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Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (parte 4)

            – Então vamos ver quem é a mais poderosa? – Sol’al escuta o que parece ser o final da discussão entre as duas clérigas, vindo em baixo drow da boca da Dyrr.

            Desde que a clériga Xorlarrin chamou a atenção de Alak, as duas clérigas estão discutindo firmemente. Sol’al, do início da discussão até o momento, está apenas observando o embate, sem tomar partido. “Vamos ver quem demonstra mais poder”, observa o mago enquanto reflete qual seria o melhor curso de ação a realizar. Com certeza em sua mente não se passa nenhuma idéia de entrar em confronto com qualquer clériga de Lolth, mas, mesmo assim, ele precisa ser capaz de escolher qual seria mais vantajosa de ter como aliada.

            – Nossa deusa está em silêncio, você sabe disso. – responde a clériga Xorlarrin, obviamente tentando contornar a situação.

            Sol’al sente uma ponta de decepção se misturar com o resto de ansiedade – que ele estava sentindo por ter passado pelo ninho abandonado – ao ver uma atitude medíocre de sua Senhora Xorlarrin.

            – E o que isso importa? Nossa deusa prega a busca por poder, não? Nosso objetivo não é cada vez ser mais poderosas? – inquire a clériga Dyrr, com um olhar ameaçador – Tamanha dependência de suas magias mostra apenas sua fraqueza.

            Sol’al se espanta com o imenso pragmatismo vindo da clériga e sente que seu coração concordou com cada palavra dela e, pelo que ele observa, a Xorlarrin também concordou. Vendo a Dyrr segurar sua maça com a mão direita, Sol’al percebe a Xorlarrin tremendo diante de uma oponente mais forte.

            Por mais que a aparência da Xorlarrin seja mais bela e sedutora, a Dyrr é mais ameaçadora e imponente. O semblante de liderança é facilmente perceptível nessa clériga.

            Sol’al observa a situação esperando uma reação da Xorlarrin, que não surge. Ele olha ao redor para tentar ver o que se passa no semblante de cada um que lá se encontra. Rizzen está apreensivo. “Ele sabe que se sua clériga desistir, será vergonhoso para sua Casa”, conclui mentalmente Sol’al. Alak já percebeu a superioridade da outra clériga e demonstra não estar ligando muito para o embate. O mercenário parece saber que não ocorrerá confronto físico, pois se tivesse alguma chance de ocorrer tal confronto, ele teria que estar preparado para proteger a Xorlarrin. “A não ser que ele quebre seu contrato de proteção. Ou que tenha sido a própria Dyrr que o tenha contratado”, reflete o mago.

            Os inferiores ele nem se preocupa em analisar, mas percebe que todos estão de olho no confronto, menos o goblin musculoso que está na boca do túnel, observando a caverna de onde vem o batuque dos tambores. “O que será que tem naquela caverna?”, se pergunta Sol’al quando sua atenção volta ao embate das servas de Lolth graças a uma forte risada da clériga Dyrr.

            – Patética. – comenta ela, balançando negativamente a cabeça.

            “Arrogante demais para uma líder de um culto herege”, se decepciona Sol’al.

            – Façam o que ela pedir. – diz a clériga Dyrr aos seus companheiros em subterrâneo comum.

            – Como? – o gnoll pergunta – Desculpe, Senhora, mas não entendi o porquê.

            Sol’al olha para a Dyrr, também estupefato.

            – Um confronto com eles seria inútil. Deixe que eles sigam essa tola. – responde ela em goblinóide para o gnoll.

            O mago compreende e resolve esperar para ver. Provavelmente a Xorlarrin irá querer algum tipo de punição para esse grupo e a morte da clériga. Ou talvez não, apenas a morte dos inferiores e a humilhação da herege. “Acho que nem mesmo a Casa Agrach Dyrr se importaria com isso”, comenta Sol’al mentalmente com um sorriso no rosto.

            – Mago, chame o ogro. – ordena a clériga a Sol’al, sem tirar o olho da Dyrr e ainda tremendo – Rápido!

            Sem entender, o mago Teken’Th’Tlar sai correndo em direção a abertura do túnel pelo qual entraram. No caminho, a ordem passa a fazer sentido. “Antes de tentar algo contra o grupo herege, ela parece querer se sentir mais segura. Afinal, o ogro também foi contratado para protegê-la”, raciocina Sol’al, se decepcionando ainda mais com a fraqueza da Xorlarrin. “Se Lolth estivesse ativa…”. Várias possibilidades passam pela mente de Sol’al, e nenhuma muito agradável para a clériga mais fraca.

            – Mercenário! Você está sendo convocado. – grita o mago para Brum, que logo começa a escalar.

            – Virou garoto de recados, maguinho? – pergunta Brum sarcasticamente.

            Ignorando o ogro e sem perder tempo, Sol’al parte de volta para ver se algo está ocorrendo. Ao chegar ele vê a mesma cena, como se nada tivesse mudado. Apenas o goblin musculoso se juntou à roda.

            – Então? O que você vai querer de nós? – pergunta a Dyrr, quebrando o que parecia ser um longo silêncio.

            – Larguem suas armas. – responde a Xorlarrin, ainda com as mãos fraquejando.

            “Até que sua voz está conseguindo esconder o medo e a raiva”, comenta consigo mesmo Sol’al.

            – Façam isso. – ordena a clériga Dyrr aos seus fiéis, com um sorriso no rosto.

            O goblin robusto olha com desconfiança para a clériga de seu culto, mas um olhar confidente por parte dela acaba fazendo com que ele coloque seus machados e sua zarabatana ao chão. A própria clériga Dyrr coloca sua morningstar e seu escudo junto aos machados do goblin e o gnoll deita sua halbert próximo ao monte. Ele espera que a kobold tire algo do seu robe, mas ela nada faz. O mago até pensa em pedir para que a Xorlarrin ordene que a pequena reptiliana jogue fora todos seus componentes mágicos – sim, é perceptível que ela é uma maga ou feiticeira -, mas prefere deixar o culto herege com uma pequena vantagem. Sua lealdade ainda não está tão clara em sua mente, afinal a Dyrr ainda é mais forte que a Xorlarrin, e mais confiante também.

            De trás, o mago escuta os passos ruidosos de Brum. Antes mesmo que esse chegue junto ao grupo a Xorlarrin grita em subterrâneo comum:

            – Ogro, pegue essas armas e cuide delas!

            Sol’al sente a surpresa abrir involuntariamente sua boca. Além de a clériga ter falado diretamente com o inferior, ela ainda utilizou uma língua baixa. “Ela não está com medo, ela está desesperada”, pensa Sol’al. O próprio Brum é pego de surpresa com a ordem e perde alguns segundos raciocinando se o que ele escutou é real.

            Logo que a surpresa passa, Brum vai até o monte de armas e as coloca no grande escudo utilizado pela Dyrr, como em uma bandeja. Porém, ao tentar levantar o escudo, Brum nem mesmo consegue movê-lo, como se tivesse grudado no chão. Sol’al vê a cena e percebe instantaneamente que o escudo é mágico e que a clériga Dyrr já esperava por uma cena semelhante.

            Sem perder tempo, o mago conjura uma magia para detectar objetos mágicos e percebe que não só o escudo o é, mas também os dois machados do goblin e a morningstar da clériga, além da armadura que ela está usando e alguns outros itens que estão em posse dos hereges e dos Xorlarrin. Por curiosidade, Sol’al olha para os mercenários também e reconhece a aura mágica apenas nas espadas de Alak, pois Brum não tem nada mágico com ele.

            “As espadas de Alak… Parecem…”, algo nelas atiça a curiosidade do mago enquanto a conversa ao seu redor prossegue.

            – Deixe o escudo no chão. Pegue as armas. – ordena a Xorlarrin ainda em subterrâneo comum.

            A nova ordem da clériga dispersa a atenção que Sol’al estava colocando sobre a espada de Alak, que ao perceber os olhos do mago em sua direção, escondeu melhor suas duas amigas.

            – Sim, Senhora. – responde Brum, pegando todas as armas no colo e deixando o escudo no chão.

            – Ogro! Qual é seu nome? – pergunta a clériga Dyrr a Brum, fazendo com que Sol’al se espante com a delicadeza da pergunta.

            – Brum. – responde Brum, também espantado.

            – Não fale com ela! – grita a Xorlarrin.

            – Não precisa responder para mim, Brum. Só tenha cuidado com a minha morningstar, pois ela pode te machucar se tocá-la diretamente. – avisa a clériga.

            O olhar da Xorlarrin se enche de ódio pela falta de respeito da Dyrr.

            – Mercenário, cuide deles. – ordena a Xorlarrin a Alak, voltando a conversar em baixo-drow – Diga ao inferior para se afastar da inferior.

