe do que estou falando. Cuidado para não mostrar fraqueza além do necessário, isso pode colocá-lo em grandes problemas.

Sol’al continua olhando para Jabor sem nada responder, refletindo a respeito do que foi dito. Novamente ele se perde em pensamentos quando seu superior o trás de volta ao presente.

– O Mestre Xorlarrin me falou muito bem de seu desempenho no Sorcere e isso é excelente. Já tínhamos uma pequena relação com a Casa Xorlarrin, agora que ele demonstrou um certo interesse em relação a você, isso pode estreitar ainda mais as relações entre nossas Casas.

Jabor dá uma pausa enquanto Sol’al o observa.

– Demonstre apenas a humildade e fraquezas necessárias, pois você pode acabar tornando sua força muito evidente. Estarei de olho em você.

O mago se vira enquanto Sol’al apenas responde em seu tom de voz normal:

– Sim, Mestre.

A porta da biblioteca se fecha e Sol’al retoma seus estudos, refletindo ao mesmo tempo sobre tudo o que seu superior acabara de lhe falar.

Outcasts – Livro I: Párias – Capítulo 1 (Parte 3)

Ainda estupefato Sol’al tenta diminuir sua euforia através de práticas respiratórias para finalmente poder descansar. Nunca esse mago drow havia ficado tão maravilhado e contente quanto naquele dia. Há muito que o jovem Sol’al queria ver um drider livre pessoalmente.

Mesmo sendo de uma Casa menor, ele conseguiu ingressar em Sorcere e lá estava já há dois anos. Em todo esse tempo ele procurava em tomos e pergaminhos algo sobre esses amaldiçoados drows, que lhe trouxesse algum novo conhecimento ainda não possuído por sua Casa.

Toda a sociedade drow sempre ostracisou esses seres como aberrações e exemplos da incapacidade de alguns de servir sua própria deusa. Porém a maldição que Lolth impunha àqueles que não foram capazes de passar em seu misterioso teste, tinha um outro significado aos olhos do jovem mago: poder.

Muitos estudos mostravam que os driders se tornavam fisicamente mais fortes e muitas vezes mais hábeis no trato com magias do que os drows não “amaldiçoados”. Sua Casa, – a Casa Teken’th’tlar -, sempre estudou todas as espécies conhecidas de aracnídeos e de criaturas que possuíam algum parentesco com eles. Sua curiosidade por driders vem desde a infância, antes de ser aceito no Sorcere. Sabia como eles eram. Conhecia bem sua ecologia, sua forma de sobrevivência, sua fisiologia, suas forças e fraquezas, mas não era suficiente, ele queria mais. Até aquele dia, nunca havia visto um pessoalmente e isso, – ele acreditava -, poderia trazer muitas compreensões que livro algum traria.

Como um dos ajudantes e aprendizes do Mestre Orghz Q’Xorlarrin, Sol’al acompanhou-o em uma expedição para conseguir materiais raros e importantes ao uso de magias de Conjuração e principalmente para magia estudadas por Arachnomantes. O Mestre Q’Xorlarrin, desde o começo do aprendizado do jovem, se interessou por ele graças ao seu grande empenho em buscar conhecimento sobre os aracnídeos e tudo aquilo que se envolvia com esses seres, o que facilitou para que Sol’al conseguisse convencer seu Mestre para poder viajar junto.

No dia em que sua expedição começou, o jovem mago estava muito nervoso. Ele sabia que a área na qual os ingredientes dos feitiços se encontravam era possivelmente habitada por um drider. A viagem até o local também seria bastante perigosa, pois o caminho atravessava um grande enxame de mantos negros. Entre os viajantes havia apenas um guerreiro e vários aprendizes.

Ao entrar em Sorcere, Sol’al optou por aprender magias das escolas de Conjuração, Encantamento e Evocação, escolas que o ajudariam a lidar com aracnídeos especificamente e a se defender em casos de extrema necessidade. Seus pequenos conhecimentos nessas áreas somados ao seu conhecimento sobre driders acabaram por ajudar em seu argumento do porquê seria positivo para o Mestre deixá-lo ir junto.

A viagem, como previsto havia sido árdua. Sol’al mostrou sua eficiência e desejo de auxiliar o Mestre Q’Xorlarrin muitas vezes durante a expedição. Em um desses momentos que o experiente mago chamou o jovem de lado e aconselhou severamente:

– Não demonstre demais suas capacidades, jovem. Isso acaba tornando suas fraquezas evidentes demais.

Com certeza o jovem Teken’th’tlar aprendeu muito nesse período. Muito mais do que aprenderia apenas vendo um drider aprisionado em uma grade, pois quando eles chegaram na área habitada pelo drow amaldiçoado, não demorou muito para que um dos aprendizes menos experientes chamasse a atenção da aberração que atacou o grupo com velocidade e presteza imensas. Muitos morreram, antes que o Mestre Q’Xorlarrin conseguisse conter o drider, que paralizado nada podia fazer enquanto os drows saqueavam seus tesouros e colhiam os ingredientes necessários.

– Mestre Q’Xorlarrin, por que o senhor não mata esse monstro de uma vez? Não é perigoso mantê-lo paralisado apenas? – perguntou o único guerreiro que acompanhava a expedição.

O experiente mago não demonstrou sequer irritação pela audácia do guerreiro por questioná-lo e respondeu brevemente:

– Meu aprendiz tirará muito mais proveito desse monstro vivo. – e logo em seguida olhou para Sol’al, que de princípio ficou sem saber como agir, até que ao perceber o olhar do Mestre se tornando severo, se aproximou da aberração e começou a estudá-lo. – Ajude-o se ele precisar de algo, guerreiro. – finalizou o Mestre.

Sol’al estava muito tenso, mas vasculhou todas as partes do corpo do Drider. Observou a espessura de sua carapaça, a constituição da parte drow de seu corpo e por fim pediu para que o guerreiro abrisse o monstro para estudos internos. Mesmo isso tendo sido pedido na frente do drider esse nem mesmo demonstrou receio, seu olhar demonstrava apenas o mesmo ódio.

O retorno a Menzoberranzan foi bem mais calmo que a ida, o que não quer dizer muita coisa tendo em mente o que ocorreu na viagem. Porém ninguém mais morreu. Assim que Sol’al chegou em seu alojamento passou a escrever compulsivamente tudo o que havia aprendido.

Agora, respirando calmamente, Sol’al consegue acalmar sua euforia. Ele se posiciona em sua almofada ao chão e entra em Reverie. Suas anotações já estão feitas, e, agora que seu coração agitado se acalmou, só resta descansar.

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