            – Sim, Senhora. – responde Alak, enquanto a sua protegida se afasta para a boca do túnel junto com Rizzen. Sol’al os acompanha.

            – Avise-os para não chegar tão próximo da beirada, pois eles podem ser vistos. – Sol’al escuta a Dyrr falar com Alak.

            – Senhora…

            – Não repita o que ela disse. – a Xorlarrin ameaça o mercenário, mas mesmo assim mantém uma certa distância da beirada da boca do túnel.

            Rizzen e ela já estão observando o acampamento quando Sol’al se junta a eles. Ele olha para a grande caverna e vê vários acampamentos. Vários orcs tocando tambores em homenagem a algo. Um draegloth parecendo estar comandando os inferiores. Achando estranho a presença de um draegloth naquele local, o mago se concentra nele e tenta encontrar alguma insígnia ou sinal que denuncie sua Casa. Sol’al não se surpreende quando vê a insígnia dos Xorlarrin segurando a tanga de pele que o meio-abissal usa.

            Com um sorriso de satisfação por ter descoberto parcialmente o que está ocorrendo, Sol’al começa a observar os outros acampamentos. Ele vê orogs, humanos, hobgoblins, goblins, vários de raças inferiores, escravos e livres. O símbolo no centro do acampamento desperta em muito a curiosidade do mago a respeito do que eles estão fazendo naquela caverna, mas quando ele está prestes a se concentrar para decorar os símbolos que estão sendo utilizados, o canto de seu olho prega uma peça.

            “Um drider?”, se pergunta ao ver um vulto passando no acampamento ao lado direito do símbolo. Ele vira-se para ver se é o tal drider aranha espectral que se encontra lá, mas logo ao se virar um estranhamento toma conta de sua mente. Ele vê vários drows tatuados com algo que parecem runas de cor branca, utilizando armaduras que se assemelham a exoesqueletos. Para seu maior assombro, seus olhos se deparam com o drider do qual ele havia visto o vulto. Não é o drider aranha espectral, mas sim um amálgama de drow e escorpião.

            “Por Lolth! O que será isso?”, se pergunta Sol’al, boquiaberto.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 3)

            Uma leve e quase inaudível batida ritmada é o único som que a clériga Sabal Dyrr está escutando naquele momento. Com todo o silêncio que tomou conta do ambiente, ela até se pergunta se aquela batida é de seu coração.

            Sabal, Mirka e Gromsh – junto aos dois espiões que os seguem – esperam o retorno de Stongest, que adentrou o ninho de um drider, aparentemente abandonado. Já faz algum tempo que Stongest está dentro da pequena caverna, mas sabendo que o meio-goblin-meio-algo é minucioso em seus trabalhos, Sabal não se preocupa em nenhum momento com isso. “Além do mais, provavelmente se houvesse algum drider nesse refúgio, ele já saberia que nós estamos aqui”, pensa a ex-Dyrr. Porém, a clériga se sente apreensiva em saber mais sobre o tal “filho de Lolth”, que nasceu como um drider. A história é bizarra demais para que ela consiga realmente acreditar; mas em nenhum momento ela deixa transparecer sua dúvida.

            – Ele não está mais aqui. – diz Stongest, retornando ao grupo.

            – Então é seguro continuarmos? – pergunta Sabal ao meio-goblin.

            Stongest responde positivamente com um aceno de cabeça. Sabal dá ordens simples com gestos de mão. Gromsh e Stongest vão à frente. Ambos já sabem que há algo ocorrendo no final do túnel adiante, pois as batidas, para eles, são claramente batuques de tambores. Mirka vai logo em seguida, já preparando feitiços de invisibilidade em sua mente, e relembrando uma ou outra magia de proteção contra qualquer possível ataque de seus acompanhantes. Sabal é á última, preferindo ficar mais próxima dos dois espiões.

            Eles caminham pela caverna cheia de teias, e o som dos batuques fica cada vez mais alto e distinguível. Algo está sendo realizado mais a diante. Um ou outro grito é escutado entre os batuques. “Gritos de louvor”, é o que parece a Sabal.

            Quanto mais eles caminham, mais altos ficam os sons. Quanto mais próximos eles chegam da boca do túnel, mais é perceptível que há algum tipo de acampamento ou cidadela na caverna adiante. Gromsh demonstra um grande espanto ao chegar furtivamente na boca do túnel, dizendo alguma frase em seu dialeto natal, não reconhecível por seus companheiros. Stongest logo se aproxima.

            – Encont’amos os o’cs. – diz ele quase sussurrando, fazendo com que Sabal tenha que aguçar seus ouvidos para escutá-lo direito.

            Sabal caminha vagarosamente para perto dos dois guerreiros, mas logo para quando Stongest faz um sinal para ela esperar.

            – Tentem não se ap’oxima’ tanto, há to’es de vigias p’óximas. Temos que toma’ cuidado pa’a não se’mos vistos.

            A ex-Dyrr continua ainda vagarosa, apenas para ter uma vista geral do que está ocorrendo. Ela consegue ver uma caverna gigantesca, na qual caberia, sem grandes problemas, uma pequena cidade drow. Vários acampamentos tomam conta do chão da caverna, e vários escravos – pelo que parece – trabalham na lapidação de algumas pedras preciosas do tamanho de cabeças de humanóides médios e as carregam para ornar um imenso símbolo – aparentemente arcano – que se encontra no centro do local. Próximo ao símbolo, uma grande criatura chama a atenção de Sabal.

            – Um Draegloth. – pensa ela em voz alta, mas sussurrando e vendo a criatura dar ordens a alguns orcs e hobgoblins que se encontram enfileirados. Observando mais atentamente o meio-abissal, percebe a insígnia de uma Casa. Ela respira fundo e tenta focar mais sua visão, para que possa ver sem ter que se aproximar mais da boca do túnel. “Xorlarrin”, suas suspeitas começam a fazer sentido agora. Provavelmente os Xorlarrin perderam o controle do meio-abissal, que acabou liderando a fuga dos orcs. “Para qual propósito?”, se pergunta Sabal.

            Sabal dá três passos para trás, considerando essa uma boa oportunidade para conversar com o tal Alak abertamente.

            – Me parece que suas respostas estão aqui, Alak. – diz Sabal em subterrâneo comum com o tom de voz habitual, não muito alto, mas audível o suficiente para ser bem compreendido.

            Ninguém responde de imediato, mas Sabal prefere esperar um pouco antes de tentar um novo convite. Sem muita demora, uma voz masculina surge há alguns metros atrás da clériga:

            – O que vocês encontraram?

            Não há nenhum constrangimento ou falsidade na voz do mercenário. “Pelo que parece, ele não está ligando para o que seu companheiro está pensando”, pensa Sabal.

            – O acampamento orc. – responde a clériga, sorrindo e olhando na direção de onde o eremita surge.

            Sabal se surpreende ao ver Alak. Ela não esperava que o drow que estava seguindo seu grupo fosse tão alto e não usasse uma piwafwi.

            – Rizzen, pode aparecer. Nós sabemos que você está aqui. – diz o eremita antes de prosseguir com a conversa – Poderia me aproximar, Senhora?

            – Claro. – responde Sabal fazendo um gesto amigável para que Alak vá até Gromsh e Stongest.

            – Se cê só tava esperando um acampamento orc, cuidado para não cair pra trás. – Sabal escuta Gromsh falando com Alak, enquanto ela observa o túnel esperando que o tal Rizzen se mostre, o que não demora muito.

            – O que vocês fazem aqui? – pergunta o guerreiro Xorlarrin a Sabal.

            – Um tanto mal educado você, não? – responde a clériga – Na sua Casa não ensinam os machos a serem mais respeitosos com as clérigas de Lolth?

            Rizzen deixa seu sorriso habitual tomar o rosto e responde cinicamente:

            – Desculpe, minha Senhora. Agora você poderia me dizer o que fazem por esses túneis?

            Sabal ri com a atitude de Rizzen.

            – Claro. Estamos em busca do filho de Lolth e vocês? – o tom de Sabal continua amigável.

            – Vaherun?

            Sabal ri ainda mais.

            – Que tal você responder antes?

            – Estamos atrás dos orcs desse acampamento. Não é óbvio? – Rizzen responde com arrogância, sem receio de punição.

            – É. Pelo que parece os Xorlarrin não ensinam bons modos a seus machos. – responde Sabal, deixando o sorriso de seu rosto se desfazer e fixando um olhar gelado no guerreiro – Ponha-se em seu lugar.

            A clériga segura firmemente o cabo de sua morningstar e começa a se aproximar do Xorlarrin.

            – Me desculpe, Senhora Dyrr. – diz ele ao ver o emblema da Casa de Sabal em seu escudo – Não irei repetir tal erro.

            Sabal tenta se controlar, mas não consegue segurar o riso.

            – Terminemos a conversa por aqui, pois desse jeito acabarei chamando a atenção de seu parente peludo ao explodir sua cabeça com minha arma. – diz ela ainda rindo e virando suas costas para o guerreiro Xorlarrin, sem ver a expressão de desgosto que toma conta de seu rosto.

            Ela sabe que Rizzen teria uma grande vantagem em atacá-la nesse momento, mas também sabe que ele não o faria por dois motivos: o primeiro porque ele está desconcertado demais para pensar em fazer algo, o segundo porque ele está em uma tremenda desvantagem numérica para agir tão estupidamente.

            Sabal vê na boca do túnel: Gromsh, Stongest e Alak. O mercenário e o guardião parecem estar analisando tudo e todos que estão no acampamento, enquanto o gnoll parece estar apenas de vigília.

            – Gostou da resposta, Alak? – pergunta a clériga sorrindo ao mercenário.

            Sem se virar ele responde:

            – Interessante…

            – Então encontrou seus “amigos”, herege? – Sabal, Alak e Gromsh viram-se simultaneamente ao ouvirem a voz da clériga Xorlarrin. Mirka já estava vigiando a retaguarda e por isso não se surpreendeu com a chegada.

            – Parece que alguém resolveu dar as caras, ao invés de apenas mandar espiões. – Sabal desafia a Xorlarrin não só com palavras, mas com um olhar penetrante.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 2)

            O túnel possui alguns poucos vestígios da passagem de aranhas grandes o suficiente para devorarem um drow sem problemas. Não que isso surpreenda de alguma forma Sol’al e a clériga Xorlarrin que o acompanha, afinal, quem estaria mais acostumado com esses aracnídeos que um estudioso que se encaminha para se tornar um aracnomante e uma clériga de Lolth, a Rainha das Aranhas? Porém, os vestígios são antigos. “Ao que parece, os aracnídeos ou o aracnídeo deixou esse lugar faz um tempo”, conclui Sol’al, olhando para algumas poucas teias que se encontram no chão do túnel e evitando, tal como a clériga, tocá-las.

            Ao dividir o grupo, a clériga Xorlarrin decidiu que o mercenário Alak fosse seguir o grupo herege e o ogro mago ficasse na imensa caverna até ser chamado, enquanto ela, Rizzen e Sol’al iam pelo outro túnel; no qual Sol’al e a Xorlarrin se encontram no momento. Quando Alak já não se encontrava mais na presença deles, ela ordenou que o assassino Xorlarrin o seguisse. Portanto, Sol’al e a clériga estão sozinhos, algo que o mago Teken’Th’Tlar considerou um tanto esperado, considerando uma das últimas conversas que ele teve com ela. Apenas não sabe ainda se a situação é preocupante ou não.

            – Sei que você está conosco por causa de Mestre Orghz Q’Xorlarrin, que pediu auxílio a sua Casa. – Sol’al se surpreende ao escutar a Xorlarrin falar abertamente sobre a situação, mesmo que o tom de voz dela seja um tanto ácido.

            O mago para de analisar as teias e olha para os pés da clériga, como habitualmente.

            – Sim, senhora. – concorda brevemente, imaginando se esse será o momento em que ele descobrirá as verdadeiras intenções da Casa Maior.

            – Não imaginei que você viesse a ser útil. Acreditava que seria apenas um empecilho, mas os últimos fatos têm me provado o contrário. – a clériga continua, virando as costas para ele, e volta a caminhar pelo túnel.

            Sol’al reinicia sua caminhada sempre atrás dela.

            – Entretanto, gostaria que você realizasse um serviço para mim. De forma alguma confio nos dois mercenários e tenho meus motivos para isso. – Sol’al lembra da carta enquanto a Xorlarrin prossegue seu discurso – O que você seria capaz de fazer para eliminar o ogro mago?

            A clériga para e vira-se em direção ao mago. Esse prossegue olhando para os pés da clériga, em sinal respeito.

            Na mente de Sol’al passam-se vários feitiços, porém cada vez que um surge, ele relembra da relação Brum e armadilhas. Por um tempo ele fica em silêncio, imaginando o que poderia ser feito, mas nenhuma idéia surge em sua mente: o ogro mago é extremamente resistente.

            – Senhora, eu não saberia como pará-lo. Acredito que seja mais fácil parar Alak, e vocês darem cabo no ogro. – diz ele com tristeza em sua voz, por não ser capaz de satisfazer uma clériga de Lolth.

            Sol’al escuta a respiração da Xorlarrin se alterar. “Ela se decepcionou”, pensa ele. Definitivamente a respiração dela demonstra que a raiva está surgindo, mas sendo contida.

            – Imaginei. – diz rispidamente.

            Sol’al tenta pensar em alguma forma de contornar a situação. Ele começa a observar o túnel, “Talvez alguma descoberta que auxilie a busca dos Xorlarrin possa fazer com que eu não perca a confiança dela”. Porém, fora as teias velhas, nada mais parece chamar a atenção naquele túnel.

            – Talvez conseguíssemos colocar os dois mercenários em confronto com o outro grupo. Digo, o grupo de hereges. – diz o mago Teken’Th’Tlar, enquanto continua a analisar o túnel.

            A Xorlarrin vira suas costas novamente para o mago e continua sua caminhada enquanto responde:

            – Estúpido. Não daria certo.

            Sol’al não compreende o comentário da clériga e muito o menos o porquê ela descartou tão rapidamente sua idéia, mesmo considerando que ela realmente não tenha sido das melhores. O mago coloca a culpa na raiva do momento e ignora o comentário, pois entre aquelas teias ele começa a reconhecer um padrão. Percebendo que todas se assemelhavam a alarmes, Sol’al começa a entender algo do que se passou naquele túnel. Ele observa atentamente as teias de perto e vê que seu tecido e a forma com que foi trançada pelas fiandeiras da aranha, se assemelha a teia de uma aranha espectral. Uma espécie de aranha que possui um corpo marrom avermelhado e translúcido – motivo pelo qual recebe esse nome – , e é capaz de injetar em sua vítima um veneno que dissolve os orgãos internos do alvo, tornando-o um saco de comida apetitoso. Sol’al traz todas essas características em sua mente e prossegue a análise: suas teias costumam ser caóticas, como o da maioria das aranhas venenosas. Uma única aranha espectral seria capaz de matar um humanóide médio – se picasse no local certo, pois o veneno não atinge uma área tão imensa. O efeito externo é semelhante o da picada da aranha marrom: a região envenenada necrosa, porém a área afetada é bem maior no caso da aranha espectral. O mago sorri, pois é estranho ver vestígios de aranhas espectrais nesse nível do Underdark, já que elas são encontradas apenas no Lowerdark.

            Enquanto analisa as teias, a clériga para e olha em direção ao mago, apenas para ver o sorriso bobo do estudioso tornar-se uma boca engruvinhada de medo e a pele do drow tornar-se pálida.

            – Mago? – a clériga pergunta, um tanto apreensiva.

            Sol’al olha nos olhos da clériga, esquecendo completamente a etiqueta. Não haveria nenhum problema se aquilo fosse a teia de uma aranha espectral, mas aranhas espectrais possuem um tamanho máximo equivalente ao polegar de um drow. Nunca uma ou várias aranhas espectrais seriam capazes de tecer uma teia daquela espessura.

            – Senhora, estamos próximos do ninho de um drider. – sussurra Sol’al.

            A Xorlarrin observa ao seu redor se preparando com sua maça, esperando por qualquer coisa que possa ocorrer, até que ela relembra:

            – Essas teias estão aqui faz tempo, mago. Provavelmente não há mais nenhum drider aqui.

            – Ou talvez essa seja sua forma de agir… – complementa Sol’al, sentindo toda palpitação de ansiedade pela possibilidade de ver mais um drider.

            Todo seu medo de um drider que possua o corpo de uma aranha espectral foi substituído por uma grande excitação. “Um drider aranha espectral! Que arma perfeita! Que espécime magnífico deve ser”. Sua mente flutua entre pensamentos diversos sobre o mesmo tema. Tanto que ele até se esqueceu que estava conversando com a clériga Xorlarrin.

            – Mago? “Sua forma de agir…”? – pergunta a clériga, começando a se irritar novamente.

            – Er… Desculpe, Senhora. – responde rapidamente Sol’al, retomando o foco – Ele pode estar fingindo que abandonou seu território, para que criaturas que consigam encontrar seus vestígios não acreditem que ele se encontra no local até o momento oportuno para atacar sua vítima. Driders não são seres que atacam frente a frente. Eles preparam um ambiente propício para um ataque furtivo, matando a vítima, na maioria das vezes, antes que essa possa ter chances de reagir. Para criar esse ambiente, eles costumam desenvolver minuciosas estratégias que permitam distrair seus oponentes. Na maioria das vezes, um refúgio de um drider possui alarmes mágicos e físicos, além de armadilhas e algumas espécies de guardiões e/ou vigias.

            O mago para e olha o espaço como se ponderasse:

            – Provavelmente, se o drider ainda se encontra nesse seu ninho, ele possui a intenção de nos fazer acreditar que esse local está vazio, para que abaixemos nossa guarda e nos distraiamos ao nos considerarmos seguros.

            – Mago. – diz a clériga estupefata, chamando a atenção de Sol’al – Se houvesse um drider aqui, ele já haveria nos matado enquanto você discursava.

            Sol’al se sente estúpido por ter deixado sua excitação tomar conta na frente da Xorlarrin, mas logo retoma como se não houvesse dito nada anteriormente.

            – Precisamos checar se não há nada morando nesse ninho, Senhora. – sugere, de cabeça baixa, o mago Teken’Th’Tlar.

            – Faça isso. – concorda a clériga, sem irritação nenhuma na voz.

            “Pelo menos meu discurso serviu para acalmá-la”, se justifica Sol’al mentalmente. Sem que a Xorlarrin perceba, Sol’al tira um pequeno lagarto de dentro de sua piwafwi, que é usada como um manto.

            – Vá e descubra se há alguma criatura nesse ninho. Tome cuidado. – sussurra o mago Teken’Th’Tlar ao seu diminuto familiar e o deixa caminhar rapidamente pelo chão.

            Sol’al senta-se em posição de meditação e finge estar entrando em algum tipo de transe. A clériga Xorlarrin continua procurando algum vestígio de driders, preparada para qualquer eventualidade. Sol’al sente que seu familiar está calmo e, mesmo após algum tempo de procura, em nenhum momento sentiu medo ou qualquer outra emoção preocupante. Aliviado Sol’al se levanta e dirige-se à clériga:

            – Está vazio. Nada ameaçador, minha Senhora.

            – Ótimo. – responde a clériga – Então vamos parar de perder tempo.

            – Sim, Senhora. – reponde o mago caminhando ao lado da clériga, enquanto seu familiar retorna para baixo de sua piwafwi subindo por sua perna. “Grato, meu servo”, agradece Sol’al.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 12 (Parte 1)

            A boca do túnel possui alguns poucos vestígios de teias proporcionais às feitas por grandes aranhas. Olhando rapidamente, Sabal não reconhece de pronto qual tipo de aranha teceu aquelas teias, mas sabe que já faz um tempo considerável pela quantidade de poeira e danos. “Aparentemente não é nenhuma armadilha”, pensa a clériga ainda analisando o local.

            Foi bastante trabalhoso para o grupo de Sabal alcançar o túnel no qual se encontram. Stongest teve que auxiliá-la e a Mirka, pois a distância era considerável, além de o trajeto ser perigoso. Esse foi um dos túneis em que não havia orcs, mas logo ao lado desse – a uns cinco metros de distância – são visíveis os corpos de dois orcs queimados. A distância de onde se encontram e do túnel ao qual se encontravam é de aproximadamente vinte metros, supoz Sabal no momento em que partiram para a escalada. Além do fator distância, havia também o fator altura, que dificultou muito. Os túneis da imensa caverna não eram simétricos, suas alturas eram variadas e para alcançar esse túnel eles tiveram que descer ao mesmo tempo em que se deslocavam de lado pela parede. Por mais difícil que tenha sido, todos eles – Mirka, Gromsh, Stongest e a própria Sabal com sua armadura completa – alcançaram o local desejado.

            “Se forem teias do filho da Do’Urden, seria interessante que descobríssemos qual tipo de aranha forma seu corpo”, reflete Sabal, enquanto observa o interior da caverna. As teias diminuem em quantidade, mas um ou outro vestígio é encontrado. Stongest está um pouco mais a frente, tentando encontrar marcas de alguma criatura que possa estar vivendo ou tenha passado por aquele túnel. Mirka está próxima a Sabal, apenas observando as paredes em busca de runas ou palavras de poder. Já Gromsh, está mais próximo da boca do túnel vigiando qualquer movimentação na imensa caverna.

            – Pelo que pa’ece os o’cs passam po’ aqui com uma ce’ta f’eqüência. – diz Stongest, quebrando o silêncio – Não sou um expe’t em p’ocu’a’ ‘ast’os, mesmo assim consegui encont’a’ alguns.

            Stongest aponta para algumas marcas que estão no chão próximo a eles. Sabal para de observar as teias e se aproxima do meio’goblin.

            – Talvez po’ isso, não há nenhuma a’madilha física po’ aqui. – comenta o pequeno robusto.

            – Então creio que precisamos acelerar nossos passos, ficarmos mais atentos e preparados para nos escondermos a qualquer momento. – diz Sabal, observando atentamente as marcas que, como seu próprio companheiro lhe disse, estão bem óbvias – Talvez estejamos próximos de algum acampamento dos orcs fugitivos de Menzoberranzan.

            – Além disso, há o out’o g’upo. Eles sabem que estamos p’oximos. Como te disse, conve’sei com eles um pouco antes de pa’timos de nosso túnel. – diz Stongest, chamando Gromsh e Mirka com um breve grunhido.

            Um pouco antes de Mirka acordar e após a breve conversa que Stongest teve com Sabal, a clériga sabia que o meio-goblin-meio-algo havia feito uma breve visita ao outro grupo e conversado com um tal de Alak; o mesmo que já os tinha bisbilhotado. Segundo pareceu, os Xorlarrin a princípio estavam atrás do “culto herege de Lolth”, mas haviam “alterado seus planos”. Stongest disse que o tal Alak não pareceu ser de uma Casa nobre e sim tinha um quê de mercenário, o que já era um ponto positivo para Sabal. Além disso, entre eles havia um ogro mago, que como eles já supunham antes, poderia ser um escravo ou um mercenário. Em qualquer uma das opções, era uma vantagem que Sabal poderia aproveitar. Portanto, Sabal não está tão preocupada com o outro grupo como Stongest aparenta estar, pois para ela os orcs são uma preocupação mais imediata.

            – De qualquer forma temos que partir. Mirka, o túnel está seguro magicamente? – pergunta Sabal para a pequena kobold, que já está ao seu lado.

            – Não encontrei nenhuma runa ou inscrição, Senhora. Creio que o local esteja seguro. – responde a kobold confiante, porém Sabal percebe um leve ar de preocupação em seu olhar.

            – Algum problema, Mirka? – pergunta a clériga brandamente, enquanto Stongest e Gromsh começam a caminhar pelo túnel.

            Mirka fica em silêncio por um tempo olhando para o rosto da clériga, que faz sinal para que as duas comecem a caminhar.

            – Suspeitas, minha Senhora. – responde timidamente a kobold, enquanto caminha voltando seu olhar para o chão.

            – Que tipo de suspeitas?

            – Estou com uma sensação estranha. Preocupada com que tipo de criatura possa ter feito esses túneis. – responde Mirka, demonstrando receio em sua voz.

            – Alguma opinião a respeito, Mirka? – Sabal não esconde em nenhum momento sua curiosidade, pois sabe que Mirka deve ser levada a sério.

            – Pode ter sido aquilo que está no lago. Aquela sombra que vimos quando estávamos escalando para esse túnel. – responde Mirka, ponderando sobre suas palavras – Você percebeu como aquela caverna se assemelha a um ovo colossal?

            Sabal levanta uma de suas sobrancelhas e encara Mirka, que está com feições preocupadas. A kobold troca olhares com sua clériga enquanto caminham.

            Caminhando em silêncio, ambas refletem sobre aquilo. “Um ovo”, pensa Sabal. Gromsh prossegue na frente e Stongest diminui seus passos para ficar um pouco mais próximo das duas mulheres do grupo.

            “Conversem nessa linguagem, acho que estamos sendo espionados novamente”, diz o guardião na língua de grunhidos própria do culto.

            Nem Sabal nem Mirka fazem menção dele ter falado com elas e nem mesmo demonstram curiosidade em ver quem está seguindo-os. Mirka olha novamente para Sabal por uns instantes e volta a encarar a frente do caminho.

            “Um ovo colossal. Com uma gema e um imenso ‘filhote de dragão’ descansando em seu centro”, descreve Mirka toda sua impressão sobre o local. Sabal visualiza a caverna e realmente enxerga o mesmo ovo que Mirka descreveu e depois grunhe confirmando a suspeita da kobold. Sabal sente o desejo de prosseguir com a conversa, mas um novo aviso de Stongest sobre um espião a faz adiar a concretização de sua vontade.

            “Alak está aqui”, o rosnado do guardião é extremamente discreto, como um leve ronronar. Se eles não estivessem tão distantes da boca do túnel como estão, talvez a clériga não tivesse ouvido.

            Sabal discretamente respira fundo e pergunta levemente:

            – Então veio se juntar a nós?

            Nenhuma resposta é dada. Sabal sorri e, com o auxílio de um breve ronronar de Stontgest, dizendo onde o drow se encontra, ela mira um breve olhar no local e volta a dirigir sua atenção à sua frente.

            – Não seja tímido, Alak. Como Stongest já lhe disse: nós íamos nos encontrar novamente. – comenta Sabal, tranqüilamente.

            Uma voz sussurrante é escutada vindo de pelo menos quatro metros atrás deles.

            – Você sabe que não vim me juntar a vocês. – responde Alak, tentando não demonstrar frustração em sua voz por ter sido encontrado.

            – Sei, mas espero também que não tenha vindo tentar nos matar. – diz Sabal, mantendo tranqüilidade na voz.

            – Não, mesmo que me mandassem para isso.

            Um pequeno silêncio toma conta do local até Sabal retomar a conversa:

            – Por que está nos seguindo, então?

            – Porque foi isso que minha contratante me pediu. Tudo isso está muito confuso. Minha única curiosidade é saber o que está acontecendo nesse local. – responde Alak, surpreso consigo mesmo por estar tão falante na presença da clériga.

            Em nenhum momento o grupo para de se locomover. Sabal apenas sorri e olha discretamente mais uma vez na direção do mercenário.

            – Algo que os Xorlarrin temem. – blefa Sabal, tendo em mente apenas o que sabe a respeito das fugas dos orcs.

            – Mas o que seria? – pergunta Alak, mantendo o mesmo tom de voz desde o início da conversa.

            Sabal faz menção de iniciar a resposta, mas logo Stongest a interrompe com breves grunhidos avisando que mais um está seguindo o grupo. Outro drow. Sabal volta sua atenção para frente novamente apenas dizendo suavemente:

            – Acho que não confiam tanto em você. Parece que você tem companhia.

            Alak não responde, apenas olha para trás tentando encontrar alguém, mas não encontra nada. Suspeitando que seja o Xorlarrin, prefere ficar em silêncio, fingindo ainda não ter sido descoberto.

            A ex-clériga Dyrr continua tranqüila em seu caminho, pois sabe que o guardião dificilmente é pego de surpresa. Gromsh para mais a frente e, sabendo que estão sendo seguidos – por ter escutado os avisos de Stongest e parte da conversa de Sabal -, fala como se nada estivesse acontecendo, para não levantar suspeita sobre o conhecimento do grupo a respeito dos espiões.

            – Chegamo num ponto delicado, Senhora. – diz o gnoll, olhando na direção da clériga, que aperta um pouco o passo para ver sobre o que seu companheiro está falando.

            Chegando perto do gnoll, a clériga se depara com a boca de um túnel que acaba em uma pequena caverna, após um degrau causado por uma leve depressão. No chão dessa pequena caverna há um tapete de teia, enquanto no teto há alguns casúlos pendurados e nas paredes duas bocas de túneis: uma adiante e uma ao lado direito da caverna.

            – É. Acho que encontramos o ninho do filho de Lolth. – comenta a clériga.

            Stongest e Mirka se aproximam. Ambos começam a analisar o local, enquanto Sabal apenas observa e reflete. Gromsh aguça seus ouvidos, como se tivesse escutado algum som estranho.

            E quanto a Alak… Esse apenas se espanta e se pergunta: “Filho de Lolth?”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 4)

            Fora um tanto difícil e demorado para o eremita Alak conseguir encontrar um local razoavelmente seguro para que seu grupo pudesse descansar. A maior parte daquele lugar foi criado artificialmente por algum povo ou criaturas. A maioria de seus túneis parecem ter sido cavados, alterados magicamente e até mesmo derretidos por alguma espécie de ácido poderoso ou outro tipo de componente que fosse capaz de derreter rocha. Até mesmo a cachoeira que cai em um lago é totalmente artificial aos olhos do eremita, “Provavelmente há túneis e lençóis subterrâneos que permitem a água se deslocar sem que transborde o lago”, refletiu por um momento Alak enquanto observava a imensa caverna.

            O eremita observa os membros de seu grupo descansando enquanto olha para a boca do túnel, tentando encontrar a caverna onde podem estar os escravos seguidores de Lolth. Seu tempo de vigília está acabando, logo ele despertará Rizzen de seu Reviere e descansará em seu lugar. Alak sempre sorri pelo fato de ter descoberto o nome do guerreiro Xorlarrin, afinal, o anonimato não é mais uma das vantagens do assassino.

            Mesmo que o túnel no qual eles estejam descansando não seja realmente seguro, Alak não se sente preocupado. Segurança não é um sentimento comum para os drows e, além do mais, os drows, como os outros elfos, não precisam descansar tanto quanto os humanos, gnolls, kobolds, orcs entre outras raças inferiores. Na verdade é necessário ficar em Reviere metade do tempo que essas outras raças passam dormindo para que os drows estejam já prontos para prosseguir suas viagens e seus afazeres.

            Alak dá mais uma olhada para fora do túnel e não vê nada de estranho ou inquietante. A criatura do lago continua hibernando ou talvez tenha ido embora por algum dos túneis ainda mais subterrâneos. E quanto aos orcs, nenhum sinal de mais atiradores ou coisas do gênero. “Talvez estejam preparando uma emboscada”, pensa Alak levantando-se de sua posição para se aproximar de Rizzen.

            Com um toque leve em seu ombro, Alak desperta o guerreiro Xorlarrin, que não demonstra nenhum espanto. “Sono leve”, conclui Alak.

            – Seu turno. – diz o eremita ao Xorlarrin.

            Rizzen levanta-se de sua posição e se aproxima mais da boca do túnel. Alak prefere ficar um pouco distante do grupo e mais próximo do assassino, para evitar qualquer possível tentativa de ataque durante o sono de Brum que, mesmo com seus roncos e seu sono pesado, assim que é acordado não demora nenhum momento para se preparar para qualquer conflito.

            Alak começa a se acomodar em uma posição para entrar em seu estado meditativo enquanto Rizzen faz uma observação geral da caverna fora do túnel.

            – Acha mesmo que eu seria tolo de tentar matar seu “amigo” com algum ataque furtivo ou envenenamento? – pergunta Rizzen sem se virar em direção a Alak, que o encara por um tempo antes de responder.

            – Tendo em conta quem é sua Senhora, acho até provável que tente alguma estupidez sim. – responde o eremita, sem demonstrar nenhuma surpresa pela pergunta do guerreiro.

            O sorriso habitual do Xorlarrin toma conta de seu rosto quando esse se vira para olhar nos olhos de Alak, passando a mesma sensação de ironia e astúcia que sempre passara.

            – Mesmo assim reconheço as capacidades de seu colega e sei ainda mais o quanto ele é resistente, não cometeria tal estupidez, mesmo tendo que ir contra minha Senhora. – comenta Rizzen, sem deixar o sorriso se desfazer.

            Alak continua olhando para o assassino enquanto esse volta a observar o lado de fora do túnel como se refletisse sobre algo.

            – Vocês não sabem mesmo o porquê estão aqui, não é? – pergunta de repente o Xorlarrin voltando a olhar para ele – Digo, vocês não leram a carta.

            O eremita balança a cabeça negativamente como se aquilo realmente não importasse.

            – O contrato de vocês foi mesmo para proteger minha Senhora? – pergunta Rizzen.

            Alak percebe que a cada pergunta o guerreiro está analisando suas atitudes e feições, além de seu tom de voz e respiração. Tendo isso em mente Alak prefere não mentir e sim responder de forma breve e sem detalhes:

            – Sim.

            – Desejo boa sorte a vocês. – diz o Xorlarrin, com ironia em sua voz.

            – Gostaria de saber qual o objetivo real de vocês nessa missão, se possível. – questiona Alak, que escuta apenas uma breve resposta de Rizzen.

            – Você saberá. Logo logo não terá como esconder.

            O guerreiro sorri novamente e prepara-se para se virar em direção a caverna quando é surpreendido, – assim como Alak -, com a lâmina de uma adaga em seu pescoço.

            – O que fazem aqui? – pergunta uma voz grossa e quase sussurrante de trás do Xorlarrin, que fica paralisado pensando em uma forma de sair daquela situação.

            Alak consegue observar levemente o ser que se encontra empunhando a adaga na garganta do assassino: um goblin com a orelha um pouco mais comprida e pontuda, com rosto de traços mais finos, aparentemente o mesmo que estava com a clériga de Lolth. “Um dos hereges”, pensa ele.

            – Pe’gunta’ei de novo: O que fazem aqui? – nesse momento Alak percebe que o goblin não está falando com Rizzen e sim com ele.

            Sabendo que o goblin faz parte do culto a Lolth e que esse mesmo grupo possui também inimigos entre os orcs, Alak resolve ser mais diplomático. Não que a vida de Rizzen importe alguma coisa a ele, afinal seu contrato diz que ele deve proteger a clériga, não os Xorlarrin. Portanto se algo ocorrer com o guerreiro não o afetará em nada, mas ainda assim, talvez ter o grupo de hereges como possíveis futuros aliados seja mais interessante dado as recentes informações passadas pelo assassino durante a conversa.

            – Estamos fazendo uma investigação. – responde o eremita, ignorando o olhar reprovador do Xorlarrin.

            – Vi que nos espionou algum tempo at’ás. Po’ acaso não esta’iam at’ás de nós, não é? – pergunta o goblin, como que por inocência.

            Alak ergue uma de suas sobrancelhas, desconfiando da pseudo-ingenuidade do goblin. “Se ele foi um escravo drow, não há porquê acreditar que um drow responderia suas perguntas com sinceridade”, pensa o eremita, olhando profundamente nos olhos do goblin. Por um momento uma sensação estranha tomou conta de Alak. Havia algo não muito certo nos olhos daquele goblin, mas ele preferiu ignorar a sensação e analisar o olhar. Um olhar sagaz, astuto e inteligente. “Com certeza ele não está esperando uma resposta verídica”, conclui o eremita.

            – A princípio sim, mas coisas mais interessantes chamaram nossa atenção. – responde Alak com sinceridade, afinal não seria interessante para ele demonstrar que blefe não é seu forte.

            Rizzen parece estar mais preocupado em se preparar para sair daquela situação, por isso passa a ignorar a conversa que Alak está tendo com seu “inimigo”.

            – Ótimo. – comenta o goblin, secamente – Qual o seu nome d’ow?

            – Alak, e o seu?

            – Stongest. Nos encontraremos mais tarde. – diz o goblin largando o Xorlarrin e sumindo aos olhos do eremita.

            Rizzen não perde tempo e saca sua espada curta virando-se rápida, porém inutilmente, para atingir seu “captor”.

            – Ele já foi. – diz Alak, percebendo o ódio crescer no Xorlarrin que vira-se para ele.

            – “Amigo” seu? – pergunta Rizzen em voz relativamente alta mirando um olhar inquisidor ao eremita.

            Alak sorri e escuta Brum se mexendo e falando com voz sonolenta:

            – Tá tudo bem, Alak? – Rizzen fica um pouco apreensivo por ver que o ogro mago está acordando.

            – Está sim, Brum. Volte a dormir. – responde Alak, ainda sorrindo, para o guerreiro Xorlarrin.

            – Eu não durmo… eu entro em um estado meditativo… como os elfos. – responde Brum com voz sonolenta e começando a roncar logo em seguida.

            Rizzen guarda sua espada curta e volta a olhar para Alak.

            – Respondendo sua pergunta: isso não é da sua conta. – responde Alak, voltando a se posicionar para entrar em Reviere – Agora deixe-me descansar.

            Rizzen o encara por mais um tempo, mas logo deixa nascer novamente seu sorriso sarcástico no rosto e vira-se para a boca do túnel. Alak fecha os olhos e se prepara para entrar em Reviere. “Stongest”, repete em sua mente, “Talvez seu grupo nos ajude a sobreviver ao que nos aguarda. A emboscada Xorlarrin”.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 11 (parte 2)

            – Não podemos atacá-los de qualquer forma. Não sabemos o que está dormindo no fundo do lago e se tal criatura é capaz de perceber o que ocorre aqui na superfície. Se fizermos muito barulho, causarmos muita vibração, temo que a criatura irá acordar. – adverte o mago Sol’al Teken’Th’Tlar aos outros membros do grupo, mantendo a conversa em baixo-drow – E seja lá o que for, acho que não seria muito interessante acordá-lo nesse momento.

            O angulo de visão da boca do túnel de onde chegaram não permitiu que eles vissem o que estava no lago, mas logo que desceram ao chão da imensa caverna oval e se aproximaram, Sol’al e Rizzen comentaram à clériga a respeito de uma imensa sombra de alguma criatura que parecia estar “dormindo” no fundo do lago. Pelo tamanho da sombra e a profundidade aparente, a criatura pareceu aos dois observadores, algo colossal que realmente não seria muito inteligente respeitarem.

            – Sim, mago. Acredito que meu guerreiro não propôs atacarmos de qualquer forma. – comenta a clériga, de forma ácida.

            – Não quis dizer isso, Senhora. Estava me referindo mais a como o ogro iria… – o mago tenta se explicar, mas a clériga o silencia com um aceno de mão.

            – Acho que Rizzen deu boas idéias. São sete orcs, não vejo como não darmos conta disso. – comenta Alak, olhando para a clériga, mas contente por saber que o Xorlarrin contorceu o nariz ao escutar seu nome sendo dito por ele.

            – Não pedi sua opinião, mercenário. Faremos exatamente isso. Eu cuidarei do que está mais ao alto, enquanto você e Rizzen cuidam dos mais próximos. Rizzen invoca suas trevas em algum que não for ser atacado para atrapalhá-lo. O inferior acabará com o do canto direito na altura mediana, enquanto o mago se esconde atrás dele e conjura algo útil para nos ajudar. – ordena a clériga Xorlarrin finalizando sarcasticamente.

            Sol’al a olha contrariado por um breve momento. “Chega”, setencia mentalmente o mago, “Já está na hora de mostrar do que sou capaz”. Enquanto busca em sua mente as magias que serão úteis e trarão mais respeito a sua pessoa, o mago escuta Alak passar as instruções dadas pela Xorlarrin em Subterrâneo Comum. “Não acredito que estou sendo mais destratado que esses dois ignorantes”, pragueja mentalmente o mago, já sabendo como agirá quando a ordem for dada.

            O mago Teken’Th’Tlar observa com o canto dos olhos a boca do túnel que irá atacar. Ele sabe que há grande chance da clériga se irritar por ele não cumprir as ordens como foram ditas, mas ela verá que ele não é um simples estudioso. Os orcs estão preparados com bestas e algum tipo de balestra pequena. Nenhum do grupo de Sol’al está demonstrando que eles os viram, todos estão fingindo estar procurando pistas e observando o que há no fundo do lago. Um dos orcs aproveita a suposta distração e dispara uma flecha no maior e mais volumoso do grupo: Brum.

            A flecha da besta corta o ar e atinge o peito de Brum, porém a potência não foi suficiente para ultrapassar a grossa couraça que é a pele do ogro mago. Quando a flecha cai ao chão, a Xorlarrin escuta e dá a ordem que todos estavam esperando. Rizzen invoca uma cortina de trevas onde era esperado que ele o fizesse. Alak atira seu punhal na direção de seu alvo e o atinge em cheio na testa, mas logo vê que há outro orc dentro do mesmo túnel para substituir o falecido e atirar com a besta. Sol’al conjura sua primeira magia que irá cobrir um dos túneis com uma área de silêncio. No mesmo momento, Brum, vira-se em direção ao seu alvo e arremessa uma de suas clavas sem segurar a corrente. A maciça clava atinge em cheio o orc com a mini-balestra, que é nocauteado e tem sua arma despedaçada.

            Sol’al sorri quando percebe que sua magia funcionou. Enquanto Alak se aproxima um pouco mais do túnel que está atacando – para que a visibilidade de seu alvo se torne maior -, o mago se prepara para conjurar sua principal magia. Ele retira uma bola de guano de sua piwafwi que é utilizada como manto, ao mesmo tempo em que a clériga termina de armar a sua própria besta e atirar em direção ao alvo de Rizzen, para que esse consiga se aproximar mais da boca do túnel. Conjurando as palavras arcanas necessárias, Sol’al apenas mira um dedo em direção ao túnel largando ao ar o guano e o salitre. Esses se fundem e formam uma pequena esfera incandescente, semelhante a uma pequena pedra, que prossegue na trajetória visando o túnel mirado pelo conjurador. Ao atingir seu alvo a esfera explode sem emitir nenhum som, mas espalhando fogo por toda boca do túnel. Não apenas o orc atirador morreu com certeza, como qualquer acompanhante também estará morto; ao menos, assim acredita Sol’al.

            Orgulhoso de seu feito, Sol’al procura um novo alvo para mais uma magia e vê Alak atacando o orc que restou no túnel que lhe foi designado. O mago se vira para ver como estão os orcs pelos quais Rizzen está responsável e logo percebe que a clériga e o assassino deram conta de seus adversários. Brum já está próximo da boca do túnel onde sua clava se encontra. O que acabou restando foi o túnel coberto por trevas.

            Sol’al vira-se em direção ao alto túnel, enquanto Alak percebe que há mais atiradores em uma outra boca de caverna. Enquanto o mago prepara mais uma magia ofensiva para disparar em direção ao túnel encoberto pela densa escuridão, o eremita prepara-se para tentar algum ataque aos orcs “recém-chegados”, mas logo para e disfarça sua intenção ao perceber que dois dos cultistas que ele viu lutando contra os orcs na caverna de entrada, estavam lá para dar conta dos orcs.

            O mago Teken’Th’Tlar pronuncia algumas palavras arcanas e dispara um feixe de eletricidade de três de seus dedos que estão apontados em direção a boca do túnel. Dois gritos são ouvidos abafados pelo som da cachoeira, provavelmente os orcs foram nocauteados. “Pelo que parece, esses atiradores não são tão resistentes”, comenta consigo o mago. Em sua mente uma conspiração surge, “De certa forma eles sabem que estamos aqui, provavelmente não estão dificultando as coisas de propósito”. Ele continua observando o túnel no qual conjurou o raio elétrico e percebe que nenhum som ou disparo surge deles. “Ou eles são muito fracos”.

            – Havia mais, Senhora. Pelo que parece, fomos “auxiliados” pelos cultistas. – Sol’al escuta Alak comentar com a clériga Xorlarrin.

            – Onde eles estão? – pergunta a clériga, procurando-os nas bocas dos túneis.

            – Acho melhor não demonstrarmos que estamos atrás deles, Senhora. Eles não precisam saber que temos conhecimento de suas presenças. – diz o eremita.

            – Eles não têm como saber que estou procurando por eles. – retruca a clériga.

            – Não há mais orcs. É perceptível que já sabemos disso, Senhora. – diz Rizzen entrando na conversa – Acho melhor realmente escolhermos algum dos túneis para investigar e procurar por onde ir.

            A Xorlarrin torce o nariz por seu guerreiro ter apoiado o mercenário, mas nada responde, apenas acena positivamente com a cabeça. Aproveitando a deixa, Sol’al sussurra algumas palavras arcanas para ampliar seu sentido mágico.

            – Vou procurar rastros no túnel que ataquei. – diz Alak, já se virando e partindo na direção onde jazem seus punhais.

            Rizzen simplesmente parte em direção a um dos túneis mais próximos, onde Brum atacou. Brum passa por ele carregando as duas clavas e se aproxima do resto do grupo. Sol’al, após conjurar sua magia, volta-se em direção do túnel onde ele soltou a bola de fogo silenciosa. “A energia mágica está muito forte naquela direção”, constata o mago, “Pela intensidade e vibração, deve haver algum Nodo de Terra para aqueles lados”.

            – Senhora? – o mago se aproxima da clériga, que continua com a cara amarrada.

            – Fala, macho. – responde a Xorlarrin, aborrecida.

            – Sinto uma forte energia mágica naquela direção. – diz o mago, apontando genericamente para a direção da vibração que ele está sentindo.

            A Xorlarrin levanta uma sobrancelha e volta seu olhar para o rosto do mago; como se refletisse a respeito do que ele acabara de falar. Após alguns segundos observando-o, ela vira seu rosto em direção ao local apontado e analisa as entradas dos túneis. Percebendo que Rizzen está olhando em sua direção, a clériga comunica-se rapidamente em sinal drow com seu guerreiro. O diálogo foi tão rápido e discreto que Sol’al conseguiu entender apenas algumas palavras: “invocar”, “pai”, e também percebeu que havia algo na maneira como os gestos foram feitos que lhe lembrou uma pergunta. “Eles estão supondo o que estão para encontrar. Provavelmente…”.

            – Vamos procurar uma caverna segura para descansarmos. – diz a clériga ao guerreiro Xorlarrin, sem comentar sobre a descoberta do mago.

            – Sim, minha Senhora. – responde o guerreiro, se curvando brevemente e voltando-se para Alak e Brum – Procurem um local seguro para descansarmos. Rápido.

            Ambos os mercenários nada dizem, apenas partem em busca de algum túnel que se encaixe nas expectativas. Sol’al observa a clériga por um tempo, e não sabe se retoma o assunto ou se deixa para conversar com ela após o descanso.

            – Vi o que você fez. Interessante saber que está escondendo bastante suas capacidades. – ela interrompe a indecisão com uma frase que o mago, particularmente, não sabe se toma como uma censura ou como um elogio.

            – Todos temos nossos segredos, não é, Senhora? – responde ele, tentando manter um ar misterioso repetindo a frase que já falara em outra ocasião, tentando não desagradar a clériga.

            – Sim, concordo. – responde ela, sem pestanejar – Talvez você seja mais útil do que imaginei.

            Sol’al sorri por ter conseguido o que queria, mas uma coceira em sua nuca lhe deixa confuso sobre a situação e se aquilo foi realmente algo para se contentar.

Outcasts – Livro 1: Párias – Capítulo 10 (Parte 3)

            Alak foi o primeiro a passar pelas armadilhas. Para sua sorte, apenas uma armadilha física – dardos disparados da parede – fora ativado e mesmo assim ele conseguiu se esquivar de grande parte dos projéteis. O mercenário já está um pouco ferido pela péssima luta contra os orcs, se tivesse bobeado ainda mais, poderia estar em um estado um tanto deplorável fisicamente.

            Enquanto espera os outros ele apenas se esconde e observa o túnel mais a diante. Foram pelo menos mais oito armadilhas que passou para chegar até lá. Cada armadilha lhe pareceu estar a uma distância de quinze metros uma da outra e dentro desses quinze metros haviam armadilhas físicas que, infelizmente não havia como desativá-las; não com as habilidades que restaram no grupo. “Provavelmente a ladina mirim teria sido útil”, comenta consigo mesmo Alak, tocando um dos ferimentos causados pelos dardos. “Preciso limpá-lo e fechá-lo”, pensa o eremita sacando sua caixa de primeiros socorros novamente.

            Toda e qualquer dor causada durante a auto-costura é ignorada. Nem um som é emitido por sua garganta. Ao terminar ele guarda sua pequena caixa e observa o imenso túnel que ainda existe em sua frente. Porém, em todas as paredes ao seu redor, não há mais nada escrito, nenhum símbolo rúnico, nem nada parecido. “Pelo que parece os orcs e os humanos não esperavam que ninguém chegasse até aqui”, comenta Alak enquanto observa bem de perto as paredes e o chão.

            Em sua busca por qualquer possível tipo de armadilha, Alak abre um grande sorriso: “Rastros”, conclui o eremita agradecendo silenciosamente seu mentor Azirel por ter lhe ensinado tudo que lhe ensinou. Vendo que os rastros eram do pequeno contigente que viera para consertar as armadilhas, Alak conclui que não será tão difícil encontrar o acampamento deles. Ao que parece, esse é o objetivo dos Xorlarrin.

            Contente por não ter encontrado nada que pudesse atrapalhar, Alak se mantém a vinte metros distante da última armadilha, para o caso de algum dos seus companheiros fazerem alguma burrada. Ele escuta alguns disparos de armadilhas, grito e aos poucos o barulho da armadura da clériga. Ele espera mais um tempo considerável até que escuta, surpreso, o barulho metálico da clériga mais próximo e olha para o lado do túnel de onde veio. “O próximo não era para ser o mago?”, se pergunta Alak.

            A Xorlarrin chega toda elegante, sem nenhuma marca de ferimento e com um sorriso deboachado para o mercenário. Alak sorri para a clériga também enquanto essa se apoia na parede e espera o próximo a chegar. Sem demora alguma o mago Sol’al surge com uma feição tola em seu rosto e se aproximando da clériga.

            – Que fique bem claro que minha varinha de cura não durará para sempre. – diz a clériga sorrindo – Tente ser mais cuidadoso da próxima vez, mago.

            – Sim, minha Senhora. – responde humildemente o Teken’Th’Tlar tentando evitar olhar para Alak.

            O eremita sorri, imaginando o que ocorreu. O silêncio toma conta do lugar por um tempo. Sol’al começa a observar o novo trecho do túnel em busca de mais armadilhas, enquanto isso, Alak fixa seu olhar para o lado do túnel de onde vieram os orcs. A clériga, como sempre, fica parada olhando para o que os dois estão fazendo.

            – Não perca seu tempo, mago. Já procurei por marcas, armadilhas e tudo mais. – comenta Alak sem deviar seu olhar do túnel.

            – E você por acaso conhece símbolos arcanos e linguagem abissal, mercenário? – pergunta o mago com desdém.

            – Não, mas sei quando tem algo escrito em uma parede. – responde Alak com sorriso no rosto enquanto continua observando o túnel.

            Sol’al fica em silêncio e prossegue por mais um tempo em sua busca por runas, sinais e palavras escritas nas paredes. Quando o guerreiro Xorlarrin chega, o mago interrompe sua busca e Alak volta-se em direção ao recém-chegado. Apenas um pequeno ferimento no braço do guerreiro demonstra que mais uma armadilha física fora acionada.

            – Agora só falta o ogro. – comenta o Xorlarrin.

            – Acho que seria mais saudável para nós nos afastarmos ainda mais da última armadilha. – comenta Sol’al.

            A clériga concorda com um aceno de cabeça e caminha para mais longe de onde vieram, enquanto todos os outros fazem o mesmo.

            Aos poucos os sons das explosões tomam conta do túnel. Se os orcs acreditavam que ninguém passaria com vida pelas armadilhas, agora teriam certeza. O som era tão forte e ecoante que todos tiveram que tampar seus ouvidos para que não tivessem seus tímpanos feridos. Por fim uma onda de calor chega até eles, “Parece que Brum conseguiu chegar até a última armadilha”, comenta mentalmente Alak aliviado, porém apreensivo para ver seu companheiro.

            – Acho que… Preciso dormir… mais um pouco. – todos escutam a voz de Brum chegando próximo ao trecho do túnel onde eles se encontram. O ogro mago está com grandes ferimentos. Queimaduras fortes, e vários cortes causados por armadilhas físicas que foram acionadas e conseguiram ferir a pele grossa do grande mercenário.

            – Brum? – Alak vai de encontro ao seu companheiro.

            – Esquenta não, Alak. Você sabe como é. – diz ele sorrindo – Eu vou sobreviver e me curar rapidinho, só preciso descansar um pouco.

            – Mercenário! – grita a clériga em baixo-drow para chamar a atenção de Alak – Deixe o inferior ai, depois ele nos alcança.

            – Não no momento, Senhora. Vou estancar os ferimentos dele antes. – reponde o eremita também em baixo-drow.

            – Ela disse a palavra, não é Alak? – pergunta Brum falando baixo pelo cansaço.

            Alak tira sua caixa de primeiro socorros antes de responder a pergunta do ogro. Ele pondera qual será a melhor resposta a ser dada.

            – Disse sim, Brum. Mas vamos esperar terminar essa missão, ok? – responde Alak com um sorriso enquanto começa a costurar com dificuldade algumas das feridas mais abertas de Brum.

            O ogro dá uma risada contida enquanto Alak trata de seus ferimentos. Aquilo não está preocupando nem Brum nem Alak realmente. Eles sabem que é da natureza da raça de Brum regenerar-se com facilidade, além de que o treino que Brum recebeu para se tornar um Renunciante, permite que esse consiga se curar com uma facilidade ainda maior.

            – Mercenário! – grita a Xorlarrin chamando-o novamente.

            – Estou indo, Senhora. – responde Alak terminando o último ponto na perna do companheiro – Espero por você mais a frente, Brum.

            – Pode deixar, Alak. Estarei lá bem antes do que essa vaca espera. – responde Brum sorrindo e balançando a mão quando percebe a expressão de interrogação no rosto de Alak, quando ele disse: “vaca” – Esquece… E valeu por gastar comigo essas linhas exóticas que você usa.

            – Não esquenta. – responde Alak dando um tapa no ombro de Brum e saindo para encontrar-se com o resto do grupo, deixando apenas o imenso ogro para trás.

            – Você se preocupa demais com aquele inferior, mercenário. – comenta a clériga com desaprovação em sua voz.

            – Ele ainda é o mais útil desse grupo, Senhora. – responde ríspidamente enquanto a clériga o encara com dúvida se ele a incluiu ou não.

            O grupo fica em silêncio enquanto eles caminham pelo túnel sem grandes problemas, afinal não há outro caminho para seguirem. Muito tempo se passa apenas com caminhadas, Sol’al começa a se sentir fatigado, mas logo conjura uma pequena magia para acabar com a fadiga física e prosseguir sem empecilhos. O guerreiro Xorlarrin toma um pouco de água do seu cantil e a clériga se esforça ao máximo para não demonstrar cansaço. Alak, por estar mais acostumado com esse tipo de trilha, não tem grandes problemas no caminho.

            Aos poucos eles começam a escutar o som de uma queda d’água mais a frente.

            – Há outros túneis por perto. – setencia o eremita ao começar a escutar o som.

            – Como você sabe? – questiona a clériga.

            – Pois não vejo nenhum rio por aqui. E se tem uma queda d’água, conseqüentemente deve haver alguma fonte. – responde Alak como se dissesse algo óbvio.

            A clériga fica em silêncio, é perceptível que ficar conversando enquanto caminham, a deixa ainda mais cansada.

            – Senhora, gostaria que lhe recobrasse as forças através de alguma magia? – se oferece Sol’al.

            Ela o encara como se estivesse dizendo algo sem nexo.

            – Não estou cansada. – responde ela convicta com o som da queda d’água cada vez mais forte.

            – Não estou dizendo isso, minha Senhora. – responde Sol’al não querendo bater de frente com o orgulho de uma clériga de Lolth.

            – Acho que chegamos ao fim. – comenta o guerreiro Xorlarrin, enquanto Alak apenas observa aquela que parece ter sido a entrada pela qual os orcs e humanos passaram.

            Sol’al e a Xorlarrin observam com um certo espando a imensa entrada, ou saida. O som da queda d’água está extremamente forte. Alak analisa todos os pontos daquela enorme caverna aonde a passagem dá de encontro. Olhando para baixo, a uns trinta metros da boca onde se encontra, há o chão que serve como uma grande margem para o bizarro lago o qual a queda d’água tem como destino. Alak resolve terminar sua observação antes de tentar compreender como o lago não transborda ou para onde a água prossegue em seu curso. “Talvez haja alguma passagem em seu fundo”, pensa consigo mesmo tentando deixar a idéia de lado.

            Ele observa todas as paredes da caverna, é como se fosse uma imensa cúpula oval, cheia de entradas para outros possíveis túneis. Essas entradas estão dispostas de forma caótica em níveis de alturas diferentes. Segundo uma contagem rápida feita pelo eremita, deve haver aproximadamente vinte entradas. “Que bosta. Isso apenas vai me dar mais trabalho”, pensa Alak enquanto termina de observar a imensa área daquele “ovo” subterrâneo.

            – Terminou de analisar como deceremos, mercenário? – pergunta a clériga.

            – Precisaremos escalar. – responde o eremita.

            – Talvez vocês, pois eu e o meu guerreiro somos de uma das Casas Nobres de Menzoberranzan. – comenta a clériga rindo com satisfação como se tivesse acabado de humilhar um goblin qualquer.

            Alak ignora e começa a tirar sua corda feita com teia de aranha gigante de sua sacola, enquanto escuta os passos de Brum se aproximando. Sem olhar para o que Alak estava tirando de sua trouxa, a clériga comenta:

            – Espero que sua corda aguente seu amigo. – ela ri mais uma vez e ordena – Rizzen, pegue o mago.

            “Rizzen? Rizzen Xorlarrin? Pronto, já sabemos o nome de um deles”, comenta consigo mesmo Alak enquanto observa a feição de desgosto no rosto do guerreiro e a feição de surpresa no rosto do mago, que deve ter pensado a mesma coisa.

            A clériga ativa a insígnia de sua Casa e desce suavemente até o solo, enquanto Rizzen a segue do mesmo modo, mas com o mago em seus braços. Alak ri com a cena do guerreiro segurando o mago e vira-se na direção de onde Brum vem.

            – Brum? Teremos que descer pela corda. – comenta Alak antes do ogro ver para onde eles teriam que descer.

            – Putz! Corda? – reclama contrariado – Eu poderia simplesmente pular para ver se caio em cima da clériga?

            Alak gargalha enquanto Brum o olha atravessado.

            – Hey, eu não estou brincando. – diz o ogro em tom contrariado.

            O eremita ignora o companheiro e prapara a corda para a grande descida. Brum apenas observa os três que chegaram ao chão.

            – Descerei primeiro, Brum. Você só começa a descer quando eu já estiver lá embaixo, ok? – instrui Alak – Qualquer atitude estranha por parte de nossos “amigos”, ataque-os.

            – Será um prazer. – responde Brum com um grande sorriso no rosto enquanto Alak inicia sua descida, contente por ver que o ogro já havia melhorado bastante de seus ferimentos.

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